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quarta-feira, 24 de abril de 2013

CONSERVADORISMO

Uma das características das igrejas é a confessionalidade, determinada pelo conjunto de doutrinas que a denominação ou religião estabelece como sendo a verdade. Esta doutrina teórica é ensinada através de Catecismos que são ensinados e que os aprendizes devem memorizar, repetir e recordar. Ora, ao fazer isto, a igreja conserva o mesmo, as mesmas verdades que foram pronunciadas há séculos por algum iluminado, seja Agostinho, Aquino, Lutero, Calvino, Zwinglio, Wesley ou qualquer outro.
A preeminência desta Confissão é tão grande que o Código de Disciplina da Igreja Presbiteriana do Brasil, no Capítulo II, quando trata das faltas, no Art.4º, Parágrafo Único – “Nenhum tribunal eclesiástico poderá considerar como falta, ou admitir como matéria de acusação aquilo que não possa ser provado como tal pela Escritura, segundo a interpretação dos Símbolos da Igreja”. Percebe-se assim que só é falta (pecado) aquilo que é previsto nos Símbolos da Igreja (Confissão de Fé, Catecismos Maior e Menor).
A memória, a recordação preservam o passado e este é imutável. Não se muda o que já aconteceu. Ao fazer esta retro-oculatra, as igrejas perdem o sentido de uma resposta ao presente, preferindo a saudade de tempos idos. A recordação tem algo de opressora: ela não permite a novidade, a descoberta, a criatividade. Ela congela o pensamento e nega o diferente. Ao assim proceder, entroniza o passado como verdade absoluta e demoniza o presente e os sonhos de futuro melhor como demoníacos.
Não é para menos que os profetas tenham sido mortos, torturados, serrados ao meio. No dizer do escritor de Hebreus: “Todos esses morreram cheios de fé. Não receberam as coisas que Deus tinha prometido, mas as viram de longe e ficaram contentes por causa delas, declararam que eram estrangeiros e refugiados, de passagem por este mundo. E aqueles que dizem isso mostram bem claro que estão procurando uma ... Não ficaram pensando em voltar para a terra de onde tinham saído. Se quisessem, teriam a oportunidade de voltar. Mas, pelo contrário, estavam procurando uma pátria melhor, a pátria celestial. E Deus não se envergonha de ser chamado de o Deus deles, porque ele mesmo preparou uma cidade para eles.” (Hb 13:12-16).
Para a religiosidade ortodoxa, ciosa das verdades que sustenta há séculos, os pregadores de alternativas, os promotores de perguntas, os questionadores devem ser liquidados, taxados de hereges, queimados no fogo da Inquisição.
Nada mais fácil que taxar alguém que pensa de herege, apóstata. Não há lugar para os profetas! A função do ministério profético é manter juntos o espírito crítico e a ação. É na dialética entre crítica e ação que nos tornamos fiéis a Deus. Optar por um ou outro é cair nas armadilhas do progressismo e do conservadorismo.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 17 de abril de 2013

PROVA CABAL


A lentidão da justiça brasileira tem nesta semana sua prova mais cabal: vinte anos para que os indiciados no massacre do Carandiru sejam julgados! No que pese a comoção nacional e internacional com o caso, o processo andou a passos de tartaruga.
Já se falou e se falará sobre a quantidade de pessoas envolvidas, seja como acusados ou como testemunhas, tentando com isto justificar a demora no julgamento.
Não há como colocar de lado o sentimento de impunidade que grassa na população. Tamanha crueldade e barbárie ficam para as calendas. A percepção popular é que não vai dar em nada, mesmo porque, o comandante do massacre já morreu e os demais implicados de alto escalão (governador e outros), têm poder de fogo (entenda-se bons advogados).
Os testemunhos prestados até agora neste julgamento são estarrecedores. O ex-detento Marco Antônio de Moura, afirmou que atiravam em direção à cadeia de dentro de um helicóptero: "Tinha um helicóptero com uma metralhadora atirando ...  tinha presos que estavam no telhado, tentando fugir. Todos foram atingidos por essas balas e morreram".
Ele ainda testemunhou que “na minha cela, entraram uns 30. Fechamos a porta. Um policial chegou, colocou o cano da metralhadora pela janela que fica na porta e atirou. Uns dez foram atingidos, oito morreram ... No momento em que os presos eram levados para o pátio, os presos ouviam os policiais gritando: ´Deus cria, a Rota mata´ ... Tive um amigo que estava com um furo no pé, pisou no sangue e pegou HIV. Morreu por causa da doença há uns cinco anos".
Outro ex-presidiário, Antônio Carlos Dias, disse em seu testemunho acreditar que o número de mortos no massacre foi o dobro dos 111 divulgados oficialmente.
Há ainda quem coloque o massacre como o ponto de partida da criação da facção criminosa PCC. Promotoria e defesa concordam que o massacre ocorrido em 1992 e o surgimento da facção em 93 estão relacionados. A advogada de defesa dos policiais, Ieda Ribeiro de Souza, atribui o surgimento da facção às reações críticas à atuação policial no episódio. Para ela “deram carta branca aos bandidos quando restringiram a PM de entrar nos presídios. Por isso, estamos na situação que estamos hoje". O PCC reivindicava o fim da linha dura e dos maus-tratos contra os presos. 
O que me intriga é que o julgamento não tenha comovido a população para acompanhar e exigir lisura e justiça. Talvez isto se explique pelo fato de que apenas 10% das pessoas acreditam que eles serão condenados e presos.
Os dados são de pesquisa realizada entre 4 e 5 de abril, com 1.072 entrevistados com mais de 16 anos. Estou entre os descrentes, até prova em contrário.
Marcos Inhauser

MEGAIGREJAS

Megaigrejas são fenômeno novo. As grandes congregações estavam ausentes da história da Igreja Cristã. Em qualquer período histórico não havia mais do que uma dúzia destas congregações em todo o mundo, mas nenhuma delas se enquadra no que hoje são as megaigrejas. Elas são mais do que igrejas com frequência enorme. São congregações com padrão distinto de organização nas relações, nos ministérios e na associação. A rápida proliferação desta forma de vida congregacional ocorreu nas últimas décadas. Quase todas as megaigrejas foram criadas depois de 1955.
O crescimento explosivo experimentado por essas congregações não existiu antes da década dos oitenta. Dados coletados em 1992 nos Estados Unidos revelam algo em torno de 350 de tais congregações.
A característica mais evidente das megaigrejas é o número de pessoas presentes em uma semana. O atendimento tamanho deve girar em torno de 2.000 pessoas para que elas passem a ser consideradas como tais.
O tamanho de algumas megaigrejas pode ser enganoso. Uma contagem de milhares de frequentadores raramente é exata. Estimar a participação com base no número de pessoas pela quantidade de assentos disponíveis é algo que carece de precisão. Muitos denunciam um atendimento inflacionado, sob a alegação de que ninguém frequenta mais de uma vez por semana a igreja. Assim, na maioria dos casos, o que se tem são estimativas, mesmo porque, uma das características destas igrejas é não ter um rol de membros.
O grande número de frequentadores cria várias dinâmicas. Se se atinge a massa crítica de 2000, a força numérica se torna em poderoso fator de atração. Um líder destas igrejas disse que “quando se atinge certo tamanho, a igreja se torna autogeradora: atrai as pessoas por seu tamanho. As pessoas sabem que vão estar na TV e que o lugar é grande. Há uma sensação de que alguma coisa está acontecendo e tamanho gera mais crescimento”.
A grande igreja cria um movimento de atração de outros. Um fluxo de carros de domingo em uma rua tranquila desperta o interesse. Grandes edifícios e amplos estacionamentos marcam presença no entorno.
Muitas vezes não é apenas o tamanho que caracteriza a megaigreja. A maioria experimenta crescimento rápido ao longo de um período de tempo muito curto. É "sucesso instantâneo" que muitas vezes define uma megaigreja na ecologia religiosa. Este aumento explosivo define esta congregação para além de outras opções espirituais da comunidade. Elas são igrejas dependentes da figura de um líder, muitas vezes autocrático. Ele é a cara visível da igreja e é conhecida como a “igreja do fulano”.
Considerados estes fatores, algumas perguntas se impõem: são as megaigrejas verdadeiras igrejas? Se a essência da igreja cristã é a comunhão, que comunhão há entre duas, três, quatro mil pessoas? Elas são congregações ou auditórios? O que prevalece é o estilo de vida simples ou o espalhafato tecnológico? A adoração genuína ou o show dos “modernos levitas?”
Marcos Inhauser

quarta-feira, 3 de abril de 2013

PETULÂNCIA RELIGIOSA


O deputado federal e pastor evangélico Marco Feliciano fez algumas declarações durante um culto em Passos – MG, na sexta-feira da Paixão, em função da pressão que vem sofrendo por ser o presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara: "Essa manifestação toda se dá porque, pela primeira vez na história desse Brasil, um pastor cheio de espírito santo conquistou o espaço que até ontem era dominado por Satanás".
Há algumas coisas que quero ressaltar na reportagem feita pela Folha de São Paulo sobre as declarações. Uso o texto escrito por Alexandre Gonçalves, pastor da Igreja da Irmandade: “Nas entrelinhas da reportagem surge um detalhe curioso: o jornalista Daniel Carvalho ... escreveu "espírito santo" com letras minúsculas e "Satanás" em maiúsculo. Não sei se proposital,  ..." ou intenção deliberada ... do jornalista, mas para mim providencial. ... eis que o pastor se declara um homem "cheio de espírito santo", e portanto, cheio de "poder", de "verdade", e ... de legitimidade divina para tomar suas decisões. Ele quer nos fazer crer que há uma "batalha espiritual" no Congresso ... , e ... que ele é a resposta de Deus para essa batalha (pela primeira vez na história desse Brasil!). Ele segue a lógica de que é necessária uma força maior, ... divina ... para vencer o mal instalado no mundo.
Nessa dicotomia estabelecida entre o BEM ... e o MAL (Satanás, por meio dos ativistas dos direitos dos homossexuais, encabeçado pelo Dep. Jean Wyllys) não sobram espaços para refletir sobre os absurdos proferidos de todos os lados, sendo um dos mais graves, ... anunciar-se como o "primeiro pastor cheio de espírito santo na história desse Brasil a conquistar o espaço que até ontem era dominado por Satanás". Nessa luta de verdades absolutas só há espaço para o triunfalismo da teologia dos "homens muito usados por Deus".
Talvez o jornalista tenha mesmo razão em escrever "de espírito santo" com letras minúsculas. Feliciano está cheio daquilo que compreende como espírito de santidade, de pureza e superioridade, que dá carta branca a ele para fazer o que desejar, afinal, está sob a legitimidade divina. Saudades dos profetas: "Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças como trapo da imundícia; e todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniquidades como um vento nos arrebatam”. (Isaías 64,6).
Talvez o jornalista tenha acertado também em escrever "Satanás" em maiúsculo, por perceber ser ele o único protagonista, de fato, disso tudo.
A petulância está em arvorar-se em “pastor cheio do Espírito Santo”. É tão petulante como quem afirma ser gênio, sábio ou iluminado. Nem Jesus fez esta afirmação sobre si. O que ele tem é o espírito do messianismo: escolhido por Deus para salvar a família brasileira!
Livrai-nos Deus dos falsos Messias!
Marcos Inhauser