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quarta-feira, 19 de abril de 2017

O CONCEITO DE DEUS É DECISIVO


Recebi o seguinte artigo do amigo teólogo Paulo Ruckert que aqui publico com algumas edições para que caiba no espaço.
Não devemos conceituar Deus assim como definimos objetos. Precisamos ter uma compreensão correta de Deus, para podermos nos relacionar com ele. Sem isto, toda a nossa teologia estará sendo construída sobre a areia.
Explico. Quando ingressei na faculdade de teologia o modismo da época era a “teologia da morte de Deus”. Já é perturbador deparar-se com o silêncio de Deus; o salmista grita para que Deus acorde e se levante. Mas a “morte de Deus” chega a ser desoladora. Nesse caso, nem adianta gritar.
Depois entendi que esse modismo teológico partia de um conceito de Deus inventado pelos ingleses e divulgado pelo filósofo Voltaire, conhecido pelo nome de Deísmo. Sem ele como ponto de partida, a “teologia da morte de Deus” perde a sustentação e cai no vazio. Há quatro modalidades que a humanidade tem adotado para se relacionar com Deus.
No seu relacionamento com Deus, o hebreu vivenciou um paradoxo: Iahweh é imanente e transcendente: ele está dentro do mundo e também fora dele. Tudo está sujeito à vontade divina, também os acontecimentos perturbadores. 
A partir dessa compreensão de Deus que o AT nos legou e que Jesus vivenciou integralmente, podemos estabelecer uma análise das quatro principais maneiras que a humanidade tem formulado para se relacionar com o divino.
O panteísmo dissolve Deus na natureza. Todos os seres vivos, incluindo os vegetais, são considerados uma manifestação de Deus. O universo todo é divino.
O deísmo é uma religião da razão. O argumento da existência de Deus é racional. O deísmo postula que Deus deu origem ao mundo e estabeleceu as leis da natureza.
O teísmo pressupõe Deus fora do universo. Deus é considerado uma pessoa celeste e perfeita, que passou a se situar fora e distante da humanidade. Ele se encontra acima do mundo e da humanidade. Deus está isolado desta realidade.
O panenteísmo declara que Deus está no mundo e o mundo está em Deus. Formado por três vocábulos gregos: pan (tudo), en (em) e teísmo (Deus) = Deus e o mundo estão inter-relacionados. Há equilíbrio entre imanência e transcendência de Deus. Deus é imanente como Criador, mas é transcendente em sua liberdade. Deus é infinito e não pode ser confundido com os seres finitos. Deus está presente em toda a realidade. Sendo Deus infinito, nada existe “fora” dEle. Deus não se esgota na realidade presente. Criou o mundo e continua criando ainda hoje.
O panenteísmo constata que Deus age e reage. Quando o povo se corrompeu fabricando o bezerro de ouro, Deus decidiu eliminar os idólatras e começar uma grande nação a partir de Moisés. No entanto, o líder do povo intercedeu, colocando-se “na brecha” (Sl 106,23) e bloqueando a execução do juízo. Diante da intercessão, “se arrependeu o Senhor do mal que dissera havia de fazer ao povo” (Ex 32,14). Deus age e reage. O Deus vivo e dinâmico não está somente “lá fora”, observando os acontecimentos. Ele atua dentro do processo da realidade e interage com o que acontece, podendo até voltar atrás e reconsiderar o curso dos acontecimentos. Deus atua na realidade e os acontecimentos provocam uma reação em Deus.
Se Deus não reagisse aos acontecimentos, redirecionando o seu desígnio, então todas as nossas orações seriam um falar no vazio. Mas, nós podemos contar um Deus vivo, dinâmico e atuante. Assim como o salmista, nós podemos contar com a intervenção divina na realidade, mudando a sorte do seu povo. Podemos esperar e confiar no agir de Deus.
Paulo Ruckert


PS - O texto completo pode ser solicitado por e-mail para marcos@inhauser.com.br

quarta-feira, 12 de abril de 2017

POLÍTICOS JURÁSSICOS

A votação feita na semana passada para “regulamentação” do transporte privado alternativo (Uber, 99, Cabify) foi a mais completa exibição da mentalidade retrógrada e notarialista da política brasileira. Quando havia possibilidade de se avançar nas relações de negócio entre dois parceiros (fornecedor e cliente), veio a Câmara e, com a mentalidade dos tempos dos dinossauros, decidiu pelo engessamento, cartorialização, imposição fiscal e encarecimento dos serviços.
Os novos tempos trouxeram a novidade de serviços um-a-um. Aí está o comércio eletrônico feito no Facebook, no Mercado Livre e outras plataformas. Aí está o AirBnb e outros que facilitam o aluguel de casas, apartamentos, pousadas para temporadas. Aí está o Submarino Viagens e outros onde se pode comprar passagens, fazer reservas de carro e de hotel, sem precisar de uma agência de viagens ou mesmo sair da casa. Aí está o Online Banking que dá a chance de fazer quase tudo sem sair de casa.
Em todas estas plataformas houve problemas, mas eles foram dirimidos e as coisas fluem. Não há nada perfeito e nada que os bandidos não tenham uma forma de tirar proveito. Até dos bancos eles conseguem tirar.
Há o serviço de taxi regular. Para se poder ter um é necessária uma licença e, para obtê-la, ou se compra de alguém que a tenha (a peso de ouro) ou se espera a abertura de novas licenças, coisa quase impossível de acontecer, porque os próprios taxistas não querem que haja mais taxis na praça. Quando se abre, é um deus-nos-acuda para driblar os espertinhos e os que tem seus canais. Com todo este “rigor”, não se entende como uma mesma pessoa pode ter vários carros ou uma frota de taxi. Também não se entende que tipo de fiscalização existe, uma vez que abundam os taxis clandestinos, os mal cuidados, com problemas mecânicos, etc. Cansei de pegar taxi na Rodoviária para vir para minha casa que eu nunca dirigiria no estado em que se encontrava. A cada pouco se sabe de bandidos travestidos de taxistas em carros caracterizados. A caracterização do taxi, a placa vermelha, o taxímetro e um número não são garantia absoluta.
Aparece o Uber, 99 Taxi, Cabify e outros. Eles fazem um serviço mais direto, mais rápido, menos complicado. Você liga e em prazo de 2 minutos estão te pegando. Quando você chama já vem uma estimativa de preço, o carro, marca, cor, placa e o nome do motorista, coisa que nunca tive no serviço regular de taxis. Mais: estando cadastrado, o pagamento é feito no débito no cartão, sem necessidade de qualquer papel ou assinatura. Em outras palavras: simplicidade, eficiência, rapidez e transparência.
Aí vem os políticos jurássicos, pressionados pelo cartel dos que nadaram na exclusividade até hoje, que mostraram que alguns são bandidos nos atos de violência contra motoristas alternativos, e exigem que os alternativos se igualem aos “oficiais”.  Por que não desburocratizar a classe dos que mamaram toda a vida e colocá-los nas mesmas condições dos demais? Não seria o caso de liberar?
Mas isto traria prejuízo porque tem placa de taxi que vale (valia) um milhão, como me contou um taxista do aeroporto. Para ter um carro ali precisava comprar uma licença. Mais: compram carro com isenção e liberar para atuarem sem caracterização seria perder esta mamata. Os demais trabalham mais barato, sem ter a isenção do IPI para comprar seus carros. Quanto dá de lucro um carro na praça? Deve ser muito porque ninguém quer largar o osso.
Os políticos, por sua vez, agradaram os sindicatos da categoria e usarão da capilaridade deles nas suas campanhas políticas. E de retrocesso em retrocesso avançamos para o tempo das capitanias.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 5 de abril de 2017

SOBRAM TOSQUIADORES

A metáfora é bíblica. Comparar a igreja com um rebanho com seu pastor é algo que faz parte do imaginário dos leitores bíblicos. Que o pastor tenha a seu cargo o cuidar das ovelhas é o que a Bíblia ensina. No entanto, nestes dias, a coisa anda complicada. Os que deveriam cuidar das ovelhas, só olham para elas para saber quanta lã têm e como tosquiá-las! Mais que preocupadas com o bem-estar de suas ovelhas, preocupam-se em quanto elas podem render no faturamento.
Para se ter uma ideia da coisa, conto aqui alguns fatos verídicos, ocorridos há não muito tempo. Um casal jovem, com uns dois anos de casado, ele criado na igreja, ela não, decidem ir a quatro igrejas diferentes para saber em qual delas eles se sentiriam melhor para frequentar assiduamente. Depois das visitas, perguntei a eles o que haviam decidido. A resposta deles: nenhuma! Queremos uma Igreja é não um camelódromo onde o pastor vende de tudo, de Bíblia a CDs, passando por livros e camisetas. Nas outras ouvimos e cantamos alguns louvores e depois foi só pedido de dinheiro para pagar o programa de televisão, o telhado da Igreja, a ampliação do templo.
Em outra igreja, em Campinas, o animador de auditório que deveria ser o pregador e que se chama de pastor, contou que tinha ido visitar uma igreja em outra cidade e que, no meio do louvor, uma pessoa ficou endemoninhada. Foi trazida ao púlpito (prá mim era palco!). O pastor disse que aquele demônio pegava em crente não-dizimista. Depois de um salseiro, com direito à entrevista do demônio, o “pastor” disse: “vou mostrar o que o demônio faz com o dinheiro de quem não é dizimista”. Deu a ele uma nota de R$ 2,00 e a pessoa endemoninhada trucidou a nota, fazendo-a em pedaços. Veio o sermão sobre o não dar o dízimo: “o diabo destrói o que você ganhou, rasga, faz picadinho da sua vida e finanças, pense no como estão suas contas você que não é dizimista e você vai concordar comigo”.
Em seguida, pediu que os dizimistas da igreja (plateia) se identificassem e pediu que um deles trouxesse à frente uma nota, de preferência de R$ 100,00. Apareceu alguém. O “entrevistador de demônio” deu a nota ao endemoninhado e ele a beijou, colocou sobre o coração e cuidou dela com carinho. Lá veio a mensagem: “quando a pessoa é dizimista o demônio não tem o poder de destruir as finanças e o dinheiro, antes cuida dele com carinho”. Dou um picolé para quem disser que, em seguida, o animador de auditório fez a coleta das ofertas na igreja. Este “tristemunho” foi contado pelo animador-visitante, agora em sua igreja, para ali também “motivar os fiéis ao dízimo”.
Em outra igreja, também em Campinas, o arrecadador de plantão desafiava os presentes a ofertar R$ 1.000,00. Depois baixou para R$ 500,00, depois R$ 200,00. A esta altura uma senhora que a conheço muito bem e que estava em sérias penúrias, foi à frente. O arrecadador disse a ela em alto e bom som: “a irmã deposite aqui a sua oferta”. “Eu não o tenho, mas gostaria de poder contribuir e quero que o pastor ore por mim para que, da próxima vez ,eu possa vir à frente e entregar a oferta para a Igreja”. Ele, de público a ofendeu e a expulsou do palco.
Não são pastores: são tosquiadores de ovelhas, não importa quanta lã tenham para ser cortada. Cortam o que têm, nem que sejam fiapos!

Marcos Inhauser

quarta-feira, 29 de março de 2017

FALTAM PASTORES

Estou no pastorado há 44 anos. Já vi muita coisa, conheci pastores exemplares como foram o Joás Dias de Araujo, o Nephtali Vieira Junior, Naor Garcia entre outros. Há no pastorado, no dizer do Rev. Joás, um mistério. Eu acrescentava que é um mistério místico. Há uma mística na vocação, na imposição das mãos para a ordenação e no próprio desenvolver do ministério pastoral.
O pastorado é a vocação para o trabalho com pessoas, com tal intensidade e autoridade que pode e muitas vezes entra nos detalhes da vida pessoal e até íntima da vida dos fiéis. Não é só o pregar. Este é um dos trabalhos e talvez o de menos importância e de resultados comprovadamente baixos. Pergunte a uma pessoa na segunda-feira qual foi o tema do sermão pregado na igreja e certamente você escutará com muita frequência: “não lembro”.  OO aconselhamento pessoal, familiar, conjugal, a orientação de jovens e adolescentes, o ensino de valores éticos e morais, a confissão espontânea de pecados, a conversa onde as dúvidas bíblica e teológica surgem, o visitar enfermos, famílias, estar presente nos momentos marcantes da família e nos ritos de passagem, são alguns dos aspectos que diziam/dizem respeito ao trabalho pastoral.
Acontece que os tempos mudaram e a sociedade também. Já não é tão fácil visitar as famílias em suas casas, uma vez que muitas delas se encontram fechadas a maior parte do tempo. Lembro-me da primeira igreja que pastoreei nos Estados Unidos e que, ligando para os telefones dos membros, fazia um pastorado de secretária eletrônica. O que era uma celebração para muitos, hoje, o receber o pastor para uma visita pode ser um incômodo por ser o horário quando a família, que esteve separada durante todo o dia, tem agora para se reunir e conversar.
O trabalho do pastor como conselheiro foi cedendo espaço para os psicólogos, psicanalistas e outros profissionais. Antes não se exigia do pastor conhecimentos mais profundos sobre o ser humano e suas relações. Hoje precisa estudar várias linhas para poder fazer um trabalho significativo.
Os pastores pastoreavam comunidades onde ele conhecia a todos pelo nome. Era o pastor que sabia da vida de cada ovelha. Com o advento das mega-igrejas, os pastores perderam o contato pessoal com a membresia. De pastores passaram a ser animadores de auditórios, as suas congregações se transformaram em plateia, de doutrinadores passaram a ser motivadores. O evangelho do “cada um tome a sua cruz” foi banalizado, para um evangelho da graça barata, da vida cristã anônima, individualista, solitária. É a comunhão comigo mesmo. A membresia e fidelidade a uma congregação foi substituída pelo turismo eclesiástico. A participação fiel a uma congregação local foi trocada pelas igrejas de grife.
De doutrinadores, hoje muitos são apeladores (no mais negativo sentido da palavra). Vivem de fazer apelos para que os presentes contribuam acima do que haviam se disposto a fazer. Deixam de dar com alegria para serem contribuidores constrangido. Inventam símbolos, eventos, programas com o fim de “motivar” a contribuir.
O servo da comunidade se transformou e ganhou títulos pomposos de apóstolos e quejandas. O serviço anônimo ao próximo cedeu espaço ao tempo televisivo pago a peso de outro. O mistério místico do pastorado virou narcisismo midiático.
Faltam pastores. Sobram animadores de plateia, arrecadadores, show-men.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 22 de março de 2017

FALTAM LÍDERES

Acho que nunca se falou tanto em formar líderes, nunca se deu tanto treinamento nas empresas para capacitar líderes e nunca estivemos tão necessitados deles. No que se refere ao político, a coisa fica ainda mais feia.
Se se toma uma das premissas básicas da liderança que a de que o líder deve ser exemplo, dá para entender porque estamos faltos de liderança. Depois de Tancredo, tivemos uma sucessão de pessoas investidas na mais alta posição da nação, mas que não puderam ser exemplos. Com a morte do Tancredo, tivemos ascensão de um especialista em surf: vivia na crista da onda e assim ficou até que não mais conseguiu se eleger pelo estado onde nunca morou: o Amapá. Era a sua mentira pública. Outros atos e fatos conspurcaram-lhe a biografia e só foi exemplo para gente do senado e Câmara que aprendeu com eles as patranhas da política. Como legado deixou o Plano Cruzado e uma inflação astronômica.
Sucedido pelo nada exemplar Collor, com sua altivez e arrogância, aliado às maracutaias de seu tesoureiro, foi defenestrado e impedido de se eleger por oito anos. Voltou, mas vive período em que deve muitas explicações ao judiciário brasileiro.
No seu lugar subiu o Itamar Franco quem, não tendo sido eleito, teve um mandato que, se não teve acusações, também não teve o brilho que se espera de uma liderança. Sucedido por Fernando Henrique Cardoso que tinha o brilho do acadêmico, mas não tinha o carisma da liderança. Governou, nunca explicou muito bem como foram feitas as privatizações que, segundo um ministro do seu governo, raiaram à irresponsabilidade. Dava sono quando se dirigia à nação.
Veio o Lula e a Dilma e ambos não são exemplos de liderança. O primeiro o foi no primeiro mandato, mas perdeu a legitimidade com o mensalão e mais tarde com a Lava Jato. A Dilma também não é exemplo de liderança. Veio o Temer que de líder não tem nada. Pusilânime, volúvel, nunca se sabe o que pensa. Como disse uma jornalista, quando perguntada sobre qual o posicionamento dele sobre um assunto: “antes da última piscada de olhos dele, ele era a favor”.
Estamos entrando na reta para as eleições de 2018. Ao olhar ao redor e as candidaturas que estão sendo sugeridas ou pleiteadas, me leva à conclusão de que teremos um cenário desolador. Mais uma vez teremos que optar pelo menos pior. As opções do mundo político (Lula, Ciro Gomes, Alckmin, Serra) são farinha do mesmo saco. Com a exceção do Ciro (ainda), todos os demais têm suas explicações a dar na Lava Jato.
Das figuras que estão correndo por fora do páreo (Doria e Meirelles), a ambos lhes falta o carisma da liderança. Podem estar fazendo (talvez) algumas coisas, mas isto não é o suficiente. É verdade que precisamos de um bom administrador, mas no tipo de presidencialismo brasileiro, um presidente sem base parlamentar é transformar o governo em balcão de negociatas. Vide Collor, Dilma e Temer.
Uma reforma política significativa e estrutural é milagre que não vai acontecer. A propalada reforma eleitoral, se algo fizer, será cosmética. No andar da carruagem, as alterações visarão proteger com o foro privilegiado os que devem muitas explicações. Como a “carne é fraca”, fizeram merenda eleitoral com carne podre e carcaça de cabeça de porco. Nem ácido ascórbico salva.
Ao povo cabe clamar aos céus para que algo aconteça e um verdadeiro líder apareça. Que no frigorífico das eleições não haja carne podre. Está é a minha oração.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 15 de março de 2017

CRIMINOSOS COM O PODER DA CANETA

Há algo no ar que me inquieta. São sinais aparentemente contraditórios que, a meu ver, merecem ser melhor analisados. Não os mencionarei por ordem cronológica, mas segundo uma ordem própria.
O primeiro sinal é relacionado à soltura do goleiro Bruno, implicado no crime da modelo Eliza Samudio. O crime foi investigado, gente foi presa, condenada, o corpo nunca foi encontrado, ninguém confessou o crime, o delegado ganhou seus minutos de fama, a imprensa trabalhou e ganhou manchetes, Bruno foi condenado, cumpriu parte da pena, a sentença nunca foi julgada em segunda instância e o réu esteve preso sem sentença que justificasse sua prisão por tanto tempo. Acertada ou não a decisão do STF em soltá-lo, ele encontra emprego (coisa raríssima para um ex-presidiário), é aceito pelo Boa Esporte. É muita névoa para um só caso.
Mas a patrocinadora do clube, em função da decisão da Diretoria, decide retirar o patrocínio, o mesmo fazendo a Prefeitura Municipal de Varginha. A opinião popular julgando o acusado e sentenciando o que só a Justiça deve fazê-lo.
O segundo caso: o Ministério Público apresentou as denúncias de superfaturamento na construção de hospitais no Maranhão, onde mostra que há indícios, evidências e provas de uma quadrilha que ganhou milhões fraudando as licitações e recebendo um “fluxo de propinas” (palavras do delator) que ajudou nas campanhas eleitorais no estado. O juiz substituto que decidiu inocentar a ex-governadora e filha do “ilustre” José Sarney, não contente com a sentença estranha que exarou, ainda se deu a ensinar às mais altas cortes como se aplica o Código Penal.
No primeiro caso sem a prova de um corpo e sem a confissão de alguém, se juntaram evidências e coincidências e se condenou. No segundo caso, com as evidências, os comprovantes de fraude e superfaturamento e provas da transferência de recursos, o juiz absolve.
Causa-me estranheza a facilidade com que as cortes brasileiras, ao lidar com sobrenomes ilustres ou autoridades das três esferas, tem tido o cuidado de não ver provas que justifiquem a condenação e promovem a absolvição. Assim foi com a própria Roseana e o senador Lobão no STF, com o Renan no caso das Notas Fiscais frias que não foi visto como falsidade ideológica, o Collor no processo do impeachment, o deputado Russomano, para ficar em só alguns exemplos.
Agora temos os deputados e senadores denunciados pelas delações na Lava Jato, com a confissão de 77 executivos e os donos da construtora que afirmaram sob juramento que pagaram milhões a todos os partidos políticos. Como eles, deputados e senadores, têm o poder da caneta, movem-se nas sombras, como foi no dia que tentaram tal movimento quando do desastre da Chapecoense, e pretendem promulgar uma lei que anistie toda e qualquer contribuição feita para campanhas políticas. Com isto, todos os detentores de mandatos obtidos com vultosas somas de dinheiro empregado em suas campanhas, que alugaram seus mandatos para promover leis e medidas provisórias que beneficiassem os doadores de suas campanhas, os saqueadores dos Fundos de Previdência, os autorizadores de empréstimos vultosos via BNDES a empresas sabidamente inviáveis, sejam inocentados de todo e qualquer crime.
Doadores, saqueadores da Petrobrás e do erário, criminosas travestidos de empresários, os Cabrais da vida e suas viagens, contas e joias, O Vaccari, Duque, Zé Dirceu, Barusco, Youssef, e tantos outros, estariam de volta às ruas.
É hora de nós, os patrocinadores deste Esporte Clube do Colarinho Branco, retirarmos o patrocínio, condenarmos quem tenta tal crime de lesa-pátria, onde criminosos fazem as leis para benefício próprio. La atrás, alguém me ensinou que é crime quando se promulga uma lei com animus legendi, com o objetivo de culpar ou beneficiar uma pessoa ou grupo de pessoas específico. O princípio da impessoalidade será quebrado e a nação será afogada na lama, porque jogada nela já está.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 1 de março de 2017

QUARTA DE CINZAS NA LAVA JATO

É verdade que o uso litúrgico das cinzas como símbolo de arrependimento remonta aos tempos bíblicos. Podemos ver o uso delas no arrependimento em Ester, quando Mardoqueu se veste de saco e se cobre de cinzas ao saber do decreto de Asuero I (Xerxes, 485-464 AC, da Pérsia, que condenou à morte todos os judeus de seu império Est 4:1). Outro personagem, Jó, mostrou seu arrependimento vestindo-se de saco e cobrindo-se de cinzas (Jó 42:6). Daniel afirmou: "Volvi-me para o Senhor Deus a fim de dirigir-lhe uma oração de súplica, jejuando e me impondo o cilício e a cinza" (Dn 9:3). O povo de Nínive proclamou jejum a todos e se vestiram de saco, inclusive o Rei, que além de tudo levantou-se de seu trono e sentou sobre cinzas (Jn 3:5-6). São exemplos do Antigo Testamento que mostram a prática estabelecida de valer-se das cinzas como símbolo de arrependimento.
Jesus fez referência ao uso das cinzas: "Ai de ti, Corazaim! Ai de ti, Betsaida! Porque se tivessem sido feitos em Tiro e em Sidônia os milagres que foram feitos em vosso meio, há muito tempo elas teriam se arrependido sob o cilício e as cinzas. (Mt 11:21).
Por outro lado, as cinzas também são símbolo de algo que foi destruído, queimado, que virou pó. Elas são a evidência do aniquilamento. “Tudo virou cinzas” é uma expressão que denota derrota, impossibilidade de se recuperar ou ressuscitar.
Quando penso na quarta-feira de cinzas fico entre a cruz e a espada. Não sei se as cinzas, no caso do brasileiro, seriam símbolo de arrependimento ou de aniquilamento. Digo isto porque o Carnaval tem sido um evento nacional que vem ganhando contornos cada vez maiores a cada ano, e se tem explorado comercialmente as festas que em seu nome se realiza. Muitos cometem excessos de todos os gêneros e pode ser que, ao voltar à vida de trabalho e estudos, se arrependam dos excessos cometidos e por eles peçam perdão.
Por outro lado, talvez se deva pensar na quarta de cinzas como sinal de aniquilamento, vez que, a grande maioria que se esfalfou nos cinco dias, chega à quarta em frangalhos, feito cinza, porque a energia, a vitalidade e parte da saúde estão acabadas.
Mas o que realmente a nação gostaria de ver é uma confissão de pecado e arrependimentos dos políticos brasileiros, por atos de comissão e de omissão. Gente confessando que errou, que roubou, que montou esquemas e que viesse à luz, não numa delação premiada, mas em ato genuíno de arrependimento.
Gostaria de ver também os que, mesmo não tendo participado ativamente, mas que sabiam dos atos e nunca fizeram nada para impedi-los. Pecaram pela omissão!
Mas há mais um aspecto: a delação premiada. Para os que negociaram propinas, contratos, maracutaias, vantagens, esquemas, reeleições, na Delação Premiada continuam a fazer seus acordos espúrios: trocam a informação pela propina de uma sentença mais branda e curta, trocam a cela pela tornozeleira, pagam causídicos que, tal como os lavadores de dinheiro, somem com os rastros das suas operações. Advogados especializados em apagar rastros e trazer vantagens para os clientes, sendo a maior delas a liberdade o mais breve possível para que possam desfrutar do que amealharam.
A sentença reduzida é a propina para corruptos que fingem passar por uma cerimônia de arrependimento vestindo-se de cinzas!
Marcos Inhauser

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

COELET E O BRASIL

O escritor/pregador/sábio do livro de Eclesiastes, é assim chamado no hebraico. Determinar quem era ele é coisa quase impossível, ainda que muitos creiam ser Salomão, já velho, depressivo e desesperançado. Há no livro um refrão: “É ilusão, é ilusão, diz o Coelet. Tudo é ilusão. A gente gasta a vida trabalhando, se esforçando e afinal que vantagem leva em tudo isso? ... o mundo continua sempre o mesmo. O sol continua a nascer, e a se pôr, e volta ao seu lugar para começar tudo outra vez. O vento sopra para o sul, depois para o norte, dá voltas e mais voltas e acaba no mesmo lugar. Todos os rios correm para o mar, porém o mar não fica cheio. A água volta para onde nascem os rios, e tudo começa outra vez. Todas as coisas levam a gente ao cansaço—um cansaço tão grande, que nem dá para contar. ... O que aconteceu antes vai acontecer outra vez. O que foi feito antes será feito novamente. Não há nada de novo neste mundo.”
O Coelet me dá a garantia de que há uma espiritualidade da depressão ou da desesperança. E ando com ela estes dias, provocada e alimentada pelo noticiário político e policial brasileiro. Já me entusiasmei com alguma aparente novidade que a Lava Jato estaria trazendo, mas se considero as penas até aqui impostas, concluo que há premiação em ser criminoso e que o crime compensa. O Sérgio Machado está em prisão no palacete que tem em Fortaleza. O Delcídio passou um mês se esfalfando na praia, com direito a fotos no Facebook. O Paulo Roberto , o Yussef, o Cerveró, o Barusco, e outros mais já estão em casa.
Mas, a minha maior decepção tem sido o STF. Tenho ficado indignado, irritado e desesperançado com os narcisos do STF: Gilmar Mendes, Lewandovsky e Marco Aurélio. Não podem ver uma luz que pensam que é holofote e já saem a dar entrevistas e fazer afirmações enviesadas. Eles me dão a impressão que agem com a seguinte máxima: o que posso fazer/dizer que vai me colocar na mídia? Agora vem mais um para disputar as luzes: Alexandre de Moraes.
Outro que tem me decepcionado é o tal do decano. Por ser o mais antigo eu esperava, que fosse mais sensato e menos dado a malabarismos. Qual o quê. O Celso de Mello atravessou alinha da sensatez ao dar o voto no caso da linha sucessória (o caso em que o Renan seria impedido de assumir a presidência), dizendo que ele estaria impedido, mas que continuaria na Presidência do Senado. Uma decisão salomônica: cortou o filho ao meio! Depois, quando teve que julgar o foro privilegiado do Moreira Franco, contrariando o que já havia sido decidido anteriormente sobre o caso Lula, elaborou uma sentença rococó, que exigiu a ciência da hermenêutica jurídica para entender o que disse e no final, decidiu mantê-lo no cargo, mas passível de deliberação pelo plenário do STF. Outra decisão salomônica!
Morreu o Teori Zavaski. Ainda fico me perguntando como uma figura do naipe dele, com a importância que tinha no cenário brasileiro, se mete a viajar em um avião de um amigo, com duas desconhecidas, para ir a uma cidade cujo aeroporto não tem aparelhagem adequada. No lugar dele o sorumbático/errático presidente nomeia a pessoa que se encarregou de colocar na cadeia quem chantageou a esposa. É o exercício da gratidão! Um futuro ministro do STF galgado pelo agradecimento.
Para não me delongar mais, a sabatina do Alexandre de Moraes no Senado, em uma CCJ presidida pelo monge das virtudes políticas, enrolado até ao pescoço em denúncias várias, com a parceria de seus filhos, é uma encenação. As cartas estão marcadas. Vão perguntar o óbvio, ele vai responder como querem ouvir, receberá os elogios dos sabatinadores e as críticas de uns poucos, para dar a aparência de democracia.
Concluo com o Coelet: “Todas as coisas levam a gente ao cansaço—um cansaço tão grande, que nem dá para contar. ... O que aconteceu antes vai acontecer outra vez.” E está acontecendo hoje.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

PALAVRA DESUMANA

Com algumas exceções, por que elas sempre existem, houve certo consenso em recriminar mensagens, postagens, memes, teorias de conspiração e manifestações animosas quando da enfermidade da sra. Marisa Letícia. Causou indignação e muita gente de bem, independentemente da predileção ou partido político que tivesse censurou as manifestações. Também vi manifestações de religiosos condenando tais postagens e afirmando tratar-se de comportamento execrável.
Nos mesmos dias em que isto se dava, por uma prática que adotamos na Igreja da Irmandade de estudar um livro da Bíblia em sequência e lermos os Salmos também em sua sequência numérica, estive lendo alguns salmos entre o 40 e o 48 e fiquei pasmo com algumas afirmações neles constante. Pesquisei um pouco mais e cito aqui alguns trechos dos salmos: “Sobrevenha-lhes inesperadamente a destruição, e prenda-os o laço que ocultaram; caiam eles nessa mesma destruição”” (35:8); “Os ímpios têm puxado da espada e têm entesado o arco, para derrubarem o poder e necessitado, e para matarem os que são retos no seu caminho. Mas a sua espada lhes entrará no coração, e os seus arcos quebrados. Mais vale o pouco que o justo tem, do que as riquezas de muitos ímpios. Pois os braços dos ímpios serão quebrados” (37:14-17); “Deus meu! pois tu feres no queixo todos os meus inimigos; quebras os dentes aos ímpios”. (3:7); “Deus afiará a sua espada; armado e teso está o seu arco; já preparou armas mortíferas, fazendo suas setas inflamadas. Eis que o mau está com dores de perversidade; concedeu a malvadez, e dará à luz a falsidade. Abre uma cova, aprofundando-a, e cai na cova que fez. A sua malvadez recairá sobre a sua cabeça, e a sua violência descerá sobre o seu crânio.” (7:12-16); “Ah! filha de Babilônia, devastadora; feliz aquele que te retribuir consoante nos fizeste a nós;  feliz aquele que pegar em teus pequeninos e der com eles nas pedra” (137:8-9); “Ó Deus, quebra-lhes os dentes na sua boca; arranca, Senhor, os caninos aos filhos dos leões. Sumam-se como águas que se escoam; sejam pisados e murcham como a relva macia. Sejam como a lesma que se derrete e se vai; como o aborto de mulher, que nunca viu o sol. Que ele arrebate os espinheiros antes que cheguem a aquecer as vossas panelas, assim os verdes, como os que estão ardendo. O justo se alegrará quando vir a vingança; lavará os seus pés no sangue do ímpio”. (58:6-7)
Diante destes textos fico com a pergunta: é justo regozijar-se com a desgraça do inimigo ou daqueles que nos causaram problemas? Quando vejo pessoas que defendem a ferro e fogo e inerrância e infalibilidade das Escrituras e que tudo nela é Palavra de Deus, e ao mesmo recriminam o que foi dito da Marisa Letícia, acho que há profunda incoerência, pois o salmista nos ensina a fazê-lo. Se os Salmos são Palavra de Deus e regra de fé e prática, quem ironizou, zombou ou fez chacota da enfermidade da Marisa Letícia, teve comportamento bíblico. Ou seriam estes textos exemplos de comportamentos humanos e que se tornaram clássicos porque muita gente se vê neles e no desejo de ver a ruína do malfeitor? Não faz parte do DNA humano se alegrar com a desgraça do inimigo?
No que pese o fato de ser isto algo muito humano, não significa que é aceitável, nem mesmo nos salmistas. Devemos condenar suas palavras e desejos, da mesma forma como criticamos quem postou as mensagens. E acima de tudo, devemos condenar em nós mesmos os desejos de vingança e prazer na desgraça alheia.
Marcos Inhauser



quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

PALAVRA DE DEUS OU HUMANA?

A posição clássica e ortodoxa é afirmar que “toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino...”. Por “toda a Escritura” os protestantes e os que neles tem alguma raiz histórica e/ou teológica (batistas, metodistas, pentecostais) vão afirmar tratar-se de todos os livros que fazem parte do cânon bíblico aceito pelas igrejas chamadas de “evangélicas”. Já para os católicos, para os que creem na inspiração plenária das Escrituras, muito provavelmente acrescentarão os livros chamados de deutero-canônicos.
Há, no entanto, um senão nesta postura. Trata-se dos livros dos Salmos e Lamentações de Jeremias. A análise criteriosa deles nos fará perceber que, antes de serem palavra de Deus dirigida aos homens (tal como ocorre nos profetas, por exemplo), trata-se de palavra humana dirigida a Deus.
A grande maioria dos Salmos são orações humanas dirigidas a Deus na forma de pedido, lamentação, louvor, imprecação, etc. Não são strictu sensu Palavra de Deus, mas palavra para Deus, ainda que haja trechos em que explicitamente se afirma ser Deus falando. Da mesma forma as Lamentações de Jeremias. Trata-se de uma coleção de orações, lamentos, falas de arrependimento, que nascem da boca do profeta e são dirigidas a Deus.
A tomada de consciência deste fator é de profunda importância, porque muitos há que, lendo algo que era uma aspiração ou desejo do orador, o transformam em promessa de Deus. Cito o Salmo 23: “O SENHOR é o meu pastor; nada me faltará. Ele me faz repousar em pastos verdejantes. Leva-me para junto das águas de descanso; refrigera-me a alma. Guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome. Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo; o teu bordão e o teu cajado me consolam. Preparas-me uma mesa na presença dos meus adversários, unges-me a cabeça com óleo; o meu cálice transborda. Bondade e misericórdia certamente me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na Casa do SENHOR para todo o sempre.”
Note-se que não há nele uma única menção a algo que Deus fala ou promete, antes é a fala do salmista. É uma oração de confiança na provisão e cuidado divinos, mas não é promessa de Deus de que ele fará o que ali está escrito. É um desejo humano e não uma promessa divina.
De igual forma se deve tomar o Salmo 37. Não se trata de promessas, mas de aspiração, de confiança. Neste caso, muito mais de exortação à confiança no Senhor: “Não te indignes por causa dos malfeitores, nem tenhas inveja dos que praticam a iniquidade. Pois eles dentro em breve definharão como a relva e murcharão como a erva verde. Confia no SENHOR e faze o bem; habita na terra e alimenta-te da verdade. Agrada-te do SENHOR, e ele satisfará os desejos do teu coração. Entrega o teu caminho ao SENHOR, confia nele, e o mais ele fará. Fará sobressair a tua justiça como a luz e o teu direito, como o sol ao meio-dia. Descansa no SENHOR e espera nele, não te irrites por causa do homem que prospera em seu caminho, por causa do que leva a cabo os seus maus desígnios. Deixa a ira, abandona o furor; não te impacientes; certamente, isso acabará mal. Porque os malfeitores serão exterminados, mas os que esperam no SENHOR.”
Por não perceberem isto, muitos há que prometem o que Deus não prometeu. Conheço muita gente que teve o Senhor como seu pastor, mas que passou por dificuldades e não teve pastos verdejantes e nem água tranquila. Outros que confiaram no Senhor e a Ele se entregaram e nem por isto todos os seus desejos foram satisfeitos.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

A TEOLOGIA DOS SEM-PODER

Quando se olha para os textos bíblicos que compõem o Antigo Testamento, pode-se fazê-lo de duas óticas: a tradicionalista e a instrumentalizada. Pela primeira, nos impingem premissas que a tradição repete até que pareça ser verdade. Exemplo disto é afirmar que os cinco primeiros livros da Bíblia, o Pentateuco, foram escritos por Moisés; que Isaías pertencia à corte; que a maior parte dos Salmos foram escritos pelo rei Davi, que Habacuque era sacerdote; Samuel é o autor dos livros a ele atribuídos, etc. Percebe-se uma nítida tendência de atribuir a autoria dos textos a personalidades do mundo antigo, gente ligada à corte (Moisés, Davi e Isaías), ou ao templo (Habacuque e Samuel).
A leitura instrumentalizada pelas descobertas arqueológicas, pelos fragmentos de escritos tanto em cerâmicas como pedras e papiros, desenhos feitos em cavernas ou nos palácios, a história comparada, a análise dos estilos e o vocabulário empregado nos escritos vários, mostram que a autoria dos textos bíblicos é bem mais complicada e difícil de se precisar. Já perguntei a muita gente que defende a autoria mosaica do pentateuco como poderia ter Moisés escrito em hebraico lá pelo século XIII aC, se os mais antigos textos com alguma palavra que talvez se possa atribuir ao hebraico são datadas no século X? Teria ele escrito em uma língua ainda inexistente? Um dos defensores, diante da pergunta, me respondeu que o “Espírito Santo o capacitou com o dom de uma língua que um dia apareceria”. Por que não se atribui nenhum trecho à autoria de uma mulher, mesmo que se tenha o cântico de Rebeca? Poderia um homem escrever com a fineza e a qualidade dos sentimentos femininos que estão presentes na história de Sara e Hagar e especialmente no encontro desta última com um anjo que a manda de volta para a casa de Abraão?
Como pôde Davi escrever tantos salmos para serem cantados no templo se em seu tempo ele não existia e, mesmo que quisesse construí-lo, foi seu filho, Salomão, que o construiu? Como podia ter dados ordens para se cantar com a melodia tal ou ao som de oitava, se o serviço religioso foi estabelecido mais tarde?
Quando se examina com mais imparcialidade e menos fervor religioso pré-concebido, percebe-se que o Antigo Testamento é uma coletânea de textos, escrito por uma multidão de autores que transmitiram o que ouviram e viram milhares de vezes, ao ponto de se tornar um texto de produção coletiva. A teologia do Antigo Testamento foi obra de um trabalho comunitário, de uma hermenêutica nacional, contando e recontando suas histórias e adaptando-as a cada momento que viviam. A fixação por escrito dos relatos orais se deu tardiamente. Exemplo disto é o livro de Jó, hoje reconhecida por muitos como obra teatral e não relato histórico sobre um personagem real. Em Jó estamos todos os que sofremos, que perdemos bens e família, que fomos falsamente consolados pelos amigos, que fomos acusados por quem nos dizia que nos queria ajudar.
Pela quantidade de denúncias que os textos fazem dos governantes e sacerdotes, da corrupção reinante nos juízos que exploravam e tomavam as propriedades aos mais pobres, pode-se concluir, com grande margem de acerto, que os que transmitiam oralmente as mensagens, especialmente as proféticas, e quem as redigiu, não era gente da corte, do templo ou dos tribunais. Era gente que estava sofrendo as agruras e que via nas mensagens a sua voz e angústia expressadas.
Tudo leva a crer que a teologia do Antigo Testamento é a feita pelos sem-poder, sem-notoriedade, gente sofrida, explorada, escravizada. Por isto, e com propriedade, é que se diz que a Bíblia é a memória dos pobres.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

QUEM VOS FASCINOU?

O apóstolo Paulo fez três viagens missionárias e, ao que tudo indica e os estudiosos apontam, visitou a região da Galácia nas três viagens. Definir os limites de tal região é algo que tem suscitado controvérsias e não tenho aqui espaço para isto. O que se sabe é que, na região da Galácia, especialmente nas cidades de Icônio, Listra e Derbe, ele teve atuação que marcou a sua forma de entender o evangelho e nelas estabeleceu comunidades cristãs.
Tudo indica que os Gálatas praticavam uma forma de politeísmo romano-céltico, comum em outras terras célticas e ali Paulo pregou o seu evangelho da graça, livre dos preceitos legalistas dos judaizantes ou das religiões de mérito, onde o fiel recebe segundo suas ações. Dá-me a impressão que Paulo se dedicou de corpo e alma a esta tarefa e acreditou piamente que os gálatas tinham entendido o evangelho da graça e que viveriam pela graça.
No entanto, na carta que escreve às igrejas, percebe-se um tom de frustração e indignação. Em nenhuma outra missiva ele foi tão duro e contundente quanto o foi ao escrever a estas igrejas. O texto, no seu início, tem uma advertência dura e defesa clara do evangelho de Cristo. Nota-se uma brusca ruptura entre a saudação inicial (Gl 1,5) e o texto seguinte (Gl 1,6) que mostra o estado de humor do autor e sua decepção com os gálatas. Ela difere das outras cartas onde, à saudação inicial, segue-se ação de graças e elogios. Tal era sua indignação e certeza do que lhes havia pregado que afirma: “... ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema. ... se alguém vos prega evangelho que vá além daquele que recebestes, seja anátema. ... Faço-vos, porém, ... que o evangelho por mim anunciado não é segundo o homem, porque eu não o recebi, nem o aprendi de homem algum, mas mediante revelação de Jesus Cristo.”
Dada a seriedade e a certeza do que havia pregado, dada a esperança de que a graça prosperaria no seio destas comunidades, Paulo se decepciona amargamente e escreve: “Ó gálatas insensatos! Quem vos fascinou a vós outros, ante cujos olhos foi Jesus Cristo exposto como crucificado? Quero apenas saber isto de vós: recebestes o Espírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé? Sois assim insensatos que, tendo começado no Espírito, estejais, agora, vos aperfeiçoando na carne?”
Esta carta me leva constantemente à pergunta: por que é tão difícil para os cristãos viver a graça? Por que, mesmo sendo instruídos nela, preferem, pregadores de méritos, do Deus que dá segundo o seu dízimo, que prometem o milagre, a cura, a posse, como se senhores de Deus fossem, dando-lhe ordens? Por que é mais fácil acreditar que foi a fé que imaginam ter o que causou a benção, do que acreditar que a dádiva foi presente imerecido?
Por que, pessoas que viveram certo tempo em uma comunidade onde a graça é ensinada, acreditam que seu filho, genro, marido, vizinho, amigo só se converterão se forem para outra igreja, onde a “des-graça” é pregada, onde a salvação vem pela obediência, e a “graça” exige a aceitação de uma decisão?
Por que pregar a graça é cair em desgraça diante dos pregadores de milagres e arrecadadores contumazes? Por que pregar a graça é ser acusado de incentivar a licenciosidade e o anarquismo religioso?
Na Sua infinita graça, Deus permitiu que houvesse no Novo Testamento uma carta para nos alertar que os pregadores de certezas e de recompensas segundo as boas ações devem ser anatematizados, amaldiçoados! Não sou eu quem o diz. Reclamem com o apóstolo Paulo e com o Espírito Santo!

Marcos Inhauser

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

DOIS CAMINHOS

No emaranhado das teologias, com tantas interpretações, não é fácil entender a essência dos posicionamentos. No desejo de explicitar as coisas, apresento este esboço, resumindo as teologias a duas linhas fundamentais: a teologia do mérito e a da graça.
A do mérito também pode ser descrita como sinérgica ou da justiça retributiva. A palavra “sinérgica” vem do grego “syn”+”erga” = trabalho conjunto. Esta teologia trabalha com o conceito do mérito: a pessoa recebe de Deus o que ela merece. Se praticar o bem, recebe a benção. Se praticar o mal, recebe de Deus o castigo.
Frases características desta linha de pensar são: “Se sou fiel no dízimo, Deus vai aumentar meu salário”; “se sou fiel, não vou ficar doente”; “Deus levou em conta a minha fé”; “Deus me curou porque minha fé é muito grande”; “Deus me deu o emprego porque jejuei três dias”; “aquele que é fiel, praga nenhuma o atingira´”.
As consequências lógicas e práticas deste pensamento é que Deus não é onipotente porque obrigado a retribuir as ações humanas. Deus passa a ser previsível: só responde às ações humanas. Por consequência, Deus pode ser manipulado, porque se consegue que Ele atue em retribuição às ações boas ou más. A salvação não depende de Deus, nem de Cristo, mas das obras feitas para merecê-la, deixando de ser dádiva ou presente para ser pagamento pelo comportamento exemplar que se teve. O juízo final será a pesagem de ações boas e más e, dependendo do resultado desta balança, vai-se para o céu ou o inferno. Como juiz, Deus sentencia cada um de acordo com suas obras. Assim, deixa de ser salvador e se transforma em juiz, deixa de ser amor e passa a ser justiça.
Ela promove o egoísmo: “eu som bom e por isto Deus me abençoa”. Promove a competição e a jactância: “orei tantas horas”; “oro todos os dias, três vezes ao dia”; “li X vezes a Bíblia inteira”; “nunca faltei a um trabalho da igreja”; “Deus vai me responder, porque acredito muito nEle, minha fé é muito grande”. Os cultos se transformam em palcos para a atuação de narcisos: gente que vai à igreja para mostrar quão bons eles são. Ávidos para fazer um solo, orar em voz alta, dar testemunho, contar uma benção. Cacarejam o quanto Deus os está abençoando porque são merecedores. Fazem um rosário de “testemunhos”, cada qual querendo mostrar que é mais merecedor das bênçãos de Deus.
A outra teologia é a da graça que é o agir espontâneo de Deus, aquilo que Ele faz sem que nada o motive ou obrigue a fazê-lo. A graça é o agir surpreendente de Deus, porque nunca previsível: nunca ninguém poderá dizer que a graça vai se manifestar! Ela está definida no texto de João: o vento sopra, não sabes de onde vem, nem para onde vai. A graça não pede licença, nem retribuição ou mesmo um “obrigado”. A graça atropela! Faz mais do que imaginamos ou pedimos! Ela arregaça com os parâmetros da justiça humana, porque ilógica! A graça não precisa de “estrelas televisivas do mundo gospel” para se manifestar, ainda que, se quiser, pode usá-las! Não há poço tão profundo que a graça não possa alcançar! Não há trevas tão escuras que a graça não ilumine!
A graça não é resposta às orações feitas. A graça vem de onde menos se espera! Muda o caos em ordem, a briga em harmonia, a crise me abundância! A graça tapa a boca de pregadores presunçosos! Destrona os que se acham porta-vozes de Deus! Ela exalta o humilde, o órfão, a viúva, o enfermo! A graça visita leitos de doentes terminais!
Marcos Inhauser

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

ELE FARIA 102 ANOS

Meu sogro, que foi um pai para mim, completaria nesta semana, se vivo estivesse, 102 anos de vida. Parece que não entendia porque se dá tanta importância às datas redondas (50, 100, 150, etc.). Certa feita, vendo uma reportagem sobre os 500 anos de algo ele me perguntou se 500 era diferente de 499 anos ou 501 anos. Podia ter escrito algo sobre ele quando faria 100 anos, mas, por respeito a isto, deixei para mais tarde.
Ele era uma pessoa especial. Tão especial que quero transcrever aqui o que recebi de uma jovem da Igreja Menonita, que ele frequentava. Seu nome é May Euzébio.
“No primeiro domingo do mês é sempre o domingo de celebrar a ceia na Igreja que frequento. Um momento simbólico, onde juntos tomamos o cálice de suco de uva, no lugar do vinho, e repartimos o pão, símbolos do sangue e corpo de Cristo, vertido e partido por todos nós.
Hoje, durante essa celebração, algo diferente me ocorreu. Eu segurava o cálice e o pão, e os olhava de uma forma como há muito não olhava. Meu coração encheu-se de uma nostalgia, de forma que cada recanto de mim foi inundado de saudade. A saudade tinha nome: "Seu Leone”. Descobri que meu olhar naquele momento era aquele com o qual eu olhava para a Ceia quando criança. Era o olhar novamente de uma criança!
Lembrei-me de que, quando pequena, após a Ceia dos adultos, as crianças eram convidadas a ir ao salão social da Igreja, aprender sobre a Santa Ceia e participar de uma forma simbólica. Foi deste jeito que, desde criança, ouvi sobre o sacrifício de amor incrível que Jesus fez por mim.
Seu Leone foi o primeiro, e por muito tempo o único, a levar as crianças para a Ceia, explicar cada elemento, cada significado e, com muito amor, orar por todos nós. Quanta gratidão, senti hoje ao tomar a Santa Ceia! Como foi importante para mim, ouvir na minha infância, sobre o sacrifício de amor do meu Jesus!
Foi aquele senhorzinho, humilde e dono de uma alma linda que, por tanto amor à Palavra e aos pequeninos da Igreja, me permitiu conhecer e experimentar o amor do nosso Deus. Quanta gratidão eu senti por aquele homem! Quanta vontade de abraçá-lo e agradecê-lo. Hoje ele descansa nos braços do Pai. O que pude fazer foi fechar meus olhos, diante do pão e do cálice, e agradecer com todo o meu ser, sabendo que a Eternidade me espera, e que um dia eu poderei dizer tudo isso olhando nos olhos tão amorosos do "Seu" Leone.” (May Euzébio)
Ele nunca pediu autorização para fazer isto. Não acredito que a igreja o tenha autorizado, mesmo porque ele o fazia de forma tão espontânea e sincera que seria crueldade impedi-lo.
Eu também sinto saudades dele. Muitas vezes, quando nos sentamos à mesa no espaço da casa que era sua cozinha, lembro da música: “nesta mesa está faltando ele e a saudade dele está doendo em mim”. Saudades das suas piadas, do seu jeito meigo e às vezes duro, saudades das gozações que fazia com ele porque era são-paulino e eu corintiano. Saudades de uma pessoa especial e que soube ser especial para mim e para muito mais gente.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

ESPERANÇA SOLIDÁRIA

Se há uma coisa que todos temos na virada deste ano é a esperança. É verdade que toda regra tem sua exceção e a chacina em Campinas foi a ação de um desesperançado.
Depois de um ano cheio de sobressaltos e apertos, muita gente querida morrendo, nada mais lógico e natural que querer de que este novo ano nos dê a esperança de que será melhor. No entanto, a esperança é subversiva. Ela faz uma crítica ao presente e pensa o amanhã diferente. Ao questionar o presente, os que dele tiram seu proveito, especialmente pelas vias escusas da propina e corrupção, se sentem ameaçados. Usam dos meios que dispõem para preservar o status quo, seja promulgando leis que só atendem aos seus interesses ou prolatando sentenças monocromáticas que permitem a um preso sair da cadeia para tomar posse como prefeito ou vereador.
Se a sociedade permanece alienada e não reage a estas situações, por melhores e mais bem fundadas que sejam suas esperanças, elas se tornarão em desesperança a curto prazo. Para que a esperança prospere, temos que levar em conta que os atos de esperança não estão fundados na análise dos passos pretéritos, no que fiz ou fizemos ontem. O que move para a concretização é a visão do futuro, a qual gera a dinâmica de atuação no presente. É a u-topós que se busca, no melhor sentido do ainda-não-dado, a utopia.
Por paradoxal que possa parecer, são os que mais sentiram a desesperança os que têm maior força e vitalidade na construção da esperança. Ela não é construída pelos que estão acomodados com o presente, pelos abonados ou alienados. Só os que sentiram na carne a fome, a injustiça, a opressão, a malandragem, a extorsão, podem dar musculatura e ossos à esperança. Conservadores não têm esperança porque ela é o amanhã e eles só querem preservar o hoje. Conservadores estão contentes com o que têm, mas os desesperançados não querem continuar a viver nesta condição. Daí a semente da esperança e da u-topia.
A esperança nasce do discurso que contagia. Não pode ser solitária, mas coletiva e a transformação do solitário em coletivo se dá pela pregação do sonho. Só sonhamos o amanhã quando, ao trocar ideias sobre o presente e analisar em conjunto, em um processo de hermenêutica comunitária do presente, nos damos conta de que precisa ser mudado e o amanhã sonhado e construído. Esperança solitária é planta que nasce e morre com o primeiro sol. A esperança solidária é árvore que sobrevive às intempéries.
A esperança solidária é dinâmica na medida em que é processual, porque é construída na caminhada. Uma esperança rígida nos seus detalhes é suicida. Talvez este tenha sido o erro de Marx e muitos marxistas. O futuro tinha que ser só do jeito que sonharam.
Um dos problemas com os cristãos é que eles têm sua esperança engessada: sabem com detalhes como será o amanhã, se há tribulação antes, no meio ou depois, se vão viver no céu ou na Jerusalém celestial, se vão reconhecer amigos na eternidade, se vão cantar hinos ou morar em palacetes. A esperança de muitos é “sair-deste-mundo”, mas se esquecem que o mandato de Jesus é “ir-ao-mundo” para ser sal da terra e luz do mundo. Na oração do Pai Nosso nos ensinou a pedir “venha o Teu reino”, mas muitos oram “leva-me para o Teu Reino”.
Como cristãos vivemos entre-mundos: o paraíso perdido e a morada futura. Voltar ao passado é suicídio, porque impossível. Viver o presente é suicídio porque opressivo e injusto. Sonhar e construir o futuro, mudando hoje a mim e ao meu entorno é vida. Não haverá amanhã se todos os dias continuo igual.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

DETESTO FINAL DE ANO

Nunca acreditei na mágica que a passagem de 31 de dezembro para 01 de janeiro tivesse o condão de mudar as coisas. Também nunca acreditei que pular sete ondas, vestir-se de branco, tomar champanhe, abraçar amigos e desejar e receber os desejos de um feliz ano novo tivessem a capacidade de alterar os fatos e a trajetória da história. Se quantidade de ano próspero fizesse alguma coisa, teria a fortuna de um ex-presidente!
Posso parecer meio fatalista, mas eu me acho mais realista que fatalista.
Creio, no entanto, que a nossa vida e estrutura mental precisam de descansos em intervalos regulares, bem assim de recomeços, como para alimentar a possibilidade de se fazer as coisas de forma diferente para se ter a coisa diferente.
Mas o que mais me entendia nos finais de anos é a mesmice: programas de televisão abusam das retrospectivas, bem assim as rádios e revistas. Os jornais também não fogem à regra de recontar o que aconteceu. E lá vem o desfilar das mesmas coisas vistas durante o ano e agora revistas em tudo quanto é canto. Todo final de ano é o show do Roberto Carlos, cantando as mesmas músicas, as mesmas notícias da queima de fogos em todas as partes e gente saltando de alegria, embalados etilicamente.
Também me irrita a profusão de futurólogos, sejam eles que nome tenham. No que pese a quantidade de desatinos que já disseram e a ínfima margem de acerto que alguns tiveram (por pura sorte e nunca por premonição), estão os tarólogos, astrólogos, leitores de mapas astrais, de planilhas eletrônicas, dedados das bolsas,videntes, leitores dos búzios e quejandas. Cada qual fala o que quer, adequada à audiência. No planejamento das “vidências” sempre trazem a morte de um famoso ou a vitória disto ou daquilo, mas nunca o fazem de forma explícita, mas em linguagem hermética, monossilábica, possível de várias interpretações. É a revelação elada para que cada qual entenda como quiser e todos se sintam revelados. E se estabelece a competição entre os videntes para saber quem vai dizer a coisa mais espetaculosa. Babaquices que a mídia amplifica nos finais de ano.
Outra classe de videntes, estes com ares de profissionais da exatidão, são os economistas. Entra ano, sai ano e eles chutam mais que centroavante de time de fazenda. Como poucos vão se dar ao trabalho de, hoje, verificar o que disseram lá em 2015, se sentem no direito e dever de continuar chutando seus números e cálculos. Impressiona-me a precisão deles: a inflação será de 4,07, e não 4,08 como estão dizendo! O dólar, em dezembro de 2017 estará na casa dos R$ 3,48897! O crescimento do PIB será 0,002 superior ao que espera o Banco Central!
Incluo aqui os comentaristas de esportes, notadamente os de futebol. Antes mesmo de saber quem vai jogar em qual time, quais as condições desta ou daquela equipe, já afirmam categoricamente que o time X é forte candidato ao título. Quem é forte candidato ao título de embusteiro midiático são estes comentaristas-videntes.
Depois de um 2016 ciclotímico, que nos deu alegrais e depressões no mesmo dia, que prendeu gente que queríamos ver presas e deixou corrupto desobedecer ordem judicial sem nada acontecer, nada mais lógico que os políticos, notadamente o Temer, venham dizer que 2017 será melhor. Todos queremos que melhore. Mas melhorará se colocarmos a mão na massa, trabalharmos e apoiarmos quem anda dando um basta à corrupção. Não se precisa de videntes ou economistas para isto!
Marcos Inhauser

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

DO CRISTO NASCIDO AO PREGADO

Para quem não é fundamentalista não é difícil aceitar que os evangelhos não são diários da vida de Jesus, ao estilo de notícia de jornal, nem mesmo uma narrativa feita com o correr dos dias. Sabe-se hoje (com muita probabilidade de acerto) que nem mesmo circulou um relato escrito sobre a vida e milagres de Jesus enquanto o mesmo viveu. Aceita-se hoje que houve dois documentos que serviram de base para os evangelhos: a Logia Jesu e o Proto-Marcos, a primeira contendo as frases de Jesus e o segundo os milagres. Estes dois serviram de consulta e material para que Marcos escrevesse seu evangelho, que foi o primeiro a ser escrito. Baseado em Marcos, Logia e Proto-Marcos, Mateus e Lucas escreveram os seus relatos.
No entanto há uma coisa comum a todos os evangelhos e a toda a teologia neotestamentária: Jesus nasceu e viveu sem pompa, sem alarde, de forma humilde, filho de família pobre, que trabalhava arduamente para seu sustento, como era comum em um país dominado pelo império. No dizer de Jesus, ele não tinha onde reclinar sua cabeça. Viveu das ofertas dadas e guardadas sob a custódia de Judas, que se mostrou um ladrão. Para a última Ceia teve um local emprestado. Para sua sepultura, teve um túmulo cedido porque sua família não o tinha.
Comeu com pecadores e foi criticado por isto. Recebeu prostitutas e coletores de impostos, mas, ao que se saiba, nunca disseram que os apoiava ou deles recebia algo. Quem lhe prometeu prosperidade foi aquele que, na tentação, lhe disse: “Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares” (Mt 4:9). Ele mesmo nunca prometeu riquezas, antes, pelo contrário, disse que “neste mundo teríamos aflições”. Não prometeu sucesso, mesmo porque o discipulado é custoso.
Nunca se soube que tenha recebido uma oferta de R$ 100.000,00 por uma oração feita, nem que tenha feito ou publicado algo para vender como forma de arrecadação para seu ministério. Quando foi preso, não teve um ataque histérico dizendo que era malandragem, molecagem, nem falou pelos cotovelos. Diante de Pilatos e de sua pergunta, se limitou a dizer; “tu o dizes”, ainda que a afirmação fosse verdadeira. “Como ovelha muda foi levado ao matadouro”, para usar as palavras do profeta Isaias.
Não era afeito às multidões, antes buscava o lugar ermo, solitário. É verdade que teve multidões para ouvi-lo, não porque fizesse campanhas, cruzadas, novenas ou semana da oração milagrosa. Não frequentou palácios, nem mesmo para orar pelos governantes. Esteve em um momento político e econômico delicado para a nação de Israel, mas, com exceção da frase “diga àquela raposa que eu expulso demônios” dirigida a Herodes, não foi sua pregação eivada de crítica ou de propostas salvadoras. Sua vida era uma mensagem porque vivida com o povo, atendendo suas necessidades e não voando em jatos particulares, frequentando sets de televisão ou debaixo de holofotes. Não foi amigo de poderosos, nem mesmo do sumo sacerdote ou outros religiosos. Antes denunciou a prática religiosa deles e dos fariseus, escribas e doutores da lei.
Não aceitou o título de Mestre, Rabi ou seja lá o que for. A si mesmo se chamou de Filho do homem, um título mais para pejorativo que para elogioso.
Nasceu na manjedoura e morreu na cruz. Viveu sem ter onde reclinar a cabeça. Foi acusado injustamente e não se defendeu histrionicamente.
Neste Advento, que esta humildade, singeleza, desprovimento, nos dê parâmetros para avaliar o que anda acontecendo no universo religioso brasileiro e para vivermos o seu ensinamento: “amarás ao Senhor teu Deus sobre todas as coisas e ao teu próximo como a ti mesmo”.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

PMDBrecht

Uma empresa é composta de uma diretoria e alguns departamentos, tais como comercial, financeiro e operacional. No caso de uma construtora, há ainda o de engenharia e um de execução das obras contratadas. Os nomes para estes departamentos podem variar e a quantidade pode aumentar, à medida que os negócios evoluem. No caso de uma construtora com obras em outros países, espera-se que haja um departamento dedicado às obras em solo nacional e outro que cuide das obras no exterior.
Nas recentes revelações sobre o funcionamento da Odebrecht, não só havia os que acima mencionei (os nomes podem variar), mas, sabe-se que havia um Departamento de Operações Estruturadas, nome pomposo para o departamento que cuidava de azeitar a máquina, pagando propina aos mais diferentes agentes públicos. Para nós que estamos de fora das investigações e nos inteiramos dos fatos à medida que são trazidos à tona pela mídia, já estávamos assustados e pasmos com a facilidade com que a empresa destinava milhões para este ou aquele político.
Com a revelação de que 77 executivos e ex-funcionários da empresa estavam firmando uma delação premiada, confesso que me assustei e me perguntei: como pode ter 77 altos funcionários na maracutaia? Era este o valor maior da empresa: negócios conseguidos via azeitadas milionárias?
No final da semana passada ficamos sabendo que a Odebrecht tinha outro Departamento: o de Operações Legislativas, onde políticos graduados, como se empregados assalariados da empresa fossem, atuavam na Câmara e no Senado para fabricar leis, isenções, empréstimos e quejandas, sempre atendendo aos interesses do empregador. Não se exagera ao dizer que a empresa “comprava” eleições de pessoas confiáveis que garantiam a contrapartida, como também governava o país a seu interesse. Agora, de forma mais clara, dá para entender a transfiguração da lei anticorrupção feita pela Câmara e a pressa do campeão mundial de investigações, o Renan em aprovar a lei de abuso de autoridade que, na verdade, é uma lei de tapa-boca.
Com estas revelações se consolida uma antiga convicção minha: a eleição via marqueteiro e exposição midiática é um atentado à democracia. Ela explica as eleições do Tiririca,  Russomano, Agnaldo Timóteo, Moacir Franco. Mas, mais do que isto, elege o Kassab, Paulinho da Força, Pimentel, Geddel, Eliseu Padilha, Moreira Franco, Jucá, Lobão, Collor, Cabral, Pezão, Paes, entre tantos outros. Por que os políticos são os maiores detentores de concessões de rádios e televisão neste país? Uma eleição na base do voto distrital misto muito contribuiria para acabar com esta distorção.
Por outro lado, isto nos leva a prestar, mais do que nunca, atenção no que fazem estes funcionários de empresas, alocados no legislativo, Tribunais de Contas e Judiciário. Fatos recentes corroboram o que acabo de dizer. Isenções para tráfego interestadual de mercadorias, redução de IPI, facilidades de acesso a créditos subsidiados, viagens internacionais da presidência para alavancar negócios, Fundo Partidário, CARF, são mofos onde prosperam as bactérias políticas e apaniguadas da podridão.
Por mais “saudável” e “transparente” que possa parecer uma emenda, decisão, sentença, Medida Provisória, é bastante provável que haja um interesse escuso no bojo delas.
Diante disto, não posso deixar de perguntar: o que estaria por trás de decisão de manter o executivo-mor da Odebrecht no Legislativo, Renan? Quanto custou o impeachment da Dilma para colocar na presidência o confiável Temer? Quanto custou a demora de sete anos para que se tornasse réu em uma das muitas investigações que sobre ele pesam? Quanto custa aos interessados, a demora em investigar e denunciar muitos dos acusados, como, por exemplo, Jucá, Padilha, André Moura, Serra, Alckmin, Wagner, Mercadante, etc.?
Só me vem à mente uma frase bíblica atribuída a Jesus: pode a árvore má produzir bons frutos? Pode o Temer e o PMDB fazer algo sem estar com o DNA que os têm caraterizado?
Marcos Inhauser


quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

RECEPTADORES LEGALIZADOS?

O Código Penal, no seu Art. 180, define a receptação como “adquirir, receber, transportar, conduzir ou ocultar, em proveito próprio ou alheio, coisa que sabe ser produto de crime, ou influir para que terceiro, de boa-fé, a adquira, receba ou oculte”
Em outras palavras, se recebo, compro ou tenho vantagem com o produto de um crime, ainda que não praticado por mim, sou receptador e, por tanto, passível de condenação.
Agora, por que não são considerados receptadores os advogados que defendem os criminosos da Lava Jato, Carf, PCC, CV e outras organizações, que estão recebendo honorários milionários, pagos com dinheiro produto de crime? Não estão eles se beneficiando de algo que sabem é corrupção, roubo, peculato, etc? Por que o que se paga a eles é isento de punição?
Isto é ainda mais grave quando o parágrafo 6º do mesmo artigo, estabelece que: “tratando-se de bens e instalações do patrimônio da União, Estado, Município, empresa concessionária de serviços públicos ou sociedade de economia mista, a pena prevista no caput deste artigo aplica-se em dobro”. Se o que estes advogados regiamente pagãos recebem é fruto do que seus clientes roubaram dos governos federal, estaduais e municipais, da Petrobrás, do Metrô, do Comitê Olímpico, da Funasa, etc. por que não estão incursos nos parâmetros da retro mencionada lei?
Que me perdoem os doutos, mas qual a diferença entre o dono de um desmanche que pega um carro roubado, separa as peças e as vende e assim tira proveito de um crime e um que, ainda que não seja dono de um ferro velho, recebe um criminoso, dá-lhe uma maquiada conceitual no crime e ganha horrores com a plástica feita? Qual a diferença com os que fizeram as 78 cirurgias plásticas no colombiano Abadia, traficante de drogas, como forma de despistar a polícia? O dinheiro que ganharam era dinheiro de crime e usado para que escapasse da justiça.
Conheço o caso da esposa de um alto funcionário governamental de um determinado país. O marido, com as devidas anuências e cumplicidade da esposa, ganhou milhões de dólares. Como a chapa estava esquentando, ela contratou professora particular para a filha, empregadas para a casa, motoristas particulares e pagou salários altíssimos. O acordo era que, se acontecesse alguma coisa com ela, eles se encarregassem de pagar as contas da filha na escola e cuidassem dela.
Quando a coisa estourou, não só deram busca na casa da autoridade e o prenderam, bem assim sua esposa, como na casa de todos os amigos e funcionários e pegaram tudo que tivessem e que foi dado pelo casal.
A questão dos salários não veio à tona. Mas como a filha continuava a frequentar a mesma escola caríssima, a polícia foi investigar quem estava pagando e como estava pagando. Sobrou para eles também.
Aqui no Brasil, o Sérgio Machado não continua a morar na mesma casa, com todas as mordomias? O Lula está pagando uma penca de advogados com o dinheiro dos seus proventos? Como o Palloci está pagando os muitos que o defendem? Como estão sendo pagos os advogados do Vaccari? E os do Cerveró, Duque, Barusco, Pedro Correia e outros mais?
Que me expliquem os entendidos: é isto legal? É isto justo? É isto honesto? É isto receptação legalizada?
Na minha cabeça, confesso, há um nó. Não entendo e quero entender. Quem puder, me ajude com explicações plausíveis.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

NÃO DOEI UM CENTAVO

NÃO DOEI UM CENTAVO
Fico admirado com a capacidade dos políticos brasileiros de criarem normas para serem burladas ou para burlar as que não fizeram. Exemplos disto são conhecidos, tais como auxílios moradia, gastos com gasolina e correio, assessores, empréstimos para assessores que são formas disfarçadas de reter parte dos salários, doações “legais” de propinas, etc.
Diante deste quadro não é de se estranhar que as novas regras para financiamento das campanhas políticas tenham sido alvo desta criatividade burladora dos políticos. Os dados publicados mostram que mais de 34% das alegadas contribuições reportadas estão sub-judice, uma vez que há mortos que contribuíram, quem doou mais do que podia, beneficiários do Bolsa Família e gente que nem sabe que doou.
Ë verdade que a legislação estabelece regras para as doações. Segundo elas “somente pessoas físicas podem fazer doações; toda doação deve ser feita através de recibo assinado pelo doador, com um valor limitado a 10% dos rendimentos brutos do ano anterior do doador; as doações só poderão ser realizadas através de cheques cruzados e nominais, transferências eletrônicas de depósitos, depósitos identificados em espécie, ou através do sistema disponível no site do candidato, partido ou coligação na internet, com a possibilidade do uso do cartão de crédito (o sistema deverá obrigatoriamente, identificar o doador e emitir o recibo para cada doação)”. Mas se até morto doou, significa que encontraram brechas na forma de “fazer aparecer dinheiro na conta do candidato”.
Desde que estas notícias começaram a aparecer, fiquei preocupado e explico por quê. As identificadas doações irregulares são as que foram feitas por mortos, beneficiários do Bolsa Família e gente que deu mais de 10% da sua declarada renda no ano anterior. Estes dados são de domínio da Justiça Eleitoral e da Receita Federal. Se algum destes candidatos usou meu CPF para fazer alguma “doação fajuta” e ela ficou nos limites dos 10%, quando eu for fazer a minha declaração em abril de 2017, por não saber disto, não vou declarar que doei. É aí onde a coisa se complica.
Se tivesse feito a doação, teria como provar que fiz, por causa do recibo que teria em mãos. Como não doei e nem que sei que “doei”, como provar algo que não fiz? Se eles declaram que doei e eu digo que não, como sair-se desta?
Lembro que o CPF é algo de “quase-domínio-público”. Onde você vai e compra algo, pedem CPF. Os cheques trazem o CPF, assim como o RG e a CNH. Tem gente vendendo listas de nomes e dados pessoais, hackeados de sites e banco de dados. Os aposentados sabem como isto é verdade porque são infernizados com telemarketing oferecendo empréstimo consignado. Eles têm os dados completos de quem se aposenta e quanto é o benefício que recebem. Quem me garante que meus dados não foram usados para estas doações criminosas? E se o foram, como vou saber?
Provar a não-doação terá a dor de um parto. A Receita Federal irá me notificar, me autuar, determinará uma multa e como faço para provar a não-existência da doação? Eles têm documentos, eu não!
Não quero problemas para minha cabeça. Por prevenção, faço esta declaração pública, sob pena da lei, de que não doei um centavo sequer a qualquer partido político ou candidato. Se algo aparecer com meu nome e CPF é fajuta e o declarante deve ser incriminado por falsidade ideológica!
Tenho dito!

Marcos Inhauser

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

PAZ VERDADEIRA

A paz segura não se consegue pelo processo de dissuasão mútua. Quando ambos estão sem mais argumentos um para com o outro, não significa que a paz está reinando. O máximo que se pode dizer é que está se prevenindo a guerra por tempo limitado. Este processo até pode servir a um propósito, mas nunca será solução permanente. O mesmo se pode dizer do cessar-fogo temporário ou a trégua. Interrompem, por um tempo, o ciclo de violência, mas não estabelecem a paz!
A paz permanente é a vontade de Deus para toda a sua criação. Com isto estou afirmando que a paz tem dimensões ecológicas também. É a paz entre os seres humanos e a paz destes com a criação. Não há paz verdadeira enquanto os seres humanos se agridem e matam, nem enquanto eles agridem a criação, a maltratam e a matam. Não há paz enquanto houver gente passando fome, gente sofrendo enfermidades para as quais se conhece a medicina, crianças morrendo de diarreia, animais sendo extintos, rios sendo poluídos, etc. Não há paz enquanto houver racismo, sexismo, intolerância religiosa.
A paz na sociedade e entres seus grupos se realiza quando o estado de justiça é reciprocamente reconhecido. Não há, no entanto, uma medida absoluta e eterna que diga o que é justo para sempre. A justiça é uma justiça contextual e processual. Por isto, a lei do amor deve ser mais abrangente que a prática da justiça porque “a letra da lei mata, mas o amor edifica”. A justiça que não contemple as variedades culturais não é justiça, porque intolerante.
Para o cristão, a paz não é uma opção: é uma imposição do evangelho e da práxis cristã. Cristão não comprometido radicalmente com a paz deve ser questionado no seu cristianismo. Amar ao próximo é conditio sine qua non para a justiça e a para a paz. São tão essenciais na vida cristã que a ausência deles é a negação de Jesus Cristo. No entanto, estas práticas não são naturais no ser humano, mas algo que é fruto do Espírito na vida daqueles que experimentaram o amor renovador e transformador de Jesus Cristo.
O cristão autêntico não empurra para debaixo do tapete as questões espinhosas que afetam a vida plena da paz, antes, tal como os profetas veterotestamentários, os traz à luz e os denuncia para que haja mudanças. Percebe-se com isto que a paz não é uma condição estática, tal como a pensavam os gregos, nem a ausência de guerras, como queriam os romanos. Para estes, a vitória sobre o inimigo era o estabelecimento da paz. Este mesmo conceito, em certa medida, está presente nos textos históricos do Antigo Testamento.  Os estóicos entendiam a paz como uma disposição mental e espiritual, de harmonia interior, com certa resignação diante dos fatos que atentavam contra a paz. Vencer era estabelecer a paz. Por isto mesmo, uma paz unilateral e deficitária. A verdadeira paz é uma busca constante e incessante de um estado pleno de harmonia.
Este é o sonho do profeta Isaías: “Irão muitas nações e dirão: Vinde, e subamos ao monte do SENHOR e à casa do Deus de Jacó, para que nos ensine os seus caminhos, e andemos pelas suas veredas; porque de Sião sairá a lei, e a palavra do SENHOR, de Jerusalém. Ele julgará entre os povos e corrigirá muitas nações; estas converterão as suas espadas em relhas de arados e suas lanças, em podadeiras; uma nação não levantará a espada contra outra nação, nem aprenderão mais a guerra. (2:3,4)
Que me perdoem os militares, mas eles vão perder o emprego no Reino de Paz.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

A PAZ E AS DIFERENÇAS

O profeta Zacarias disse certa feita que “Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém: eis aí te vem o teu Rei, justo e salvador, humilde, montado em jumento, num jumentinho, cria de jumenta. Destruirei os carros de Efraim e os cavalos de Jerusalém, e o arco de guerra será destruído. Ele anunciará paz às nações; o seu domínio se estenderá de mar a mar e desde o Eufrates até às extremidades da terra.” (9:9,10)
A entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, montado em um jumento, deve ser vista como a diferença de sua visão. Ele não veio montado em cavalo, animal usado pelos soldados guerreiros. Veio no jumento, porque sua mensagem não era a do arco e espada, mas a da paz, da verdade e do amor. Veio não da forma esperada, mas quebrando paradigmas.
Para se entender o conceito cristão de paz é preciso quebrar os paradigmas que nos levam a pensar que a paz reina quando não há guerra, não há conflito. No entanto, esta é uma visão reducionista da paz cristã. Tomando por base a concepção antiga do shalom, a paz cristã tem a ver com saúde, harmonia, ausência de violência em todos os seus níveis (físico, emocional e psicológico), com moradia segura, alimentação necessária, com descanso regular, com reconciliação e outras coisas mais.
Sem a reconciliação não há paz. Sem o perdão não há paz. Sem a tolerância não há paz. Em uma sociedade onde reina a intolerância, onde torcedores de uma equipe agridem a matam os de outra equipe, onde o diferente é pisoteado, o homossexual é execrado pública e privativamente, onde o negro é desprezado por ter uma cor diferente, onde o gordo é visto como glutão ou sem autocontrole, a paz é um imperativo iniludível e uma prática impostergável.
Mas o evangelho da paz não é o anúncio de uma vida fácil e cômoda. A fidelidade a Deus e a Seu Filho, que implicam em práticas de paz, implicam em perseverança. As dificuldades não nos devem assombrar, antes fortalecer, uma vez que fomos alertados: “neste mundo tereis aflição, tende bom ânimo, eu venci o mundo”. Não devemos esperar melhores tempos que os profetas e Jesus tiveram. Todos eles, na sua proclamação e prática da paz, padeceram e não poucos morreram por ela.
Isto é paradoxal. Ao proclamarmos e praticarmos a paz seremos alvos da violência dos que ganham com a exploração do próximo, dos que são corruptos, ladrões. Evitar a perseguição por meios desonestos é desonestidade igual à praticada por quem persegue. Há um preço a se pagar pela paz.
Saliente-se que Jesus iniciou seu ministério pregando o arrependimento e a chegada do Reino de Deus, um reino de paz. Isto se daria não pela reforma das instituições políticas e econômicas existentes, mas pela vivência de uma nova comunidade, alicerçada em um novo paradigma: amor ao próximo como a si mesmo. Se se ama o outro na mesma intensidade com que se amo a si mesmo, não há lugar para depreciar, mesmo que seja ou pense diferente. A diferença não será motivo para separação e exclusão, mas para conhecimento, enriquecimento com o conhecimento e vivência da diferença: isto é paz.
Aceitar o outro na sua condição, com suas ideias e comportamento é amor. Discriminar, acusar, vilipendiar porque é diferente é ser prepotente, arrogante e assassino do outro. Nesta atitude não se promove a paz.

Marcos Inhauser