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quarta-feira, 28 de setembro de 2016

MUDANÇAS À VISTA?

Atribui-se a Churchill a frase de que a democracia é um péssimo sistema de governo, mas ainda é o melhor que conhecemos. Tenho que concordar com ele, especialmente quando se considera que a democracia é feita por eleições baseadas no poder aquisitivo dos candidatos, o que permite maior exposição e chance de ser lembrado na hora do voto.
Com as mudanças havidas na legislação brasileira impedindo a doação de empresas, estabelecendo teto de gastos segundo as cidades, fazendo o cruzamento dos dados de arrecadação com o CPF dos doadores, algo mudou na forma eleitoral brasileira. No entanto, ainda não são mudanças radicais, haja visto que o ex-prefeito de Campinas, que tem seus direitos políticos cassados, apresenta-se como candidato e consegue manter a candidatura sabe lá Deus como.
Neste novo modelo de arrecadação via contribuição de pessoas físicas, já se sabe que muitas maracutaias foram feitas e que mais ou menos 30% das contribuições são questionáveis: mortos doando, gente com bolsa família doando, funcionários de prefeituras doando o salário integral, um candidato do Paraná que deu para a sua campanha mais do que todo o seu patrimônio declarado.
Acredito que mais maracutaias aparecerão. Explico-me com este exemplo. Na minha declaração de Imposto de Renda do ano que vem não declaro nenhuma contribuição partidária ou para algum candidato. Se algum candidato, inescrupulosa e sorrateiramente, usou meu CPF para declarar alguma contribuição, a Receita virá por cima de mim. Como provar que não dei? Se fosse para provar que dei, teria um recibo. Como não tenho como provar a inexistência, corro o risco de ser tributado pelo que não doei.
Com estas que já apareceram e outras que aparecerão, com candidatos semi ficha suja (estão condenados em primeira instância), com verdadeiros 171 se apresentando como éticos e probos e com poder de fogo na mídia, com vereadores carregados de assessores pagos com dinheiro público, prefeitos com centenas de cargos comissionados a garantir votos próprios, dos familiares e na cabala, fica difícil haver uma mudança radical no cenário político municipal.
Há que considerar-se ainda que os deputados estaduais e federais se envolvem de cabeça nesta eleição, porque dependem dos vereadores e prefeitos para conseguir votos nas suas respectivas eleições.
É verdade que o terremoto que se abateu sobre a classe política, especialmente sobre o PT, PP e parte do PMDB, fez com que houvesse um rearranjo de forças, especialmente nas eleições dos prefeitos das capitais. Estas mudanças implicarão em um novo arranjo político na macro política, ainda que não se deve desprezar a capacidade dos profissionais do voto de se articularem para sempre estar por cima. São surfistas do poder: sempre pegando a onda.
Tenho esperanças, mas prefiro ser realista. Haverá mudança, mas não no tamanho que a população espera e nem na medida que se precisa ter. Mas, antes algo que nada!!
Marcos Inhauser

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

MUDARAM A MOSCA, MAS …

Sai uma, o Eduardo Cunha, mas o monte permaneceu. E a mosca que o substituiu tem o mesmo DNA da mosca antecessora.
A certeza veio da maracutaias celebrada na segunda-feira próxima passada, com as bênçãos do Rodrigo Maia e do Renan, para a aprovação, por baixo dos panos, de um projeto de lei prá lá de safado: anistiar deputados que fizeram caixa dois nas campanhas. Por ser beneficioso, a sua aplicação pode ser retroativa. E todos os desmandos das campanhas seriam colocados neste item.
O argumento do “caixa dois” foi o que se usou para diminuir a culpabilidade e a pena dos envolvidos no mensalão. Se o dinheiro usado é lícito e de boa origem, por que o esconder com subterfúgios contábeis? A quem interessa esconder os recebimentos e pagamentos? Quantos ficaram ricos com as “sobras de campainha”?
A prevalecer esta maracutaia, as doações com propina feitas aos partidos e candidatos, serão “caixa dois” e anistiadas por lei feita de encomenda e para benefício dos próprios legisladores. É o criminoso se inocentando por sentença auto-proclamada.
E quem estava neste rolo? A julgar pelas notícias que vieram à luz, parece que quase todos os partidos, representando os impolutos deputados e senadores que se valeram e ainda se valem dos descaminhos para se reeleger. Com estas artimanhas e patranhas, percebe-se e sabe-se hoje porque é tão difícil renovar a Câmara e o Senado. Além do salário, tem as verbas mil, e um monte de aspones para sair a campo e trabalhar a candidatura do chefe, forma de garantir a continuidade no emprego. Concorrer com eles, sem as verbas, a visibilidade na televisão pública, sem a capacidade de legislar em causa própria, renovar é tarefa tão hercúlea quanto carregar o mundo nas costas.
Espetáculo de igual fedentina se deu e se concretizou no fatiamento da votação do impeachment. A artimanha engendrada nos bastidores e negociada com o presidente do STF (a julgar pelo que se descobriu e noticiou). Ele foi chamado de ato vergonhoso por um ministro do próprio STF e de algo estranho por outro.
Quando a Justiça Eleitoral, que já a chamei de ELENTOral, começa a dar sinais de que está se modernizando e usando dos meios eletrônicos para flagrar em tempo real as maracutaias de candidatos à eleição e reeleição; quando, antes mesmo do pleito, já se flagrou defunto doando para candidato; beneficiário de bolsa família contribuindo regiamente para as campanhas de candidatos e nem conhecem; quando um deles deu para sua campanha mais que todo o capital que diz ter; quando vídeos mostram “pastores” em meios cultos, pedindo votos e orações para os candidatos por eles indicados; quando religiosos 171 se apresentam como ovelhas beatificadas, mas manchadas por processos de apropriação indébita e ações de despejo; quando a população tem participado denunciando a propaganda eleitoral irregular, a manobra dos deputados nesta segunda é deplorável, vergonhosa e digna de mafiosos.
A nota de destaque positiva é que, diante do clamor popular, ou diante do medo do clamor popular, a votação foi retirada de pauta. Uma vitória temporária, porque, com certeza, aparecerá como emenda jabuticaba em alguma medida provisória, tal como já ocorreu inúmeras vezes.
Cabe a nós população vigiar e orar, porque os ladrões nos assaltam a toda hora. Se antes se dizia que não se sabe a hora em que ele vem, agora se sabe que a cada sessão da Câmara ou do Senado ou de ambas no Congresso.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

DUAS MUDANÇAS SIGNIFICATIVAS

A data de 12 de setembro poderá ser lembrada no futuro como sendo o dia em que duas mudanças significativas ocorreram no cenário brasileiro. A saída do Lewandowsky da presidência do Supremo Tribunal Federal e a cassação do Eduardo Cunha.
Quanto ao primeiro, quem me lê com certa assiduidade, sabe que sempre o critiquei e afirmei que ele não tinha postura e competência para assumir um cargo no STF, muito menos na presidência da corte. Sua atuação no processo do Mensalão, a meu ver, sempre foi criticável e atenuante, como para eximir os envolvidos de suas culpas e responsabilidades. Se já não gostava dele, tenho hoje ainda mais motivos para manter-me nesta posição, em função da sua escorregada como presidente do STF e condutor da votação do impeachment, ao permitir o fatiamento da decisão. Versões e mais versões dão conta de que o assunto foi tratado/negociado com ele de antemão e há quem veja neste seu ato, um agradecimento a quem o indicou ao STF.
A sua substituta, pelo menos, tem mais seriedade e menos apreço aos holofotes (coisa que o Gilmar Mendes e o Marco Aurélio adoram). Sua saudação ao povo brasileiro é fundamental em se tratando de uma corte onde o povo quase nenhum acesso tem, pois ela tem tratado muito mais de assuntos pertinentes aos poderosos e ricos. Fico em polvorosa com o seu vice, futuro presidente o Toffoli. Que a saída do Lewandowsky seja também a saída da justiça feita sob a luz dos holofotes.
Quanto ao Eduardo Cunha, tudo o que se diga, ainda é pouco. Com uma capivara que se estende desde as primeiras aparições na vida pública, ele representa um tipo de fazer política que deve ser apagado e escorraçado da vida nacional. Os rolos na Telerj, o convite para que fosse tesoureiro no RJ da campanha do Collor, seus métodos de intimidação e clientelismo (haja visto a afirmação feita a um dos delatores e por este trazido a público de que sustentava mais de 200 deputados), sua inteligência maquiavélica e maldosa, os arroubos na defesa sem nunca provar o que diz (nunca mostrou uma só lata da carne que diz ter vendido; nunca permitiu o acessos aos passaportes que, segundo ele, comprovariam as suas idas ao país africano, nunca mencionou um só dos seus clientes), suas falaciosas argumentações para provar que o que é seu não é seu, que Trust não é conta, no que pese governos suíços e brasileiro, em várias instâncias assim afirmarem.
Auto apresentado como evangélico (ainda que nunca soube conceitualmente o que este termo significa), trazia suas mensagens, tem 228 sites (ejesus.com) e gasta mais de R$ 11.000, por mês para hospedá-los. Muitos destes são de cunho religioso como, por exemplo: youtubejesus.com.brfacebookjesus.com.br e gmailjesus.com.br. Sites de compras coletivas também ganharam versão religiosa. É o caso docrenteurbano.com.br e do shoppingjesus.com.br.
No seu afã de vincular seu nome à uma denominação, não teve escrúpulos em fazer doação suspeita a uma Igreja da Assembleia de Deus, que está sob investigação. Ele não teve escrúpulos para colocar a esposa e filhas enrascadas nas suas falcatruas. Atrevido nas suas investidas ao dinheiro público, cruel no trato com quem lhe deve, ardiloso ao ponto de usar seu computador para fazer petições intimidatórias e dar para uma assecla assinar e apresentar, cínico no seu sorriso e argumentação, ofensivo ao ponto de voltar as costas a quem dele falava, Eduardo Cunha é exemplar da pior espécie de político.
Que sua cassação e afastamento da vida pública seja também o afastamento desta forma de se fazer política.
Marcos Inhauser


quarta-feira, 7 de setembro de 2016

ERROMENÊUTICA

Não é a primeira vez que ouço sermão ou leio textos que trabalham sobre o tema do amor na Bíblia e que o mesmo tipo de má interpretação acontece. Refiro-me ao clássico texto do “amarás ao Senhor teu Deus sobre todas as coisas e ao teu próximo como a ti mesmo”. O erro está no fato, costumeiramente praticado, de ver no texto três mandamentos: amar a Deus, ao próximo e a mim mesmo, como se fossem três coisas distintas e que se pode observar por parcela ou na integralidade segundo uma escala de valores.
Há não muito tempo estive em uma igreja como visitante e outra vez ouvi o descalabro desta erromenêutica. Afirmou o “pregador” que Jesus nos ensinou três coisas essenciais à vida cristã e que as três devem ser observadas em ordem. Primeiro, disse ele, temos que amar a Deus. Se não O amamos antes de tudo e sobre tudo, não estamos habilitados a amar a nós mesmos e ao próximo. Só depois de cumprido este mandamento estaremos aptos a passar para o cumprimento do segundo mandamento. Afirmou ainda que é possível amar a Deus sobre todas as coisas e não amar ao próximo e a mim mesmo. Seria uma obediência parcial, mas válida.
Neste momento, em mais uma prática da erromenêutica e da má fé, inverteu a ordem do texto e disse que, em segundo lugar, devemos amar a nós mesmos. Como condição para isto, devemos estar conscientes de que Deus nos fez como somos, devemos amá-lo sobre todas as coisas e entender que, criaturas de Deus feitos à sua imagem e semelhança, devemos nos amar.
Quando cumprimos a primeira e segunda partes do tríplice mandamento, podemos e estamos habilitados para amar ao próximo. Não podemos amar ao outro se não nos amamos e não conseguimos nos amar se não amamos a Deus.
Não preciso dizer que a esta altura eu já estava na ponta dos pés para sair dali. Mas aguentei firme e ouvi a pérola: “amar ao próximo é o último dos mandamentos essenciais da vida cristã. É possível ser verdadeiro cristão cumprindo os dois primeiros”.
Pasma-me a negligência teológica e prática das igrejas no amor ao próximo. Se no Antigo Testamento os dízimos trazidos à Casa do Senhor eram para que mantimento houvesse para suprir aos necessitados, hoje a ênfase é na compra dos equipamentos de som, no ar condicionado, no pagamrntos das horas de televisão ou rádio, na reforma, na suntuosidade e pouco ou nada se faz pelo necessitado. Algumas montam uma cesta básica por mês e acham que já fizeram a sua parte social.
O mandamento é único e indivisível. Não há como amar a Deus sem me amar e ao mesmo tempo amar ao próximo. Se amo ao próximo e por ele faço o que precisa ser feito, passa a amar-me e amo a Deus que o fez a mim também. Como posso amar a Deus a quem não vejo se não amo meu irmão a quem vejo, pergunta o escrito da carta joanina. Colocar uma hierarquia na obediência do mandamento, fazer do único mandamento um picadinho de mandamentos, estabelecer prioridades no amor, é erromenêutica, coisa de analfabeto bíblico e teológico.

Marcos Inhauser

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

NÃO SOUBE PARAR

Em viagem, passei o dia de sábado em quarto de hotel, com chuva e vendo o desenrolar das coisas no Senado. Ouvi cada pergunta e cada resposta. No domingo li o que eu pude sobre o processo de impeachment, ouvi programas específicos com especialistas e análises. Nesta segunda, assim que voltei ao hotel, tive a pachorra de ouvir na íntegra o discurso da Dilma, assim como peguei algumas das respostas que a Dilma deu às perguntas de senadores.
Há neste processo algumas coisas que quero salientar e comentar nesta coluna. A primeira é que, passados vários meses insistindo no mesmo discurso de golpe, os aliados da presidente não conseguiram reverter um só voto. Isto ficou claro na votação para a admissibilidade do processo e na votação na comissão. A proporção foi a mesma.
A segunda é que, no que pese todo o esforço feito, pouca ou nenhuma explicação plausível foi dada para os fatos apontados e denunciados. A tese do golpe foi repisada mil vezes, sem que nenhuma novidade fosse adicionada. Como diria o Einstein (ao menos é a ele que se atribui a frase): nada mais idiota do que esperar resultados diferentes fazendo sempre as mesmas coisas. Foi o que ela e seus aliados fizeram.
A terceira é que a tropa de choque no Senado foi histérica e histriônica. As atitudes, os comportamentos e as atuações das senadoras Gleisi e Graziotini, e do senador Lindenberg foram causadoras de uma atitude de defensiva e recusa de qualquer possibilidade de se dialogar.
A quarta é que não se esperava que a presidente fosse pessoalmente ao Senado se defender. Ela o fez. E o seu discurso lido foi um posicionamento claro, coisa não comum nas falas da presidente. Se ela tivesse parado e ficado nele, teria conseguido desmontar muita coisa. Ela, no entanto, cedeu à tentação de responder às perguntas. Aí a coisa se complicou.
Eu me explico. Se ela tem alguns neurônios na cabeça e se tem ouvidos para conselhos, deveria ter feito o discurso e se retirado. Ela sabe e todos sabem que a votação está definida. Ela sabe e todos sabem que não vai se reverter o resultado previsto do processo. Se ela sabia que não mudaria os votos e o resultado, porque insistir em responder perguntas? Será que havia nela e no grupo a veleidade de que poderiam mudar as coisas? Se ela tivesse denunciado que estava ali em um julgamento que já havia se definido há tempos, por que ela não acentuou a característica de jogo marcado do julgamento?
Teria marcado posição, teria feito um discurso para a história e deixaria a sala se recusando a participar de uma coisa pró-forma. Teria sido mais contundente se recusasse a responder aos questionamentos. Do bom discurso inicial ela passou a um péssimo desempenho ao responder as perguntas, assumindo o tom arrogante, professoral e a insistência nas expressões “eu acho”, “estou convencida”. Nada de mea culpa para uma recessão de magnitude nunca antes vista, para a insistência em manter o eterno ministro das desgraças econômicas, o responsável pela “contabilidade criativa” (Mantega, que não está sendo julgado pelas lambanças que fez). Nenhuma menção a Lula, ao PT, aos apoiadores enrolados com a justiça (Lindenberg, Gleisi, Wagner, Mercadante, Lula, Humberto Costa, e outros mais).

Ela não soube parar. Falou mais do que devia e a sobriedade e sabedoria ensejavam. Foi verborrágica de uma tese só: repetitiva e irritante.
Marcos Inhauser