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quarta-feira, 29 de maio de 2013

É IXTRANHO!

Lembrei da frase do Zagalo, no seu peculiar jeito de falar, ao ouvir as lambanças ocorridas com a Caixa e o Bolsa Família: “é ixtranho, muito ixtranho.”
É estranho que um banco do porte da Caixa, que administra o Bolsa Família, que tem impacto sobre milhões de pessoas, decida fazer o depósito antecipado da parcela mensal. Que me perdoem os ingênuos, nunca vi banco favorecer a vida de ninguém, muito menos dar dinheiro antes da hora.
É estranho que o depósito tenha sido feito sem notificação aos interessados e sem que se prevesse a comoção que isto poderia causar.
É estranho que se diga que foi boato o fato de que beneficiários tenham acessado na sexta o seu extrato e tenham visto o depósito antecipado e não tenham acreditado em um “presente da Dilma”, pois certamente estavam acreditando que no dia determinado, uma nova parcela seria depositada. Lógica simplista de quem vive das migalhas do governo.
É estranho que uma ministra do governo tenha atribuído à oposição a onda de boatos, sem ter em mãos a mais mínima informação, sendo obrigada a desdizer o que disse, alegando que o que disse não queria dizer o que foi dito.
É estranho que o vice-presidente da Caixa tenha vindo a público dizer que havia determinado a antecipação das parcelas para fazer frente à onda de saques que houve, como forma de aliviar a tensão social que o fato gerou. Mais tarde veio com a história de que, quando determinou a antecipação, ele não tinha a informação de que ela já havia sido feita.
É estranho que o presidente da Caixa venha a público afirmar que não era do seu conhecimento a antecipação das parcelas e que, por isto, demorou uma semana para trazer explicações, uma vez que precisava levantar todas as informações necessárias para o esclarecimento.
É estranho que dois bilhões de reais (que é o total conhecido do Bolsa Família) seja antecipado, sem que o vice-presidente e o presidente da Caixa tomassem conhecimento do fato inusitado.
É estranho, muito estranho, que a razão para tal antecipação seja a atualização do sistema feita entre março e abril deste ano e que, de acordo com Hereda, a Caixa identificou 700 mil a 1 milhão de beneficiários portadores de mais de um Número de Identificação Social (NIS). Com a atualização, essas pessoas passaram a ter apenas o número mais antigo do NIS, o que poderia gerar confusão na hora do pagamento, segundo o presidente.
É estranho que ele não tenha explicado se a duplicidade do NIS implica e duplicidade de pagamentos. Se assim for, dizer que o Bolsa Família seria cortado não é boato. Por outro lado, como pode um banco que administra estas contas permitir que no mínimo 700 mil inscrições tenham sido feitas em duplicata?
É estranho que a presidente Dilma tenha dito que era “desumano e criminoso” o que estava acontecendo e que, agora, se sabe, foi gente do seu governo que aprontou a lambança.

É ixtranho, muito ixtranho.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 22 de maio de 2013

NÃO UM ZÉ: O ZÉ


Eu o conheci há mais de 30 anos. Estávamos em um encontro e um dos preletores faltou. Foi quando ele disse que tinha um texto que poderia ser lido. Nunca me esqueço: O Primeiro De(s)maio, um trocadilho sobre as condições do trabalho e o dia primeiro de maio, dia do Trabalhador.
Depois disto nos encontramos incontáveis vezes, seja em reuniões, conferências, seminários ou tomando um chopp. Cada vez que eu o ouvia falar e compartilhar suas ideias minha admiração por ele crescia.
Por duas vezes eu tive a honra de apresenta-lo como conferencista. Falei o que pensava dele: uma cabeça brilhante, um poeta, um artista das palavras e dos conceitos, hábil no uso das metáforas, etc.
Certa feita eu o convidei para falar sobre a história do pensamento humano (não podia dizer que era história da filosofia porque o auditório religioso era extremamente conservador). No caminho para o salão encontramos uma senhora e eu o apresentei como Doutor José. Ela mal tinha se afastado ele me deu uma bronca: “Marcão, não quero mais que você me apresente do jeito que você faz. Quando você for me apresentar, diga que sou o Zé. Nada mais.” “Mas Zé...” tentei retrucar e ele foi enfático: “Só Zé. Nada mais. Entendido?”
Eu já tinha preparado o discurso de apresentação. Ia dizer que era autor do livro Corpoética, Cosquinhas no Umbigo da Filosofia, Papo de Boteco e outras coisas mais. Fiquei mudo. Fiz o que ele me pediu: “aqui está o Zé”.
O grupo cantou um hino que dizia: “é mui certo que a gente tropeça, por isso Senhor, eu preciso de ti./Bem sei que nas preces eu posso buscar-te / Jamais dessa bênção na vida eu descri, / Contudo, é possível que eu dela me aparte / Por isso Senhor eu preciso de ti.”
Ele começou dizendo: “este sou eu. Já tropecei, já me apartei. Peço a vocês para não acreditarem no que vou dizer, mas que examinem e só aceitem aquilo que entenderem ser certo.”
Começou com os pré-socráticos e veio desfilando até o existencialismo. Eu estava abismado porque o auditório, que eu tinha certeza teria resistências, estava participando, fazendo perguntas, etc.
No período da tarde veio o segundo preletor. Começou dizendo que queria fazer algumas observações sobre o que o Zé havia dito, porque podia dar lugar a interpretações heréticas. E começou a desfilar um rosário de certezas e jactância.
Uma hora de palestra do segundo orador, o presidente do grupo veio até mim e perguntou: “Não dá para fazer este cara calar e colocar o Zé no lugar dele?”
Perguntei ao Zé, depois, porque não queria que o apresentasse da forma como queria. Ele me disse duas coisas que me marcaram: “primeiro que você exagera. E quando você exagera as pessoas ficam esperando a fala de um gênio. E eu não o sou. Dizendo que sou o Zé, qualquer coisa que vier depois disto é lucro.”
Não vou dar o nome completo dele para não levar outra bronca. Mas quem quiser saber quem é, me escreva que eu conto. Isto o Zé não pode me proibir....... E o faço como gratidão pelo muito que com ele aprendi e tenho aprendido. 
Marcos Inhauser

quarta-feira, 15 de maio de 2013

PODER DIVINO?

Mal tinha enviado para a redação a coluna na semana passada, na qual fazia algumas reflexões sobre o poder, entre elas a de que “nada mais terrorista que o poder exercido em nome de Deus” e surge a notícia de que o “pastor” Marcos Pereira estava sendo preso por ter, supostamente, abusado sexualmente de fiéis da sua igreja. Segundo as notícias veiculadas, ele promovia cultos de exorcismo e dizia a algumas fiéis que o demônio só sairia delas se mantivessem relações com um homem santo, no caso, o próprio “pastor.”

O argumento, ao menos para mim, não é novo. Nos idos anos 80 ouvi de mais de uma testemunha, de uma profetisa na cidade de Jaú que revelava o tal “mandamento da carne”, onde fulano deveria transar com cicrana, porque esta era a vontade de Deus. A mesma coisa ouvi depois como prática em outros círculos “proféticos”, dando-me a sensação de ser algo usual em determinados círculos.
Já mencionei aqui há algum tempo (Desequilíbrio de Poder) que estudos feitos sobre os casos de violência sexual sempre mostram uma relação desigual de poder, onde os abusadores, no exercício de sua autoridade, impõe suas vontades sobre as partes mais fracas. Também afirmava que, no campo do religioso, esta desigualdade do poder se estabelece quando o religioso se apresenta como revestido de “autoridade espiritual”, o que facilita a investida sobre a presa de sua sanha sexual. Uma “cantada” de um religioso é mais efetiva que a de um cidadão normal. Há nisto a mística de estar se relacionando com o sagrado, com alguém mais próximo de Deus, uma elevação espiritual pelo sacrifício da entrega do corpo, de orgasmo mais pleno porque feito com a santidade. Há o caso (sem o mesmo destaque na mídia) de pastor que Deus revelou que as mulheres dos membros da Diretoria da Igreja deveriam ser acessíveis e acabou sendo flagrado no escritório pastoral com uma delas.
Neste contexto fica mais fácil entender como pais e familiares próximos são os maiores violadores das crianças e como a pedofilia ganhou níveis epidêmicos no seio da religião. Atendi certa feita uma pessoa que foi abusada pelo pai evangélico que usava o mandamento do “honra teu pai” e o texto “filhos, em tudo obedecei vossos pais, porque isto é justo” como forma de obrigar a família a ceder aos seus impulsos.
Há que lembrar-se que o agora acusado teve seus momentos de glória midiática quando apareceu no Fantástico, que lhe deu longos minutos de reportagem, apresentando-o como recuperador de viciados, negociador de rebeliões e salvador de pessoas condenadas à morte pelo tráfico. Talvez por causa disto, ele tenha conseguido as verbas públicas milionárias para seu “trabalho”.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 8 de maio de 2013

O PODER

Somo seres quer buscamos incessantemente o poder. Em todas nossas relações estabelecemos “nosso território” e buscamos ampliá-lo com negociações e artimanhas. A busca pelo poder é inerente ao ser humano e o altruísmo, quando acontece, pode ser que seja um investimento no longo prazo.
Há certas circunstâncias em que cedemos certo espaço de poder. Há povos que, vivendo em liberdade, quiseram ver a ordem estabelecida e esta superou e a liberdade e poder de exercê-la foi parcialmente suplantado.
Ninguém consegue viver sem um espaço de poder. A autonomia é necessária para que haja a individualidade. A ausência total do poder pessoal é a completa despersonalização. No entanto, como seres humanos, somos a somatória das obediências que prestamos a quem não podíamos e não podemos desobedecer. No fundo, sobrevivemos porque cedemos algo do nosso poder para figuras ditatoriais patriarcais, matriarcais, avunculares, professores, chefes, etiqueta, moda, etc.
Neste contexto deve-se ver a política. O império político tem o objetivo de manter a massa no limite mínimo da satisfação e abafar o clamor dos pobres e sofridos. Deputados, senadores, vereadores, governadores e quejandas não são deserdados. São eleitos porque têm cacife, tem poder anterior para lá chegar. E quando lá chegam buscam ampliar o seu espaço de poder.
A política existe para congelar o status quo. Daí porque, as Câmaras Municipais mais concedem honrarias que legislam mudanças. E quando elas ocorrem são cosméticas. Um governo sem atribulações, azeitado, sem greves, sem reclamações é o que todo governo quer. Ele busca manter e aumentar seu poder, usando de todos os artifícios disponíveis, não importa se éticos. E para legitimar esta sua ânsia, usa do processo educativo e da propaganda oficial para persuadir os dominados a aceitar a dominação, via consenso ideológico. É um processo de acomodação e domesticação das classes, especialmente as emergentes. Talvez com isto se possa entender porque no Brasil não se permite a “educação em casa” (home schooling). Seria ter gente pensando fora do consenso ideológico.
Nada mais terrorista que o poder exercido em nome de Deus. O fanatismo religioso, na história da humanidade, é o responsável pela maioria das mortes violentas. Se o poder do monarca vem de Deus, nada nem ninguém irá suplantá-lo ou diminui-lo. O “poder divino” cria messias, iluminados, fazedores de milagres e ladrões do povo via ofertas religiosas e dízimos. Cobra vidas como é o caso dos fanáticos muçulmanos. Quem tem olhar crítico sobre estes “poderosos divinos” é tachado, até mesmo pelos domesticados, de herege.
No âmbito da sociedade são tachados de revolucionários, antissociais, guerrilheiros, esquerdistas. Usam dos meios de comunicação (que está nas mão dos poderosos) para vender esta ideia aos dominados que, consensualmente, aceitarão a versão oficial e a outra como subversão.
Marcos Inhauser

FERVENDO
As relações entre os poderes da República não andam nada harmônicas e estão ferevendo. Soube-se, dias antes do início do julgamento do mensalão, que o ex-presidente da República tentou chantagear um dos integrantes do STF. Mais tarde, soube-se também do périplo do ministro Fux em suas visitas a autoridades, no objetivo de conseguir a sua indicação para o Supremo e que o fizeram na esperança de que seu voto fosse favorável aos mensaleiros. Não sendo, foi xingado e execrado pelos filiados ao partido governante. Os votos do Toffoli não convenceram ninguém da imparcialidade que um juiz deve ter.
O Planalto andou tendo algumas derrotas no Congresso e a sua base de articulação, qual centroavante irregular, tem errado o gol na hora agá. Em outras, jogo com o rolo compressor e arranca vitórias que evidenciam interesses nada republicanos. Nos últimos dias vimos esta máquina de votação passar o rodo e levar ao plenário a limitação (ou a criação de obstáculos mil) para a criação de novos partidos, naquilo que se pode definir como animus legendi, quando uma lei é feita com o objetivo de alcançar alguém específico, no caso a Marina da Silva e sua Rede de Sustentabilidade. Também limita as articulações do Eduardo Campos, provável candidato do PSB à presidência.
O PSDB bateu às portas do STF e conseguiu liminar para suspender a tramitação do projeto, por entender ser inconstitucional. O Gilmar Mendes (que deve ganhar por liminares e habeas corpus que expede), concedeu e a grita no legislativo foi grande: o judiciário está se metendo nas atribuições do legislativo. Veio a desforra: o legislativo propôs que algumas questões votadas pelo STF, mesmo pelo seu pleno, sejam referendadas pelo Congresso. Em outras palavras, o STF estaria sub judice do legislativo. A grita foi geral pois, inclusive assim acho também, isto cheira a golpe.
Agora vêm os impolutos Calheiros e Alves com a conversa iniciada pelo Maia quando presidente da Câmara, de que o que se quer é delimitar com precisão as atribuições de cada poder, para que as relações sejam mais harmônicas e a coisa pública ande com mais celeridade. Isto me cheira raposa se candidatando a xerife do galinheiro. A continuar assim, vão propor a extinção da Procuradoria Geral da República, dos Tribunais de Contas e a Controladoria Geral da União porque andam “criando problemas”para a aplicação das verbas parlamentares.
Aliado a isto está a proposta da votação em listas feita pelo partido e não mais em candidatos. Só vamos poder votar no bloco! Não me assustaria que um iluminado viesse com a proposta de acabar com as eleições em função dos altos níveis de popularidade do Lula e Dilma, o que evidencia a aceitação popular e a efetividade de seus governos.
Seria a realização do sonho do companheiro Zé Dirceu e seus aspones.
Marcos Inhauser