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quarta-feira, 27 de julho de 2011

DÁ PARA EXPLICAR?

Já confessei aqui, mais de uma vez, que sou analfabeto de pai e mãe no que à economia se refere. Mal sei fazer as contas de entrada e gastos. Já me esforcei, mas cheguei à conclusão que não entrei na fila quando Deus distribuiu a inteligência econômico-financeira. Por causa disto, há coisas que dão nó na minha cabeça. Eu não consigo entender como um deputado investe uma baita grana para se eleger se o que vai receber de salário e aditivos não paga nem metade do que gastou. Fico admirado com o espírito público deles: pagam para representar o povo! Também não entendo como uma pessoa que tem um salário mais ou menos igual ao meu consegue construir em dois anos uma casa de 2,5 milhões! Nem como se consegue multiplicar o patrimônio vinte vezes em dois anos. Nem como sendo tão analfabeto quanto eu (ainda mais, porque come todos os “s”), consegue que lhe paguem duzentos mil para ir falar abobrinha. Agora estou sem dormir tentando entender o rolo da Grécia e Estados Unidos. Nem com dormonid estou conseguindo. Como pode um país gastar com gastos públicos mais do que arrecada, torrar 200 bi da ajuda, receber ainda mais 160 e estar tecnicamente no calote? Como pode ser calote e o pessoal dizer que a coisa foi resolvida? Por que a população tem que pagar a conta sozinha se os grandes investidores fizeram uma jogada de risco? Se ganhassem era bolada só deles. Perderam, socializam o prejuízo. Na outra ponta está os Estados Unidos. Os Republicanos, capitaneados pelo Lula gringo que foi o Bush, sofreram ataque dos radicais do Bin Laden. Coisa de uma dúzia de doidos. Na lógica do império e da família Bush, o Afeganistão devia pagar pelo crime, porque o Bin Laden tinha sua base no território deles. Morreram milhares e nada do indigitado. Gastaram fortunas e nada. Não contentes, inventaram a mentira das armas químicas que o Hussein teria em seu poder, invadiram o Iraque, gastaram outra bilhonada, autorizada pelo congresso republicano. Eles se enterraram até o pescoço em dívidas e agora querem que a conta seja paga pelos Democratas e, indiretamente por todo o mundo, por causa da repercussão sistêmica que tal default causará. Exigem cortes de bilhões na saúde, educação e outros itens importantes, mas não vejo cortes nos gastos militares. Fazem a sujeira e agora querem limpar com as mãos alheias para que, na próxima eleição, possam desfilar de paladinos dos gastos públicos. Fica a sensação de que políticos em todas as partes são iguais. Aqui é o PR se locupletando no DNIT e VALEC, o PMDB nadando de braçadas no setor energético, o PT mamando em todas as tetas que pode. Aparece a eleição e vão todos repetir o mesmo discurso centenário. Leio que o gasto público brasileiro está aumentando a cada mês e que a coisa não está mais feia é porque estão fazendo a receita crescer. Mais impostos arrecadados, mais gente pagando, menos dinheiro na praça, para que as primeiras damas municipais possam tirar um naco de alguns milhões. E eu, e você, e nós, sofrendo para fechar as contas. Cortamos na carne, para que outros engordem suas contas. Reduzimos ao máximo o conforto pessoal, para que o governador vá com a família de jatinho passear nas Bahamas. Alguém pode me explicar como é isto? Marcos Inhauser

terça-feira, 19 de julho de 2011

$OMO$

Há um crescimento do economicismo, noção de que o valor de qualquer coisa é dado em termos econômicos. Esta ideia domina a mentalidade com a qual as pessoas se aproximam de qualquer evento como transação e até mesmo umas das outras. Toda coisa deve ter uma etiqueta de preço. Está presente em praticamente todas as atividades. Ter um bebê, ouvir música, ir à igreja ou cuidar do meio ambiente são vistos em termos de “quanto custa”. Se uma atividade é caracterizada como “não-rentável”, o seu direito à existência é questionado. Se o que fazemos não traz retornos quantificáveis, nossa atividade é secundária e supérflua. Temos deixado esse valor penetrar em muitas áreas da sociedade. De alguma forma nós fomos levados a pensar nisso como algo normal. Medem-se negócios, atividades, assistência social, igrejas em termos de quanto custa e quanto retorno traz. Se o econômico é o aspecto mais importante de qualquer empreendimento ou ação, então, as pessoas mais importantes são os gestores. Mas como isto se aplica aos professores, aos psicólogos que trabalham com deficientes (o autista, por exemplo)? Qual o retorno econômico que se tem ao atender a uma pessoa necessitada por altruísmo e solidariedade? Estamos sendo treinados para ser gerentes que pensam sobre "produtividade", para atender aos orçamentos e metas, para fazer a escola "competitiva", para atrair os melhores alunos, para descobrir como reduzir custos, para gerenciar recursos exíguos. Isto é cada vez mais verdadeiro em toda as profissões, seja no trabalho de medicina, social ou na argumentação sobre investimentos (“isto daria para construir tantas casa populares”). A corrupção é julgada pela quantidade roubada e não tanto pelo fato de ter sido roubado. Ouvi estes dias que o que se desviou em Campinas dava para comprar duas companhias aéreas como a Webjet. Se quantificamos nossos atos, como podemos descobrir o que causa os crimes, ou educação deficiente ou os divórcios? Os crimes acontecem porque há gente pobre querendo um tênis mais sofisticado (quantia X quantia). A educação é deficiente porque os salários dos professores são baixos (quantia) e as escolas estão mal aparelhadas (quantia). Há mais divórcios hoje porque as mulheres tem mais chance de sobreviver do que tinham antigamente. Começamos a nos contentar com explicações superficiais e quantificadoras e passamos a acreditar que mais investimento melhora a educação, mais renda na sociedade diminui o crime, mais oportunidade financeira aumenta a taxa de divórcios. Para tudo precisamos de mais eficiência, melhor relação custo/benefício. Precisamos de mais competição para que os preços caiam. Temos que ser rentáveis e com este parâmetro temos de regular e controlar o comportamento humano. Quando questões importantes sobre as relações humanas são reduzidas a questões de gerenciamento do comportamento. As pessoas não estão mais sendo levadas a sério. O ser humano é mais que uma quantia, uma máquina de produzir ou consumir. Há mistérios humanos não quantificáveis. Como disseram os Beatles, o dinheiro não compra o amor. Uma bela cozinha planejada não faz mais feliz a ninguém. Uma bela casa pode dar conforto, mas não satisfaz o íntimo de uma pessoa carente de afeto. O problema mais profundo com o economicismo é que ele está fora de sintonia com as necessidades mais fundamentais dos seres humanos. O economicismo ensina que devemos amar coisas que as pessoas usam e não as pessoas que usam coisas. Estas considerações me fazem lembrar um amigo que esteve há alguns anos na sala da presidência de uma multinacional e viu um mapa mundi pedurado que não tinha a África. Ele perguntou por que o mapa não tinha o continente, ao que o presidente respondeu: “eles não contam para nós, porque é um continente que não consome o que produzimos; eles não existem para nós”. Marcos Inhauser

terça-feira, 12 de julho de 2011

NEM ESQUERDA, NEM DIREITA

Na minha adolescência a juventude li muito jornal. Era leitura obrigatória para mim o Estadão e o Jornal da Tarde. Li todos os Pasquins que foram publicados. Estudei em meio de gente que era pró e contra o governo da ditadura. Para mim era claro o que era ser de esquerda e direita. Fui estudar teologia. Comecei em uma instituição fundamentalista de ranço gringo, fui para uma totalmente alinhada com a Teologia da Libertação e também percebi as diferenças entre as teologias de esquerda e direita. Trabalhei com Direitos Humanos na América Latina, viajei à beça, andei por bibocas deste continente latino americano e vi o que governos de direita e ditatoriais podem fazer. Estive em Cuba e Nicarágua, esta na época da Revolução Sandinista e depois na Guerra da Contra. Era claro quem era de direita e de esquerda. Andei visitando igrejas por este mundo de meu Deus. Estive nas Américas, na Europa, Ásia e Oriente Médio, Havia uma clara distinção entre as igrejas e suas liturgias, entre as liturgias mais formais e as mais informais. Hoje estou perdido. Já não sei mais o que é ser de direita ou de esquerda. O PT, referência para a esquerda, se locupletou com a economia de mercado e com a corrupção, criando também o sindicalismo pelego. O PSOL e o PCdoB, que deveriam ser esquerda, tem discursos jurássicos. A teologia convergiu para a prosperidade, arrebanhando calvinistas, wesleyanos, luteranos, batistas, em um movimento de sobrevivência. Todos falam a mesma coisa. Os cultos nas mais diversas igrejas são iguais em forma e conteúdo. Os cânticos das igrejas históricas, pentecostais, neopentecostais e livres, são iguais. A estrutura inexiste em todas elas. As missas carismáticas em pouco diferem dos cultos pentecostais. Os pregadores midiáticos católicos copiam os evangélicos. A diferença entre o PSDB e o PT é retórica, o PMDB se junta a quem está no poder, o DEM quer ser oposição, mas se perde nos mensalões, o PDT se esfarela com o governo de Campinas e com o Paulinho FGTS, o PR mama no Dnit. A Dilma tira os dirigentes do Ministério do Transporte e continua tendo a camarilha do PR à frente do balcão de negócios das estradas e ferrovias. Os Estados Unidos estão a ponto de dar um calote, a Grécia quebrou, a Itália está indo para o buraco, Portugal já foi e a Espanha está a caminho. Fala-se da necessidade urgente de uma reforma fiscal, mas não se acha duas pessoas que falem a mesma língua. Só se consegue consenso dos políticos na hora de aumentar impostos. O governo não cumpre com sua função de prover saúde e educação à população que paga planos de saúde e escolas privadas. Agora, o governo quer receber dos planos pela sua ineficiência, cobrando quando um associado usa o sistema público. Paga educação privada com dinheiro que o governo cobra o Imposto de Renda. A coisa está empastelada (termo usado nas antigas tipografias para se referir aos tipos que se misturavam uns aos outros por queda da caixa e que ninguém mais sabia o que era um e outro), complicada, confusa. Resta-nos uma sensação de desorientação, impotência. Há uma convergência da esquerda com a direita, uma massificação das religiões, uma desorientação cidadã, um generalizado sentimento de desesperança. Estamos vivendo a grande depressão (alguns a chamam de tribulação) apocalíptica? Talvez. De uma coisa tenho certeza: necessitamos de novos céus e nova terra. Uma nova ordem, novos valores, nova sociedade. Enquanto isto, as indústrias farmacêuticas se lambusam nos lucros das vendas de antidepressivos, calmantes e estimulantes sexuais, porque ninguém é de ferro. Marcos Inhauser

terça-feira, 5 de julho de 2011

INDIVIDUALISMO

Há vários anos li um livro, que se não me galha a memória, se chamava “O que pensam os Batistas” de um de tal de Crabtree. A tese dele era que o individualismo é o alicerce para toda a formulação teológica dos batistas. Tenho identificado algumas mudanças culturais que afetam a forma como nos relacionamos, mudanças estas que não vem do nada. Elas se relacionam com os avanços da tecnologia, a evolução demográfica e as necessidades dentro da economia, e também com filosofias. E neste conjunto há uma mudança importante: o individualismo que foi parte das culturas britânica e americana, onde, ao final da grande guerra houve uma preocupação com o bem estar social, mas que acabou sucumbindo ao individualismo. O individualismo tem como tese sagrada a supremacia do indivíduo. Fala de escolha individual, direitos individuais, liberdade, propriedade privada, os quais, juntamente a outros conceitos, se tornaram regra na sociedade individualista onde o sucesso individual, a riqueza individual e lucro individual são valores deontológicos. Ofereceu o convite público para que milhões de pessoas se amassem mais do que a seus próximos. Aqui se encontra um dilema fundamental: torna-se cada vez mais evidente que uma perspectiva individualista é centrada em indivíduos fortes, pois são os que dispõem dos recursos e da unidade para buscar os objetivos da sociedade individualista. Indivíduos fracos são penalizados. Eles são passíveis de ser roubados do seu estado de "indivíduo" e agrupados em blocos sem identidade subjetiva. É uma queixa comum dos desempregados, pobres e desfavorecidos que eles são vistos simplesmente como “números”, “portadores de cartões que devem se ajustar ao sistema”, “pesos para o sistema”, sendo ônus para o Estado (vide INSS). É muito pesado produzir para eles. Esta condição parece estar presente mesmo naqueles que operam os serviços. O contato diário com as "falhas" de uma sociedade orientada para o sucesso pode endurecer as pessoas que trabalham com eles, por exemplo, na administração dos benefícios sociais. Suspeita-se que são ladrões em potencial ou parasitas. É fácil tornar-se insensível e indiferente às necessidades das pessoas quando elas podem ser agrupadas em uma classificação impessoal. Isto, inevitavelmente, tem afetado as relações pessoais. Ética sexual, vida familiar e lazer estão sob a influência do individualismo. Passou a ser a maior barreira à intimidade: pessoas que decidem que “primeiro eu, depois eu e se der..... algo para os outros”, podem acabar sós se perguntando porque são solitárias. A ironia do individualismo é que ele começa com uma preocupação declarada para a realização do indivíduo (através da escolha individual, direitos individuais, a soberania individual), e o resultado é quase sempre que o indivíduo é desvalorizado e isolado. Buscamos nossa privacidade e liberdade com paixão, não querendo qualquer dependência forçada sobre nós. Queremos ser livres para escolher as pessoas com quem nos relacionamos. Partimos da nossa própria família para criar a nossa própria vida privada, familiar nuclear, com uma casa particular, um carro particular, um escritório particular, e não contente com isso, nós queremos dentro de nossa casa um banheiro privado, telefone privado, televisão privada e assim por diante. E quando atingimos isso nos perguntamos “por que estamos sós” E aí vem a teologia individualista botar mais fogo nesta lareira, promovendo competições espirituais e minando comunhões, botando os nossos no céu e os outros no inferno. Marcos Inhauser