Leia mais

Há outros artigos e livros de Marcos e Suely Inhauser à sua disposição no site www.pastoralia.com.br . Vá até lá e confira
Coinfira também dicas de economia em www.ondecharoque.com.br

quarta-feira, 17 de abril de 2013

PROVA CABAL


A lentidão da justiça brasileira tem nesta semana sua prova mais cabal: vinte anos para que os indiciados no massacre do Carandiru sejam julgados! No que pese a comoção nacional e internacional com o caso, o processo andou a passos de tartaruga.
Já se falou e se falará sobre a quantidade de pessoas envolvidas, seja como acusados ou como testemunhas, tentando com isto justificar a demora no julgamento.
Não há como colocar de lado o sentimento de impunidade que grassa na população. Tamanha crueldade e barbárie ficam para as calendas. A percepção popular é que não vai dar em nada, mesmo porque, o comandante do massacre já morreu e os demais implicados de alto escalão (governador e outros), têm poder de fogo (entenda-se bons advogados).
Os testemunhos prestados até agora neste julgamento são estarrecedores. O ex-detento Marco Antônio de Moura, afirmou que atiravam em direção à cadeia de dentro de um helicóptero: "Tinha um helicóptero com uma metralhadora atirando ...  tinha presos que estavam no telhado, tentando fugir. Todos foram atingidos por essas balas e morreram".
Ele ainda testemunhou que “na minha cela, entraram uns 30. Fechamos a porta. Um policial chegou, colocou o cano da metralhadora pela janela que fica na porta e atirou. Uns dez foram atingidos, oito morreram ... No momento em que os presos eram levados para o pátio, os presos ouviam os policiais gritando: ´Deus cria, a Rota mata´ ... Tive um amigo que estava com um furo no pé, pisou no sangue e pegou HIV. Morreu por causa da doença há uns cinco anos".
Outro ex-presidiário, Antônio Carlos Dias, disse em seu testemunho acreditar que o número de mortos no massacre foi o dobro dos 111 divulgados oficialmente.
Há ainda quem coloque o massacre como o ponto de partida da criação da facção criminosa PCC. Promotoria e defesa concordam que o massacre ocorrido em 1992 e o surgimento da facção em 93 estão relacionados. A advogada de defesa dos policiais, Ieda Ribeiro de Souza, atribui o surgimento da facção às reações críticas à atuação policial no episódio. Para ela “deram carta branca aos bandidos quando restringiram a PM de entrar nos presídios. Por isso, estamos na situação que estamos hoje". O PCC reivindicava o fim da linha dura e dos maus-tratos contra os presos. 
O que me intriga é que o julgamento não tenha comovido a população para acompanhar e exigir lisura e justiça. Talvez isto se explique pelo fato de que apenas 10% das pessoas acreditam que eles serão condenados e presos.
Os dados são de pesquisa realizada entre 4 e 5 de abril, com 1.072 entrevistados com mais de 16 anos. Estou entre os descrentes, até prova em contrário.
Marcos Inhauser