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quarta-feira, 17 de agosto de 2016

IGREJA É GENTE

Não entendo que seja acidental o fato de que os evangelhos, as cartas e o Atos dos Apóstolos façam qualquer menção a um edifício que abrigasse alguma comunidade cristã nos primórdios da igreja. Sem espaço nesta coluna para me delongar na fundamentação histórica e fática de tal afirmativa, relembro que Jesus pregou seus sermões no monte, na praia, desde um barco, no interior de uma casa. Uma única vez o vemos em uma sinagoga. Relembro ainda que quando ele foi a Jerusalém e ao templo pela primeira vez, foi quando criança. Quando adulto, criticou o que ali se praticava, tendo derrubado as mesas dos cambistas.
Por ter sido perseguida, a igreja nascente teve que se esconder, fazer suas reuniões de forma quase silenciosa, em Roma se reuniu nos subterrâneos (catacumbas), teve seus líderes perseguidos, presos e martirizados.
Nos primeiros trezentos anos da igreja não se falou em edifícios, templos ou coisa que o valha. Tudo indica que isto começou a acontecer depois que o cristianismo foi considerado a religião oficial do império romano, por obra e graça (para alguns, desgraça) de Constantino. Porque agora era legal, oficial e abrigava o imperador, se devia ter construções que abrigassem ao imperador e seu séquito. Ele mudou a capital do império para Constantinopla (em homenagem a si mesmo) e ali construiu um palácio eclesial que fosse digno de sua presença. Nascia assim a catedral!
Esta associação do templo com o palácio real também se deu nos tempos de Salomão que teve o seu palácio ao lado do templo, com acesso privativo.
Esta associação levou o cristianismo a um caminho desviante: confundir igreja com edifício. Igreja é gente reunida em comunhão, nunca edifício. Igreja é feita de gente e não de tijolos, telhas, bancos, púlpito e holofotes.
Igreja é gente reunida em comunhão, que tem o compromisso de amar o próximo e ajudá-lo em suas necessidades. Igreja é o compromisso de atender ao pobre, à viúva, ao exilado, ao estrangeiro. Igreja é serviço, é doação, é lavar os pés.
Se olharmos para as religiões templárias (as que se apresentam em função do edifício que têm), o quanto arrecadam, o quanto gastam com a manutenção do patrimônio (limpeza, conservação, água, luz, pintura, faxineiros, etc.), aliado ao uso semanal que o elefante branco tem, constata-se que há um clamoroso desperdício de recursos na construção e uso dos edifícios. E o pobre, a viúva e os demais necessitados pouco ou nada tem de ajuda destas comunidades templárias.
Templos são locais maravilhosos para os narcisos se exporem. Congregam centenas, milhares, todos olhando à frente, para o iluminado pelos holofotes. Todos ouvem o que ele diz porque um potente sistema de som irradia o que ele fala. Templo não é lugar de conversa, diálogo, mútuo aprendizado, antes de exercício do monólogo do que sabe, que “ instrui a horda que não sabe”. No templo não se exercita comunhão, só a audição. No templo só ficamos sabendo das necessidades da organização: precisamos de tantos mil para terminar a reforma disto, para pagar o programa de rádio ou televisão, para reformar o telhado, etc.
No templo não se fala do pobre, porque não são bem-vindos: precisam estar decentemente vestidos, tomados banho e perfumados, como a maioria dos templários estão.
Igreja é gente, é serviço de amor ao próximo, é comunhão íntima que se tem nos pequenos grupos. Igreja é conhecer gente, é saber das suas histórias e necessidades, é envolver-se com o outro. Igreja é ser família, a família da fé que é tão família quanto pai, mãe e filhos.

Marcos Inhauser