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terça-feira, 3 de maio de 2011

LEGALMENTE ...

Dia destes estive em um restaurante e serviram caldeirada. Uma cumbuca de barro com toda sorte de frutos do mar, fervendo. Olhei e fiquei pensando quantas vezes somos iguais: um monte de coisas fervendo dentro da gente, frutos de todas as espécies. Estou assim. Ontem completei sessenta e confesso que fiquei igual a uma caldeirada, fervendo vários sentimentos que se me afloraram. De gratidão por ter chegado até aqui, mesmo depois de ter passado por dois sustos que me levaram à experiência de proximidade da morte. Um choque com contraste que me deu uma parada cardíaca e uma cirurgia que complicou e que achei que não sairia dela. De gratidão por ter vivido intensamente cada momento da vida, desfrutando das bênçãos. Por ter tido tão variadas experiências e oportunidades que meus netos não vão dizer que repito histórias. Por ter estado no ministério, de várias formas e maneiras, em um compromisso com o outro. De ansiedade porque, para mim, a vida até os dezoito anos de idade parecia ser uma subida íngreme, demorada. Quando cheguei ao topo, era descida e a sensação que tenho que sou um caminhão carregado de experiências, morro a baixo, na banguela: cada vez com mais velocidade. Muitas vezes me sinto como um avião que está voando, mas que vou tomando consciência de que a gasolina está acabando e que mais cedo ou tarde, dependendo dos ventos e das condições meteorológicas, terei que aterrissar. De indignação: por força de lei e imposição cultural, de um dia para o outro passo a ser idoso, ainda que não me sinta assim. É verdade que não me sinto um jovem de dezoito anos, mas idoso... Que raios deu na cabeça dos legisladores e dos categorizadores sociais, de que, por ter sessenta, tenho que ser visto como idoso. Pertenço a uma geração em que idoso era sinônimo de rabugice, de ranhetice. Sou da geração que viveu a mudança do paradigma do ranheta para o da melhoridade (eufemismo?). Mas acho que o que mais me incomoda é que, por força de lei, agora estou em pé de igualdade com grávidas e deficientes. De um dia para o outro, eu que pegava filas nos bancos, posso ser atendido prioritariamente. Nada mudou em mim. Ainda tenho pernas e disposição para enfrentar as filas. Mas a lei parece que acha que da meia noite de um dia para o outro, me tornei inválido. Já rodei um bocado este mundo de meu Deus e não me lembro de haver visto esta jabuticaba de dar ao idoso os privilégios que aqui nos são dados. Não me lembro de estacionamento para idosos nos EUA, China ou Europa. Não me lembro de filas especiais e caixas dedicados a este segmento. Talvez porque ali se preza e se respeita o idoso. Aqui, nem com vaga demarcada respeitam. A partir de hoje sou legalmente idoso. Sob protestos, mas desfrutando da idade.