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terça-feira, 3 de maio de 2011

TOMOU A VIDA A SÉRIO

Há uma letra de música nicaraguense que diz que “cometió el atroz delito de tomar la vida en serio”, referindo-se aos que, durante a revolução nicaraguense, haviam dado a vida em favor de outros, para que pudessem ter esperança de melhores dias. Outra vai dizer que o alento da vida é a esperança e creio que os que a infundem nos outros, promovem a vida de muitos. Estas coisas me vieram à mente agora à tarde quando, preso no trânsito por causa da chuva, ouvia notícia da morte do ex-vice-presidente José Alencar, ouvi pessoas falando sobre ele e da convivência que com ele tiveram. Alencar levou a vida a sério, sem cometer delito. Não o conheci pessoalmente. Ouvi muitas das coisas que disse, li sobre sua história de vida e aprendi a admirar nele, entre outras coisas, duas que o transformaram para mim em exemplo. A primeira foi seu exemplo de “fé realista”. Em um contexto religioso brasileiro onde pululam manifestações extremadas, promessas absurdas de cura, crença nos impossíveis, ele a cada vez que se manifestava afirmava e reafirmava sua crença na soberania de Deus. A sua afirmação de que Deus não precisaria de um câncer para tirar sua vida se Ele assim quisesse proceder, e que, se Ele quisesse, viveria mesmo com o câncer, mostram uma pessoa consciente dos limites humanos e divino. Ademais, mostra uma pessoa que entende a religião não como exercício de obrigar Deus a fazer o quero (tão em voga nos modelos pentecostais e neopentecostais), mas como o exercício do reconhecimento da soberania de Deus, no que pese as circunstâncias adversas. A segunda coisa foi sua humildade. Já vi e conheci muitos que se fizeram na vida e, quase sem exceções, eles se caracterizam como arrogantes, nariz empinado, petulantes, porque se creem melhores que a média porque conseguiram sair de uma situação de infortúnio para a de fortuna. Nada mais intragável que o novo rico. José Alencar padeceu sob a crise de 29, viu seu pai perder o pequeno negócio que tinha, sai para trabalhar, venceu, construiu um império, mas nunca deixou de ser o José Alencar simples, humilde, que se lembrava a todo instante dos menos favorecidos. Ao estar sendo tratado em um hospital de referência pelo fato de ser vice-presidente da República, sentia-se como que culpado por estar recebendo tratamento que a maioria não tinha. Ele levou a vida a sério, tanto que lutou por ela até à última gota, o último suspiro. Acima de tudo, infundiu esperança em muitos.