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terça-feira, 16 de março de 2010

DECLÍNIO DAS IGREJAS

O movimento de “crescimento da igreja” nasceu nos EUA e se propagou mundo afora. Passados alguns anos de euforia, avaliações recentes tem mostrado que “apesar dos milhões de dólares em mídias, milhões de participantes, milhares de preletores, milhares de clínicas, simpósios, conferências, congressos e centenas de métodos e estratégias de marketing, as receitas para crescimento de igreja prescritas pelos norte-americanos não estão funcionando para eles mesmos”. Só as Assembléias de Deus nos EUA cresceram. Todas as demais igrejas históricas perderam membros, segundo relata o Anuário das Igrejas Americanas e Canadenses de 2010. Segundo a publicação, a Convenção Batista do Sul, segunda maior denominação dos EUA e por muitos anos uma das responsáveis pelo crescimento dos evangélicos, relatou um declínio no número de membros pelo segundo ano consecutivo, com menos 0,24%. O Anuário também relata declínio contínuo na membresia de praticamente todas as denominações. A Igreja Católica sofreu perda de 1,49%. A situação pode ser ainda pior, pois onze das 25 maiores igrejas não atualizaram seus relatórios. Entre elas: a Igreja de Deus em Cristo, a Convenção Batista Nacional e a Convenção Batista Nacional da América, respectivamente a 5ª, 6ª e 8ª maiores denominações nos EUA. Ainda mais crítica seria a situação se a maioria dos imigrantes não fosse oriundos de países com fortes tradições religiosas e que tem dado mais consistência a estes números. Mesmo as Assembléias de Deus cresceram tímidos 1,27%, de acordo com valores apresentados no Anuário. As igrejas com maiores percentuais de declínio são: a Igreja Presbiteriana dos EUA, com -3,28%; as Igrejas Batistas Americanas nos EUA, -2,00%, e a Igreja Evangélica Luterana na América, -1,92%. Os números relatados no anuário 2010 foram coletados pelas igrejas em 2008 e enviados ao Anuário em 2009. Segundo Julia Duin, editora de religião do The Washington Times, o percentual da população americana que é membro de alguma igreja – incluindo mórmons e testemunhas e Jeová, alcança hoje 49%, totalizando 147,3 milhões, pouco menos de metade da população americana". No Canadá, o quadro é ainda mais dramático. Mantido o percentual de declínio, que hoje totaliza 13.000 membros/ano apenas na Igreja Anglicana, em 2061 só haverá um só anglicano no país. (As informações acima foram retiradas da Revista Soma em artigo escrito por Philippe Leandro). Minha experiência em contato com vários líderes de denominações históricas me mostra que a situação no Brasil não é diferente. Ainda que não tenhamos números precisos o bastante para nos dar uma visão mais clara, há a constatação generalizada de declínio também nos vários ramos presbiterianos, metodistas e luteranos. Talvez os Batistas não enfrentem a coisa mais agudamente, mas creio que é questão de tempo. O que tem levado a isto? Uma pergunta que tentarei refletir e responder na próxima coluna. Marcos Inhauser

segunda-feira, 15 de março de 2010

CORPO ESQUARTEJADO

Não foram poucas as vezes em que, tendo buscado atenção médica para um problema de saúde, me senti esquartejado. Cada médico cuidava de uma parte de mim e não via ninguém me vendo como um todo. O advento das especialidades médicas teve o condão de dar a cada especialista mais conhecimento sobre uma porção cada vez menor do corpo humano. De uma experiência de internação, cirurgia, infecção hospitalar e convalescência prolongada, fiquei com outra sensação de mal-estar: eu era paciente, não um ser humano completo. Era o paciente da gastro, não o ser humano inteiro. Revisei uma tese doutoral no ano passado onde a autora traz esta inquietação à tona e o faz a partir da sua prática no campo da fisioterapia. Recusando a prática de tratar o paciente como uma pessoa lesionada em uma das partes de seu corpo, percebeu que este mesmo ser humano que ali estava tinha uma vida, relações familiares e sociais, sentimentos, auto-estima, sonhos, frustrações, medos, ansiedade e que este conjunto de variáveis interfere de maneira consciente e inconsciente no tratamento e na recuperação. Na busca de uma abordagem holística, ela percebeu que quanto mais cuidava do ser integral e não somente da parte lesionada, melhores e mais rápidos eram os resultados. Esta sua experiência relatada de forma clara, objetiva, desafiadora, fazendo-o no campo conceitual traz o relato de suas experiências na clínica. Ao sua tese notei o quanto a medicina e ciência correlatas deixaram de lado o humano para tratar do paciente. Esta é a reclamação mais constante do atendimento na rede pública de saúde. Não há quem, tendo mais idade, não sinta saudades do médico de família, aquele que atendia a todos e a tudo, mas que ao entrar no seu consultório, nos conhecia pelo nome e se lembrava das coisas que tivemos e, como que tivesse uma bola de cristal, já sabia por que ali estávamos. Tive a felicidade de ter alguns destes médicos para me atender e a meus filhos e esposa. Dois pediatras, que mais que médico eram amigos, são até hoje procurados pelos meus filhos quando se defrontam com algum problema com seus filhos. Mesmo a filha que mora na China, vira e mexe liga para o Tio Moimando (que é como eles o chamavam como crianças). Já falei aqui do dr. Luís Belintani que atendeu minha filha e possibilitou que ela nos desse a benção de um neto e uma neta e que salvou a outra de complicações seríssimas. Em outra oportunidade falei aqui do Dr. Brasilino (se não erro o nome) que se interessou por um problema de minha filha e fez dela um estudo de caso. Mas ainda tenho o Dr. João Carlos (cardio), o Lysias (Uro) e o Edson (gastro e cirurgia), o Danilo (psiquiatra). Mais que médicos, são amigos. A eles minha gratidão. Marcos Inhauser

terça-feira, 2 de março de 2010

SILÊNCIO CRIMINOSO

A antiga literatura semítica de cunho sapiencial valoriza o silêncio como expressão da sabedoria. Há um verso bíblico diz que “o falar é prata, mas o calar-se é ouro”. Tiago, mais tarde, diz que “quem refreia a sua língua sábio é”. Na história da devoção e da espiritualidade há uma forte ênfase no silêncio e na contemplação. Os mosteiros e conventos se prezavam pela preservação desta atmosfera silenciosa, porque o barulho e as palavras podem distrair. Também, e por diversas vezes, critiquei nosso guia mor pela sua verborragia, afirmando que ele fala demais, e quem fala demais dá bom dia a cavalo. Citar as vezes em que o mesmo fez isto já foi objeto de livros escritos com as pérolas da incontinência verbal do sindicalista mor. Ele seria muito mais sábio e sóbrio se refreasse a língua. Ocorre que, a mesma literatura semítica introduz um aspecto no qual o silêncio não deve prevalecer. Em um texto sacerdotal, se afirma que “quando alguma pessoa pecar, ouvindo uma voz de blasfêmia, de que for testemunha, seja porque viu, ou porque soube, se o não denunciar, então levará a sua iniqüidade.” (Lev 5:1). Segundo este preceito, calar-se diante do pecado, da injustiça, da blasfêmia é ser conivente e copartícipe do pecado. Pois isto ocorreu neste dias com o nosso guru. É de sobejo sabido que este governo tem suas afinidades ideológicas e afetivas com o regime da ilha de Fidel Castro. Lá há dissidentes políticos que são prisioneiros e o são porque nenhuma ditadura aceita a crítica, a oposição consciente e consistente. Liberdade de expressão não é o forte do regime castrista. Um desses prisioneiros fez greve de fome por oitenta dias e morreu no dia em que nosso guia estava chegando à ilha. Houve uma condenação geral por parte de governos e estados. O nosso, bem ao estilo lulista, tergiversou e acabou por condenar a greve de fome como instrumento de pressão política. Que o prisioneiro tenha morrido não é de estranhar. A violência contra a dissidência na ilha é forte e constante, haja visto o que fizeram com a bloqueira Yoani Sanchez e seu esposo. Mas que o presidente tenha se calado diante desta brutalidade foi tão absurdo quanto a desculpa dada por Raúl Castro de que os Estados Unidos eram os responsáveis por esta tragédia. O guru fala quando não deve falar, fala o que não deve falar, mas quando deve falar, fica calado. Este silêncio é criminoso. Marcos Inhauser

sábado, 27 de fevereiro de 2010

PARCERIA BENÉFICA

Graças à obstinação da presidente, Cláudia Filatro, da colaboração voluntária do Gustavo Martins e da Ana Paula Gomes, e certamente de outros mais, a ONG Pró-Crianças e Jovens Diabéticos, de Campinas, foi selecionada pela Oi Futuro para a parceria de patrocínio do Projeto ZELOUS. Será assim desenvolvido software de domínio público a ser distribuído livremente, visando atender as necessidades específicas do tratamento preventivo do diabetes tipo 1, em crianças e adolescentes de baixa renda. Estará pautado nos conceitos da promoção do tratamento preventivo, da vigilância da saúde no domicilio, da visão integral do paciente e família, acompanhamento domiciliar automatizado e interligado por parte da ONG JD ou equipes de saúde do SUS. O sistema prevê a utilização do celular como ferramenta de apoio para promoção do tratamento preventivo do diabetes tipo 1 em nível domiciliar, onde o Paciente e/ou Cuidador, receberá mensagens via SMS dos cuidados diários a serem observados. O sistema permite ainda que o Cuidador ou Paciente envie as taxas glicêmicas para a central que, em tempo real, monitorará o estado de saúde dos pacientes, disparando sistema de alertas pré-programados para o profissional de saúde responsável, possibilitando o gerenciamento remoto e o tratamento preventivo nas crises agudas. Os impactos no sistema de saúde serão grandes, já que o ZELOUS permitirá o monitoramento dos pacientes por meio do exame de hemoglobina glicada, que estará atrelado ao CRM do médico que acompanha o paciente. Assim se poderá avaliar todo o processo que o portador da diabetes tipo 1 passa. O software possibilitará o telemonitoramento, sugerindo os horários corretos de ingestão de alimentos e medicamentos; a inserção das taxas glicêmicas pelo paciente via SMS; o gerenciamento das crises agudas via SMS; a junção no prontuário eletrônico dos dados médicos, socioeconômicos e psicossociais do paciente e seu núcleo familiar; o acompanhamento domiciliar automatizado e interligado; a flexibilidade para atualizações das condutas médicas; o acesso remoto público aos dados estatísticos. Conterá ainda um módulo de tele-educação, que será um site que qualquer pessoa poderá acessar para assistir a palestras, seminários, cursos e treinamentos online, usando recursos multimídia, como vídeo e audioaulas gravadas, lições interativas, filmes, etc. Essa iniciativa tem como objetivo aumentar a qualidade e diminuir erros potenciais na atenção especializada e cuidados domésticos da criança diabética. Não é necessário esforço para perceber o benéfico que a parceria é e será e o quanto ajudará a familiares e pacientes. Os desafios para a produção deste material são grandes, mas certamente saberá enfrentar dos desafios com a mesma determinação e obstinação que a tem caracterizado até aqui. Marcos Inhauser

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

ACABOU

Para quem não gosta de Carnaval, a chegada da quartafeira de cinzas é algo abençoado. E as razões para isto são muitas. A primeira delas é que acabam as apresentações da mesmice na televisão, com o desfilar de pessoas, muitas bebendo ou bêbadas, ou de fantasias as mais elaboradas até às mais ridículas. O segundo motivo é que o desfile das escolas de samba, para quem não curte a coisa, é a variação da mesmice, com o cantar repetitivo e monótono dos sambas enredo. Confesso que, mesmo tentando colocar atenção aos enredos que cada escola apresenta, parece-me que as coisas são sempre as mesmas, variando os carros alegóricos. O terceiro é que, acabado o Carnaval, parece que o brasileiro se dá conta de que tem que trabalhar para sobreviver. Ouvi certa vez de um latino americano que falava arranhadamente o português de que “no Brasil, do Natal ao Carnaval é puro bacanal”. É impressionante como as empresas, repartições públicas, projetos, execuções são adiadas para “depois do carnaval”. Há uma inanição cultural no verão. É verdade que trabalhar em pleno verão com tantas praias e com o calor que faz e que, especialmente este ano foi às alturas, não é nada prazeroso. O quarto é que, acabado o Carnaval, parece que as pessoas se dão conta de que a vida normal é mais sensata, regrada, disciplinada, com horários e afazeres, deveres e responsabilidades, mais cidadania. O quinto é o desfile de pré e eternos candidatos usando dos festejos para aparecer e fazer média com o público. Neste quesito a candidata da república sindicalista foi campeã. Visitou tudo o que pode, carregou criança no colo, dançou com gari na avenida e posou ao lado da Madona. O outro, Serra, mais discreto é verdade, também fez questão de aparecer em Salvador e Recife, como para fazer média com os nordestinos onde sua penetração como candidato é pífia. O sexto é a licença para o vandalismo que alguns sentem que o Carnaval dá. A julgar pela quantidade de ônibus depredados em Campinas e que não creio seja característica desta terra, há os que soltam o seu lado animalesco depredando o transporte que irão usar nos outros dias do ano. Parece que a racionalidade se perde e a lógica não se aplica ao não perceberem que ao depredar estão trazendo prejuízos a si mesmo e à população como um todo. E para concluir, agora se pode dormir sem o barulho dos trios elétricos que infernizavam a vida da gente. Mesmo morando longe do palco das ações, não podia deixar de ouvir o infernal barulho que tais máquinas de decibéis faziam noite adentro. Tenho meu direito ao sono restabelecido. Marcos Inhauser

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

PROFISSIONAIS DA MISÉRIA

Há alguns anos vi uma matéria sobre uma família de migrantes que veio a São Paulo tentar a sorte. O chefe da família tinha um irmão, o endereço dele, mas não o encontrou porque havia mudado. Sem saber o que fazer, ficou com a família na antiga Rodoviária de São Paulo, recebendo ajudas para sobreviver. O assunto foi para a televisão, o irmão foi localizado e o sujeito continuou na rodoviária. Ele o fez por orientação do irmão que percebeu que ele, na rodoviária, ganhava três vezes mais que qualquer trabalho que viesse a arrumar. Lembro-me desta história toda vez que vejo os profissionais da invasão de terras. Vivem de acampamento em acampamento. Tem cesta básica, escola para os filhos, uma ajuda por fora dos dirigentes, e a comiseração da população. Note que falo dos profissionais da invasão. Há ainda os profissionais do desemprego. Dias destes ouvi a conversa de um jovem dizendo que faltava uma semana para completar um ano de empresa e ia pedir para ser mandado embora. Ele alegava que com o dinheiro que receberia daria para viajar no Carnaval e depois ia entrar no seguro desemprego e depois tinha o PIS. Quando acabasse o dinheiro a que tinha direito, buscaria outro emprego. Recebi dia destes um e-mail com as alegações de uma pessoa que não trabalhava, mas conseguia sobreviver com as Bolsas do governo. Também recebi outro com relação das bolsas mais caras do mundo, e ao final citava o Bolsa Família ao custo de 4 bi. Conversei com um fazendeiro da região norte de Goiás que me afirmou estar enfrentando problemas com mão de obra, pois preferem viver pendurados ao Bolsa Família a trabalhar no pesado. Hoje conversava com uma pessoa que conhece bem as favelas e o que ele me dizia me fazia lembrar de uma assistente social de São Paulo, muito amiga, e que assessorou algumas das primeiras damas do município. Elas me falavam dos profissionais da favela, gente que vive ali porque tem mais apoio do poder público que se morasse em outra parte. Gente que sabe tirar proveito da situação e faz disto uma profissão: a de lamentar a miséria como forma de arrecadar fundos. A miséria pode ser uma profissão. Para desgraça dos verdadeiros miseráveis, que precisam da solidariedade e são roubados pelos profissionais. Marcos Inhauser

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

ACIMA DA LEI

Não é de hoje que tenho visto religiosos folgados. Lembro-me de que, certa feita em um restaurante rodízio em Limeira em companhia de alguns estrangeiros, vi parar uma van com vidros fumê, ar condicionado e descer alguém que veio falar com o dono do restaurante. Em seguida abriu-se a porta lateral e vi que estavam com a televisão ligada e um religioso, em trajes religiosos, entrou para também conversar com o dono. Depois de um tempo eles se foram. Perguntei mais tarde ao dono o que eles queriam e ele me contou que alegavam ser religiosos de uma irmandade que fez voto de pobreza e que queriam comer um rodízio, mas queriam que isto fosse uma oferta da casa. A cada pouco vejo na mídia reclamações de vizinhos de determinadas igrejas, sejam elas “evangélicas ou católicas”, reclamando do barulho que fazem, mesmo depois das dez da noite. Cansei de ouvir pastor dizer que estão querendo impedir o culto ao tentarem silenciar as igrejas. A lei do Psiu em São Paulo caiu por pressão da bancada evangélica. Para estes, as igrejas estão acima da lei. Ontem fomos noticiados que um grupo de dez membros de uma igreja batista estava saindo do Haití com um ônibus cheio de crianças, sem que houvesse qualquer autorização legal para fazê-lo, em ato mais próximo do seqüestro que da solidariedade. Dando a eles o benefício da dúvida, no mínimo foram imprudentes ao tentarem ajudar passando por cima das autoridades e do mínimo de organização que ainda há no país. Se o fizeram de boa fé, é porque acreditavam que a ação era eticamente aceitável e acima de qualquer lei ou procedimento. E, acima de tudo, se era uma igreja através de dez dos seus membros que estava promovendo a ação solidária, quem poderia impedir tal gesto de amor? Conheço a República Dominicana, conheço a fronteira com o Haití e, acima de tudo, conheço o drama dos haitianos ilegais, o que já mereceu comentários em uma de minhas colunas este ano (Sem poder ficar, nem sair). Não imagino que a situação delas seria muito diferente na vizinha república. Por outro lado, por se tratar de uma igreja fundamentalista dos EUA, não me estranharia se houvesse um sentido messiânico nesta empreitada. Estavam resgatando crianças das garras do demônio do vudu, prática amplamente aceita. E para isto, a guerra não era contra carne e sangue, mas contra principados e potestades celestiais. Pena que autoridades de carne e osso foram as que pararam a cruzada missionária, por desobedecerem leis ordinárias de uma nação em frangalhos. Não havia nada espiritual a impedi-los, mas leis que deviam ser observadas. Marcos Inhauser

BALAS BÍBLICAS

Confesso que não acreditei. Reli algumas vezes para engolir a coisa, o que o fiz pela seriedade da fonte e pela riqueza de detalhes: “o armamento dos soldados dos Estados Unidos, especialmente os usados no Afeganistão e Iraque, trazem inscritos versículos bíblicos”. O general David Petraeus, encarregado das operações militares, comentou que “é una preocupação séria para mim e outros comandantes o fato de que o armamento enviado e que as armas doadas para o treinamento do exército iraquiano tragam inscritos trechos bíblicos retirados do Novo Testamento”. Tais passagens são visíveis em locais como as miras telescópicas. Versículos como “Eu sou a luz do mundo, quem me segue não andará em trevas” ou “quem das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo” A empresa Trijicon Inc. foi quem desenvolveu esta prática e ela é usada há mais de trinta anos, sem que ninguém até agora reclamasse. Com ela se dava a mensagem de que, cada vez que um soldado americano utilizava o armamento contra o inimigo, era o próprio Deus quem estava abençoando ou orientando tal tiro. Stephen Bindon, presidente da empresa, se comprometeu em enviar novos rifles e armamentos, e afirmou que esta sua decisão “é prudente e apropriada”. Eu achei que já tinha visto de tudo na vida e que a capacidade de usar da fé para explorar e justificar ações já estivesse esgotada. Confesso, no entanto, que esta me pegou de jeito. Pacifista convicto, que crê que o evangelho é em sua essência a paz com Deus, com o próximo e com a criação, nunca imaginaria que se poderia colocar Bíblia nas balas que seriam endereçadas para matar outros. Considerando a dimensão de guerra entre cristãos e muçulmanos, que a administração Bush deu à gestão, fica ainda mais patética esta prática. O que também me chama a atenção é que por trinta anos a coisa vinha sendo feita e ninguém levantou a questão. Foi feito escondido? Era estratégia militar para dar mais moral à tropa? Fica para mim a mentalidade mágica prevalecente em meios religiosos cristão fundamentalistas de que a benção de Deus é automática se há algo de Bíblia envolvido. Um comércio que tenha uma Bíblia aberta tem mais chances de sucesso. Um carro que tenha uma no portaluvas não sofrerá acidentes. A fé cristã deixa de ser fé para ser magia. Marcos Inhauser

ZILDA ARNS

Fui criado em uma igreja protestante, com forte presença familiar e de corte conservador e puritano. Nela, o ser protestante era um diferencial a ser ostentado com orgulhos das minorias, pois a presença católica era enorme. Na escola, quando havia aula de religião, era o único da classe a sair para não receber instrução católica. Aprendi que ser católico era ser idólatra. Mais tarde, quando fui ao primeiro seminário onde estudei, fundamentalista, outras características foram incorporadas para que eu execrasse a Igreja Católica e os católicos. Depois de uns dez anos no pastorado com esta visão maniqueísta (protestante igual a salvação, católico igual a perdição), tive meus primeiros contatos com o movimento ecumênico e comecei a perceber que os que antes eu demonizava não eram tão ruins quanto eu pensava e cria. Aprendi a admirar e respeitar a muitos sacerdotes e leigos católicos e aprendi muita coisa da vida cristã com eles. Foi nesta caminhada que percebi que mais importante que a afirmação doutrinária correta está a vida cristã de amor, que amar ao próximo e mais e melhor que as melhores afirmações. Aprendi que amar ao próximo não se faz falando ou abraçando, mas doando-se a quem precisa. Nesta caminhada aprendi a respeitar profundamente o trabalho da Dra. Zilda Arns. Nunca a conheci pessoalmente, nunca li algo que tivesse escrito, mas ouvi e vi muita gente que tinha sido alcançado pelas suas bênçãos, como a multimistura. Vi crianças que renasceram porque receberam a atenção e o amor de dedicadas voluntárias da Pastoral da Criança. Quando depois de vários anos fora do país voltei e decidimos trabalhar por um Natal Sem Fome, criamos uma Comissão Ecumênica que levantou algumas dezenas de toneladas em alimento e decidimos doar isto à Pastoral da Criança. Nós os pastores que fazíamos parte e que tomamos esta decisão, fomos duramente criticados: vocês estão pegando doações das igrejas “evangélicas” para fazer o trabalho e a promoção católicos. Nunca tive dúvida daquele ato, porque nunca duvidei da motivação cristã da Zilda Arns e dos que com ela trabalhavam. Ela, mais que qualquer outro cristão que tenha conhecido, soube amar ao próximo “de fato e de verdade”, sendo a benção da salvação para muitos. Ela, mas que ninguém que eu tenha conhecido, soube levar o Cristo Salvador a quem estava morrendo ou em desespero ao ver a desnutrição do filho. Vai-se Zilda, que se eternizou na vida dos que foram abençoados e certamente ressuscitará nas ações de quem a toma por exemplo. Milagre da vida e da ressurreição feitos concretos Marcos Inhauser

GILMAR NOEL MENDES

Quem acompanha o noticiário de final de ano nesta terra brasilis já está acostumado com decisões polêmicas aprovadas na calada da noite da última sessão da Câmara ou Congresso, de medida provisória presidencial polêmica, de trem da alegria ou aumento de salário. Neste ano, o espírito natalino bateu no coração do ministro Gilmar, presidente do STF. Como que se o destino assim tivesse traçado (que o creia os crédulos e ingênuos), coube a ele julgar alguns casos cabeludos, que tem a atenção da mídia e que chegaram às suas mãos. E, no exercício do sagrado dom da misericórdia, o judiciário que ele representa e que por ele assinou, deu habeas corpus ao médico Abdelmassih (tantas vezes negado anteriormente), anulou a sentença do juiz De Sanctis condenando Daniel Dantas no caso da empresa Kroll, paralisou a ação da operação Satiagraha. Neste espírito natalino, a esposa do traficante Juan Carlos Abadía, a Jéssica Paola Morales, também recebeu a permissão para sair da prisão e ficar com a mãe que a visitaria. Não tenho conhecimento técnico e jurídico para questionar o mérito das questões envolvidas em cada um dos casos. O que posso dizer é que, como cidadão, fica para mim a mensagem de que o habeas corpus ganha asas de rapidez quando se trata de quem tem dinheiro e paga bons advogados, que conhecem as filigranas, não só do direito e suas vírgulas, mas dos atalhos cartoriais e dos humores dos magistrados. Para mim, e para boa parcela dos brasileiros, fica a mensagem que o crime compensa, desde que se possa pagar bons advogados e entrar com recursos em momentos apropriados dentro do calendário do judiciário. Por outro lado, devo dizer que não gosto do Gilmar Mendes e do Marco Aurélio. Eles me dão a impressão de que gostam do microfone, do holofote, da mídia, da câmera de televisão. Não perdem a oportunidade para fazer algo que faça com que os holofotes se voltem para eles, chamando para si a atenção da nação por seus pareceres inesperados, suas argumentações em bom jurisdiquês, mas em mal comuniquês, não raro dando mensagem dúbias à nação. E o Gilmar não perdeu a chance de ganhar as páginas dos jornais e os noticiários televisivos. Fez o que ninguém gostaria que se fizesse (a não ser os próprios envolvidos) e depois lá estava ele dando explicações sobre suas decisões, todo garboso e senhor de si, como se todo o judiciário estivesse na sua pessoa. E lembrar que o Dantas disse que tinha medo de juiz de primeira instância, mas que da segunda para cima, as coisas eram mais fáceis. Um ditado me veio agora à mente: “há algo de podre no reino da Dinamarca”. Marcos Inhauser

NÃO LEU E ASSINOU

Parece que o governo do sindicalistamór está se especializando em trapalhadas. Ao longo da história do PT no governo, várias foram as trapalhadas em que se meteram. Mais recentemente vem aos borbotões. Relembro algumas das mais recentes, não em ordem cronológica: a reunião com os presidentes de países amazônicos com o Lula e o Sarkozy; a enrascada com a questão hondurenha; a transformação da Embaixada Brasileira em Tegucigalpa e hotel cinco estrelas para o Zelaya; a delegação à COP15 liderada por uma adepta da motoserra, que se digladiou em público com o Ministro do Meio Ambiente; a declaração pública na presença do Sarkozy de que compraria os jatos Rafale para depois se saber que não havia decisão na licitação, e que a FAB preferia outro jato. Nesta sua capacidade de se enrolar e criar trapalhadas, eis que agora vem o decreto presidencial dos Direitos Humanos que, segundo leitura feita por pessoas isentas e outras nem tanto, por organizações várias da sociedade civil e militar, é um atentado às liberdades constitucionais e ao mesmo Direito que pretende defender. Como exemplo cito os artigos 18 e 19 “Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público ou em particular.” e “Toda pessoa tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e idéias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras.” O texto proposto pelo decreto é um atentado a estes dois direitos, pois quer restringir o uso de símbolos religiosos e “regulamenta” o uso da mídia para fins religiosos e estabelece a censura aos meios de comunicação pelo monitoramente editorial, com a possível suspensão e cassação de licença. Pertencendo a uma tradição religiosa que nasce na luta pela separação entre a Igreja e o Estado, isto me cheira intervenção indevida do Estado em assuntos privados. Já vi este filme nos EUA, onde, em nome da liberdade religiosa, não se pode ter celebrações religiosas nas formaturas, não se pode ir à escola com uma camiseta que tenha mensagem religiosa, é proibido orar em grupo na escola, etc. É a proibição em nome da liberdade, paradoxo maior. Não faz muito tempo li um artigo onde o articulista diz que a liberdade está diminuída pelas legislações que a querem normatizar e que o direito à opinião e a expressá-la, especialmente a religiosa, está sendo destruída pela legislação que a quer defender. Nisto os asseclas do sindicalistamór foram mestres. E o mestre não leu e assinou. Que falta que o hábito da leitura lhe faz e agora ainda mais. Marcos Inhauser

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

DOEU

Ali era meu ninho. Qual diligente e persistente pássaro, fui juntando meus gravetos e construindo-o. A cada semana, quinzena ou mês era mais um ou alguns livros que iam sendo adicionados à minha biblioteca. Havia um pouco de tudo. Teologia, sociologia, psicologia, política, Direitos Humanos, etc. Ali era meu mundo e meu refúgio. Sentia-me confortável em meio aos meus livros. Nunca fui viciado em leitura, mas há quem assim me considerasse. Ler, ensinar e escrever se transformaram em minhas paixões. Muitas vezes me surpreendi sentado olhando para eles e tentando lembrar o que havia em cada um. Diante da pergunta de curiosos visitantes se eu havia lido tudo, eu, com certa ponta de orgulho, respondia: “não os li todos, mas sei o que há em todos eles. Se precisar de algo, sei onde encontrar.” Quando mandei um trabalho exegético em língua hebraica para o meu doutorado, ele foi recusado por falta de apoio bibliográfico e com a sugestão de que fizesse outro. Fiquei tão bravo que escrevi um prólogo explicando porque não havia posto bibliografia, mas que o faria diante da solicitação. Coloquei mais de 150 livros e 400 notas de rodapé, só usando o que eu tinha na minha biblioteca, que chegou a ter uns 5000 volumes. Com ela aprendi uma máxima: “bobo é quem empresta livro e idiota é quem devolve”. Perdi muita coisa emprestando e devolvendo os pouquíssimos que tomei emprestado, mesmo porque, não gosto de ler livro dos outros porque não posso fazer anotações. Por força de vários motivos que não cabe enumerá-los, me desfiz esta semana do meu ninho. Não foi uma decisão impulsiva, mas algo que foi amadurecendo ao longo de dois anos, a partir do momento em que comecei a enfrentar problemas para ter uma sala que a abrigasse. Por várias vezes tentei separar os que me seriam ainda úteis e descartar os demais. Não conseguia. Era como se parte de mim estivesse sendo extirpado. Tentei vender alguns, mas era como se estivesse vendendo a mim mesmo. Quando já não mais havia como adiar a decisão, elegi ficar com alguns de uma determinada área e doar todos os outros. Elegi dois amigos, um ex-aluno e um leigo católico para que recebessem o que estava doando. Doeu. E a dor só não foi mais forte porque sei que eles serão usados e bem usados por quem os recebeu e que outros serão beneficiados com algumas lições que eles poderão tirar dos livros e passar a outros. Para mim fica o desafio de construir outro ninho, que não seja mais uma biblioteca. Marcos Inhauser

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

CORRUPÇÃO ABENÇOADA

Não há quem não tenha se estarrecido com as imagens da bandalheira que tomou conta da capital federal. Nunca antes na história deste país (para ser bem original) houve tantos, tão detalhados e incriminadores vídeos e provas de gente botando a mão na coisa pública. Mas o que mais estranheza causou foi o acinte com a oração. Nas imagens o deputado Rubens César Brunelli aparece orando com Barbosa e Leonardo Prudente (presidente da Câmara Legislativa), logo após terem recebido a propina das mãos do Durval, e o faz nos seguintes termos: "Somos gratos pela vida do Durval ter sido instrumento de bênção para nossas vidas, para essa cidade, porque o Senhor contempla a questão no seu coração. Tantas são as investidas, Senhor, de homens malignos contra a vida dele. Nós precisamos da Tua cobertura e dessa Tua graça, da Tua sabedoria, de pessoas que tenham armas para nos ajudar nesta guerra. Todas as armas podem ser falhas, todos os planejamentos podem falhar, todas nossas atividades, mas o Senhor nunca falha. O Senhor tem pessoas para condicionar e levar o coração para onde o Senhor quer. A sentença é o Senhor quem determina, o parecer e o despacho é o Senhor que faz acontecer. Nós precisamos de livramento na vida do Durval, dos seus filhos, familiares." Muitos há que se perguntaram como pode uma pessoa que ora agradecer a Deus por uma coisa que é fruto da corrupção, dizer que o pagador da propina é “instrumento nas mãos de benção”, que “tantas são as investidas, Senhor, de homens malignos contra a vida dele” e, por cima de tudo pedir “precisamos da Tua cobertura e dessa Tua graça, da Tua sabedoria, de pessoas que tenham armas para nos ajudar nesta guerra”. Eu também me perguntei. Depois de refletir, conclui que a religiosidade espúria e satanizante que as igrejas, notadamente as neopentecostais, tem pregado e exercido, vendo demônios em tudo, é também a mesma que produz este tipo de aberração. Se há pregadores que expulsam o demônio da caspa, da obesidade, da esquizofrenia, que oram ungindo calcinhas e cuecas de casais com problemas sexuais, que dizem ser a pobreza castigo de Deus, nada os impede de ver no dinheiro fácil a benção. Se lhes falta bom senso para ver causas reais nas enfermidades e situações que satanizam, por que devem ter melhores instrumentos de análise nas “bênçãos”? A falta de lucidez e critérios sérios se aplica aos dois extremos. Salta-se de um para outro (demônio e benção) com a mesma leviandade com que expulsam demônios e glorificam a posse e a propriedade. Se você tiver alguma dúvida e estômago assista a estes pregadores da ignorância nas suas falas televisivas, onde, quais papagaios da fé, repetem ad nausean as mesmas frases e jargões, cometendo a todo o instante as aberrações de satanizar uma paralisia cerebral, uma miopia, uma dor na coluna ou cólica menstrual e, pari passu, agradecer as bênçãos de um carro novo, um aumento de salário, uma casa nova, ou seja lá o que for. Marcos Inhauser

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

ECOpenhage

Ia escrever algo a respeito, mas recebi este artigo do meu amigo Marcos Kopeska, que o reproduzo, com edições para caber no espaço. Desde a infância ouço: “Não desperdice água! Não suje a rua! Não corte árvores! Não polua o ar! ...” ... O que hoje matamos faltará amanhã ... Procurando alinhar ... com a Bíblia, vejo ... por outro prisma. A natureza é e sempre será ... aliada da voz de Deus na ... revelação a nós. ... Javéh utiliza-se da natureza para criar ambiência para sua voz. Deus falou com Adão no jardim, com Hagar no deserto, Abraão na montanha, Jacó no riacho e Moisés na sarça ardente. ... Jesus pregou ... o Sermão do Monte. Inúmeras vezes Ele usou montes para orar, praias para pregar e lírios para ilustrar. Deus usou estrelas e grãos de areia para falar de suas promessas a Abraão, de nuvem para guiar seu povo, da rocha para saciar a sede do povo, corvos para cuidar de Elias e uma ilha deserta para revelar mistérios a João. ... Paulo escreve: “...o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou ... os atributos ... de Deus ... têm sido vistos ... sendo compreendidos por meio das coisas criadas,...” (Rm 1:19-20). A criação revela o Criador! ... volta-se a Ele em imensa, perfeita e eterna ... ópera, com o solfejar dos mares, o bramido dos rios, o grito dos bichos, o uivo dos ventos, o farfalhar das folhas e o jogo de cores, imagens e movimentos das matas. Nas Escrituras encontramos anjos, homens e natureza ... adorando ao Criador. “Os céus declaram a glória de Deus; o firmamento proclama a obra das suas mãos. ... Sem discurso nem palavras, não se ouve a sua voz. Mas ... ressoa por toda a terra, e as suas palavras, até os confins do mundo.” (Sl 19:1-4) Einsten dizia: "Quanto mais acredito na ciência, mais acredito em Deus. O universo é inexplicável sem Deus". São inúmeras as expressões desta adoração registradas na Bíblia, mas .. estamos calando esta ópera ao Senhor. Como as matas louvarão se reduzidas? Arrancamos o que Deus plantou “como vales que se estendem, como jardins à beira dos rios, como árvores de sândalo que o SENHOR plantou.” (Nm 24:6) mas ... os bosques os transformamos em lenha para alimentar usinas. Os rios querem se apresentar nesta ... adoração: “Os rios batam palmas e cantem de júbilo os montes,” (Sl 98:8); “Levantam os rios ... o seu bramido .. e .. o seu fragor.” (Sl 93:3); mas como levantarão adoração se roubamos sua vida com detergentes, metais pesados e sacos plásticos? Como cantar “As aves do céu cantam para ti / As feras do campo refletem seu poder / Quero cantar ...” ; se engaiolamos aves e matamos feras para vender o couro? Como os ursos adorarão se violamos seu habitat com toneladas de gases que vão para a atmosfera todos os dias? Como as imensas e milenares calotas polares adorarão se estão derretendo silenciosamente e cada placa de gelo que se solta é lágrima da natureza em dor? Estamos tolhendo parte da adoração a Deus. As previsões científicas da comunidade internacional em Kioto, 1997, cumpriram-se mais rapidamente do que se pensava. Copenhage é crucial para as negociações de novos termos e compromisso. O Tratado de Kioto precisou que 55% dos países que produzem 55% das emissões o ratificassem. Entrou em vigor em fevereiro de 2005, 8 anos depois da sua abertura para assinaturas. Oremos pelo Tratado de Copenhage e pela volta da criação à esta imensa adoração. Marcos Inhauser

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

MARIA AVELAR

Minha esposa diz que ela assim se chamava, ainda que eu creia que era Alvear. Ela era membro da primeira igreja que pastoreei, a da Vila Espanhola. Magra, doente, Maria Avelar era uma destas raras pessoas que é impossível estar junto sem se sentir ao lado de uma pessoa especial. Não sei quantas enfermidades ela tinha, mas era bem doente. Muitas vezes fui à sua casa e a vi debruçada sobre a máquina de costura, meio desfalecida. Por causa das enfermidades decidi que todos os domingos iria levá-la de carro para a igreja e trazê-la de volta à sua casa. No que pese sua condição de saúde, ela “costurava para fora”, não porque fosse necessário, mas “para ajudar os outros com uns trocados”. Ela tinha uma genuína alegria em ajudar quem precisasse. Além disto, tinha sabedoria e discernimento na alocação destes parcos recursos e eles sempre chegavam em momento mais que oportuno, do que eu e minha família somos testemunhas. Um dia ela me contou uma história impressionante e o fez na ingenuidade e simplicidade que lhe eram características. Vivia ela no estado de Goiás, em uma cidadezinha “destas que só tem uma rua e a cidade mais perece uma lingüiça. Eu morava em uma ponta da cidade e a igreja era na outra, de modo que eu tinha que atravessar a cidade todos os domingos para ir à igreja.” Maria Avelar tinha uma vizinha que ela muitas vezes convidou para ir junto à Igreja. Certo dia “ao convidar a vizinha, ela me disse: eu vou se você me prometer uma coisa. Que coisa?, perguntei. Prometa e eu te digo. Eu aceitei o desafio. Ela então me disse que iria à igreja no domingo comigo se eu fosse com ela tendo um pé calçado com salto alto e o outro descalço. Eu disse: tá bom, eu faço isto por você”. No domingo à tarde lá estava Maria na frente da casa da vizinha, tal como ela lhe havia pedido. A cidade o sabia do que ia acontecer e todos estavam para ver a mulher atravessando a cidade mancando, em um espetáculo ridículo. “Pastor, eu pensei: tô levando uma pessoa para conhecer o amor de Deus. Nada pode ser ridículo. Levantei a cabeça e, como se nada estivesse errado, fui andando e cumprimentando as pessoas que vieram para ver-me. E lá fomos nós atravessando a cidade. Não deu tempo de chegar à igreja, a vizinha estava chorando. Ela me abraçou e disse: se este Deus me ama a ponto de te dar amor para você fazer isto por mim, eu quero saber mais do amor deste Deus”. Até hoje me emociono quando relembro esta história. Nunca mais ouvi falar da Maria Avelar. E lá se vão mais de trinta anos. Ela nunca foi à rádio ou à televisão se exibir por este ato. Cristão como ela é o que a sociedade precisa. A mão direita não soube o que fez a esquerda e conto isto hoje para que seu exemplo seia imitado. Marcos Inhauser

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

UNI BAN

Quando li as notícias sobre os eventos na Universidade Bandeirante, UNIBAN, minha mente rodou fazendo um trocadilho com a palavra em inglês e certa prática religiosa. No inglês “ban” é derivada de “banishment” que é qualquer decreto que proíbe alguma coisa. Implica na proibição de algo em algum território e muitas vezes tem caráter de censura ou discriminação, com o objetivo de manter o “status quo”. Comercialmente, a palavra significa embargo. Na tradição de alguns grupos religiosos, notadamente entre anabatistas radicais, o banimento foi e, em alguns casos ainda é, prática comum. Quando um membro da comunidade religiosa comete algo que é considerado grave, notadamente no campo da moral e da sexualidade, ele é banido da comunidade. Quando estas comunidades tem modelo cooperativo, onde os participantes trabalham e compartilham em condições igualitárias, o banimento representa a expulsão compulsória do disciplinado. Nestes casos, o banido é não só afastado, como os que o afastam se recusam a manter qualquer contato físico, social ou comercial com o mesmo. Há casos em que a pessoa banida tem coisas que deu a outros atiradas à porta da sua casa, forma simbólica de dizer que não querem mais nenhuma relação com o banido. Ele passa a ser um pária religioso. Alguns, baseados em recomendação da segunda carta de João (v. 10, 11) de que “não o recebais em casa, nem tampouco o saudeis, porque quem o saúda tem parte nas suas más obras”, se recusam a sequer cumprimentar os banidos. A análise histórica vai mostrar que muitos deles foram atos arbitrários, sem direito à defesa, aplicação de pena desproporcional ao ato julgado, forma de exercício do poder, arrogância moral e religiosa de um grupo contra o diferente. No caso recente da Uni BAN, o que se teve foi um linchamento seguido de um banimento formal, sem que a parte, até onde se sabe, tivesse direito à proteção contra a turba na hora dos fatos, nem de defesa na sindicância. Os atos, fruto da arrogância de homens e mulheres que se consideraram moralmente superiores, é tão perverso quanto o possível atentado ao pudor que quiçás ela tenha cometido. E a sentença foi banimento. Os santos apedrejaram a pecadora, tal como se deu inúmeras vezes na história humana, sem que isto tenha nos ensinado lições que implicassem na mudança. A revogação do banimento não muda os fatos já praticados pela Universidade, tão nocivos e atentatórios à ética e moral quanto (se o foram) os praticado pela jovem. E de mais a mais, a motivação da revogação não foi o arrependimento, mas a pressão social, tanto nacional como internacional. E mostrou uma face utilitarista da Universidade que baniu alegando a guarda dos “valores da instituição”. Belos valores, explicitados pornograficamente à sociedade.

domingo, 8 de novembro de 2009

LUDAS

A sugestão do Lula de que, para se governar o país, até Jesus Cristo teria que fazer aliança com Judas, já provocou muita reação. Na minha última coluna confessei que não consegui resistir à tentação de também dar meu pitaco, não que eu tivesse coisa substancialmente diferente a dizer, mas porque, tendo algumas ideias na cabeça, cultivadas ao longo destes anos, via agora a oportunidade de colocá-las para fora. Escrevi mostrando como o Lula se julga alguém igual ou maior que Jesus Cristo, e dei alguns exemplos para provar minhas afirmações. Para surpresa minha, vários foram os e-mails concordando com o que escrevi, coisa um tanto rara. Como este espaço não me permite longas digressões, preferi escrever a coisa em dois capítulos: como ele se vê e como eu o vejo. Se nesta história há Judas, há duas possibilidades de entendimento: os aliados de Lula (o Messias) são Judas ou ele mesmo é Judas procurando um Messias para se aliar. Na história bíblica, Judas é uma pessoa com ambições políticas pertencente ao grupo dos sicários, uma ramificação dos zelotes que perpetrava violentos ataques, com punhais (sicarii), contra as forças romanas na Palestina. Outros derivam o seu nome do aramaico saqar, palavra que significava alguém "mentiroso", que é "falso". Judas, no entanto, queria mesmo é estar de bem com a elite governante e com os romanos. Sua participação inicial nos movimentos pode ter sido falsa ou ele sucumbiu às tentações do poder. Na história do Lula muitos foram os amigos e discípulos que foram entregues à execração pública, vendidos para abafar a opinião pública por trinta moedas de prata. Para não ir muito lá para trás, lembro como ele entregou à sanha das elites dominantes a colega de caminhada Cristóvam Buarque, destituindo-o com um telefonema, como entregou o Dirceu, o Pallocci e mais recentemente a Marina Silva. Neste afã de não perturbar as elites e os interesses do capital é que entendo porque ele seu governo nada fizeram para esclarecer os crimes de morte do Toninho e do Celso Daniel. Para mim o Lula é um Judas. Um Ludas que se aliou a um bando de outros Judas para a propalada governabilidade, tal como o Judas teria argumentado para justificar a entrega do Mestre. Lá também foi em nome da paz nacional que se entregou um perturbador da paz. O problema é que, na falta de um Messias, ele decidiu criar o seu, à sua imagem e semelhança. Ela vamos nós de Dilma. Marcos Inhauser

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

JUDAS OU JESUS?

Causou furor a frase do guru sobre a sugerida aliança entre Jesus e Judas. Muito já se disse a este respeito e tinha para comigo que não deveria eu me meter nesta tresloucada metáfora do sindicalista-presidente. No entanto as lombrigas me remoeram as entranhas. Fiquei a analisar o comportamento do pronunciante e tenho cá com meus botões algumas conclusões muito pessoais, que as comparto, não para disseminar o joio, mas para tentar entender o trigo. Não é de hoje que tenho prestado atenção e catalogado a insistência do guru em usar metáforas. Não conheço na história recente e mesmo anterior, alguém que usasse de tantas metáforas e analogias e que o fizesse com tal espontaneidade quanto o viajante-com-o-dinheiro-dos-tributos. Ele usa a abusa das figuras, ora com propriedade ímpar, ora com imperícia também ímpar. Só conheço outro que o fazia como ele e que se notabilizou com seus ensinos via parábolas, que foi Jesus Cristo. O guru-mór gosta da frase “nunca antes na história”. Ele se julga um divisor de águas, um ser que veio para dividir a história brasileira e quiçasmente mundial,entre o antes e o depois. Nisto ele se julga igual a Jesus Cristo, quem, sim dividiu a história entre o antes e o depois. O sindicalista também gosta de alardear que na sua gestão os famintos passaram a ter o que comer, que mais gente foi atendida nos ambulatórios, que mais transplantes se faz, que mais uma infinidade de coisas. Certa feita, quando visitava uma sinagoga, perguntaram a Jesus se ele era o Messias ao que abriu o livro do profeta Isaías e leu que os coxos andam , os cegos vêem, aos cativos é proclamado o ano da libertação. O Lula, segundo o Lula, está fazendo a mesma coisa. Jesus foi anunciado por um João Batista, voz que clamava no deserto, comia gafanhotos e mel silvestre. O Lula é o próprio. Saiu do clamar no deserto, comeu buchada de bode, bebeu o que veio e lhe deram. Se Jesus teve um precursor, o Lula foi seu próprio precursor. Nisto ele é maior que o Messias. Outras similitudes eu poderia apontar para provar que Lula se julga o Messias, o predestinado, o escolhido de Deus. Nesta condição ele tem os seus Judas e não cabe apontar porque sabidos e conhecidos pelos brasileiros. O problema é que este simulacro de Messias, ao invés de ser vendido pelo Judas, ele próprio se vendeu e se entregou. Deixou-se ser tentado pelo poder, andou transformando pedra em pão, se aliou a outros Judas, traiu a confiança de quem o elegeu e acreditou no seu reino pregado e proclamado por anos a fio e que acabou se convertendo no reino dos banqueiros, dos donos de telefonia, das construtoras, das ONGs não auditadas, dos sem-terra-com-verbas-públicas-milionárias.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

GRATAS SURPRESAS

Comecei a escrever no Correio Popular em abril de 2001. Lá se vão nove anos. Confesso que, das coisas que hoje faço, esta é a que mais prazer me dá, no que pese e-mails irados, críticas mil, pastores me chamando de anticristo campineiro, prefeito e vereadores me detestando. No entanto, vez em quando, me surpreendo. Certa feita, ao descontar um cheque em um banco, a pessoa que estava no caixa me disse: “quero que você saiba que leio suas colunas e que gosto do seu jeito de escrever”. Não preciso dizer que sai dali com a alma lavada. Em outra ocasião, ao entrar no consultório de um médico novo para mim, ele me recebeu efusivamente dizendo se sentir honrado com o fato de poder me atender, pois já me conhecia pelos meus escritos. Certa feita em um táxi tocou meu celular, atendi, tive que passar alguns dados pessoais. Terminada a ligação o motorista me perguntou; “você é o Inhauser que escreve no Correio Popular?” Respondi afirmativamente, ao que emendou: “minha mãe vai ficar com inveja porque ela é fã das suas colunas e faz coleção de todas elas. Ela recorta e arquiva tudo que você escreve.” Sei da Ditinha que também recorta as colunas e as tem arquivado. Nesta semana uma pessoa amiga me ligou dizendo que havia acabado de conhecer um fã meu. Perguntei se era um ou uma fã. Ela disse que era o Valdeci. Perguntei por que ele seria meu fã, ao que me respondeu que ele tem o que eu não tenho: “a coleção dos recortes da coluna no jornal, sem falta de nenhuma”. Não eu não tenho mesmo o recorte das colunas e o arquivo delas. Temo que não tenha todas as colunas no arquivo do meu computador, porque ele já pifou algumas vezes. Mas tenho o prazer orgulhoso de saber que há umas poucas pessoas que gostam do que faço. Andei apertando a mente aqui para encontrar quem mais gosta do que escrevo e confesso que não encontrei. Há os que me dizem por delicadeza que gostam e neles não creio. De uma coisa sei: eu gosto de escrever. E o redator chefe do jornal não detesta, ao ponto de me aturar todos estes anos sem nunca ter mexido nos meus textos, nem nas vírgulas. Aos fiéis leitores o meu obrigado. Aos que me criticam e me escrevem, obrigado com mais ênfase porque me mostram coisas que às vezes eu não vejo. Aos que lêem e não entendem o que escrevi, minha paciência. E aos que ficam bravos com o que escrevo porque lhes diz respeito, meu compromisso de continuar sendo chato. Marcos Inhauser

GRATAS SURPRESAS

Comecei a escrever no Correio Popular em abril de 2001. Lá se vão nove anos. Confesso que, das coisas que hoje faço, esta é a que mais prazer me dá, no que pese e-mails irados, críticas mil, pastores me chamando de anticristo campineiro, prefeito e vereadores me detestando. No entanto, vez em quando, me surpreendo. Certa feita, ao descontar um cheque em um banco, a pessoa que estava no caixa me disse: “quero que você saiba que leio suas colunas e que gosto do seu jeito de escrever”. Não preciso dizer que sai dali com a alma lavada. Em outra ocasião, ao entrar no consultório de um médico novo para mim, ele me recebeu efusivamente dizendo se sentir honrado com o fato de poder me atender, pois já me conhecia pelos meus escritos. Certa feita em um táxi tocou meu celular, atendi, tive que passar alguns dados pessoais. Terminada a ligação o motorista me perguntou; “você é o Inhauser que escreve no Correio Popular?” Respondi afirmativamente, ao que emendou: “minha mãe vai ficar com inveja porque ela é fã das suas colunas e faz coleção de todas elas. Ela recorta e arquiva tudo que você escreve.” Sei da Ditinha que também recorta as colunas e as tem arquivado. Nesta semana uma pessoa amiga me ligou dizendo que havia acabado de conhecer um fã meu. Perguntei se era um ou uma fã. Ela disse que era o Valdeci. Perguntei por que ele seria meu fã, ao que me respondeu que ele tem o que eu não tenho: “a coleção dos recortes da coluna no jornal, sem falta de nenhuma”. Não eu não tenho mesmo o recorte das colunas e o arquivo delas. Temo que não tenha todas as colunas no arquivo do meu computador, porque ele já pifou algumas vezes. Mas tenho o prazer orgulhoso de saber que há umas poucas pessoas que gostam do que faço. Andei apertando a mente aqui para encontrar quem mais gosta do que escrevo e confesso que não encontrei. Há os que me dizem por delicadeza que gostam e neles não creio. De uma coisa sei: eu gosto de escrever. E o redator chefe do jornal não detesta, ao ponto de me aturar todos estes anos sem nunca ter mexido nos meus textos, nem nas vírgulas. Aos fiéis leitores o meu obrigado. Aos que me criticam e me escrevem, obrigado com mais ênfase porque me mostram coisas que às vezes eu não vejo. Aos que lêem e não entendem o que escrevi, minha paciência. E aos que ficam bravos com o que escrevo porque lhes diz respeito, meu compromisso de continuar sendo chato. Marcos Inhauser

terça-feira, 13 de outubro de 2009

NOBEL?

Não é a primeira vez que o Comitê de escolha dos Prêmios Nobel surpreende. Contar as vezes em que isto aconteceu é quase contar a história do Prêmio. Há alguns que foram questionados quando foram concedidos e depois se mostrou o acerto dos questionamentos. Lembro-me particularmente do que foi concedido a Rigoberta Menchu, indígena guatemalteca, que teve oposição mesmo entre os seus conterrâneos e povos indígenas da Guatemala e mais tarde até indiciada em inquérito policial foi. Lembro-me ainda do prêmio concedido a Anwar Al Sadat e Menachen Begin, por uma reunião de paz que tiveram, um plano tirado a fórceps e que nunca foi implementado de forma significativa. Também foi criticado o prêmio dado a Oscar Árias, o costarriquenho que se diz que trabalhou pela paz na América Central, algo que a grande maioria dos centroamericanos não reconheciam. Confesso que me surpreendi com a nominação de Barak Obama. É verdade que, depois do desastre Busch, qualquer coisa seria melhor que ele. Devo também reconhecer que ele fez sua campanha e se elegeu com o lema da mudança, mas acho que fez muito pouco até agora para que o prêmio lhe seja outorgado. Se a nómina se deu pelo discurso na Universidade do Cairo, ele levou o Nobel da Oratória e não o da paz. Se foi porque propôs o diálogo entre muçulmanos e o resto do mundo, especialmente com os cristãos estadounidenses, também é discurso até agora. Se foi pela distensão com a Coréia do Norte, quem deveria ser nominado é Bill Clinton, quem lá foi e trouxe as duas jornalistas, sem fazer, aparentemente, concessões. Se foi pela decisão de não mais construir a parafernália antimísseis, chamada de guerra nas estrelas, deve-se dar a ele o Prêmio Nobel de Economia, pois fez o óbvio para um país endividado até o pescoço e atolado na crise. Tenho meus pruridos com a decisão, pois se trata de um governante que prometeu acabar com Guantánamo e não fez. Prometeu juízos justos e imparciais e até agora o que se tem é retórica. Prometeu tirar as tropas do Iraque, e elas ainda estão lá. Prometeu acabar com a guerra do Afeganistão e agora diz que a coisa vai durar e que há que enviar mais tropas. O senhor da guerra é agora Prêmio Nobel da Paz. Discurso por discurso, o Fidel e o Chavez dão olé. E, mesmo como orador, tenho lá meus senões. Chama-me a atenção que, quando dircursa, ele olha para a direita e esquerda, como se estivesse assistindo a uma partida de tênis ou pingpong. Não o vi olhando para a frente. É como se não encarasse a platéia. Não gosto disto. Passa-me a sensação de estar sendo enrolado. Quero estar errado. Neste tempo todo evitei fazer qualquer comentário sobre o Obama, dando-lhe o benefício da minha dúvida. Mas acho que exageraram na dose de mídia sobre ele. Com um aparato midiático destes e um posto de presidente do império, até discurso dá Prêmio Nobel. NO caso de Obama, melhor seria se fosse de Oratória ( neste eu também iria questionar.....) Marcos Inhauser

domingo, 11 de outubro de 2009

GRACIAS NEGRA

Eu a conheci quando tinha meus vinte e poucos anos. Eu a ouvi cantando e nunca mais deixei de ouvi-la. Comprei um cassete de músicas suas que me acompanhou um bom tempo de minha vida, nas muitas viagens que fiz. Com ela aprendi a gostar e admirar a música latino americana. Mais tarde, comprei tudo quanto pude de músicas suas. Lembro-me de, em uma viagem de quase cinco horas, ter ouvido a mesma fita cassete a viagem toda, repetindo-a sem parar. Decorei letras e mais letras de suas músicas. Chorei incontáveis vezes ouvindo-a cantar, especialmente “Gracias a la Vida”, “Cambia, Todo Cambia”, “Volver a los 17” e especialmente uma sua interpretação de “Cuando Tenga la Tierra” que apresentou em Nicarágua. Há uma outra de Gracias a la Vida, juntamente com Joan Baez, que é divina. Sua história de vida, sua luta contra a ditadura, seu compromisso ideológico com o comunismo, sua coerência entre o que acreditava e o que vivia, sua incansável maneira de trazer a alegria através de sua música, mesmo quando a saúde já a debilitava me comoviam assim como a muitos outros, haja visto a quantidade de manifestações por sua morte. Admirava seu despreendimento de cantar em parceria com os mais variados cantores e cantoras. Gravou com Milton Nascimento, Caetano Veloso, Bethânia, Joan Baez, Victor Heredia, e até com Shakira..... Para mim ela era a mais latino americana de todas as pessoas que conheci. Nascida na Argentina, nunca foi nacionalista, mas cidadã continental. Fez da sua vida uma bandeira de luta. Enfrentou os militares e a ditadura com sua voz, fez tremer aos torturadores. Presa, acusada de ser uma “pessoa suspeita”, não se dobrou e nem cedeu na sua crença. Envolveu-se na luta das Mães e Avós da Praça de Maio e com elas lutou pela busca de filhos e netos desaparecidos. Com suas músicas fez a muitos sonhar com uma nova sociedade e eu me deixei contagiar por seus sonhos de liberdade. Através dela conheci a Atahualpa Yupanqui, outro argentino latino americano. Por ela conheci os irmãos Mejía Godoy da Nicarágua antes que para lá fosse. Eu a ouvi muitas vezes cantando Sobrevivendo, uma das letras mais preciosas que conheço ao lado de “Canto da Cigarra”, que era para ela como que sua música de identidade, por dizer “tantas vezes me mataram, tantas ressuscitei”. Nunca a vi pessoalmente, mas fiquei depressivo com a notícia de sua morte, como se tivesse perdido alguém muito querido. Por causa dela, tive e tenho orgulho de ser latino americano e não posso dizer outra coisa que “Gracias Negra” usando seu apelido carinhoso que de racista nada tem. Marcos Inhauser

terça-feira, 29 de setembro de 2009

ISTO AINDA NÃO OUVI

Na recente crise que se abateu sobre Honduras e que o Brasil está enfiado até o pescoço, seja por erro diplomático brasileiro, por amadorismo e ideologia de antigos refugiados brasileiros que se abrigaram em embaixadas, seja por astúcia ou imprudência do Zelaya.
Neste imbróglio em que termos como golpistas, governo interino, presidente de fato e de direito, presidente democrático e governo imposto tem sido usados à exaustão, há um dado que não vi ainda em nenhum comentário. Refiro-me ao marco constitucional hondurenho.
A Constituição Hondurenha tem, assim como outras, algumas cláusulas pétreas, que não podem ser mudadas salvo mediante procedimentos estabelecidos e que são, via de regra, bastante exigentes. No caso brasileiro, cláusulas pétreas são a.) a forma federativa de Estado; b.) o voto direto, secreto, universal e periódico; c.) a separação dos poderes; e d.) os direitos e garantias individuais.
Cláusula pétrea é, pois, o dispositivo que impõe a irremovibilidade de determinados preceitos que são disposições não passíveis de ser abolidas por emenda, nem modificadas, constituindo o irreformável da Constituição, impossibilitando a sua reforma, remoção ou abolição. Elas possuem supremacia, paralisando a legislação que vier a contrariá-los.
A Constituição Hondurenha prevê no seu Artigo 374: “Não poderão ser reformados, em nenhum caso, ... os artigos constitucionais que se referem à forma de governo, território nacional, período presidencial, proibição para ser novamente presidente da república...” e no seu Artigo 4: ... A alternabilidade no exercício da Presidência da República é obrigatória. A infração desta norma constitui delito de traição à Pátria.”  No Artigo 239: “O cidadão que tenha desempenhado a titularidade do Poder Executivo não  poderá ser Presidente ou Designado. Aquele que ofender esta disposição ou propuser sua reforma, bem como aqueles que a apóiem direta ou indiretamente, terão cessado de imediato o desempenho de seus respectivos cargos e ficarão inabilitados por dez anos para o exercício de toda função pública”.
Não sou especialista em Direito Constitucional, mas me parece que o texto é claro. Também me parece que, ao dizer que “terão cessado de imediato o desempenho de suas funções” dá caráter sumário ao processo de destituição do “traidor da pátria” no dizer constitucional.
Ora, pelo que se sabe, o Zelaya propôs a mudança deste quesito, e, diante do levante dos tribunais e outras instâncias, transformou em plebiscito e depois em pesquisa. Assim, a coisa não é tão simples como nos quer fazer crer o sindicalista-mór e seu assessor internacional, antigo exilado em embaixada.
Para mim, algo de estranho há nesta posição brasileira de veemente condenação ao Micheletti e apoio a Zelaya, ao ponto de permitir que o mesmo faça da embaixada brasileira seu escritório de levante político.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

O EU E O TU

Todos somos o produto da relação de um “eu” e um “tu”.
Cada um de nós aprendemos a ser gente na relação mínima com dois “tus”: pai e mãe. Todos somos frutos de uma relação de diálogo, de sentimentos, de emoções, de corpos que se relacionavam com corpos que nos fizeram. Daí porque a base da nossa vida é o fato de que há um homem e uma mulher que se relacionaram e como fruto disso nasceu alguém.
Não há ninguém nesse mundo, com exceção de Adão, Eva, Jesus Cristo e os inseminados, que não seja fruto desta relação. Não dá para pensar no ser humano como uma ilha, isolado dos outros, da sociedade, do contexto em que vive.
Para que possamos nos conhecer mais profundamente, é necessário que conheçamos as relações que mantemos com as outras pessoas que formam o nosso sistema relacional. Em outras palavras, o “eu” é conhecido na medida em que se conhece os “tus” com os quais este “eu” se relaciona.
O namoro é um “eu” que se relaciona com um “tu” procurando conhecer os “tus” do outro “tu”. Quando alguém começa a conversar com uma outra pessoa, quer saber quem é. Como se faz isto? Perguntando.
Cada vez que encontramos alguém e entabulamos uma conversar, procuramos explorar, conhecer as relações que esta pessoa tem, o que ela faz, com quem trabalha, o que estudou, o que gosta ou não de fazer. É o desejo de conhecer as relações que tem, de conhecer o sistema onde está inserida.
Quando alguém sai à procura de outra pessoa para namorar, existe na sua cabeça, inconscientemente, um cheiro (não tenho outro jeito de dizer), que ela vai se sentir atraída por quem que tem mais ou menos o mesmo modelo de relação familiar. Isso é mais do que lógico e normal. Se você vai constituir uma família, que família você conhece para servir de modelo? Se você foi acostumado a dormir em colchão de mola, na primeira noite que você dormir em um colchão de espuma vai se sentir mal, pois você está fora do seu ninho. Você vai buscar alguém para casar-se que tenha um “ninho” mais ou menos igual ao seu.
Isto é tão inconsciente, tão simbólico, tão invisível que não dá para explicar. Por exemplo: bati o olho em alguém, gostei e pergunto alguma coisa. A maneira como me responde, o tom de voz se foi mais ou menos parecido ao tom que estou acostumado a ouvir, entro em sintonia com a pessoa e vou procurando saber mais sobre ela.
No fundo, no fundo, buscamos pessoas segundo o comichão dos nossos ouvidos, parecidas a nós, para nos entender e apoiar. É dose ficar ao lado de alguém que é tão diferente que é um estranho no nosso ninho.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

BÍSPOLO OU APOSTOLISPO?

Há alguns anos, a pedido de um amigo que morava fora, liguei para uma casa de recuperação de viciados em drogas, de orientação evangélica, para obter informações sobre as condições de internação e custos, visto que tinha um filho de membro da igreja necessitando de recuperação.
Liguei para a tal Casa de Recuperação e fui atendido pelo evangelista Cicrano. Perguntei a ele como poderia obter informações, ao que me informou que eu deveria ligar mais tarde para falar com o Missionário Beltrano, que era o encarregado, e que havia saído para uma missão.
Liguei mais tarde, o Evangelista me atendeu, passou a ligação para o Missionário, quem me disse que a informação estava errada porque, na realidade, quem podia passar estas informações era o Pastor Mengano, pois só ele tinha autoridade para isto. O Missionário me deu outro telefone, liguei para lá, pedi para falar com o Pastor Mengano, ao que me informaram que o Pastor havia sido promovido a Reverendo no domingo anterior. Pedi para falar com o Reverendo. De boa fala, mas todo enrolado nos “s” e nas concordâncias, ele me explicou as condições gerais de ingresso, custo, método de trabalho, visitação, etc.
O que me chamou a atenção é que o interessado deveria preencher um formulário que seria examinado por uma Diretoria presidida pelo Bispo Gerais. Ironicamente perguntei se havia apóstolo também na hierarquia da instituição.
Pertencendo a uma tradição teológica que se primou por considerar todos os membros da igreja iguais, que se recusou a dar títulos uns aos outros, limitando-se a se chamar de irmãos e irmãs (daí porque o nome Irmandade), fico pasmo com esta hierarquização no seio das comunidades, que já não sei se posso chamá-las de cristãs.
Como parece que ainda não inventaram um título superior a “apóstolo” (uma usurpação de nome dado aos doze mais Matias e Paulo), não me surpreenderia se amanhã aparecesse alguém se denominando Bíspolo ou Apostolispo, junção de Bispo mais Apóstolo e sendo superior hierarquicamente a tudo o que existe.
Ou, talvez, alguém que se encoraje a ter o título que um amigo a quem chamei de Bíspolo, me devolveu dizendo que ele me nomeava “Vicepresidente da Trindade”. E não estamos para menos, tal a quantidade de Bispos e Apóstolos autoproclamados e autoordenados dando ordens a Deus, como se Ele empregado deles fosse. Um deles, que tem vídeo no Youtube, começa sua oração dizendo; “Pai, pelos créditos que tenho diante de Ti, eu ordeno que, num raio de cinco quilômetros ao meu redor, todos os demônios sejam derrotados.”
Haja presunção. Para estes, o título de Vicepresidente da Trindade talvez seja pouco. Que tal o de coDeus?

Marcos Inhauser

terça-feira, 8 de setembro de 2009

ABDEUAMASSO

Segundo meus filhos, por corrigir quando tropeçavam em gramática, eu deveria ser professor de português. Não gosto da gramática, ainda que a considere importante, mas, sim, acho que gostaria de ser dicionarista.
Tenho certa obsessão pelo sentido exato das palavras, no que o estudo do grego e hebraico me ajudou. Mais teria me ajudado se tivesse estudado o Latim, mas fui da primeira turma que não mais precisou estudar as declinações.
Neste dias, por causa da celeuma levantada com o médico especialista em fertilização, passei a me preocupar outra vez com esta precisão quase que cirúrgica entre as palavras. Tenho para comigo que há vários termos que são, e neste caso específico estão, usados de forma indevida, vez que usado como ambivalência ou sinonimidade.
Não se pode colocar no mesmo balaio como se sinônimos fossem o assédio sexual, o abuso sexual, a violência sexual, o estupro e o bullying. Sem querer determinar o sentido preciso de cada expressão, trago aqui algumas reflexões.
O assédio é quando há investidas verbais, olhares lascivos, vigilância para flagrar. É algo que traz desconforto ao objeto da ação e prazer ao agente, talvez por patologia ou simples desvio de conduta. Não há no assédio o desejo de trazer dano à pessoa, mas de chegara ter um relacionamento. Não se trata das “cantadas” de um apaixonado. Nesta categoria, só que com mais intensidade está o bullying, que além de ter as conotações anteriores, tem também um desejo, confesso ou não, de trazer algum prejuízo ou dano à pessoa que é objeto de suas investidas.
No abuso sexual há, mais que olhares e frases, o toque fortuito ou explícito. É o passar a mão, o encostar-se provocativamente, é o ato de avançar para o campo físico a intenção manifesta, sem, contudo, haver consumação de ato sexual.
Na violência sexual há ação centrada em um desequilíbrio de poder entre o agente e a pessoa objeto, em que o primeiro, prevalecendo da sua força física ou circunstâncias, força a pessoa a atos sexuais, não genitais. O forçar ao sexo oral ou a masturbar entram nesta categoria.
No caso do estupro, no meu entender, há a conjunção, baseada em uma relação desiquilibrada de poder físico ou moral, em que a pessoa vítima é obrigada a uma relação genital ou anal.
No caso específico do médico em questão, ao ouvir depoimentos de vítimas e dos investigadores, confesso, não consegui ver caso de estupro, mas de violência e assédio sexuais. Não há nenhum relato, entre os que ouvi, de alguém que disse que foi forçada a manter relações sexuais, mas que ele, aproveitando-se da situação, as beijou, as acariciou ou as fez acariciá-lo.
Dito isto, salvo mais evidências que me façam mudar de opinião, ele é dado ao “amasso” e não ao estupro. Daí porque, melhor seria que mudasse seu nome para Roger Abdeuamasso.
Marcos Inhauser

terça-feira, 1 de setembro de 2009

FIQUE ESPERTO

A prática é sistemática e condenada pelos órgãos de defesa do consumidor. Inicialmente eram os cartões de crédito enviados a torto e direito e que geravam débitos e custos e uma pendenga enorme para se livrar deles.
Outra prática, mais relacionadas à empresas de listas telefônicas, era a de enviar boletos pela publicação de um suposto anúncio que não se contratou. Alguns traziam um aviso de que o pagamento era opcional, mas a maioria não e alguns até traziam a informação de que o título iria a protesto se não pago no prazo estipulado. Já recebi também boletos de hospedagem do meu site pelas mais diversas empresas, todos eles fajutos.
Mais recentemente venho sendo vítima de um novo golpe, pois não vejo outra palavra para definir o que vem acontecendo. Primeiro foi descobrir na minha fátua do celular da Vivo a contratação de serviços adicionais que eu não havia feito. Liguei pedi explicações pela cobrança nos últimos três meses e eles me disseram que eu havia autorizado o tal serviço de vantagem em chamadas roaming no dia tal. Afirmei que nunca havia sido contatado e muito menos feito tal opção. O que consegui foi o cancelamento do serviço a partir da data da minha reclamação, mas não a reversão dos pagamentos feitos. Comecei a ficar esperto com a Vivo. Mais de uma vez recebi SMS me parabenizando por ter aderido a este ou aquele adicional de serviço, coisa que não fiz, e que cada vez me tomou mais de vinte minutos em ligação tentando reverter o serviço.
Neste mês me enfiaram quase vinte reais em serviços adicionais que não contratei não autorizei e que me tomaram trinta e cinco minutos para reverter. E o pior é que a reversão foi parcial, pois, segundo a atendente, haveria ainda uma cobrança proporcional que eu deveria contestar quando chegasse a fatura. Lá se vai mais meia hora.
O mesmo está acontecendo com as famigeradas taxas dos bancos famintos por dinheiro fácil. A cada extrato aparece algo sendo cobrado. Neste dias descobri que meu banco que me “deu” um cartão de crédito sem anuidade, me cobrou para a renovação, e que o gerente do banco não pode estornar a cobrança, pois devo ligar para a central de atendimento ao cliente e tentar conseguir a devolução da taxa. Se eu cancelar, assim mesmo corro o risco de ter que pagar.
E o pior. Descobri que além dos juros exorbitantes que cobram no cheque espacial, ainda pago uma taxa de renovação do cadastro e a cada dois meses uma taxa de R$ 145,00 pelo uso do limite. Um roubo. Eu digo: um assalto a “banco armado”.
È muita esperteza. E para contrarrestar, temos que ficar espertos com estes assaltantes legalizados e jurisprudenciados.

Marcos Inhauser

terça-feira, 25 de agosto de 2009

SENADORANTE

Nunca colocaria em um filho este nome: Aloísio. Não gosto. E agora não gosto também de um que tem este nome: o Mercadante. Aliás, este sobrenome me faz pensar em outras coisas e nestes dias, não pude deixar de associá-lo, por rima, a comportamentos.

FRUSTRANTE: havia uma multidão de gente que acreditou nele e nele votou, transformando-o em campeão de votos ao Senado. Parecia ser uma pessoa séria, de convicções, firme, com idéias novas capazes de fazer a diferença em um cenário carcomido pelas velhas oligarquias políticas. Hoje, sem sombra de dúvidas, posso afirmar que há muita gente frustrada com ele.

TROPEÇANTE: no episódio da compra do dossiê e dos aloprados, ele veio com a esfarrapada e petista desculpa de que não sabia de nada. Santa inocência ou astuta esperteza, acreditando na imbecilidade coletiva. Tropeçou feio e nunca mais conseguiu firmar o passo diante da opinião pública.

VACILANTE: Mais recentemente apresentou comportamento e posturas vacilantes, ora apoiando, ora ficando em cima do muro e ora sendo mais assertivo quanto à situação do Sarney e do Senado. Foi difícil saber exatamente qual era a sua posição.

TITUBEANTE: Isto o fez titubear. Ora era isto, ora aquilo. O titubeio maior foi sua renúncia irrevogável e a revogação do irrevogável no dia seguinte. Mesmo com a carta do Lula, virou piada e merecidamente.

CLAUDICANTE: no episódio dos aloprados, do mensalão, e agora na crise do Senado, para mim ao menos, fica evidente de que ele claudicou na ética. Não afirmo por comissão, mas o claudicar pela omissão. Falhou ao não ser voz forte de denúncia como o foram Pedro Simon e Cristóvão, para não citar outros que evito mencionar nomes. A sua ausência foi patética quando do bate boca entre Pedro Simon e Collor, preferindo ficar no gabinete a estar presente em um momento histórico, em que éticos precisavam se manifestar contra “aquelle” que é até hoje, junto com um paulista, o símbolo máximo da corrupção.

MERCADEJANTE: o que está por detrás desta sua atitude? Um pragmatismo maquiavélico, em que o fim Dilma justifica todos os meios? O que há de negociação e negociatas por trás disto tudo? As fantasias correm a mil, haja visto que o Senado se mostrou ser a casa da mãe Joana e um balcão surtido de negócios os mais variados. Ou é a república sindicalista que o leva a tal comportamento? Não afirmo nada. Só pergunto perguntas inevitáveis diante disto tudo.


Marcos Inhauser

terça-feira, 11 de agosto de 2009

FUMOCÍDIO, MOTOCÍDIO E SUÍNA

Lembro-me de uma foto que via em uma agência dos Correios em São Paulo. Era um revolver apontado para a cabeça de uma pessoa, em atitude de suicídio. O cano da arma era um cigarro e a legenda dizia: “o cigarro é uma arma onde o tempo aperta o gatilho”.
Lembrei-me desta foto nestes dias com a celeuma montada pela lei antifumo do governo de São Paulo. A propaganda com o garçon medindo o ar nos pulmões antes e depois do serviço, mostra algo que há não muito passou a ser reconhecido e combatido, que é o fumante passivo. Entre os argumentos esgrimidos pelo governador está a melhoria da qualidade de vida, a diminuição dos AVCs e outros problemas coronários e pulmonares, a redução de gastos médicos pelo sistema público de saúde, etc.
Na mesma semana vem a notícia de que foi aprovada a lei que legaliza o mototáxi e que o prefeito de São Paulo, aliado do governador, pretende implantar tal serviço na cidade de São Paulo. E aí me veio o nó na cabeça: sabe-se por dados estatísticos e mesmo visuais para quem anda com certa freqüência pelas ruas e estradas, o crescente número de acidentes com motos. Quem não conhece alguém que morreu ou se acidentou gravemente pilotando uma moto? Quantas pessoas incapacitadas você conhece, fruto de acidente deste gênero?
Há ainda dados estatísticos e estudos mostrando que a poluição produzida pelas motos é muito maior que a feita por um carro. Mais: se se calcula a poluição por passageiro transportado e quilometragem rodada, as motos perdem feio. Adicione-se a isto o custo médico que a saúde pública dispende com os atendimentos dos acidentados e a natureza de tais cuidados, muitos deles com longos tratamentos e fisioterapias, tem-se que o custo ambiental e financeiro do uso generalizado das motos traz é igual ou superior ao dos cigarros.
E por que se cria lei para combater o fumo (o que eu aplaudo) e se libera outro instrumento urbano de suicídio e custos médicos? È a morte pelo cigarro mais morte que a das motos?
Mas para se entender a lógica destas coisas, passo alguns dados de um e-mail que acabo de receber. No mundo, por ano, morrem 2 milhões de crianças com diarréia que se poderia evitar com um simples soro que custa 25 centavos. O sarampo, pneumonia e enfermidades evitáveis com vacinas baratas, provocam a morte de 10 milhões de pessoas a cada ano. Há 10 anos, com a gripe das aves, os noticiários nos inundaram de informações e ela só causou a morte de 250 pessoas, em 10 anos. Vinte e cinco mortos por ano. A gripe comum mata meio milhão de pessoas por ano.
Será que por trás disto há só o interesse com a saúde ou há interesses econômicos por trás disto? Eu não tenho dúvida alguma.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

OUVIDORIA, SURDORIA OU DEFENSORIA?

www.inhauser.com.br / marcos@inhauser.com.br
Tal como inúmeros outros brasileiros, achei que o estabelecimento de ouvidorias em empresas privadas e do setor público fosse algo que tivesse vindo para funcionar. Acreditando nisto, nos últimos anos tomei do meu tempo e paciência para entrar em contato com esta gente e colher os resultados.
Desta minha crença devo dizer que tive mais aborrecimentos e decepções que resultados. Por três vezes acionei a Agencia Nacional de Transporte Terrestre – ANTT, duas delas com casos graves e nunca tive sequer uma resposta ou forma de acompanhar o andamento das coisas. Outra vez acionei a ARTESP – Agência de Transporte do Estado de São Paulo, recebi um protocolo, liguei várias vezes e nunca recebi uma informação precisa ou conclusiva sobre o meu pleito.
Quando saiu a lei que regulamentou o Serviço de Atendimento ao Cliente, estabelecendo prazos rígidos para o atendimento e multas para os infratores, liguei para a ANATEL e fiquei mais de 45 minutos esperando que me atendessem e nada. A mesma que regulamentou o serviço é a que descumpre as regras.
Estes dias, por causa de um problema com plano de saúde, e ainda acreditando na coisa, tentei a Agência Nacional de Saúde e fui informado que não tratam de questões particulares, mas só com a questão institucional do relacionamento cliente e empresas.
Alguém pode argumentar que todas são estatais e que não se pode esperar nada de um governo que está se lixando para as regras, haja visto que mudou as leis das concessões de telefonia para que houvesse a fusão Oi/BrasilTelecom, que politizou os cargos que deveriam ser ocupados por técnicos e colocou gente que não sabia de nada do setor, como é o caso do Milton Zuanazzi na ANAC – Agência Nacional de Aviação Civil. Estou citando um para não ficar listando sindicalistas e apaniguados lotados em cargos para os quais não estão habilitados.
A minha conclusão é que, no setor público tem-se Surdorias.
No setor privado, se não é uma Surdoria, é Defensoria. Cansei de ligar para o Omdundsman da Telefônica, ouvidoria da Net, ouvidoria da Vivo e me decepcionar. Estes até que dão certo seguimento e ligam de volta para relatar os procedimentos tomados. Invariavelmente defendem suas empresas e acabam jogando o problema para escanteio ou no colo da gente. O mesmo se deu com a Ouvidoria de um Plano de Saúde. O atendimento local mudou prazos, atendeu mal, disse que não tinha chegado o documento solicitado e quando liguei para a Ouvidoria o dito cujo milagrosamente apareceu, se negaram a carimbar um papel impresso por eles, e depois a Ouvidoria me liga para dizer que seguiram os procedimentos e o culpado era eu.