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terça-feira, 27 de novembro de 2012

SE A MODA PEGA



Mais uma vez estou na China juntamente com minha esposa. Minha filha estava nos esperando e fomos para sua casa. Fui tentando reconhecer coisas que havia visto nas vezes anteriores. Descobri uma linha de metrô construída em menos de três anos.
No outro dia saímos, lá pela hora do almoço, com um frio de zero grau. Na avenida perto da casa dela há um novo condomínio sendo construído e na sarjeta havia uns cem trabalhadores sentados ao relento, almoçando. Fiquei arrepiado! Não de frio, mas com a condição deles. Lembrei-me que nesta terra não há fim-de-semana, muitos trabalham sem ter um domingo ou sábado na vida. A maioria trabalha mais de doze horas por dia.
Alguém que nasceu em uma cidade do interior e quer trabalhar em outra onde haja mais oportunidades de emprego e melhores salários, precisa ter um “passaporte interno” com a autorização para trabalhar fora de sua cidade. Se vai sem isto, é ilegal e não tem direito a escola para seus filhos, atenção à saúde, etc.
A grande maioria das empregadas domésticas precisa trazer de casa a sua comida, pois não podem comer onde trabalham. Transporte urbano é bicicleta, mesmo com frio de congelar! Vale refeição, vale transporte, vale-qualquer-coisa não existem por aqui.
Ao regressar à casa abri a internet para ter notícias do Brasil. Deparo-me com uma notícia estarrecedora: um presidiário que tinha por obrigação limpar os banheiros da prisão entrou com uma ação na Justiça do Trabalho reclamando salário, INSS, FGTS e reparação de R$ 100.00,00 por danos morais. Ele ganhou a sentença. Só não levou o pedido de danos morais. O Estado foi condenado a pagar. E vai pagar com o meu, o seu e o nosso dinheiro, arrancado a fórceps dos nossos bolsos.
O agraciado condenado vai pagar as refeições que comeu às nossas custas? E vai também ter redução da pena, proporcional aos dias de trabalho realizado? Vai pagar o custo da sua estadia na prisão? Vai devolver os danos que provocou a alguém, pelo que foi sentenciado?
Certa feita em dia de intensa chuva, passei em frente a um hospital e vi uma mãe com uma criança no colo e mais duas grudadas a ela tentando escapar da chuva. Era um domingo à tarde e imaginei que aquela mulher estava tentando voltar à casa depois de levar um dos filhos para ser atendido. Voltei e ofereci carona. No carro a minha suspeita se confirmou. Mais: soube que o marido estava preso pela quarta vez e que ela preferia vê-lo preso. Perguntei por que. Ela me disse que solto não trazia nada para casa e que preso ela tinha direito a uma ajuda do Estado que dava para “tocar a vida”.
Os endinheirados agora sentenciados pelo STF vão cobrir as despesas da “estadia”? Ou, além de terem “metido a mão no seu, no meu e nosso dinheiro, ainda vão comer, beber e ficar o dia inteiro à toa, às nossas custas? Depois vem o Ministro da Justiça que prefere morre a cumprir uma sentença em cadeia brasileira. Justamente ele, que é o responsável pelo caos!
Algo está errado na China e no Brasil.
Marcos Inhauser

terça-feira, 20 de novembro de 2012

DÁ PARA EXPLICAR?

Minha esposa e eu viemos aos Estados Unidos para participar como preletores em uma Conferência da denominação à qual pertencemos.  Fomos hospedados por um casal sem filhos. A certa altura da conversa eles quiseram saber mais sobre o Brasil e disseram que tinham informações de que a economia ia bem no Brasil.
Já ouvi isto outras vezes e sempre fiquei internamente irritado com os dados que são passados para fora do Brasil e como os números mentem. Brinquei dizendo que os números eram bons, mas que, na hora de comprar a comida, eles não refletiam o que o povo percebia.
Disto entramos na questão da comparação dos impostos no Brasil e nos Estados Unidos. Contei a eles que uma lata de Coca Cola paga 45% de impostos e eles tiveram dificuldades em acreditar. Quando disse que o brasileiro trabalha quatro meses e meio só para pagar impostos, eles me perguntaram como o brasileiro conseguia sobreviver.
A pergunta seguinte era inevitável: quanto custa a gasolina no Brasil. Fiz um cálculo rápido convertendo galões a litro e multiplicando pelo preço médio da gasolina. Cheguei ao cálculo de US$ 5,09. Eles estavam pagando US$ 3,54 pelo mesmo galão. Quando falei quanto custava o carro que eles tinham no Brasil, levaram um susto. Disseram que com este dinheiro comprariam dois carros.
A conversa ganhou contornos ainda mais assombrosos quando falei que os juros de financiamento no cartão de crédito eram da ordem de 14%. A esposa me disse: você está confundindo. Deve estar querendo dizer juros anuais e não mensais. Reafirmei que eram mensais. Eles não acreditavam no que ouviam. Para eles, mesmo um juro de 14% ao ano era absurdo.
Foi quando me contaram que haviam acabado de comprar a casa que estavam morando e que financiaram a 1,9% ao ano e que haviam comprado um novo carro com juros anuais de 1,6%. Retruquei dizendo que os juros de financiamento de casa no Brasil giravam ao redor de 10 a 12% anuais.
Eu percebia que estava passando por mentiroso ou exagerado. Comecei a mostrar algumas coisas que havíamos visto o preço em algumas lojas nos Estados Unidos e quanto as mesmas coisas custavam no Brasil. Em um item o preço brasileiro estava multiplicado por dez. Outra gritante diferença era o preço de um McDonald. Perfumes, remédios, pedágios, estacionamentos, tinham diferenças de 300 a 1000%.
Com tão altos impostos e preços tão elevados, qual o retorno que vocês tem do imposto pago, me perguntaram. Eu disse que era mínimo. A saúde pública é um caos, a educação é péssima, a segurança pública está em crise e policiais são mortos todos os dias, os nossos deputados e senadores tem um dos maiores salários do mundo, etc.
A esta altura eu tinha na mente um cântico de Victor Heredia, “Sobreviviendo”:  Me perguntaram como vivia,/ me perguntaram / 'sobrevivendo' disse, 'sobrevivendo' / Tenho um poema escrito mais de mil vezes / Nele repito que enquanto alguém / Proponha morte sobre esta terra / E se fabriquem armas para a guerra / Eu pisarei esses campos sobrevivendo / Todos ante ao perigo, sobrevivendo / Tristes e errantes homens, sobrevivendo.”
Marcos Inhauser

terça-feira, 13 de novembro de 2012

SINAIS DE ESPERANÇA?


Não tenho vocação para Poliana (a famosa protagonista da obra de Eleanor H. Porter que via tudo “cor de rosa”). Estou mais para o cético que duvida de tudo, no que pese o fato de ser uma pessoa de fé. Até no campo da fé tenho minhas dúvidas e duvido das teologias que tem amplo apoio popular, porque, como aprendi com Taleb (A Lógica do Cisne Negro), o senso comum e as verdades maciçamente aderidas tem grande chance de ser erro.
Ademais, como colunista (não sei se sou colunista por ser crítico ou se critico por ser colunista – uma questão shakespeariana), aguço meus olhos e senso crítico para, neste espaço, questionar certos senso comuns e verdades palacianas. Tenho uma forte influência do Foucault, pois creio que a verdade é a versão dos vitoriosos. A dos perdedores é a sub-versão. Talvez por isto eu admire e creia na Bíblia, pois é a memória histórica dos vencidos, dos pobres, da periferia.
Devo dizer que nestes dias ando meio de ressaca neste meu ceticismo. Há uma série de coisas que me fazem crer que algo novo anda acontecendo. Estou com o profeta Isaías quando diz: “Eis que estou a fazer uma coisa nova na terra, que logo vai acontecer, e, de repente, vocês a verão. Prepararei um caminho no deserto e farei com que estradas passem em terras secas” (Is 43:19).
Digo isto por uma série de acontecimentos que se deram nestes tempos e que, para mim, são sinais alentadores.
Um deles (já mencionado por mim neste espaço) é o julgamento do Mensalão e nesta semana a condenação do Dirceu, Genoíno e Delúbio. Como a grande maioria dos brasileiros, tinha meus receios de que a coisa acabaria em pizza. Ao ver a atuação do Toffoli e Lewandovski, temi pelo pior. Depois de salutares bate-bocas e até a saída do plenário do ministro revisor (o que evidencia, como bem disse o Ayres Brito, que não há conchavos ou acertos por baixo do pano), tem-se a condenação de um modelo de fazer política. Como bem lembrou um dos ministros (que não me recordo quem foi), o esquema quadrilheiro inviabilizava um dos poderes da República ao cooptar, mediante pagamentos, o livre exercício do legislativo. Aliado ao fato de que a cúpula do PT tem se dedicado a criticar o STJ e a mídia (para alguns, o quarto poder) percebe-se a vocação totalitária desta casta petista. Só o Executivo comandado por eles é que é legítimo. Com o perdão do trocadilho, não era Genuíno, era Genoíno!
As virgens impolutas da ética política (nos tempos de oposição) se mostraram as prostitutas babilônicas nos tempos de reinação (no sentido ambíguo do termo): reinar = governar e reinar = brincadeira infantil em que se desafiam deliberadamente regras de comportamento estabelecidas ou certos limites impostos; travessura; traquinice.
Tal como alguns salmistas, eu me alegro com a derrota dos opressores e corruptos. Vou soltar rojão quando vir esta gente atrás das grades, porque meteram a mão no meu e no nosso dinheiro.
Marcos Inhauser

SHOW DA FÉ


Recebi o seguinte artigo do Rev. Marcos Kopeska Paraizo: “Não consigo entender os reducionismos a partir da terminologia que a “pós modernidade gospel” adotou para “espiritualizar”. Não consigo quando perguntam: “E aí mano! Vai no show do ........ (cantor gospel famoso). O preço do ingresso está salgado, mas é porque que ele está no auge da unção.”   Não entendo alguns pastores: “Está mais fácil para contratar o testemunho do .......(estrela pop que se converteu ao cristianismo) , afinal já ficou muito conhecido e já está em queda. Mas ainda dá arrepios quando o ouvimos.” Ou ainda: “Se garantirmos a venda  de 300 CD´s do cantor ...... ele faz um desconto de 20% no cachê e ainda dá o seu testemunho de conversão e faz apelo.”  
Não há diferença entre o mercado secular do entretenimento e o novo “mercado cristão”. Basta comparar a cultura dos resultados lucrativos do mercado da música secular e veremos a decadência cultural a que nos submetemos. É fato que dos anos noventa para cá não tivemos mais gente como Djavan, Chico Buarque, Gal Costa, Renato Teixeira, etc. Eram poesias que conjugavam melodia, emoções, sentimentos e histórias. Obras dos anos setenta e oitenta que se eternizaram com suas métricas elegantes e suas mensagens inteligentes.
A “anticultura” determinou que as gravadoras deveriam investir em “Tchá tchá tchá”, “Ré te te” ou “Créu, creu, créuuuu...”, para lucrar com a exploração do insaciável apetite por futilidades da grande massa não pensante da nação. Por sua vez, o meio evangélico entrou pelo no pragmatismo, explorando os mais recentes veios da Prosperidade e do Triunfalismo. Não é de hoje que vivemos de manias. Lembro-me que há cerca de vinte anos os cânticos em alta eram os que proclamavam batalha espiritual. Cantava-se em todos os cultos sobre general, marcha, escudo e bandeira. Depois fomos tomados pela mania do “vento” e só se cantava sobre vento do Espírito. Hoje estamos a “era das águas” e não temos um culto de domingo em que não se cante sobre águas, chuva, rios, ondas ... Fomos perdendo a criatividade. Nossa musicalidade é refém das ondas que vêm e que vão sem deixar saudade.
É neste circuito que surgem os mega shows da fé. Mas o que é adoração? O que é unção? O que é fé? O que um adorador como Davi, que compôs lindos salmos sobre os atributos de Deus, pensaria sobre este mercado efervescente e afoito por cifra$? O que Paulo, o apóstolo que tombou sua vida pela expansão do cristianismo, pensaria sobre os conceitos de unção que vão desde tremeliques e histerismos, até quedas e desmaios. O que os mártires pensariam sobre os rasos conceitos de fé desta geração de líderes que prefere entreter bodes a alimentar ovelhas?
A fé não é show de poder ou carismas pessoais, mas o conjunto de convicções que nos faz viver com determinação o evangelho que abraçamos.  Penso no pastor M.Z. (nome preservado por razões de segurança); no meu amigo pastor queniano P.M. que hoje vive no Chifre da África sob constante risco de vida; na missionária Nazareth Divino, hoje morando com Cristo, mas que sofreu espancamentos e apedrejamentos por pregar a salvação em Cristo nos países fechados ao cristianismo; no Paulo Cappelletti pregando dignidade e transformação a prostitutas, ladrões e travestis nos becos da noite paulistana. Estes realmente fazem, em humilde silêncio, o show da abnegação, porque descobriram sim o verdadeiro significado da fé. Anônimos aos homens, aplaudidos nos céus. A este show eu quero assistir. Este show eu aplaudo. É o show da fé.”

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

LAVAREMOS A ALMA?


Há uma expectativa acima da média no povo brasileiro com relação ao desenvolvimento e desenlace do julgamento dos réus no Mensalão. Havia a generalizada descrença de que houvesse a condenação generalizada dos réus.
Há que se reconhecer os trabalhos do Ministério Público e Polícia Federal que levantaram todas as falcatruas cometidas pelos que usaram o mandato para driblar e forjar decisões que interessavam a uma pequena parcela de um partido político. Também deve-se louvar o trabalho da Procuradoria Geral da República ao apresentar as denúncias, fazendo-o de forma a ver todas as acusações corroboradas pelos ministros do STF.
Mais ainda: a forma como o julgamentos dos réus se deu, com a possibilidade de acompanhamento via televisão e sites da internet. Todos pudemos acompanhar todas as votações, bem assim as divergências e argumentações havidas.
Há, no entanto, que se ressaltar que a participação do ministro Toffoli se deu sob a suspeita ética, devido às suas atividades pregressas como advogado do PT e assessor do ex-ministro José Dirceu. Mais que isto, pesa sobre ele alguns processos e acusações ainda não devidamente esclarecidos. No desenvolvimento do julgamento, ao analisar-se a sua participação, nota-se nele uma tendência em inocentar os acusados, especialmente os mais próximos do PT. Ele, que havia dito que se manteria imparcial, não o provou na prática, segundo minha ótica.
Por outro lado, a participação do ministro Levandowski. Ficou para mim a motivação que lhe moveu, qual seja, a de divergir do ministro relator. Ele quis ser o revisor e em quase todas as suas participações reviu o parecer do relator. As poucas vezes em que concordou com o relator, ministro Barbosa, foi na sua maioria para inocentar.
Mais estranho em todo o processo foi a mudança do voto de Levandowski, provocando o empate nas votações referentes ao deputado federal Valdemar Costa Neto (PR-SP), o ex-tesoureiro do PL Jacinto Lamas. Foram assim beneficiados pelo empate.
A existência de empate, pela falta de um ministro na composição normal do STF, em número de onze, o que impede o empate, levou o STF a discutir sobre a necessidade de um “voto minerva” a ser dado pelo presidente. No momento em que escrevo esta coluna, o assunto, depois de discussão no STF, assentou-se aplicação do princípio do “na dúvida, pró réu”, ou no latim “in dubio pro reo”.
Com isto, nos casos em que houve empate, haverá absolvição.
Outro dado discutido é a participação dos que inocentaram na votação das penas e da dosimetria. Isto é lógico: quem absolveu ou inocentou, não tem como votar as penas a quem ele crê que não é culpado.
Mas o que me “me enerva” (para usar o trocadilho do ministro Ayres Brito) é que o Toffoli ainda queira votar. Parece que lhe falta um mínimo de adequação. Ele não só inocentou meio mundo como agora quer aplicar penas segundo a sua ótica absolutória.
Para mim, fica um trocadilho neste processo todo: “in delubio, pro reo”. Sendo assim, a alma será lavada pela metade.
Marcos Inhauser

terça-feira, 16 de outubro de 2012

NÃO ME DEIXE CANSAR

Estávamos reunidos em culto na casa de uma pessoa. O ambiente era pesado porque a filha do casal que nos recebia estava na UTI do hospital. Usuária de drogas, ela havia se entregado há alguns anos a todas elas, mais álcool.
Muitas vezes vimos a mãe chorando, pedindo que orássemos pela filha, que ela fosse liberta das drogas, mas parece que nada resolvia. A cada dia ela ia se definhando e com ela definhava a mãe a o pai.
Naquela semana a situação chegou ao limite extremo. A filha estava morrendo. E nesta situação estávamos ali em culto e oração. Tínhamos a notícia de que a moça estava com falência dos dois rins e que passaria por hemodiálise, mas sem garantia de ela pudesse sobreviver.
A mãe, quieta e chorosa, estava arrasada. Tomei a coragem de perguntar a ela como se sentia e como havia aguentado tanto tempo a situação de ter uma filha que desaparecia e que quando voltava, era um trapo de gente.
Ela, de forma calma, disse mais ou menos o seguinte: “Nestes anos todos eu só tinha uma oração que eu fazia e faço. Pedia a Deus que não deixasse eu me cansar da minha filha. Ela aparecia a qualquer hora do dia ou da noite, sob chuva ou sol, sempre baleada pelas drogas. Eu a recebia, cuidava e amava. Ouvia as promessas que ela me fazia e me perguntava se dava para acreditar. Logo depois ela ia outra vez para a rua e voltava só Deus sabe quando. Eu ficava orando e pedindo a Deus que eu não me cansasse da minha filha. Eu hoje peço a Deus que a livre desta situação. Se ela sair desta e precisar fazer hemodiálise para sempre, e se meu rim for compatível, vou doar um rim para ela.”
Eu não acreditava no que estava ouvindo. Uma mãe disposta a dar parte de si para uma filha que jogou a sua vida fora, que estava nas últimas pelas lambanças que fez e uma mãe pedindo que ela vivesse e que seu rim fosse compatível para poder doar a ela.
Um misto de irritação, desconforto e incredulidade caíram sobre mim.
Oramos pela moça, mas eu não acreditava que ela pudesse escapar. Terminado o culto fui para casa e não conseguia dormir, pensando naquela oração e na disposição de doação. Foi quando um pensamento me veio forte (os mais espiritualizados diriam que Deus me falou): era a demonstração concreta da graça divina através de uma mãe para com uma filha que não merecia nada, depois de tudo o que havia feito.
Hoje eu faço a mesma oração. Há algumas pessoas que estou pedindo a Deus que eu não me canse delas, no que pesem o fato de serem murmuradoras, pessimistas, se passarem por vítimas, fazerem de uma vírgula uma novela, carentes afetivos. Pessoas que cansam, folgadas, espaçosas, que não dão o direito ao outro de falar, mas falam pelos cotovelos, interrompem, inconvenientes, repetitivas, egoístas.
Tomei a oração desta mãe como lema: Deus, não me deixe cansar destas pessoas doentes.
Marcos Inhauser

terça-feira, 9 de outubro de 2012

PEDRO 12 OU 126?

Antes de mais nada, quero afirmar que não tenho nada pessoal contra o Pedro Serafim. Nunca conversei com ele, nem mesmo o vi, mesmo de longe. Tenho tudo contra o Pedro Serafim político e isto já deixei claro desde a época do impeachment do Hélio.
Já escrevi aqui, quando dos fatos, que: “O resultado da “eleição” na Câmara ... era, ...  o conto de um final previsível. .. o Pedro não entrou na história de graça. .. tinha e tem seus objetivos. Seu sonho desde criancinha era ... ser prefeito de Campinas e conseguiu, ainda que pela via indireta, mesmo porque, se fosse pela urna, eu tenho minhas dúvidas de que seria eleito. ... na sua trajetória política, é uma decepção. Em 2010, quando da sua eleição para a presidência da Câmara já se alertava ... que ele era um dos parlamentares mais ausentes na Câmara. ...  Chegava atrasado e ... saia antes de terminar ...  a segunda grande decepção: a forma como conduziu a discussão e aprovação do aumento salarial de 126% (com uma) aprovação às surdinas e de forma sorrateira?”. ... como acreditar (em quem) autoconcedeu-se o escandaloso aumento de 126%?.... Causou-me espanto as afirmações (dele) ... de que o aumento era para que houvesse independência do legislativo (... confissão de promiscuidade...). ..No dia da eleição, em entrevista, disse que daria um choque de gestão e que “controlaria a transparência das contas”. Ato falho? Para mim confissão de um estilo, porque já mostrou na Câmara como controla a informação quando do episódio do aumento salarial.
Não sou profeta nem vidente. Leio os fatos e faço análises. Quando o Serafim saiu candidato, tinha certeza de que não ganharia nem de um poste. E com as propagandas a certeza foi crescendo, seja pela antipatia e falta de carisma que sua photox apresentava (foto turbinada a photoshop e botox que lhe dava uma carinha de adolescente travesso), seja por algumas inverdades colocadas.
Uma delas é que foi ele “quem pôs a correr a turma do Hélio e o Demétrio”. Até onde sei e percebi vendo e lendo os fatos dos impeachments, quem detonou o esquema foi o Ministério Público. Depois a Câmara, nas atuações de Orsi e Zimbaldi, que capitanearam o processo no legislativo. O Serafim esteve no processo porque era o Presidente da Câmara e lhe interessava para realizar o sonho de ser prefeito.
Outra inverdade foi dizer que sua ficha política não tinha mácula. Ora, o processo de aprovação dos 126% foi transparente? A forma como foi aprovado não foi eticamente reprovável, tanto que culminou na rejeição popular e no cancelamento dele pelos envergonhados vereadores? E as nomeações a rodo na Sanasa para dar guarida a seus interesses eleitorais (também aqui denunciados)?
Uma coisa não dita pelo prefeito tampão é que ele adora coisas com mais de 100%. Dados apresentados 15 dias antes da eleição mostravam que os gastos do gabinete do prefeito tinham aumentado mais de 140% neste ano.
Não foi coincidência que o número do Pedro nesta eleição tenha sido uma forma de evitar o “6”. Na verdade, seu número deveria ter sido “126”. Ele escondeu o quanto pôde o “6” de sua candidatura, mas o povo se lembrou que ele não era 12, mas 126.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

NÃO REELEJO



Quando uma empresa precisa de funcionário, ela abre a vaga, anuncia, recebe currículos, analisa-os, entrevista os candidatos e, pelo processo seletivo, escolhe o que melhor se ajusta aos requisitos do cargo. O funcionário, por sua parte, tem responsabilidades a cumprir e uma justiça trabalhista a seu favor ou como algoz, dependendo do caso. Se não desempenhar a contento é demitido. 
No setor público o processo é idêntico. A cada quatro anos abre-se a vaga para prefeito, vereador, deputado, senador e presidente. Os candidatos se apresentam no processo seletivo, a banca examinadora (os eleitores) escolhe aquele que a seu juízo tem mais condições de trabalhar pela cidade, estado ou país. Ele assume o cargo e tem responsabilidades a cumprir e salário pago pelo exercício da função.
Assim como na iniciativa privada, ele tem certa autonomia. No caso do prefeito, pode contratar assessores e secretários para atuarem nas várias pastas. Esta contratação está implícita no cargo, mas é feita pela autoridade que sua eleição lhe dá. Ao escolher fulano ou sicrano, ele não se isenta da responsabilidade pelos atos ilícitos que venham a cometer, mesmo porque, é da sua função fiscalizar os seus subordinados.
Da mesma forma a Câmara Municipal. Os vereadores são eleitos, empossados e pagos. Devem legislar e fiscalizar o Executivo. Podem contratar assessores para ajudá-los na fiscalização e devem exigir destes o cumprimento de suas funções. Se não o fazem, são relapsos, coniventes ou comprados. A incompetência ou inapetência de um vereador ou de vereadores em fiscalizar é crime de lesa população, porque ganham para fazer o que não fazem.
Ora, nos recentes episódios na cidade de Campinas, mais especificamente o das construções com alvarás indevidos ou inexistentes, dos contratos superfaturados, e das propinas pagas, a responsabilidade é do secretário da área, mas é, no final das contas, do prefeito que o nomeou e dos vereadores que, com a penca de assessores que tem, não fizeram o que deveriam ter feito: fiscalizar o executivo. Foi preciso o Ministério Público para descobrir “o que se fazia dentro da casa”, inclusive com funcionários fantasmas, farra dos pedágios e ticket refeição.
Se prefeito, secretário e vereadores não fizeram aquilo para o qual foram contratados (eleitos) e pagos regiamente, mostraram-se incompetentes e devem ser demitidos da função para a qual foram eleitos e contratados. A inação inicial da Câmara foi escamoteada pela “hiperação” no processo de impeachment,  quando um dos vereadores galgou ao posto mais alto e pediu a cooperação dos demais na administração da cidade. A catatonia custou aos cofres públicos pelo que foi desviado e pelo que foi pago em salário para fazer o que eu não fizeram. Já vi cálculos do desvio. Gostaria de ver os cálculos com o dinheiro jogado fora com gente incompetente ou conscientemente preguiçosa e omissa.
Por isto, nesta eleição, não reelejo nenhum dos vereadores. Quero gente nova e Câmara Municipal nova. Quero a coisa cortada pela raiz.
Marcos Inhauser

terça-feira, 25 de setembro de 2012

O SEPÚLVEDA NÃO PERTENCE


Preocupante!
O ex-presidente do STF e homem de reconhecida e ilibada conduta, que até segunda comandou o Conselho de Ética Pública, não mais pertence ao Conselho, por se sentir desconfortável com a não renovação da nomeação de dois dos conselheiros por ele indicados: Fábio Coutinho e Marília Muricy.
Sintomaticamente, os dois tem nos seus currículos a indicação de que o ex-ministro do Trabalho, Carlos Lupi, estava enrolado com a questão das ONGs e que pedia a sua exoneração (Marília Muricy) e Fábio Coutinho foi relator do procedimento de investigação contra o ex-ministro-chefe da Casa Civil, Antonio Palocci, e vinha trabalhando na relatoria do caso de supostas consultorias prestadas pelo ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic), Fernando Pimentel.
A presidente Dilma “Duchefe” não gostou das conclusões e não renovou os mandatos, evidenciando assim um lado preocupante do seu estilo. Alegando que foi surpreendida pela decisão do Conselho, que não a avisou da conclusão, passa agora à retaliação. No entanto, perguntas surgem: para que serve a o serviço de inteligência do governo? Não sabia e não avisou que o ministro estava envolvido em falcatruas? Que o Pimentel andou prestando consultorias suspeitas? Que o andar da carruagem no Conselho de Ética Pública estava para condenar? Ou a não renovação dos mandatos foi para evitar um novo golpe na ética do PT?
Estes fatos, aliado a outro bastante suspeito que ocorre nestes dias, preocupa ainda mais. Todos sabemos da leniência do governo em indicar nomes para compor o STF. Ocorre que, com a aposentadoria do Peluso, a toque de caixa, foi indicado um novo para substitui-lo. Trata-se de Tori Zavascki, de quem não se pode acusar de ser colega do PToffoli, pois Tori, sim, tem requisitos acadêmicos e experiência como juiz. O problema é que, quando se sabatinou o PToffoli, ele se comprometeu a não participar do julgamento do mensalão, visto ter impedimento ético por ter sido advogado do PT e assessor de um dos réus. Prometeu e não cumpriu e acabou se transformando no inocentador geral.
Com a indicação de Tori Zavascki o que se teme é que venha a pedir vistas ao processo do mensalão, retardando para só Deus sabe quando o julgamento final dos réus. Mudaria assim seu nome para PTori.
Nunca na história deste país o STF teve tantos ministros indicados por um único partido. Dos 11 juízes da composição atual do STF, seis foram indicados por Lula (Eros Grau, Carlos Alberto Menezes Direito, Ayres Britto, Cármen Lúcia, Ricardo Lewandowski, Cezar Peluso, Joaquim Barbosa e Dias Toffoli - Os dois primeiros já não atuam mais como magistrados do STF) e agora a Dilma indica um. No que pese isto, também “nunca na história deste país” se teve um julgamento no STF que despertasse tanto interesse da opinião pública e fosse tão transparente quanto este do Mensalão e Valerioduto.
Para espanto dos petistas, mesmo os indicados pelo partido estão explicitando as falcatruas partidárias de quem galgou ao poder e não quer mais descer de lá, jogando os companheiros no fogo da condenação. Para nossa alegria, vai dar cadeia para estes larápios travestidos de políticos, banqueiros e marqueteiros! Um Delúbio de condenações!

Marcos Inhauser

terça-feira, 18 de setembro de 2012

PENITENCIANDO-ME


Admito que pensei, cri e escrevi que o julgamento do Mensalão e Valerioduto iam acabar em pizza. Sempre tive meus senões com o Gilmar Mendes e o Marco Aurélio. O primeiro, por seu estrelismo e gosto pelos holofotes, aliado à sua generosidade em conceder habeas corpus a figurões. O segundo, por me parecer alguém que sempre quis inovar nas suas sentenças, como forma de chamar a atenção.
Quando o julgamento se iniciou com a leitura da acusação pelo Procurador Geral da República fiquei na dúvida: juntaram um monte de provas, indícios e evidências que ficar sem punir alguém seria complicado. Quando o ministro relator veio com seu voto fatiado (ou segmentado, como preferem os doutos), fiquei sem entender se seria bom ou ruim para o processo. Estranhei a reação do Lewandovsky e a altercação havida. Fiquei com a impressão de que a pizzaria estava abrindo as portas.
Com o correr das sessões e a leitura dos votos de cada ministro, a dúvida foi sumindo. Exceção feita ao inocentador geral, o ministro PToffoli, todos fundamentaram seus votos e, de forma transparente e coerente com suas convicções doutrinárias, foram sentenciando. O ministro ex-advogado do PT e do Dirceu ficou em maus lençóis ao inocentar a turma e ficar sozinho na posição. Teve que voltar atrás para não pegar tão mal e assim mostrar certa independência.
Quando agora se entra no capítulo político e na análise de se houve ou não a compra de votos, percebe-se que o ministro Barbosa deu um nó na coisa. Ao fatiar a apresentação das suas conclusões, obrigou os ministros a primeiro se posicionarem sobre as coisas que, condenadas, acabariam por sedimentar o caminho para a conclusão de que a compra de votos realmente existiu. Se houve desvio de verba pública, se houve corrupção passiva e ativa, se houve peculato e formação de quadrilha (já reconhecidos pelo tribunal), a pergunta do relator agora é: tanto dinheiro levantado de forma fraudulenta e distribuído com preocupações claramente dissimuladoras, o foi para quê?
Se se pagou mais de cem milhões é porque o retorno justificava o “investimento”. Da exposição feita pelo ministro Barbosa nesta segunda-feira, ficou evidenciado (para mim provado) que se comprarm os votos da bancada do PP, com liderança do quarteto Pedro Corrêa, Pedro Henry, José Janene  e João Cláudio Genu. O que ainda me deixa intrigado é que as votações por ele citadas como tendo sido compradas foram as da Previdência e Tributária. O que ainda não visualizo é como estas votações justificaram o “investimento” da dinheirama do Mensalão. A justificativa deve vir nas análises subsequentes.
Para mim, até agora, me surpreendo positivamente e reconheço que este tem sido o mais transparente julgamento da história do STF. Espero que esta posição não venha a ser frustrada pelos votos dos demais ministros, exceção feita ao PToffoli, que não me surpreenderia se inocentasse todo mundo dizendo que o mensalão foi invenção do Jefferson e vitaminada pela mídia e que a entrevista do Valério incluindo o Lula é coisa de maluco.

Marcos Inhauser

PALADINO DA TRANSPARÊNCIA

Já disse aqui, mais de uma vez, que há horas que me dou ao exercício do masoquismo, pois tomo tempo para ver coisas na televisão que me dão alergia. Nestes tempos de eleição, fiz isto para ver a propaganda dos candidatos. Mas, mesmo que não quisesse ver o horário eleitoral “gratuito”, sou forçado a ver certas coisas nos intervalos dos jornais ou jogos de futebol que assisto.
Há coisas que me chamam a atenção. A primeira é a qualidade das veiculações, especialmente dos candidatos a vereador. “Vote em mim”, “preciso do seu voto”, “conto com seu voto” são algumas das pérolas. Muitos usam expressões como “coragem”, “seriedade”, “compromisso”, “honestidade”. Há os que prometem ousadamente: “vou estabelecer políticas públicas para a saúde”, “o meu filho morreu, mas não vou permitir que façam o mesmo com o seu”, “vou trabalhar para acabar com as filas nos Pronto Socorros”, “vou fechar a torneira da corrupção”, e por aí vai a toada. Nas ruas, os cavaletes parecem sugerir que o voto se dá pela beleza do candidato: a foto, o nome e o número. O resto mal dá para ler. No quesito foto e imagem, esta propaganda via foto está gastando o que pode no Photoshop. Para o mim o campeão do botox via Photoshop é o Pedro Serafim. Uma carinha de adolescente estudioso!
Também surgiram algumas dúvidas. Não sou perito na legislação eleitoral, mas tenho a informação de que toda a propaganda veiculada na televisão, rádio ou cartazes deve trazer a legenda do partido ou a coligação. Vi nestes dias uma vinheta que fala da votação contrária do Jonas Donizetti nas propostas de aumento do salário mínimo, sem que houvesse qualquer menção do partido ou coligação que respalda a veiculação. Pode?
Também tenho a informação de que o uso de espaços públicos como jardim centrais nas avenidas e nas praças podem ser usados com cavaletes, que devem ser retirados depois das dez da noite e recolocados no dia seguinte. Não é o que vejo na Baden Powel, na saída do túnel em direção à Prestes Maia, para ficar em dois exemplos. Também tenho a informação de que os cavaletes não podem impedir a visibilidade dos motoristas. Não é o que acontece para quem vem na Magalhães Teixeira em direção ao túnel, no semáforo onde começa a mão dupla. Ali a visibilidade é prejudicada pela propaganda.
Mas o que mais me dá náuseas é o paladino da transparência: afirma que no seu governo as coisas são feitas às claras. E quando era Presidente da Câmara, por que aprovou o aumento do salário em 126% a toque de caixa e à sorrelfa? E a criação de cargos extemporâneos na Sanasa para acomodar os aliados? E o pedido para que os vereadores governassem com ele?
Parece que o cargo de prefeito o santificou! Ou será só propaganda tão superficial como a do vereador que pede “vote em mim”?
Marcos Inhauser

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

PT-OFFOLI


Ele é ex-advogado do PT, de 1995 a 2000 foi assessor parlamentar da liderança do PT na Câmara dos Deputados, advogado do PT nas campanhas Lula em 1998, 2002 e 2006, subchefe para Assuntos Jurídicos da Casa Civil de 2003 a 2005 durante a (con)gestão de José Dirceu. Em março de 2007, Lula o nomeou para a Advocacia-Geral da União. Depois foi indicado pelo Presidente Lula para assumir a vaga no Supremo Tribunal Federal por causa do falecimento do ministro Carlos Alberto Menezes Direito no (STF).
Com o advento do julgamento do Mensalão no STF, questionou-se se seria ético a sua participação no julgamento. Não só porque está vinculado a vários dos réus, como também pelo fato de que o agora ministro tem lá suas coisas para explicar em ações que o condenaram a devolver dinheiro e depois “anulada” e outra ainda em trâmite. Mais tarde, foi incluído pela advogada Christiane Araújo de Oliveira no esquema do mensalão do DF, afirmado que mantinha relações com ele no apartamento de Durval Barbosa e que teria até solicitado um jato oficial do Governo para transportá-la. Estes fatos são negados pelo ex-advogado (como era de se esperar).
Acompanhei pela televisão o inteiro teor do seu voto e não me surpreendi. Até afirmo que já esperava que ele fizesse ginástica e usaria de sofismas para inocentar o João Paulo Cunha. Mas o que me surpreendeu é que ele foi mais longe: absolveu outros que haviam sido condenados até pelo revisor.
Ele votou pela absolvição do João Paulo Cunha e do grupo do Valério. Cunha foi absolvido dos crimes de lavagem de dinheiro, corrupção passiva e dois peculatos. Toffoli também absolveu os publicitários Marcos Valério, Ramon Hollerbach e Cristiano Paz das acusações de peculato e corrupção ativa.
Quanto à lavagem ou ocultação de dinheiro, Toffoli alegou que não há provas de que o deputado soubesse que o dinheiro vinha do Marcos Valério e não do PT. Ele sofismou dizendo: “se soubesse da origem do dinheiro, não teria mandado a própria mulher sacar o dinheiro na agência do Banco Rural. Que ocultação se pretendia fazer mandando sua própria mulher?".
Ele foi além e disse que as provas apontam que o dinheiro foi entregue ao réu por ordem de Delúbio para pagar pesquisas eleitorais e que as várias versões dadas pelo deputado não são relevantes. O ministro desafinou ao discordar da acusação da Procuradoria que atribui a Cunha outro peculato no contrato da Casa com a empresa IFT, de propriedade de Luís Costa Pinto, seu amigo, para prestar serviços pessoais. O magistrado afirma que ficou comprovado que o jornalista prestou os devidos serviços para a Câmara.
Com um ministro destes, não há necessidade de advogado de defesa.  Ele vai abrir uma pizzaria quando se aposentar.
Marcos Inhauser

terça-feira, 21 de agosto de 2012

IGNORÂNCIA ARROGANTE

Ao pensar no título desta coluna estava me perguntando se não é ele um pleonasmo, isto porque, na minha experiência, quase sempre o ignorante é presunçoso e acha que o que sabe é a mais pura verdade.
Tive mais uma experiência destas esta semana. Uma senhora queria saber como era a Igreja da Irmandade, porque ela nunca tinha ouvido falar desta denominação. Ela introduziu o assu
nto da seguinte maneira:
- O senhor é pastor de qual Igreja?
- Igreja da Irmandade?
- Nunca ouvi falar. Ela é uma igreja normal? Ela é uma igreja “pentencostal”?
- Ela é uma igreja cristã.
- Mas ela é “pentencostal”?
- Não, ela não é pentecostal (falei acentuando para ver se ela percebia que pronunciava errado).
- Então ela não é uma igreja verdadeira porque não é “pentencostal” (ela insistia em dizer errado). A igreja verdadeira tem que ser “pentencostal”. Se não for verdadeira e “pentencostal” não é igreja, é do demônio.
- O que a senhora entende ser pentecostal? Qual a característica de uma igreja pentecostal?
- Uma igreja “pentencostal” é uma igreja avivada, que bate palmas quando canta, que ora com fervor, com fé, que cura, que profetiza, uma igreja que não é geladeira.
- Isto para a senhora é ser pentecostal? E se eu disser que em um terreiro de umbanda eles cantam, batem palmas quando cantam, fazem orações em voz alta, curam e dizem o que vai acontecer com a pessoa, isto significa que são pentecostais?
- De jeito nenhum!
- Então as características do ser pentecostal não podem ser as que a senhora me mencionou. Há alguma outra que a senhora queira adicionar? Eu esperava que ela fosse falar do batismo do Espírito Santo como segunda benção. Que nada!
- Uma igreja “pentencostal” tem que ter o Espírito Santo.
- Como a senhora sabe que a sua igreja tem o Espírito Santo e que a minha não o tem, mas que é do demônio?
Ela parou, pensou, viu que havia se enroscado e esbravejou:
- O senhor está me enrolando! O senhor tá querendo fazer eu me desviar da fé. Pare de me perguntar e acredite no que estou dizendo porque o que estou dizendo tá na Bíblia do jeitinho que tô falando pro senhor. E se o senhor não aceitar o que tô dizendo, que é o que está na Bíblia, o senhor vai queimar no fogo do inferno!

Não é primeira vez que sou excomungado por fazer perguntas que as pessoas não sabem responder. O que mais me intriga é que quando faço perguntas que a pessoa não tem respostas, o culpado sou eu. Eles me chamam de herege, de apóstata, mas nunca dizem: sou ignorante.
Assim, para muitos, sou herege, não porque o seja, mas porque eles não sabem dar respostas às minhas perguntas. Mais: se uma pergunta pode derrubar a fé de alguém, que fé mais mequetrefe é esta.
Marcos Inhauser

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

O TROPEÇO DAS ESTRELAS


Em Atenas, 2004 foram cinco de ouro. Em Pequim, 2008 foram três de ouro. Para 2012 em Londres o midiático Carlos Arthur Nuzman prometeu oito de ouro e só vieram três. Houve um trabalho de marketing muito forte em cima de algumas figuras que se esperava trariam ouro: seleções brasileiras de futebol masculino e feminino, seleções masculinas de basquete e de vôlei, equipe de ginástica olímpica, judô, salto com vara e salto triplo feminino, maratona. Exceção feita à seleção feminina de vôlei que arrancou a medalha com o pé na cova, toas demais esperanças frustraram.
A começar pelo time feminino de futebol, eliminado precocemente, com atuação pífia. A masculina foi se aguentando frente a adversários fracos, mas na hora agá, quando enfrentou uma seleção mais forte, deu no que deu. A Fabiana Murer foi derrubada pelo vento e a Maurren Maggi amarelou. Na maratona o primeiro brasileiro classificado ficou em quinto lugar. A seleção feminina de basquete só ganhou da Grã-Bretanha. Os irmãos Hipólito e a Daiane permitiram que pela primeira vez desde 2002 a Brasil não estivesse nas finais da modalidade.
O Neymar foi medíocre se comparado com outros jogos e atuações. Hulk, Marcelo, Alexandro, Rômulo, idem. Salvaram-se o Oscar e o Damião. O Doda, nem se ouviu falar, o Fernando Pessoas idem. O Cielo afundou.
As estrelas tropeçaram.
Quem se salvou? Gente desconhecida e sem as luzes da mídia global. Os irmãos Falcão, Sarah Menezes, Arthur Zanetti, Felipe Kitadai, Mayra Aguiar, Adriana Araújo, Juliana Silva e Larissa França, Yane Marques. Gente que foi sem brilho, sem holofote, mas que voltaram com o brilho de suas performances e medalhas.
Os medalhões voltaram de peito vazio.
No caso específico do futebol masculino, fica a interrogação: como um time que tem alguns dos melhores jogadores do mundo em suas posições, pode ser tão bisonho em uma final de Olimpíada? Como se mantém um treinador que, depois de tanto tempo, ainda não conseguiu dar unidade ao time?
A Dilma disse que quer mais medalhas em 2016 no Rio. Querer é uma coisa. O Nuzman também quis e prometeu. Mas onde está a política nacional de desenvolvimento de novos atletas? Ou, tal como se age nas obras para a Copa e Olimpíada, acredita-se que na hora agá tudo vai dar certo. Será que a Dilma acha que se faz um atleta de uma hora para outra? Como a nação sede da Olimpíada tem o compromisso de ter participantes em todas as modalidades esportivas, tenho para comigo que teremos muito mais motivos para nos envergonhar em 2016.
Disto fica uma lição: a humildade é fundamental quando se pensa em competir. E quem entrou de salto alto, saiu de cabeça baixa.
Marcos Inhauser

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

ADORÁVEIS POLÍTICOS


O desenrolar do julgamento do Mensalão está dando uma lição de como são e agem os políticos. Vamos por partes.
A primeira coisa que me chama a atenção é o fato de que “homem simples” (qualificação dada ao Delúbio) consegue pagar advogados que trabalham a peso de ouro, alguns dos mais caros do país. De onde sai a grana? Ou já saiu antes com o advento do valerioduto?
A segunda coisa é que nenhum deles se faz presente no plenário, como se a coisa não lhes afetasse.
A terceira é que os advogados, sem exceção, apresentam os réus como dignos de beatificação. O Zé Dirceu trabalhava tanto que não teria tempo para estas pequenezes. O Genoíno era um hábil articulador político e péssimo administrador financeiro. O Delúbio um exemplar cumpridor de ordens. O Marcos Valério um facilitador de tomadas de empréstimos perfeitamente legais junto a bancos. Os bancos fizeram o seu papel de emprestar o dinheiro e estão tentando receber o que emprestaram, tudo na mais perfeita legalidade e obediência aos preceitos legais do Banco Central. Todos eles ofereceram provas e foram inocentados nas auditorias e nas alegações contraditórias. O Ministério Público é um câncer na estrutura brasileira. Anda investigando demais e achando coisas. Ele tem a capacidade de achar pelos em ovos. O Procurador Geral é incoerente, junta documentos que lhe interessam e desconsidera outros que negam o que afirma. A Polícia Federal deveria estar investigando traficantes e não gastando tempo em dinheiro com gente de tão fina estirpe como os políticos brasileiros. Só deve valer nestes julgamentos documento de confissão assinado em cartório, com firma reconhecida e pelos menos 10 testemunhas.
Os réus, por sua vez, se praticaram alguma ilegalidade, foi no campo eleitoral, crime de menor importância e tão comum no universo brasileiro que nem vale a pena gastar este tempo todo para julgar. O melhor é não dar em nada. Ou melhor, o melhor é que saiam do STF com um atestado de pureza moral.
De minha parte espero que estes políticos e outros não réus do mensalão, mas tão envolvidos em falcatruas com o dinheiro público, seja na retenção de vales-refeição, na farra do pedágio, na indicação de parentes para trabalharem como assessores ou na Sanasa, desaparecem da vida pública brasileira. Alguns estão sendo impedidos de concorrer às próximas eleições (em Campinas vários já foram defenestrados e o mesmo ocorre em outros municípios). Alguns dos que hoje estão sendo julgados pelo STF ou pelos TREs já não contam com o prestígio de antes. No Genoíno de antes e o de agora há uma distância abissal. O Zé Dirceu perdeu muito do seu espaço. O Delúbio está sendo processado criminalmente. E assim por diante!
A opinião pública está atenta e acompanhando o que acontece. Se não todos os brasileiros, mas uma expressiva parcela. E nisto estamos dando nossa contribuição para que a pizzaria de Brasília vá à falência.
Marcos Inhauser

terça-feira, 31 de julho de 2012

A MESMA REGRA SE APLICA


Acostumado com a ineficiência das Agências Reguladoras (já falei da inoperância da ANS, ANEL, ANATEL, ANVISA, ANTT, ARTESP neste espaço), devo confessar que me surpreendi com a investida da ANATEL contra as operadoras de telefonia móvel. Primeiro porque saiu do catatonismo para a hiperatividade. Segundo porque veio de encontro ao anseio da população, ela que se caracterizou até aqui por ser uma agência que regulava os interesses das operadoras e não dos usuários.
O argumento básico utilizado para a investida drástica foi que as operadoras estavam vendendo mais aparelhos do que a rede instalada tinha capacidade de suportar. Em outras palavras, estavam vendendo o que não tinham condições de entregar, pois os investimentos que deveriam ter sido feitos não estavam acontecendo no ritmo esperado e demandado pelo aumento significativo dos usuários.
Pois bem. Se a máxima de vender mais do que a infraestrutura pode aguentar habilita a punição drástica que se aplicou, o mesmo princípio deve ser aplicado a outro setor, este gerenciado pelos governos federal, estaduais e municipais. Refiro-me ao da venda de automóveis.
O governo incentivou com a redução de IPI e taxas mínimas de financiamento a venda de carros zero. Houve incremento alarmante na quantidade de carros circulando pelas ruas, avenidas e estradas. Os governos ganharam uma nota preta com o IPI, ICMS, IPVA e “otras cositas más” embutidas, tais como o IOF no financiamento, a CIDE e o ICMS na gasolina, o ISSQN nos pedágios, etc. Há ainda o aumento no seguro dos carros (que gera mais impostos) fruto da inépcia governamental em coibir os roubos e furtos de veículos.
Houve um incremento em todos os níveis de arrecadação. Quem deveria proporcionar a infraestrutura que viabilizasse o uso da mercadoria que se comprou, simplesmente não fez nada. As ruas são as mesmas, as avenidas continuam iguais e as estradas foram terceirizadas e o que mais se vê é a plantação de radares (outra forma de tirar dinheiro do povo). Não bastasse isto, os governos municipais diminuíram o número de vagas de estacionamento nas ruas ou passaram a cobrar pelo uso do espaço público via Zona Azul. Há cidades onde se implantou a Zona Azul e não se acha o talão para ser comprado, e lá estão os fiscais para multar pela falta do cartão (isto ocorre em Campinas). Aumentaram a tropa dos “amarelinhos” ou “marronzinhos” (a cor depende do município) e estes anotadores de placa tem o dom da onipresença. Apareceram os donos de estacionamento que duplicaram o preço.
Se se pode penalizar as operadoras por falta de infraestrutura, quem penalizará os governos pelo mesmo pecado? Qual a agência reguladora que fiscaliza os atos destes incompetentes administradores? Quem poderá aplicar a sanção de não mais se vender carro até que as condições de infraestrutura sejam dadas?
A esta altura do campeonato, só vejo uma agência: o voto. Por isto e pela ineficiência já demonstrada, não reelejo ninguém. Quero esta corja fora o quanto antes.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 25 de julho de 2012

MÁFIA OU CACHOEIRA


Há no Brasil a jabuticaba, que dizem só existir na terra brasilis, há os produtos jabuticaba (aqueles que a gente só encontra nesta terra, como, por exemplo, as novas tomadas elétricas), há as jabuticabas enxertadas, que são jabuticaba com inspiração estrangeira.
O caso Cachoeira parece ser desta última geração. À medida que os dados vêm à luz, percebe-se que a coisa é maior do que qualquer cidadão brasileiro pudesse imaginar. Creio mesmo que até os que estiveram envolvidos nas investigações se assustaram com os tentáculos desta hidra brasileira (animal mitológico de muitas cabeças, que renasciam em maior número à medida que se cortava uma delas). Desta hidra sabemos pouco, pois acredito que muito mais há para ser revelado e descoberto.
O que até agora se sabe levanta a questão: é um caso de corrupção ou um modelo mafioso que se instalou no governo de Goiás e de lá lançou tentáculos a outras partes?
Note-se que define a máfia como organização criminosa que tem suas atividades submetidas a uma direção oculta e que se infiltra na sociedade civil e instituições, com o objetivo de ter e vender facilidades. Dedicam-se às coisas ilícitas, seja no jogo, no tráfico, na corrupção, na venda de armas, etc. Para tanto arregimentam funcionários públicos e policiais para facilitar ou fazer vistas grossas às suas atividades. Sabe-se de políticos que tiveram suas campanhas financiadas, que foram eleitos e trabalharam fazendo lobby e defendendo os interesses dos financiadores.
A máfia não tinha escrúpulos em “ajuizar” os infiéis ou inimigos. As execuções sumárias de delatores, apóstatas e inimigos se tornaram prosaicas e renderam alguns filmes de boa bilheteria.
No caso tupiniquim, a coisa, ainda que pareça jabuticaba, está com tempero mafioso. Policiais civis, militares e federais que recebiam um mensalão para lubrificar os negócios ilegais dos caça-níqueis. Funcionários públicos locupletados para direcionar licitações. Prefeitos, vereadores, senadores e quiçá até governador que receberam financiamento para suas campanhas e que trabalharam como lobistas do empresário boa pinta, que, na fachada, era dono de uma empresa farmacêutica.
Acrescente-se a isto o laranjal que era utilizado para fazer os pagamentos espúrios, a compra sub ou superfaturada de uma mansão até agora não esclarecida devidamente, os quinze milhões de pagamento para que o ex-ministro da Justiça seja o advogado defensor, a chantagem feita em cadeia nacional de televisão dizendo que o marido não é bandido e que vai contar o que sabe, fazem desta Cachoeira algo, que para mim, está mais para a máfia que qualquer outro escândalo.
Não bastasse o enredo descrito, tem-se a morte do policial Tapajós, que participou nas investigações, o delegado Hylo Marques está sumido (que era informante do grupo mafioso) e um escrivão que trabalhou nas investigações foi encontrado morto em casa. Era Fernando Sturi Lima, 34 anos, teria se “suicidado” com um tiro na cabeça.
Ainda vai rolar água desta Cachoeira!
Marcos Inhauser

terça-feira, 17 de julho de 2012

HOMOGENEIZAÇÃO


Quem já viveu nos Estados Unidos por algum tempo notou que os shopping centers são quase todos iguais, com as mesmas lojas e mesma disposição em cada uma delas, dependendo da rede à qual pertencem. Se se entra em uma loja de rede que nem sempre está nos malls, tal como Target e Walmart, e depois se entra em outras lojas da mesma rede, até a disposição das coisas na loja é igual.
Se se viaja de carro e se quer parar em postos de gasolina, a diferença entre um e outro é mínima e em todos se encontra mais ou menos as mesmas coisas.
Coisa parecida está ocorrendo no Brasil. A invasão das redes Graal e Frango Assado (para ficar em duas citações) nos postos de gasolina e conveniências à beira de estradas, tem dado esta homogeneização gradativa.
Nos shopping centers, as chamadas “lojas ancoras” também tem levado a se ter mais do mesmo em qualquer um que se vá. Lá estão as Americanas, C&A, Renner, Fotóptica, etc. A maior homogeneização se dá nas praças de alimentação: em qualquer praça que se vá se encontra o mesmo: McDonald, Montanara Grill, Vivenda do Camarão, Spoleto, Viena, etc.
O processo se dá também no vestuário: todos de jeans e camisetas. Se se anda na região da Funchal, Vila Olímpia, Alphaville, Berrini, Faria Lima em horário de almoço pensar-se-á que jeans e calças pretas são uniformes das mulheres.
O mesmo se dá no campo das igrejas genericamente chamadas de “evangélicas” (recuso-me a aceitar tal designação como apropriada). Sai-se da Igreja X e vai-se para a Y, e depois a W e a seguir a Z e a coisa é a mesma: meia hora ou mais de cânticos congregacionais liderados por um grupo de narcísicos tocando algum instrumento. Os cânticos são os mesmos, seja nas igrejas históricas, independentes, livres, carismáticas, pentecostais ou neopentecostais. Quando se pensa que a mensagem deveria ser diferente, o que se tem é o monotematismo: todas tratando do mesmo tema, com variação nas ilustrações e nos textos bíblicos. Prosperidade e vitória nas lutas são o pão quente da hora.
A padronização imbeciliza porque não confronta com a novidade, a surpresa, a mudança. Viver a cada dia repetindo e vivendo a mesmice embota as mente e os corações. A homogeneização cultural e religiosa infantiliza porque não exige crescimento: tem-se mamadeira a qualquer dia e qualquer hora em todo lugar. Isto talvez explique a proliferação dos livros de autoajuda: mais do mesmo para as mesmas coisas. Fórmulas simples e mágicas para resolver questões que as pessoas não têm treino para tratar porque acostumadas à mesmice.
Nos templos tem-se uma mercadoria banalizada: a benção via oração do iluminado. Quanto mais pomposo for o título que ostenta (e sabe-se lá como foi que conseguiu esta comenda demissionário, pastor, bispo ou apóstolo – muitos por auto-ordenação!) mais poderosa e for te são a oração e a benção. Só que ela tem validade de yougurte: dura uma semana. Depois tem que ser renovada!
Marcos Inhauser

segunda-feira, 16 de julho de 2012

ADORAÇÃO


Há tempos venho me preocupando com o empobrecimento da liturgia e culto. O que era algo pensado, elaborado, feito com unidade e sequência lógica, foi, gradativamente, sendo substituído pelo “louvor” (um amontoado de cânticos desconexos na mensagem, escolhidos mais pelo entusiasmo que geram que na mensagem que trazem), a mensagem elaborada, estudada e bem fundamentada foi substituída pelos testemunhos de qualidade duvidável, que produziram o neologismo “tristemunho”.
Unidade litúrgica é algo que se perdeu e se desconhece nos cultos modernos. Teologia é sinônimo de palavrão e a própria liturgia ou é desconhecida ou é rejeitada como sendo algo que restringe a liberdade do Espírito. Os que propugnam que o culto deve ser livre para que se dê o agir do Espírito, não percebem que repetem as mesmas fórmulas domingo após domingo. Confundem excitação com espiritualidade, empolgação com manifestação espiritual.
Parece que se perdeu o conhecimento e o entendimento do culto em Israel, tanto no tabernáculo como templo, onde havia uma família inteira dedicada exclusivamente a isto (a família dos levitas), o culto tinha seus regulamentos (há todo um livro dedicado a este ordenamento, o de Levíticos), os cânticos eram selecionados a dedo e formaram o Saltério. Até a roupa dos sacerdotes tinha seu regulamento!
Falar de liturgia hoje em dia é recuperar a riqueza que se tinha e foi se perdendo. Mostrar a relação entre o culto, a adoração e a cura é algo que, ainda que praticado em muitos templos, não tem sido feito com a devida fundamentação bíblica e teológica. Adoração é uma arte perdida! Muitos dos que se promovem como líderes de adoração não tem a mais mínima noção do que teológica e biblicamente isto significa: curvar-se em homenagem, atribuir valor à divindade. Adoração é falar com Deus e não falar de Deus. Nos cânticos, orações, litanias, confissões falamos a Deus de nossas vidas e vicissitudes. Na mensagem ouvimos a Deus falando e nos dando esperança.
Por que cultuamos? Qual o papel da música e do cântico no culto? Sempre houve instrumentos para ajudar no canto congregacional? A congregação sempre foi permitida a cantar durante os cultos? O que esperamos que aconteça quando as pessoas saem do templo e retornam às suas casas? Pode haver cura durante o culto? Qual o papel dos dons no culto?
Conhecer estes aspectos leva as pessoas a ter melhor clareza na hora de adorar. Perceberão que a adoração não é medida pelo barulho, pelas palmas, pelo volume do som, pela quantidade de lágrimas, pelo brilhantismo dos músicos ou seja lá o que for. A adoração é feita em espírito e em verdade. Ela é uma atitude pessoal de render-se, de inclinar-se diante de Deus, de exaltá-lo, de submeter-se a Ele. Não é tempo de exposição narcísica (tal como se dá em muitos púlpitos que se transformam em palcos de exibicionismo), mas de contrição e humildade.

Marcos Inhauser



segunda-feira, 9 de julho de 2012

SECULARIZAÇÃO GRADATIVA


As últimas pesquisas sobre a religiosidade no Brasil têm revelado o crescente número de pessoas que se afirmam arreligiosas ou ateias. Acrescente-se a isto os que declaram ter fé, mas que se negam a estar vinculados a uma estrutura religiosa. Outro dado que veio à luz nos últimos é a queda no número dos que estavam vinculados à Universal e o crescimento da Igreja Mundial do Poder de Deus.
O crescente número dos não-religiosos e ateus se deve a um processo que se deu na Europa a partir da Segunda Guerra Mundial e que se convencionou chamar de secularização, que leva as pessoas a não mais considerar ensinos tradicionalmente religiosos como normativos para as suas vidas, preferindo adotar valores culturais ou de mercado. Há indícios que este secularismo está também vinculado à melhoria das condições sociais e econômicas, pois, tendo mais recursos, menos dependentes de Deus se tornam.
Nesta vertente é comum encontrar os que se valem do pragmatismo ou utilitarismo para justificar ações e comportamentos. Mais que isto, a secularização tem o condão de retirar as esperanças, especialmente as relacionadas à vida futura e até mesmo uma vida aqui mais justa e próspera.
No caso específico do contexto brasileiro, além da propalada ascensão econômica da classe D (fato discutível e que merece aguardar dados estatísticos de mais longo prazo), há a religiosidade secularizante.
A partir dos anos 70, com o surgimento e explosão do neo-pentecostalismo e a competição acirrada que se estabeleceu entre as várias correntes, a fé se tornou marketing (O Show da Fé!), as bênçãos viraram mercadoria e Deus foi esvaziado para se tornar em ajudante de ordens de pregadores que ousam dar-lhe ordens.
Transformada a fé em marketing e a benção em mercadoria que se compra nos templos dos “iluminados”, onde um bispo ou apóstolo determina a Deus o que deve acontecer, a dimensão mística e numinosa da fé e do sagrado se perdem e a racionalidade cartesiana do “pagar para receber” transforma a experiência sagrada da oração, da meditação, da comunhão, do serviço, do amor ao próximo em algo secularizante: Deus se deixa vender! E o Deus que se deixa vender não é Deus e, portanto, passo a ser ateu.
A religião do sucesso tem a habilidade de criar frustrados e decepcionados. Faz aumentar o número dos ex-membros de alguma igreja, que detestam pastores e cultos, que buscam formas alternativas de viver a fé, seja em pequenos grupos ou em vidas cristãs isoladas, muitos se dedicando ao autodidatismo bíblico e teológico, mãe das grandes heresias.
A religião midiática que cresce na direta proporção das horas de programa de televisão que veicula, que gasta milhões mensais para repetir ad nauseam as mesmas coisas, que promete o q não entrega, que fala mais em dinheiro que em amor ao próximo, mais em poder que em serviço, não é religião: é comércio. E comércio é o deus Mamom, secular e secularizante.
 Marcos Inhauser

terça-feira, 26 de junho de 2012

OS IGUAIS SE ALIAM


Um sociólogo da Universidade de Chicago (que a memória não me permite recordar o nome), que afirma que há um elemento gregário no ser humano e que as pessoas se aliam a outras que são iguais a elas e assim formam grupos. Ele chama a isto de conformação tribal. A igualdade passa pela semelhança no vestir, comer, falar, interesses, etc. A afirmação tem sua lógica na medida em que nos sentimos confortáveis ao lado de pessoas que pensam igual a nós, que concordam conosco em quase tudo, onde as conversas fluem em um processo gradativo de troca de experiências e não fica patinando em afirmações e contradições.
Lembrei disto na semana passada por causa dos recentes episódios envolvendo dois líderes de partidos políticos. Para quem acompanha a vida política do país há algum tempo, especialmente a partir do golpe de 64 e o surgimento do movimento operário no ABC paulista que redundou na formação do PT, também acompanhou as idas e vindas desta cria da ditadura que hoje lidera o PP, mas que teve sua peregrinação iniciada na Arena e a carreira política fomentada pelas fardas.
Lula e Maluf viviam às turras, com farpas envenenadas atiradas dos dois lados. Há alguns anos era inimaginável pensar que um dia pudessem se aliar. Mas como já disse Tancredo: a política é como a nuvem, a cada minuto muda de forma. E nuvem mudou e muito a sua forma.
O Maluf continua o mesmo e até hoje deve explicações à nação sobre as acusações e condenações que tem, notadamente as que se referem aos desvios de recursos públicos e dinheiro no exterior. Ele sempre usou a fórmula maquiavélica de que “os fins justificam os meios”. Neste afim sempre se aliou a quem estava no poder e tentou se eleger em tudo quanto é cargo, de prefeito a presidente.
Do outro lado, o Lula encarnava a virgem pura da política, denunciando tudo e todos, especialmente Maluf e Quércia. Como não conseguiu eleger-se presidente adotando a postura purista e de paladino da moral, influenciado pelo amigo Zé Dirceu decidiu deixar o convento da castidade e partir para algumas relações menos santas. Aliou-se ao PCdoB, ao PSB e ao PR, dando a este a vice-presidência, que tinha sido do PRB (antes se chamava PMR) e do PR. Assim se elegeu. Já eleito, fez um leque de alianças que mais parecia arco-íris que algo ideologicamente construído. Em nome da governabilidade valia tudo. Tanto valia que se aliançou ao PMDB a prostitua mór da política brasileira, em pé de igualdade com o DEM. Impôs a Dilma como candidata e para elegê-la entregou a vice-presidência ao Temer, velha raposa política e do PMDB. Tentou o Kassab e sua cria, o PSD e se deu mal.
Agora os iguais e aliançam. Quem mudou? O Maluf ou o Lula? Quem está levando ao paroxismo a máxima maquiavélica dos fins que justificam os meios. Para tentar eleger um poste, vale tudo, até ir à casa do Maluf e tirar fotos sorrindo ao ex-desafeto. O Maluf continua a mesmo. Só resta aceitar que a mudança ocorreu no Lula e nos seus asseclas.
De políticos assim estamos cansados. Queremos gente com valores e que tratem a coisa pública com seriedade e não nos chamem de palhaços.
Marcos Inhauser

quinta-feira, 21 de junho de 2012

CORPORCO


Uma característica bastante comum nos seres humanos é a proteção dos iguais. Parece que necessitamos proteger os que são nossos colegas, para que, na hora da necessidade, também sejamos protegidos.
Este sentimento de “espírito de corpo” pode ser visto e frequentemente é citado quando se trata de julgamentos que são feitos a profissionais pelas suas entidades de classe. Não foram poucas as vezes em que se salientou que os Conselhos Federais de Medicina, Odontologia, dos Contabilistas, da Magistratura, são lentos e muitas vezes omissos nos seus julgamentos. Parece que os julgamentos só se dão quando o caso é de tamanha evidência que nem juízo precisa. Também ocorrem quando há grande comoção social e pressão da opinião publica.
A cada pouco somos informados que o médico este ou aquele, que o juiz fulano ou beltrano, estão sendo acusados de algo e que eles já tem outras acusações anteriores nos órgãos colegiados. Há o caso do “cirurgião plástico” de Brasília que matou algumas pessoas e o Roger Abdelmassih. Há ainda os procuradores denunciados por estarem pegando dinheiro dos precatórios há bom tempo e que o julgamento foi digno de uma lesma.
No campo da política a coisa é ainda pior. Recentemente tivemos o lamentável episódio da absolvição da Jaqueline Roriz, no que pese o vídeo comprovando o recebimento da propina. Aí estão os casos do deputado Saulo Moreira (ALE/RJ);  deputado Sérgio Moraes (PTB-RS), que em 2009 ficou famoso ao dizer que “se lixava” para a opinião pública; deputado José Mentor (PT-SP) por sua participação no Mensalão; Paulinho da Força (PDT-SP), acusado de participar de um esquema de desvio de dinheiro do BNDES; Jair Bolsonaro (PP-RJ), acusado de homofobia e racismo; Olavo Calheiros (PMDB-AL) - Acusado de quebra de decoro supostamente por ter ligações com o dono da construtora Gautama, Zuleido Veras, preso na Operação Navalha da Polícia Federal; Sandro Mabel (então no PL-GO), acusado de distribuição de suborno; João Correia (PMDB-AC), acusado de envolvimento na máfia das Sanguessugas; Vadão Gomes (PP-SP), Pedro Henry (PP-MT, José Janene (PP-PR, Wanderval Santos (então no PL-SP), Professor Luizinho (PT-SP), Roberto Brant (PFL-MG), Romeu Queiroz (PTB-MG), João Magno (PT-MG), João Paulo Cunha (PT-SP), Josias Gomes (PT-BA), todos absolvidos das acusações de participação no mensalão.
Neste momento, há evidências de que o Demóstenes pode se safar. Talvez porque ele saiba demais e pode complicar a vida de muita gente. E o Pagot não querem ouvir porque vai botar lama na mesa presidencial.
Na Câmara de Campinas já tivemos alguns exemplos iguais. Foram absolvidos do uso indevido dos tickets refeição, da contratação de funcionários fantasmas, da retenção de parte dos salários dos funcionários, da farra dos pedágios.
Pelo jeito, mais que espírito de corpo, há nestes colegiados um espírito de porco. Gostam de viver na lama e não saem dela nem a pau.
Marcos Inhauser

ESPIRITUALIDADE DISTORCIDA OU FÉ?


Preocupa-me o conceito de “fé” nos dias e no contexto em que é usado nos dias de hoje no Brasil.. Ela é ensinada fé como virtude mágica, varinha de condão, um “abra cadabra gospel” que produz coisas mirabolantes. Recuso-me a aceitar a fé infantil e estúpida de um pastor que segurava serpentes para provar a veracidade de um verso da Bíblia. Valeu para ele o dito popular: “Se quiseres, confia na pata do coelho: mas lembra-se de que ela não deu sorte ao coelho.”
Recuso-me a aceitar a fé como palavra de ordem que sai de lábios jactanciosos dizendo o que deve Deus fazer. Quando as ações de Deus forem sugestionadas ou dirigidas pelos humanos, ele terá deixado de ser Deus.
Recuso-me a crer que fé é o que faz com que as massas supervalorizem a autoflagelação e o sacrifício, em detrimento da graça pela qual fomos atraídos a Cristo. Ora, se a fé exigisse sacrifícios, a graça não seria graça. Então o que é fé? Fé é crer cega e dependentemente de Deus, mesmo que isso pareça um atentado à sanidade.
Conta-se que numa grande cidade, numa avenida sem nenhum semáforo, um pai procurava atravessar segurando a mão da filha de sete anos. Depois de alguns minutos de indecisão e de espera, o pai alcançou o outro lado da avenida tendo sempre a filha à mão. Ao se encontrar do outro lado, a menina exclamou: “Aquele edifício tem 10 andares. Eu os contei direitinho!” Porque confiava no pai, a menina não tinha visto o perigo da rua e dos carros. Quem confia no Senhor, fica em paz! Isso é fé. Esta é a definição de Hebreus 11:1 “Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem.” Não vejo Deus, mas confio absolutamente que, em sua soberania, ele sempre terá o melhor para mim. Não vejo o futuro, mas creio em quem está à frente: Jesus. Fé expressa em forma de confiança absoluta, de esperança imortal, de serenidade em meio às tempestades.
Analisando a religiosidade tupiniquim vejo mais crendices do que fé real e inabalável. Certa vez, três amigos encontraram-se após muitos anos de separação. Contando suas experiências, um deles disse: “Sou um homem muito infeliz. Perdi todo o dinheiro que possuía. Não tenho mais nada”. O outro disse: “É difícil a sua situação, mas não é tão triste quanto a minha. Perdi minha esposa e meus dois filhos. Oh! Se pudesse dar tudo o que você perdeu para tornar a vê-los!” O terceiro amigo disse: “A infelicidade de vocês é pequena comparada à minha. Um de vocês perdeu o dinheiro, que pode ser recobrado. O outro perdeu os queridos, porém, espera encontrá-los no céu. Mas eu perdi o que de mais precioso existe sobre a terra: perdi a fé”. (Rev. Marcos Kopeska, editado para que caiba neste espaço).

quarta-feira, 6 de junho de 2012

ASSASSINOS DE CONVERSAS


Fui à festa junina no colégio de meus netos para vê-los participar das atividades. Enquanto esperava fui me irritando com o volume do som. Quatro enormes caixas acústicas “animavam” o ambiente. O encarregado do barulho, em uma barraca ao lado da quadra, estava com o fone de ouvido posto e não sei se tinha noção do quão alto o som estava.
À medida que esperava a apresentação, me perguntava: será que não percebem o dano que podem estar causando aos ouvidos das crianças que aqui estão? Como podem enfatizar a reciclagem, ensinando a selecionar o lixo e evitando a poluição, se eles mesmos promovem a poluição sonora? O som equalizado para reforçar os graves, batia na cabeça como se fosse marreta. Eu que sou movido a música, estava irritado com ela.
Quando terminou a apresentação eu achei que teria alívio. Que nada! Lá estava a “música ambiente” em volume tão alto que dificultava a conversa com as pessoas que conhecia. Um tinha que gritar para o outro para ser ouvido e entendido. Saí de lá antes do previsto, cuspindo marimbondos.
Aquele era um tempo em que as famílias estavam reunidas, que as pessoas se encontravam e se cumprimentavam, um tempo de celebração da amizade que foi atrapalhado por um DJ sem noção, que acreditava que a sua música era mais importante que a amizade e as conversas. Longe do local onde as pessoas estavam, o DJ não percebia o estrago que estava fazendo.
Esta não é a primeira vez que fico irritado com a “música ambiente” que é mais música que ambiente”. Detesto restaurantes com música ao vivo. Quando vou a um deles o faço em companhia da esposa, dos filhos ou amigos e o que quero é conversar, trocar ideias, contar piadas. E lá está o barulho a atrapalhar. Ao final, na hora da conta, ainda querem me cobrar o “couvert artístico”. Querem que eu pague por ter sido atrapalhado na conversa, por ter ficado irritado, por ter ficado com dor-de-cabeça.
Lembro-me de um restaurante no interior do estado de Goiás onde fui jantar. Havia um cara grunhindo, equipado com um vilão que mais parecia arma que instrumento musical, cantando desafinado. Horrível! E ainda tiveram a ousadia de me cobrar R$ 15,00 para ser torturado pelo indivíduo. Não paguei.
Outra feita, em uma festa de casamento, quando as famílias que há tempos não se encontravam e tinham a oportunidade de colocar as novidades em dia, foram literalmente impedidas de fazê-lo por causa de um desajustado, equipado com uma mesa de som, que botou putz-putz para tocar e que ninguém conseguia fazer mais nada que ficar calado e olhando um para a cara do outro. Para mim ele tinha a necessidade de ser notado, mais que a noiva. E conseguiu. Todos o xingaram.
Estes sonoplastas de araque são assassinos de conversas. Matam o diálogo interpondo a violência da altura de seu som. A música ambiente é para suavizar, estabelecer um clima ameno e nunca para agredir. Ela deve facilitar o diálogo, o encontro, a conversa e não matar uma das coisas mais preciosas do ser humano: falar e ouvir.
Marcos Inhauser