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quinta-feira, 7 de março de 2013

UM SINALIZADOR

Para mim não é coincidência que um sinalizador lançado por um torcedor seja também o sinalizador de uma série de coisas relacionadas à violência social, política e policial que vivemos. O fato em si é o ápice de uma série de fatores que devem ser analisados e considerados.
A primeira sinalização é de que não há nenhum resultado fruto de uma única causa. Querer reduzira morte do jovem boliviano a um sinalizador disparado por alguém é tão estúpido quanto o indivíduo que usou o artefato.
A segunda é que há uma grave falha no sistema de vigilância e policiamento na entrada e comércio de armas e outros artefatos. Um sujeito qualquer (mesmo um adolescente, se se comprovar a história da autoacusação feita) pode comprar por R$ 20,00 um sinalizador na 25 de março.
A terceira é que é fácil atravessar as fronteiras do Brasil para o exterior e vice-versa, portando artefatos que podem ser usados para matar, como foi o caso.
A quarta é que é possível entrar em estádios com artefatos perigosos, dentro de uma mochila, seja ela de um brasileiro, seja de um boliviano (porque fogos de artifício também foram usados pela torcida de Oruro).
A quinta é que, mais uma vez, se sinaliza que as torcidas organizadas estão mais para máfia que para torcida. Sabe-se há bom tempo que há alto índice de sujeitos com passado nada recomendável, dirigindo estas agremiações.
A sexta é que, ao interior das torcidas, a ascensão social e de poder se dá pelo arrojo e destemor na prática de “atos de coragem”. Os novos passam por processos e ritos de iniciação e ganham status à medida que se mostram mais valentes. Isto ficou patente no discurso do adolescente que afirma ter sido ele que atirou o sinalizador para que fosse notado pelos colegas.
A sétima é que, na tentativa de dar uma resposta à pressão popular e internacional, a polícia, a esmo, selecionou um grupo e os prendeu, sem ter conseguido, até o presente momento, comprovar a real participação deles nos eventos trágicos. Um sinalizador não pode ser disparado por duas pessoas e há dois acusados de fazê-lo.
Uma sucessão de violências.
A luta contra a violência precisa mudar e renovar o tecido da vida política. Deve criar nova identidade política, controlada e assumida pelo próprio povo, pela organização dos marginalizados e pelos organismos das classes dominantes.
O aprendizado centrado na crueldade, na violência, na tortura, leva o torturado, o que sofreu a crueldade e a violência a ter um aprendizado que vai gerando na pessoa uma agressividade e violência que ele acaba aplicando no outro, tendo ou não uma voz de comando que o leve a agir. A violência gera a violência.
A fome é tão violência quanto a tortura, a falta de moradia é tão violenta quanto a prisão arbitrária, o sinalizador lançado contra um torcedor é tão violento quanto a prisão indiscriminada e aleatória de torcedores.
A violência é uma força que fere a vida e destrói a liberdade e a dignidades humanas. Ela restringe, controla e determina comportamentos de pessoas, grupos sociais e instituições políticas e culturais.
Tanto quanto em qualquer outro período da história, a violência nos machucou. Juntemos forças para mudar esta cultura.
 Marcos Inhauser