Depois de 22 anos regressei a San Salvador, América Central, onde tinha vivido por um ano na minha adolescência. As lembranças daqueles tempos pululavam na minha mente e estava ansioso por rever certas coisas.
Uma pessoa me pegou no aeroporto e me levou à cidade, me deixou no hotel com a recomendação expressa de que não saísse do hotel sob nenhum pretexto, que fizesse minhas refeições no próprio hotel e que no outro dia cedo passariam para me pegar para algumas entrevistas e reuniões.
Perguntei à recepcionista se ela sabia onde ficava o Ginásio Nacional e do Parque Cuzcatlán (tinha morado em uma rua perto) ao que me informou que ficava a três quadras. Fiquei empolgado com a possibilidade de rever áreas que tantas recordações me traziam. Mal dormi. Bem cedo desci ao refeitório, tomei meu café e sai para rever coisas, no que pese a orientação expressa que me havia sido dada. Primeiro fui rever a casa. Desci até o Parque e fui surpreendido por mais de uma centena de soldados sentados na mureta que separava o Parque da avenida. Todos eles tinham uma de suas pernas amputadas, vítimas das minas quita-pié (arranca-pé). Era desfile de muletas, pernas com curativos, jovens com suas vidas limitadas por uma guerra estúpida. Estavam ali para curativos no Hospital Militar. Aquilo me embrulhou o estômago!. Voltei ao hotel sem rever o Parque e a ele não mais voltei.
À tarde tive uma reunião com um grupo de pessoas que trabalhavam com Direitos Humanos, entre elas uma senhora que me contou que havia conhecido uma família brasileira que vivera ali e que tinha o mesmo sobrenome e me perguntava se eu os conhecia. Disse eu era daquela família, o filho mais velho. Lágrimas rolaram pela sua face. Ela me contou quem era e dela recordei por ser a mãe de uma paquera que tivera e que ambas, mãe e filha vieram à nossa casa muitas vezes.
Ela era a Diretora de um Orfanato que recebia órfãos da guerra. Ela insistiu para que eu fosse conhecer o trabalho. Marcamos um dia de manhã. Para lá fui. Era uma pequena chácara fora da cidade. Mal o jipe parou, um bando de crianças veio correndo e gritando e tive que dar a mão e cumprimentar a todas elas. Uma delas, de uns três anos de idade, estava meio longe, meio desligada e não tinha vindo como as demais.
Em um certo momento ela olhou para mim, veio correndo, abraçou minha perna e começou a dizer: “papá, papá, papá”. A Diretora me explicou que ela era a mais recente, que seus pais haviam sido executados. Eu lhe perguntei por que a criança me chamava de papá e ela me disse: você tem uma aparência muito parecida ao pai dela e ela está achando que é o pai que voltou. Carreguei-a no colo por mais de uma hora. A cada pouco ela me acariciava o rosto e me puxava a face para olhar para ela. Voltei ao pátio, brinquei com ela. Não sabia como ir embora.
A despedida foi terrível. Sai dali em lágrimas. Pela segunda vez aquele criança perdia o seu “papá”. Naquele dia decidi que, com todas as minhas forças e inteligência iria combater a violência e a guerra. Por isto, entre outros motivos, estou em uma igreja pacifista!
Marcos Inhauser
Professor, pastor, teólogo e educador corporativo Textos escritos para a coluna semanal no Correio Popular, da cidade de Campinas e texto escritos depois de 2021, que tratam de temas nacionais, internacionais, sobre igreja e teologia
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Há outros artigos e livros de Marcos e Suely Inhauser à sua disposição no site www.pastoralia.com.br . Vá até lá e confira
quarta-feira, 7 de agosto de 2013
quarta-feira, 31 de julho de 2013
PROVIDENCIAL
Ainda seminarista, fui convidado para pregar em uma igreja
na Vila Maria em São Paulo. Vivia numa pindaiúba de dar dó. Para lá fomos eu e
um meu irmão, o Miltinho.
Tínhamos no bolso a passagem do ônibus para a ida e uns
trocos a mais. Ele me perguntou como seria a volta e eu disse que, normalmente,
as igrejas fazem uma pequena oferta que seria suficiente para comermos algo e
para voltar.
Terminado o culto as pessoas vieram até nós, nos
cumprimentaram e um a um foram embora e nada de alguém aparecer para entregar a
esperada e necessária oferta. Fomos os últimos a sair, juntamente com um casal.
Já na rua, o mano me perguntou: “e agora? O que fazemos?”. O
dinheiro que tínhamos não dava para comer algo e para voltar de ônibus. Disse
isto a ele e ele me disse que estava morrendo de fome. Eu também estava. E
quando chegássemos em casa não teríamos nada para comer. Naquela hora havia que
tomar uma decisão: comer e voltar a pé para casa, em uma caminhada de uns 15
quilômetros ou pegar um ônibus e passar a noite com fome.
Conversamos, estudamos a situação e decidimos que iríamos
comer algo e depois sair em caminhada até o centro da cidade. Sentamos em uma
padaria, pedimos algo que os trocados podiam pagar e, terminada a “refeição”,
criamos coragem para sair caminhando.
Mal havíamos saído da padaria, escutamos alguém nos chamar.
Era a pessoa que me havia convidado para pregar que estava à nossa procura
porque havia se esquecido de dar a oferta que o tesoureiro havia destinado.
Preocupadíssima, nos pediu mil perdões, sem saber que
estávamos era gratos e surpresos com os fatos. Como ele tinha nos achado? Como
sabia que podíamos ter parado em algum lugar para comer algo?
Um amigo que vive nos Estados Unidos, o Manelão, que me
hospedava quando ia para as aulas do doutorado, me contou como sempre via a mão
de Deus suprir suas necessidades, muitas vezes depois de vencer o prazo de
pagar uma conta. Ele, um dia, meio
desesperado, pediu a Deus que Ele adiantasse a provisão para que viesse no dia
que deveria pagar suas contas. Em lágrimas ele me confidenciou que desde aquele
dia nunca mais havia atrasado uma conta.
Experiências de ver a mão de Deus suprindo cada necessidade,
mesmo quando penso que nada mais ocorreriam. São muitas na minha vida e na vida
de muitos que me contaram suas experiências de ser abençoados de maneira toda
especial e inusitada.
Não gosto de transformar experiências pessoais em normas
para outros. Esta eu vivi e o Manelão experienciou. De uma coisa tenho certeza:
a providência de Deus vem quando necessitamos e da forma mais inesperada
possível.
E Ele assim faz por pura graça, não por mérito que
porventura tenhamos. Não é questão de fé. É questão de favor imerecido da parte
de Deus.
Marcos Inhauser
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quarta-feira, 24 de julho de 2013
CÂNDIDO VAGGAREZA
O PT não tem
sido muito feliz na composição dos seus quadros. Um partido que teve Delúbio,
Zé Dirceu, Genoíno, José Mentor, João Paulo, Silvio Pereira, entre outros de
menor expressão, tem agora uma figura emblemática: Cândido Vaccareza, que
melhor seria identificado como Vaggareza.
Ele é
um ginecologista, filiado ao PT, eleito suplente de deputado estadual em São Paulo (1998). Reelegeu-se em
2002 e em 2006 elegeu-se deputado
federal. Foi líder do partido de fevereiro de 2009 a 2012. Neste período protagonizou alguns
episódios de fidelidade canina ao Lula e à Dilma.
Mas,
desde que deixou a liderança, algo mudou nele. Indicado a fórceps como líder da
comissão encarregada de apresentar proposta de reforma política, ele honrou seu
nome: deu uma de vagareza.
No
que pese o fato de que a Dilma, atabalhoada com as manifestações de rua, ter
acelerado propostas e derrapado nas curvas da política, ela nunca deixou de
afirmar que queria a reforma política para as eleições de 2014. O deputado, não
lendo as manifestações contrárias à sua indicação pelo presidente da Câmara,
nem atento aos anseios da sua bancada que queria outro deputado na condução dos
trabalhos, insistiu em continuar. Sua renúncia foi pedida e ele se fez de
ouvidos moucos.
Ele quer flexibilizar a utilização das redes sociais pelos
candidatos. Para ele as “redes sociais são extensão do escritório. Só me aceita
quem quer e só aceito quem eu quero. Portanto, está 100% liberado. Posso entrar
na minha rede social e dizer que vou ser candidato e pedir que vote em mim. Não
posso ser punido por isso”, alegou.
Também quer modificar dispositivo da Lei da Ficha Limpa que beneficiaria gestores reprovados pelos tribunais. Vaggareza afirmou que a proposta de lei complementar estava pronta e seria levada ao colégio de líderes. Depois de muitas críticas, deu uma recuada estratégica.
Algumas das propostas são: para a quitação eleitoral, o candidato precisará apenas comprovar que votou; havendo cassação, ocorrerá uma nova eleição para decidir quem assume a vaga; o político poderá dizer que é candidato a qualquer momento; poderá usar as redes sociais para fazer campanha.
Também quer modificar dispositivo da Lei da Ficha Limpa que beneficiaria gestores reprovados pelos tribunais. Vaggareza afirmou que a proposta de lei complementar estava pronta e seria levada ao colégio de líderes. Depois de muitas críticas, deu uma recuada estratégica.
Algumas das propostas são: para a quitação eleitoral, o candidato precisará apenas comprovar que votou; havendo cassação, ocorrerá uma nova eleição para decidir quem assume a vaga; o político poderá dizer que é candidato a qualquer momento; poderá usar as redes sociais para fazer campanha.
O mais preocupante é que ele quer deixar a reforma política,
tal como ocorreu em tantas outras oportunidades, para sabe Deus quando. Ao afirmar
que não há tempo hábil para uma reforma, plebiscito, referendo ou consulta
popular, ele dá marcha de vaggareza ao processo que as ruas pedem urgência.
A depender de um líder de comissão como ele, que não consegue
se afinar com o seu partido, com os colegas, com a Dilma e com o povo, que
reforma política pode vir?
Marcos Inhauser
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quarta-feira, 17 de julho de 2013
ACUSAÇÕES LEVIANAS
Um amigo pastor, residente de em uma pequena cidade do
interior paulista, muito dinâmico e carismático, em pouco tempo ganhou respeito
e notoriedade. Como a cidade enfrentava sérios problemas de corrupção,
especialmente na Câmara Municipal, convidado e instado por cidadãos e
políticos, decidiu lançar-se candidato, crendo que poderia ter uma atuação
ética e que contribuiria para uma mudança na política local.
Tão logo seu nome apareceu como candidato, começou a receber
uma saraivada de críticas, especialmente de pessoas evangélicas e membros de
sua própria igreja. Diziam que ele estava se vendendo, que tinha cedido à
corrupção, que o que buscava era ficar rico, assim como os demais. Assustado
com a reação pensou em abandonar, mas também pensou que seus atos, caso fosse
eleito, mudariam a opinião dos seus detratores.
Foi eleito com expressiva votação, sendo o segundo mais
votado na cidade. As críticas não diminuíram. Já no primeiro ano estourou um
escândalo no qual ele não estava envolvido e isto estava fartamente demonstrado.
As críticas se acentuaram, com pessoas dizendo que ele era muito esperto e por
isto não o haviam flagrado. Tantas foram as críticas e denúncias infundadas
que, mesmo tendo amplas chances de ser reeleito ou até mesmo concorrer para
prefeito, desistiu da política.
Conheço outra pessoa, também pastor, que uma noite recebeu
uma chamada telefônica de pessoa de sua relação, que lhe pedia/exigia que ele
desse algumas informações, que o mesmo, naquele momento, estava impossibilitado
de dar. Para sua surpresa, a pessoa começou a acusá-lo de coisas absurdas.
Ele confessava que a pessoa detratora nunca o havia ouvido
pregar, nunca havia participado de sua comunidade e, talvez, nunca tivesse lido
qualquer coisa que ele tivesse escrito. Mesmo assim se sentia no direito e em
condições de emitir juízos severos sobre seu ministério e a coerência dele. Com
lágrimas ele confidenciava: “como posso ser acusado por alguém que mal me
conhece? E meus anos de ministério? E os frutos que já tive foram parar onde?”
A coisa não é nova. Em estudos que estamos fazendo em Atos
dos Apóstolos, Paulo também foi vítima de acusações levianas. Tantas foram as
críticas que ele escreveu algumas cartas à igreja de Corinto para se defender e
defender seu ministério.
Ninguém há que seja inculpável. Paulo, escrevendo aos
Gálatas disse “que se uma pessoa chegar a ser surpreendida em algum delito, os
que são espirituais o corrijam com espírito de mansidão, olhando para si
mesmos, para que também não sejam tentados.” O mesmo, escrevendo aos Corintos
que o acusavam disse: “Aquele, pois, que pensa estar em pé, veja que não caia”.
Estas considerações me fazem recordar o saudoso Rev. Joás
Dias de Araújo em uma frase que costumava repetir: “o ministério pastoral é um
mistério”. A partir dela cunhei outra: “o pastorado é a arte de levar pancadas
e distribuir sorrisos”.
Agostinho disse que a vocação é irresistível. Calvino disse
que a vocação é eficaz. Jeremias disse: “Não ... falarei mais no seu nome; mas
isso foi no meu coração como fogo ardente, encerrado nos meus ossos; e estou
fatigado de sofrer, e não posso mais” (Jr 20:9).
Só a graça de Deus nos mantém no ministério.
Marcos Inhauser
quarta-feira, 3 de julho de 2013
O QUE SOBE DESCE NA MESMA VELOCIDADE!
Já escrevi aqui
mais de uma vez, sobre o sábio Cirilo. Negro, bóia fria, trabalhou com famílias
alemãs na área de Indaiatuba e acabou aprendendo alemão. Sua maior virtude era
a forma como via a vida e a julgava a partir de coisas corriqueiras.
Um dia, na porta
da casa de sítio onde passávamos férias, ele me ensinou uma coisa que a levei
por toda a vida: as coisas caem na mesma velocidade que sobem. Se subir muito
rápido, a queda vai ser rápida também. Fui revisitado pelas lembranças do sábio
nestes dias ao ler e sentir no bolso as consequências de um destes fenômenos.
Falo do Eike
Batista, filho de Eliezer Batista da Silva, ex-presidente da Vale do Rio Doce
(61-64; 79-86), ex-ministro de Minas e Energia. Depois de passar a infância no
Brasil, foi morar na Suíça, Alemanha e Bélgica. Nunca terminou o curso de
Engenharia Metalúrgica na Universidade Técnica de Aachen.
Com 18 anos,
voltou ao Brasil e vendeu apólices de seguro de porta em porta.
No início dos
80, se dedicou ao comércio de ouro e diamantes. Fluente em cinco idiomas (português,
alemão, inglês, francês e espanhol). Com 21 anos montou uma empresa de compra e
venda de ouro e em um ano e meio, acumulou US$ 6 milhões. Aos 29 anos tornou-se
o executivo da TVX Gold. De 1980 a 2000, criou US$ 20 bilhões com a operação de
8 minas de ouro no Brasil e Canadá e uma de prata no Chile. Entre 91 e 96, o
valor da empresa triplicou. Em 2001, a TVX Gold foi vendida por 875 milhões de
dólares canadenses.
Considerado o
homem mais rico do Brasil, hoje amarga o fundo do poço. Eike está negociando com os bancos uma dívida de curto prazo de R$ 7,9
bilhões. A OGX (petróleo), MMX (minério), LLX (logística), OSX (estaleiro), MPX
(energia) e CCX (carvão) precisam pagar ou renegociar R$ 7,9 bi até março de
2014. A LLX renovou com o Bradesco um empréstimo de quase R$ 590 milhões que
venceu em abril.
As
ações do grupo estão se esfarelando na Bolsa. No último ano caíram entre 24,6%
(MPX) e 85% (OSX). Só na segunda-feira houve queda de 27%.
Vendeu
sonhos e não entregou um centavo aos investidores: "São projetos de longa
maturação, que exigem altos investimentos e não estão produzindo o que se
imaginava" disse um analista.
A
crise de confiança do grupo começou há um ano, quando um campo de petróleo da
OGX frustrou as expectativas de produção. A partir daí, os investidores
começaram a questionar a capacidade do empresário de "entregar".
Pelo
jeito ele vai entregar uma manada de bezerros para a “vaca leiteira do
governo”. E vamos virar sócios na dívida!!!.
Marcos Inhauser
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quarta-feira, 26 de junho de 2013
O QUE ENVERGONHA O PAÍS
A presidente Dilma “Soucheff” veio a público, depois de um
longo silêncio ante a gravidade das manifestações públicas, dizer mais do mesmo
e fazer propaganda do seu governo. Depois de dez dias, ela gastou dez minutos
para dizer nada. E no meio do nada tentou dar uma lição de moral: “a violência envergonha
o Brasil”.
Marcos Inhauser
Acrescento coisas que, sim, envergonham o Brasil.
Envergonha o Brasil, dona Dilma, um governo com 37
ministérios incompetentes e um Ministro da Pesca que entende tanto disto quanto
eu de física quântica.
Envergonha a prática de construir a base parlamentar na base
de alianças com partidos, entregando ministérios de “porta fechada”.
Envergonha o Brasil um ministro da Economia que até o final
de 2012 dizia que o PIB seria de 3% ou mais e deu 0,9%.
Envergonha o Brasil a quantidade de deputados e senadores,
pagos a peso de ouro e com aposentadorias nababescas, para fazer quase nada.
Envergonha o ter coisas para serem votadas há anos, como é o
caso do novo pacto federativo, que uma vez mais, no que pese o prazo dado pelo
STF, não será votado.
Envergonha a depredação do patrimônio público seja por
privatizações questionáveis, seja pelas licitações viciadas.
Envergonha o país a quantidade de dinheiro jogado fora em
obras iniciadas e abandonadas.
Envergonha o dinheiro gasto com propaganda de governos federal,
estaduais e municipais.
Envergonha a quantidade de escolas em péssimas condições.
Envergonha o salário de merreca dos professores.
Envergonha a qualidade do atendimento na saúde, a falta de
médicos e de infraestrutura nos hospitais.
Envergonha o processo de aposentadoria e os salários pagos
aos aposentados.
Envergonha a iqualidade dos orçamentos e contratos feitos
com as empreiteiras, que sempre recebem aditivos aumentando significativamente
os custos finais.
Envergonha que as obras de infraestrutura viária da Copa nunca
tenham saído do papel.
Envergonha o despreparo deste governo da Dilma, que vem a
público fazer um segundo discurso, orientada por marqueteiros, vendendo o seu
programa de governo e propondo uma Constituinte restrita, coisa que, no dia
seguinte, teve que voltar atrás, dizendo que não disse o que disse e que
entenderam errado o que disse.
Envergonha a falta de estratégia em lidar com as
manifestações públicas e as demandas populares. Dizer que o povo quer que as “reformas
sejam mais rápidas” (sic). Quando se está parado, qualquer velocidade será mais
rápida. E o governo da Dilma está parado há 30 meses.
Envergonha o eterno retorno da “reforma política” sem que
nunca se faça nada de concreto desde o tempo do FHC.
Envergonha a classe de partidos políticos que temos, muitos comprados
para dar sustentação política (sic) ao governo.
Envergonha que o partido da presidente tenha tentado, por
várias vezes e diversas maneiras, cercear a livre expressão, a liberdade de
imprensa, a autonomia de investigação do ministério público.
Envergonha ter mensaleiros condenados sendo parlamentares e
recebendo como tais.
Envergonha ter o Maluf, condenado aqui e fora do país, como
aliado deste governo.
Eu me envergonho do (des)governo que temos!!
quinta-feira, 20 de junho de 2013
NÃO UMA QUESTÃO DE CENTAVOS, MAS DE DIREITOS
Este é um país sui generis. Não há igual. Já contei aqui que
em uma visita que fazia à Guatemala, a capital estava em pé de guerra com pneus
queimando, barricadas e manifestações porque haviam subido o preço do ônibus em
alguns poucos centavos (algo em torno de R$ 0,05). No Equador, onde vivi, um
aumento de centavos na gasolina fazia o país parar.
Durante
bom tempo fiquei a me perguntar por que os brasileiros são lenientes e
coniventes com a enorme quantidade de fatos que vêm à tona a toda hora, dando
conta de sobrepreços, propina, desvios de recursos. Por que não há uma revolta
social de magnitude com esta corrupção toda?
Hoje
tenho que dizer que me dou por satisfeito. E mais que satisfeito: uma
manifestação sem a comandância dos focos de podridão que são os partidos e os
sindicatos.
Ademais,
a mobilização foi possível por causa da terrível incapacidade da Polícia Militar
em lidar com manifestações. Depois de vinte anos sem ter que fazer frente à
mobilização das massas, a PM (talvez por herança do período da ditadura ou por
nunca ter se afastado dos métodos de outrora), achou que acabaria com a coisa
com gases lacrimogênio e pimenta, com cassetete e truculência. Deu no que deu.
Mais gente saiu à rua e tudo indica que o movimento crescerá.
A
repercussão internacional e as manifestações de solidariedade havidas em várias
partes do mundo, com a imprensa internacional reverberando os fatos aqui
ocorridos, colocou o governo central em alerta de que a coisa está feia e pode
piorar. Como o lulo-petismo quer a todo custo a reeleição da sua camarilha, um
movimento destes pode botar água no chopp.
Por
outro lado, se a cada denúncia há uma convulsão nacional, qual o grau de
maturidade do povo brasileiro? A pessoa e a nação maduras se conhecem pelo
equilíbrio em lidar com as emoções e em dosar as reações diante dos fatos
desagradáveis ou trágicos. Reações desproporcionais, emocionalizadas, são
evidência de imaturidade. Ao ter uma reação de espera, de cobrar explicações via
meios comunicação, ao usar a rede social para manifestar sua indignação e
irritação, ao assistir aos telejornais com vívido interesse, ao ler os jornais
e analisar os fatos, a nação mostra maturidade. Maturidade está na manifestação
pacífica e ordeira. Imaturidade está na ação de uns poucos radicais que usam do
momento para extrapolar.
Gostaria de ver incluída na pauta destas reivindicações a
indignação do brasileiro com a tentativa de golpe que o petismo está
pretendendo dar no Ministério Público, ao impedi-lo de investigar, uma vez que,
na história recente, os deputados e senadores levados à barra dos tribunais o
foram por obra do MP.
Marcos Inhauser
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quarta-feira, 12 de junho de 2013
RUTE
Estava saindo de Rio Preto quando o celular tocou. Passei
para minha esposa atender porque estava dirigindo. Percebi que ela falava com
alguém que, no momento, não estava reconhecendo e eu também estava curioso para
saber quem era. Depois soubemos se tratar de um grande amigo.
À medida que a conversa se desenrolava, percebi tratar-se de
uma notícia triste e o nome que se falava era Rute. Rodei meu banco de dados
mental e só encontrei uma Rute. E era dela que estavam falando. Falecera na
sexta-feira e o enterro seria no domingo à tarde e a pessoa, gentilmente nos
avisava da morte, pois sabia do carinho que tínhamos por ela e ela por nós.
No momento em que comecei a juntar as peças da conversa que
ouvia e me certificava de que se tratava da Rute, uma profunda tristeza foi
invadindo meu coração. Era como se estivesse perdendo alguém muito importante
na vida
Rute era uma pessoa especial no duplo sentido do termo. Era
especial porque sempre (e este sempre tem valor absoluto), quando me via, abria
um sorriso e vinha me abraçar. Queria saber estava bem. Eu, do meu jeito,
brincava com ela e também me interessava em saber como ela estava.
Rute era especial porque, Deus, na Sua vontade e soberania,
permitiu que ela tivesse algumas necessidades especiais, que lhe obrigaram a
terapias e doses maciças de remédio. No que pese as suas características, ela
sempre foi um estímulo para meu ministério. Quando ela vinha à igreja, sentia-me
amado e apoiado.
A notícia da Rute me fez revisar meu passado como pastor.
Conclui que em quase todas as igrejas pelas quais passei e pastoreei, Deus me
deu uma pessoa especial para, de maneira sincera e honesta, me dar as
boas-vindas, me abraçar e se interessar por mim. Também conclui que estas
pessoas especiais tem o dom divino de serem honestas e transparentes. Elas,
quando gostam de alguém, realmente gostam. E se não gostam, não fazem esforço nenhum
para passar a gostar. Percebi também que, em todos os casos, quando ia para a
igreja, tinha o desejo consciente de encontrar a estas pessoas para ser
cumprimentado, abraçado. Era como se precisasse de uma injeção da graça para
iniciar os trabalhos.
Encontrei também estas pessoas especiais em quase todas as
igrejas que já visitei. Na Church of the Brethren, nos Estados Unidos, há um
jovem negro que faz questão de cumprimentar cada um dos mais de quatro mil
participantes da Conferência Anual. Ele dá a mão e diz: Deus te abençoe e te dê
a paz. Às vezes ela volta à mesma pessoa algumas vezes e quando se diz que ele
já havia cumprimentado, ele repete a sua benção.
A Rute me ajudou no ministério e fez falta no tempo em que
se ausentou e fará falta com a sua partida. Por tudo o que foi para mim,
obrigado Deus e Rute.
Marcos Inhauser
quarta-feira, 29 de maio de 2013
É IXTRANHO!
Lembrei da frase
do Zagalo, no seu peculiar jeito de falar, ao ouvir as lambanças ocorridas com
a Caixa e o Bolsa Família: “é ixtranho, muito ixtranho.”
É estranho que
um banco do porte da Caixa, que administra o Bolsa Família, que tem impacto sobre
milhões de pessoas, decida fazer o depósito antecipado da parcela mensal. Que
me perdoem os ingênuos, nunca vi banco favorecer a vida de ninguém, muito menos
dar dinheiro antes da hora.
É estranho que o
depósito tenha sido feito sem notificação aos interessados e sem que se
prevesse a comoção que isto poderia causar.
É estranho que
se diga que foi boato o fato de que beneficiários tenham acessado na sexta o seu
extrato e tenham visto o depósito antecipado e não tenham acreditado em um “presente
da Dilma”, pois certamente estavam acreditando que no dia determinado, uma nova
parcela seria depositada. Lógica simplista de quem vive das migalhas do
governo.
É estranho que
uma ministra do governo tenha atribuído à oposição a onda de boatos, sem ter em
mãos a mais mínima informação, sendo obrigada a desdizer o que disse, alegando
que o que disse não queria dizer o que foi dito.
É estranho que o
vice-presidente da Caixa tenha vindo a público dizer que havia determinado a
antecipação das parcelas para fazer frente à onda de saques que houve, como
forma de aliviar a tensão social que o fato gerou. Mais tarde veio com a
história de que, quando determinou a antecipação, ele não tinha a informação de
que ela já havia sido feita.
É estranho que o
presidente da Caixa venha a público afirmar que não era do seu conhecimento a
antecipação das parcelas e que, por isto, demorou uma semana para trazer
explicações, uma vez que precisava levantar todas as informações necessárias
para o esclarecimento.
É estranho que
dois bilhões de reais (que é o total conhecido do Bolsa Família) seja
antecipado, sem que o vice-presidente e o presidente da Caixa tomassem
conhecimento do fato inusitado.
É estranho,
muito estranho, que a razão para tal antecipação seja a atualização do sistema feita entre março e abril deste ano e que, de
acordo com Hereda, a Caixa identificou 700 mil a 1 milhão de beneficiários
portadores de mais de um Número de Identificação Social (NIS). Com a
atualização, essas pessoas passaram a ter apenas o número mais antigo do NIS, o
que poderia gerar confusão na hora do pagamento, segundo o presidente.
É estranho que ele não tenha explicado se a duplicidade
do NIS implica e duplicidade de pagamentos. Se assim for, dizer que o Bolsa
Família seria cortado não é boato. Por outro lado, como pode um banco que administra
estas contas permitir que no mínimo 700 mil inscrições tenham sido feitas em
duplicata?
É estranho que a presidente Dilma tenha dito que era “desumano
e criminoso” o que estava acontecendo e que, agora, se sabe, foi gente do seu
governo que aprontou a lambança.
É ixtranho, muito ixtranho.
Marcos Inhauser
quarta-feira, 22 de maio de 2013
NÃO UM ZÉ: O ZÉ
Eu o conheci há
mais de 30 anos. Estávamos em um encontro e um dos preletores faltou. Foi
quando ele disse que tinha um texto que poderia ser lido. Nunca me esqueço: O
Primeiro De(s)maio, um trocadilho sobre as condições do trabalho e o dia
primeiro de maio, dia do Trabalhador.
Depois disto nos
encontramos incontáveis vezes, seja em reuniões, conferências, seminários ou
tomando um chopp. Cada vez que eu o ouvia falar e compartilhar suas ideias
minha admiração por ele crescia.
Por duas vezes
eu tive a honra de apresenta-lo como conferencista. Falei o que pensava dele:
uma cabeça brilhante, um poeta, um artista das palavras e dos conceitos, hábil
no uso das metáforas, etc.
Certa feita eu o
convidei para falar sobre a história do pensamento humano (não podia dizer que
era história da filosofia porque o auditório religioso era extremamente
conservador). No caminho para o salão encontramos uma senhora e eu o apresentei
como Doutor José. Ela mal tinha se afastado ele me deu uma bronca: “Marcão, não
quero mais que você me apresente do jeito que você faz. Quando você for me
apresentar, diga que sou o Zé. Nada mais.” “Mas Zé...” tentei retrucar e ele
foi enfático: “Só Zé. Nada mais. Entendido?”
Eu já tinha
preparado o discurso de apresentação. Ia dizer que era autor do livro
Corpoética, Cosquinhas no Umbigo da Filosofia, Papo de Boteco e outras coisas
mais. Fiquei mudo. Fiz o que ele me pediu: “aqui está o Zé”.
O grupo cantou um hino que dizia: “é mui certo que a gente tropeça, por isso Senhor, eu preciso de ti./Bem sei
que nas preces eu posso buscar-te / Jamais
dessa bênção na vida eu descri, / Contudo,
é possível que eu dela me aparte / Por
isso Senhor eu preciso de ti.”
Ele começou
dizendo: “este sou eu. Já tropecei, já me apartei. Peço a vocês para não
acreditarem no que vou dizer, mas que examinem e só aceitem aquilo que entenderem
ser certo.”
Começou com os
pré-socráticos e veio desfilando até o existencialismo. Eu estava abismado
porque o auditório, que eu tinha certeza teria resistências, estava
participando, fazendo perguntas, etc.
No período da
tarde veio o segundo preletor. Começou dizendo que queria fazer algumas
observações sobre o que o Zé havia dito, porque podia dar lugar a
interpretações heréticas. E começou a desfilar um rosário de certezas e
jactância.
Uma hora de
palestra do segundo orador, o presidente do grupo veio até mim e perguntou:
“Não dá para fazer este cara calar e colocar o Zé no lugar dele?”
Perguntei ao Zé,
depois, porque não queria que o apresentasse da forma como queria. Ele me disse
duas coisas que me marcaram: “primeiro que você exagera. E quando você exagera
as pessoas ficam esperando a fala de um gênio. E eu não o sou. Dizendo que sou
o Zé, qualquer coisa que vier depois disto é lucro.”
Não vou dar o
nome completo dele para não levar outra bronca. Mas quem quiser saber quem é,
me escreva que eu conto. Isto o Zé não pode me proibir....... E o faço como
gratidão pelo muito que com ele aprendi e tenho aprendido.
Marcos Inhauser
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quarta-feira, 15 de maio de 2013
PODER DIVINO?
Mal tinha enviado para a redação a coluna na semana passada,
na qual fazia algumas reflexões sobre o poder, entre elas a de que “nada mais terrorista que o poder exercido em
nome de Deus” e surge a notícia de que o “pastor” Marcos Pereira estava sendo
preso por ter, supostamente, abusado sexualmente de fiéis da sua igreja.
Segundo as notícias veiculadas, ele promovia cultos de exorcismo e dizia a
algumas fiéis que o demônio só sairia delas se mantivessem relações com um
homem santo, no caso, o próprio “pastor.”
O argumento, ao menos para
mim, não é novo. Nos idos anos 80 ouvi de mais de uma testemunha, de uma profetisa
na cidade de Jaú que revelava o tal “mandamento da carne”, onde fulano deveria
transar com cicrana, porque esta era a vontade de Deus. A mesma coisa ouvi
depois como prática em outros círculos “proféticos”, dando-me a sensação de ser
algo usual em determinados círculos.
Já mencionei aqui há algum
tempo (Desequilíbrio de Poder) que estudos feitos sobre os casos de violência
sexual sempre mostram uma relação desigual de poder, onde os abusadores, no
exercício de sua autoridade, impõe suas vontades sobre as partes mais fracas.
Também afirmava que, no campo do religioso, esta desigualdade do poder se
estabelece quando o religioso se apresenta como revestido de “autoridade
espiritual”, o que facilita a investida sobre a presa de sua sanha sexual. Uma
“cantada” de um religioso é mais efetiva que a de um cidadão normal. Há nisto a
mística de estar se relacionando com o sagrado, com alguém mais próximo de
Deus, uma elevação espiritual pelo sacrifício da entrega do corpo, de orgasmo
mais pleno porque feito com a santidade. Há o caso (sem o mesmo destaque na
mídia) de pastor que Deus revelou que as mulheres dos membros da Diretoria da
Igreja deveriam ser acessíveis e acabou sendo flagrado no escritório pastoral
com uma delas.
Neste contexto fica mais
fácil entender como pais e familiares próximos são os maiores violadores das
crianças e como a pedofilia ganhou níveis epidêmicos no seio da religião.
Atendi certa feita uma pessoa que foi abusada pelo pai evangélico que usava o
mandamento do “honra teu pai” e o texto “filhos, em tudo obedecei vossos pais,
porque isto é justo” como forma de obrigar a família a ceder aos seus impulsos.
Há que lembrar-se que o
agora acusado teve seus momentos de glória midiática quando apareceu no
Fantástico, que lhe deu longos minutos de reportagem, apresentando-o como
recuperador de viciados, negociador de rebeliões e salvador de pessoas
condenadas à morte pelo tráfico. Talvez por causa disto, ele tenha conseguido
as verbas públicas milionárias para seu “trabalho”.
Marcos Inhauser
quarta-feira, 8 de maio de 2013
O PODER
Somo seres quer buscamos incessantemente o poder. Em todas
nossas relações estabelecemos “nosso território” e buscamos ampliá-lo com
negociações e artimanhas. A busca pelo poder é inerente ao ser humano e o
altruísmo, quando acontece, pode ser que seja um investimento no longo prazo.
Há certas circunstâncias em que cedemos certo espaço de
poder. Há povos que, vivendo em liberdade, quiseram ver a ordem estabelecida e
esta superou e a liberdade e poder de exercê-la foi parcialmente suplantado.
Ninguém consegue viver sem um espaço de poder. A autonomia é
necessária para que haja a individualidade. A ausência total do poder pessoal é
a completa despersonalização. No entanto, como seres humanos, somos a somatória
das obediências que prestamos a quem não podíamos e não podemos desobedecer. No
fundo, sobrevivemos porque cedemos algo do nosso poder para figuras ditatoriais
patriarcais, matriarcais, avunculares, professores, chefes, etiqueta, moda,
etc.
Neste contexto deve-se ver a política. O império político
tem o objetivo de manter a massa no limite mínimo da satisfação e abafar o
clamor dos pobres e sofridos. Deputados, senadores, vereadores, governadores e
quejandas não são deserdados. São eleitos porque têm cacife, tem poder anterior
para lá chegar. E quando lá chegam buscam ampliar o seu espaço de poder.
A política existe para congelar o status quo. Daí porque, as
Câmaras Municipais mais concedem honrarias que legislam mudanças. E quando elas
ocorrem são cosméticas. Um governo sem atribulações, azeitado, sem greves, sem
reclamações é o que todo governo quer. Ele busca manter e aumentar seu poder,
usando de todos os artifícios disponíveis, não importa se éticos. E para
legitimar esta sua ânsia, usa do processo educativo e da propaganda oficial
para persuadir os dominados a aceitar a dominação, via consenso ideológico. É
um processo de acomodação e domesticação das classes, especialmente as
emergentes. Talvez com isto se possa entender porque no Brasil não se permite a
“educação em casa” (home schooling).
Seria ter gente pensando fora do consenso ideológico.
Nada mais terrorista que o poder exercido em nome de Deus. O
fanatismo religioso, na história da humanidade, é o responsável pela maioria
das mortes violentas. Se o poder do monarca vem de Deus, nada nem ninguém irá
suplantá-lo ou diminui-lo. O “poder divino” cria messias, iluminados, fazedores
de milagres e ladrões do povo via ofertas religiosas e dízimos. Cobra vidas
como é o caso dos fanáticos muçulmanos. Quem tem olhar crítico sobre estes “poderosos
divinos” é tachado, até mesmo pelos domesticados, de herege.
No âmbito da sociedade são tachados de revolucionários,
antissociais, guerrilheiros, esquerdistas. Usam dos meios de comunicação (que
está nas mão dos poderosos) para vender esta ideia aos dominados que, consensualmente,
aceitarão a versão oficial e a outra como subversão.
Marcos Inhauser
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FERVENDO
As relações entre os poderes da República não andam nada
harmônicas e estão ferevendo. Soube-se, dias antes do início do julgamento do
mensalão, que o ex-presidente da República tentou chantagear um dos integrantes
do STF. Mais tarde, soube-se também do périplo do ministro Fux em suas visitas
a autoridades, no objetivo de conseguir a sua indicação para o Supremo e que o
fizeram na esperança de que seu voto fosse favorável aos mensaleiros. Não
sendo, foi xingado e execrado pelos filiados ao partido governante. Os votos do
Toffoli não convenceram ninguém da imparcialidade que um juiz deve ter.
O Planalto andou tendo algumas derrotas no Congresso e a sua
base de articulação, qual centroavante irregular, tem errado o gol na hora agá.
Em outras, jogo com o rolo compressor e arranca vitórias que evidenciam
interesses nada republicanos. Nos últimos dias vimos esta máquina de votação
passar o rodo e levar ao plenário a limitação (ou a criação de obstáculos mil)
para a criação de novos partidos, naquilo que se pode definir como animus legendi, quando uma lei é feita
com o objetivo de alcançar alguém específico, no caso a Marina da Silva e sua
Rede de Sustentabilidade. Também limita as articulações do Eduardo Campos,
provável candidato do PSB à presidência.
O PSDB bateu às portas do STF e conseguiu liminar para
suspender a tramitação do projeto, por entender ser inconstitucional. O Gilmar
Mendes (que deve ganhar por liminares e habeas corpus que expede), concedeu e a
grita no legislativo foi grande: o judiciário está se metendo nas atribuições
do legislativo. Veio a desforra: o legislativo propôs que algumas questões
votadas pelo STF, mesmo pelo seu pleno, sejam referendadas pelo Congresso. Em
outras palavras, o STF estaria sub judice do legislativo. A grita foi geral
pois, inclusive assim acho também, isto cheira a golpe.
Agora vêm os impolutos Calheiros e Alves com a conversa
iniciada pelo Maia quando presidente da Câmara, de que o que se quer é
delimitar com precisão as atribuições de cada poder, para que as relações sejam
mais harmônicas e a coisa pública ande com mais celeridade. Isto me cheira
raposa se candidatando a xerife do galinheiro. A continuar assim, vão propor a
extinção da Procuradoria Geral da República, dos Tribunais de Contas e a
Controladoria Geral da União porque andam “criando problemas”para a aplicação
das verbas parlamentares.
Aliado a isto está a proposta da votação em listas feita
pelo partido e não mais em candidatos. Só vamos poder votar no bloco! Não me
assustaria que um iluminado viesse com a proposta de acabar com as eleições em
função dos altos níveis de popularidade do Lula e Dilma, o que evidencia a
aceitação popular e a efetividade de seus governos.
Seria a realização do sonho do companheiro Zé Dirceu e seus
aspones.
Marcos Inhauser
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quarta-feira, 24 de abril de 2013
CONSERVADORISMO
Uma das características das igrejas é a confessionalidade,
determinada pelo conjunto de doutrinas que a denominação ou religião estabelece
como sendo a verdade. Esta doutrina teórica é ensinada através de Catecismos
que são ensinados e que os aprendizes devem memorizar, repetir e recordar. Ora,
ao fazer isto, a igreja conserva o mesmo, as mesmas verdades que foram
pronunciadas há séculos por algum iluminado, seja Agostinho, Aquino, Lutero,
Calvino, Zwinglio, Wesley ou qualquer outro.
A preeminência desta Confissão é tão grande que o Código de
Disciplina da Igreja Presbiteriana do Brasil, no Capítulo II, quando trata das
faltas, no Art.4º, Parágrafo Único – “Nenhum tribunal eclesiástico poderá
considerar como falta, ou admitir como matéria de acusação aquilo que não possa
ser provado como tal pela Escritura, segundo a interpretação dos Símbolos da
Igreja”. Percebe-se assim que só é falta (pecado) aquilo que é previsto nos
Símbolos da Igreja (Confissão de Fé, Catecismos Maior e Menor).
A memória, a recordação preservam o passado e este é
imutável. Não se muda o que já aconteceu. Ao fazer esta retro-oculatra, as
igrejas perdem o sentido de uma resposta ao presente, preferindo a saudade de
tempos idos. A recordação tem algo de opressora: ela não permite a novidade, a
descoberta, a criatividade. Ela congela o pensamento e nega o diferente. Ao
assim proceder, entroniza o passado como verdade absoluta e demoniza o presente
e os sonhos de futuro melhor como demoníacos.
Não é para menos que os profetas tenham sido mortos,
torturados, serrados ao meio. No dizer do escritor de Hebreus: “Todos esses
morreram cheios de fé. Não receberam as coisas que Deus tinha prometido, mas as
viram de longe e ficaram contentes por causa delas, declararam que eram
estrangeiros e refugiados, de passagem por este mundo. E aqueles que dizem isso
mostram bem claro que estão procurando uma ... Não ficaram pensando em voltar
para a terra de onde tinham saído. Se quisessem, teriam a oportunidade de
voltar. Mas, pelo contrário, estavam procurando uma pátria melhor, a pátria
celestial. E Deus não se envergonha de ser chamado de o Deus deles, porque ele
mesmo preparou uma cidade para eles.” (Hb 13:12-16).
Para a religiosidade ortodoxa, ciosa das verdades que
sustenta há séculos, os pregadores de alternativas, os promotores de perguntas,
os questionadores devem ser liquidados, taxados de hereges, queimados no fogo
da Inquisição.
Nada mais fácil que taxar alguém que pensa de herege,
apóstata. Não há lugar para os profetas! A função do ministério profético é
manter juntos o espírito crítico e a ação. É na dialética entre crítica e ação
que nos tornamos fiéis a Deus. Optar por um ou outro é cair nas armadilhas do
progressismo e do conservadorismo.
Marcos Inhauser
quarta-feira, 17 de abril de 2013
PROVA CABAL
A lentidão da
justiça brasileira tem nesta semana sua prova mais cabal: vinte anos para que
os indiciados no massacre do Carandiru sejam julgados! No que pese a comoção
nacional e internacional com o caso, o processo andou a passos de tartaruga.
Já se falou e se
falará sobre a quantidade de pessoas envolvidas, seja como acusados ou como
testemunhas, tentando com isto justificar a demora no julgamento.
Não há como
colocar de lado o sentimento de impunidade que grassa na população. Tamanha
crueldade e barbárie ficam para as calendas. A percepção popular é que não vai
dar em nada, mesmo porque, o comandante do massacre já morreu e os demais
implicados de alto escalão (governador e outros), têm poder de fogo (entenda-se
bons advogados).
Os
testemunhos prestados até agora neste julgamento são estarrecedores. O ex-detento Marco Antônio de Moura, afirmou que atiravam
em direção à cadeia de dentro de um helicóptero: "Tinha um helicóptero com
uma metralhadora atirando ... tinha
presos que estavam no telhado, tentando fugir. Todos foram atingidos por essas
balas e morreram".
Ele ainda testemunhou que “na minha cela, entraram uns 30.
Fechamos a porta. Um policial chegou, colocou o cano da metralhadora pela
janela que fica na porta e atirou. Uns dez foram atingidos, oito morreram ... No
momento em que os presos eram levados para o pátio, os presos ouviam os
policiais gritando: ´Deus cria, a Rota mata´ ... Tive um amigo que estava com
um furo no pé, pisou no sangue e pegou HIV. Morreu por causa da doença há uns
cinco anos".
Outro ex-presidiário, Antônio Carlos Dias, disse em seu testemunho
acreditar que o número de mortos no massacre foi o dobro dos
111 divulgados oficialmente.
Há ainda quem coloque o massacre como o ponto de partida da
criação da facção criminosa PCC. Promotoria e defesa concordam que o massacre
ocorrido em 1992 e o surgimento da facção em 93 estão relacionados. A advogada
de defesa dos policiais, Ieda Ribeiro de Souza, atribui o surgimento da facção
às reações críticas à atuação policial no episódio. Para ela “deram carta
branca aos bandidos quando restringiram a PM de entrar nos presídios. Por isso,
estamos na situação que estamos hoje". O PCC reivindicava o fim da linha
dura e dos maus-tratos contra os presos.
O que me intriga é que o
julgamento não tenha comovido a população para acompanhar e exigir lisura e
justiça. Talvez isto se explique pelo fato de que apenas 10% das pessoas
acreditam que eles serão condenados e presos.
Os dados são de pesquisa realizada entre 4 e 5 de abril, com 1.072
entrevistados com mais de 16 anos. Estou entre os descrentes, até prova em
contrário.
Marcos Inhauser
MEGAIGREJAS
Megaigrejas são fenômeno novo. As grandes congregações
estavam ausentes da história da Igreja Cristã. Em qualquer período histórico
não havia mais do que uma dúzia destas congregações em todo o mundo, mas nenhuma
delas se enquadra no que hoje são as megaigrejas. Elas são mais do que igrejas
com frequência enorme. São congregações com padrão distinto de organização nas
relações, nos ministérios e na associação. A rápida proliferação desta forma de
vida congregacional ocorreu nas últimas décadas. Quase todas as megaigrejas
foram criadas depois de 1955.
O crescimento explosivo experimentado por essas congregações
não existiu antes da década dos oitenta. Dados coletados em 1992 nos Estados
Unidos revelam algo em torno de 350 de tais congregações.
A característica mais evidente das megaigrejas é o número de
pessoas presentes em uma semana. O atendimento tamanho deve girar em torno de
2.000 pessoas para que elas passem a ser consideradas como tais.
O tamanho de algumas megaigrejas pode ser enganoso. Uma
contagem de milhares de frequentadores raramente é exata. Estimar a
participação com base no número de pessoas pela quantidade de assentos
disponíveis é algo que carece de precisão. Muitos denunciam um atendimento inflacionado,
sob a alegação de que ninguém frequenta mais de uma vez por semana a igreja.
Assim, na maioria dos casos, o que se tem são estimativas, mesmo porque, uma
das características destas igrejas é não ter um rol de membros.
O grande número de frequentadores cria várias dinâmicas. Se
se atinge a massa crítica de 2000, a força numérica se torna em poderoso fator
de atração. Um líder destas igrejas disse que “quando se atinge certo tamanho, a
igreja se torna autogeradora: atrai as pessoas por seu tamanho. As pessoas
sabem que vão estar na TV e que o lugar é grande. Há uma sensação de que alguma
coisa está acontecendo e tamanho gera mais crescimento”.
A grande igreja cria um movimento de atração de outros. Um
fluxo de carros de domingo em uma rua tranquila desperta o interesse. Grandes
edifícios e amplos estacionamentos marcam presença no entorno.
Muitas vezes não é apenas o tamanho que caracteriza a
megaigreja. A maioria experimenta crescimento rápido ao longo de um período de
tempo muito curto. É "sucesso instantâneo" que muitas vezes define uma
megaigreja na ecologia religiosa. Este aumento explosivo define esta
congregação para além de outras opções espirituais da comunidade. Elas são
igrejas dependentes da figura de um líder, muitas vezes autocrático. Ele é a cara
visível da igreja e é conhecida como a “igreja do fulano”.
Considerados estes fatores, algumas perguntas se impõem: são
as megaigrejas verdadeiras igrejas? Se a essência da igreja cristã é a
comunhão, que comunhão há entre duas, três, quatro mil pessoas? Elas são
congregações ou auditórios? O que prevalece é o estilo de vida simples ou o
espalhafato tecnológico? A adoração genuína ou o show dos “modernos levitas?”
Marcos Inhauser
quarta-feira, 3 de abril de 2013
PETULÂNCIA RELIGIOSA
O deputado federal e pastor evangélico Marco Feliciano fez algumas
declarações durante um culto em Passos – MG, na sexta-feira da Paixão, em
função da pressão que vem sofrendo por ser o presidente da Comissão de Direitos
Humanos da Câmara: "Essa manifestação toda se dá porque, pela primeira vez
na história desse Brasil, um pastor cheio de espírito santo conquistou o espaço
que até ontem era dominado por Satanás".
Há algumas coisas que quero ressaltar na reportagem feita pela
Folha de São Paulo sobre as declarações. Uso o texto escrito por Alexandre
Gonçalves, pastor da Igreja da Irmandade: “Nas entrelinhas da reportagem
surge um detalhe curioso: o jornalista Daniel Carvalho ... escreveu
"espírito santo" com letras minúsculas e "Satanás" em
maiúsculo. Não sei se proposital,
..." ou intenção deliberada ... do jornalista, mas para mim
providencial. ... eis que o pastor se declara um homem "cheio de espírito
santo", e portanto, cheio de "poder", de "verdade", e
... de legitimidade divina para tomar suas decisões. Ele quer nos fazer crer
que há uma "batalha espiritual" no Congresso ... , e ... que ele é a
resposta de Deus para essa batalha (pela primeira vez na história desse
Brasil!). Ele segue a lógica de que é necessária uma força maior, ... divina
... para vencer o mal instalado no mundo.
Nessa dicotomia estabelecida entre o BEM ... e o MAL (Satanás, por meio dos ativistas dos direitos dos homossexuais, encabeçado pelo Dep. Jean Wyllys) não sobram espaços para refletir sobre os absurdos proferidos de todos os lados, sendo um dos mais graves, ... anunciar-se como o "primeiro pastor cheio de espírito santo na história desse Brasil a conquistar o espaço que até ontem era dominado por Satanás". Nessa luta de verdades absolutas só há espaço para o triunfalismo da teologia dos "homens muito usados por Deus".
Talvez o jornalista tenha mesmo razão em escrever "de espírito santo" com letras minúsculas. Feliciano está cheio daquilo que compreende como espírito de santidade, de pureza e superioridade, que dá carta branca a ele para fazer o que desejar, afinal, está sob a legitimidade divina. Saudades dos profetas: "Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças como trapo da imundícia; e todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniquidades como um vento nos arrebatam”. (Isaías 64,6).
Talvez o jornalista tenha acertado também em escrever "Satanás" em maiúsculo, por perceber ser ele o único protagonista, de fato, disso tudo.
Nessa dicotomia estabelecida entre o BEM ... e o MAL (Satanás, por meio dos ativistas dos direitos dos homossexuais, encabeçado pelo Dep. Jean Wyllys) não sobram espaços para refletir sobre os absurdos proferidos de todos os lados, sendo um dos mais graves, ... anunciar-se como o "primeiro pastor cheio de espírito santo na história desse Brasil a conquistar o espaço que até ontem era dominado por Satanás". Nessa luta de verdades absolutas só há espaço para o triunfalismo da teologia dos "homens muito usados por Deus".
Talvez o jornalista tenha mesmo razão em escrever "de espírito santo" com letras minúsculas. Feliciano está cheio daquilo que compreende como espírito de santidade, de pureza e superioridade, que dá carta branca a ele para fazer o que desejar, afinal, está sob a legitimidade divina. Saudades dos profetas: "Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças como trapo da imundícia; e todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniquidades como um vento nos arrebatam”. (Isaías 64,6).
Talvez o jornalista tenha acertado também em escrever "Satanás" em maiúsculo, por perceber ser ele o único protagonista, de fato, disso tudo.
A petulância está em arvorar-se em “pastor cheio
do Espírito Santo”. É tão petulante como quem afirma ser gênio, sábio ou
iluminado. Nem Jesus fez esta afirmação sobre si. O que ele tem é o espírito do
messianismo: escolhido por Deus para salvar a família brasileira!
Livrai-nos Deus dos falsos Messias!
Marcos Inhauser
terça-feira, 26 de março de 2013
OS MEUS DOIS NEURÔNIOS ESTÃO FERVENDO
Um dos dois
neurônios que tenho está fervendo. O outro está em estado de convalescência. Eles
nunca funcionaram bem, mas, desde a semana passada, entraram em curto-circuito.
Por todos os meios e exercícios tentei reanimá-los, mas estão em pane.
A coisa começou na semana passada quando
li que o Conselho Federal de Medicina decidiu propor que o aborto seja legal
até o terceiro mês de gestação. Segundo o presidente do CFM, Roberto Luiz d'Avilla, “é
inaceitável que mulheres morram em abortos realizados sob condições inseguras”.
Ele também criticou “a desigualdade de meios à disposição de mulheres ricas e
pobres que desejam interromper a gravidez. A realidade dos fatos mostra as
mulheres fazendo aborto com uma grande iniquidade. As ricas em condições
seguras e as pobres, totalmente inseguras. E elas [as pobres] é que estão
enriquecendo as estatísticas de mortalidade e de morbidade. Ou seja, as
complicações, perdendo útero, perdendo partes do intestino, morrendo. Isso que
não é possível. Essa desigualdade é inaceitável do ponto de vista médico".
O que me deixa
intrigado é a lógica utilizada. Na argumentação se diz que os abortos ilegais
produzem muitas mortes (terceira causa de morte em gestantes) e internações na
rede pública, em função dos procedimentos inadequados. O que sobra para o
Estado são as “pobres”, porque as ricas têm como arcar com os custos. Qual a
garantia que a legalização dará às pobres condições seguras de praticar o
aborto? Ou a consequência disto é prover clínicas de aborto do SUS?
Por outro
lado, a salvaguarda da vida da mãe é determinada pela morte certa de um
inocente. O possível risco de vida da mãe determina a morte certa do feto. Mais:
em um momento em que se têm inúmeros métodos de controle da natalidade (até
camisinha grátis o governo tem dado), engravidar pode ser visto como
irresponsabilidade ou descuido. Esta atitude vitima quem não teve nada a ver
com a história: o feto, a criança. A sentença da morte certa, feita de forma
correta e legalizada!
A segunda
pancada no meu teco veio da proposta encaminhada pelos redatores do novo Código
Penal Brasileiro. Outra vez a lógica me deu nó neural: criminaliza-se o
racismo, a homofobia, mas se legaliza a morte via aborto. É crime afirmar ser
contra a homossexualidade, mas será avalizada, talvez até com dinheiro público
via SUS, quem quiser interromper uma vida embrionária.
Ainda que seja
pastor, não me valho de argumentos teológicos ou religiosos para expor minha
indignação. Poderia fazê-lo e o farei em outra oportunidade. Quero, sim,
explicitar a lógica de dois pesos e duas medidas. É crime racismo, mas é legal
o aborto. É crime a homofobia, mas é legal a interrupção da gravidez. Denegrir alguém
é mais crime que matar alguém!
Só espero que
não venham com mais coisas e acabem inviabilizando o neurônio que sobrou. É
verdade que ele levou um belo tranco com as eleições dos presidentes do Senado
e Câmara. Mas os meus neurônios estão com a saúde frágil. E o SUS não tem
tratamento para eles.
Marcos Inhauser
terça-feira, 19 de março de 2013
MUDANÇAS À VISTA?
Quando da eleição do sucessor de João Paulo II, escrevi aqui
que foi eleito quem já era. Dizia eu: “Os cristãos mais progressistas da
América Latina, notadamente os que se alinharam à Teologia da Libertação, às
comunidades Eclesiais de Base ... e ao movimento ecumênico ... não estão ...
satisfeitos com a eleição do Cardeal alemão Ratzinger como o novo papa ...
Creio até que este mesmo sentimento está presente em todos os que esperavam um
papa ... mais alinhado com os novos tempos, com as descobertas da ciência, com
as grandes questões sociais, éticas e políticas deste início de século XXI. Não
há como esquecer que ... Ratzinger foi a eminência parda por trás do
pontificado de João Paulo II, quem, como ideólogo influente dentro da estrutura
de poder do Vaticano, colocou muitas das cores que marcaram o último
pontificado. Com ... certeza, saiu dele a orientação para uma maior
centralização do poder em Roma, retirando dos cardeais e bispos ... espaços de
poder, quem determinou uma linha teológica ... conservadora, quem foi o
ideólogo para o desmonte da Teologia da Libertação, quem esteve por trás das
disciplinas de Leonardo Boff, Hans Kung e outros que ousaram levantar uma voz
destoante da afinação decretada pelo Vaticano” (20/04/2005).
Tenho para comigo, e há muitos que vão discordar, que o
papado de Ratzinger foi um dos mais fracos do último século. Quando da sua
renúncia escrevi: “Especulo ... que Bento XVI nunca foi unanimidade na igreja.
Uma coisa é o discurso formal, o rosário de elogios que bispos fazem. Outra ...
é o que vai na alma e no coração. Converso com muitos católicos, clérigos e
leigos, e nunca percebi que a eleição de Bento XVI fosse consenso. Houve quem
tivesse dito que tiveram que engolir a eleição “goela abaixo”. Por suas
posições quanto à Teologia da Libertação, ele tinha sérios questionamentos por
parte de latino-americanos. Questionado na sua eleição, no seu posicionamento
teológico (essencialmente conceitual, tratando de temas que não são pertinentes
à realidade de povos da África, Ásia e América Latina) e enfrentando a luta por
espaço por parte de grupos que atuam no interior da Cúria, só lhe restou a
renúncia.”
Talvez eu tivesse que acrescentar: renunciou ao papado quem
nunca foi papa.
A eleição do Cardeal Bergoglio indica, pelos primeiros
sinais, mudanças. A primeira na suntuosidade e opulência que os anteriores
costumavam ostentar. A segunda, a escolha do nome que, se for harmônica com os
princípios de Francisco de Assis, será um papado franciscano, voltado aos
pobres e com preocupação ecológica (coisas que já foram sinalizadas pelo novo
papa). A terceira, sua vocação pastoral e não acadêmica. Ele é mais de abraçar
e sorrir que produzir encíclicas sobre temas que não são preocupação dos fiéis,
como foi o caso do seu antecessor.
Resta saber como ele tratará os temas da Cúria, do Banco e
dos crimes sexuais de pedofilia. No entanto, esperar mudanças mais radicais em
temas como casamento de padres, homossexualidade, aborto, controle da
natalidade, uso de preservativos, é esperar milagre.
Marcos Inhauser
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quarta-feira, 13 de março de 2013
O SERMÃO DO BÊBADO
Estávamos
em uma fase difícil na igreja. Problemas com o antigo pastor, um grupo de
membros havia deixado a comunidade, éramos poucos questionando por que Deus
estava permitindo tudo aquilo. Um domingo, quando éramos meia dúzia reunidos,
com um sentimento de desânimo que pairava no ar, uma membro disse
enfaticamente: “eu não sinto mais Deus no nosso meio. Tivemos tantos problemas
e estou tão desmotivada que não sei o que fazer. Quando vinha para cá hoje tive
esta certeza – Deus não está no nosso meio”.
Ficamos
em estado de choque. Todos nos perguntávamos o que estava acontecendo e no
nosso íntimo questionávamos se Deus era conosco. Ela teve a coragem de
explicitar a pergunta que todos fazíamos no íntimo.
O pastor
iniciou o culto. No meio dele escutamos um barulho dentro do salão onde nos
reuníamos e uma voz reclamando. Era um bêbado que havia entrado de bicicleta e
tudo e tinha caído. Fomos ajuda-lo a se levantar e ele perguntou se era uma
reunião de igreja. Dissemos que sim e ele pediu para participar.
Mal o
pastor retomou a palavra ele o interrompeu, querendo falar algo, sem nexo e com
a voz empastada pela bebida. Outra vez o pastor tentou falar e ele interrompeu.
O pastor perguntou se ele queria dizer algo à igreja e ele respondeu
afirmativamente. Olhando para todos nós, como que para saber o que pensávamos,
ele sentiu o apoio da comunidade e disse ao bêbado: “pode falar que vamos te
ouvir. Depois de você eu vou falar e você vai me ouvir quietinho. Certo?”
Aquele
homem se transfigurou. Não era mais o bêbado que havia entrado de bicicleta e caído.
Parecia sóbrio. Sua história foi mais ou menos a seguinte:
“Desde
pequeno minha mãe me ensinou as coisas sobre Deus. Um dia perguntei a ela onde
Deus morava e por que nunca o tinha visto. Ela me disse que ele morava no céu e
que não se podia ver a Deus por causa da sua glória. Na adolescência, intrigado
com o fato de Deus existir ou não, raciocinei que, se Deus mora no céu, eu
devia ir ao local mais alto que conhecesse e lá pediria que ele provasse para
mim que ele existia. Subi ao monte mais alto que tinha na minha cidade e no
alto dele clamei pedindo que Deus, se de fato existisse, se revelasse a mim.
Nada aconteceu. Fiquei ali parado esperando. Acabei dormindo. Em certo momento,
fui despertado por um vento que bateu e da árvore debaixo da qual eu estava
caíram flores perfumadas e me cobriram de perfume e senti naquele momento que
era Deus dizendo para mim: eu existo.
Nunca
mais senti aquele perfume, mas nunca o esqueci. Mais de trinta anos se passaram
e hoje, quando estava passando em frente deste templo, senti o mesmo perfume
que me cobriu lá no alto da montanha. E eu entrei. E entrei para dizer para
vocês que Deus está aqui no meio de vocês. Nunca duvidem disto”.
Aquilo
caiu como bomba em nosso meio. Ficamos quietos e chorávamos. Depois de um longo
tempo de silêncio, o pastor disse: “não há mais nada a dizer hoje. Já recebemos
a Palavra de Deus”.
Estávamos
mortos pelo desânimo. Sem pedir licença e da forma mais inesperada possível ele
vem à comunidade. Entra atropelando, atropela o andamento do culto e pede a
palavra. Em sã consciência ninguém daria a ele a oportunidade de falar. Fomos
movidos a fazer uma loucura.
Descobrimos
Deus se movendo entre nós, usando alguém que não tinha credenciais
eclesiásticas. Ele foi o instrumento de Deus para nos trazer nova vida, nova
esperança, novo começo. O bêbado foi usado por Deus para nos dar novo ânimo,
ele frutificou em nosso meio, nos levou de volta a Deus e até hoje a igreja é
edificada pela palavra que ele nos trouxe.
Marcos Inhauser
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a graça de Deus,
Deus está aqui,
Marcos Inhauser
quinta-feira, 7 de março de 2013
ISTO É UM BEÇURDO!
Quase analfabeto, tinha três habilidades que eu admirava. A
capacidade de ficar de cócoras, sentado sobre os pés, por longos períodos de
tempo. Era uma posição fetal, que ele gostava de ter. Acocorado, pegava um
pedaço de madeira e ficava a rabiscar coisas no chão de terra e a conversar. A
outra era seu vocabulário peculiar. Tinha dificuldade em pronunciar palavras
que tivessem uma consoante muda (objeto virava bejeto, opção virava opição,
psicologia era pronunciada como pissicologia, etc.). Admirava também sua
capacidade em fazer diagnósticos, quase sempre simplistas e reducionistas, mas
pronunciado com a certeza dos deuses.
Quando ouvia algo que lhe parecia estranho ou fora da
normalidade, lá vinha a sentença: “isto é um beçurdo”.
Lembrei dele na quarta-feira, quando do jogo no Pacaembú,
com os portões fechados. Se ele tivesse ouvido ou visto a coisa, teria
proferido a sentença. E no que pese a sua incapacidade de aprofundar na análise
dos fatos, devo dizer que eu concordaria com ele.
É um beçurdo que o Corinthians e sua torcida tenham sido
penalizados por algo que, no frigir dos ovos, também é culpa do time de Oruru e
da polícia boliviana, que não teve condições de garantir a segurança no
estádio.
É um beçurdo que, mesmo tendo identificado dois autores
(outro beçurdo, porque se sabe que só um é o responsável pelo sinalizador),
toda uma torcida que não esteve no estádio de Oruru tenha sido penalizada.
É um beçurdo que, mesmo com a confissão de um adolescente
(que pode vir a se comprovar ser outro beçurdo para livrar a cara dos reais
culpados), um prejuízo de mais de dois milhões tenha sido importo ao time
brasileiro.
É um beçurdo que uma instituição não brasileira tenha o
poder de cercear a liberdade de assistir a um jogo, com ingressos vendidos e
jogo realizado em solo nacional.
É um beçurdo que os quatro que entraram na justiça e
ganharam o direito de entrar, tenham sido aconselhados a não fazer valer seu
direito, porque isto poderia ser mal interpretado pela Conmebol e que
complicaria a vida do time brasileiro.
É um beçurdo que a Conmebol só agora tenha instituído uma
comissão para analisar os atos de violência que ocorrem na Libertadores, onde
policiais com escudo devem proteger quem vai bater um escanteio, radio, pilhas
e outros “bejetos” sejam lançados em campo, sem que haja alguma punição.
É um beçurdo que não se possa tomar ações legais contra os
descalabros das entidades de futebol. Até hoje ninguém me explicou
convincentemente porque a Fifa vem ao Brasil e exige a mudança das regras aqui
vigentes e libera a bebida nos estádios durante a Copa, que um executivo da
instituição diga o que disse o sr. Volke, que exija coisas e condições como se
fosse um governo paralelo.
É um beçurdo que eu gaste duas semanas e duas colunas para
escrever sobre este assunto.
Espero que o leitor não considere um beçurdo ter lido isto.
Marcos Inhauser
UM SINALIZADOR
Para mim não é coincidência que um sinalizador lançado por
um torcedor seja também o sinalizador de uma série de coisas relacionadas à
violência social, política e policial que vivemos. O fato em si é o ápice de
uma série de fatores que devem ser analisados e considerados.
Marcos Inhauser
A primeira sinalização é de que não há nenhum resultado
fruto de uma única causa. Querer reduzira morte do jovem boliviano a um
sinalizador disparado por alguém é tão estúpido quanto o indivíduo que usou o
artefato.
A segunda é que há uma grave falha no sistema de vigilância
e policiamento na entrada e comércio de armas e outros artefatos. Um sujeito
qualquer (mesmo um adolescente, se se comprovar a história da autoacusação
feita) pode comprar por R$ 20,00 um sinalizador na 25 de março.
A terceira é que é fácil atravessar as fronteiras do Brasil
para o exterior e vice-versa, portando artefatos que podem ser usados para
matar, como foi o caso.
A quarta é que é possível entrar em estádios com artefatos
perigosos, dentro de uma mochila, seja ela de um brasileiro, seja de um
boliviano (porque fogos de artifício também foram usados pela torcida de
Oruro).
A quinta é que, mais uma vez, se sinaliza que as torcidas
organizadas estão mais para máfia que para torcida. Sabe-se há bom tempo que há
alto índice de sujeitos com passado nada recomendável, dirigindo estas
agremiações.
A sexta é que, ao interior das torcidas, a ascensão social e
de poder se dá pelo arrojo e destemor na prática de “atos de coragem”. Os novos
passam por processos e ritos de iniciação e ganham status à medida que se mostram
mais valentes. Isto ficou patente no discurso do adolescente que afirma ter
sido ele que atirou o sinalizador para que fosse notado pelos colegas.
A sétima é que, na tentativa de dar uma resposta à pressão
popular e internacional, a polícia, a esmo, selecionou um grupo e os prendeu,
sem ter conseguido, até o presente momento, comprovar a real participação deles
nos eventos trágicos. Um sinalizador não pode ser disparado por duas pessoas e
há dois acusados de fazê-lo.
Uma sucessão de violências.
A luta contra a violência precisa mudar e renovar o tecido
da vida política. Deve criar nova identidade política, controlada e assumida
pelo próprio povo, pela organização dos marginalizados e pelos organismos das
classes dominantes.
O aprendizado centrado na crueldade, na violência, na tortura,
leva o torturado, o que sofreu a crueldade e a violência a ter um aprendizado
que vai gerando na pessoa uma agressividade e violência que ele acaba aplicando
no outro, tendo ou não uma voz de comando que o leve a agir. A violência gera a
violência.
A fome é tão violência quanto a tortura, a falta de moradia
é tão violenta quanto a prisão arbitrária, o sinalizador lançado contra um
torcedor é tão violento quanto a prisão indiscriminada e aleatória de
torcedores.
A violência é uma força que fere a vida e destrói a
liberdade e a dignidades humanas. Ela restringe, controla e determina
comportamentos de pessoas, grupos sociais e instituições políticas e culturais.
Tanto quanto em qualquer outro período da história, a
violência nos machucou. Juntemos forças para mudar esta cultura.
A “ZONA” AZUL
Não acredito que eu seja o único que anda
irritado com a deterioração da zona azul na cidade de Campinas. Implantado em
1995, tinha o objetivo declarado de “democratizar a utilização do solo público
e facilitar a acessibilidade da população à região central do município”.
A Emdec diz que há 1950 na região central
e Guanabara, ao preço de R$
2,70 pelo cartão
da Zona Azul, o que é uma ficção. Quem quiser usar a Zona Azul terá enormes
dificuldades para encontrar um posto credenciado que venda o cartão de
estacionamento. Quando você acha um que deveria vender porque consta como credenciado,
dizem que “não vendem mais porque não compensa”. Foi o que me informou a
proprietária de um estabelecimento na Costa Aguiar e que se quisesse comprar
teria que fazê-lo com o flanelinha que estava na rua. Perguntei se havia algum
outro local credenciado e ela me informou ‘que ninguém mais quer vender porque
a Emdec exige que eles comprem uma grande quantidade de cartões, que o
investimento é alto e que o lucro é mínimo”. Disse ainda que correm o risco de
serem ameaçados por alguns flanelinhas que não querem perder o lucro que tem
vendendo a R$ 4,00 e até R$ 5,00 cada cartão. O mesmo aconteceu esta semana na
Rua Lusitana e na semana passada na Regente Feijó.
Certa feita, ao estacionar na Avenida
Aquidabã, quase cruzamento com a Francisco Glicério, o flanelinha veio me
oferecer o cartão, perguntei o preço e, por ser bem mais caro, disse que iria
comprar em um posto credenciado (naquele tempo ainda se achavam alguns). Ele
ficou bravo e disse que não se responsabilizaria se algo acontecesse ao carro.
Eu disse que tinha memória fotográfica e que iria denunciá-lo se algo
ocorresse.
Outra feita, fui ao centro, achei uma
vaga (raridade!), estacionei e sai em busca de um ponto credenciado e voltei
uns 10 minutos depois com o cartão. Perdi tempo e dinheiro: paguei o cartão e
ainda levei uma multa.
Outra feita, em frente à Casa de Saúde,
estacionei, a mulher queria me vender um cartão pelo dobro do preço. Disse que
não e fui a uma papelaria pegar um bloco de sulfite. Quando voltei tinha sido
multado e, ao sair, uma pessoa me disse que a própria mulher chamou o
amarelinho para me multar.
Quando achava postos credenciados, muitas
vezes comprei o talão inteiro para que não mais me acontecesse o que havia
ocorrido. No entanto, uma visita de outra cidade, vai ter que ir a um
estacionamento e gemer com R$ 6,00 na primeira hora e mais acréscimos por hora
adicional. Ainda é mais barato que a multa de R$ 53,20.
Acabo de chegar de Jales. Lá também tem
Zona Azul. Só que há funcionários do próprio sistema que vendem os cartões e o
preço é de R$ 1,00! Se em uma cidade menor conseguem ao preço de R$ 1,00 manter
um funcionário em cada quadra, por que na cidade de Campinas a Zona Azul é esta
“zona”?
Marcos Inhauser
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
QUASE 600 ANOS DEPOIS
A última vez que um papa renunciou ao papado foi em 1415,
renúncia perpetrada por Gregório XII. A
alegada razão para a renúncia (problemas de saúde e incapacidade de atender às
demandas do papado) são plausíveis. No entanto, aprendi que não se deve confiar
nas explicações singulares aos fatos. Não há nada que aconteça por uma única
causa. Acredito que há várias outras causas subjacentes, muitas das quais
ficarão no campo das especulações, pois não acredito que um dia Bento XVI virá
a público revelá-las.
De minha parte tenho também o direito de especular sobre as
outras razões não explicitadas.
Sabemos que a igreja (seja católica, protestante,
pentecostal ou neopentecostal) atravessa período de severa crise que se deve,
em parte, à insistência em manter um discurso desatualizado e que não reponde
às questões da humanidade no século XXI. Novas e angustiantes questões foram e
estão sendo levantadas e a igreja não tem sabido responder, e no caso
específico de Bento de XVI, preferiu voltar ao passado, reafirmando que se
havia dito. O mesmo ocorre com os fundamentalistas e os puritanos (na Igreja
presbiteriana). Depois de Aquino e Calvino, nada de novo se disse. Deve ter
havido uma pressão muito forte da ala mais arejada da igreja para que ele
cedesse em questões como uso de anticoncepcionais, da camisinha, do casamento
dos clérigos, etc.
Outro elemento que, a meu ver, dever ter pesado é que a
igreja romana é europeia. Está na Europa, vive a Europa, tem um papa germânico.
Na Europa, desde o fim da Segunda Guerra Mundial avançou o secularismo e as
igrejas perderam a vitalidade e a pujança. São bispos e papa europeu os que
estão a dar as diretrizes para a igreja ao redor do mundo. Onde a igreja tem
mostrado vitalidade? Na África, América Latina e Ásia. Qual a voz que estes
povos têm no centro do poder romano? É um secretário aqui, outro nomeado ali,
mas a igreja terceiro-mundista não apita na proporção do seu vigor e pujança.
Acredito que Bento XVI sentia a pressão por voz e voto por parte de bispos
africanos, asiáticos e latino-americanos.
Especulo ainda que Bento XVI nunca foi unanimidade na
igreja. Uma coisa é o discurso formal, o rosário de elogios que bispos fazem.
Outra, bem diferente, é o que vai na alma e no coração. Converso com muitos
católicos, clérigos e leigos, e nunca percebi que a eleição de Bento XVI fosse
consenso. Houve quem tivesse dito que tiveram que engolir a eleição “goela
abaixo”. Por suas posições quanto à Teologia da Libertação, ele tinha sérios
questionamentos por parte de latino-americanos. Questionado na sua eleição, no
seu posicionamento teológico (essencialmente conceitual, tratando de temas que
não são pertinentes à realidade de povos da África, Ásia e América Latina) e
enfrentando a luta por espaço por parte de grupos que atuam no interior da
Cúria, só lhe restou a renúncia.
Marcos Inhauser
quarta-feira, 30 de janeiro de 2013
AMOR MAIOR
O evangelho de João traz uma palavra de Jesus que diz: “O
meu mandamento é este: amem uns aos outros como eu amo vocês. Ninguém tem mais amor
pelos seus amigos do que aquele que dá a sua vida por eles”.
Diante da tragédia de Santa Maria e dos inúmeros comentários
e análises já feitos, pouco ou nada a mais tenho a acrescentar, reafirmando, no
entanto, que não há efeito (tragédia) produzido por uma única causa. As muitas
causas já foram levantadas (projeto inadequado, superlotação, material inflamável,
falta de saídas de emergência, imprudência da banda, extintores que não
funcionaram, etc.).
No que pese toda a tristeza que o fato gerou, há uma coisa
que merece ser destacada como positiva: as várias pessoas que, mesmo tendo
conseguido sair da boate, para lá voltaram para resgatar a outras pessoas e
várias delas acabaram morrendo. Deram suas vidas por amor ao próximo. Há os que
foram em busca de amigos e namoradas, há os que se atiraram para salvar quem
pudesse, há os que não saíram, mas ajudaram outros a sair.
O caso do soldado que salvou quatorze pessoas e não
conseguiu se salvar, o caso de um dos que, à marretadas, abriu buracos na
parede e inalou os gases e acabou internado em estado grave, são dignos de nota
e elogios.
Se é verdade que houve quem visasse só o lucro, permitiu a
multidão que superlotou a casa e não permitiu a saída imediata do pessoal
porque deviam mostrar a comanda paga, é verdade muito mais evidente que houve
quem se sacrificasse para salvar vidas.
Outro aspecto altamente positivo foi a solidariedade
mostrada, quando centenas, talvez milhares de pessoas se dispuseram, dentro das
suas forças e habilidades, a ajudar no que podiam e era preciso. É o caso do
pedreiro que se voluntariou a fechar os túmulos porque não havia gente suficiente
para todos os caixões que deveriam ser sepultados. Gente que fez o café para
quem estava no velório, gente que abraçou, acolheu, chorou junto com os que
haviam perdido familiares e amigos. Gente abanando feridos e asfixiados em
plena rua, gente carregando a outros, gente que ajudou pessoas caídas a se
levantar para que não fossem pisoteados, como é o caso do músico da banda. Quem
o ajudou não olhou se era ele o culpado ou não.
Em um país marcado pela corrupção, impunidade e mau caráter
(como os casos candidatos à Câmara e Senado, enrolados até o pescoço em
denúncias várias), onde mensaleiros julgados pela opinião pública e STF
reafirmam suas inocências, o exemplo deixado pelos atos de heroísmo em Santa
Maria, devem nos orgulhar e enaltecer os valores do amor, mesmo que seja ele
sacrificial.
Eles mostraram que o que Jesus ensinou pode ser verdade não
só na vida do Mestre, mas também na vida de seus discípulos.
Marcos Inhauser
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Boate Kiss,
dar a vida pelo próximo,
demonstração de amor,
Marcos Inhauser,
Santa Maria
quarta-feira, 23 de janeiro de 2013
DEUS POLICIAL?
No princípio acreditava em um Deus policial, que estava todo o tempo a me vigiar, atento a cada deslize que cometesse, a cada pecado que praticasse. Era um vigilante eterno, que não dormia nunca. Naquele tempo não havia câmeras nem radares a fotografar cada erro cometido e a mandar multas para casa, mas Ele era implacável: castigava de forma dura cada pecado.
Acreditava que Deus me punia cada vez que tropeçava. Se não fosse assim, por que Ele ficava me vigiando e me espreitando? Tinha a sensação de que, quando me "pegava com a mão na botija", Ele me gritava: "te peguei!". Tinha um sorriso de satisfação nos lábios, por ter-me flagrado.
Esta visão de Deus me levou a pensar que Ele tinha prazer em castigar seus filhos. Neste tempo eu usava versos bíblicos que falam da disciplina de Deus, do sofrimento, da privação, da provação. A vida espiritual era para mim o exercício do autocontrole para não tropeçar e para agüentar as conseqüências de haver tropeçado.
Cria neste Deus e ensinava isto a outros. Fazia ver e entender que a vontade de Deus é que sejamos santos, irrepreensíveis e que Ele, para nos levar a esta perfeição, nos castiga quando erramos para nos fazer sentir que o preço do pecado é maior que o preço da obediência.
Ensinava que a pessoa deve orar e ler a Bíblia todos os dias, dizimar, envolver-se nos trabalhos da igreja, que dura coisa é cair nas mãos do Deus vivo. A vida só teria significado quando a pessoa cumprisse com os requisitos da vontade de Deus. Quanto mais orasse, lesse a Bíblia, trabalhasse na igreja, mais satisfeito e feliz seria. Acreditava que devia acordar de madrugada para orar ou passar noites em vigília, porque Deus veria meu esforço e me recompensaria. Havia em mim a ideia de que poderia comprar os favores de Deus, "alcançar a graça" mediante minha dedicação e sofrimentos autoimpostos. Já que Ele se agradava em me vigiar e punir, talvez Ele também se agradasse em me ver autoflagelando.
Mas este tipo de espiritualidade era como um vício. Quando praticava tais atos, me sentia bem, mas depois de um tempo, sentia que faltava algo, que havia um vazio lá no fundo, um medo constante de não estar agradando a Deus. Lá ia eu a tomar outra dose de dedicação, oração, leitura bíblica, oferta na igreja, assistia a tantos cultos quanto possível. E isto não assegurava que não entraria de novo no "down", em uma espécie de ressaca espiritual.
Em um processo lento, gradual, dolorido porque destruía antigas convicções, fui percebendo que Deus não é policial, mas Pai/Mãe bondoso, um Deus da graça. Ele faz o que faz independentemente das circunstâncias, do que faço ou deixo de fazer. Ele não é mais Deus ou menos Deus em função da quantidade de horas que oro, da quantidade de textos bíblicos que leio ou sei de memória, do meu dízimo. Ele me abençoa porque é da Sua essência de um Deus de amor. Ele me amou quando eu era ainda um desgraçado pecador. Não foi, não é e nunca será por mérito. Ele é graça pura, ação incondicional, amor, dádiva sem que haja nada que o obrigue a isto, nem mesmo a minha consagração. Ele me ama como sou, graças a Deus!!!!!!!
Marcos Inhauser
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