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terça-feira, 15 de dezembro de 2009

DOEU

Ali era meu ninho. Qual diligente e persistente pássaro, fui juntando meus gravetos e construindo-o. A cada semana, quinzena ou mês era mais um ou alguns livros que iam sendo adicionados à minha biblioteca. Havia um pouco de tudo. Teologia, sociologia, psicologia, política, Direitos Humanos, etc. Ali era meu mundo e meu refúgio. Sentia-me confortável em meio aos meus livros. Nunca fui viciado em leitura, mas há quem assim me considerasse. Ler, ensinar e escrever se transformaram em minhas paixões. Muitas vezes me surpreendi sentado olhando para eles e tentando lembrar o que havia em cada um. Diante da pergunta de curiosos visitantes se eu havia lido tudo, eu, com certa ponta de orgulho, respondia: “não os li todos, mas sei o que há em todos eles. Se precisar de algo, sei onde encontrar.” Quando mandei um trabalho exegético em língua hebraica para o meu doutorado, ele foi recusado por falta de apoio bibliográfico e com a sugestão de que fizesse outro. Fiquei tão bravo que escrevi um prólogo explicando porque não havia posto bibliografia, mas que o faria diante da solicitação. Coloquei mais de 150 livros e 400 notas de rodapé, só usando o que eu tinha na minha biblioteca, que chegou a ter uns 5000 volumes. Com ela aprendi uma máxima: “bobo é quem empresta livro e idiota é quem devolve”. Perdi muita coisa emprestando e devolvendo os pouquíssimos que tomei emprestado, mesmo porque, não gosto de ler livro dos outros porque não posso fazer anotações. Por força de vários motivos que não cabe enumerá-los, me desfiz esta semana do meu ninho. Não foi uma decisão impulsiva, mas algo que foi amadurecendo ao longo de dois anos, a partir do momento em que comecei a enfrentar problemas para ter uma sala que a abrigasse. Por várias vezes tentei separar os que me seriam ainda úteis e descartar os demais. Não conseguia. Era como se parte de mim estivesse sendo extirpado. Tentei vender alguns, mas era como se estivesse vendendo a mim mesmo. Quando já não mais havia como adiar a decisão, elegi ficar com alguns de uma determinada área e doar todos os outros. Elegi dois amigos, um ex-aluno e um leigo católico para que recebessem o que estava doando. Doeu. E a dor só não foi mais forte porque sei que eles serão usados e bem usados por quem os recebeu e que outros serão beneficiados com algumas lições que eles poderão tirar dos livros e passar a outros. Para mim fica o desafio de construir outro ninho, que não seja mais uma biblioteca. Marcos Inhauser

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

CORRUPÇÃO ABENÇOADA

Não há quem não tenha se estarrecido com as imagens da bandalheira que tomou conta da capital federal. Nunca antes na história deste país (para ser bem original) houve tantos, tão detalhados e incriminadores vídeos e provas de gente botando a mão na coisa pública. Mas o que mais estranheza causou foi o acinte com a oração. Nas imagens o deputado Rubens César Brunelli aparece orando com Barbosa e Leonardo Prudente (presidente da Câmara Legislativa), logo após terem recebido a propina das mãos do Durval, e o faz nos seguintes termos: "Somos gratos pela vida do Durval ter sido instrumento de bênção para nossas vidas, para essa cidade, porque o Senhor contempla a questão no seu coração. Tantas são as investidas, Senhor, de homens malignos contra a vida dele. Nós precisamos da Tua cobertura e dessa Tua graça, da Tua sabedoria, de pessoas que tenham armas para nos ajudar nesta guerra. Todas as armas podem ser falhas, todos os planejamentos podem falhar, todas nossas atividades, mas o Senhor nunca falha. O Senhor tem pessoas para condicionar e levar o coração para onde o Senhor quer. A sentença é o Senhor quem determina, o parecer e o despacho é o Senhor que faz acontecer. Nós precisamos de livramento na vida do Durval, dos seus filhos, familiares." Muitos há que se perguntaram como pode uma pessoa que ora agradecer a Deus por uma coisa que é fruto da corrupção, dizer que o pagador da propina é “instrumento nas mãos de benção”, que “tantas são as investidas, Senhor, de homens malignos contra a vida dele” e, por cima de tudo pedir “precisamos da Tua cobertura e dessa Tua graça, da Tua sabedoria, de pessoas que tenham armas para nos ajudar nesta guerra”. Eu também me perguntei. Depois de refletir, conclui que a religiosidade espúria e satanizante que as igrejas, notadamente as neopentecostais, tem pregado e exercido, vendo demônios em tudo, é também a mesma que produz este tipo de aberração. Se há pregadores que expulsam o demônio da caspa, da obesidade, da esquizofrenia, que oram ungindo calcinhas e cuecas de casais com problemas sexuais, que dizem ser a pobreza castigo de Deus, nada os impede de ver no dinheiro fácil a benção. Se lhes falta bom senso para ver causas reais nas enfermidades e situações que satanizam, por que devem ter melhores instrumentos de análise nas “bênçãos”? A falta de lucidez e critérios sérios se aplica aos dois extremos. Salta-se de um para outro (demônio e benção) com a mesma leviandade com que expulsam demônios e glorificam a posse e a propriedade. Se você tiver alguma dúvida e estômago assista a estes pregadores da ignorância nas suas falas televisivas, onde, quais papagaios da fé, repetem ad nausean as mesmas frases e jargões, cometendo a todo o instante as aberrações de satanizar uma paralisia cerebral, uma miopia, uma dor na coluna ou cólica menstrual e, pari passu, agradecer as bênçãos de um carro novo, um aumento de salário, uma casa nova, ou seja lá o que for. Marcos Inhauser

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

ECOpenhage

Ia escrever algo a respeito, mas recebi este artigo do meu amigo Marcos Kopeska, que o reproduzo, com edições para caber no espaço. Desde a infância ouço: “Não desperdice água! Não suje a rua! Não corte árvores! Não polua o ar! ...” ... O que hoje matamos faltará amanhã ... Procurando alinhar ... com a Bíblia, vejo ... por outro prisma. A natureza é e sempre será ... aliada da voz de Deus na ... revelação a nós. ... Javéh utiliza-se da natureza para criar ambiência para sua voz. Deus falou com Adão no jardim, com Hagar no deserto, Abraão na montanha, Jacó no riacho e Moisés na sarça ardente. ... Jesus pregou ... o Sermão do Monte. Inúmeras vezes Ele usou montes para orar, praias para pregar e lírios para ilustrar. Deus usou estrelas e grãos de areia para falar de suas promessas a Abraão, de nuvem para guiar seu povo, da rocha para saciar a sede do povo, corvos para cuidar de Elias e uma ilha deserta para revelar mistérios a João. ... Paulo escreve: “...o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou ... os atributos ... de Deus ... têm sido vistos ... sendo compreendidos por meio das coisas criadas,...” (Rm 1:19-20). A criação revela o Criador! ... volta-se a Ele em imensa, perfeita e eterna ... ópera, com o solfejar dos mares, o bramido dos rios, o grito dos bichos, o uivo dos ventos, o farfalhar das folhas e o jogo de cores, imagens e movimentos das matas. Nas Escrituras encontramos anjos, homens e natureza ... adorando ao Criador. “Os céus declaram a glória de Deus; o firmamento proclama a obra das suas mãos. ... Sem discurso nem palavras, não se ouve a sua voz. Mas ... ressoa por toda a terra, e as suas palavras, até os confins do mundo.” (Sl 19:1-4) Einsten dizia: "Quanto mais acredito na ciência, mais acredito em Deus. O universo é inexplicável sem Deus". São inúmeras as expressões desta adoração registradas na Bíblia, mas .. estamos calando esta ópera ao Senhor. Como as matas louvarão se reduzidas? Arrancamos o que Deus plantou “como vales que se estendem, como jardins à beira dos rios, como árvores de sândalo que o SENHOR plantou.” (Nm 24:6) mas ... os bosques os transformamos em lenha para alimentar usinas. Os rios querem se apresentar nesta ... adoração: “Os rios batam palmas e cantem de júbilo os montes,” (Sl 98:8); “Levantam os rios ... o seu bramido .. e .. o seu fragor.” (Sl 93:3); mas como levantarão adoração se roubamos sua vida com detergentes, metais pesados e sacos plásticos? Como cantar “As aves do céu cantam para ti / As feras do campo refletem seu poder / Quero cantar ...” ; se engaiolamos aves e matamos feras para vender o couro? Como os ursos adorarão se violamos seu habitat com toneladas de gases que vão para a atmosfera todos os dias? Como as imensas e milenares calotas polares adorarão se estão derretendo silenciosamente e cada placa de gelo que se solta é lágrima da natureza em dor? Estamos tolhendo parte da adoração a Deus. As previsões científicas da comunidade internacional em Kioto, 1997, cumpriram-se mais rapidamente do que se pensava. Copenhage é crucial para as negociações de novos termos e compromisso. O Tratado de Kioto precisou que 55% dos países que produzem 55% das emissões o ratificassem. Entrou em vigor em fevereiro de 2005, 8 anos depois da sua abertura para assinaturas. Oremos pelo Tratado de Copenhage e pela volta da criação à esta imensa adoração. Marcos Inhauser

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

MARIA AVELAR

Minha esposa diz que ela assim se chamava, ainda que eu creia que era Alvear. Ela era membro da primeira igreja que pastoreei, a da Vila Espanhola. Magra, doente, Maria Avelar era uma destas raras pessoas que é impossível estar junto sem se sentir ao lado de uma pessoa especial. Não sei quantas enfermidades ela tinha, mas era bem doente. Muitas vezes fui à sua casa e a vi debruçada sobre a máquina de costura, meio desfalecida. Por causa das enfermidades decidi que todos os domingos iria levá-la de carro para a igreja e trazê-la de volta à sua casa. No que pese sua condição de saúde, ela “costurava para fora”, não porque fosse necessário, mas “para ajudar os outros com uns trocados”. Ela tinha uma genuína alegria em ajudar quem precisasse. Além disto, tinha sabedoria e discernimento na alocação destes parcos recursos e eles sempre chegavam em momento mais que oportuno, do que eu e minha família somos testemunhas. Um dia ela me contou uma história impressionante e o fez na ingenuidade e simplicidade que lhe eram características. Vivia ela no estado de Goiás, em uma cidadezinha “destas que só tem uma rua e a cidade mais perece uma lingüiça. Eu morava em uma ponta da cidade e a igreja era na outra, de modo que eu tinha que atravessar a cidade todos os domingos para ir à igreja.” Maria Avelar tinha uma vizinha que ela muitas vezes convidou para ir junto à Igreja. Certo dia “ao convidar a vizinha, ela me disse: eu vou se você me prometer uma coisa. Que coisa?, perguntei. Prometa e eu te digo. Eu aceitei o desafio. Ela então me disse que iria à igreja no domingo comigo se eu fosse com ela tendo um pé calçado com salto alto e o outro descalço. Eu disse: tá bom, eu faço isto por você”. No domingo à tarde lá estava Maria na frente da casa da vizinha, tal como ela lhe havia pedido. A cidade o sabia do que ia acontecer e todos estavam para ver a mulher atravessando a cidade mancando, em um espetáculo ridículo. “Pastor, eu pensei: tô levando uma pessoa para conhecer o amor de Deus. Nada pode ser ridículo. Levantei a cabeça e, como se nada estivesse errado, fui andando e cumprimentando as pessoas que vieram para ver-me. E lá fomos nós atravessando a cidade. Não deu tempo de chegar à igreja, a vizinha estava chorando. Ela me abraçou e disse: se este Deus me ama a ponto de te dar amor para você fazer isto por mim, eu quero saber mais do amor deste Deus”. Até hoje me emociono quando relembro esta história. Nunca mais ouvi falar da Maria Avelar. E lá se vão mais de trinta anos. Ela nunca foi à rádio ou à televisão se exibir por este ato. Cristão como ela é o que a sociedade precisa. A mão direita não soube o que fez a esquerda e conto isto hoje para que seu exemplo seia imitado. Marcos Inhauser

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

UNI BAN

Quando li as notícias sobre os eventos na Universidade Bandeirante, UNIBAN, minha mente rodou fazendo um trocadilho com a palavra em inglês e certa prática religiosa. No inglês “ban” é derivada de “banishment” que é qualquer decreto que proíbe alguma coisa. Implica na proibição de algo em algum território e muitas vezes tem caráter de censura ou discriminação, com o objetivo de manter o “status quo”. Comercialmente, a palavra significa embargo. Na tradição de alguns grupos religiosos, notadamente entre anabatistas radicais, o banimento foi e, em alguns casos ainda é, prática comum. Quando um membro da comunidade religiosa comete algo que é considerado grave, notadamente no campo da moral e da sexualidade, ele é banido da comunidade. Quando estas comunidades tem modelo cooperativo, onde os participantes trabalham e compartilham em condições igualitárias, o banimento representa a expulsão compulsória do disciplinado. Nestes casos, o banido é não só afastado, como os que o afastam se recusam a manter qualquer contato físico, social ou comercial com o mesmo. Há casos em que a pessoa banida tem coisas que deu a outros atiradas à porta da sua casa, forma simbólica de dizer que não querem mais nenhuma relação com o banido. Ele passa a ser um pária religioso. Alguns, baseados em recomendação da segunda carta de João (v. 10, 11) de que “não o recebais em casa, nem tampouco o saudeis, porque quem o saúda tem parte nas suas más obras”, se recusam a sequer cumprimentar os banidos. A análise histórica vai mostrar que muitos deles foram atos arbitrários, sem direito à defesa, aplicação de pena desproporcional ao ato julgado, forma de exercício do poder, arrogância moral e religiosa de um grupo contra o diferente. No caso recente da Uni BAN, o que se teve foi um linchamento seguido de um banimento formal, sem que a parte, até onde se sabe, tivesse direito à proteção contra a turba na hora dos fatos, nem de defesa na sindicância. Os atos, fruto da arrogância de homens e mulheres que se consideraram moralmente superiores, é tão perverso quanto o possível atentado ao pudor que quiçás ela tenha cometido. E a sentença foi banimento. Os santos apedrejaram a pecadora, tal como se deu inúmeras vezes na história humana, sem que isto tenha nos ensinado lições que implicassem na mudança. A revogação do banimento não muda os fatos já praticados pela Universidade, tão nocivos e atentatórios à ética e moral quanto (se o foram) os praticado pela jovem. E de mais a mais, a motivação da revogação não foi o arrependimento, mas a pressão social, tanto nacional como internacional. E mostrou uma face utilitarista da Universidade que baniu alegando a guarda dos “valores da instituição”. Belos valores, explicitados pornograficamente à sociedade.

domingo, 8 de novembro de 2009

LUDAS

A sugestão do Lula de que, para se governar o país, até Jesus Cristo teria que fazer aliança com Judas, já provocou muita reação. Na minha última coluna confessei que não consegui resistir à tentação de também dar meu pitaco, não que eu tivesse coisa substancialmente diferente a dizer, mas porque, tendo algumas ideias na cabeça, cultivadas ao longo destes anos, via agora a oportunidade de colocá-las para fora. Escrevi mostrando como o Lula se julga alguém igual ou maior que Jesus Cristo, e dei alguns exemplos para provar minhas afirmações. Para surpresa minha, vários foram os e-mails concordando com o que escrevi, coisa um tanto rara. Como este espaço não me permite longas digressões, preferi escrever a coisa em dois capítulos: como ele se vê e como eu o vejo. Se nesta história há Judas, há duas possibilidades de entendimento: os aliados de Lula (o Messias) são Judas ou ele mesmo é Judas procurando um Messias para se aliar. Na história bíblica, Judas é uma pessoa com ambições políticas pertencente ao grupo dos sicários, uma ramificação dos zelotes que perpetrava violentos ataques, com punhais (sicarii), contra as forças romanas na Palestina. Outros derivam o seu nome do aramaico saqar, palavra que significava alguém "mentiroso", que é "falso". Judas, no entanto, queria mesmo é estar de bem com a elite governante e com os romanos. Sua participação inicial nos movimentos pode ter sido falsa ou ele sucumbiu às tentações do poder. Na história do Lula muitos foram os amigos e discípulos que foram entregues à execração pública, vendidos para abafar a opinião pública por trinta moedas de prata. Para não ir muito lá para trás, lembro como ele entregou à sanha das elites dominantes a colega de caminhada Cristóvam Buarque, destituindo-o com um telefonema, como entregou o Dirceu, o Pallocci e mais recentemente a Marina Silva. Neste afã de não perturbar as elites e os interesses do capital é que entendo porque ele seu governo nada fizeram para esclarecer os crimes de morte do Toninho e do Celso Daniel. Para mim o Lula é um Judas. Um Ludas que se aliou a um bando de outros Judas para a propalada governabilidade, tal como o Judas teria argumentado para justificar a entrega do Mestre. Lá também foi em nome da paz nacional que se entregou um perturbador da paz. O problema é que, na falta de um Messias, ele decidiu criar o seu, à sua imagem e semelhança. Ela vamos nós de Dilma. Marcos Inhauser

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

JUDAS OU JESUS?

Causou furor a frase do guru sobre a sugerida aliança entre Jesus e Judas. Muito já se disse a este respeito e tinha para comigo que não deveria eu me meter nesta tresloucada metáfora do sindicalista-presidente. No entanto as lombrigas me remoeram as entranhas. Fiquei a analisar o comportamento do pronunciante e tenho cá com meus botões algumas conclusões muito pessoais, que as comparto, não para disseminar o joio, mas para tentar entender o trigo. Não é de hoje que tenho prestado atenção e catalogado a insistência do guru em usar metáforas. Não conheço na história recente e mesmo anterior, alguém que usasse de tantas metáforas e analogias e que o fizesse com tal espontaneidade quanto o viajante-com-o-dinheiro-dos-tributos. Ele usa a abusa das figuras, ora com propriedade ímpar, ora com imperícia também ímpar. Só conheço outro que o fazia como ele e que se notabilizou com seus ensinos via parábolas, que foi Jesus Cristo. O guru-mór gosta da frase “nunca antes na história”. Ele se julga um divisor de águas, um ser que veio para dividir a história brasileira e quiçasmente mundial,entre o antes e o depois. Nisto ele se julga igual a Jesus Cristo, quem, sim dividiu a história entre o antes e o depois. O sindicalista também gosta de alardear que na sua gestão os famintos passaram a ter o que comer, que mais gente foi atendida nos ambulatórios, que mais transplantes se faz, que mais uma infinidade de coisas. Certa feita, quando visitava uma sinagoga, perguntaram a Jesus se ele era o Messias ao que abriu o livro do profeta Isaías e leu que os coxos andam , os cegos vêem, aos cativos é proclamado o ano da libertação. O Lula, segundo o Lula, está fazendo a mesma coisa. Jesus foi anunciado por um João Batista, voz que clamava no deserto, comia gafanhotos e mel silvestre. O Lula é o próprio. Saiu do clamar no deserto, comeu buchada de bode, bebeu o que veio e lhe deram. Se Jesus teve um precursor, o Lula foi seu próprio precursor. Nisto ele é maior que o Messias. Outras similitudes eu poderia apontar para provar que Lula se julga o Messias, o predestinado, o escolhido de Deus. Nesta condição ele tem os seus Judas e não cabe apontar porque sabidos e conhecidos pelos brasileiros. O problema é que este simulacro de Messias, ao invés de ser vendido pelo Judas, ele próprio se vendeu e se entregou. Deixou-se ser tentado pelo poder, andou transformando pedra em pão, se aliou a outros Judas, traiu a confiança de quem o elegeu e acreditou no seu reino pregado e proclamado por anos a fio e que acabou se convertendo no reino dos banqueiros, dos donos de telefonia, das construtoras, das ONGs não auditadas, dos sem-terra-com-verbas-públicas-milionárias.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

GRATAS SURPRESAS

Comecei a escrever no Correio Popular em abril de 2001. Lá se vão nove anos. Confesso que, das coisas que hoje faço, esta é a que mais prazer me dá, no que pese e-mails irados, críticas mil, pastores me chamando de anticristo campineiro, prefeito e vereadores me detestando. No entanto, vez em quando, me surpreendo. Certa feita, ao descontar um cheque em um banco, a pessoa que estava no caixa me disse: “quero que você saiba que leio suas colunas e que gosto do seu jeito de escrever”. Não preciso dizer que sai dali com a alma lavada. Em outra ocasião, ao entrar no consultório de um médico novo para mim, ele me recebeu efusivamente dizendo se sentir honrado com o fato de poder me atender, pois já me conhecia pelos meus escritos. Certa feita em um táxi tocou meu celular, atendi, tive que passar alguns dados pessoais. Terminada a ligação o motorista me perguntou; “você é o Inhauser que escreve no Correio Popular?” Respondi afirmativamente, ao que emendou: “minha mãe vai ficar com inveja porque ela é fã das suas colunas e faz coleção de todas elas. Ela recorta e arquiva tudo que você escreve.” Sei da Ditinha que também recorta as colunas e as tem arquivado. Nesta semana uma pessoa amiga me ligou dizendo que havia acabado de conhecer um fã meu. Perguntei se era um ou uma fã. Ela disse que era o Valdeci. Perguntei por que ele seria meu fã, ao que me respondeu que ele tem o que eu não tenho: “a coleção dos recortes da coluna no jornal, sem falta de nenhuma”. Não eu não tenho mesmo o recorte das colunas e o arquivo delas. Temo que não tenha todas as colunas no arquivo do meu computador, porque ele já pifou algumas vezes. Mas tenho o prazer orgulhoso de saber que há umas poucas pessoas que gostam do que faço. Andei apertando a mente aqui para encontrar quem mais gosta do que escrevo e confesso que não encontrei. Há os que me dizem por delicadeza que gostam e neles não creio. De uma coisa sei: eu gosto de escrever. E o redator chefe do jornal não detesta, ao ponto de me aturar todos estes anos sem nunca ter mexido nos meus textos, nem nas vírgulas. Aos fiéis leitores o meu obrigado. Aos que me criticam e me escrevem, obrigado com mais ênfase porque me mostram coisas que às vezes eu não vejo. Aos que lêem e não entendem o que escrevi, minha paciência. E aos que ficam bravos com o que escrevo porque lhes diz respeito, meu compromisso de continuar sendo chato. Marcos Inhauser

GRATAS SURPRESAS

Comecei a escrever no Correio Popular em abril de 2001. Lá se vão nove anos. Confesso que, das coisas que hoje faço, esta é a que mais prazer me dá, no que pese e-mails irados, críticas mil, pastores me chamando de anticristo campineiro, prefeito e vereadores me detestando. No entanto, vez em quando, me surpreendo. Certa feita, ao descontar um cheque em um banco, a pessoa que estava no caixa me disse: “quero que você saiba que leio suas colunas e que gosto do seu jeito de escrever”. Não preciso dizer que sai dali com a alma lavada. Em outra ocasião, ao entrar no consultório de um médico novo para mim, ele me recebeu efusivamente dizendo se sentir honrado com o fato de poder me atender, pois já me conhecia pelos meus escritos. Certa feita em um táxi tocou meu celular, atendi, tive que passar alguns dados pessoais. Terminada a ligação o motorista me perguntou; “você é o Inhauser que escreve no Correio Popular?” Respondi afirmativamente, ao que emendou: “minha mãe vai ficar com inveja porque ela é fã das suas colunas e faz coleção de todas elas. Ela recorta e arquiva tudo que você escreve.” Sei da Ditinha que também recorta as colunas e as tem arquivado. Nesta semana uma pessoa amiga me ligou dizendo que havia acabado de conhecer um fã meu. Perguntei se era um ou uma fã. Ela disse que era o Valdeci. Perguntei por que ele seria meu fã, ao que me respondeu que ele tem o que eu não tenho: “a coleção dos recortes da coluna no jornal, sem falta de nenhuma”. Não eu não tenho mesmo o recorte das colunas e o arquivo delas. Temo que não tenha todas as colunas no arquivo do meu computador, porque ele já pifou algumas vezes. Mas tenho o prazer orgulhoso de saber que há umas poucas pessoas que gostam do que faço. Andei apertando a mente aqui para encontrar quem mais gosta do que escrevo e confesso que não encontrei. Há os que me dizem por delicadeza que gostam e neles não creio. De uma coisa sei: eu gosto de escrever. E o redator chefe do jornal não detesta, ao ponto de me aturar todos estes anos sem nunca ter mexido nos meus textos, nem nas vírgulas. Aos fiéis leitores o meu obrigado. Aos que me criticam e me escrevem, obrigado com mais ênfase porque me mostram coisas que às vezes eu não vejo. Aos que lêem e não entendem o que escrevi, minha paciência. E aos que ficam bravos com o que escrevo porque lhes diz respeito, meu compromisso de continuar sendo chato. Marcos Inhauser

terça-feira, 13 de outubro de 2009

NOBEL?

Não é a primeira vez que o Comitê de escolha dos Prêmios Nobel surpreende. Contar as vezes em que isto aconteceu é quase contar a história do Prêmio. Há alguns que foram questionados quando foram concedidos e depois se mostrou o acerto dos questionamentos. Lembro-me particularmente do que foi concedido a Rigoberta Menchu, indígena guatemalteca, que teve oposição mesmo entre os seus conterrâneos e povos indígenas da Guatemala e mais tarde até indiciada em inquérito policial foi. Lembro-me ainda do prêmio concedido a Anwar Al Sadat e Menachen Begin, por uma reunião de paz que tiveram, um plano tirado a fórceps e que nunca foi implementado de forma significativa. Também foi criticado o prêmio dado a Oscar Árias, o costarriquenho que se diz que trabalhou pela paz na América Central, algo que a grande maioria dos centroamericanos não reconheciam. Confesso que me surpreendi com a nominação de Barak Obama. É verdade que, depois do desastre Busch, qualquer coisa seria melhor que ele. Devo também reconhecer que ele fez sua campanha e se elegeu com o lema da mudança, mas acho que fez muito pouco até agora para que o prêmio lhe seja outorgado. Se a nómina se deu pelo discurso na Universidade do Cairo, ele levou o Nobel da Oratória e não o da paz. Se foi porque propôs o diálogo entre muçulmanos e o resto do mundo, especialmente com os cristãos estadounidenses, também é discurso até agora. Se foi pela distensão com a Coréia do Norte, quem deveria ser nominado é Bill Clinton, quem lá foi e trouxe as duas jornalistas, sem fazer, aparentemente, concessões. Se foi pela decisão de não mais construir a parafernália antimísseis, chamada de guerra nas estrelas, deve-se dar a ele o Prêmio Nobel de Economia, pois fez o óbvio para um país endividado até o pescoço e atolado na crise. Tenho meus pruridos com a decisão, pois se trata de um governante que prometeu acabar com Guantánamo e não fez. Prometeu juízos justos e imparciais e até agora o que se tem é retórica. Prometeu tirar as tropas do Iraque, e elas ainda estão lá. Prometeu acabar com a guerra do Afeganistão e agora diz que a coisa vai durar e que há que enviar mais tropas. O senhor da guerra é agora Prêmio Nobel da Paz. Discurso por discurso, o Fidel e o Chavez dão olé. E, mesmo como orador, tenho lá meus senões. Chama-me a atenção que, quando dircursa, ele olha para a direita e esquerda, como se estivesse assistindo a uma partida de tênis ou pingpong. Não o vi olhando para a frente. É como se não encarasse a platéia. Não gosto disto. Passa-me a sensação de estar sendo enrolado. Quero estar errado. Neste tempo todo evitei fazer qualquer comentário sobre o Obama, dando-lhe o benefício da minha dúvida. Mas acho que exageraram na dose de mídia sobre ele. Com um aparato midiático destes e um posto de presidente do império, até discurso dá Prêmio Nobel. NO caso de Obama, melhor seria se fosse de Oratória ( neste eu também iria questionar.....) Marcos Inhauser

domingo, 11 de outubro de 2009

GRACIAS NEGRA

Eu a conheci quando tinha meus vinte e poucos anos. Eu a ouvi cantando e nunca mais deixei de ouvi-la. Comprei um cassete de músicas suas que me acompanhou um bom tempo de minha vida, nas muitas viagens que fiz. Com ela aprendi a gostar e admirar a música latino americana. Mais tarde, comprei tudo quanto pude de músicas suas. Lembro-me de, em uma viagem de quase cinco horas, ter ouvido a mesma fita cassete a viagem toda, repetindo-a sem parar. Decorei letras e mais letras de suas músicas. Chorei incontáveis vezes ouvindo-a cantar, especialmente “Gracias a la Vida”, “Cambia, Todo Cambia”, “Volver a los 17” e especialmente uma sua interpretação de “Cuando Tenga la Tierra” que apresentou em Nicarágua. Há uma outra de Gracias a la Vida, juntamente com Joan Baez, que é divina. Sua história de vida, sua luta contra a ditadura, seu compromisso ideológico com o comunismo, sua coerência entre o que acreditava e o que vivia, sua incansável maneira de trazer a alegria através de sua música, mesmo quando a saúde já a debilitava me comoviam assim como a muitos outros, haja visto a quantidade de manifestações por sua morte. Admirava seu despreendimento de cantar em parceria com os mais variados cantores e cantoras. Gravou com Milton Nascimento, Caetano Veloso, Bethânia, Joan Baez, Victor Heredia, e até com Shakira..... Para mim ela era a mais latino americana de todas as pessoas que conheci. Nascida na Argentina, nunca foi nacionalista, mas cidadã continental. Fez da sua vida uma bandeira de luta. Enfrentou os militares e a ditadura com sua voz, fez tremer aos torturadores. Presa, acusada de ser uma “pessoa suspeita”, não se dobrou e nem cedeu na sua crença. Envolveu-se na luta das Mães e Avós da Praça de Maio e com elas lutou pela busca de filhos e netos desaparecidos. Com suas músicas fez a muitos sonhar com uma nova sociedade e eu me deixei contagiar por seus sonhos de liberdade. Através dela conheci a Atahualpa Yupanqui, outro argentino latino americano. Por ela conheci os irmãos Mejía Godoy da Nicarágua antes que para lá fosse. Eu a ouvi muitas vezes cantando Sobrevivendo, uma das letras mais preciosas que conheço ao lado de “Canto da Cigarra”, que era para ela como que sua música de identidade, por dizer “tantas vezes me mataram, tantas ressuscitei”. Nunca a vi pessoalmente, mas fiquei depressivo com a notícia de sua morte, como se tivesse perdido alguém muito querido. Por causa dela, tive e tenho orgulho de ser latino americano e não posso dizer outra coisa que “Gracias Negra” usando seu apelido carinhoso que de racista nada tem. Marcos Inhauser

terça-feira, 29 de setembro de 2009

ISTO AINDA NÃO OUVI

Na recente crise que se abateu sobre Honduras e que o Brasil está enfiado até o pescoço, seja por erro diplomático brasileiro, por amadorismo e ideologia de antigos refugiados brasileiros que se abrigaram em embaixadas, seja por astúcia ou imprudência do Zelaya.
Neste imbróglio em que termos como golpistas, governo interino, presidente de fato e de direito, presidente democrático e governo imposto tem sido usados à exaustão, há um dado que não vi ainda em nenhum comentário. Refiro-me ao marco constitucional hondurenho.
A Constituição Hondurenha tem, assim como outras, algumas cláusulas pétreas, que não podem ser mudadas salvo mediante procedimentos estabelecidos e que são, via de regra, bastante exigentes. No caso brasileiro, cláusulas pétreas são a.) a forma federativa de Estado; b.) o voto direto, secreto, universal e periódico; c.) a separação dos poderes; e d.) os direitos e garantias individuais.
Cláusula pétrea é, pois, o dispositivo que impõe a irremovibilidade de determinados preceitos que são disposições não passíveis de ser abolidas por emenda, nem modificadas, constituindo o irreformável da Constituição, impossibilitando a sua reforma, remoção ou abolição. Elas possuem supremacia, paralisando a legislação que vier a contrariá-los.
A Constituição Hondurenha prevê no seu Artigo 374: “Não poderão ser reformados, em nenhum caso, ... os artigos constitucionais que se referem à forma de governo, território nacional, período presidencial, proibição para ser novamente presidente da república...” e no seu Artigo 4: ... A alternabilidade no exercício da Presidência da República é obrigatória. A infração desta norma constitui delito de traição à Pátria.”  No Artigo 239: “O cidadão que tenha desempenhado a titularidade do Poder Executivo não  poderá ser Presidente ou Designado. Aquele que ofender esta disposição ou propuser sua reforma, bem como aqueles que a apóiem direta ou indiretamente, terão cessado de imediato o desempenho de seus respectivos cargos e ficarão inabilitados por dez anos para o exercício de toda função pública”.
Não sou especialista em Direito Constitucional, mas me parece que o texto é claro. Também me parece que, ao dizer que “terão cessado de imediato o desempenho de suas funções” dá caráter sumário ao processo de destituição do “traidor da pátria” no dizer constitucional.
Ora, pelo que se sabe, o Zelaya propôs a mudança deste quesito, e, diante do levante dos tribunais e outras instâncias, transformou em plebiscito e depois em pesquisa. Assim, a coisa não é tão simples como nos quer fazer crer o sindicalista-mór e seu assessor internacional, antigo exilado em embaixada.
Para mim, algo de estranho há nesta posição brasileira de veemente condenação ao Micheletti e apoio a Zelaya, ao ponto de permitir que o mesmo faça da embaixada brasileira seu escritório de levante político.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

O EU E O TU

Todos somos o produto da relação de um “eu” e um “tu”.
Cada um de nós aprendemos a ser gente na relação mínima com dois “tus”: pai e mãe. Todos somos frutos de uma relação de diálogo, de sentimentos, de emoções, de corpos que se relacionavam com corpos que nos fizeram. Daí porque a base da nossa vida é o fato de que há um homem e uma mulher que se relacionaram e como fruto disso nasceu alguém.
Não há ninguém nesse mundo, com exceção de Adão, Eva, Jesus Cristo e os inseminados, que não seja fruto desta relação. Não dá para pensar no ser humano como uma ilha, isolado dos outros, da sociedade, do contexto em que vive.
Para que possamos nos conhecer mais profundamente, é necessário que conheçamos as relações que mantemos com as outras pessoas que formam o nosso sistema relacional. Em outras palavras, o “eu” é conhecido na medida em que se conhece os “tus” com os quais este “eu” se relaciona.
O namoro é um “eu” que se relaciona com um “tu” procurando conhecer os “tus” do outro “tu”. Quando alguém começa a conversar com uma outra pessoa, quer saber quem é. Como se faz isto? Perguntando.
Cada vez que encontramos alguém e entabulamos uma conversar, procuramos explorar, conhecer as relações que esta pessoa tem, o que ela faz, com quem trabalha, o que estudou, o que gosta ou não de fazer. É o desejo de conhecer as relações que tem, de conhecer o sistema onde está inserida.
Quando alguém sai à procura de outra pessoa para namorar, existe na sua cabeça, inconscientemente, um cheiro (não tenho outro jeito de dizer), que ela vai se sentir atraída por quem que tem mais ou menos o mesmo modelo de relação familiar. Isso é mais do que lógico e normal. Se você vai constituir uma família, que família você conhece para servir de modelo? Se você foi acostumado a dormir em colchão de mola, na primeira noite que você dormir em um colchão de espuma vai se sentir mal, pois você está fora do seu ninho. Você vai buscar alguém para casar-se que tenha um “ninho” mais ou menos igual ao seu.
Isto é tão inconsciente, tão simbólico, tão invisível que não dá para explicar. Por exemplo: bati o olho em alguém, gostei e pergunto alguma coisa. A maneira como me responde, o tom de voz se foi mais ou menos parecido ao tom que estou acostumado a ouvir, entro em sintonia com a pessoa e vou procurando saber mais sobre ela.
No fundo, no fundo, buscamos pessoas segundo o comichão dos nossos ouvidos, parecidas a nós, para nos entender e apoiar. É dose ficar ao lado de alguém que é tão diferente que é um estranho no nosso ninho.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

BÍSPOLO OU APOSTOLISPO?

Há alguns anos, a pedido de um amigo que morava fora, liguei para uma casa de recuperação de viciados em drogas, de orientação evangélica, para obter informações sobre as condições de internação e custos, visto que tinha um filho de membro da igreja necessitando de recuperação.
Liguei para a tal Casa de Recuperação e fui atendido pelo evangelista Cicrano. Perguntei a ele como poderia obter informações, ao que me informou que eu deveria ligar mais tarde para falar com o Missionário Beltrano, que era o encarregado, e que havia saído para uma missão.
Liguei mais tarde, o Evangelista me atendeu, passou a ligação para o Missionário, quem me disse que a informação estava errada porque, na realidade, quem podia passar estas informações era o Pastor Mengano, pois só ele tinha autoridade para isto. O Missionário me deu outro telefone, liguei para lá, pedi para falar com o Pastor Mengano, ao que me informaram que o Pastor havia sido promovido a Reverendo no domingo anterior. Pedi para falar com o Reverendo. De boa fala, mas todo enrolado nos “s” e nas concordâncias, ele me explicou as condições gerais de ingresso, custo, método de trabalho, visitação, etc.
O que me chamou a atenção é que o interessado deveria preencher um formulário que seria examinado por uma Diretoria presidida pelo Bispo Gerais. Ironicamente perguntei se havia apóstolo também na hierarquia da instituição.
Pertencendo a uma tradição teológica que se primou por considerar todos os membros da igreja iguais, que se recusou a dar títulos uns aos outros, limitando-se a se chamar de irmãos e irmãs (daí porque o nome Irmandade), fico pasmo com esta hierarquização no seio das comunidades, que já não sei se posso chamá-las de cristãs.
Como parece que ainda não inventaram um título superior a “apóstolo” (uma usurpação de nome dado aos doze mais Matias e Paulo), não me surpreenderia se amanhã aparecesse alguém se denominando Bíspolo ou Apostolispo, junção de Bispo mais Apóstolo e sendo superior hierarquicamente a tudo o que existe.
Ou, talvez, alguém que se encoraje a ter o título que um amigo a quem chamei de Bíspolo, me devolveu dizendo que ele me nomeava “Vicepresidente da Trindade”. E não estamos para menos, tal a quantidade de Bispos e Apóstolos autoproclamados e autoordenados dando ordens a Deus, como se Ele empregado deles fosse. Um deles, que tem vídeo no Youtube, começa sua oração dizendo; “Pai, pelos créditos que tenho diante de Ti, eu ordeno que, num raio de cinco quilômetros ao meu redor, todos os demônios sejam derrotados.”
Haja presunção. Para estes, o título de Vicepresidente da Trindade talvez seja pouco. Que tal o de coDeus?

Marcos Inhauser

terça-feira, 8 de setembro de 2009

ABDEUAMASSO

Segundo meus filhos, por corrigir quando tropeçavam em gramática, eu deveria ser professor de português. Não gosto da gramática, ainda que a considere importante, mas, sim, acho que gostaria de ser dicionarista.
Tenho certa obsessão pelo sentido exato das palavras, no que o estudo do grego e hebraico me ajudou. Mais teria me ajudado se tivesse estudado o Latim, mas fui da primeira turma que não mais precisou estudar as declinações.
Neste dias, por causa da celeuma levantada com o médico especialista em fertilização, passei a me preocupar outra vez com esta precisão quase que cirúrgica entre as palavras. Tenho para comigo que há vários termos que são, e neste caso específico estão, usados de forma indevida, vez que usado como ambivalência ou sinonimidade.
Não se pode colocar no mesmo balaio como se sinônimos fossem o assédio sexual, o abuso sexual, a violência sexual, o estupro e o bullying. Sem querer determinar o sentido preciso de cada expressão, trago aqui algumas reflexões.
O assédio é quando há investidas verbais, olhares lascivos, vigilância para flagrar. É algo que traz desconforto ao objeto da ação e prazer ao agente, talvez por patologia ou simples desvio de conduta. Não há no assédio o desejo de trazer dano à pessoa, mas de chegara ter um relacionamento. Não se trata das “cantadas” de um apaixonado. Nesta categoria, só que com mais intensidade está o bullying, que além de ter as conotações anteriores, tem também um desejo, confesso ou não, de trazer algum prejuízo ou dano à pessoa que é objeto de suas investidas.
No abuso sexual há, mais que olhares e frases, o toque fortuito ou explícito. É o passar a mão, o encostar-se provocativamente, é o ato de avançar para o campo físico a intenção manifesta, sem, contudo, haver consumação de ato sexual.
Na violência sexual há ação centrada em um desequilíbrio de poder entre o agente e a pessoa objeto, em que o primeiro, prevalecendo da sua força física ou circunstâncias, força a pessoa a atos sexuais, não genitais. O forçar ao sexo oral ou a masturbar entram nesta categoria.
No caso do estupro, no meu entender, há a conjunção, baseada em uma relação desiquilibrada de poder físico ou moral, em que a pessoa vítima é obrigada a uma relação genital ou anal.
No caso específico do médico em questão, ao ouvir depoimentos de vítimas e dos investigadores, confesso, não consegui ver caso de estupro, mas de violência e assédio sexuais. Não há nenhum relato, entre os que ouvi, de alguém que disse que foi forçada a manter relações sexuais, mas que ele, aproveitando-se da situação, as beijou, as acariciou ou as fez acariciá-lo.
Dito isto, salvo mais evidências que me façam mudar de opinião, ele é dado ao “amasso” e não ao estupro. Daí porque, melhor seria que mudasse seu nome para Roger Abdeuamasso.
Marcos Inhauser

terça-feira, 1 de setembro de 2009

FIQUE ESPERTO

A prática é sistemática e condenada pelos órgãos de defesa do consumidor. Inicialmente eram os cartões de crédito enviados a torto e direito e que geravam débitos e custos e uma pendenga enorme para se livrar deles.
Outra prática, mais relacionadas à empresas de listas telefônicas, era a de enviar boletos pela publicação de um suposto anúncio que não se contratou. Alguns traziam um aviso de que o pagamento era opcional, mas a maioria não e alguns até traziam a informação de que o título iria a protesto se não pago no prazo estipulado. Já recebi também boletos de hospedagem do meu site pelas mais diversas empresas, todos eles fajutos.
Mais recentemente venho sendo vítima de um novo golpe, pois não vejo outra palavra para definir o que vem acontecendo. Primeiro foi descobrir na minha fátua do celular da Vivo a contratação de serviços adicionais que eu não havia feito. Liguei pedi explicações pela cobrança nos últimos três meses e eles me disseram que eu havia autorizado o tal serviço de vantagem em chamadas roaming no dia tal. Afirmei que nunca havia sido contatado e muito menos feito tal opção. O que consegui foi o cancelamento do serviço a partir da data da minha reclamação, mas não a reversão dos pagamentos feitos. Comecei a ficar esperto com a Vivo. Mais de uma vez recebi SMS me parabenizando por ter aderido a este ou aquele adicional de serviço, coisa que não fiz, e que cada vez me tomou mais de vinte minutos em ligação tentando reverter o serviço.
Neste mês me enfiaram quase vinte reais em serviços adicionais que não contratei não autorizei e que me tomaram trinta e cinco minutos para reverter. E o pior é que a reversão foi parcial, pois, segundo a atendente, haveria ainda uma cobrança proporcional que eu deveria contestar quando chegasse a fatura. Lá se vai mais meia hora.
O mesmo está acontecendo com as famigeradas taxas dos bancos famintos por dinheiro fácil. A cada extrato aparece algo sendo cobrado. Neste dias descobri que meu banco que me “deu” um cartão de crédito sem anuidade, me cobrou para a renovação, e que o gerente do banco não pode estornar a cobrança, pois devo ligar para a central de atendimento ao cliente e tentar conseguir a devolução da taxa. Se eu cancelar, assim mesmo corro o risco de ter que pagar.
E o pior. Descobri que além dos juros exorbitantes que cobram no cheque espacial, ainda pago uma taxa de renovação do cadastro e a cada dois meses uma taxa de R$ 145,00 pelo uso do limite. Um roubo. Eu digo: um assalto a “banco armado”.
È muita esperteza. E para contrarrestar, temos que ficar espertos com estes assaltantes legalizados e jurisprudenciados.

Marcos Inhauser

terça-feira, 25 de agosto de 2009

SENADORANTE

Nunca colocaria em um filho este nome: Aloísio. Não gosto. E agora não gosto também de um que tem este nome: o Mercadante. Aliás, este sobrenome me faz pensar em outras coisas e nestes dias, não pude deixar de associá-lo, por rima, a comportamentos.

FRUSTRANTE: havia uma multidão de gente que acreditou nele e nele votou, transformando-o em campeão de votos ao Senado. Parecia ser uma pessoa séria, de convicções, firme, com idéias novas capazes de fazer a diferença em um cenário carcomido pelas velhas oligarquias políticas. Hoje, sem sombra de dúvidas, posso afirmar que há muita gente frustrada com ele.

TROPEÇANTE: no episódio da compra do dossiê e dos aloprados, ele veio com a esfarrapada e petista desculpa de que não sabia de nada. Santa inocência ou astuta esperteza, acreditando na imbecilidade coletiva. Tropeçou feio e nunca mais conseguiu firmar o passo diante da opinião pública.

VACILANTE: Mais recentemente apresentou comportamento e posturas vacilantes, ora apoiando, ora ficando em cima do muro e ora sendo mais assertivo quanto à situação do Sarney e do Senado. Foi difícil saber exatamente qual era a sua posição.

TITUBEANTE: Isto o fez titubear. Ora era isto, ora aquilo. O titubeio maior foi sua renúncia irrevogável e a revogação do irrevogável no dia seguinte. Mesmo com a carta do Lula, virou piada e merecidamente.

CLAUDICANTE: no episódio dos aloprados, do mensalão, e agora na crise do Senado, para mim ao menos, fica evidente de que ele claudicou na ética. Não afirmo por comissão, mas o claudicar pela omissão. Falhou ao não ser voz forte de denúncia como o foram Pedro Simon e Cristóvão, para não citar outros que evito mencionar nomes. A sua ausência foi patética quando do bate boca entre Pedro Simon e Collor, preferindo ficar no gabinete a estar presente em um momento histórico, em que éticos precisavam se manifestar contra “aquelle” que é até hoje, junto com um paulista, o símbolo máximo da corrupção.

MERCADEJANTE: o que está por detrás desta sua atitude? Um pragmatismo maquiavélico, em que o fim Dilma justifica todos os meios? O que há de negociação e negociatas por trás disto tudo? As fantasias correm a mil, haja visto que o Senado se mostrou ser a casa da mãe Joana e um balcão surtido de negócios os mais variados. Ou é a república sindicalista que o leva a tal comportamento? Não afirmo nada. Só pergunto perguntas inevitáveis diante disto tudo.


Marcos Inhauser

terça-feira, 11 de agosto de 2009

FUMOCÍDIO, MOTOCÍDIO E SUÍNA

Lembro-me de uma foto que via em uma agência dos Correios em São Paulo. Era um revolver apontado para a cabeça de uma pessoa, em atitude de suicídio. O cano da arma era um cigarro e a legenda dizia: “o cigarro é uma arma onde o tempo aperta o gatilho”.
Lembrei-me desta foto nestes dias com a celeuma montada pela lei antifumo do governo de São Paulo. A propaganda com o garçon medindo o ar nos pulmões antes e depois do serviço, mostra algo que há não muito passou a ser reconhecido e combatido, que é o fumante passivo. Entre os argumentos esgrimidos pelo governador está a melhoria da qualidade de vida, a diminuição dos AVCs e outros problemas coronários e pulmonares, a redução de gastos médicos pelo sistema público de saúde, etc.
Na mesma semana vem a notícia de que foi aprovada a lei que legaliza o mototáxi e que o prefeito de São Paulo, aliado do governador, pretende implantar tal serviço na cidade de São Paulo. E aí me veio o nó na cabeça: sabe-se por dados estatísticos e mesmo visuais para quem anda com certa freqüência pelas ruas e estradas, o crescente número de acidentes com motos. Quem não conhece alguém que morreu ou se acidentou gravemente pilotando uma moto? Quantas pessoas incapacitadas você conhece, fruto de acidente deste gênero?
Há ainda dados estatísticos e estudos mostrando que a poluição produzida pelas motos é muito maior que a feita por um carro. Mais: se se calcula a poluição por passageiro transportado e quilometragem rodada, as motos perdem feio. Adicione-se a isto o custo médico que a saúde pública dispende com os atendimentos dos acidentados e a natureza de tais cuidados, muitos deles com longos tratamentos e fisioterapias, tem-se que o custo ambiental e financeiro do uso generalizado das motos traz é igual ou superior ao dos cigarros.
E por que se cria lei para combater o fumo (o que eu aplaudo) e se libera outro instrumento urbano de suicídio e custos médicos? È a morte pelo cigarro mais morte que a das motos?
Mas para se entender a lógica destas coisas, passo alguns dados de um e-mail que acabo de receber. No mundo, por ano, morrem 2 milhões de crianças com diarréia que se poderia evitar com um simples soro que custa 25 centavos. O sarampo, pneumonia e enfermidades evitáveis com vacinas baratas, provocam a morte de 10 milhões de pessoas a cada ano. Há 10 anos, com a gripe das aves, os noticiários nos inundaram de informações e ela só causou a morte de 250 pessoas, em 10 anos. Vinte e cinco mortos por ano. A gripe comum mata meio milhão de pessoas por ano.
Será que por trás disto há só o interesse com a saúde ou há interesses econômicos por trás disto? Eu não tenho dúvida alguma.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

OUVIDORIA, SURDORIA OU DEFENSORIA?

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Tal como inúmeros outros brasileiros, achei que o estabelecimento de ouvidorias em empresas privadas e do setor público fosse algo que tivesse vindo para funcionar. Acreditando nisto, nos últimos anos tomei do meu tempo e paciência para entrar em contato com esta gente e colher os resultados.
Desta minha crença devo dizer que tive mais aborrecimentos e decepções que resultados. Por três vezes acionei a Agencia Nacional de Transporte Terrestre – ANTT, duas delas com casos graves e nunca tive sequer uma resposta ou forma de acompanhar o andamento das coisas. Outra vez acionei a ARTESP – Agência de Transporte do Estado de São Paulo, recebi um protocolo, liguei várias vezes e nunca recebi uma informação precisa ou conclusiva sobre o meu pleito.
Quando saiu a lei que regulamentou o Serviço de Atendimento ao Cliente, estabelecendo prazos rígidos para o atendimento e multas para os infratores, liguei para a ANATEL e fiquei mais de 45 minutos esperando que me atendessem e nada. A mesma que regulamentou o serviço é a que descumpre as regras.
Estes dias, por causa de um problema com plano de saúde, e ainda acreditando na coisa, tentei a Agência Nacional de Saúde e fui informado que não tratam de questões particulares, mas só com a questão institucional do relacionamento cliente e empresas.
Alguém pode argumentar que todas são estatais e que não se pode esperar nada de um governo que está se lixando para as regras, haja visto que mudou as leis das concessões de telefonia para que houvesse a fusão Oi/BrasilTelecom, que politizou os cargos que deveriam ser ocupados por técnicos e colocou gente que não sabia de nada do setor, como é o caso do Milton Zuanazzi na ANAC – Agência Nacional de Aviação Civil. Estou citando um para não ficar listando sindicalistas e apaniguados lotados em cargos para os quais não estão habilitados.
A minha conclusão é que, no setor público tem-se Surdorias.
No setor privado, se não é uma Surdoria, é Defensoria. Cansei de ligar para o Omdundsman da Telefônica, ouvidoria da Net, ouvidoria da Vivo e me decepcionar. Estes até que dão certo seguimento e ligam de volta para relatar os procedimentos tomados. Invariavelmente defendem suas empresas e acabam jogando o problema para escanteio ou no colo da gente. O mesmo se deu com a Ouvidoria de um Plano de Saúde. O atendimento local mudou prazos, atendeu mal, disse que não tinha chegado o documento solicitado e quando liguei para a Ouvidoria o dito cujo milagrosamente apareceu, se negaram a carimbar um papel impresso por eles, e depois a Ouvidoria me liga para dizer que seguiram os procedimentos e o culpado era eu.

terça-feira, 28 de julho de 2009

SUPÉRFLUO ÀS ÁGUAS

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Prática da antiga navegação era, diante de uma tempestade e risco iminente de afundar, atirar às águas o que era supérfluo, como forma de aliviar, salvar o barco e chegar ao destino. A prática não mais é adotada na navegação de grande calado e talvez o seja ainda em pequenas embarcações. De uma coisa sei: o Lula sabe disto e usa a técnica na sua viagem pelo mar revolto da política, com o objetivo de perpetuar-se no poder.

Ele já enfrentou algumas tempestades que grande porte. O seu barco, denominado PT, esteve à deriva várias vezes, no que pese o fato de que muitos que o escolheram criam que estavam elegendo um Titanic: sólido e resistente.

No porto de partida houve festa e esperanças de que a viagem seria tranqüila. Ao alcançar alto mar, pegou a tempestade do Mensalão. Balança daqui, balança dali, o barco PT estava fazendo água e o capitão disse que nada estava acontecendo. Quando a coisa complicou, elegeu o supérfluo e jogou ao mar o Dirceu. Com a tempestade da viagem à Argentina da Benedita, ela foi jogada aos tubarões.

Mais tarde, com a tempestadezinha inicial do caseiro, percebeu que a nuvem escura virava uma grande tempestade, e lá foi outro supérfluo: Palocci. Houve ainda a tempestade do churrasqueiro do guru-mór, dos compradores de dossiê para favorecer a candidatura de um barco do navio, e lá foi ele jogar supérfluos dizendo serem aloprados.

Quando outra tempestade Rondeau, jogou fora o Silas. Depois foi a ministra com gastos exagerados no cartão, e lá foi ao mar outro supérfluo, ainda que os gastos com a filha Lurian tenham sido iguais ou maiores.

Agora, quando depois de hesitação e cobrança pública, o Mercadante solta uma nota como líder do PT no Senado dizendo que apóia a licença e convocação antecipada do Conselho de Ética, o sindicalista-mór manda o pau mandado do Ministro Mucio desautorizar publicamente ao líder de seu partido. Mais um que ele joga ao mar.

O que chama a atenção é que ele não jogou ao mar o Renan e nem agora o Sarney, no que pese a gravidade das tormentas. E se não o fez, só posso concluir que eles são mais importantes que o Dirceu, Palocci, Benedita, Greenhalg e outros petistas históricos. Se o seu barco PT está fazendo água, melhor saltar para outro que já provou que resiste a qualquer onda: o PMDB, barco que tem a capacidade de navegar sempre na onda do poder.

O que o leva a agir assim? Estratégia política? Ou blindagem para quando deixar o governo e vieram pedir explicações mais detalhadas sobra a atuação do filho, sócio da Telemar? Ou suas constantes viagens ao redor do mundo? Ou a compra dos Rafale para equipar o exército? Ou as verbas nebulosas da Petrobrás para as ONGS e empresas devedoras para com a União? Ele talvez terá que se explicar muito e nada melhor do que se proteger protegendo hoje pessoas que poderão ajudá-lo a blindar-se. Não tenho respostas, só perguntas.

terça-feira, 21 de julho de 2009

CADÊ VOCÊ, SUPLICY?

Votei em você em todas as oportunidades que pude. Comecei em 90, depois em 98 e mais recentemente em 2006. Não só votei como, sem que você me pedisse, fiz campanha por você. Se encontrasse alguém indeciso quanto ao voto para senador, lá estava eu aconselhando a votar em você por considerá-lo combativo, independente e ético.
Acompanhei sua luta na CPI dos Anões. Lembro-me da suas argüições aos implicados e da viagem aos Estados Unidos para tentar achar uma mulher que poderia ser a esposa do cérebro da quadrilha dos anões. Acompanhei as suas intervenções na CPI do Narcotráfico e no Mensalão e admirei sua independência quanto ao partido que estava atolado até ao pescoço nas maracutaias do valérioduto. Lembro-me da sua investigação quase quixotesca em busca de evidências quanto à morte do Celso Daniel. Sempre o achei um determinado, especialmente no que se refere ao Bolsa Família, tema quase único nas suas conversas e falas no plenário.
Mas, confesso, estou desapontado com o seu sumiço nos recentes casos de corrupção no Senado. Até tenho a impressão que, ou você não é mais Senador, ou tirou férias. Não sou um investigador contumaz das suas atividades, mas não me lembro de uma única participação, fala, censura ou seja lá o que for diante dos recentes episódios. A única coisa que me lembro e que me causou espécie, foi a revelação da sua participação na farra das passagens aéreas, com explicação tímida e providência óbvia.
Fico a me perguntar se a sua concepção do Bolsa Família passa pelo nepotismo do emprego da família nas tetas do erário. Afinal é uma forma de Bolsa Família. Dinheiro público para parentes menos agraciados na vida, sem mandato parlamentar, que não merecem ficar vendo o iluminado eleito se lambusando e eles à deriva. Por que não vi, não li, nem soube, da sua posição quanto a isto?
Se você está no Senado desde 1990, como pôde passar todo este tempo sem nunca ouvir que algo de estranho acontecia nos subterrâneos do poder legislativo? Nunca ninguém lhe contou da casinha que o Agaciel tem? Nunca lhe passou pela cabeça que havia muito cacique para pouco índio nas diretorias do Senado? Nunca lhe passou pela cabeça perguntar como pode a Gráfica do Senado ter mais de mil funcionários e oitenta por cento deles na ociosidade?
Há algo de estranho neste seu silêncio, especialmente em quem já fui muito combativo e independente. Qual a sua posição diante do enquadramento do Lula, exigindo a sustentação do Senador do Amapá que mora em São Luís na presidência do Senado? Qual a tua posição quanto ao circo montado na composição do Conselho de Ética e especialmente na escolha do presidente?
Gostaria de ver você atuando como já fez. Mas, hoje por hoje, estou é decepcionado com você e meu voto você não recebe mais.
 
 

terça-feira, 14 de julho de 2009

CADÊ OS PROFETAS?

Não é de hoje que me preocupo com a dimensão profética da igreja. Não me refiro às profetadas, tão comum em centros que mais se parecem a adivinhações e chutes prognósticos, nem aos que se sentem porta-vozes de Deus para manipular a vida de incautos, mas à dimensão vetero-testamentária, de pessoas vocacionadas por Deus para diagnosticar o presente, para denunciar os pecados individuais, fossem eles cometidos por pessoas simples como pelos reis, e o pecado nacional (tão esquecido pelos púlpitos e animadores de auditório religioso). Falo do pro+phemi, do pro+phetai, dos Isaías, Jeremias, Amós, Habacuques modernos.
Lembro-me de um renomado pastor guatemalteco, diretor de seminário e aclamado como teólogo, em uma reunião de seminários dizia ser a Guatemala o país latino americano mais evangélico e evangelizado em todo o continente. Na hora das perguntas, lhe perguntei como explicava o fato de ser (era isto 1990) o país mais violento politicamente da América. Ele me disse que não estava ali para falar de política. Mas este homem, quando pastor de uma igreja que fica atrás do Palácio Nacional, permitiu que tropas do Exército se colocassem na torre da Igreja para vigiar e atirar nos manifestantes. E ele sabia que eu sabia disto, porque estive na sua igreja e constatei isto.
Mais recentemente fui visitar minha filha na China e fomos três vezes à Igreja que é permitido aos estrangeiros freqüentar. Ela me explicava que há relativa liberdade, que podem cantar, orar, convidar outros estrangeiros, podem pregar aos nacionais em suas casas e aos empregados, mas que não podem falar de política, nem falar “mal do governo”. A função profética está castrada.
Olho para a igreja brasileira e fico a procurar profetas no sentido bíblico e não os encontro. Conheci o Federico Pagura, argentino, metodista, mistura de profeta e poeta. Conheci Dom Pedro Casaldáliga. Li sobre o Helder Câmara e o respeitei e o respeito. E entre os evangélicos? Quem foi ou é profeta denunciando escândalos, os desmandos, a locupletação da coisa pública, as hienas do erário?
Que igreja é esta, a brasileira, muito mais conhecida pelos “louvores”, solicitação à exaustão de ofertas e dízimos, pelos escândalos de seus “pastores”, pela falta de ética generalizada em seus vereadores, deputados e senadores? Que igreja é esta que seus líderes mais gostam de holofotes, de palcos, multidões, loas, carrões, televisão, rádio que ter cara e coragem para denunciar os pecados nacionais? Onde estão os Jeremias, Amós, Habacuques, Isaías, Miquéias?
Esta é uma igreja manca, enferma. Falta-lhe coragem para o ministério que não dá holofotes, que mais leva às cavernas que aos palcos. Uma igreja que tem mais cantores e milagreiros que pastores e profetas. Uma igreja que tem mais animadores de auditório que doutrinadores, que tem mais excitação que adoração, mais embusteiros que mensageiros.

terça-feira, 7 de julho de 2009

OBRIGADO, DEUS, PELOS DOIDOS

Acabo de assistir à parte final da cerimônia de despedida de Michael Jackson. Chamou-me a atenção a insistência em a chamar de “celebração à vida”. Confesso que o estilo de música do Michael Jackson não faz meu estilo. Brinco dizendo que meu gosto musical parou nos Beatles e nem conseguiu chegar aos Rolling Stones. Não gosto de rock, pop ou o que veio depois disto.
Admirava a flexibilidade do corpo nas coreografias de suas danças e nunca entendi como ele podia fazer o “moon walk”. Nunca assisti a um videoclipe dele e sempre o considerei excêntrico, meio doido, meio varrido. Lá nos meus botões eu atribuía isto a uma necessidade de ficar em evidência na mídia e a traumas de infância, denunciados pelo Michael, tendo a seu pai como agressor. Sempre achei a família Jackson disfuncional e o Michael um doido.
Quando o acusaram de pedofilia, estava mais propenso a acreditar que a defender. Certa vez pensei que ele ainda havia escapado da acusação de ser viciado em drogas, e o que se sabe agora é que sim o era, mas em analgésicos. Hipocondríaco? Talvez. Neurótico? Talvez. Gênio? Com certeza.
Ao ouvir o testemunho da Brook Shields sobre as brincadeiras de criança que ambos tinham mesmo sendo adultos, das gargalhadas que davam, da alegria que sentiam ao estarem juntos, confesso que tive que repensar um monte de coisas.
Comecei a pensar na quantidade de coisas que hoje temos, de descobertas feitas por cientistas totalmente devotados às suas pesquisas, do médico que descobriu a bactéria estomacal e que ninguém nele cria até que ele mesmo se infectou com ela, do Einstein mostrando a língua, do Stephen Hawkins em sua cadeira de rodas pensando o universo e a noção de tempo, do Aleijadinho e sua obra, apesar da enfermidade. Muitos outros eu poderia citar.
Há algo em comum nesta gente toda: eram meio doidos, meio malucos. Se o mundo fosse depender dos “certinhos”, de gente que é igual a relógio suíço (todo dia fazendo a mesma coisa nas mesmas horas) o mundo não teria avançado como avançou. As descobertas, as invenções, as grandes esculturas, pinturas e arquiteturas nós as devemos às pessoas que ousaram quebrar paradigmas, que se devotaram de corpo e alma ao que se propuseram, que vararam noites e mais noites a perseguir seus ideais.
Outra característica de muitos deles é que eram pessoas sofridas, solitárias, incompreendidas, doentes. Talvez por isto tenham falado tanto à alma humana, esta também cheia de dores e desilusões. E não é por menos que os Salmos da Bíblia, poemas na sua grande maioria falam do sofrimento e perseguição, sejam tão lidos.
O mundo precisa dos doidos e sofridos para que haja mais alegria e melhor qualidade de vida. E Michael foi um deles que trouxe para muitos alegria e exemplo de determinação.


quarta-feira, 1 de julho de 2009

Tõ com dó dele

Ele não merece. Depois de tanto servir à pátria, depois de ser eleito por um Estado onde não vive, agora querem sangrá-lo em praça pública. Que culpa tem ele se, no melhor de sua avaliação, muito tempo atrás, nomeou o Agaciel para ser alguém e ele, só agora, se deu conta de que a criatura virou uma cobra a envenená-lo?

Que culpa tem ele se, no exercício de suas funções, o nomeado não publicou atos que deveriam sê-los no boletim oficial do Senado. Era o Sarney quem mandava publicar ou isso era função do nomeado? Que culpa tem ele se tem uma família das mais notáveis na vida pública brasileira, sendo ele o mais tradicional e longevo dos políticos brasileiros, tem uma filha que já foi e ainda é governadora do Estado do Maranhão (por decisão judicial, deve-se relembrar), foi senadora da República? Que culpa tem de ter um filho também político de primeira, eleito deputado federal? O que fazer se netos, sobrinhas e outros parentes, espelhando-se no exemplo do patriarca, quiseram servir à pátria via Senado e funções públicas? Que culpa tem ele se, por causa do seu peso político, um neto, sobrinho, cunhada ou seja lá o que for vai pedir um emprego a um senador qualquer e esse, em respeito ao patriarca, o emprega?

Que culpa tem ele que o motorista/mordomo, empregado há muito no Senado, faça coisas menores para atender coisas da família e para isso receba um salário nababesco? Que culpa pode ter uma pessoa que, imbuída dos mais altos valores cristãos da solidariedade e amor ao próximo, empresta um imóvel funcional a um ex-senador enfermo e autoriza uma viúva de um ex-empregado a morar em imóvel público?

Que culpa tem se nunca soube que seus netos eram empregados de senador, que os empregou porque devia favores ao avô? Que culpa tem se nunca deu ouvidos à rádio-corredor e nunca soube de “coisas” que aconteciam dentro da casa que administra? Que culpa tem se entendeu que seu mandato é para lidar com questões políticas e não para limpar as latas de lixo da cozinha, coisa que, a bem da verdade, não são para uma pessoa do seu naipe?

Que culpa tem se um neto que fez cursos em Harvard na área de economia, abre um negócio de gerenciamento de créditos consignados e consegue mediar tais negócios com funcionários da casa que o avô administra?

É muita “mídia marronzista” (que saudade do Odorico Paraguaçu). É trama insólita da oposição que não gosta do seu apoio ao presidente Lula. Se ele é culpado e deve renunciar, que renunciem também todos os outros senadores que nada sabiam tanto quanto ele, que também tiveram parentes empregados e viajaram de graça. Tadinho dele. Tô do teu lado Sarney...

Só peço um emprego de motorista/mordomo. Afinal, sou o único a defendê-lo nessas horas difíceis. Por favor, não se esqueça de mim, ainda que não seja parente...

terça-feira, 23 de junho de 2009

QUASE CHOREI

Nunca gostei do bigode do Maranhão. Desde os tempos de ditadura, ele na Arena, era um ser que me causava espécie. Junto com o falecido ACM, eu os classificava como coronéis, cabresteando votos por meios que não sabia explicitar, mas que, lá nas minhas entranhas eram convicções. Quando, por destino (castigo diria eu) ele foi guindado à Presidência e veio com o Plano Cruzado, botei minhas barbas de molho, esperando para ver como ficavam as coisas, mais por causa do Funaro que por alguma seriedade que ele me inspirasse.
Não preciso dizer que ele fraquejou na hora de ter pulso para tomar decisões que evitassem a tragédia que foram os últimos dias do seu governo, com inflação estratosférica. E não as tomou porque não sabe tomar e porque preferiu privilegiar a eleição dos candidatos do PMDB e não a nação.
Mais tarde, quando na presidência do Senado, minhas vísceras reclamavam feio cada vez que ele aparecia na TV. Fiquei insone quando a filha teve condições de sair candidata e se eleger. O episódio da Lunus e da dinheirama lá encontrada sempre ficou nebulosa para mim. O dono do Maranhão apressou-se em afirmar que foi armação, mas nunca explicou convincentemente a origem da grana.
Quando estive em São Luís constatei a profusão de ruas, prédios públicos, viadutos e quejandas com homenagens à família. Acreditei piamente nos que diziam ser o Maranhão a Sarneylândia. Nunca entendi como ele, notória e declaradamente originário e domiciliado no Maranhão, podia ser Senador pelo Amapá. Cada vez que pensava nisto, vinha-me à mente Orwell na “Revolução dos Bichos”: “todos somos iguais, mas alguns são mais iguais”. Perante a lei, somos todos iguais, os que não somos Senadores e donos do Maranhão e representantes do Amapá.
Agora, quando ele está às voltas com escândalos envolvendo familiares que estão mamando nas tetas do Senado, tive estômago para, desde a primeira à última palavra, prestar atenção devota ao seu discurso da semana passada e às afirmações feitas a posteriori. Confesso, quase fui às lágrimas. Este respeitável senhor está sendo injustiçado. Como é que o neto, a neta, a sobrinha e os outros parentes, que trabalhavam no mesmo local, nunca foram visitá-lo e informar que tinham sido premiados com a sorte grande de uma boquinha no Senado? Que família disfuncional esta! Como que o seu gerente geral, que ele nomeou, teve a infeliz imperícia de fazer todas as nomeações de parentes, sem publicar para que ele ficasse sabendo? E como poderia saber destas coisas feitas à sorrelfa se nem publicado foi? Como saber que lhe pagavam aluguel de uma moradia se ele não tinha que pagá-lo, pois mora em residência oficial? Como acusá-lo de ceder o apartamento funcional a um ex-senador enfermo e carente? Nem se pode mais fazer caridade?
Por favor, este senhor tem uma folha corrida bastante ampla de serviços. Há que respeitá-lo. Ele sabe lidar com a coisa pública. Só a imprensa elitista e golpista que não o entende nem o compreende!

Marcos Inhauser

terça-feira, 16 de junho de 2009

BOQUIRROTO

A sapiência humana já ensina há milênios que há mais sabedoria no silêncio que no muito falar. Os Provérbios bíblicos dizem que o falar é prata e o calar-se é ouro. Há ditado que diz que “quem muito fala, muito erra”.
Estes princípios me vieram à mente estes dias, e não pela primeira vez, por causa do nosso sindicalista-mór. Ele me dá a impressão que nunca desceu do caminhão de som do sindicato e que ainda não se deu conta de que não está na porta de indústria conclamando os companheiros.
Nesta semana o boquirroto veio a público dizer que a França iria indenizar as famílias dos acidentados no vôo. Imediatamente o governo francês emitiu nota negando e afirmando que o governo francês não tem nada a ver com isto (indenização) e que isto é coisa da empresa aérea.
Podia ter ficado quieto e não passaria por este vexame. O problema é que ele está fazendo escola. Semana antes, o ministro Jobim, sobre o mesmo assunto, disse o que não devia, afirmou o que não era verdade, e concluiu o que nem os mais renomados e reconhecidos peritos conseguiram.
A fala do guru-mór revela outra coisa, se não de forma consciente, mas por ato falho. Ao atribuir ao governo francês a responsabilidade que é da empresa aérea, ele revelou como vê a coisa pública e a separação dela com a privada. Não é de hoje que, no Brasil, a coisa pública é tomada como se privada fosse. Haja visto os recentes escândalos no Senado, Câmara, Petrobrás, etc... É o senador-presidente que tem neto e primas empregados no Senado por atos secretos e que “não sabia”, que empresta apartamento funcional em um gesto de caridade a um ex-senador doente, que recebe auxílio moradia sem ter pedido e sem ter notado que se lhe pagava tal benefício, é o outro que paga jatinho fretado com dinheiro nosso, que leva namorada para passear na Europa com passagens pagas com impostos, é o filho do homem que celebra contrato milionário com empresa telefônica para fazer não se sabe bem o quê, é o mensalão sustentado com verbas públicas segundo denúncia do Procurador Geral da República, e tantas outras coisas que vieram a público.
O cruzar da linha entre o público e o privado é a nossa história. E o partido de situação foi eleito pela bandeira que empunhou de moralidade no trato da coisa pública, mas o que se vê é o aparelhamento do estado e a transformação dele na república sindicalista. E o chefe falando o que não deve, falando mais do que deve e alegorizando como se a qualidade de um governo fosse proporcional à quantidade de metáforas produzidas. Lembrei do personagem do Jô Soares: “cala a boca, Batista”.

Marcos Inhauser

sexta-feira, 12 de junho de 2009

A QUESTÃO DA VIDA

Trago viva a lembrança vivida em minha infância. Minha avó materna e um tio viviam com a gente e em casa havia um fogão à lenha, centro da vida familiar. Certo dia apareceu a possibilidade de trocar o velho fogão por outro a gás. As conversas à mesa, na hora da janta (naquele se tempo ainda se jantava!) era acalorada com meu pai defendendo a novidade e os outros reticentes ou contrários. Lembro-me que um dos argumentos brandidos era que o café já não mais estaria à disposição sempre quente, pois não haveria fogo para mantê-lo aquecido.

Outro argumento era de que o feijão feito no fogão moderno não tinha o mesmo gosto do feito em fogão à lenha (até hoje ouço este argumento e não consigo entender, confesso, porque se é o calor que cozinha, qual a diferença ente os calores?).

Quando olho para trás, percebo que a questão não deveria ser se deviam ou não trocar, mas quando deveriam fazê-lo. Há mudanças que vem para ficar e não aceitá-las é ficar fora do mundo. Assim foi com a imprensa, quando muitos a acusaram de poder disseminar mentiras, imoralidades, etc. Foi assim com o cinema, a televisão, o telefone e o celular. Não é uma questão de saber se deviam ou não aceitar, mas quando deviam adotar as novidades.

A mesma questão vale para o computador e a internet. Muitos foram (e ainda são) críticos severos da modernidade, acusando tudo o que de mal está acontecendo com os filhos e casamentos. Mas parece que os críticos de então e de agora se esqueceram e se esquecem de olhar quanta coisa simplificou com as novidades. Minha avó não mais precisou rachar lenha, nós os netos não mais precisamos recolher a madeira, não mais havia panela pretejada para lavar. O café quente foi solucionado com a garrafa térmica que veio logo depois e não mais se tomou café requentado.

De igual maneira, os críticos da modernidade da internet se esquecem que ela é que possibilita uma série de comodidades. O banco online, os endereços à mão, a localização de amigos, o conversar com o mundo, o ter dados e informações na ponta dos dedos, são poucas das muitas coisas que mudou para melhor.

Toda mudança implica em riscos, em ajustes, em dores de parto até que a coisa venha à luz. Criticar a gravidez sem olhar o fruto por vir é burrice. Não há novidade, avanço, sem algumas dores.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 3 de junho de 2009

COMPORTAMENTO RETRIBUTIVO

Há algo que tem caracterizado o comportamento humano ao longo dos séculos: a reciprocidade. Parece que é inato ao ser humano. Quando uma criança se machuca e chora, a outra que está próxima também começa a chorar, mesmo que nada lhe tenha acontecido.
Esta atitude também pode ser vista em certos comportamentos espontâneos que temos e que não conseguimos explicar: por que sorrimos em resposta ao sorriso de umdesconhecido? Por que temos a tendência de ficar alegres se estamos perto de alguém alegre, e triste em companhia de alguém triste?
Há quem diga que temos em nosso cérebro uma área dedicada ao “espelhamento”, que é esta capacidade de reagir em sintonia com os sentimentos dos outros. Lemos o estado de espírito da pessoa e nos amoldamos a ele, como forma de aceitação, mesmo porque, se chegamos alegre a alguém que teve uma perda significativa, não seremos bem aceitos e até criticados. Esta capacidade, ainda segundo estudiosos, se estende ao gestual e postural, pois, inconscientemente, assumimos posição corporal análoga à de nossa companhia, como forma de criar sintonia e empatia.
Há, no entanto, um tipo de comportamento que se dá na esfera consciente e que está em retribuir ou não a uma ação feita por alguém. É muito comum encontrarmos quem diga: “eu não o cumprimento porque ele nunca me cumprimentou”, “eu não o convido porque ele nunca me convidou”, “não falo com ele porque ele nunca falou comigo”, “só faço se ele tomar a iniciativa”.
Há três coisas neste comportamento que quero salientar. A primeira delas é a tentativa de colocar no outro a responsabilidade pela minha atitude. É um mecanismo de defesa iníquo, injusto, porque coloca além de mim a responsabilidade da iniciativa que vise à mudança. A segunda é que só faz perpetuar a situação. Se ambos usam da mesma argumentação, nunca se terá a mudança. Este comportamento é imaturo, ingênuo e infantil. A terceira é que a cadeia causa-efeito-que-se-torna-causa tem o condão de acentuar as diferenças e a rivalidade. É um cavar de poço, indo cada vez mais fundo.
Há nos ensinamentos de Jesus a máxima do “dar a outra face”, “do andar a segunda milha”, “do perdoar setenta vezes sete”, do pedir perdão a quem nos crucifica. É a lógica da graça, do agir sem que o outro mereça, do fazer o que não se espera que se faça, como forma de romper o círculo vicioso do comportamento retributivo.
A graça para com quem desgraça os relacionamentos é um gesto que, por mais engraçado que possa parecer, congraça os seres humanos, permitindo que a graça agracie a todos.

terça-feira, 26 de maio de 2009

COMIPÇÃO

Nos últimos meses tive a oportunidade de conversar com algumas pessoas que tem ou tiveram relações estreitas com os corredores do poder, tanto em nível federal, estadual, como municipal. Nas conversas, como é óbvio, não poderia deixar de tocar o tema da corrupção e os casos que vieram à tona, notadamente os relacionados ao Senado e a farra das passagens aéreas.

Nas considerações que ouvi, houve uma unanimidade: o que veio à tona é só a ponta do iceberg, só uma pequena ponta de tudo o que ocorre nos descaminhos do poder. Cheguei à conclusão de que se cobra comipção (neologismo formado de comissão e corrupção) até na compra de palito de dente.

Segundo estes, há muita coisa, como favores prestados a deputados e senadores que traficam influência, viciam licitações para que sejam vencidas por quem “financiou” suas campanhas, aceitam sobrepreços, pagamentos de pilares inexistentes em túneis e pontes, metragens descumpridas em estradas, capa asfáltica 50% menos espessa e largura de estradas mais estreitas do que está no contrato, o que dá ganhos exorbitantes às empreiteiras. Há os “pedágios” mensais em base a um porcentual sobre a arrecadação nos serviços “privatizados”.

Um deles me contou de uma farra financiada há mais de uma década por um empresário que levou de passeio a Mônaco mais de dez deputados e senadores e alugou um iate ao custo de US$ 120.000,00 dólares/dia.

O outro me perguntou se eu acreditava que a farra dos pedágios e o jardineiro fantasma eram os casos mais cabeludos da Câmara de Campinas. Ele me disse que a celeuma em cima da identificação dos carros usados pelo poder municipal é quase nada diante de outras coisas. Ele me pediu que prestasse mais atenção às mudanças nas leis de zoneamento, contratos sem licitação feitos em regime de urgência, custo do aluguel dos carros, a forma como certos “empregados” são pagos por agências de publicidade e locadores de veículos, como forma de camuflar gastos.

Na segunda-feira houve uma manifestação dos donos de postos de gasolina, vendendo o produto sem os impostos para que a população se conscientize do quanto há embutido no preço. Houve onde se vendeu o produto a R$ 1,27. Se remédio genérico paga 37% de imposto, se vacina para animal é isento, se escola paga mais tributo que lotérica, dá um mal estar danado. É um dinheiro que vai pelo ralo, falcatruas de ilustres “otoridades”.

Quando pergunto a estas pessoas se há esperança eles me afirmam que não vêem luz no final do túnel, que a cultura da comipção é arraigada no Brasil, que a população tem um comportamento bovino de passividade. De minha parte, não voto mais em ninguém que tenha mandato. É meu não à reeleição.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

A BENÇÃO DA DIFERENÇA

Se os seres humanos foram criados por Deus, concluimos que Ele nos fez diferentes por uma de duas razões: por capricho de Deus ou porque há um propósito. Quando Deus percebeu que não era bom o homem estar só, criou a companhia, que diferia em gênero: uma mulher. Para ser auxiliadora tinha que ser diferente. A ajuda vem da diferença. Quando duas pessoas iguais estão juntas, não podem se ajudar porque iguais.
O mesmo se aplica à espiritualidade. Somos ajudados no crescimento espiritual quando convivemos com a diferença. Não é o cercar-se de gente igual que dá a certeza de estar certo. Há mais probabilidade de incorrer em erro quando cercado de gente igual do que quando de gente diferente.
Os iguais bajulam, porque dizem o que se gosta de ouvir, não criticam porque seria criticar-se, uma vez que pensam e agem igual. Quando se cerca de gente igual, ao invés de crescer, para-se no tempo e fica se deliciando com as verdades que se cre e recusa as novas, porque envolvem o risco.
Por outro lado, se se cerca de gente com capacidade e a liberdade de questionar, perguntar, duvidar do que se crê, afirmar coisas diferentes, a convivência será caracterizada pela constante reflexão, análise e reposicionamento. Quando se revê pensamentos, os avalia criticamente à luz de posições divergentes, há amadurecimento. A maturidade não está na certeza e na repetição ad infinitum das verdades. Ser um poço de certezas é ser inseguro e de imaturo. O ignorante é o que mais sabe e Sócrates dizia que uma coisa sabia: que nada sabia.
Estas reflexões me levam ao ecumênico. Tenho visto gente na defensiva e no ataque ao ecumênico. Acusam-no de tudo pelo fato de colocar pessoas que pensam diferente para conversar e encontrar caminhos comuns. O ecumenismo é uma proposta para gente madura, sem medo do diferente, do novo, de avaliar-se e até reconhecer que está errado. O ecumênico é um risco para os donos da verdade, porque podem ser falsas. Os inseguros se lançam ao ataque difamatório. Donos da verdade e ditadores em suas comunidades, não tem maturidade para o diálogo, porque treinados no arbítrio. Pregam como verdade o que creem, sem dar chances de serem questionados ou criticados.
Estes se esquecem que Paulo diz que nos últimos tempos cercar-se-iam de mestres segundo as suas cobiças e que estariam rodeados de gente igual. Nada mais tentador e arriscado para a fé que cercar-se de iguais. No antigo Israel a diferença foi feita pelos profetas, que anunciavam o diferente, que quebravam o discurso dogmático e questionavam os sacerdotes e reis.
Quando se celebra nestes dias Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, é hora de aceitarmos que o propósito de Deus é a vida com a diferença.

Marcos Inhauser

terça-feira, 12 de maio de 2009

SEM PODER FICAR, NEM SAIR

A cana é um dos produtos agrícolas mais fortes da República Dominicana e o governo tem grandes interesses na sua produção. Há algumas décadas, como forma de reduzir o custo da produção via mão-de-obra barata, o governo dominicano fez vista grossa (alguns dizem que estimulou) a vinda de haitianos ilegais para trabalhar na lavoura da cana. Eles vieram e foram formando pequenos povoados, alguns em terras do governo, conhecidos como batéis.
São vilas de extrema pobreza, sem água encanada ou esgoto, onde se vive sob constante tensão pelo medo das investidas policiais. Há alguns anos o governo dominicano decidiu privatizar várias usinas de açúcar e as menos rentáveis foram fechadas e os trabalhadores, na quase totalidade haitianos ilegais, ficaram à mercê da sorte, visto não terem nenhum direito trabalhista.
Não bastasse isto, há outra situação que raia a um drama kafkiano: a constituição dominicana assegura o direito à nacionalidade para aqueles que nascem em seu território, como acontece com quase todos os países. Por manobras interpretativas, este direito tem sido negado a quem nasce em território dominicano e não é filho de pais dominicanos, mesmo quando um deles o é, tal como ocorre com inúmeros casais haitianos.
Com isto, filhos de haitianos nascidos na República Dominicana não podem ter o direito à nacionalidade e lhe é negada a certidão de nascimento. Sem isto, eles não são aceitos nas escolas públicas e, por conseguinte, não podem estudar e aumentam a população miserável de haitianos.
O assunto tomou tal monta que o governo se viu pressionado a revisar esta conduta de negar a cidadania aos que nascem em seu território. Ao invés de rever a norma, por inconstitucional que é, está promovendo uma reforma na Constituição para assegurar que haitianos não possam ter cidadania dominicana. As discussões estavam acaloradas nos dias em lá estive e ainda não havia um veredicto final, mas as coisas se encaminhavam para a vitória governista e o impedimento à cidadania de filhos de não-dominicanos.
Cria-se assim uma situação de horror e surreal: eles não podem ficar em território dominicano porque não são aceitos como tais, mas não podem se mudar para outra parte porque não possuem documentos. É a velha história do “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”.
O que mais me chama a atenção neste episódio é que não vi em nenhum jornal, noticiário ou notícias na internet alguma alusão a este imbróglio. Talvez porque se trate de negros, haitianos, ilegais, pobres, e sem nacionalidade. Não são gente.
Depois querem me vender a idéia de que a mídia noticiosa é imparcial e que busca a justiça.

Marcos Inhauser

terça-feira, 5 de maio de 2009

ATOLADO NO ESGOTO

Recebi uma foto, destas que rodam a internet, que vinha em meio a uma série de outras que mostravam trabalho duro. Entre as muitas, havia uma de um trabalhador em limpeza de esgoto que estava com a boca-de-lobo aberta e tinha enfiado a cabeça no esgoto entupido e transbordante, ficando ajoelhado na parte de fora e assim “atolado” até a cintura para conseguir arrumar a coisa. Quando vi a foto, imediatamente pensei que ela era um retrato das nossas casas legislativas.
Os recentes escândalos da farra das passagens, da casa do Agaciel, do apartamento funcional dados aos filhos do diretor João Carlos Zoghbi, do laranjal que ele tem para camuflar empresas que prestam serviço à casa, da quantidade de diretores que o Senado sustentava, a quantidade de denúncias feitas pelo casal Zoghbi que agora se retira, das denúncias feitas por ex-assessor do Jereissati, vem reforçar que se trata de um esgoto a céu aberto e que deputados e senadores estão como aquele trabalhado da foto: enfiados de cabeça.
Não acredito que a coisa seja nova, haja visto o argumento mais usado pelos parlamentares para explicar suas condutas, qual seja, de que sempre se fez assim, que as coisas não estavam claras, que se entendia deste ou daquele jeito. O que é novo é a imprensa e segmentos da sociedade terem acesso a certos dados, depois de muita pressão e trabalho duro de investigação, e revelarem o que se faz nos corredores e subterrâneos das casas legislativas.
Outro elemento que acho que pesou para a revelação destes fatos é a sede da república sindicalista e dos “cumpanheros” agraciados com cargos na administração federal, de estatais e demais esferas da administração pública. Famintos de uma riqueza fácil e sendo liderados por um chefe que não sabe de nada, atacaram com voracidade, fazendo botins nas licitações, contratos e outros expedientes comissionáveis, que acabou gerando uma luta interna pela partição da parte do bolo que se corta debaixo da mesa. Descontentes e prejudicados se encarregaram de vazar para o público certas práticas da partilha.
Plagiando o guru-mór-sindicalista, nunca na história deste país se soube de tanta corrupção quanto agora. O estado está aparelhado para fazer a sucessora do Lula, ou, caso se agrave sua saúde, emplacar uma mudança constitucional que lhe permita a segunda reeleição.
Espero e sonho que tenhamos uma mobilização nacional, como nunca se viu na história neste país, que, com a coisa até o pescoço, dê um basta nos oligarcas do esgoto.

Marcos Inhauser

Marcos Inhauser

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Igrejas Históricas da Paz

Volto, depois de dez anos, à República Dominicana, país que já visitei mais de vinte vezes, em função de trabalho de educação teológica que aqui realizei, sendo diretor de um seminário. À primeira impressão, parece que muita coisa mudou, pois novas avenidas, viadutos e túneis se abriram para escoar o tráfego e os cortes de luz parecem menos freqüentes e mais curtos.

No entanto, quando entro pelo país adentro, especialmente indo em direção ao Haiti, percebo que as coisas continuam iguais ao que era e, talvez, em alguns lugares, ainda mais complicado. No domingo estive em um Batei (vila de haitianos ilegais que vem à República Dominicana para trabalhar nos canaviais) e conclui, falando com as pessoas, que as coisas continuam iguais e talvez piores. Hoje vou a outro Batei onde os moradores viviam do trabalho do corte da cana e que já não tem o que fazer porque a usina fechou. Sem trabalho e na condição de ilegais, não podem sair da vila onde vivem, com medo de serem capturados pelas autoridades.

Neste contexto, as Igrejas Históricas da Paz (Irmandade, Menonitas e Quáqueros) se reuniram para convocar uma Conferência que busque ações concretas para reduzir a violência, no marco da Década para Redução da Violência. A tarefa é hercúlea, as formas de violência são múltiplas, mas algo se deve fazer, ainda que seja plantar grãos de mostarda.

Historicamente estas três igrejas tem se dedicado a elaborar uma teologia da paz e a buscar formas concretas de implementá-la. Representantes destas igrejas foram responsáveis por várias ações mundiais de denúncia da guerra, qualquer que seja, como pecado. Muitas ações foram desenvolvidas para os objetores de consciência (jovens que se negam a servir ao exército por razões de consciência), formas alternativas de serviço durante a guerra (criou-se um hospital em San Juan, Porto Rico para atender aos feridos de guerra e os que lá serviam não seriam chamado às armas). Também há forte mobilização entre os membros das Igrejas Históricas de Paz pelo desarmamento das nações e pessoal. Membros destas Igrejas tem se notabilizado por serem estudiosos das técnicas de resolução de conflitos e mediação, tendo, inclusive cursos universitários voltados ao tema e vários trabalhando para a ONU e na mediação de conflitos internacionais.

A Conferência que agora se convoca tem por objetivo reunir estas experiências pela paz na América Latina, coordenar ações e disseminar a teologia da paz entre outras igrejas e movimentos, de tal forma que a paz deixe de ser sonho e se torne realidade nas ações diárias das pessoas.

Quero ser criança, sempre

Já tive oportunidade de contar minhas peripécias com meus netos e como aprendi com a história o real robot. Mas, talvez, a mais significativa, tenha sido uma que não diretamente relacionada ao robô. Estávamos em Shanghai em um dia chuvoso e sem muita opção de passeio. Fomos a um shopping com muitos brinquedos para crianças, mas coisas eletrônicas, onde a participação é mínima: você passa a ser o objeto da ação e não senhor dela.

Minha filha viu um cartaz de um show de acrobatas chineses e nos perguntou se queríamos ir ver. Os netos perguntaram o que era isto e ela explicou. Eles se animaram. Ao me perguntar e devolvi a pergunta: mas vamos poder aplaudir com entusiasmo? Ela respondeu afirmativamente.

Lá fomos nós. Sentamos na quarta fila e meus lados, um de cada lado. Começado o espetáculo eu coloquei o menor no meu colo para que pudesse melhor ver (sentou um cabeção à sua frente) e comecei a comentar que era difícil fazer o que o acrobata estava fazendo, que por trás da exibição havia muitas horas de treino. Ao final daquela apresentação, plauadimos com entusiasmo. Em seguida, o neto mais velho também para o meu colo e comecei a dizer “uau” e eles começaram a dizer “awesome” a cada coisa mais atrevida ou difícil. A certa altura estávamos todos de tal forma envolvidos e participando do show, que gritávamos “unbelievable”, “incredible” a cada pouco e os netos aplaudiam em pé. Era uma festa. Era como estivéssemos no palco juntos, fazendo com eles as coisas.

A filha e a esposa tentavam estavam desconfortáveis com nossa euforia.

Olhando para trás, acho que foram dois shows: o dos acrobatas no palco e o nosso na platéia. Saímos em êxtase, como se tivéssemos visto o indizível. Os netos chegaram ao hotel e contaram ao pai tudo o que haviam visto e não o deixaram dormir até bem tarde da noite, tentando reproduzir os saltos e contorcionismo que viram.

Voltando para casa, eles montaram um circo no porão e começaram a praticar saltos, a melhorar a performance. E eu com eles, incentivando e vivendo a criança com eles. No dia do aniversário da avó fizemos uma apresentação de acrobacia (se é que não ofendo os acrobatas chamando assim ao que fizemos).

O Reino é assim: ele nos entusiasma, nos convida a subir ao palco e brincar como crianças. Quando deles participamos queremos contar aos outros a nossa delícia de experiência e evangelizamos pelo entusiasmo e pelo convite a ser crianças como nós. E sendo crianças sempre, nos apropriamos da plenitude do Reino.

terça-feira, 7 de abril de 2009

LEVEI UM BAILE

Ou melhor, mais de um. O primeiro foi quando recebi o pedido dos netos para fazer com eles um "real robot". O segundo baile foi pensar em algo que pudesse fazer e que se parecesse ao que me pediam. Para tanto, vários amigos me ajudaram e me deram idéias. O terceiro foi chegar aqui e começar a fazer a coisa.
Trouxe um monte de coisas, mas o básico eram algumas peças de metal e parafusos que, juntados, serviriam de estrutura para o que iríamos construir. Vim com uma idéia bastante completa e pronta e quis impor isto a eles. E aí entrou o mais completo baile que levei. Eles me mostraram o quanto eu havia perdido a capacidade de imaginar, sonhar, fantasiar, de ser criança. Eles me mostraram que mais importante que o produto pronto e acabado, a coisa bem feita, é a imaginação, o que se sonha ao fazer.
Quando menos esperei a imaginação deles estava a mil e a minha execução trôpega. Eu queria colocar algo em um local definido e eles viajavam e queriam outras coisas em outros lugares. Onde eu via uma haste mecânica, eles viam o braço, a mão, os dedos. Onde eu via um monte de hastes mal montadas, eles viam o real robot, onde eu via algo a ser completado, eles viam mundos.
Acho que é por isto que Jesus ensinou que se não nos tornarmos como crianças, não poderemos entrar no Reino de Deus. Há no Reino algo de sonho, fantasia, utopia, de possibilidade diante da impossibilidade. É um tornar-se criança, um desfrutar das coisas mais simples tirando delas as doçuras que só a fantasia e o sonho conseguem. É querer as coisas simples, as verdades menos complexas (quanto mais complexa mais possibilidade de erro), acreditar nas pessoas, viajar nas possibilidades, crer no impossível. É um contentar-se com um estilo de vida simples, onde o conforto simples e não o luxo é a tônica.
Muitos amigos me escreveram desejando-me sorte na empreitada e outros pedindo fotos da obra. Publicamente quero reconhecer que não consegui fazer um real robot nos moldes que imaginei e que os amigos imaginaram. Tampouco tenho absoluta certeza de que os netos acham que conseguimos. Mas o que valeu foi o tempo que passamos juntos, as coisas que puder ensinar de mecânica, eletricidade, de trabalho em equipe, de planejamento. Se o real robot não saiu como eu queria, a intimidade, a amizade, o amor entre mim e os netos que não tenho oportunidade de conviver porque a distância é enorme só fez aumentar.
Não há real robot mas há, por causa dele, real love and friendship e, importantíssimo, sonhos que queremos se tornem realidade.

terça-feira, 31 de março de 2009

A MALA ME CARACTERIZA

Certa vez uma psicóloga me pediu que algo que me identificaria. Fiquei na dúvida entre a sala de aula e a caneta, por me achar professor e gostar de escrever. Hoje eu ficaria na dúvida entre as mesmas coisas mais a mala de viagem. Parece que não nasci com pés, mas com rodas. Minha vida foi viajar. Já rodei um bocado.
Na semana passada, o que nunca sonhei na vida, estive em Shanghai e mais uma vez a monumentalidade das construções chinesas me deixou boquiaberto. Eu havia acabado de assistir a um documentário sobre o Edifício Torre Mayor na cidade do México e a grandiosidade dele, suas características antissísmicas e o fato de ser único na América Latina. Em Shanghai deve haver uns 50 deles. A arquitetura dos novos edifícios é arrojada, moderna e busca privilegiar conceitos ecológicos. O aeroporto de Pudong (o mais novo) tem 233 portas de embarque. Vi árvores sendo plantadas aos montes por todas as partes, assim como vi a poluição terrível que cobre a cidade e um trânsito simplesmente caótico.
Por todas as ruas que passei (e não foram poucas) havia obras de remodelação, ampliação, ajardinamento. Da janela do hotel contei ao menos 8 áreas em construção. Quando subi na torre de televisão, cartão postal da cidade que equivale a um prédio de uns 150 andares, o que vi lá em baixo foi um grande canteiro de obras.
Tal se deve a duas razões: Shanghai hospedará em 2010 a maior Convenção Internacional de Comércio e Negócios e a decisão de transformar a cidade no maior porto do mundo. Para se ter uma idéia, eles construíram um em pleno mar, com 25 quilômetros de extensão, usando umas pequenas ilhas e aterrando os espaços entre elas. A cidade é ainda a capital financeira da China, sede da maior parte das indústrias e onde as multinacionais tem seus escritórios. Simploriamente poderia dizer que Beijing é a capital política, mas Shanghai é a capital financeira e dos negócios.
Ao ver estas coisas e também saber das condições de trabalho da maioria dos chineses, fico a pensar se é certa a afirmação de que o Brasil é o campeão mundial das desigualdades sociais. Por outro lado, se só um por cento da população é rica, há na China um Brasil inteiro de milionários. Acima de tudo, há que se considerar que esta é uma sociedade que não privilegia o consumo, mas a poupança. Daí dá para entender porque eles tem mais de um trilhão de dólares aplicados nos Estados Unidos. E nosso Lula todo lampeiro se gabando de ter 200 bilhões em caixa. Isto talvez explique porque a China deve crescer só sete por cento em 2009 e o Brasil do Lula vai ficar patinando.