Leia mais

Há outros artigos e livros de Marcos e Suely Inhauser à sua disposição no site www.pastoralia.com.br . Vá até lá e confira

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

A CONTRIBUIÇÃO DA TEOLOGIA DA PAZ

Em minha última coluna, na qual questionava a extensão e protagonismo da Reforma Protestante de dos Reformadores Lutero e Calvino, colocava a participação essencial da Reforma Radical, que produziu o movimento Anabatista. Salientava as inúmeras contribuições que a teologia anabatista fez para a igreja ao redor do mundo, algumas delas que são hoje verdades inquestionáveis (separação da Igreja e do Estado, a Igreja como associação espontânea e não por decisão autoritária, entre outras).
Adiciono outra contribuição anabatista, para mim, da mais alta importância: a teologia da paz. Há que se recordar que Lutero, ao ser excomungado e perseguido, refugiou-se e foi sustentado pelo rei Federico o Sábio, quem o levou para o Castelo de Warburg e ali o refugiou. Calvino escreveu suas Institutas de Religião Cristã e as dedicou ao rei Francisco I. Tanto um como o outro nunca se posicionaram contra a “guerra justa”, como se alguma o fosse justa.
Os anabatistas foram, como não poderiam deixar de ser dada sua radicalidade, veementes na condenação da guerra, não aceitando que nenhuma delas fosse justa, por mais razões que se apresentem. Dois motivos podem ser apontados para este posicionamento radical: a compreensão literal dos ensinamentos de Jesus com a obediência radical dos seus discípulos e a situação política vivida por eles. Deve-se recordar que, minoritários em um contexto amplamente contrário às suas teses, perseguidos e empobrecidos pelas constantes mudanças, fugas e expropriações, não poderiam, sob pena de suicídio coletivo, pregar o uso da violência como forma de se resolver conflitos.
É verdade que houve a Guerra dos Camponeses, liderada por Thomas Muntzer, que se declarava anabatista, mas que não era reconhecido como tal pelos líderes sobreviventes e hoje se tem consenso de que sua inspiração para a fomentar a guerra não eram os ideais anabatistas. Pelo contrário, muitos dos grupos perseguidos encontraram guarida em outros locai, foram amparados por reis mais condescendentes e uma razão para isto era o caráter laborioso e pacífico dos anabatistas.
Como decorrência deste seu postulado pacífico e pacifista, também se dedicaram ao estudo e à prática de processos de resolução de conflitos e mediação, sendo hoje reconhecidos como grandes autoridades no assunto. Projetos de pacificação social, de reconciliação entre vítimas e ofensores, de resolução de conflitos familiares, eclesiais, laborais e de vizinhança se multiplicam por todo o mundo sob o impulso das igrejas anabatistas.
No desenvolver e amadurecer destas ideias pacíficas e pacificadoras, aos anabatistas se valeram em grande escala da interpretação literal e contextualizada do sermão das Bem-aventuranças, também conhecido como Sermão do Monte. Vários estudiosos, teólogos e leigos trouxeram significativas contribuições para os textos das Bem-aventuranças, especialmente os relacionados ao andar a segunda milha, dar a outra face, ter fome e sede de justiça no sentido de ser justo e não permitir que a injustiça seja praticada, ser misericordioso e manso, etc. A tal ponto a contribuição atravessou fronteiras que hoje, um dos maiores expoentes da não violência e da aplicação radical das Bem-aventuranças é um sacerdote católico, John Dear, já nominado certa feita para o prêmio Nobel da Paz.
Lembremos que Jesus foi anunciado pelos anjos cantando “paz na terra” e que se apresentou depois da ressurreição dizendo “paz seja convosco”. Se recordarmos que na Bíblia a palavra paz” aparece 9.480 vezes na Bíblia, sendo 7.965 vezes no Antigo Testamento e 1.515 vezes no Novo Testamento. Diante disto, a insistência do tema no meio anabatista mostra uma faceta extremamente bíblica do movimento.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

A REFORMA FOI SÓ ISTO?

Por pura pachorra, li um monte de artigos sobre a reforma, escritos nestes dias. A profusão deles se deve ao fato de que se está comemorando os 500 anos do movimento consolidado com Martinho Lutero e depois seguido por outros reformadores. No entanto, ao ler os artigos, uma questão me perturbava e uma certa indignação tomava conta de mim.
Tive a impressão de que estudei em outras fontes das que os escritores se basearam suas afirmações. A quase totalidade dos artigos não citava os pré-reformadores, gente que, em várias partes e locais, foi construindo um novo pensar que se consolidou na atitude de Lutero. Não havia uma só palavra sobre os Albigenses ou Cátaros, Valdenses, João Wycliffe, os Lolardos, João Huss, Savonarola
Muitos dos autores dos artigos que li louvava a coragem e lucidez do bispo alemão, falavam de Calvino, o reformador de Genebra e pouco ou nada falavam do terceiro reformador, o de Zurich, Zwínglio. Nada, absolutamente nada sobre a Reforma Radical, também conhecida como movimento anabatista. O anabatismo surgiu com a Reforma do século XVI, com a pregação da liberdade de consciência, a negação da guerra definindo-a como pecado, a negação do uso da violência, a dessacramentalização dos sacramentos, o batismo como ato de fé consciente, o sacerdócio universal de todos os crentes (diferindo da visão luterana), a prática da hermenêutica comunitária. Estas posições eram diferentes e críticas a LuteroCalvino e Zwínglio que mantiveram o baptismo infantil, a vinculação da igreja ao Estado e os sacramentos .
Georg BlaurockConrad Grebel e Félix Manz ansiavam por uma reforma mais radical e estabeleceram suas convicções no dia 21 de janeiro de 1525, fazendo-se rebatizar em local próximo a Zurique, na Suíça. Perseguidos pelos reformadores, Igreja Católica e reis, o movimento se espalhou pelo sul da Alemanha, Vale do Reno e Países-Baixos.
Percebe-se que a igreja moderna muito deve aos anabatistas. Foi com eles que nasceu a convicção de que a Igreja não pode se vincular ao Estado, a noção de Estado Laico tão cara ao movimento protestante, sem que lhe seja dado o devido crédito. A eles se deve a negação da guerra como forma de se promover a justiça e a paz, a eles se deve o conhecimento sobre as práticas de negociação e mediação em conflitos.
É verdade que nem tudo nos Anabatistas é louvável. Houve a figura de Thomas Muentzer que pegou em armas e liderou a guerra dos camponeses, houve quem, no arroubo de sua crença impediu a realização de batismos infantis. Mas também há coisas nada louváveis em Calvino, Lutero e Zwínglio e seus seguidores. No campo teológico, se se quer ser honesto, o anabatismo nunca produziu um sistema teológico próprio, mas se dedicou à eclesiologia, tomando conceitos emprestados de outros pensadores. Isto se explica pelas ferozes perseguições que sofreram, forçando-os a se mudar constantemente, sem contar a infinidade de líderes mortos.

Com isto, afirmo que a Reforma Protestante começou muito antes de Lutero, e foi muito além de 1516, pois teve frutos duradouros, mesmo com que perseguição e quase dizimação do movimento anabatista. Aos escritores dos artigos sobre os 500 anos da Reforma Protestante, sugiro que releiam os livros de história e se informem sobre o Anabatismo. Aos que promovem o culto da Reforma, sugiro que pensem que os Anabatistas também são reformados, no que pese as críticas de Calvino, Lutero e Zwínglio, todas fruto da reação às críticas que receberam.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

A HERESIA DO PERGUNTAR

O modelo vigente nas igrejas por séculos é o da cátedra, onde há uma confissão de fé, aceita pela denominação como expressão final e definitiva das crenças e ensinamentos exarados nas Escrituras, ensinados domingo após domingo pelo catedrático (pregador). O pregador, no uso da palavra não interrompida e nunca questionada no momento em que é proferida, deve ser a repetição para consolidação dos ensinamentos confessionais.
O problema com este tipo de religiosidade é que o líder não pode pensar, não pode fazer teologia, porque a sua já está feita e consolidada na Confissão de Fé de sua denominação. Se ousa dizer algo fora do que preceitua o receituário doutrinal, será inquirido, processado eclesiasticamente poderá ser disciplinado por um período de suspensão ou afastamento definitivo. Eu passei por isto, juntamente com alguns outros colegas.
Ousamos pensar e criticar algo e fomos acusados por uma mente fundamentalista, quem, treinado na letra da lei, só via obediência e jamais podia aceitar o questionamento. Para estas confessionalidades, a pergunta inquisitiva e exploratória de novas possibilidades é pecado. Perguntar arguindo o estabelecido é pecado sem perdão. É atentar contra a sacralidade de um Manual Doutrinário que, não importa quando foi estabelecido, nem as circunstâncias históricas em que tal se deu, aceitam que as formulações ali contidas têm a aura da infalibilidade. Um amigo foi fazer um curso de teologia contemporânea dado por uma pessoa recém-chegada com o título de ThD (Doctor in Theology). Ele começou na patrística, foi até Calvino e terminou seu curso. Meu amigo o questionou sobre os teólogos contemporâneos e ele disse que, depois de Calvino, não houveram mais teólogos.
Falar o novo, pensar o diferente, perguntar sobre o estabelecido é garantia de ser rotulado como herege. Herege não é um título que alguém se dê a si mesmo. Encontrar-se-ão milhares dos que se afirmam ortodoxos, conservadores, fieis à Palavra, fundamentalistas. Mas alguém que, sem estar sendo irônico, se caracterize como herege, é algo raro, incomum mesmo. Herege é sempre o outro. Dizer que o outro é herege é um ato de exercício de um pretenso poder de julgar quem é quem e quem está certo ou errado. Neste processo muitos foram sacrificados pelos donos do poder eclesiástico, tanto nas inquisições, como nos tribunais eclesiásticos das igrejas não-católicas.
Se perguntar criticamente sobre a fé e a confissão é ser herege, devo admitir que o sou. Por estar em uma denominação, talvez a única no mundo, que se afirma como não-credal (não temos um credo) e não-confessional (não temos uma confissão de fé), não há lugar para ser herege no seio dela. Nela não há quem tenha a autoridade de dizer: “você está errado”. O máximo que podemos é discordar, dizendo: “eu não penso como você”. Posso até dar as razões pelas quais creio diferente, mas sem acusar ou discutir opiniões.
No seio desta denominação, por isto, se pratica a hermenêutica comunitária, onde todos podem e devem participar da interpretação do texto estudado naquele momento. É no exercício de todos os dons presentes na comunidade que se dá a interpretação consensual. Nela o perguntar é virtude, o discordar é maturidade, o afirmar o que se pensa é essencial.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

FÉ? O QUE É ISTO?

Há enorme quantidade de gente que, perguntada sobre o que é a fé, não hesitariam em responder com a afirmação constante no livro dos Hebreus: “a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não veem” (Hb 11:1). No entanto, a definição acima traz dificuldades intrínsecas, uma vez que só se aplica às coisas que se esperam e às que se não veem. Interpretada a definição literalmente, não há fé nas coisas passadas e nem nas que se veem.
Se ela só se aplica ao que se espera, como ter fé no Jesus histórico que veio e que é fato do passado? Como crer nos relatos bíblicos da libertação do povo de Deus do Egito, nas pragas, na passagem do Mar Vermelho e outras narrativas do passado? Se são passado, já não são alvo de espera e se não o são, não são objeto da fé.
Como fica a narrativa de Tomé que precisou ver para crer? “Se eu não vir o sinal dos cravos nas suas mãos, e não meter o dedo no lugar dos cravos, e não meter a minha mão no seu lado, de maneira nenhuma o crerei” (Jo 20:27).
Se olharmos para o Antigo Testamento e para as narrativas de fé que ali se encontram, vamos perceber que não há nele um manual de crenças, ou um compêndio de teologia conceitual. Antes, pelo contrário, vamos encontrar uma coletânea de narrativas de fé de que Deus estava agindo na história a favor do seu povo. Parece mais uma página de um diário de fé nos atos de Deus. Criam no Deus da história que faz dela o seu palco revelacional. Deixar de ver nas minúcias dos atos históricos concretos o agir de Deus é cegar-se à revelação.
Pasma-me que os púlpitos e os cânticos em moda nos templos pouco ou nada façam desta leitura do agir de Deus na história hoje. Parece que as prédicas ensinam um Deus que morreu no passado, ou em um Deus catatônico que deixou de agir e está paralisado. Ficou mudo no dia em que, sábios teólogos concluíram quais os livros que fazem parte do cânon e depois disto proibiram Deus de continuar falando e se revelando.
Olham para o passado para encontrar histórias bonitas de como Deus agiu, mas são cegos para o presente e para os atos de Deus na história brasileira, latino americana e mundial do ano de 2016. O Deus mudo e catatônico das modernas pregações se limita a curar enfermos, expulsar demônios e dar prosperidade aos bispos de igrejas gananciosas.
Deus encolheu. Foi exuberante no passado, mas perdeu seu brilho e vigência no século da tecnologia. Como discípulos devemos viver das glórias do passado, ir aos templos que são museus a contar histórias antigas, preservar a memória de um povo, e acreditar que um dia a glória será restabelecida na mesma Jerusalém de antanho. Ele fazia milagres e hoje ... bem .... hoje ... é diferente.
Mais que pregadores, deveriam ser “leitores da história”. Como disse o Karl Barth, um bom pregador é o que tem a Bíblia em uma mão e o jornal na outra. Um iluminando o outro. O jornal trazendo luzes para a leitura bíblica e a Bíblia iluminando o entendimento dos acontecimentos atuais.
Um Deus fora da história é marionete nas mãos de pregadores analfabetos e inescrupulosos.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

SOMOS?

Na narrativa bíblica se conta que Moisés teve o seguinte diálogo com Deus: “Moisés perguntou: Quando eu chegar diante dos israelitas e lhes disser: O Deus dos seus antepassados me enviou a vocês, e eles me perguntarem: ‘Qual é o nome dele? ’ Que lhes direi? Disse Deus a Moisés: Eu Sou o que Sou. É isto que você dirá aos israelitas: Eu Sou me enviou a vocês" (Êxodo 3:13,14). A expressão Eu-sou-o-que-sou só pode ser dita por Deus sobre si mesmo. Ninguém mais pode afirmá-la.
Digo isto porque, nós, humanos, não somos um “eu-puro”, um “eu-sou-eu-mesmo”. Somos, sim, a somatória das obediências que prestamos a quem nos deu ordens e formou a nossa forma de ser. Sou a somatória das ordens recebidas e para as quais não tive poder de desobedecer.
Cada um de nós tem algo de si mesmo, mas tem também um monte de coisas que os pais, a família e a sociedade impuseram sobre nós. Ninguém pode dizer “eu-sou-eu mesmo”, “eu-sou-só-eu”. Como já disse Ortega y Gasset, somos nós mesmos e o contexto em fomos criados, as influências que recebemos.
Ainda que haja no português e, mais especificamente no Brasil, a expressão “e-sou-mais-eu”, ela não se refere ao grau de autonomia do eu, mas ao grau de autoconfiança e autoestima que a pessoa tem.
Se somos esta mistura de autonomia e heteronomia (a lei própria e a lei dos outros sobre nós), ninguém pode se arvorar em ser completamente independente das pressões, injunções, constrangimentos e obediências prestadas, ainda que de forma inconsciente ou até mesmo consciente, as circunstâncias não permitem desobedecer.
Assim, o comportamento individual não é só um ato de volição autônomo, mas, antes, um ato de obediência ou rebeldia. A obediência se dá quando o nível de poder não permite outra coisa a fazer senão o que lhe pedem, ensinaram ou a sociedade exige. O nível de desobediência se dá no exercício consciente da desobediência pela avaliação de que se tem poder para enfrentar as consequências. Diante disto, há mais “eu” nas rebeldias que nas obediências.
Isto posto, digo que o conservador é um “ser-sem-opinião-própria” porque repete ad nausean o que lhe ensinaram e não tem a mais mínima possibilidade, em função das coisas que lhe ensinaram e do poder sobre ele exercido, de romper o círculo ideológico que o mantem preso. E quando se trata de um “conservador-religioso” a coisa fica ainda mais complicada porque o poder de quem ensinou as coisas que repete qual papagaio vieram com a aura da infalibilidade, da Vox Dei, e afirmar algo diferente é pecado e passível de condenação eterna. Pensar, refletir e se posicionar autonomamente é desvio da fé, é ser herege, apóstata.
Fica assim proibido o fazer perguntas ao texto sagrado, seja ele Bíblia, Alcorão, Bhagavad gita ou algo assemelhado. Os dissidentes (os que pensam e tem posições autônomas) são infiéis e merecem a morte. Isto explica a guerra entre xiitas e sunitas, entre reformados e pentecostais e neopentecostais. Todos são donos da verdade. E se são donos da verdade, quem não repete e não obedece o que ensinam, merece morte e castigo eterno.
Fica fácil entender porque tantos são mandados ao inferno pelos fundamentalistas, conservadores e assemelhados. Na constelação dos eu não-pensam-mas-repetem, a graça de Deus é heresia, o perdão é abominação e o amor ao inimigo é coisa de louco varrido.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

PERPETUAÇÃO POLÍTICA

Nenhum poder político é natural e inerente. Sempre é concessão via votos, eleições ou, em casos extremos e recrimináveis, via violência do golpe ou pelas “vias constitucionais” (vide exemplo da Venezuela e Bolívia). Nenhum poder político é eterno. Mesmo os mais poderosos imperadores e reis sucumbiram pela morte, deposição ou queda. O exercício do poder democrático é o exercício do diálogo, ao contrário do poder autocrático que é o monólogo de “um-que-tudo-sabe”. Na democracia se busca a maturidade cidadã (ao menos é o que se espera), na autocracia se produz o paternalismo.
Por outro lado, já dizia Maquiavel, que não há posse mais duradoura que a ruína. Quem se torna senhor de uma nação livre e não a destrói, será destruído por ela. O desejo de liberdade não se esquece nunca e ele será o motor para destronar os reis que arruínam a vida do seu povo.
O exercício do poder político se dá sobre um determinado povo e espaço geográfico. Não há controle remoto nesta matéria. Quando os poderosos deixam de cooperar para o bem do seu povo, mesmo que antes o tenham feito, este mesmo povo, anteriormente beneficiado, se levantará contra para recuperar o que lhe foi tirado ou para ampliar o que tem. Quando o povo tem os benefícios e estes se mantêm iguais por um longo período, a insatisfação cresce e o poder político está ameaçado. Eis, assim, o paradoxo: se não dá o que o povo espera, é derrubado. Se dá e se mantém no mesmo nível, o povo se insurge querendo mais.
Como todo poderoso tem o desejo de se tornar eterno no poder e que seu reinado se perpetue na lembrança do povo, precisa ele ser hábil nas concessões e na administração das insatisfações. Ser eterno, eis a questão.
Para que este projeto se realize, precisam conquistar o poder, prometendo ao povo, aos mais necessitados, aquilo que anseiam porque vital para eles: saúde, educação e segurança. Daí porque os discursos de campanha se repetem a cada nova rodada.
Na história recente do Brasil viu-se projetos que esperavam vinte ou mais anos de poder. Se inicialmente produziram alguns benefícios para o povo, enveredam-se por caminhos os mais desastrados possíveis. Assim foi o Sarney com o Plano Cruzado que redundou na hiperinflação (ainda que, dizem as más línguas, ele se eternizou no poder); assim foi com o Collor e sua “caça aos marajás”, que redundou na sua própria caçada e de seu tesoureiro. O FHC com sua ambição produziu o advento da reeleição e, depois de terminar seu mandato, muitos dos seus tinham vergonha de colocá-lo ao lado nas aparições públicas. Assim foi com o PT: do “Fome Zero” para o Mensalão e Petrolão.
Muito se fala que o povo não sabe votar. Isto é verdade em parte. Muitos dos corruptos, dos malandros, dos propineiros não conseguiram se eleger ou se reeleger. Ficaram pelo caminho. Partidos há que encolheram, perdendo votos, prefeituras e representação nas Câmaras Municipais. O PMDB encolheu 12,5% e o PT bateu os 60,9%. Como toda regra tem sua exceção, o PP, todo enrolado com a Lava Jato, manteve-se praticamente igual: -0,1%.
Houve significativa renovação nos quadros políticos, o que dá certa esperança de que gente nova terá novos hábitos e nova forma de fazer política. E assim deve ser, haja visto a alta taxa de abstenção, votos nulos e em branco. Somados, pode-se entender como uma nota Zero para a classe política.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

MUDANÇAS À VISTA?

Atribui-se a Churchill a frase de que a democracia é um péssimo sistema de governo, mas ainda é o melhor que conhecemos. Tenho que concordar com ele, especialmente quando se considera que a democracia é feita por eleições baseadas no poder aquisitivo dos candidatos, o que permite maior exposição e chance de ser lembrado na hora do voto.
Com as mudanças havidas na legislação brasileira impedindo a doação de empresas, estabelecendo teto de gastos segundo as cidades, fazendo o cruzamento dos dados de arrecadação com o CPF dos doadores, algo mudou na forma eleitoral brasileira. No entanto, ainda não são mudanças radicais, haja visto que o ex-prefeito de Campinas, que tem seus direitos políticos cassados, apresenta-se como candidato e consegue manter a candidatura sabe lá Deus como.
Neste novo modelo de arrecadação via contribuição de pessoas físicas, já se sabe que muitas maracutaias foram feitas e que mais ou menos 30% das contribuições são questionáveis: mortos doando, gente com bolsa família doando, funcionários de prefeituras doando o salário integral, um candidato do Paraná que deu para a sua campanha mais do que todo o seu patrimônio declarado.
Acredito que mais maracutaias aparecerão. Explico-me com este exemplo. Na minha declaração de Imposto de Renda do ano que vem não declaro nenhuma contribuição partidária ou para algum candidato. Se algum candidato, inescrupulosa e sorrateiramente, usou meu CPF para declarar alguma contribuição, a Receita virá por cima de mim. Como provar que não dei? Se fosse para provar que dei, teria um recibo. Como não tenho como provar a inexistência, corro o risco de ser tributado pelo que não doei.
Com estas que já apareceram e outras que aparecerão, com candidatos semi ficha suja (estão condenados em primeira instância), com verdadeiros 171 se apresentando como éticos e probos e com poder de fogo na mídia, com vereadores carregados de assessores pagos com dinheiro público, prefeitos com centenas de cargos comissionados a garantir votos próprios, dos familiares e na cabala, fica difícil haver uma mudança radical no cenário político municipal.
Há que considerar-se ainda que os deputados estaduais e federais se envolvem de cabeça nesta eleição, porque dependem dos vereadores e prefeitos para conseguir votos nas suas respectivas eleições.
É verdade que o terremoto que se abateu sobre a classe política, especialmente sobre o PT, PP e parte do PMDB, fez com que houvesse um rearranjo de forças, especialmente nas eleições dos prefeitos das capitais. Estas mudanças implicarão em um novo arranjo político na macro política, ainda que não se deve desprezar a capacidade dos profissionais do voto de se articularem para sempre estar por cima. São surfistas do poder: sempre pegando a onda.
Tenho esperanças, mas prefiro ser realista. Haverá mudança, mas não no tamanho que a população espera e nem na medida que se precisa ter. Mas, antes algo que nada!!
Marcos Inhauser

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

MUDARAM A MOSCA, MAS …

Sai uma, o Eduardo Cunha, mas o monte permaneceu. E a mosca que o substituiu tem o mesmo DNA da mosca antecessora.
A certeza veio da maracutaias celebrada na segunda-feira próxima passada, com as bênçãos do Rodrigo Maia e do Renan, para a aprovação, por baixo dos panos, de um projeto de lei prá lá de safado: anistiar deputados que fizeram caixa dois nas campanhas. Por ser beneficioso, a sua aplicação pode ser retroativa. E todos os desmandos das campanhas seriam colocados neste item.
O argumento do “caixa dois” foi o que se usou para diminuir a culpabilidade e a pena dos envolvidos no mensalão. Se o dinheiro usado é lícito e de boa origem, por que o esconder com subterfúgios contábeis? A quem interessa esconder os recebimentos e pagamentos? Quantos ficaram ricos com as “sobras de campainha”?
A prevalecer esta maracutaia, as doações com propina feitas aos partidos e candidatos, serão “caixa dois” e anistiadas por lei feita de encomenda e para benefício dos próprios legisladores. É o criminoso se inocentando por sentença auto-proclamada.
E quem estava neste rolo? A julgar pelas notícias que vieram à luz, parece que quase todos os partidos, representando os impolutos deputados e senadores que se valeram e ainda se valem dos descaminhos para se reeleger. Com estas artimanhas e patranhas, percebe-se e sabe-se hoje porque é tão difícil renovar a Câmara e o Senado. Além do salário, tem as verbas mil, e um monte de aspones para sair a campo e trabalhar a candidatura do chefe, forma de garantir a continuidade no emprego. Concorrer com eles, sem as verbas, a visibilidade na televisão pública, sem a capacidade de legislar em causa própria, renovar é tarefa tão hercúlea quanto carregar o mundo nas costas.
Espetáculo de igual fedentina se deu e se concretizou no fatiamento da votação do impeachment. A artimanha engendrada nos bastidores e negociada com o presidente do STF (a julgar pelo que se descobriu e noticiou). Ele foi chamado de ato vergonhoso por um ministro do próprio STF e de algo estranho por outro.
Quando a Justiça Eleitoral, que já a chamei de ELENTOral, começa a dar sinais de que está se modernizando e usando dos meios eletrônicos para flagrar em tempo real as maracutaias de candidatos à eleição e reeleição; quando, antes mesmo do pleito, já se flagrou defunto doando para candidato; beneficiário de bolsa família contribuindo regiamente para as campanhas de candidatos e nem conhecem; quando um deles deu para sua campanha mais que todo o capital que diz ter; quando vídeos mostram “pastores” em meios cultos, pedindo votos e orações para os candidatos por eles indicados; quando religiosos 171 se apresentam como ovelhas beatificadas, mas manchadas por processos de apropriação indébita e ações de despejo; quando a população tem participado denunciando a propaganda eleitoral irregular, a manobra dos deputados nesta segunda é deplorável, vergonhosa e digna de mafiosos.
A nota de destaque positiva é que, diante do clamor popular, ou diante do medo do clamor popular, a votação foi retirada de pauta. Uma vitória temporária, porque, com certeza, aparecerá como emenda jabuticaba em alguma medida provisória, tal como já ocorreu inúmeras vezes.
Cabe a nós população vigiar e orar, porque os ladrões nos assaltam a toda hora. Se antes se dizia que não se sabe a hora em que ele vem, agora se sabe que a cada sessão da Câmara ou do Senado ou de ambas no Congresso.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

DUAS MUDANÇAS SIGNIFICATIVAS

A data de 12 de setembro poderá ser lembrada no futuro como sendo o dia em que duas mudanças significativas ocorreram no cenário brasileiro. A saída do Lewandowsky da presidência do Supremo Tribunal Federal e a cassação do Eduardo Cunha.
Quanto ao primeiro, quem me lê com certa assiduidade, sabe que sempre o critiquei e afirmei que ele não tinha postura e competência para assumir um cargo no STF, muito menos na presidência da corte. Sua atuação no processo do Mensalão, a meu ver, sempre foi criticável e atenuante, como para eximir os envolvidos de suas culpas e responsabilidades. Se já não gostava dele, tenho hoje ainda mais motivos para manter-me nesta posição, em função da sua escorregada como presidente do STF e condutor da votação do impeachment, ao permitir o fatiamento da decisão. Versões e mais versões dão conta de que o assunto foi tratado/negociado com ele de antemão e há quem veja neste seu ato, um agradecimento a quem o indicou ao STF.
A sua substituta, pelo menos, tem mais seriedade e menos apreço aos holofotes (coisa que o Gilmar Mendes e o Marco Aurélio adoram). Sua saudação ao povo brasileiro é fundamental em se tratando de uma corte onde o povo quase nenhum acesso tem, pois ela tem tratado muito mais de assuntos pertinentes aos poderosos e ricos. Fico em polvorosa com o seu vice, futuro presidente o Toffoli. Que a saída do Lewandowsky seja também a saída da justiça feita sob a luz dos holofotes.
Quanto ao Eduardo Cunha, tudo o que se diga, ainda é pouco. Com uma capivara que se estende desde as primeiras aparições na vida pública, ele representa um tipo de fazer política que deve ser apagado e escorraçado da vida nacional. Os rolos na Telerj, o convite para que fosse tesoureiro no RJ da campanha do Collor, seus métodos de intimidação e clientelismo (haja visto a afirmação feita a um dos delatores e por este trazido a público de que sustentava mais de 200 deputados), sua inteligência maquiavélica e maldosa, os arroubos na defesa sem nunca provar o que diz (nunca mostrou uma só lata da carne que diz ter vendido; nunca permitiu o acessos aos passaportes que, segundo ele, comprovariam as suas idas ao país africano, nunca mencionou um só dos seus clientes), suas falaciosas argumentações para provar que o que é seu não é seu, que Trust não é conta, no que pese governos suíços e brasileiro, em várias instâncias assim afirmarem.
Auto apresentado como evangélico (ainda que nunca soube conceitualmente o que este termo significa), trazia suas mensagens, tem 228 sites (ejesus.com) e gasta mais de R$ 11.000, por mês para hospedá-los. Muitos destes são de cunho religioso como, por exemplo: youtubejesus.com.brfacebookjesus.com.br e gmailjesus.com.br. Sites de compras coletivas também ganharam versão religiosa. É o caso docrenteurbano.com.br e do shoppingjesus.com.br.
No seu afã de vincular seu nome à uma denominação, não teve escrúpulos em fazer doação suspeita a uma Igreja da Assembleia de Deus, que está sob investigação. Ele não teve escrúpulos para colocar a esposa e filhas enrascadas nas suas falcatruas. Atrevido nas suas investidas ao dinheiro público, cruel no trato com quem lhe deve, ardiloso ao ponto de usar seu computador para fazer petições intimidatórias e dar para uma assecla assinar e apresentar, cínico no seu sorriso e argumentação, ofensivo ao ponto de voltar as costas a quem dele falava, Eduardo Cunha é exemplar da pior espécie de político.
Que sua cassação e afastamento da vida pública seja também o afastamento desta forma de se fazer política.
Marcos Inhauser


quarta-feira, 7 de setembro de 2016

ERROMENÊUTICA

Não é a primeira vez que ouço sermão ou leio textos que trabalham sobre o tema do amor na Bíblia e que o mesmo tipo de má interpretação acontece. Refiro-me ao clássico texto do “amarás ao Senhor teu Deus sobre todas as coisas e ao teu próximo como a ti mesmo”. O erro está no fato, costumeiramente praticado, de ver no texto três mandamentos: amar a Deus, ao próximo e a mim mesmo, como se fossem três coisas distintas e que se pode observar por parcela ou na integralidade segundo uma escala de valores.
Há não muito tempo estive em uma igreja como visitante e outra vez ouvi o descalabro desta erromenêutica. Afirmou o “pregador” que Jesus nos ensinou três coisas essenciais à vida cristã e que as três devem ser observadas em ordem. Primeiro, disse ele, temos que amar a Deus. Se não O amamos antes de tudo e sobre tudo, não estamos habilitados a amar a nós mesmos e ao próximo. Só depois de cumprido este mandamento estaremos aptos a passar para o cumprimento do segundo mandamento. Afirmou ainda que é possível amar a Deus sobre todas as coisas e não amar ao próximo e a mim mesmo. Seria uma obediência parcial, mas válida.
Neste momento, em mais uma prática da erromenêutica e da má fé, inverteu a ordem do texto e disse que, em segundo lugar, devemos amar a nós mesmos. Como condição para isto, devemos estar conscientes de que Deus nos fez como somos, devemos amá-lo sobre todas as coisas e entender que, criaturas de Deus feitos à sua imagem e semelhança, devemos nos amar.
Quando cumprimos a primeira e segunda partes do tríplice mandamento, podemos e estamos habilitados para amar ao próximo. Não podemos amar ao outro se não nos amamos e não conseguimos nos amar se não amamos a Deus.
Não preciso dizer que a esta altura eu já estava na ponta dos pés para sair dali. Mas aguentei firme e ouvi a pérola: “amar ao próximo é o último dos mandamentos essenciais da vida cristã. É possível ser verdadeiro cristão cumprindo os dois primeiros”.
Pasma-me a negligência teológica e prática das igrejas no amor ao próximo. Se no Antigo Testamento os dízimos trazidos à Casa do Senhor eram para que mantimento houvesse para suprir aos necessitados, hoje a ênfase é na compra dos equipamentos de som, no ar condicionado, no pagamrntos das horas de televisão ou rádio, na reforma, na suntuosidade e pouco ou nada se faz pelo necessitado. Algumas montam uma cesta básica por mês e acham que já fizeram a sua parte social.
O mandamento é único e indivisível. Não há como amar a Deus sem me amar e ao mesmo tempo amar ao próximo. Se amo ao próximo e por ele faço o que precisa ser feito, passa a amar-me e amo a Deus que o fez a mim também. Como posso amar a Deus a quem não vejo se não amo meu irmão a quem vejo, pergunta o escrito da carta joanina. Colocar uma hierarquia na obediência do mandamento, fazer do único mandamento um picadinho de mandamentos, estabelecer prioridades no amor, é erromenêutica, coisa de analfabeto bíblico e teológico.

Marcos Inhauser

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

NÃO SOUBE PARAR

Em viagem, passei o dia de sábado em quarto de hotel, com chuva e vendo o desenrolar das coisas no Senado. Ouvi cada pergunta e cada resposta. No domingo li o que eu pude sobre o processo de impeachment, ouvi programas específicos com especialistas e análises. Nesta segunda, assim que voltei ao hotel, tive a pachorra de ouvir na íntegra o discurso da Dilma, assim como peguei algumas das respostas que a Dilma deu às perguntas de senadores.
Há neste processo algumas coisas que quero salientar e comentar nesta coluna. A primeira é que, passados vários meses insistindo no mesmo discurso de golpe, os aliados da presidente não conseguiram reverter um só voto. Isto ficou claro na votação para a admissibilidade do processo e na votação na comissão. A proporção foi a mesma.
A segunda é que, no que pese todo o esforço feito, pouca ou nenhuma explicação plausível foi dada para os fatos apontados e denunciados. A tese do golpe foi repisada mil vezes, sem que nenhuma novidade fosse adicionada. Como diria o Einstein (ao menos é a ele que se atribui a frase): nada mais idiota do que esperar resultados diferentes fazendo sempre as mesmas coisas. Foi o que ela e seus aliados fizeram.
A terceira é que a tropa de choque no Senado foi histérica e histriônica. As atitudes, os comportamentos e as atuações das senadoras Gleisi e Graziotini, e do senador Lindenberg foram causadoras de uma atitude de defensiva e recusa de qualquer possibilidade de se dialogar.
A quarta é que não se esperava que a presidente fosse pessoalmente ao Senado se defender. Ela o fez. E o seu discurso lido foi um posicionamento claro, coisa não comum nas falas da presidente. Se ela tivesse parado e ficado nele, teria conseguido desmontar muita coisa. Ela, no entanto, cedeu à tentação de responder às perguntas. Aí a coisa se complicou.
Eu me explico. Se ela tem alguns neurônios na cabeça e se tem ouvidos para conselhos, deveria ter feito o discurso e se retirado. Ela sabe e todos sabem que a votação está definida. Ela sabe e todos sabem que não vai se reverter o resultado previsto do processo. Se ela sabia que não mudaria os votos e o resultado, porque insistir em responder perguntas? Será que havia nela e no grupo a veleidade de que poderiam mudar as coisas? Se ela tivesse denunciado que estava ali em um julgamento que já havia se definido há tempos, por que ela não acentuou a característica de jogo marcado do julgamento?
Teria marcado posição, teria feito um discurso para a história e deixaria a sala se recusando a participar de uma coisa pró-forma. Teria sido mais contundente se recusasse a responder aos questionamentos. Do bom discurso inicial ela passou a um péssimo desempenho ao responder as perguntas, assumindo o tom arrogante, professoral e a insistência nas expressões “eu acho”, “estou convencida”. Nada de mea culpa para uma recessão de magnitude nunca antes vista, para a insistência em manter o eterno ministro das desgraças econômicas, o responsável pela “contabilidade criativa” (Mantega, que não está sendo julgado pelas lambanças que fez). Nenhuma menção a Lula, ao PT, aos apoiadores enrolados com a justiça (Lindenberg, Gleisi, Wagner, Mercadante, Lula, Humberto Costa, e outros mais).

Ela não soube parar. Falou mais do que devia e a sobriedade e sabedoria ensejavam. Foi verborrágica de uma tese só: repetitiva e irritante.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

QUANTO CUSTA UMA MEDALHA?

Havia me proposto a não falar das Olimpíadas porque, diante da profusão de notícias, comentários e críticas, eu seria repetitivo. Mas, cedo à tentação. Li no site da UOL que cada medalha que o Brasil ganhou custou R$ 194 milhões. O levantamento considera os investimentos diretos feitos por estatais, isenção, loteria, Forças Armadas e Ministério dos Esportes no período compreendido entre Londres e Rio de Janeiro.
Será este o único investimento? Estive em Seul alguns anos depois da Olimpíada e visitei algumas das construções feitas para as Olimpíadas de 88, assim como visitei as instalações de Beijing. Uma das coisas que ouvi nas duas cidades de moradores delas é que os complexos olímpicos se tornaram elefantes brancos.
Penso também no que custa uma medalha em termos de sacrifício pessoal. Inúmeros foram os que salientaram o tempo que estiveram afastados de suas famílias, da privação de muitas coisas, para que pudessem chegar onde chegaram. Michael Phelps, Usain Bolt, as duplas Diego e Nory, Jader e Flavinha, Alison e Bruno e muitos outros falaram, alguns com lágrimas, o quanto se esforçaram e sofreram (literalmente) para conseguir algo.
Virou bordão (ao menos na Globo) que a dor é o uniforme do atleta olímpico. As marcas de ventosa no ombro do Phelps, os muitos esparadrapos para enganar músculos doloridos, as baixas por contusões, os acidentes (Annemiek van Vleuten, ciclista que capotou na curva; Samir Ait Said que quebrou a perna ao saltar, e outros) provam que não falavam irrealidades. De um total de 11.544 atletas que participaram, quase 10% deles tiveram lesões. Os relatórios médicos das 92 delegações nacionais, revela que a metade dos 1.055 atletas que se machucaram durante a Olimpíada tiveram problemas nas pernas ou nos pés e outros 100 sofreram com contusões na cabeça. O boxe, o futebol, handebol, o hóquei, o tae-kwon-do e o levantamento de peso foram os que mais lesionaram atletas.
Para os que “chegaram lá”, será que vale a pena, se se considera a quantidade de dores sofridas e que, na quase totalidade dos casos, os acompanhará pelo resto da vida? O prazer de mostrar uma medalha compensa o sofrimento atual e futuro?
Fico a pensar que um dos charmes das Olimpíadas é a quebra de recordes. No entanto, um dia eles acabarão. O ser humano chegará ao seu limite. Depois, o que se terá, será a manutenção do que já se conseguiu? Será que alguém, algum dia, pelo uso tão somente de suas forças e músculos, conseguirá baixar o que já se conseguiu nos 100 metros rasos, ou nos 200 metros. Será que o recorde mundial do Cielo poderá ser superado? Quando o for, sobrará qual motivação para os atletas? Se não há mais chance de quebrar recordes, para que servirão as Olimpíadas?
É verdade que os esportes promovem o congraçamento dos povos e que as Olimpíadas se constituem em evento ímpar para isto. No entanto, deve-se pensar que isto se faz em clima de competitividade, de subliminar mensagem de superioridade desta ou daquela nação. Não fosse isto, por que a Rússia teria investido tanto em dopar seus atletas? Por que o “quadro de medalhas” é tão cobiçado e divulgado? O que dizer da música, da poesia, da literatura? Seria o caso de se ter eventos mundiais para estes segmentos?
Marcos Inhauser

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

IGREJA É GENTE

Não entendo que seja acidental o fato de que os evangelhos, as cartas e o Atos dos Apóstolos façam qualquer menção a um edifício que abrigasse alguma comunidade cristã nos primórdios da igreja. Sem espaço nesta coluna para me delongar na fundamentação histórica e fática de tal afirmativa, relembro que Jesus pregou seus sermões no monte, na praia, desde um barco, no interior de uma casa. Uma única vez o vemos em uma sinagoga. Relembro ainda que quando ele foi a Jerusalém e ao templo pela primeira vez, foi quando criança. Quando adulto, criticou o que ali se praticava, tendo derrubado as mesas dos cambistas.
Por ter sido perseguida, a igreja nascente teve que se esconder, fazer suas reuniões de forma quase silenciosa, em Roma se reuniu nos subterrâneos (catacumbas), teve seus líderes perseguidos, presos e martirizados.
Nos primeiros trezentos anos da igreja não se falou em edifícios, templos ou coisa que o valha. Tudo indica que isto começou a acontecer depois que o cristianismo foi considerado a religião oficial do império romano, por obra e graça (para alguns, desgraça) de Constantino. Porque agora era legal, oficial e abrigava o imperador, se devia ter construções que abrigassem ao imperador e seu séquito. Ele mudou a capital do império para Constantinopla (em homenagem a si mesmo) e ali construiu um palácio eclesial que fosse digno de sua presença. Nascia assim a catedral!
Esta associação do templo com o palácio real também se deu nos tempos de Salomão que teve o seu palácio ao lado do templo, com acesso privativo.
Esta associação levou o cristianismo a um caminho desviante: confundir igreja com edifício. Igreja é gente reunida em comunhão, nunca edifício. Igreja é feita de gente e não de tijolos, telhas, bancos, púlpito e holofotes.
Igreja é gente reunida em comunhão, que tem o compromisso de amar o próximo e ajudá-lo em suas necessidades. Igreja é o compromisso de atender ao pobre, à viúva, ao exilado, ao estrangeiro. Igreja é serviço, é doação, é lavar os pés.
Se olharmos para as religiões templárias (as que se apresentam em função do edifício que têm), o quanto arrecadam, o quanto gastam com a manutenção do patrimônio (limpeza, conservação, água, luz, pintura, faxineiros, etc.), aliado ao uso semanal que o elefante branco tem, constata-se que há um clamoroso desperdício de recursos na construção e uso dos edifícios. E o pobre, a viúva e os demais necessitados pouco ou nada tem de ajuda destas comunidades templárias.
Templos são locais maravilhosos para os narcisos se exporem. Congregam centenas, milhares, todos olhando à frente, para o iluminado pelos holofotes. Todos ouvem o que ele diz porque um potente sistema de som irradia o que ele fala. Templo não é lugar de conversa, diálogo, mútuo aprendizado, antes de exercício do monólogo do que sabe, que “ instrui a horda que não sabe”. No templo não se exercita comunhão, só a audição. No templo só ficamos sabendo das necessidades da organização: precisamos de tantos mil para terminar a reforma disto, para pagar o programa de rádio ou televisão, para reformar o telhado, etc.
No templo não se fala do pobre, porque não são bem-vindos: precisam estar decentemente vestidos, tomados banho e perfumados, como a maioria dos templários estão.
Igreja é gente, é serviço de amor ao próximo, é comunhão íntima que se tem nos pequenos grupos. Igreja é conhecer gente, é saber das suas histórias e necessidades, é envolver-se com o outro. Igreja é ser família, a família da fé que é tão família quanto pai, mãe e filhos.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

NEYMAL E NEYMARTA

Sou leigo em futebol, mas sei quando um jogador está abaixo da média ou jogando mal. Não preciso de comentaristas esportivos para dar meu diagnóstico, ainda que os ouça e leia para me certificar da avaliação que faço. Assisti aos dois jogos da seleção olímpica e fiquei irritado. Ainda mais com as explicações dadas: “jogamos bem, só faltou a bola entrar”. Há tempo venho atravessado com o Neymar. Ele me faz lembrar algo que ouvi no Peru sobre o Alan Garcia: “ele é pomada, só serve para uso externo”. Ele me dá a impressão de que só joga no Barcelona e aí me pergunto: será que joga porque tem bom meio de campo para lhe dar bolas açucaradas e companheiros como Messi e Suarez para azeitar as coisas? Porque, até hoje, e até onde minhas lembranças alcançam, ele não teve nenhuma atuação destacada e brilhante jogando pela seleção? A camisa amarela pesa? Mais que isto: porque, de forma irresponsável, se envolveu em encrencas que o tiraram dos jogos da seleção. Não gostava do Dunga? Ou a seleção não faz parte dos seus planos? O seu descontrole ao final da última partida, na condição de capitão da seleção, é porque estava emocionalmente comprometido ou algo pensado e executado para cair fora dos jogos e do certame, tal como ocorreu na Copa América? Ainda não entendo como uma pessoa que teve uma vértebra fraturada com uma joelhada nas costas, pôde, poucos dias depois, estar à beira do campo pulando e torcendo pelos companheiros. Ele se livrou por sorte do 7 x 1 ou já sabia algo de antemão? Como não censurar quem deixou a seleção por expulsão e no mesmo dia estava em balada com os amigos? Como um craque como ele, jogando pela seleção, erra tantos passes, perde tantas bolas e não dá um chute certeiro quando bate falta? Que tenha um dia de baixa, se entende. Mas ter 180 minutos e não fazer nada é suspeito. Como dar a ele a condição de capitão se já mostrou que é esquentado e, de forma irresponsável, arruma confusão. Pode um capitão, no que pese a força de um contrato, sair sem dar uma palavra à imprensa, nem ao término da partida, nem depois do jogo? Quando a torcida comparou Neymar à Marta não estava ironizando. Ela percebe a diferença de postura, atitude e comportamento entre ambos. Do lado da Marta sobra humildade, empenho, compromisso e qualidade. Os muitos memes, as muitas piadas e a repetição do coro pedindo a Marta na seleção masculina quando do jogo contra o Iraque, mostra que o Neymar está Neymal. Ela já foi escolhida cinco vezes como a melhor do mundo e com todos os méritos. Ele nunca o foi e se continuar assim nunca será. O que a torcida espera é que o Neymar deixe de ser o incensado, badalado e alçado à condição de maior estrela do futebol brasileiro. Deixe de ser Neymal e passe a ser um Neymarta: aprenda com ela a jogar em equipe, ser sério, comprometido, humilde e menos baladeiro. Marcos Inhauser

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

NUMEROLATRIA

Chama-me a atenção como as igrejas e os membros delas estão obcecados pelos números. É só perguntar a alguém qual a igreja que frequenta e, invariavelmente, dará o nome da igreja e em seguida emendará alguns números: “temos um templo para 8.000 membros”, “nossa igreja tem 17 pastores”, “recebemos 154 pessoas por batismo no domingo passado”, “a arrecadação da nossa igreja tem uma média de R$ 250.000 por mês”, “temos 345 grupos familiares”, “tivemos um culto abençoado e 87 pessoas foram à frente se decidindo por Jesus”, “nossa igreja sustenta 12 casais de missionários nos campos”, “estamos construindo um templo para 10.000 mil pessoas”, “fazemos a oração dos doze apóstolos”, “impetramos a benção dos 318 servos poderosos”, etc.
Cada qual quer impressionar com a grandiosidade dos números apresentados, como se a pujança e o vigor de uma comunidade estivessem nos números que apresenta. Eles avalizam a prática ministerial, teológica, programática e doutrinária da igreja. É um tipo de “os números validam a prática”. Quanto maiores forem eles, mais acertada estará a comunidade no seu entendimento da vida religiosa.
Ao anunciar um convidado especial, fazem 1questão de dizer que o mesmo é pastor de uma igreja de tantos mil membros em algum local desconhecido, de preferência no exterior. Dá mais autoridade ao convidado e a quem o convidou. Há pouco tempo fui buscar um amigo que participava de uma convenção dos numerólatras. Com voz triunfante anunciavam que há menos de 10 anos tinham começado com 55 pessoas reunidas e que naquele momento estavam com 2.300 pessoas na atual convenção. E desafiavam a todos para que, no próximo ano, chegassem a 5.000.
A busca dos números superlativos para uma comunidade se transformou em uma idolatria. Eles são a certeza da benção, da garantia do acerto da prática ministerial. Eles validam qualquer prática, desde que os templos estejam cheios. Grupos pequenos são sinônimo de fracasso.
Certa feita, convidado a pregar em uma igreja que nunca tinha visitado, tive o pastor da Igreja afirmando que a certeza de que Deus estava no meio deles era que havia gente até do lado de fora do templo. Não aguentei. Mudei o sermão: “onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estarei”. Afirmei que só podia garantir a presença de Deus, segundo as Escrituras, quando dois ou três estivessem reunidos em Seu nome. Mais que isto era temerário. Não preciso dizer que nunca mais me convidaram para pregar naquela igreja.
Arrecadação, frequência, membresia, programas, festas, cultos especiais são o alvo maior porque se pode contar e propagandear as façanhas. Comunhão, serviço ao próximo, ajuda ao necessitado, visitas aos enfermos, apoio ao que sofreu perdas significativas, não dão Ibope. Muitos frequentam esta ou aquela igreja porque não precisam se envolver. Vão, assistem, e saem. Outros frequentam esta ou aquela igreja e fazem questão de colocar um adesivo no carro, porque aquela igreja tem grife, tem números!
Seria a ênfase nos números uma necessidade para que uma comunidade se caracterize como igreja? É o número dos que frequentam que validam a existência? É o tamanho do templo a garantia de que se está em um local sagrado? São os 45 minutos de louvor que fazem um culto ser uma benção? É o número de músicos à frente o que abençoa?

Se na antiguidade se condenava o deus mamon e o da fertilidade, hoje se deve combater o deus da grandiosidade e dos números.
Marcos Inhauser

A NOBREZA DO ANONIMATO

Transcrevo aqui mais um texto do meu amigo e colega Marcos Kopeska.
Acredito serem poucas as pessoas a viver absolutamente satisfeitos com suas identidades e realizações. Parece que temos a tendência de ambicionar ser o que não somos e vivemos insatisfeitos como nossas conquistas e identidade. Ouvi a respeito de Julio Cesar, um dos maiores estadistas da história que foi flagrado por um assessor em choro copioso ante a estátua de Alexandre Magno. Quando perguntado da razão do choro, respondeu em desconsolo: “Choro porque não sou Alexandre, o Grande, que quando tinha mesma idade que tenho, conquistou seu fabuloso império.” Cabe ressaltar que Alexandre Magno, da Macedônia, foi o general mais vitorioso e de estratégias minuciosamente perfeitas, seguido por Julio Cesar, imperador de Roma que veio quase quatro séculos depois.
Penso que em maior ou menor escala, muitos de nós somos “Julio César”, chorando por não sermos quem  gostaríamos de ser, comparando a idade que temos com as idades que tinham nossos heróis quando dos seus grandes feitos. Acontece que essa cobrança perversa nos impede de descansar naquilo que somos e nos tolhe de sentirmo-nos dignos pelo que somos, no tempo em que chegamos onde chegamos.
Confesso que, em certa ocasião, senti-me desnorteado sabendo que Charles H. Surgeon escreveu seu primeiro tratado de teologia sistemática aos dezesseis anos de idade, enquanto aos dezesseis eu nem ao menos falava em público. Senti-me inútil ao ler que Billy Graham, aos trinta anos, já influenciava o mundo pregando sermões impactantes e sendo conselheiro pessoal do presidente dos EUA, enquanto eu aos trinta, patinava sofregamente no inglês e vivia enfurnado nos meus dilemas de pastor interiorano. Senti-me inadequado quando olhava para quem tinha mais de cem livros publicados, tinha doutorado em teologia, era conferencista, enquanto eu, com quarenta e dois apenas administrava os caprichos de um grupo de líderes nepotistas e confusos da igreja local. Confesso que demorei para fazer a oração de Davi registrada no Saltério: “Senhor, não é soberbo o meu coração, nem altivo o meu olhar; não ando à procura de grandes coisas, nem de coisas maravilhosas demais para mim.” (Sl 131:1). Cheguei à conclusão que o que vale é a relevância e não a importância. Descobri que, por vezes, apenas o existir e cumprir fielmente nossa missão, é o maior legado que podemos construir. Atinei-me de que, em muitas ocasiões, somos “João Ninguém” aos nossos próprios olhos, vivendo na linha mediana da existência, não obstante ao longo da história colocarmos em funcionamento importantes engrenagens que farão parte do agir de Deus no tempo.
No presente não avaliamos os desdobramentos que apenas se revelarão no futuro. Quando penso nisso, logo lembro do discípulo de Damasco, Ananias, instrumento usado por Deus para orar por Saulo de Tarso, quando da sua conversão e batismo do apóstolo. Ananias batizou Saulo e desapareceu da história da igreja, enquanto Saulo se levantou com inegável intrepidez para ser o maior teólogo e missionário da história. Ananias foi uma destas engrenagens da história do cristianismo e o desdobramento foi a evangelização do mundo de então. Ananias não foi importante, mas relevante.

Sendo assim, não sejamos afoitos por holofotes, mas desejemos manifestar a soberania absoluta de Deus na cronologia da vida, mesmo que você nunca venha a saber dos desdobramentos finais. Creia, nenhum anonimato é pobre e desvalido, se Deus é soberano na história. Há nobreza em apenas ser uma destas engrenagens da história quando o desfecho é a glória de Deus. Isso nem sempre é importância, mas sempre será relevância.

O AMOR NÃO É ...

O amor não cobra. Quando se ama não há o direito de cobrança da pessoa amada pelo fato de que o amor não pode exigir respostas positivas da parte da outra pessoa receptora do meu amor. Ele é um ato incondicional da minha parte para com ela e querer cobrar o outro pelo fato de eu o amar é uma desautorização do meu sentimento, porque o ato da cobrança violenta o ato do amor e o transforma em algo de significado zero.
O amor não é proprietário. Amar alguém não confere o direito de propriedade. O amor proprietário é um dos grandes problemas da humanidade e o é pelo fato de que as pessoas, por amarem, se sentem donas do outro e no direito de controlar a vida do outro, de estabelecer limites, seja para a roupa que veste, o cabelo que pode ter, onde pode ir, com quem pode conversar. O amor não pode se sentir dono do outro que só é o destinatário dos meus sentimentos e atos de amor. O amor nunca toma posse. O amor possessivo, ciumento é doentio, é patológico.
O amor não é investimento. Não se pode amar alguém hoje, fazer coisas em benefício dele e amanhã cobrar alguma resposta, retribuição ou recompensa pelo fato de eu o ter amado e o ter beneficiado. O ato do amor não exige pagamento. O ato do amor é uma doação incondicional e gratuita.
Outra característica do amor: ele é doação. Foi o que Deus fez. O texto diz: “porque Deus amou o mundo, deu o seu filho”. Outro texto diz que Deus provou seu amor para conosco no fato de ter Cristo morrido por nós, de ter se dado por nós. Outro texto vai dizer que ninguém tem amor maior do que dar a sua vida em favor do outro. Amar é entregar-se ao outro. Quando se dá não se espera nada em troca.
É verdade que o ápice do amor é amar e ser amado por quem se ama. O clímax do amor é ter o agradecimento do outro por ter recebido. Amar e ser amado por quem se ama ou amar e receber a gratidão da pessoa amada não deve ser condicionante para amar.
O amor não precisa dar provas. Ele é a prova em si mesmo. O ato de amar, que é o ato de fazer algo em benefício do outro é, em si mesmo, a prova inteira do amor que se tem. O amor se vive e se faz presente no ato. Ainda que existam algumas expressões, inclusive bíblicas, no sentido de dizer que Deus prova o seu amor para conosco, o texto vai mostrar que a prova do amor está no próprio ato de amar.
Amar não tem limites. Quando se ama, há entrega, doação completa. O amor não aceita ou não impõe restrições. O amor libera as coisas positivas, os atos das pessoas que amam e elas se sentem libertas, felizes. Ele também liberta as pessoas amadas porque, ao receberem o amor, são por ele beneficiadas e libertas. O amor não infelicita. O que infelicita é o ciúme, que mata ao controlar o objeto amado.
O objetivo maior de quem ama é ver o amado sendo promovido, crescendo, florindo, desabrochando para a vida. O amor coloca sorriso nos lábios de quem ama, lágrimas de alegria na face de quem é amado. O amor promove a vida, perdoa, não se ressente do mal e não busca o seu próprio interesse.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 13 de julho de 2016

GESTOS DE AMOR

A Igreja da Irmandade está há 106 anos na China. Começou com um trabalho médico, teve algumas igrejas, com a revolução maoísta elas foram fechadas e ficou o trabalho médico. Eles hoje têm uma casa de acolhimento de doentes terminais, na quase totalidade com câncer, sendo uma das poucas existentes no país.
Um dia receberam um doente muito mal. Não tinha parentes e vivia completamente só. Acolhido, recebeu tratamento, carinho, atenção e aquilo se tornou no seu lar. Um dia a cuidadora perguntou a ele qual o desejo que ele tinha a ser realizado antes que morresse. Muito constrangido disse que queria lavar os pés. Ela, seguindo a tradição anabatista do lava pés, tomou da bacia, toalha e água e lavou os pés daquele moribundo. Ao terminar, ele segurou a mão dela e disse: “há dezoito anos que não lavo os pés, porque não conseguia”. Ele faleceu pouco depois.
A Igreja da Irmandade está há mais de vinte anos na República Dominicana. Já tratei aqui, por três vezes, da surreal situação dos filhos de casais haitianos, ou de um casal em que um deles é haitiano e que os filhos nasceram na República Dominicana. Não podem ter certidão de nascimento, e por isto não têm acesso ao sistema público de saúde e educação. São indocumentados e apátridas. A igreja tem uma boa porcentagem de haitianos, tem trabalho em Bateis (vilas isoladas onde vivem os indocumentados e que se dali saírem podem ser presos), tem pastores haitianos e indocumentados.
Houve forte pressão internacional e o governo teve que abrir um processo de arrolamento dos haitianos/dominicanos (HD), para dar a eles uma cédula de identidade. Um dos pastores da igreja, HD, indocumentado, foi encarregado de mobilizar as pessoas, levá-las para fazer o registro e ajudar nas custas (verba da Igreja nos EUA foi dado para que este trabalho pudesse ser feito).  No meio do seu trabalho encontrou um senhor HD, doente, sem família, sem moradia, aterrorizada pelo medo de ser preso e deportado, sem consciência de que poderia ter a sua cédula de identidade. O pastor o tomou pelas mãos, fez o que devia ser feito: levou-o ao Departamento de Inscrição, testemunhou a seu favor, buscou descobrir onde tinha nascido, nome dos pais, etc.
O problema se complica ainda mais porque, em muitos casos, casais que iam ao hospital para o nascimento, de medo de serem presos e deportados, davam nomes fictícios e muitos apresentavam identidades de dominicanos que emprestavam seus documentos. Assim, encontrar o registro de nascimento não é o suficiente, porque o nome do pai ou da mãe pode estar adulterado.
No caso do velho senhor HD não conseguiram, mas pelo testemunho da igreja e do pastor que gestionava a seu favor, ele conseguiu a sua cédula de identidade. Mais: a igreja propiciou-lhe um local para morar.
Em uma de minhas viagens à RD estive em um Batei. Lá havia uma escola só para crianças indocumentadas e impedidas de frequentar a escola pública. Esta escola era fruto da dedicação de uma haitiana, legalizada na RD, que decidiu abrir a escola e mantê-la com as ofertas que recebesse. Ela tinha uma sala de aula, uma cozinha, um banheiro precário e um pátio para as crianças brincarem. A professora morava em uma barraca, ao lado de um alicerce de uma muito pequena casa que tentava construir. Perguntei a ela porque construiu antes a escola e ela me disse: “lá eu beneficio muito mais gente que construir uma coisa só para mim. Passo o dia na escola e só venho aqui para dormir. Minha vida está lá e de lá vai sair gente que vai mudar esta situação, beneficiando muito mais gente.”
Amar é simples. Não requer teologia, filosofia ou qualquer outra “ia”. É ir e amar.

Marcos Inhauser

A SIMPLICIDADE DO AMOR

Acabo de entrar em um restaurante na Times Square. Na entrada há um cartaz que diz mais ou menos isto: "não sou nada inteligente, mas sei o que o amor significa".
Durante uma semana participei, juntamente com minha esposa, de uma conferência da Church of the Brethren, onde o tema central foi a luz, e vários dos conferencistas estabeleceram a relação da luz com o amor. Um deles foi enfático ao dizer: "se há amor há luz, se não há amor há trevas". A luz explícita as oportunidades e os meios de se amar.
Se associo o que li na entrada do restaurante com o que ouvi nas conferências devo dizer que ninguém está isento de amar. Quem trabalha com pessoas carentes afirma que eles têm muita demonstração de amor, um tipo de demonstração espontânea e incondicional.
Se o resumo das leis do Antigo Testamento (amarás o Senhor teu Deus sobre todas as coisas) e do Novo Testamento (amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a si mesmo), o amor é a essência da espiritualidade. Como diz Paulo, o apóstolo, sem amor nenhuma ação é válida.
Amar até os tolos conseguem. Os que se creem inteligentes racionalizam e inventam desvios e obstáculos para o amar simples e benéfico ao próximo. Amar não é questão de inteligência, mas de simplicidade, inocência e despojamento do eu e das barreiras.
Amor é doação do eu, do tempo, das habilidades, do carinho, do ouvir sem julgar, do que tenho e o outro necessita. A oração ensinada por Jesus coloca o pão como "nosso". O pão "meu" é pecado porque avarento e egoísta. No pão meu não há amor, mas racionalização impeditiva do que deve ser " nosso".
Para o amor não há contra-indicação, nem efeitos colaterais adversos. Só o benefício da felicidade de sentir útil e significativo.

Marcos Inhauser

A FÉ TEMPLARIA

Vivemos há séculos com a vinculação estreita entre o templo e o culto, ao ponto de, para muitos, não haver culto sem ser realizado no templo. As reuniões cúlticas fora dos templos recebem nomes outros, mas não o de culto.
Esta herança a devemos à religiosidade do antigo Israel onde, com a construção do tabernáculo e depois do templo, se associou de tal forma as duas coisas que passou a fazer parte do DNA das religiões. O mesmo se pode dizer do islamismo, onde as mesquitas são elementos centrais na vida religiosa e há a preeminência de uma sobre as demais: Meca. O mesmo se aplica ao catolicismo, com a centralidade da Basílica de São Pedro na cidade do Vaticano.
Há, contudo, algumas considerações que devem ser feitas quando isto ocorre. Não se imagina um santuário sem sacerdotes ou uma casta de gente dedicada ao serviço religioso. Por serem os “mediadores” entre a divindade e os humanos, estes recebem alta consideração e respeito por parte dos adoradores. A palavra por eles proferida, a instrução por eles dada, o ensino por eles ministrado, passam a ter a chancela da superioridade, da infalibilidade, da inquestionabilidade. O que falam, fazem ou ensinam estão acima de qualquer suspeita. As suas mensagens são Vox Dei.
Esta concepção dos “dedicados ao serviço religioso” (seja lá qual o título que se queira a eles dar) facilita o surgimento de uma verticalização: Deus-sacerdote/bispo/apóstolo/pastor-povo. O Supremo se comunica com os fiéis pela intermediação de “vocacionados”. Estes, por gozar desta reverência e funcionalidade, não raro, assume ares de ditador espiritual e deixam o seu lado narcísico aflorar. Colocam fotos suas nas fachadas dos templos, sonham em ter um horário na televisão para serem vistos por milhares, querem ouvir sua voz na rádio. Sua visão teológica (quando as tem, o que é raro), suas doutrinas (quando não são coleção de podes e não-podes, o que é o mais comum), sua administração (quase sempre egóica), produz um ditador que invade a vida das pessoas e, para espanto, até os mesmo os quartos de casal, ditando o permitido e o pecado.
Porque vivem de manter e incrementar seu poder, fabricam leis e multiplicam pecados, produzindo o sentimento de culpa em massa. Passam a ter prazer quase orgásmico em ver os fiéis se sentirem pecadores, indignos, merecedores do castigo divino. Oferecem assim seus préstamos de mediadores da benção e da graça, sempre aliado à contribuição do dízimo e das “ofertas de amor”. Empreendem programas mirabolantes, alugam horários televisivos a peso de ouro e, quando chega a hora de pagar a conta, ao invés de reconhecerem que exageram no sonho, responsabilizam os fiéis pela manutenção de suas megalomanias narcísicas.
Para manter o poder e dar asas ao narciso, os fiéis precisam ir ao templo. Se em Israel todo judeu devia ir ao templo uma vez ao ano, se o muçulmano deve ir a Meca uma vez na vida, nos modernos templos-gazofilácio os fiéis devem ir tantas vezes quantos os dias da semana. Prestam a reverência ao ditador/espiritual, pedem orações, recebem a benção e, infalivelmente, são constrangidos a deixar a “ben$ão para o $ustento da obra do $enhor”.
Sem o templo não há culto, sem o templo não há “vocacionados”, sem o templo não há salvação. Quanto maior for o templo, mais benção há. Por isto, os narcisos/ditadores/arrecadadores, precisam construir seus palácios: o templo de Salomão, o Santuário para quinze mil pessoas, o maior templo do mundo, a Casa de Deus. Fora do templo não há fé, milagre ou livramento.
Todos ao templo é o lema. Quanto maior o templo, mais bonito você está na fita e mais gratificado está o ditador/arrecadador.
A religiosidade não-institucional, não mediatizada, de pequenos grupos caseiros não é expressão de culto e fé. É subversão. Sem guru não há edificação.

Chegamos ao tempo em que o Espírito Santo pode ser aposentado!
Marcos Inhauser

quinta-feira, 16 de junho de 2016

SEMELHANÇAS NA INCOMPETÊNCIA

Os dois nomes começam com a mesma letra.
Ambos têm cinco letras em seus nomes e três delas são consoantes.
Ambos têm duas vogais e terminam seus nomes com a mesma.
Ambos vêm do sul do país. Ambos começaram suas carreiras por cima e tiveram suas funções por apadrinhamento. Tiveram uma mão milagrosa para adentrar ao mundo dos “iluminados”. Os dois tem seus assessores próximos com nomes que lembram tempero: Cebola e Mantega. Ambos têm seus defensores gratuitos: Gilmar Rinaldi e José Eduardo Cardoso.
Ambos têm a estranha capacidade de sempre culpar os outros pelos seus infortúnios, de nunca reconhecer seus erros, de não se enxergar. No que pese o descalabro de suas atuações, ainda vendem a imagem de que tudo foi maravilhoso e que querem “bola prá frente”. Ela quer voltar para fazer o mesmo que fazia. Ele quer continuar para fazer o mesmo que sempre fez.
Quando falam e discursam é necessário um intérprete para entender. Prolixos e com lógica questionável, deixam os ouvintes aturdidos e se perguntando: o que foi que queriam dizer?
Ambos são avessos a qualquer mudança. Repetem ad nauseam as mesmas frases e conceitos e, diante de uma situação que exige decisão ousada, ficam catatônicos. Ela, diante da possibilidade concreta de ser afastada, ao invés de tomar decisões que mudassem o curso dos fatos, preferiu se colocar de vítima, chamando os que pediam mudanças (o que ela é incapaz de fazer) de golpistas. Ele, diante da derrota iminente, trocou um jogador leve e talvez o mais atuante em campo, por um pesado e que não ficava dentro da área como referência para os lançamentos. Tendo ainda duas substituições para fazer, olhava para o campo com cara de espanto, paralisado. Deixou de orientar a equipe, não fez o que dele se esperava e criticou o juiz por validar um gol irregular.
Ela estudou economia. Quem estuda economia não é garantia que venha a ser economista, assim como quem estuda filosofia ou teologia não é garantia de que venha a ser filósofo ou teólogo. Há uma distância entre estudar a matéria e ser economista, filósofo ou teólogo. Posso saber de economia, filosofia ou teologia e nada mais que isto. Ela não percebeu isto e se arvorou economista e na sua gestão produziu um déficit histórico, um desemprego na casa dos quase 12 milhões e a proliferação de “vende-se” ou “aluga-se” em função dos milhões de negócios fechados.
Jogar futebol não credencia a ser técnico de futebol. Uma coisa é jogar, outra é ser líder de uma equipe que coloca as peças certas no lugar certo. Uma coisa é fazer um lançamento em profundidade, outra é fazer uma substituição. Nem todos os bons jogadores são técnicos e há os que, tendo sido bons jogadores, se aventuraram na carreira e não tiveram sucesso ou tiveram que abandoná-la. Aí estão os exemplos de Zetti, Mario Sérgio, Roque Júnior, entre outros. Ele conseguiu dar ao Brasil a segunda maior vergonha no futebol: ser eliminado na primeira fase da Copa América.
Um estudou economia e não é economista. Outro jogou futebol e não é técnico. Os dois são incompetentes nas “profissões” que abraçaram. Ambos são incompetentes. Nos dois casos, quem pago o pato é o povo: com o desemprego, inflação alta, falta de perspectiva e vergonha de, sendo pentacampeão mundial, amargar um 7 a 1 e a gora a eliminação precoce.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 8 de junho de 2016

JOÃOZINHO FIM-DO-MUNDO

Acordei dias destes lembrando dele. Eu o conheci há mais de 35 anos. Mais velho que eu uns 25 ou trinta anos, era membro de uma igreja da mesma denominação que eu. Ele era de estatura baixa, do tipo de pessoa que nasceu ligado em 220. Falante, com alto grau de extroversão, trabalhava em uma grande empresa “fazendo os serviços de rua”, que era como ele definia seu trabalho. Eu era pastor na cidade e o encontrava ao com regularidade na agência do Banco do Brasil. A cada encontro ele vinha me perguntar algo e afirmava: “é o fim-do-mundo, pastor”.
Esta sua obsessão pelos temas apocalípticos rendeu-lhe a alcunha de “Joãozinho fim-do-mundo” e como tal era conhecido na cidade. Eu nunca soube de onde surgiu esta sua obsessão/compulsão. O certo é que o tema o fascinava. Tinha um conhecimento superficial do Apocalipse, tratava-o e interpretava-o ao sabor dos fatos e cada novo evento de alguma relevância, tanto no cenário nacional como internacional, ele via como “sinal do fim dos tempos”.
Lembro-me da primeira vez. A eleição presidencial dos Estados Unidos de 1980 disputada entre o presidente democrata em exercício, Jimmy Carter, e seu adversário republicano, Ronald Reagan, com a crise dos reféns no Irã de pano de fundo. Para ele era sinal dos tempos que um “evangélico” (Jimmy Carter) tivesse perdido por causa do fiasco no resgate dos reféns que estavam em um país islâmico.
Relembrando-me dele e suas questões apocalíticas, imaginei que hoje ele viria com a afirmação: “é o fim-do-mundo, pastor. O que está acontecendo no Brasil é o fim-do-mundo. Neste apocalipse que estamos vivendo, quem seriam as duas testemunhas apocalíticas? E os cavaleiros? O que seriam as trombetas?”
Como era de seu estilo, as perguntas eram retóricas. Vinham acompanhadas das respostas que, na sua livre interpretação, se permitia fazer. Acho que diria que as duas testemunhas são o juiz Moro e o procurador Janot, ou o Teori, que as trombetas que anunciam desgraças são dos delatores premiados, que os líderes do Senado e Câmara são os cavaleiros do Apocalipse, todos trazendo desgraças ao país. Talvez se atrevesse a, considerando certas menções a dias de penúria, fixar a data para a queda definitiva da Dilma. Fiquei pensando em quem ele colocaria como Anti-Cristo e achei que ele tascaria o título ao Cunha. A Besta, com seu temível 666, poderia ir para o Temer, o Lula ou o Renan. Também poderiam ser contemplados com o título o Léo Pinheiro ou o Marcelo Odebrecht. Com certeza diria, por causa da sua visão pré-milenista pré tribulacionista, com toda a ênfase que pudesse: “estamos na grande tribulação, pastor”.
Na manhã desta terça fiquei a pensar como ele harmonizaria suas livre interpretações com a nomeação da ex-deputada Fátima Pelaes para a Secretaria da Mulheres, no que pese ter contra si graves denúncias de desvio de verba; das citações escabrosas quanto ao ex e atual ministro do Turismo, o Henrique Eduardo Alves e, principalmente, com a notícia de que o Janot pediu a prisão do Jucá, do Renan e a prisão domiciliar do Sarney. Talvez ele visse o princípio do fim.
De uma coisa tenho que concordar com o bordão do Joãozinho Fim-do-Mundo: é o fim-do-mundo! Não na sua literalidade, mas na interpretação alegórica de ser algo que nunca se pensou que a coisa pudesse chegar a tal nível de descalabro.
É o fim-do-mundo!
Marcos Inhauser

quarta-feira, 25 de maio de 2016

PEDÓFILOS E CORRUPTOS

Na minha “santa inguinorança” da medicina psiquiátrica e da psicopatologia, tenho a informação de que psicopata, especialmente os que se revelaram como tais já adultos, não têm cura. Também tenho a informação de que os pedófilos são psicopatas e, por conseguinte, incuráveis.
Isto explica porque eles, mesmo sendo descobertos e penalizados por seu comportamento, voltam a delinquir. Há estados dentro dos Estados Unidos e, se não me engano, também em alguns países da Europa que, ao libertarem o pedófilo por terem cumprido a pena, são devolvidos à sociedade e um alerta é dado à vizinhança para que o indivíduo seja monitorado, com vistas a evitar que pratique a pedofilia outra vez. Isto também explica porque muitos sacerdotes e pastores flagrados no crime, são tratados com certa benevolência pelas autoridades religiosas que os move para outros lugares, na esperança de que não voltem a praticar o crime, o que, no mais das vezes, não acontecesse e ele reincidem.
Nestes tempos de Lava Jato e declarações públicas de indiciados e réus, tenho sido levado a apensar em um novo tipo de psicopata: o politicopata. Ele se apresenta com a maior cara-de-pau tentando explicar o batom na cueca, com a maior desfaçatez e hipocrisia. A certeza deste enfermo (sic) veio com as “explicações” do Romero Jucá para a divulgação de uma conversa nada republicana que manteve com o ex-senador e ex-diretor da Transpetro. A cara-de-pau em explicar o inexplicável, o malabarismo feito para contornar interpretações que saltam do texto de forma inequívoca, a cara de vítima e santarrão, me levaram a pensar que ele é extremamente inteligente e sem nenhum sentimento (ambas características do psicopata).
A revelação de um corrupto traz-nos à tona a sua corrupção não só no nível da propina, mas na capacidade que ele tem de corromper o idioma e o sentido estabelecido da palavra. O Jucá teve a capacidade de, sem ficar vermelho, dar ao termo “boi de piranha” sentido completamente diferente daquele que todos os brasileiros lhe dão. Corrompeu o sentido useiro e vezeiro da palavra.
Para não restar dúvida da sua capacidade de corromper, também ressignificou a palavra “delimitar”, dizendo que era investigar e punir quem de merecia condenação. O sentido dicionário de “colocar limites”, “estancar”, “parar” foram para as calendas.
O Jucá, quem tem mais tempo na política que muitos, é um boquirroto e um bravateiro. Dizer que poderia haver um pacto nacional, com os três poderes, para “delimitar” a Lava Jato, é coisa de gente insana, seja pela impossibilidade real, seja pelas circunstâncias atuais.
São politicopatas o Zé Dirceu (mesmo condenado pelo Mensalão, continuou a delinquir), o Genu (que zombou do Judiciário e transferiu o esquema do Mensalão para o Petrolão), o Cunha e sua impassividade circunstancial que se traduz em vingança hepática, o Renan e sua fleuma em dar a entender que nada o atinge, o André Moura quem, mesmo tendo uma extensa folha corrida com acusação de tentativa de homicídio se afirma inocente e se apresenta como líder do governo, e muitos outros que o tamanho da minha coluna não me permite nominá-los.
Seria o Temer um autista político quem, mesmo vendo o seu entorno e as pessoas que com ele se relacionam, ignora as advertências e segue em frente como se nada pudesse acontecer?
Marcos Inhauser

quarta-feira, 18 de maio de 2016

TEMER(IDADES)

O sentimento de indignação com a corrupção está à flor da pele dos brasileiros. Não há dia que algo novo não venha à tona, envolvendo os mais variados setores da economia, os mais variados personagens, tanto na esfera pública como privada, tanto tubarões como lambaris. A coisa transpareceu na Câmara, quando da votação da admissibilidade de julgamento da presidente. Muitos (se não a maioria dos deputados), ao explicitar seu voto no festival de babaquices que se viu, declarou o desejo de colocar um fim à corrupção, ainda que o assunto não fosse o que estava em pauta e nem era o que se votava.
Com isto, vejo que a nomeação do ministério feita pelo presidente-interino Michel Temer foi uma Temer(idade). Indicar sete ministros que estão sendo acusados pela Lava Jato é uma temeridade. Sei que ninguém é culpado a priori, que só se torna culpado depois de sentença transitada em julgado, que a pessoa é inocente até que se prove o contrário. Ocorre que, salvo raríssimas exceções, os que tiveram seus nomes citados pelos delatores premiados foram posteriormente investigados e se comprovou o que diziam. Aí está o caso do Eduardo Cunha, do Delcídio Amaral, do Argolo, do Pedro Henry e outros mais.
Ter o ministro Eliseu Padilha é uma temeridade. Ele foi acusado de ser lobista, de ter atuado em favor de empresas e de ter pago dois milhões de forma ilícita. A acusação foi feita em 2003, a ação foi impetrada em 2013 (!!!) e até agora nada de julgamento.
O Geddel Vieira Lima é acusado de ter desviado mais de um milhão da corretora de valores do Baneb (1999), o que lhe custou a demissão do cargo que ocupava. Ainda pesam sobre ele o fato de ter mensagens interceptadas nas quais advogava a favor da OAS, o que lhe garantiu recursos para sua candidatura ao Senado, graças à “generosidade” do Léo Pinheiro.
O ministro Moreira Franco teve um apartamento leiloado pela Justiça (1997) para que se devolvesse dinheiro utilizado indevidamente para enaltecer as suas obras à frente do governo do estado do Rio.
O ministro Henrique Eduardo Alves, quando da sua eleição para a presidência da Câmara em 2013 teve uma série de acusações feitas contra ele: de ter dinheiro não declarado no exterior, contratar empresa laranja, beneficiar assessor, entre outras.
O ministro Blairo Maggi ganhou o prêmio Motosserra de Ouro, já foi considerado como um dos mais ferrenhos apoiadores do desmatamento, é conhecido como rei da soja (título que perdeu para Eraí Maggi). O estado de Mato Grosso forma o "Arco do Desmatamento" (a parte da Amazônia mais desflorestada) e o desmatamento do estado dobrou no seu governo. Uma temeridade colocá-lo no Ministério da Agricultura.
Temeridade foi a entrevista do ministro da Justiça, falando o que não era hora de falar e dando cordas para uma série de interpretações, inclusive a de que o novo governo interferiria na Lava Jato. Na mesma linha, também a entrevista do ministro da Saúde (que recebeu financiamento de campanha de planos de saúde), quem disse que o SUS precisa ser readequado, o que provocou celeuma e ele teve que recuar no mesmo dia.
Temeridade é chamar sindicalistas para que proponham mudanças na Previdência. Pura perda de tempo, porque nunca apresentaram nenhuma proposta concreta e não o farão agora.
Temeridade é ter um ministério com doze ministros que receberam, contribuições de empresas que estão na Lava Jato.
Temeridade é ter um ministério sem mulheres e negros.
Temeridade é querer mudar o Brasil nos seis meses que, porventura, estará em um governo interino, ou até 2018, caso venha a assumir a presidência.

Marcos Inhauser