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quarta-feira, 9 de setembro de 2015

CRISTÃOS POLÍTICOS OU POLUÍTICOS?

Há alguns cristãos que se envolvem com a política e confundem as luzes que vêm das Escrituras e da igreja como sendo as do programa de um partido político e acabam transformando sua militância como igual à sua vida cristã. Eles se esquecem que Deus não está em competição com a natureza, mas que Deus e somente Deus pode ser Jesus Cristo, perfeitamente humano e divino, não se confundindo com as coisas criadas como se estas fossem extensões do Seu ser, concepção ao gosto dos panteístas. Nenhum governo, programa de governo, partido ou programa partidário pode ser tão divino ao ponto de ser tomado como sendo manifestações do Reino de Deus. Este foi o grande problema dos adeptos da teologia do Destino Manifesto, que confundiram o American Way of Life como sendo o próprio Reino de Deus.
Os que se envolvem com a política partidária precisam se lembrar constantemente que Deus não fez e age no mundo via manipulação, violência, chantagem ou injustiça, tal como muitos dos mitos e deuses pagãos fazem. Porque Deus criou as coisas do nada (creatio ex nihilo), a criação foi um ato da mais pura generosidade e graça. Se os religiosos-políticos não entenderem isto (a generosidade e graça divinas na criação), eles se sentirão compelidos e autorizados a praticarem atos injustos, iníquos e corruptos.
É o amor e a qualidade dele, exercido por Deus na criação e na manutenção das coisas criadas, que define e determina a maneira como devemos viver em comunidade e que deve ser a vida em comunhão. A liberdade separada do amor só pode se tornar em licenciosidade, forma deturpada de amor e mera busca da felicidade. Assim procedendo, os programas terceirizam o amor, mas ao mesmo o privatizam como sendo atos de governo (vide Bolsa Família e outros programas sociais). Adicionam a este cardápio a departamentalização da comunhão: nós e eles, governo e oposição, eleitos e golpistas.
A igreja de Jesus Cristo e seus fieis não devem buscar o poder político como projeto eclesiástico. A igreja que se identifica com um partido ou o utiliza para ter mecanismos de pressão pela eleição de deputados via manipulação dos fieis para votar nos pastores e bispos da Igreja, deixou de ser igreja e passou a ser ente político. Deixou de servir para servir-se do poder.
Cristãos que se envolvem com a política devem ter consciência de que devem ser exemplo de integridade, serviço e amor ao próximo. Não podem estar associados ao serviço retributivo ao próximo, esperando recompensa em votos de possíveis favorecidos ou fazendo advocacia de porta de cadeia, nem podem ser forjadores de documentos falsos, mesmo que lhe emprestem certa legalidade, ainda que fajuta. Devem ser exemplo de trabalho em comunhão e nunca se enquadrar no que Pedro escreveu: “como dominadores sobre os que vos foram confiados” (1 Pedro 5:2,3). Devem dar o exemplo do serviço e nunca chantagear o rebanho com a “retirada da proteção espiritual que o pastor oferece”.
Como pode ser um cristão político, exercendo cargo no executivo ou legislativo se não deu exemplo no trato das questões de obediência aos princípios da Palavra (como não mentir, não roubar, não prestar falso juramento, não ameaçar, não chantagear, não se colocar como absoluto)? Terá ele mais ética no trato da coisa pública do que teve na relação com o próximo e com Deus? Como esperar que obedeça à Constituição se não obedeceu ao Estatuto e Regimento Interno de sua comunidade? Que usa da Igreja para lavar dinheiro de propina? Que recebe salário sem trabalhar? Que usa o nome da Igreja para legitimar seu trabalho solitário de angariar votos?
Há gente que se diz especialista em leis, não para cumpri-las, mas para burlá-las, para manipular juízes. Nisto está a diferença que um dia um estrangeiro me mostrou: “na Europa, quando se promulga uma lei, o povo busca como cumpri-la; no Brasil, diante da nova lei, busca-se como burlá-la”.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

CRER É PENSAR?

Há muita gente que entende haver antagonismo entre a fé e a racionalidade e as veem como excludentes: quem tem fé não pode pensar e quem pensa perde a fé. Para muitos, a ida dos jovens à faculdade ou universidade é de alto risco para a fé, porque muitos “se perdem”.
Há que considerar-se que o ser humano precisa pensar e é impossível viver sem fazê-lo. Conhecer fatos e entendê-los faz parte da essência da vida. Ainda que haja graus de interesse no descobrir das causas e desenvolvimento das coisas, todos têm um grau de interesse em saber das coisas. O pensamento é a ferramenta que promove a ação. Assim, o pensamento no contexto da ação é o que se manifesta no início e término do ato de reflexão sobre um fato ou situação dada. É a novidade do fato ou do evento que leva à necessidade de conhecer e agir diante dele e isto só se dá porque houve o pensamento. Coloca-se em ordem o pensamento, compreende e diante da compreensão decide o que fazer diante da novidade. Não há decisão e nem ação sem o pensamento, fruto da reflexão.
Conclui-se, então, que o pensamento não é estático, uma coleção de conteúdos guardados no fichário da mente e recuperado incólume a cada vez que dele se necessita. Ele é um jogo de operações vivas, atuantes, transformados pela nova experiência, interpretação e contexto.
Se pensar é entender o fato, o evento ou a novidade, nada mais lógico que a fé envolve o pensar. Se se crê em um Deus todo poderoso que nos surpreende a cada momento com a novidade de Suas ações, que pede que se cante cânticos novos a Ele todos os dias, que a cada dia pinta no amanhecer e no pôr-do-sol uma nova pintura, que a cada pouco nos maravilha com Sua graça, como ter fé “congelada”? A fé baseada em conceitos que vão para o freezer da memória e lá ficam inalterados até o dia da morte, não pode ser chamada de fé.
Um Deus que se mostra em novidade a cada dia e em cada situação, não pode ser adorado, servido e entendido com afirmações rígidas, inflexíveis, dogmáticas, sistemáticas. Por isto afirmo, e o faço no temor, que o conservador não entende de Deus. Deus não cabe nas afirmações dogmáticas, sistemáticas, nas teologias enlatadas e nas jaulas de templos onde impera a arrogância da ignorância. Ele pode dizer o que Deus fez no passado, mas nunca vai entender o que Ele está fazendo hoje e agora. Ele usa métodos arqueológicos para explicar Deus. Arqueólogos não podem ser criativos, mas devem ser interpretativos, com alto grau de “chutabilidade”. Tremo (de raiva) quando ouço frases como; “ a vontade de Deus nesta situação é...”; “o que Deus quer de você é...”; “Deus está usando isto para te ensinar a ...”; “tenho uma palavra de Deus para você...”, etc.
Os conservadores, e ainda mais os fundamentalistas, falam de um Deus do passado, mas não conseguem ver este Deus no caminhar junto aos seus no dia-a-dia. Creem no totaliter aliter, mas não acreditam no Emanuel (o Deus conosco, ao lado, passando comigo os perrengues da vida). O texto de Hebreus que afirma que “Ele em tudo foi igual a nós” é esquecido.
Creio no Deus que anda comigo no jardim do Éden que é a criação que Ele me deu para desfrutar e que me fala no sussurro da brisa, no barulho do gotejar da chuva, no canto dos pássaros e na palavra dos profetas, que me revela quem sou na Sua Palavra!

Marcos Inhauser

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

PASTOR, OVELHAS, LOBOS E TIGRES

Recebi este texto do Rev. Marcos Kopeska, amigo e colega de ministério, que edito para que caiba neste espaço.
“O profeta Jeremias, lá pelos idos do ano 600 a.C., alimentava uma esperança que reflete nosso anseio hoje: "...e dar-vos-ei pastores segundo o meu coração que vos apascentem com sabedoria e conhecimento." (Jr 3:15). Conta-se a fábula de um pastor que gostava muito de suas ovelhas. Elas não tinham presas, garras e nem chifres. Eram indefesas e o pastor prometeu defendê-las sempre. Jamais mataria uma ovelha para comer, por isso vivia de frutas e legumes e, se necessário fosse, passaria fome. Em razão da sua dieta era muito magro, por vezes debilitado, não obstante feliz com sua vocação. Nas cercanias moravam lobos que apreciavam churrasco de ovelha, por isso a atenção do pastor era intensa e incansável. O gostar de ovelhas, sob a ótica do pastor, tinha a ver com a lã da ovelha, mas sob a ótica dos lobos tinha a ver com churrasco.
Todo líder alega gostar de seus liderados, mas sob qual ótica? Pois bem, a notícia de que havia ovelhas por ali se espalhou e logo vieram hienas e cães morar com os lobos. O pastor impotente, com apenas um cajado, muniu as ovelhas de couraças, chifres e dentes de aço. As ovelhas, sem saberem lidar com o equipamento tornaram-se mais frágeis ainda e os churrascos mais frequentes. O pastor teve então a brilhante ideia: “Vou contratar tigres para cuidar do rebanho, mas precisam ser tigres vegetarianos.” Encontrou-os, contratou-os mas aos poucos eles foram degustando os restos de ovelha deixados e concluíram que carne de ovelha era mais palatável do que frutas e vegetais.
Os tigres fizeram um acordo com os lobos e hienas de que de dia cuidariam do rebanho, mas de noite comeriam juntos o churrasco de ovelha, ocasionalmente morta por causas “que fugissem ao seu controle”.
O pastor observando que os tigres estavam relapsos no cuidado, chamou-os para uma repreensão, mas ao longo da repreensão um tigre, sem dar muita atenção às palavras do pastor, perguntou: “Qual seria o gosto da carne de um pastor?” Outro respondeu: “Só provando para sabermos.” Entre a fala dos tigres, o pastor notou que entre os dentes de um dos tigres havia vestígios de lã. O pastor interrompeu a conversa, entendendo o que acontecia e propôs: “Vamos fazer um acordo...” A assim viveram felizes, num bom acordo de paz: pastor, lobos, hienas, cães e tigres. Vez ou outra comemoravam os avanços da paz com um churrasco de ovelha.
O pior é que parece ser este o padrão da relação “Igreja & Estado” a que chegamos em nossa Pátria mãe gentil. Alguns pregam que o cristianismo deve ser apolítico, mas aí os churrascos de ovelha serão mais frequentes e descarados. Outros creem que a igreja deva ser politiqueira, fazendo parte dos acordos em troca de favores. Ela se torna lobo ou hiena, menos ovelha. Creio que devamos promover ambientes cristãos de esclarecimento – apartidários - sobre temas relevantes que envolvam os próximos debates políticos da nação. Criar espaços onde as comunidades reflitam sobre corrupção, violência, modelo de família, assistencialismo, aborto, educação, ... Espaços onde nossos adolescentes conheçam uma nova consciência cidadã cristã. Espaços que levem o povo cristão às urnas, livres dos sutis enganos e das viciosas seduções da política partidária.  Ambiência de conscientização e reflexão, não de acordos.
Que Deus nos ajude a ter uma nação com pastores e ovelhas, mas sem churrascos após cada eleição.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

A COBIÇA DO PODER

Há no imaginário popular a ideia de um grande juízo no fim dos tempos, quando todos deverão responder pelos seus atos, toda a verdade se estabelecerá e a justiça prevalecerá. Nesta corrente vem o ditado popular: “a justiça dos homens falha, mas a de Deus prevalecerá”.
Este conteúdo escatológico que se dá à plenificação da justiça se deve ao fato de que, como humanos, cometemos injustiças e ao assim proceder, atentamos para a concretude da paz, porque não há paz sem justiça.
Na análise do comportamento humano (e isto já foi feito uma infinidade de vezes), há os que reduzem as mazelas comportamentais e a causa das injustiças, atribuindo à cobiça, por entender ser ela a causa mater de todos os pecados. Ela está elencada no Decálogo Mosaico e pode-se resumir nela todos os demais pecados. A cobiça do poder, a cobiça da mulher alheia, a cobiça dos bens alheios.
O relato da criação e queda do ser humano relatado pela Bíblia coloca o pecado primeiro na categoria da cobiça de poder: seriam iguais a Deus. O projeto de se tornarem mais do que eram os levou a tropeçar e perder o paraíso.
No mundo moderno a cobiça pelo poder ainda vige livremente. Os super-heróis das revistas em quadrinhos e mais modernamente dos filmes de ação, são pessoas dotadas de poderes ilimitados para combater os que querem assumir o poder sobre todos. Poder foi o que satanás ofereceu a Jesus durante a tentação.
Nesta tentação caíram muitos. Desde a antiguidade até os dias modernos há uma sucessão de pessoas que quiseram ser ultra-poderosos: os Faraós, os reis persas, babilônicos, Salomão, Alexandre, Napoleão, Hitler, os Bush (pai e filho). Temos hoje o norte-coreano Kim Jong-Un que não pensa duas vezes para eliminar quem não se conforma totalmente aos seus desejos totalitários.
Há partidos que cobiçam o poder e estabelecem planos para ficar X anos no poder. Lá chegando, aumentam o sonho e se locupletam para que a permanência possa ser indefinida. Fazem esquemas, montam lavanderias, compram fidelidades para assegurar a reeleição, compram o silêncio dos cúmplices, contratam advogados a peso de ouro, compram a maioria no congresso, buscam a própria estabilidade econômico-financeira.
Nesta cobiça do poder e da perpetuação nele, não se envergonham de fazer coisas condenáveis e, quando flagrados, saem com a cara-de-pau afirmando que sempre se fez assim, que não são os únicos, que a PF deveria se preocupar com questões mais importantes. Para a mídia, fazem declarações de inocência absoluta. Mesmo diante de extratos bancários comprobatórios, negam, de pés juntos, que o dinheiro que está na conta em seu nome e que tem a sua assinatura, não é dele e nem a conta lhe pertence.
Por ser o poder algo tão tentador e aderente, se assemelha a uma tatuagem: marca e se remove só parcial e cirurgicamente. Daí porque, na história da humanidade, as renúncias são mínimas e aconteceram em situações limítrofes: saúde abalada ou credibilidade zero, que gera um desgoverno.
Estamos em uma situação quase-limítrofe: pode piorar ainda mais. Os que propugnam a renúncia o fazem por candura, sem a concreta esperança de que ela se dê. O Nixon renunciou porque não tinha alternativas. O Collor tentou renunciar diante da iminência da cassação. O Blatter fez uma renúncia branca. Tem gente que prefere morrer a renunciar: Vargas e Allende.
A eleição é tão constitucional quanto a renúncia ou o impeachment. O que não é constitucional é o uso da mentira para se eleger ou reeleger.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

MOISÉS E EDUARDO CUNHA

O legislativo entrou na pauta das preocupações e atenções do povo brasileiro. No mandato do Eduardo Cunha, um ex-membro da Igreja Sara Nossa Terra e atualmente vinculado à Assembleia de Deus, tem traços que me fazem lembrar o Moisés bíblico.
O Moisés viveu no fausto do palácio do Faraó. O Cunha participou do governo Collor e por ele indicado foi para a presidência da Telerj onde reduziu os investimentos da empresa para se ajustar ao projeto collorido de privatizar as estatais. Para tanto, criou uma comissão de licitação vinculada a seu gabinete. O TCU constatou irregularidades na contratação de servidores, que deu tratamento privilegiado a alguns fornecedores e falhou na licitação para a edição de catálogos telefônicos. À época, foi acusado de superfaturamento ao ter assinado aditivo de US$ 92 milhões em contrato da Telerj. Viveu nos palácios colloridos!
Moisés teve um delito em sua vida passada, antes de assumir a condição de salvador da nação: ele matou o soldado egípcio e por causa disto teve que fugir. O Cunha tem muitas coisas a explicar relativas ao seu passado.
O Moisés se apresentou ao Faraó e ao povo como salvador da nação escravizada. O Cunha também o fez, apresentando-se como candidato que traria a independência a um legislativo submisso à maioria governista. Dez pragas foram necessárias para que conseguisse realizar sua obra. O Cunha, com sua pauta-bomba, já semeou algumas pragas na economia brasileira.
O Moisés teve a perseguição do Faraó que queria prendê-lo. O Cunha tem a Procuradoria Geral da República e a Polícia Federal atrás dele. O Moisés teve o Mar Vermelho à frente, o Cunha tem o STF e um ministro de cara avermelhada pelos traços étnicos. O Moisés passou incólume, o Cunha tem fé de que também passará.
O Moisés subiu ao monte Sinai e de lá voltou com as leis para o povo. Não houve a participação popular e desceu com a chancela do divino nas tábuas que trouxe. O Cunha subiu na cadeira presidencial e do alto deste seu Sinai, anda legislando a seu bel-prazer, mais para infernizar a situação que para beneficiar o povo. Há nele um messianismo achando que salvará a nação. Só ele se sente chamado.
Quando o legislador se afasta do povo para legislar, o povo padece com as leis promulgadas. Ainda que os Dez Mandamentos tenham valores até hoje aceitos, a jurisprudência feita pelos sacerdotes autorizou o matar a pedradas quem não guardasse o sábado, desobedecesse ao pai, a mulher que adulterasse. A lei pode até ser boa, mas os jurisconsultos a deturpam.
Não foi o caso de Jesus. Ao promulgar as bem-aventuranças (código relacional a vigir no ambiente da graça e do Reino, codificadas nas bem-aventuranças), Ele o fez com o povo à Sua volta. Subiu à montanha, mas não o fez no isolamento e sim na companhia de uma multidão. Não legislou em causa própria, mas rompeu com a lógica da justiça retributiva, muito usada pelo Cunha: fez, leva o troco.
O Moisés tem o testemunho que foi o homem mais manso que houve na face da terra. O Cunha tem o testemunho de ser violento, ameaçador e vingativo. O Moisés, ainda que tivesse sonhado com isto, não entrou na terra prometida. O Cunha, ainda que sonhe, não chegará à cadeira presidencial.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

JOVEM, CRISTÃO, XIITA!

Em conversa com alguns colegas pastores temos levantado e trabalhado a questão de uma geração que tem se mostrado conservadora e agressiva. As conversas iniciaram-se a partir da pergunta: como é que os grupos terroristas islâmicos conseguem arregimentar jovens, grande parte deles instruídos e vivendo em países com alto grau de desenvolvimento? A pergunta decorrente foi: como é que movimentos radicais, dentro do cristianismo, têm conseguido arregimentar jovens?
Esta pergunta, se bem me lembro nasceu com a notícia de que a Universal havia formado um pelotão de jovens denominado “Guardiões do Altar”, os quais, entre outros cânticos tem este: “Eu não temo a Batalha / Nem o contra ataque do mal / Eu não temo a tempestade / Fui selado para vencer / Eu já me armei com o escudo da fé / E o capacete da salvação / Não temerei vou enfrentar / Eu correrei pra conquistar/ E saltarei pra celebrar / Gritarei e as muralhas cairão”. O espírito beligerante é claro. O fundamentalismo extravasa pelos poros.
O jovem Dylann Storm Roof, de 21 anos, se achou no direito de entrar em uma igreja negra e matar nove pessoas que participavam de um culto em uma igreja em Charleston. Na sua justificativa, afirmou que queria uma guerra civil com tendências supremacistas dos brancos. Em seguida, várias igrejas negras foram incendiadas.
Há outro tipo de violência dos jovens que ocorre, com mais frequência na internet, em locais onde está aberta a troca de opiniões e se pode fazer comentários. Invariavelmente, as colocações feitas são de cunho agressivo, ofensivo, violento. Há enorme dificuldade em aceitar que alguém possa ter posição diferente, mesmo que seja superficial. Em um destes sites “evangélicos” li comentários dignos de briga entre torcedores de times rivais, inclusive com o uso de palavrões. Alguns amigos me confidenciaram que tinham a ideia romântica de que poderiam fazer alguma diferença postando algumas observações críticas ou ponderações sobre o que outros haviam escrito. Desistiram. Um deles, de tradição ortodoxa, o que mais levou foi pedrada de outros ortodoxos.
Guga Chacra, que escreve para vários jornais e revistas e comenta temas internacionais na Globo, em seu blog no Estado afirma: “Comentários islamofóbicos, antisemitas e antiárabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. ... O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes.” Pelo visto ele também já foi vítima de muitas pedradas.
A recente turbulência na Câmara Municipal de Campinas sobre a questão do ensino sobre gêneros nas escolas é prova desta virulência. Todos queriam falar, ninguém estava disposto a ouvir. Ofensas mil, acordo nenhum. Não houve diálogo, mas diátribe.
Dia destes um amigo teólogo, com doutorado na área, me perguntou se eu estava acompanhando os ataques dos fundamentalistas à “ingênua teologia da missão integral”. Disse que não. Ele me informou que os fundamentalistas estão atacando o conceito de missão integral (o evangelho todo para o homem todo) como tergiversação dos ensinos bíblicos. Preferem esquartejar o ser humano em “corpo, alma e espírito. Talvez façam isto pela falta de outro inimigo, porque a teologia da libertação já não vige como antes e a teologia relacional muito pouco adentrou no Brasil.
Assustadoramente, em pleno século XXI, estamos vendo o ressurgir de ideias de supremacia racial, de discriminação religiosa, de violência assassina contra a diferença.
Marcos Inhauser



quarta-feira, 29 de julho de 2015

FAMÍLIA EM XEQUE

Recebi do meu amigo Marcos Kopeska o artigo da Dra. Edilene Nassar de Rossi, Psicóloga, que o publico aqui, por apresentar uma visão interessante da família:
“No jogo de xadrez, o termo “xeque” é o que se diz ao oponente quando este está sob ameaça de perder o rei, mas ainda com a possibilidade de evitar o fim, corrigindo e reposicionando as peças.
Neste contexto, analiso a família sob o prisma do tabuleiro para desafiar nossa atitude positiva diante das crises e ameaças, lançando mão de jogadas inteligentes, que nos levam ao sucesso familiar.
Portanto, falo a todas as peças desse jogo: do rei aos peões. Quando se fala de jogo e família, todos estão envolvidos e devem cumprir seus papéis com excelência para alcançar a vitória. A família entra em xeque, ameaçada, quando no decorrer do jogo da vida, relaxa sua guarda e, sem percepção das emboscadas sutis do dia a dia, perde peças importantes, capturadas pelo adversário. Estas perdas, ainda que sejam apenas peões, seriam capazes de evitar o xeque-mate, que é a captura do rei e o fim do jogo. Isso acontece quando não nos protegemos, vivemos de forma individualista, cega, insensível e egoísta, sem perceber o que se passa em nosso reino.
Assim, uma pequena dificuldade não percebida, se transforma em problema; este problema sem a devida atenção se transforma em crise (xeque); a crise sem sabedoria e correção, conduz ao caos – e então, xeque mate! Mas ainda estamos falando da situação de xeque! Ainda existe esperança, saída, solução!  Xeque é crise, e, crise é oportunidade! Oportunidade de retomarmos o controle do jogo e evitarmos o fim. Xeque exige atitude, portanto não é hora de desistir.
Aliás, as crises são necessárias e podemos usá-las a nosso favor. Basta nos deslocarmos da estagnação, analisarmos as possíveis jogadas que se desenham no tabuleiro, observarmos com cuidado as peças que estão em risco, descobrirmos as possibilidades de avanço do oponente, movermo-nos a novas posturas, vislumbrarmos o jogo por outros ângulos, e finalmente, respeitarmos e enxergarmos como o outro vê e sente. É na crise que se escolhe a melhor peça, o movimento mais inteligente e a tática adequada a adotar, gerando mudanças e resultados relevantes para o todo e não somente coroando ganhos pessoais.
Há batalhas que exigem a humilde habilidade do peão, isso quando nos vemos pequenos diante do conflito. Outras reclamam a agilidade do cavalo pulando os obstáculos ao invés de confrontar barreiras. Há jogadas que requerem o fortalecimento das torres de proteção, isso nos momentos de perigo iminente. Há pugnas que demandam a habilidade e criatividade do bispo recorrendo a caminhos alternativos. Outras, clamam pela versatilidade da dama, flexível em seus movimentos adaptando-se às necessidades. Por fim, recorremos a atitude nobre e prudente do rei, agindo com cautela e sabedoria, dando um passo de cada vez, agindo com cuidado, pois conhece a importância e valor do que tem em suas mãos.
Da mesma forma, no xadrez da vida o vencedor não é quem evita pequenos confrontos, mas quem enfrenta a batalha, admite os erros e os corrige. Sim, para ganhar o pódio devemos respeitar o desafio do xeque e fazê-lo valer a pena.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 22 de julho de 2015

POLÍTICA: A ARTE DO FINGIMENTO

Todo mundo sabe que a palavra hipocrisia significa fingimento, falsidade. Ocorre que a origem da palavra vem de outro contexto e sentido. Vem do grego hypocrites, que na Grécia antiga, designava os atores de teatro, os quais, durante as apresentações, fingiam ser outras pessoas. O palco era uma "hipocrisia" pois os que ali atuavam fingiam ser quem não eram.
Assim, o hipócrita oculta a realidade através de uma máscara, de uma aparência do que ele realmente é. O hipócrita finge possuir boas qualidades para ocultar seus defeitos, sendo também conhecido como pessoa dissimulada.
Nestes tempos de mensalão e Lava Jato, o cenário político se transformou em um grande palco teatral, com atores fingindo ser o que não são. Os mais variados discursos têm parecido, todos encenações de uma ópera bufa. Há uma constância nas falas dos atores: negam o que se lhes acusa com a veemência dos indignados. O conteúdo das falas pode mudar na argumentação. Uns alegam perseguição política (talvez a mais comum), outros dizem que as acusações são infundadas, levianas, irresponsáveis, feitas por criminosos confessos, etc.
A prática de negar é a primeira alternativa para os que são flagrados com a mão na botija. Outros preferem a perseguição política (tal como o fez Eduardo Cunha), sem, contudo, dar uma explicação sequer para esclarecer as coisas. Outros negam até a assinatura aposta em documento de banco, que comprova serem seus os milhões em depósitos em paraíso fiscal (Maluf). Outro se transforma no maior pecuarista do mundo em termos de fertilidade do rebanho (Renan Calheiros). Outro apela para tias e parentes mortos que teriam deixado herança milionária, sem que isto tivesse sido declarado à receita, um mero lapso cometido pelo contador.
Há quem, sendo confiscado de seu patrimônio (Lamborghini, Masserati e  BMW 760), apela para a o TCU investigar as contas da PGR, em clara retaliação. Aqui impera a lógica de que, se se flagra algo errado na PGR, as minhas falcatruas estão legalizadas, porque quem me acusa, tem também suas mazelas.
Há quem acuse o juiz de se achar o dono do Brasil, o Procurado da República de ser pau-mandado do PT, a PF de ser aparelho do Partido. Esquecem-se de dizer que há gente do partido nas investigações, que o ex-guru-mor do partido está sendo investigado por consultorias que nunca prestou, que o tesoureiro está enroscado até o pescoço e que a coisa anda sobrando pelos lados do Palácio, com dois ministros citados.
O grupo encarregado de explicar/justificar as “pedaladas fiscais” também está enveredando por este caminho, tentando mostrar que outros também o fazem e que a prática consagra a ética.
A crer-se nos discursos inflamados dos “indignados e perseguidos”, o Congresso Nacional seria um convento de monjas virgens, cuja santidade é comprovada pela face angelical que possuem. Conventos também seria as Assembleias Legislativas e as Câmaras de Vereadores. Pelo que se sabe, nenhum destes conventos é santo. Muitos se prostituíram nas lambanças e baladas das propinas.
De minha parte fica o orgulho de ver que ainda há algo que funciona neste país: a Justiça Federal no Paraná. Não que não haja outros exemplos, mas por agora, cito este. Ouvir a sentença dos primeiros donos de empreiteiras (fato que eu não cria ser possível há menos de um ano) e ver a prorrogação da prisão preventiva do diretor da maior empreiteira por prática reiterada de crimes, mesmo depois de deflagrada a operação e estar preso, é algo que me dá esperança de que algo está acontecendo.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 15 de julho de 2015

POLITEIA

Os nomes dados às operações da Polícia Federal indicam que há gente que lê e estuda dentro da corporação. Os mais variados nomes já foram usados e a mais recente, deflagrada ontem, Politeia, remete ao texto de Platão, a República, onde o filósofo tece comentários negativos à democracia. Dizem os entendidos que, influenciado por uma postura intelectualista de Sócrates, Platão a incorpora em seu pensamento, dando-lhe amplitude política. Em a República demonstra que não é possível pensar a política como prática qualquer e corriqueira, destituída de orientação cognitiva e de pressupostos epistemológicos.  Assim, toda ação política correta depende da visão dada por um saber relacionado à organização da cidade.
Para ele, a pólis é um organismo moral e uma comunidade ética, cuja finalidade é a realização da justiça e da virtude e não somente a conquista de objetivos como a segurança,  bem-estar,  produção de riquezas etc. Para isto, é necessário se fundar a pólis com uma elite intelectual, a qual, possuindo a sabedoria, norteará o funcionamento da vida política.
Se o que temos no Brasil é uma democracia, certamente não o é nos termos mencionados por Platão. O que temos está mais para corruptocracia. Vale citar SHAPIRO (Os fundamentos morais da política. Trad. de Fernando Santos. São Paulo: Martins Fontes, 2006, p. 245): “Como existe o predomínio da democracia no mundo contemporâneo, qualquer investigação dos fundamentos morais da política tem, ... , que estar atenta ao papel desta na legitimação dos regimes políticos. O fato de que governos das mais diversas colorações ideológicas, ... , tentem se cobrir com o manto da democracia é uma prova a mais ... de que o compromisso com a democracia é um componente indispensável da legitimidade política [...] No mundo contemporâneo, ... , a aprovação à ideia de democracia é ... inegociável.”
Em outras palavras, há a necessidade inegociável de se chamar democracia aquilo que é corruptocracia.
Os eleitos não são os mais qualificados intelectualmente (os apedeutas eleitos nos mais variados níveis são prova disto), nem os mais bem preparados para a vida pública. Elegem-se os que têm visibilidade midiática, os que têm apelido jocoso, são filhos de políticos ou são conhecidos por atividade que nada ou pouco tem a ver com as habilidades para a vida política.
No sistema eleitoral brasileiro, onde a eleição é ganha com tempo de televisão e assessoria marqueteira, aliada ao fato de que os detentores de cargos eletivos dispõem de um caminhão de assessores ou contratados como comissionados, regiamente pagos com o erário, a renovação dos eternos políticos é tarefa hercúlea.
O financiamento das milionárias campanhas, se feitos com recursos próprios, só permite que ricos sejam eleitos. Se financiados pelo setor privado, o preço será cobrado, assim como se cobrará também o que foi gasto com recursos próprios.
Fala-se em reforma eleitoral e a Câmara está às voltas com ela. Do que se pode depreender naquilo que já foi votado e do que está por vir, as mudanças são cosméticas. Atacam-se alguns efeitos, mas não a causa: o custo das campanhas e a rigorosa fiscalização dos gastos e financiamentos. Pelo andar da carruagem, tudo indica que o poder fiscalizador da Justiça Eleitoral (que já era tênue e e-lento-ral) será ainda mais engessado pela redução dos prazos de investigação e sentenciamento. Acrescente-se a isto o fato de que há gente querendo que a destituição de prefeitos, vice, governadores, etc. só possa ser feito por órgão colegiado e não mais por sentença monocrática.
Ao que parece, ainda demoraremos algumas décadas para que a corruptocracia seja substituída pela democracia, pela eleição de agentes com sabedoria e não apelido, com conhecimento e não presença midiática, gente que não se orgulhe de não ter estudado e nem que afirme que ler dá sono.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 1 de julho de 2015

UM MANTRA CONDENATÓRIO
Nestes tempos de Lava Jato virou mantra as declarações de gente envolvida com as “ofertas” das empreiteiras para financiar campanhas políticas. Sem exceção, a frase repetida ad nausean é: “as contribuições foram devidamente declaradas à Justiça Eleitoral, que as aprovou”.
Confesso que meus miolos dão um chilique quando são bombardeados com tais declarações que, diga-se, não é exclusiva do partido mais enrolado (até aqui) com as revelações.
Ainda que meu raciocínio possa ser questionado em um ponto ou outro, creio que ele se aplica. Imagine-se que o traficante José dos Anzóis coloca em sua Declaração Anual de Imposto de Renda os ganhos obtidos com sua atividade e paga o absurdo do imposto que se cobra. Mais tarde se descobre que os ganhos que teve não foi produto de atividade ilícita, o narcotráfico. Ao ser questionado, solta uma nota pública afirmando categoricamente que os rendimentos foram declarados à Receita Federal e que os devidos impostos foram pagos. Estaria o indigitado inocente por ter declarado e pago os impostos?
Imagine-se que os ladrões de bancos declarassem os rendimentos oriundos dos caixas eletrônicos arrombados e pagassem o devido imposto. Estariam imunes do crime por terem sido “honestos” em declarar a receita ao Fisco?
Imagine-se que, ao invés de serem os meliantes os declarantes dos rendimentos, terceirizam tal prática a um laranja ou a uma empresa, por exemplo Motel, Hotel, Restaurante, fazenda de gado ou coisa que o valha. Como é difícil a verificação da ocupação dos motéis e hotéis, a quantidade de refeições servidas ou a quantidade de crias que o rebanho teve, poderia perfeitamente atribuir um ganho excepcional. Isto foi feito por um senador conhecido que alegou que sua riqueza era fruto da fertilidade do seu rebanho (dado que deveria entrar para o Guiness como sendo o mais fértil do mundo!). Mais tarde se descobre que a origem de tal riqueza foi fruto de atividades outras. Mas o suspeito vem a público afirmar que declarou ao Fisco seus ganhos.
Se a Justiça Eleitoral aceitou as declarações e aprovou as contas, e depois se descobre que a origem das verbas era ilícita, as ações de declaração e aprovação não eximem do crime, antes, a bem da verdade, a justiça deve reexaminar o caso e mudar a sentença aprobatória à luz dos novos fatos.
Mas, confesso, estranha-me que os auditores do Tribunal de Justiça nunca se tivessem perguntado como é que tão poucos (as construtoras) contribuíam tão generosamente. Será que nunca lhes passou pela cabeça que estavam deixando passar uma boiada ao aprovar um boi? Se se soma o quanto estas construtoras deram aos partidos e políticos, chega-se a números de chamar a atenção. E onde estavam o COAF, o Fisco, os auditores do TSE? Foi preciso haver delação para haver conscientização? Ou a delação trouxe à tona a omissão dos que deveriam fiscalizar? Ou os que deveriam fiscalizar não o faziam porque deviam seus empregos aos beneficiados pelo propinoduto das contribuições eleitorais, eufemisticamente chamados de “bônus eleitoral”?
Contrariamente à madame presidente, eu creio em delatores, ainda que faça distinção entre eles. Há delatores que entregam outros que são companheiros de lutas. Há delatores que entregam suas confissões criminais. Os primeiros o fazem por fraqueza. Os segundos por confissão e espírito cívico. Os primeiros por covardia. Os segundos por coragem cívica. Os dois o fazem para se livrar de penas maiores.
Quem mentiu descaradamente à nação para conseguir a reeleição, não pode vir a público passar lição de moral em quem fala a verdade!

Marcos Inhauser

quarta-feira, 24 de junho de 2015

COM SAUDADES DELE

Eu o conheci solteiro. Meses depois ele se casou e participei daquele casamento cantando no coral. A esposa dele era a regente. Um ano e pouco depois eu me casei e nossas famílias se tornaram muito amigas. Nossos filhos eram amigos e só não cresceram juntos porque eu me mudei para o interior e eles ficaram em São Paulo. Qualquer coisa era motivo para nos reunirmos. A bem da verdade, nós íamos mais vezes à casa deles do que eles vinham à nossa.
Reunir as famílias era um evento. Era uma eucaristia. Comida repartida, orações feitas, cânticos entoados e muita, mas muita risada. Ele era um especialista em fazer trocadilhos com as palavras e em fazer humor com coisas triviais.
Eu fui seminarista na igreja onde ele era membro e ocupava cargos. Sempre admirei nele a capacidade de separar a nossa amizade da sua função de presbítero e tesoureiro. Na política eclesiástica que dominava a denominação naqueles tempos, eu estava na oposição e ele na situação e isto nunca foi empecilho na nossa amizade, ainda que, sabia de gente que perdeu amizades por causa daquela disputa interna. A nossa se fortaleceu pelo respeito dele para comigo e pelo respeito que com ele aprendi a ter por ele.
Extremamente ético, certa feita deixou um emprego por não concordar com certas práticas. Ficou um tempo desempregado, justamente logo depois que comprou a sua casa. Eu o vi comendo o pão amargo de um desemprego prolongado.
Seu filho mais velho tornou-se médico. Um dia, à mesa jantando em família, diante de um fato, o filho disse: precisamos ver isto com urgência. No outro dia o levou para exames e descobriu-se um câncer agressivo que o levou à mesa de cirurgia e retirou dele parte do intestino.
Nesta fase, recebo uma ligação da família de que o Adilson queria conversar comigo e se podiam vir no sábado para visitar a mim e minha família. Entramos em uma sala reservada, e ele me disse: “vim para agradecer pela amizade e para despedir-me de você”. Fiquei perplexo.
Eu tinha duas alternativas: ou tentava dizer que ele estava enganado e que se restabeleceria ou aceitaria sua palavra. Decidi pela segunda: “você nunca mentiu para mim e não acho que está mentindo agora. Vou acreditar em você.” Foi uma longa conversa entre dois homens que aprenderam a se amar e se respeitar como homens. Oramos juntos agradecendo a Deus pela nossa amizade e pela amizade de nossos filhos. Alguns meses depois ele faleceu.
Há mais de um mês recebi um e-mail do seu filho médico, recordando o dia em, que, em uma Veraneio que chamávamos de Jabiraca (que um médico me havia emprestado quando perdi meu carro por causa de um seminarista), fomos ao estádio assistir a um jogo de futebol. Foi uma farra. Dois pais que eram de “deixar a rédea solta” e seis filhos, três homens e três mulheres extasiados com a oportunidade. O e-mail mexeu comigo e não consegui responder. A saudade dele bateu em mim e travei.
Para escrever estas linhas, as lágrimas correm, mesmo depois deste tempo todo. A saudade dele dói em mim. Quanto mais deve doer no Marco Aurélio, Maristela e Márcio Henrique e na sua esposa, Marycleme. Ao Adilson, quem foi um amigo mais chegado que um irmão, a minha gratidão pela amizade.
Marcos Inhauser

GUITARRAS E MAPAS

Recebi o seguinte artigo de um amigo, Abimael Cereda Júnior, que editei e o publico aqui, por apresentar algo que nunca havia pensado.
“Não importa o estilo musical que você gosta de ouvir, consumir ou apreciar. Com certeza você já prestou atenção em um guitarrista de blues. Poderíamos ficar horas discutindo – e alguns até brigando – para chegar a nenhum consenso sobre qual seria o melhor do mundo.
Mas, neste momento, pense naqueles guitarristas que, ao tocarem, estão mais que transferindo energia aos dedos e palheta. Artistas que, ao criarem uma música ou interpretarem uma canção, vão além da execução de notas dispostas na partitura; pessoas que utilizam o ‘instrumento’, ‘cabos’ e ‘amplificador’ não como simples equipamentos, mas como extensão do corpo para realizar algo que organicamente não se tem. Chamamos isto de técnica.
B.B. King não nasceu com cordas nos braços ou amplificador no corpo, mas transformou madeira, metais e eletroeletrônicos em extensão física, para além de sua mente e alma: e a chama de Lucille. Coloca em cada nota e bend não só a urgência desta no lugar certo, no momento correto. Sente, analisa e interpreta e utiliza a caixa de ferramentas disponível em seu cérebro.
Você pode entrar em um site, comprar uma guitarra, pedais, amplificador, guias de aprendizado, um ‘jogo’ interativo para o videogame, acessar vídeos na Internet ou mesmo comprar revistas e sair tocando sua música ou riff preferidos; aprenderá técnicas, acordes, dinâmica e tempo. Mas quando e como você atingirá o nível de interpretação daquele que brinca com os sons e, de repente, está criando novidades?
Quando se criam mapas, seja para o cálculo do melhor caminho para a loja mais próxima, para auxílio dos gestores públicos na definição da aplicação de recursos ou para a denúncia sobre um problema em seu bairro estamos utilizando técnicas de Análise Espacial e o mesmo fenômeno dos guitarristas ocorre.
Você pode adquirir o melhor hardware disponível no mercado (desktops, notebooks, smartwatchs); pode adotar mais que um software e uma Plataforma Tecnológica que permite a utilização de técnicas e métodos para coletar, armazenar, modelar, analisar e compartilhar seu problema de negócio – desde a localização dos seus clientes, cálculos de risco ambiental, proposição da criação de uma nova escola; contudo, a componente principal continua sendo o músico
Poderíamos abolir o termo ‘usuário’ e usar ‘cidadão’. Afinal, mapas pressupõem a representação – mesmo que ilustrativa em algumas situações – do Território, vivendo o Lugar.
Temos urgência por respostas territoriais “no local certo, no momento certo”. A utilização da Inteligência Geográfica – integração da Geografia e Tecnologia – pode trazer estas respostas, assim como um guitarrista constrói a melodia pela continuidade de suas notas e, desta construção, a transformação. E, um mapa, vale mais que mil imagens e tabelas.
Ferramentas tecnológicas são aplicadas à Ciência Geográfica desde seu início. Antes a extensão que precisávamos eram bússolas (e alguns pássaros já nascem com ela), barbantes, criação de projeções para planificação, nanquim e tantos outros instrumentos. Hoje, podemos empoderar toda a sociedade como construtora do seu Espaço pelo uso da Inteligência Geográfica.
E então? Tocar é somente técnico? Não. Analisar o Espaço Geográfico utilizando extensões tecnológicas? Muito menos. B.B. King ao interpretar o que talvez seja uma de suas músicas mais conhecidas – Thrill Is Gone – desvela uma nova história a cada show. Que possamos revelar e construir um novo mundo, em plena transformação, que vive em uma relação dicotômica de estabilidade dinâmica. Construamos o Novo!


quarta-feira, 10 de junho de 2015

ESSA É A MIRANDA!

Brasileira, filha de chineses e vivendo agora na China, eu a conheci em Beijing. Estávamos visitando nossa filha e a acompanhamos à sua loja. Cansado de ouvir tantas mulheres conversando, tinha me desligado do entorno. A certa altura ouvi um papo animado em português. Era minha filha, minha esposa e mais alguém que não reconheci a voz. Fui ver quem era e assim a conheci.
Entrei na conversa e soube que ela vive há quase 10 anos em Beijing. Casada com um alemão, já rodou pelo mundo. Quando estávamos em um aniversário, alguns dias mais tarde, e todos falavam inglês e eu minha esposa já estávamos sufocados de tanto ouvir e falar um idioma que não é o nosso. Chega a Miranda e aí a conversa ficou entre nós três. Soube que foi criada em Igreja Batista, pais severos. No dizer dela, “começou a viver quando saiu de casa e foi para a faculdade”. Trocamos experiências, mas algo começou a me chamar a atenção: a preocupação dela com os estrangeiros, especialmente os brasileiros que vivem na China. Ela está envolvida com uma associação de brasileiros  (Brapeq) e é quem, de certa forma, carrega as coisas nas costas. Seu ministério é promover eventos para que os brasileiros possam se reunir, se conhecer e estreitar os laços de amizade. Os almoços e eventos organizados pelo Brapeq são, de certa maneira, a única maneira com que muitos brasileiros que moram quase toda uma vida fora do Brasil, de manter as tradições, falar sua língua e sentir saudades juntos.  Ela se dispõe a pegar suas próprias coisas, quando necessário, abrir sua casa para eventos e passar horas organizando e preparando almoços e jantares, simplesmente pelo prazer de ver a comunidade brasileira se reunir e celebrar sua brasileiridade. Ela está envolvida nisto até o pescoço e o faz como ministério e vocação.
No meio da conversa falamos sobre ser graça e benção na vida dos outros. Há muito tempo não encontrava alguém que tivesse noção prática da graça de Deus como ela. Não havia nela teologia, conceitos, mas prática.
Durante a festa, minha esposa mencionou o quanto a Miranda estava linda e que tinha adorado sua blusa.  No dia seguinte, quando chegamos em casa, havia uma sacola com um bilhete.  Era a mesma blusa que minha esposa tinha admirado no dia seguinte.  Quando perguntei à minha filha porque ela havia enviado tal presente, a sua resposta foi simples: essa é a Miranda!
Alguns dias mais tarde, em outro evento, tinha a certeza de que ela também estaria. Não veio. Perguntei à minha filha por ela e fui informado de algo que me emocionou: a Miranda estava fazendo uma festa de aniversário para uma pessoa que nunca tinha tido uma festa bem feita. Ela se dispôs a pegar as suas coisas (cristais, taças e talheres), levar à casa da pessoa e fazer para ela o que nunca tinha recebido. A minha filha completou: essa é a Miranda!
Há muitas pessoas que fazem o que devem fazer, no entanto, há poucas que fazem aquilo que ninguém quer ou se atreve a fazer. Não fazem para aparecer, serem elogiadas, reconhecidas ou aduladas.  Fazem, pelo prazer de ajudar e trazer um pouco de felicidade aqueles ao seu redor. Fazem porque são canais da graça de Deus.

Essa é a Miranda!!!
Marcos Inhauser

quarta-feira, 3 de junho de 2015

DO LIMÃO, LIMONADA

A frase é lugar comum e clichê. Sei disto. Mas não achei outra agora que melhor expressasse o que quero compartilhar.
Quem me lê sabe que já critiquei muitas vezes os conservadores. O amanhã deles é o ontem. Padecem de sonhos e de impulso criativo. O melhor seria que tudo continuasse da mesma forma eternamente. Veem o mundo como se fosse um imenso congelador onde as coisas estão para serem preservadas.
Por outro lado, há os que buscam a novidade a toda hora e em todo lugar. Nada mais emocionalmente desestabilizador que ter tudo sempre diferente a cada vez. Se cada vez que eu entrasse em casa, tudo estivesse em novos lugares, a minha vida seria um inferno. Isto me faz lembrar de um sonho que tive em um determinado momento de minha vida onde muitas mudanças estavam ocorrendo. Nele eu estava em uma cidade muito bem conhecida por mim, mas os quarteirões rodavam sobre seu próprio eixo, de tempos em tempos, e eu ficava perdido sem saber em qual rua estava e para onde deveria seguir para chegar onde queria.
Assim, há um nível saudável entre o preservar e o mudar. Se o eterno preservar é quase-morte, o sempre-renovar é loucura.
Somos abalados diariamente por mudanças, situações, eventos, perdas, tensões, trombadas (reais e metafóricas), pelo aleatório, pela incerteza, etc. Diante de tais imponderáveis temos duas possibilidades: ou resistimos ou nos flexibilizamos. Há, então, três possibilidades: sair dos fatos pior do que se entrou, sair dos fatos igual ou sair dele melhor. O conceito de resiliência vem desta capacidade de enfrentar estas adversidades e sair adiante.
Salvo melhor juízo, tenho para comigo que a resiliência me habilita a enfrentar os fatos que me abalam de tal maneira que saia deles incólume. Seria a opção de sair igual, como se o que me aconteceu não me tenha derrubado.
Tenho para comigo que as vicissitudes da vida não são para me deixar igual, mas para me mudar e me fazer melhor. Quem não aprende e melhora com os caminhos da vida é imbecil. Daí porque haver o ditado: “a sabedoria vem com as cãs” (cabelos brancos). E porque os solavancos da vida amadurecem, porque as novidades me fazem pensar e reposicionar, porque os percalços me passam lições que a escola não me ensina, tenho por eles uma certa predileção. Não que goste de sofrer. A rotina para mim é sofrimento. Gosto do novo, do desafio, da crítica, da controvérsia. Penso melhor sob pressão.
Daí, talvez, porque esteja com esta coluna há quinze anos. Ela me obriga a pensar, a produzir, a diagnosticar. Recebo e-mails me espinafrando. Certas críticas são elogio porque vindas de quem não sabe ler e entender o que leu. Um deles, que vivia me esculhambando, lia o que não escrevi e dizia que disse o que nem me passou pela cabeça. Outras vem de gente que pensa, que discorda, que apresenta argumentos, que me manda um tratado de mais de 40 páginas sobre Michel Foucault porque não gostou que o citei e como o citei.
A novidade tem o risco implícito. Se é novo posso não saber direito, posso errar ao fazer, talvez tenha que repetir muitas vezes até dominar. Assim são certos programas de computador: mudam a cada pouco e a gente tem que reaprender a usar. O conhecido não precisa de receita: sabe-se de memória. A possibilidade de erro é reduzida ao mínimo. Cozinhar arroz e feijão dificilmente eu erro. Agora, fazer um prato novo com temperos recém conhecidos é outra história.

Por isto digo: “viva a mudança”. No duplo sentido: saudando e desfrutando, fazendo do limão uma limonada!
Marcos Inhauser

ENVELHECER EM COMUNIDADE

Tenho para comigo que um dos grandes erros do cristianismo foi trocar a experiência e vivência com uma pessoa (Cristo) pela adesão a um código de verdades. O que deveria ser uma experiência diária se transforma em uma ideologia religiosa onde a discussão ganha vitamina por querelas doutrinárias, cada qual defendendo o seu ponto de vista.
A vida cristã é mais que a adesão a um determinado conjunto de verdades. É a vivência constante e diária do amor ao próximo nas suas necessidades, no agir motivado pelo amor em direção a quem necessita de amparo, colo, ouvido, sentido de pertencimento, reconhecimento. A igreja deve ser formada por cristãos comprometidos com Cristo e com o próximo, beneficiando-os pelo exercício dos dons dados por Deus.
À igreja não basta promover e realizar cultos, ter momentos de adoração, súplicas, confissão, mensagens. Ela não se plenifica no ministério de um pastor ou sacerdote. Não é o número dos congregantes que transforma a reunião em igreja, a plateia em congregação. O mais importante elemento na vida da comunidade é a comunhão dos seus membros. Uma igreja deixa de ser igreja quando há alguém dentro dela que não se sabe o nome, não se conhece as suas lutas e problemas. Os membros da comunidade vêm trazendo suas dores e perguntas e é na comunhão que possibilita o compartilhar, o abrir o coração, que se tem respostas de fé para cada uma das necessidades.
Nos aglomerados religiosos, nas mega-igrejas, ninguém conhece ninguém. Se alguma resposta é dada a algum dos problemas específicos que este ou aquela tem, é por acaso. Nas pequenas comunidades, nos pequenos grupos há pertencimento. Cada um dos que participa percebe sua importância para a comunidade porque percebe o cuidado dos demais para consigo e, ao mesmo tempo, pode ser de ajuda aos outros. A vida vivida em comunidade se torna, pois, significativa no duplo sentido: sou ajudado a significar a minha vida e ajudo aos demais a significar as suas.
Há a metáfora da família que se usa para descrever a comunidade dos cristãos. Ela mostra que na igreja deve haver a relação fraterna, igualitária, respeitosa, onde o amor incondicional deve ser a tônica. Na igreja, as barreiras de cor, gênero, idade são transpostas. As crianças vivem em companhia com os jovens e anciãos. Negros, pardos, brancos e amarelos juntos podem ter comunhão. Há na convivência da diversidade que a igreja propicia, uma riqueza ímpar porque possibilita a troca de ensinamentos vindos das mais variadas fontes. A criança e o jovem aprendem do velho e este é levado a pensar na sua experiência e reformular seus conceitos à luz do momento atual, porque para isto é desafiado pelos mais novos a quem ama. Os mais novos têm as respostas às suas inquietações dadas pelos mais velhos porque estes já passaram pelos caminhos que agora aqueles estão passando.
O envelhecer solitário é dramático e traumático. O envelhecer em comunidade e em família é abençoador. Ter uma comunidade onde se possa envelhecer e ao mesmo tempo, sentir-se amado e útil, é cereja no bolo da vida. 
Marcos Inhauser

INTERNET OU INTRANET?

Acabo de voltar da China onde fiquei por duas semanas. Já havia estado lá outras vezes. Fui acreditando que de lá poderia fazer algumas coisas via internet, tal como bancos, e-mails, ler notícias, ligar via Skype para falar com familiares no Brasil. Eu já sabia das dificuldades que poderia enfrentar, mas, confesso, me surpreendi com as que enfrentei desta vez, muito maiores que da última vez, onde um VPN resolvia as questões de acesso internacional.
Se você quiser usar a internet para acessar sites chinês, trocar mensagens, ler e-mails ou ler notícia chinesas, não há problemas. Nunca fiz isto por causa da barreira do idioma, mas com quem trabalhei mais de perto e me relacionei, dizem que não enfrentam problema algum com a navegação.
Quando tentei acessar sites de notícias brasileiros, ler meus e-mails, ver minha conta bancária, começava o suplício. Tudo que não tivesse terminação ".cn" ficava rodando e rodando e depois dava a mensagem de que se esgotou o tempo de conexão. Tentar acessar o Facebook era impossível. Fazer pesquisas no Google também. A alternativa que mais funcionava era usar o "bing.com".
Quando tentava usar o VPN, às vezes conseguia uma conexão e acessar algo fora da China, tal como notícias ou Skype. Depois de um tempo, a conexão caía e era impossível reconectar. Parece que, quando detectavam o uso do VPN eles bloqueavam a conexão.
Há gente oferecendo VPNs exclusivos para romper as barreiras da internet na China, mas a informação que tenho é que não entregam com regularidade o que prometem. É uma briga de criar novidades e esperar algum tempo para que a porta se feche.
Pesquisando sobre o assunto se descobre que estas restrições começaram depois de uma série de reportagens de jornalismo investigativo que mostraram o dinheiro que dirigentes do Partido tem/tinham em contas fora da China. Os números rodavam em torno de US$ 160 bi e envolviam altas autoridades. Os resultados desta investigação foram vários: um deles foi a barreira imposta ao acesso dos chineses aos sites internacionais de notícias. Outro foi uma onda de prisões de ministros e altas autoridades do partido, com vários sentenciados à morte ou prisão perpétua.
Há quem diga também que há temor das autoridades chinesas com a replicação na China dos movimentos populares havidos no mundo árabe e Egito, onde as redes sociais foram usadas para alavancar apoios e protestos. Impedir o acesso a estas redes sociais que tem suas sedes fora do alcance das autoridades chinesas foi uma das formas. Por não querer se submeter aos ditames desta regulação o Google "brigou" feio e preferiu não ceder e por isto está barrado.
Há estudos e gente da área que tem dito que a China estaria utilizando uma nova técnica, o "grande canhão", para atacar sites. Isto permite colocar sites fora de serviço, usando o conceito da "Great Firewall", o nome dado ao sistema de supervisão e censura da internet de Beijing, segundo relatório do Citizen Lab da Universidade de Toronto.
"O 'grande canhão' não é apenas uma extensão da 'Grande Muralha', mas trata-se de uma técnica de ataque diferente que desvia o tráfego" em direção ou a partir de um endereço IP pessoal, acrescentam os universitários, que foram acompanhados nesta investigação pela Universidade da Califórnia e de Princeton.
Por ele a China coloca fora de funcionamento "sites espelho" que oferecem conteúdo bloqueado pela internet chinesa, como o New York Times.
Os investigadores do Citizen Lab dizem que encontraram "provas irrefutáveis de que o governo utiliza o "grande canhão", algo negado pelo governo chinês. 
Assim, a China tem uma intranet (net interna). Quem quiser internet, vai ter que aprender a driblar muito para poder marcar um gol.
Marcos Inhauser

O DESODORANTE DEVERIA SER OBRIGATÓRIO

É a terceira vez que passo pelo aeroporto de Dubai. Já estive em muitos outros, alguns considerados os maiores do mundo (Chicago, Nova York, Atlanta, Frankfurt, etc.). Todos eles têm suas caraterísticas e seu jeitão de ser.
O que me chama a atenção no de Dubai é que, como em nenhum outro, se dá a confluência de culturas e raças em profusão. Sendo um hubble que liga Oriente e Ocidente, que traz passageiros do norte e do sul, Dubai é um cadinho de gente das mais diversas religiões, vestimentas, cabelos, modos e línguas.
Passar algumas horas neste aeroporto é menos cansativo que passar em Frankfurt, por exemplo. Para quem gosta de ver e analisar pessoas, Dubai é um prato cheio por causa do desfile de cores, cabelos, penteados, chinelos, sapatos, famílias e, pasmem, cheiros.
Desta vez tive a experiência de cruzar algumas vezes com um grupo de homens, todos vestidos com os mesmos trajes (não iguais, mas semelhantes), vindos de uma mesma etnia e região, e todos (acredito) sem nunca ter usado na vida um desodorante. Era uma nuvem de cecê vencido por onde andavam. O cheiro era tão forte que eu, que não tenho um olfato dos mais apurados, me senti enjoado com a fedentina.
Fiquei a imaginar como seria voar no mesmo avião ou ao lado deles, como já me tocou certa vez com dois casais de alpinistas que embarcaram no Equador de regresso à Europa. Desta vez escapei!
Mas o fato me levou a pensar um monte de coisas. Lembrei-me de haver lido há algum tempo os comentários em um blog que tratava de perfume, uma mulher que havia escrito que preferia um homem menos inteligente e perfumado a um gênio fedido. Neste quesito, ao que parece, o Einstein era Nobel da Fedentina. Não gostava de tomar banho e escovar os dentes, a acreditar-se em um dos seus biógrafos.
Já escrevi aqui sobre o Palácio de Versalhes e a inexistência de banheiros e como fediam os que ali moravam. Os escravos a abanar constantemente os reis e rainhas eram, na verdade, espantadores de mosquitos, atraídos pelo mau cheiro exalado pelas eminências. Há ainda a história de Bonaparte que escreveu um recado à sua amada, pedindo que não se banhasse porque ele voltaria em um mês e a queria o mais pronto possível e com todo o seu cheiro de mulher! Talvez por isto que foram os franceses que se aperfeiçoaram na arte de fazer perfumes.
Há uma nacionalidade que nunca vi nenhum indivíduo escovar o dente. Nos aeroportos deste país, quando escovo os meus, tenho impressão que ficam com nojo. Dão banho nas crianças na pia da cozinha, mas escovar os dentes na pia do banheiro de um aeroporto é asqueroso.
No entanto, nos dias atuais, onde já se inventou o sabonete, a pasta de dente, o desodorante e o perfume, deveria ser item básico e obrigatório para a convivência social o banho, a escovação dos dentes e o uso desodorante.
Tenho absoluta certeza de que não há Bonapartes hoje em dia e o nariz da quase totalidade agradeceria!
Marcos Inhauser

quarta-feira, 22 de abril de 2015

“AS PROSTITUTAS VOS PRECEDERÃO”

Confesso que sempre tive problemas com a frase proferida por Jesus, registrada em Mateus 21:31 “Jesus disse-lhes: Em verdade vos digo: os publicanos e as meretrizes vos precedem no Reino de Deus!” A minha incompreensão durou até o dia que me contaram a seguinte história, vivida indiretamente por quem a contou.
Houve uma chamada de emergência no Serviço de Água e Esgoto, dando conta de um vazamento de esgoto que transbordava e estava rolando abaixo na via pública. O problema estava na Zona de Meretrício da cidade. O encarregado escalou uma equipe para ir ao local e o motorista que deveria leva-los. O motorista escalado era membro de uma igreja “pentencostal”, que vivia pregando a todo o mundo no trabalho e cheio das certezas morais. Quando soube que deveria ir à Zona do Meretrício, enfureceu-se, dizendo que não iria para o inferno, que aquele lugar era de perdição e que ele se recusava a ir. O chefe o enquadrou e determinou que fosse.
Na viagem de 20 minutos foi resmungando, murmurando e reafirmando sua santidade. Os demais estavam fazendo brincadeiras sobre o fato e com ele. Lá chegando, desceram as ferramentas e iniciaram o trabalho, sob os olhares curiosos das meninas e da tia que tinha a casa em frente à qual aconteceu o rompimento. O motorista continuava a resmungar e murmurar, ao ponto dos colegas pedirem que ele fosse embora e que, quando terminassem o trabalho, o chamariam para vir pegá-los. Ele preferiu ficar, pregando sua “santidade”.
Uns quinze minutos depois de iniciado o trabalho, já suados com o esforço da picareta, uma das meninas trouxe uma jarra de suco gelado e um copo para cada um dos trabalhadores, inclusive o motorista, que recusou a bebida para não se contaminar.
Trabalharam a manhã toda. Almoçaram a marmita que levaram, mais o suco que novamente lhes ofereceram. O motorista “santo” continuava a praguejar.
Lá pelo meio da tarde terminaram o trabalho. Para surpresa deles, a senhora dona da casa convidou-os para entrar, se lavar e um lanche que ela e as meninas haviam preparado estava sobre a mesa. Ao entrarem, viram um banquete, todas meninas com lenço na cabeça e avental por questão de higiene.
Aqueles homens que haviam trabalhado no esgoto, entrado nele, se lambuzado com ele, estavam agora sendo recepcionados por quem se preocupou com a higiene no preparo da comida. O “santo” não entrou porque não queria se contaminar.
Quem amou o próximo? O motorista “crente, santo e pentencostal” ou as meninas e a dona da casa delas?
Confesso que me emocionei quando ouvi a história por parte de quem trabalha no serviço de águia e esgoto e me emociono agora ao escrever sobre ela. Houve graça da parte delas e justiça empedernida e arrogante por parte do motorista.
Com uma história como essa entendo porque Jesus disse que elas precederão os “fariseus, santos, incontaminados e arrogantes”.

Marcos Inhauser

quinta-feira, 16 de abril de 2015

A ANTIMIDAS

Midas, rei da Frígia, teve sua realeza herdada do pai, escolhido pelo povo que o via como o cumprimento de um oráculo. Certa feita, Midas recebeu a visita de alguns camponeses que levaram a ele um velho, bêbado e perdido, que haviam encontrado pelos caminhos do reino. Midas o reconheceu: era Sileno, mestre e pai de criação do deus Baco. Midas cuidou de Sileno e o levou a Baco, deus do vinho, que concedeu um pedido a Midas. Este, sem refletir muito, pediu o dom de transformar em ouro tudo o que por ele fosse tocado. Mesmo percebendo a ânsia gananciosa de Midas, Baco realizou o pedido.
Midas voltou feliz e surpreso com a capacidade que passou a ter. Transformou em ouro várias coisas: pedras, folhagens, frutos... Quando em casa, ordenou que lhe servissem um banquete. Ao tocar o pão, este transformou-se em ouro. Tudo o que tocava virava ouro. Desesperou-se porque jamais poderia se alimentar, pois tudo virava ouro.
A expressão “toque de Midas” se cunhou para designar as pessoas que tem a capacidade de transformar em riquezas e prosperidade tudo o que tocam.
O Brasil tem uma rainha que é a AntiMidas. Tudo o que ela toca vira pó. Na década de 90 abriu uma lojinha de R$ 1,99. Não aguentou o tranco do mundo real e depois de 17 meses, quebou. Mais tarde, ela veio com esta maravilhosa e abrangente explicação para o seu desastre: “Quando o dólar está 1 por 1 e passa para 2 ou 3 por 1, ele [o microempresário] quebra. É isso que acontece com o microempresário, ele fecha. A minha experiência é essa e de muitos microempresários desse país”. Bom saber, porque o dólar subiu e ela transformou em pó as economias de muita gente.
Veio a Brasília como expert no setor energético, uma vez que, sendo do PDT, “ganhou um cargo” do então governador Colares, que também era do PDT. Nada de importante ela fez. Foi a Brasília convidada pelo Lula. Assumiu o Ministério das Minas e Energia e fez um estrago. Na sua gestão não se investiu na geração e nem na transmissão. Mal tocou o que havia.
Foi para a Casa Civil em meio ao mensalão, na esperança de que ajudasse a blindar a “cumpanherada” enrolada até o pescoço. Nada aconteceu e todos foram condenados e presos.
Ganhou a presidência do Conselho da Petrobrás. Desde que assumiu o mandato, no dia 1 de janeiro de 2011, o valor das ações da Petrobras despenca. A Petrobras deixou a 12ª posição no ranking das maiores empresas do mundo em valor de mercado, lugar que ocupava em 2010. No ranking de março deste ano do britânico Financial Times, a estatal perdeu 108 posições, sendo agora a 120ª maior empresa do mundo.
Ela forçou a aqueda do preço da energia elétrica. Deu no que deu: aumentos de até 60% para corrigir o desastre provocado pela intervenção dela.
Obrigou os bancos a baixarem os juros. Pagamos hoje as maiores taxas de juros do mundo. Juros bancários de fazer agiota ter inveja.
Pegou a popularidade inicial e mandou às cinzas: 68% de rejeição. Ganhou um segundo mandato só Deus sabe como e passados cem dias, o que se tem é uma sucessão de desastres. Teve que fazer uma renúncia branca e entregar o governo para o Temer.
O Brasil precisa de um Midas e não de um buraco negro onde tudo o que cai nele vira nada, uma AntiMidas!
 Marcos Inhauser



quarta-feira, 8 de abril de 2015

A AÇÃO SUBSTITUÍDA PELO CONCEITO

Nada pode ser tão fatal para a vida humana que alguém trocar a ação por conceitos, a realidade por ideias. Deve-se temer quem crê que pode, somente falando e teorizando criar categorias e mudar sociedades. Os grandes teóricos foram péssimos nas suas ações de implementação.
A vida humana é um relacionar-se em sociedade que deve dar-se na dimensão dos valores pessoais que alicerçam o agir, mas um agir respeitoso e tolerante para com as diferenças de prática e concepção. Ao negar a primazia dos conceitos sobre a práxis, não estou advogando o simplismo, o reducionismo, o ativismo, mas, antes, a práxis alicerçada no entendimento possível para cada pessoa, segundo suas capacidades e habilidades. Nego sim a arrogância cognitiva que, abdicando da prática, se arvora em palavra última e verdade absoluta. Nego as concepções gestadas em ambiente climatizado de ar-condicionado.
O conhecimento só é válido quando ele tem o objetivo de beneficiar o próximo, a sociedade. O arrogante é egóico. Pensa em si, acha que só ele sabe e sua preocupação é promover-se. O saber autêntico não se encerra em uma masmorra de proteção, antes deve ser fermento de esperança e promotor de mudanças visando melhorias sociais e relacionais. Busca a verdade e a justiça, sem se alienar do amor.
Lembro-me dos tempos de Mestrado em Educação quando professores se acusavam de ortodoxos e revisionistas (marxistas versus gramscianos), sem que nenhum deles tivesse uma vivência no mundo fora da Universidade. Cansei de participar de reuniões internacionais onde o que mais se fazia eram diagnósticos. Eram especialistas em RX, desvendando minucias de uma fratura, mas que nunca tinham colocado um gesso ou uma tala em um braço ou perna. Isto me faz lembrar o Dadá Maravilha: “eles trazem a problemática, eu venho com a solucionática.”
Trago estas reflexões porque acho que se faz, uma vez mais, um crime contra a educação neste país. Ainda que o lema da represidente seja Pátria Educadora, ela entregou a pasta inicialmente a um conhecido verborrágico, de tradição familiar, que de educador tinha nada e nem educado era. Deu no que deu.
Para substituí-lo ela entrega o cargo a um filósofo. Andei lendo coisas do Janine, coisas sobre o Janine e o vejo como mais um teórico que terá que assumir algo que ele só conhece nas radiografias que faz. Nisto ele empata com o Mangabeira Unger, o “ministrus absconditus” porque sumido está. Duvido que ele faça algo, ainda que, do fundo da minha razão quero que ele consiga fazer algo.
O que mais me preocupa nele é sua guinada conceitual. Escreveu ele que: “"A cultura é a educação fora de ordem, livre e bagunçada. Para cursos, há currículos. Para a cultura, não. Cada vez mais, a educação deverá se culturalizar: um, deixando de seguir currículos rígidos; dois, tornando-se prazerosa; três, criativa. O próprio caráter imprevisível da ação cultural e a dificuldade de planejá-la fazem dela um dos modelos para o que deve ser a educação numa sociedade criativa."

Se entendi, ele propõe uma educação “fora de ordem, livre e bagunçada”. Se fizer isto, será a cereja no bolo da zona que se instalou no país. Era o que faltava: um acadêmico propondo a bagunça. Espero que não saiba fazer isto, como soe acontecer com os acadêmicos.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

COMODISMO E IMATURIDADE

É mais fácil ao ser humano ser tutorado pelas ideias de outros que produzir as suas próprias. O Iluminismo pregava o libertar-se da menoridade (estado em que se é dirigido pelas ideias alheias) e assumir a maturidade, guiando-se pelas próprias convicções. Paul Tillich chamava a isto de heteronomia (governo do outro) e autonomia (governo próprio).
A permanência na imaturidade é, no frigir dos ovos, produto da preguiça intelectual e da covardia. Preguiça porque se recusa a trabalhar a mente para chegar a um pensamento próprio. Covardia porque não tem coragem de assumir o risco de guiar-se pelas próprias ideias. Vai que dá errado e não há a quem culpar! Na heteronomia sempre se pode acusar e culpar quem passou a ideia que deu errado.
No entanto, há uma menoridade forçada, quando os pais não permitem que seus filhos cresçam, que enfrentem os riscos do viver. Superprotetores, inibem a exposição à vida real. Tudo que vão fazer precisam de autorização, de uma ligação no celular dizendo onde estão, com quem estão. Se a mãetorista se atrasa alguns minutos para pegá-lo no colégio, o bebezão se apavora e liga desesperado para saber se aconteceu alguma coisa. Imaturos, quando vão para o mercado de trabalho, têm medo de decidir, de pensar. Sempre se fiaram nas decisões dos pais.
Trago o assunto à baila porque, nestes dias, está sendo discutida na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, a maioridade penal, reduzindo-a para 16 anos. O projeto tramita há 20 anos e ainda gera polêmicas acaloradas, haja visto os últimos episódios envolvendo os deputados pró e contra e os manifestantes.
Não se pode deixar de concordar que o adolescente da época em que foi estabelecida a maioridade penal aos 18 anos é diferente do adolescente que vive nos dias de hoje. Sem sombra de dúvidas, em função de uma série de fatores, os jovens de hoje estão muito mais conscientes e instruídos que os que viveram no passado. Há que acrescentar-se a isto que o crime evoluiu e hoje se usa o menor para roubar e matar porque se sabe que a pena para ele é mais branda.
Por outro lado, há que dizer-se também, em função do modelo superprotetor já mencionado ou da fragmentação dos laços familiares, quando muitos dos jovens marginais não tiveram nem pai nem mãe, que mais do que culpados, são vítimas. Vítimas de uma sociedade que exige que os pais trabalhem para pagar um custo de vida exorbitante, vítimas de um sistema que gera lucro fácil com a venda de drogas ou no furto, roubo ou assalto, vítimas de um modelo educacional desmotivador, vítimas de uma mídia que cria necessidades de supérfluos como o tênis da moda, o celular de última geração, etc.
Não reduzir a maioridade penal é manter estes jovens sob a tutela, o que é imaturidade. Diminuir a menoridade penal como sendo a panaceia de todos os males é romantismo ingênuo. É comodismo dos incomodados.
Temo que, reduzindo-se a maioridade penal, nossas já abarrotadas prisões, ainda mais superlotadas ficarão. O custo de uma pessoa presa é muito maior que o custo de dar a ele uma educação sadia, com apoio de trabalhos comunitários e gente que, por vocação, tem se dedicado ao terceiro setor, que vive às mínguas com os recursos mínimos que são disponibilizados.
Sou a favor da redução da maioridade penal, mas não com prisão, mas com educação e carinho para a reabilitação, feito por gente vocacionada e capacitada para isto e não por trogloditas que se valem da violência para obter obediência.
Marcos Inhauser