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quarta-feira, 30 de setembro de 2015

A CONTROVÉRSIA SOBRE A VERDADE

Há uma frase proferida por Jesus que já ouvi várias explicações e nenhuma delas me convenceu plenamente: “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. O problema é bastante complicado. Primeiro precisamos entender o que é verdade e isto já deu muito pano para manga, muitas páginas de livro e muitos seminários filosóficos, sem que se tenha chegado a um denominador comum.
No trato da questão da verdade há os céticos que afirmam que nada é verdadeiro ou falso, que tudo é igualmente verdadeiro e falso e que nunca se pode chegar ao conhecimento da verdade. Do outro lado do espectro estão os que pensam que, sim, se pode conhecer a verdade. Entre eles, entendo eu, está Freud, que entendia que nada é absolutamente irrelevante (tal como afirmam os céticos e os niilistas). Para ele, precisamos crer em verdades porque, caso contrário, se ela é irrelevante, deveríamos construir pontes com papelão ao invés de fazê-lo com concreto e pedras. Ele define aos que consideram a verdade como irrelevante como “anarquistas intelectuais”. Há coisas que creio como verdadeiros e construo minha vida sobre estas verdades.
Acrescente-se a posição dos relativistas: a verdade é relativa e o que é verdade para uma pessoa pode ser mentira para outra. Eles não acreditam no caráter objetivo da verdade, nem em sua natureza absoluta e imutável, uma vez que dependente do posicionamento subjetivo.
Deve-se ainda acrescentar os pragmáticos: a verdade é o que funciona. Alguns também a chamam de funcionalismo. A verdade só o é quando o que se afirma tem uma função prática e funcional.
Diante disto há ainda duas questões: o que é a verdade e o que é verdadeiro sobre uma situação especifica. Todos conhecemos a distinção entre a verdade por antagonismo com a mentira. Todos já mentimos e sabemos quando mentimos, porque faltamos com a verdade. Logo sabemos o que é a verdade. Então, a mentira é a falta de correspondência entre o que afirmo e o que faço ou creio. Por dedução lógica, se há esta correspondência, afirmo a verdade. Mas este falar honesto não me dá a credencial da verdade, porque posso falar o que penso e dizer a coisa de forma totalmente correspondente com o que faço e ainda assim não dizer a verdade. Para que a enunciação seja verdadeira, precisa haver uma correspondência entre o dizer, as palavras, o discurso e o pensamento e quem ouve, em sintonia com o que é dito, aceita o que lhe foi comunicado como sendo verdadeiro.
Ainda assim poder-se-á questionar que esta verdade é verdade para os dois ou mais pessoas envolvidas no processo. Pode-se concordar sobre a versão ou interpretação de um fato e ainda assim estar errado na interpretação.
Quem afirma que Jesus é a verdade e que ele, sendo a verdade, liberta tem em si, no bojo desta afirmação, questionamentos sérios. Se a verdade é ele, conhecer a ele é ser liberto. Mas qual dos Jesus devemos conhecer? O descrito nos evangelhos sinóticos ou na teologia joanina? Ou o Jesus das pregações paulinas? Ou o Jesus da tradição eclesiástica? O Jesus da leitura teológica, instrumentalizada com aparato crítico e exegese nas línguas originais, ou o Jesus da leitura simplista? Qual deles é a verdade?

Qual a verdade que liberta? A dos teólogos ou a da prática ingênua do que se crê como verdade?
Marcos Inhauser

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

TOLERÂNCIA NÃO É CONCORDÂNCIA

Ser intolerante é discordar e desaprovar. Não há como ser intolerante sem se posicionar contra o pensamento alheio, contra a diferença. A recíproca (tolerância = concordância) não é verdadeira.
Se sou intolerante eu tenho opinião formada sobre algo e não aceito que alguém possa ter opinião diferente. Isto se aplica à superioridade racial, religiosa, comportamental, sexual, etc. Por ser intolerante, quero que todos pensem igual a mim e só me alio aos iguais.
Por outro lado, se aceito que pode haver quem pense, aja, decida, seja diferente de mim, isto não implica, necessariamente, que concordo com a posição que o outro tem. Posso discordar respeitosamente, sem impor meu ponto de vista ao outro.
Olhando no retrovisor da minha vida, dou graças a Deus porque Ele me deu a chance de conviver com a diferença. Durante nove anos tivemos a Vera morando e trabalhando conosco. Ela era surda e muda. Tivemos o seu Pedro morando mais de um ano em nossa casa e ele era portador de hanseníase. Tivemos uma mulher indígena que trabalhou em nossa casa no Equador e ela tinha seus costumes bem diferentes dos nossos. Temos a Daisy morando conosco há quinze anos e ela é esquizofrênica.
Eu entendia e entendo a deficiência deles e nunca precisei ser tolerante com eles. Aprendi a lidar com as deficiências de cada um, da mesma forma como aprendi a lidar com as características de meus três filhos e da minha esposa e, com eles, também tive que “ser tolerante”.
Quando me relaciono com negros não preciso ser tolerante. Entendo, aceito e vivo a igualdade. A cor da pele não me obriga a ser tolerante. Eu aceito.
Há outras coisas que respeito, cultivo a tolerância, mas que não concordo. Entendo as diferenças religiosas, mas isto não significa que concordo com as doutrinas espíritas, budistas, islamitas ou judaicas. Respeito o direito de crerem diferentemente de mim, posso conversar, trabalhar junto, mas isto não quer dizer que concordo com o que creem ou pregam. Em muitos casos sou co-beligerante, mas não aliado.
Entendo a opção/orientação sexual, respeito, mas isto não quer dizer que concordo com o homossexualismo. Posso ter amigos e até pessoas que frequentam minha casa ou a igreja que se assumem homossexuais. Não tenho o direito de expulsá-los, de ofendê-los, de menosprezá-los, mas não posso por isto ser acusado de ser pró homossexual. Na minha vida já tive muitos homossexuais que vieram à igreja. Meu estudo de caso para o Doutorado foi com uma comunidade gay a qual pesquisei por quatro anos e fui expulso por eles quando eu disse que estava ali para estudar um caso e não para concordar.
Por outro lado, não concordar com algo não significa ser intolerante. Torna-se intolerância quando ofendo, agrido, busco constranger a ser igual a mim, imponho meus posicionamentos, uso de algum desequilíbrio de poder para forçar o outro a pensar como eu.
O fato de criticar coisas, governo, partido, igrejas, gurus evangélicos, estrelas do mundo gospel, políticos não é intolerância. É discordância. É usar da minha liberdade de pensamento e expressão. Ao expressá-la posso conseguir quem concorde comigo e quem discorde educadamente e isto é tolerância.

A agressão, a ofensa, a mentira são formas de intolerância!
Marcos Inhauser

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

CULTO CIDADÃO

O culto é a prática que reúne e dá direção para tudo o que fazemos como cristãos. É a realização prática e visível da fé, de tal forma que não se pode separar o culto da experiência completa da vida cristã. Tenho lá minhas dificuldades quando se adjetiva os cultos e se segmenta a experiência com rótulos como: Culto da Família, Culto da Benção, Culto de Evangelização, Culto da Prosperidade, etc. O culto é completo e nunca pode ser segmentado.
O culto cristão é e deve sempre ser a expressão holística da vida, de tal forma que o culto é a apresentação de nossos atos diários de amor ao próximo e exemplo para os demais, incentivando-os a também terem vidas de adoração. Ainda que se possa entender o culto como adoração, onde se confere a Deus o valor que Ele tem por Sua natureza, precisamos estar cientes de que não somos nós que nos aproximamos dEle no culto, mas é Ele quem se aproxima de nós e nos fala pela Sua Palavra.
Sendo assim, não é culto o que não transforma o adorador. Ele entra em um culto e cultua, com a disposição de ouvir e mudar em sua vida com o que lhe é revelado neste momento por Deus, através da Sua palavra. No culto ele recebe as instruções de como viver no meio de um mundo profano.
O culto em si não tem o poder e a eficácia. Ele será eficaz na vida dos que, reconhecendo sua condição pecadora, reconhecem a santidade de Deus e se dispõem a mudar seus atos e vidas para que sejam vividas de forma harmônica com os ensinamentos da Palavra.
É neste sentido que o apóstolo Paulo pede que se preste culto agradável a Deus que é o culto racional, onde a pessoa se entrega a Ele em sacrifício vivo. Quando isto acontece, o culto se transforma em algo da mais alta importância e relevância na vida do ser humano.
A experiência cúltica é o encontro com o numinoso. O profeta Habacuque coloca este encontro em termos de silêncio: “... o Senhor está em seu santo templo; diante dele fique em silêncio toda a terra" (Hb 2:20); “Toda criatura esteja em silêncio diante do Senhor: ei-lo que surge de sua santa morada” (Zc 2:13). Creio que foi Karl Barth quem disse que o louvor verdadeiro se faz com o silêncio humano. Gritaria e barulheira não fazem parte do culto.
Assim entendido, não cabe no culto lugar para a magia, entendida como meio de manipular a divindade a fazer o que se quer, pelo uso de ritos, oferendas ou ofertas (em dinheiro). O culto não se presta a dar ordens a Deus, mas sim, para se receber dEle as orientações para a vida. O culto não muda a vontade de Deus, mas transforma a mente do adorador.
Quando esta transformação acontece, o adorador terá visão mais ampla e própria da realidade que o cerca, da polis onde vive e será movido a atuar no seu contexto de forma a vivenciar o que no culto lhe foi revelado. Assim, a fé se transforma em atos cívicos, a sua ação tem um componente político, uma vez que será pautada por valores outros que os dominantes na sociedade. O adorador viverá a contracultura da fé e sua vivência será sal na terra e luz no mundo. O culto se torna cidadão!

Marcos Inhauser

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

CRISTÃOS POLÍTICOS OU POLUÍTICOS?

Há alguns cristãos que se envolvem com a política e confundem as luzes que vêm das Escrituras e da igreja como sendo as do programa de um partido político e acabam transformando sua militância como igual à sua vida cristã. Eles se esquecem que Deus não está em competição com a natureza, mas que Deus e somente Deus pode ser Jesus Cristo, perfeitamente humano e divino, não se confundindo com as coisas criadas como se estas fossem extensões do Seu ser, concepção ao gosto dos panteístas. Nenhum governo, programa de governo, partido ou programa partidário pode ser tão divino ao ponto de ser tomado como sendo manifestações do Reino de Deus. Este foi o grande problema dos adeptos da teologia do Destino Manifesto, que confundiram o American Way of Life como sendo o próprio Reino de Deus.
Os que se envolvem com a política partidária precisam se lembrar constantemente que Deus não fez e age no mundo via manipulação, violência, chantagem ou injustiça, tal como muitos dos mitos e deuses pagãos fazem. Porque Deus criou as coisas do nada (creatio ex nihilo), a criação foi um ato da mais pura generosidade e graça. Se os religiosos-políticos não entenderem isto (a generosidade e graça divinas na criação), eles se sentirão compelidos e autorizados a praticarem atos injustos, iníquos e corruptos.
É o amor e a qualidade dele, exercido por Deus na criação e na manutenção das coisas criadas, que define e determina a maneira como devemos viver em comunidade e que deve ser a vida em comunhão. A liberdade separada do amor só pode se tornar em licenciosidade, forma deturpada de amor e mera busca da felicidade. Assim procedendo, os programas terceirizam o amor, mas ao mesmo o privatizam como sendo atos de governo (vide Bolsa Família e outros programas sociais). Adicionam a este cardápio a departamentalização da comunhão: nós e eles, governo e oposição, eleitos e golpistas.
A igreja de Jesus Cristo e seus fieis não devem buscar o poder político como projeto eclesiástico. A igreja que se identifica com um partido ou o utiliza para ter mecanismos de pressão pela eleição de deputados via manipulação dos fieis para votar nos pastores e bispos da Igreja, deixou de ser igreja e passou a ser ente político. Deixou de servir para servir-se do poder.
Cristãos que se envolvem com a política devem ter consciência de que devem ser exemplo de integridade, serviço e amor ao próximo. Não podem estar associados ao serviço retributivo ao próximo, esperando recompensa em votos de possíveis favorecidos ou fazendo advocacia de porta de cadeia, nem podem ser forjadores de documentos falsos, mesmo que lhe emprestem certa legalidade, ainda que fajuta. Devem ser exemplo de trabalho em comunhão e nunca se enquadrar no que Pedro escreveu: “como dominadores sobre os que vos foram confiados” (1 Pedro 5:2,3). Devem dar o exemplo do serviço e nunca chantagear o rebanho com a “retirada da proteção espiritual que o pastor oferece”.
Como pode ser um cristão político, exercendo cargo no executivo ou legislativo se não deu exemplo no trato das questões de obediência aos princípios da Palavra (como não mentir, não roubar, não prestar falso juramento, não ameaçar, não chantagear, não se colocar como absoluto)? Terá ele mais ética no trato da coisa pública do que teve na relação com o próximo e com Deus? Como esperar que obedeça à Constituição se não obedeceu ao Estatuto e Regimento Interno de sua comunidade? Que usa da Igreja para lavar dinheiro de propina? Que recebe salário sem trabalhar? Que usa o nome da Igreja para legitimar seu trabalho solitário de angariar votos?
Há gente que se diz especialista em leis, não para cumpri-las, mas para burlá-las, para manipular juízes. Nisto está a diferença que um dia um estrangeiro me mostrou: “na Europa, quando se promulga uma lei, o povo busca como cumpri-la; no Brasil, diante da nova lei, busca-se como burlá-la”.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

CRER É PENSAR?

Há muita gente que entende haver antagonismo entre a fé e a racionalidade e as veem como excludentes: quem tem fé não pode pensar e quem pensa perde a fé. Para muitos, a ida dos jovens à faculdade ou universidade é de alto risco para a fé, porque muitos “se perdem”.
Há que considerar-se que o ser humano precisa pensar e é impossível viver sem fazê-lo. Conhecer fatos e entendê-los faz parte da essência da vida. Ainda que haja graus de interesse no descobrir das causas e desenvolvimento das coisas, todos têm um grau de interesse em saber das coisas. O pensamento é a ferramenta que promove a ação. Assim, o pensamento no contexto da ação é o que se manifesta no início e término do ato de reflexão sobre um fato ou situação dada. É a novidade do fato ou do evento que leva à necessidade de conhecer e agir diante dele e isto só se dá porque houve o pensamento. Coloca-se em ordem o pensamento, compreende e diante da compreensão decide o que fazer diante da novidade. Não há decisão e nem ação sem o pensamento, fruto da reflexão.
Conclui-se, então, que o pensamento não é estático, uma coleção de conteúdos guardados no fichário da mente e recuperado incólume a cada vez que dele se necessita. Ele é um jogo de operações vivas, atuantes, transformados pela nova experiência, interpretação e contexto.
Se pensar é entender o fato, o evento ou a novidade, nada mais lógico que a fé envolve o pensar. Se se crê em um Deus todo poderoso que nos surpreende a cada momento com a novidade de Suas ações, que pede que se cante cânticos novos a Ele todos os dias, que a cada dia pinta no amanhecer e no pôr-do-sol uma nova pintura, que a cada pouco nos maravilha com Sua graça, como ter fé “congelada”? A fé baseada em conceitos que vão para o freezer da memória e lá ficam inalterados até o dia da morte, não pode ser chamada de fé.
Um Deus que se mostra em novidade a cada dia e em cada situação, não pode ser adorado, servido e entendido com afirmações rígidas, inflexíveis, dogmáticas, sistemáticas. Por isto afirmo, e o faço no temor, que o conservador não entende de Deus. Deus não cabe nas afirmações dogmáticas, sistemáticas, nas teologias enlatadas e nas jaulas de templos onde impera a arrogância da ignorância. Ele pode dizer o que Deus fez no passado, mas nunca vai entender o que Ele está fazendo hoje e agora. Ele usa métodos arqueológicos para explicar Deus. Arqueólogos não podem ser criativos, mas devem ser interpretativos, com alto grau de “chutabilidade”. Tremo (de raiva) quando ouço frases como; “ a vontade de Deus nesta situação é...”; “o que Deus quer de você é...”; “Deus está usando isto para te ensinar a ...”; “tenho uma palavra de Deus para você...”, etc.
Os conservadores, e ainda mais os fundamentalistas, falam de um Deus do passado, mas não conseguem ver este Deus no caminhar junto aos seus no dia-a-dia. Creem no totaliter aliter, mas não acreditam no Emanuel (o Deus conosco, ao lado, passando comigo os perrengues da vida). O texto de Hebreus que afirma que “Ele em tudo foi igual a nós” é esquecido.
Creio no Deus que anda comigo no jardim do Éden que é a criação que Ele me deu para desfrutar e que me fala no sussurro da brisa, no barulho do gotejar da chuva, no canto dos pássaros e na palavra dos profetas, que me revela quem sou na Sua Palavra!

Marcos Inhauser