Figura tão antiga quanto as religiões, o profeta teve status máximo na religião judaica. Durante séculos eles foram vistos, ouvidos, criticados e (per)seguidos. Há indícios e referências bíblicas para a existência de “escola de profetas”. Ao que tudo indica, a organizada por Samuel, (I Sm 10.5; 19.20) é a primeira. Elias e Eliseu foram responsáveis pela escola dos profetas, que funcionou como resistência à apostasia imperante no reino do norte (II Rs 2.3; 4.38; 6.1). Havia destas escolas em Ramá, Gibeá (I Sm. 19.20; 10.5,10) Gilgal, Betel e Jericó (II Rs. 4.38; 2.3,5,7,15; 4.1; 9.1). Uns cem estudantes faziam parte da escola dos profetas de Eliseu. Quando Elias e Eliseu foram ao Jordão, cinquenta da escola dos profetas estavam com eles (II Rs. 2.7,16,17).
Ser profeta não é uma questão de escolha pessoal, ainda que muitos assim decidam, indevidamente, devo dizer. Se olharmos para as histórias bíblicas dos profetas, constataremos que todos eles receberam um chamado e que foram relutantes em aceitar o mandato e a missão. Haja visto o exemplo de Jeremias que se sentiu chamada quando ainda era um “nah’ar” (imberbe, adolescente).
Percebe-se também que o profeta era alguém que tinha uma mensagem dura, denunciando os pecados do povo e especialmente dos governantes. Como disse Max Weber, em Israel havia uma classe social formada pelos reis e sacerdotes que explorava a segunda classe que era o povo. A terceira era a dos profetas que denunciava a exploração, se colocava ao lado do pobre, explorado, estrangeiro, órfão, e os defendia da tirania. Eles eram a oposição ao governo corrupto dos reis e sacerdotes!
Não é de estranhar que foram execrados. No dizer do escritor aos Hebreus, os profetas praticaram a justiça, da fraqueza tiraram forças, foram torturados, experimentaram escárnios, açoites, cadeias, prisões, foram apedrejados, serrados ao meio, morreram ao fio da espada, necessitados, aflitos e maltratados. Eram homens que o mundo não era digno!
Eles não alcançaram a promessa que anunciavam, mas nem por isto esmoreceram. Havia neles a consciência da vocação. Jeremias quis desistir e veja no que deu: “Seduziste-me, ó Senhor, e deixei-me seduzir; mais forte foste do que eu, e prevaleceste; sirvo de escárnio o dia todo; cada um deles zomba de mim. Pois sempre que falo, grito, clamo: Violência e destruição; porque se tornou a palavra do Senhor um opróbrio para mim, e um ludíbrio o dia todo. Se eu disser: Não farei menção dele, e não falarei mais no seu nome, então há no meu coração um como fogo ardente, encerrado nos meus ossos, e estou fatigado de contê-lo, e não posso mais. ... Mas o Senhor está comigo, tropeçarão os meus perseguidores, e não prevalecerão; ficarão muito confundidos, porque não alcançarão êxito, sim, terão uma confusão perpétua que nunca será esquecida. (Jr 20:7 ss).
Ser profeta é questão de vocação e não de opção. Ser profeta é ser chamado para ser questionado, odiado e viver em solidão porque os “amigos” fugirão na hora agá. Ser profeta é não ser o que gostaria de ser, mas é ser o que sente que deve fazer e o faz com um sentido de missão e obediência ao chamado. Ser profeta é ter experimentado o que Agostinho definiu como o chamado da “graça irresistível” e Calvino disse que “é “vocação eficaz, tão eficaz que não aceita o não!
Marcos Inhauser
Professor, pastor, teólogo e educador corporativo Textos escritos para a coluna semanal no Correio Popular, da cidade de Campinas e texto escritos depois de 2021, que tratam de temas nacionais, internacionais, sobre igreja e teologia
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Há outros artigos e livros de Marcos e Suely Inhauser à sua disposição no site www.pastoralia.com.br . Vá até lá e confira
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020
DIVINO TRAVESSEIRO
Com certeza você já foi se deitar algum e, no meio da noite, acorda com uma ideia nova, algo que poderia fazer, uma invenção. Ou foi para a cama com um grande problema, revirou na cama, acabou dormindo e, quando acordou, o problema já não era tão grande e grave quanto parecia no dia anterior. Ou você foi se deitar com uma mágoa muito grande de alguém e acordou percebendo que o tamanho dela parece que havia diminuído.
Também há os que foram se deitar com um problema sobre o qual passaram horas tentando resolver e não encontravam solução. Ao acordar, a solução estava na ponta da língua.
Há também vezes que você foi se deitar e não conseguiu dormir porque o problema ou mágoa era tão grande que você não conseguia conciliar o sono. Levantou mais enrolado ou mais bravo que antes.
A experiência não é nova. Já os antigos recomendavam consultar o travesseiro. No livro bíblico dos Salmos se ensina que se deve “falar com o vosso coração sobre o travesseiro (em outras traduções diz sobre a cama) e calar” (Sl 4:4).
Os estudiosos, a partir das pesquisas que fizeram, mostram que o cérebro, quando estressado, é “envenenado” pelo cortisol, o hormônio do estresse. Quando estamos cansados ou há muito tempo nos batendo com o mesmo problema, parece que a mente bloqueia e se perde a capacidade de ver além do que já foi visto. Nem sempre trabalhar mais significa render mais. Há uma capacidade de trabalho que é natural e saudável. Não respeitar isto é risco sério à saúde.
E por que o descansar, o colocar a cabeça no travesseiro ajuda? Porque “descansa” o cérebro, baixa as guardas dos filtros lógicos e de preconceitos que atuam no nível consciente e bloqueiam avenidas cerebrais que conduzem a novos caminhos e soluções. Quando se dorme, estes filtros e bloqueios são diminuídos ou não utilizados e o cérebro tem liberdade para andar por caminhos novos, com novas conexões, ideias e soluções.
Outro importante fator para o travesseiro é a máxima que não sei se ouvi ou a estabeleci para mim mesmo: “entre a provocação e a reação, deve haver um travesseiro”. A resposta impulsiva, o ato impensado é fábrica de feridas, de inimizades, de tolices etc. Quando somos provocados (uso a palavra provocação não só no sentido negativo, mas também no positivo, quando alguém nos pergunta algo, nos pede um conselho ou orientação que exigem certa reflexão), a sabedoria pede travesseiro: tempo para pensar com calma. O tolo é impulsivo, fala pelos cotovelos, tem lição para tudo e todos, sempre tem a última palavra, é especialista em recitar e receitar o óbvio. O tolo é imaturo e o imaturo é tolo, exatamente porque seus atos e palavras não recebem o tempo de travesseiro.
Isto leva a outra máxima: “não decida hoje o que pode ser decidido amanhã”. A razão para isto é simples: podem ocorrer coisas, contratempos, imprevistos entre o tempo que você decidiu e o tempo que tinha para decidir e você terá que refazer ou voltar a atrás. Há correções e revisões que vão mostrar que o atropelo, o afogadilho, a pressa fizeram você se precipitar. Será evidência inequívoca da imaturidade.
Pense, acalme, deixe o travesseiro ensinar sabedoria.
Adoro meu travesseiro!
Marcos Inhauser
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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020
A DIVINA DIFERENÇA
Já fizeram isto. Colocaram várias pessoas sob as mesmas
condições e usando o mesmo aparelho de ressonância magnética funcional e as
expuseram ao mesmo estímulo e viram que cada qual respondeu diferentemente no
que às conexões neurais se referem.
Isto provou que cada um de nós tem uma forma diferente de
fazer suas conexões neurais e que não há duas pessoas que as façam da mesma
maneira. Ainda que haja a predominância de uma área cerebral estimulada, no
detalhe as conexões são diferentes.
Quando olhamos algo, quando somos provocados por uma
sensação tátil, olfativa, auditiva ou gustativa, cada um de nós reage de uma
maneira. Daí porque tem gente que adora chuchu, abobrinha e jiló e eu detesto.
E eu gosto de sashimi e tem gente que tem nojo. Isto nos leva a pensar que,
quando olhamos um quadro, uma árvore florida, eu posso “sentir” a coisa de uma
maneira e outro a sentirá de maneira distinta. Ambos podemos concordar que se
trata de algo lindo, mas não significa que eu e ele vejamos cerebralmente a
mesma coisa. Isto explica por que, diante de um mesmo fato podemos ter
interpretações diferentes e até antagônicas.
Não que um esteja certo e outro errado, mas ambos trazem à
tona a forma como cerebralmente as coisas acontecem. Também se pode entender
por que um é mais exagerado e outro mais sóbrio nas suas alocuções, porque um é
histriônico e outro moderado, veemente e passivo. O que para mim parece
mentira, para o outro pode ser a mais pura verdade. Também explica por que
temos mais dificuldades em ver problemas nos nossos familiares que em outras
pessoas. Uma mãe tem extrema dificuldade em reconhecer problemas
comportamentais ou físicos nos filhos. Há uma conexão neural que passa pelo
emocional e filial que a impede de ver as coisas. É um certo mecanismo de
defesa para que não sofra.
Há fatores culturais familiares, escolares e vivenciais que
interferem no mecanismo da criação neural e nos fazem ser diferentes. Mesmo
colocadas em situações de igualdade sócio-ambiental e educacional, dois gêmeos
univitelinos serão diferentes. Com isto entendemos por que há partidos
políticos, ortodoxia e heresia, fãs de música clássica e funk, pessoas menos
aceleradas e outras 220V.
Quem está certo? Em tese todos. Quem é o culpado? Deus! É a
única conclusão a que posso chegar quando vejo pessoas tendo problemas
viscerais para lidar com os diferentes. Como me disse alguém: “ele se nega a
dialogar; a palavra dele sempre é verdade”. Lembrei-me da esposa meio burrinha
que viu uma notícia de um carro na contramão na autopista, colocando a vida dos
demais. Ligou para o marido, também fraco de neurônio, e ele responde: “não é
só um, é um monte de gente vindo na direção contrária.
Somos como somos porque o Criador nos fez indivíduos únicos
e irrepetíveis. Só existe um igual a mim: eu mesmo. Não sou o padrão de medida
para mais ninguém. O que penso, creio, acredito, a minha verdade, são coisas
minhas. Servem para mim. Não sou exemplo infalível para os demais. Posso até
ter quem goste do meu jeito de ver, pensar e sentir e queira ser igual, mas nunca
será.
Ao invés de reclamar e brigar com a diferença, devemos
celebrá-la e tirar proveito delas. Não tenho o dom nem as habilidades para ser
enfermeiro. Minha mãe está hospitalizada em estado grave. Devo deixar a
enfermeira fazer o que não sei e não posso criticar porque não sei, não entendo
e não tenho jeito. Elas, sob qualquer circunstância farão muito melhor que eu
faria.
Marcos Inhauser
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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020
A PETULÂNCIA DO VERDADEIRO
Sei que sempre fui chato com certas coisas e parece que, com os anos, isto tem se acentuado. Seria fruto do envelhecimento ou a quantidade de veze que já me aborreci? Tenho minhas broncas com pessoas que repetem o que dizem duas três ou mais vezes, como se eu não tivesse entendido na primeira. Acho que, ao repetir, está me chamando de burro. Detesto quando as pessoas usam o “realmente” em profusão. Quando uma pessoa solta o primeiro, começo a contar e descubro que tem gente, e até jornalistas televisivos, que conseguem falar mais de dez vezes em uma inserção de 30 segundos.
Não consigo ler artigos ou livros que trazem títulos absolutos. Veja estes exemplos: Negociação Total, Tudo sobre Inteligência Emocional, Manual Completo de Coaching, Manual Completo do Líder, etc. Citei só os que ganhei de presente e estão na minha biblioteca. Ganhei duas biografias: uma do Einstein e a outra do Chaplin. Gosto de ler biografia. Uma se chama “Einstein, uma biografia”. Li quase que de uma sentada. Adorei. Peguei a segunda: Chaplin: Uma Biografia Definitiva”. Tentei ler, mas achei pedante, cheia de detalhes insignificantes e o título me convenceu a parar de ler. Ele diz que depois desta biografia nada mais poderá ser escrito ou nada mais será descoberto sobre o gênio da cinematografia. Petulância!
Acabo de receber um artigo pelo WhatsApp: “O Verdadeiro Sentido dos Evangelhos”. Não li e não vou ler. É petulante. Só ele sabe o que “verdadeiramente” os evangelhos dizem? Tem ele a interpretação infalível dos evangelhos? Outro que recebi foi: “O verdadeiro amor”. Tentei ler, mas dizia que uma esposa que ama seu marido deve obediência irrestrita e ele. Isto é amor? Também recebi uma mensagem no WhatsApp me informando a “verdade” sobre o corona vírus e culpando os governos comunistas da China, Cuba e do PT de terem produzido vírus.
Para mim, tudo que começa alegando autoridade, verdade, tem ares de ser absoluto, eu deleto. Mas o meu lado masoquista me leva, às vezes a ler um pedaço da podridão que me mandam. Tenho meus pruridos de prestar atenção a quem começa sua apresentação desfilando o que já estudou e o que fez. Tem um escritor bastante lido que, nos primeiros livros que escreveu, falou mais da sua autoridade em escrever o que escreveu, do que explicar o que de novidade tinha a dizer. Era especialista desde motor à explosão até cesariana! Nunca comprei nem um livro do narciso. Outro dia minha esposa recebeu um vídeo de um “médico midiático” que iria discorrer sobre diabete. Estávamos no carro e fui obrigado a escutar. Ele gastou uns 10 minutos para falar onde deu aulas, onde estudou, com quem esteve, quantos livros já escreveu, quantos vídeos já produziu, quanto seguidores tem. Pedi a ela que parasse e ela, também irritada com o rosário de atributos da “otoridade”, desligou sem questionar.
Há leitores que me escrevem criticando. Tem quem me chame de comunistas, socialista, guerrilheiro, petista, herege, bolsonarista, machista, e coisas outras que nem posso repetir. O que chama a atenção nestas mensagens é o tom autoritário e absolutos das frases. Há quem me escreve na esperança de que eu dê um espaço a eles na coluna, rebatendo o que dizem. Perdem tempo.
Marcos Inhauser
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quarta-feira, 29 de janeiro de 2020
REPETIR E CRIAR
Uma coisa é saber de memória todas as peças musicais de
Mozart ou Beethoven. Outra é saber executar cada uma delas, executando-as com
perfeição. O primeiro é conhecimento, o segundo é habilidade. A habilidade pode
prescindir do conhecimento, mas para tocar Mozart ou Beethoven, o conhecimento
é fundamental. Sem ele e só no exercício da habilidade pode se tocar qualquer
coisa, menos as obras dos gênios da música.
Conhecimento e habilidade associados formam um exímio
pianista ou, até mesmo, um regente. Mas conhecer profundamente e tocar
perfeitamente o que eles escreveram e compuseram não torna ninguém um
compositor. Há uma enorme distância entre ser um virtuoso no piano e ser um
compositor, mesmo que de músicas medíocres.
Posso ler todas as obras T. S. Elliot, posso recitar seus
poemas com maestria e perfeição, dando quase-realidade ao que ele escreveu, mas
daí a eu ser um poeta, vai uma distância de anos-luz.
Para ser genial na música ou na poesia não basta conhecer,
mas é fundamental ter a originalidade e a rejeição do que é senso comum. É
lançar um “olhar e proposta rebeldes” sobre o que se tem. Excelentes alunos na
escola, que tiram nota dez em quase tudo, não serão gênios nesta ou naquela
área, porque aprenderam a repetir o que lhes foi ensinado. As notas tiradas
mostram o cabestreamento que o sistema educacional colocou, obrigando-os a
saber exatamente como ensinaram, responder na ponta da língua, de preferência
com as mesmas palavras. Qualquer desvio é punido com notas baixas.
Eles se dedicam de corpo e alma em conhecer o que há e não
em produzir coisa nova. Bons alunos dificilmente serão gênios criativos. Eles
podem sofrer com o sistema, mas não estão treinados a questionar, desafiar,
mudar, rejeitar. A palavra-chave é obediência. E repetição. “Sempre foi assim e
continuará sendo assim”.
Não serão o “aluno-do-ano” ou o “empregado-modelo” que
mudarão o mundo. Se queremos mudanças não peça a eles. Estudos têm mostrado que
as pessoas que conseguiram mudar o mundo ou uma área do mundo não foram
crianças excepcionais na escola. Porque se rebelaram contra o sistema
impositivo do conhecimento existente, tiveram a audácia de propor coisa nova,
diferente, que foi uma ruptura com o dado. Os alunos “caxias” fazem de tudo
para receber a aprovação dos pais e professores e para isto reproduzem o que
existe. Os alunos rebeldes não se prestam a agradar ao sistema, mas em propor
novidades.
A ênfase no sucesso é uma forma de “criar autômatos”. Para
se ter sucesso precisa ser obediente, seguir as regras, trilhar caminhos já
percorridos. Leem o que podem de biografias de pessoas que foram exitosas e
tentam repetir o que eles fizerem para chegar ao topo. Quanto mais se valoriza
o sucesso, menos se dá asas à imaginação da criatividade. É a busca incessante
do sucesso garantido.
Para ser um gênio e mudar o mundo é preciso ter a coragem
para a destruição criativa. O novo e a invenção, requerem que coisas velhas
sejam derrubadas, quebradas, destruídas. Estabelece uma ruptura no modo de
fazer e propõe a novidade. É revolução e não reforma. Para ser original há que
se ter estrutura emocional e resiliência para aguentar os trancos e pauladas
que os conservadores darão. Ser a novidade é coisa para gente grande,
emocionalmente bem firmada. É perseguir o objetivo mesmo que isto custe
milhares de tentativas frustradas, como foi com Thomas Edison até que inventou
a lâmpada.
Marcos Inhauser
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quarta-feira, 22 de janeiro de 2020
EMPREJA
A coqueluche da ciência destes dias é a engenharia genética.
Começou fazendo experimentos com plantas para produzir espécies mais
resistentes, depois passou para os animais, chegou à clonagem e boatos dizem
que já clonaram seres humanos. Parece ilimitada sua capacidade em produzir
novidades.
Ela chegou também ao campo das igrejas. A partir da década
de oitenta, começaram a aparecer os primeiros seres híbridos entre a empresa e
a igreja. E disto nasceu uma espécie bastante robusta e vistosa que é a empreja.
Como todo novo ser criado em laboratório, este também
precisou incorporar certos vocábulos novos ou assimilar outros do mundo com o
qual se associou. O pastor foi cedendo espaço para o líder. O pastorado passou
a ser mais administrativo que relacional. A hierarquia tomou conta e surgiram
centenas de apóstolos, bispos, profetas, missionários, evangelistas, uma nova
geração com títulos bíblicos que estão mais para a Qualidade Total que para o
pastoreio do rebanho. O discipulado virou coaching, evangelização agora é
marketing da igreja. O trabalho deles passou a ser medido em termos
quantitativos e não mais qualitativos.
A empreja passou a ser avaliada em termos de crescimento,
renda, arrecadação, tamanho da platéia, níveis de decibéis no momento do louvor.
O financeiro passou a falar mais alto que o espiritual. Como me confidenciou um
pastor, tem Deus Revelado a ele que a saúde espiritual de sua igreja deve ser
medida pelo saldo da conta corrente.
A empreja não evangeliza, faz marketing; não tem rol de
membros, tem cadastro de freqüentadores; não tem assembléia, tem liderança que
decide em nome da comunidade. Na empreja o fiel não pensa, repete. É um
autômato de uma linha de produção em série, bem ao estilo henrifordiano. Na
empreja o narciso de um ou alguns têm completa liberdade de expressão. Tal como
aquele jogador de futebol que bate escanteio e corre para a área para cabecear,
na empreja o narciso ora, canta, prega, dá a benção, faz a coleta e não muito
raro, gasta o dinheiro arrecadado.
Na empreja é pecado perguntar, mas é virtude submeter-se; o
assunto predileto é autoridade na visão bíblica, onde é maldito o que se
levanta contra o “ungido do Senhor”, que é o pastor-proprietário do rebanho.
Alguns chegam ao cúmulo de alterar o estatuto para prever que ninguém pode
levantar qualquer assunto na Assembléia sem que seja do conhecimento e
aprovação do pastor da igreja.
Na empreja se valoriza o tempo de exposição na mídia, pois,
como empreja que tem um produto a vender, a salvação em Jesus Cristo , quanto
mais ela esteja visível tanto mais sucesso terá. Daí porque tantos programas
religiosos na TV.
Os princípios de qualidade total substituem os valores
bíblicos e teológicos. O pastor deve ganhar pela sua produtividade: um
porcentual pelo número de freqüentadores e outro pelo volume de ofertas
levantadas. Em alguns casos, a fórmula é: o dízimo arrecadado é para o líder
(pastor, apóstolo, bispo ou seja o que for) e as ofertas extras são para pagar
as despesas de funcionamento da empreja.
Este ser geneticamente produzido está privatizando o céu,
com lotes à venda nas emprejas, quais imobiliárias da eternidade. Emprejários
tem conseguido mandato político e se arvoram em porta-vozes dos mundo
religioso, mal denominado de evangélico.
Marcos Inhauser
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quarta-feira, 15 de janeiro de 2020
SONS E BARULHO
Ruídos. O vento faz o seu, o mar ruge, os galhos estalam, os
cachorros ladram. Eles vêm de toda a parte. O que os caracteriza é que eles são
sons sem sentido aparente, desconexos, sem mensagem. Para ouvidos mais atentos
um vento pode sinalizar algo, o estalo de um galho pode prever uma tragédia, um
cachorro ladrando pode ser anúncio de algo.
Há os que são harmônicos com os que ocorrem em música
sinfônicas, os produzidos por orquestras, órgãos, pianos, violinos. São sons
com uma delicadeza ou até mesmo certa ênfase, mas que nos indicam que há muito
mais por trás deles. Há uma certa previsibilidade na próxima nota, um
encadeamento sonoro quase que lógico. E como se ficássemos esperando a próxima
nota e, quando ela vem, enche o vazio que estava à sua espera. Há um sentimento
de saciedade quando as notas nos alcançam, como se nossa vida estivesse a
depender delas ara renovar nossas foras ou pensamentos.
Mas há um som que é fundamental para todos nós: o som da
palavra proferida. A palavra dá uma nova dimensão a tudo. A música, quando
cantada, traz a palavra que, aliada à sonoridade e harmonia, nos provoca
pensamentos. Ela é o traço distintivo que faz com que os seres humanos se
relacionem, se amem, se odeiem, construam castelos e façam guerras. A palavra
faz o ser humano ser qualitativamente diferente de tudo.
Nada é mais poderosa no mundo dos sons que a palavra. Nada é
mais efêmero que a palavra. Ela tem curtíssima duração: dura o tempo de ser
enunciada. Ela tem o vigor do instantâneo. Ela morre assim que é pronunciada. E
mesmo assim é poderosíssima! Ela declara amores e pede favores. Ela declara
ódios e tira dos pódios quem se arvora ser grande. Ela entra pelo ouvido e dá
um trabalho imenso aos neurônios, porque semeia sonhos, planos, imaginações.
Ela fomenta sentimentos de raiva, ódio, de vingança. Ela reconstrói pontes. Ela
pede e declara o perdão.
Sem a apalavra o ser humano seria um “quase zero à
esquerda”. Estudos antropológicos tentam reconstruir os caminhos e descaminhos
para que o ser humano criasse uma forma avançada de comunicação, onde conceitos
e sentimentos pudessem ser expressados. Como seriam os mais primitivos que só
conseguiam falar uma meia dúzia de palavras e todas elas relacionadas a coisas
concretas: chuva, água, fogo, comer, beber? Parece que um indicativo disto pode
se ter no hebraico bíblico, bastante pobre em palavras e conceitos O recurso
utilizado foi o uso das metáforas.
Línguas mais completas e onde se produziu boa parte da
filosofia, são línguas ricas em palavras e com flexibilidade para construir
novos vocábulos, como é o grego, o alemão e o francês. O português também tem
sua riqueza, mas peca por certa inflexibilidade. Daí porque, me parece na minha
laicidade, que usa palavrões, expressões regionais, caipirismos, onde há maior
flexibilidade, para dizer o que as palavras não alcançam.
Palavra não é som emitido pelo ser humano. É o espírito
humano que sai como sopro sonoro, é o vento que Deus soprou nas nossas narinas
para que, aos expirá-lo, criássemos mundos. A palavra é muito mais do que
aquilo que se fala e aquilo que se ouve. É algo divino entre os humanos. Por
isto, Jesus nos alertou que seremos cobrados por toda palavra tola saída de
nossa boca. Fala é o uso de um recurso divino em nós. Com ela somos co-criadores
com Deus.
Marcos Inhauser
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quarta-feira, 8 de janeiro de 2020
IRA, IRÃ, IRA(QUE) E I(S)RAEL
Não é surpresa para ninguém que o Trump é um presidente
irascível e imprevisível. A sua imprevisibilidade é motivo de orgulho para ele
e de apreensão para os demais, tanto pessoas como governos.
O seu caráter iracundo já mostrou as garras em vários
episódios. Desde a questão do muro separando o México dos Estados Unidos,
passando pela forma como tem tratado os ilegais e as crianças, os filhos dos
que tentam entrar ilegalmente colocados em campos de concentração, até a forma
como tem lidado com questões internacionais. O início do diálogo com a Coreia
do Norte foi abruptamente interrompido por sua deserção, por motivos nunca bem
esclarecidos. A sua impetuosidade no trato das questões comerciais com a China,
a desconsideração para com o acordo firmado pelo Barack Obama na questão
nuclear do Irã, a saída do Acordo Climático, a decisão de sobretaxar aço e
alumínio brasileiros, são outros exemplos deste par de características:
imprevisibilidade associada à irascibilidade.
Fomos novamente surpreendidos pela sua decisão de matar o
segundo homem na estrutura de poder do Irã, o Qasem
Soleimani. A sua ira ele a direcionou ao Irã, na questão do acordo firmado
sobre o enriquecimento do urânio. E para fazê-lo usou o território do Iraque
que ele acha que é extensão do americano, uma vez que tem lá mais de seis mil
soldados. Um ataque ao Irã desde o Ira(que)!
Na geopolítica mundial, a ação teve implicações que envolvem
diretamente a I(s)rael, aliado ao qual destina sua fidelidade canina. Irã e
Iraque são inimigos figadais e, ao mexer com o Irã, o tabuleiro também balançou
para o lado da nação que já tem seus problemas com a vizinhança.
É imprevisível as ações que redundarão de tal ataque. A
retórica já experimenta graus de ebulição, mas, em se tratando de Trump, é
difícil dizer o que é verdade e o que é encenação. De uma coisa podemos estar
certos: haverá retaliação. O problema está em definir quando e como. Mas, aqui,
com meus botões, acho que quem vai pagar o pato, será Israel.
A justificativa para tal ataque é que o Soleimani era um
terrorista e que os EUA têm o direito de combatê-los onde quer que seja. A
definição de terrorista é subjetiva e se alinha com os interesses dos EUA. Já
escrevi aqui, em outra oportunidade, que o que os EUA fizeram no Afeganistão,
foi terrorismo. O ato de um homem e seus poucos aliados (Bin Laden) foi
alastrado para toda uma nação. Como terrorista foi classificado o exército
norte-americano, uma forma de retaliação feita pelo Irã.
Parece que, afirmar que alguém é terrorista, é a mesma coisa
é como dizer que alguém é herege: sempre o outro o é e o é por questões
menores. No entanto, a mesma classificação poder-se-ia dar ao exército e
serviço de inteligência israelitas. Sob o pretexto de retaliar ataques de
terroristas palestinos, têm desferido duros golpes conta a população civil.
Quando confrontados com os danos civis, falam de danos colaterais ou que eram
terroristas travestidos. A Ira justifica tudo!
Ira, ódio, vingança, retaliação. Palavras que fazem parte da
cultura de muitos governantes e países. Pasma-me que, entre eles o que são
religiosos (Irã), uma nação religiosa (Israel), um presidente aliançado aos
evangélicos (Trump e a recente participação no encontro de Miami, os discurso de
que os democratas querem impor uma agenda antirreligiosa), o discurso de ódio
com todos os que são diferentes ou pensam diferentemente.
Ira, iracundo, irascível, ir(r)acional, imprevisível,
intempestivo, impulsivo, insolente, inábil, inapto e inepto para o poder e a
liderança. Este é o homem que promove a ira. Mais que isto, tem gente que se
orgulha de imitá-lo!
Marcos Inhauser
quarta-feira, 11 de dezembro de 2019
CONTROLE POPULAR DO PODER
Acabo de ler artigo publicado no El Pais explicando por que
o povo elegeu Hitler. Voltei aos meus livros e leituras para ver o que mais
poderia ler para fundamentar algumas das razões que o escritor do artigo
elenca.
Encontrei este de William Godwin (Enquiry Concerning
Political Justice and its Influence on Moral and Happiness, GG Robinson,
London, 1796, Vol I, pg 108): “O grau de imaturidade ou maturidade da população
se refletirá no sistema político, produzindo um regime ditatorial ou uma
situação de liberdade. Fraqueza interna torna um povo presa fácil de um
conquistador, ao passo que o esforço para oprimir um povo maduro na liberdade,
provavelmente não será bem-sucedido”.
Isto foi alertado pela Comissão Interamericana de Direitos
Humanos; “ ... as potestades constitucionais do Chefe de Estado, por ser tão
numerosas, amplas e importantes, lhe outorgam um poder muito grande, sem os
contrapesos significativos, que por sua natureza, não só abre as portas a uma
aplicação abusiva do poder, mas também permite que se anule, limite ou distorça
o exercício efetivo da representação política e da participação popular e, por
conseguinte, a observância de outros direitos e garantias.” (Diez años de actividades”
– 1971 a 1981, pg 270).
Para citar um pensador, o governo é um comitê com poder para
gerir e facilitar os interesses da elite. Para tanto, ele deve acomodar as
classes populares emergentes, domesticá-las em algum esquema bem ao gosto das
classes dominantes. Lembro-me que, quando cursava o pós-graduação em Educação
na UFSCAR, estudamos as reformas educacionais que o Brasil já teve. O professor
centrou sua análise na exposição de motivos, situados no contexto histórico,
social e econômico que a nação vivia. Ficava claro como as reformas
educacionais foram feitas para prover às elites a mão de obra que necessitavam
naquele momento. Lendo Bordieu e Passeron (A Repodução), percebi como a escola
é a célula reprodutora do pensamento dominante e de domesticação das mentes.
As elites, ao perceberem que não podem resistir ao poder do
povo que se rebela, começam a dar reputação e espaço para um dos seus elementos
(do povo) e o fazem príncipe, para, sob sua sombra, ter seus apetites saciados.
O povo, por sua vez, dá sustentação ao “príncipe do povo eleito”, pois
acreditam que ele irá defender os seus interesses. Eles se equivocam pois, quem
o elegeu, foi o poder econômicos dos ricos. O Brasil está cheio de exemplos
desta natureza, tanto à direita como à esquerda.
É citada com frequência a frase atribuída ao governador
mineiro Antônio Carlos de Andrada: “façamos a revolução
antes que o povo a faça”. É a revolução dos poderosos para aplacar a ira
do povo, vendendo como se a revolução viesse para satisfazer seu anseio. Assim
foi com o Collor, com a Ditadura mal denominada de Regime Militar, com o plano
Cruzado etc.
Quando se tenta unificar as coisas colocando juntos anjos,
cosmos, Igreja, estruturas políticas, religiosos, religião e Deus como sendo a
origem e o sustentador da integração das partes, a coisa assume aura de
sagrado. Isto pode dar-se pelo uso de textos bíblicos fora de seus contextos,
presença constante de religiosos ao redor do núcleo do poder, discursos com
ares de sagrado, mantras religiosos repetidos à exaustão, pseudo-fundamentação
em valores religiosos. Nada mais pernicioso e maléfico do que a ditadura
religiosa. Que o diga Irã, Afeganistão, Guatemala sob a égide de Ríos Mont,
Pinochet e seu messianismo. O governo assim concebido acha que está acima da
lógica política (quer governar sem a política e os políticos), busca uma
solidez ontológica (como se existisse de per se) e tudo passa a ter
validade ética. Aos de fora do núcleo só cabe obedecer. Os desobedientes e
contestadores são lançados ao fogo do inferno. Que o digam os defenestrados de
Sarney, Collor, Lula, Dilma, Temer e Bolsonaro.
É o esquema de um poder que trabalha o povo, manipula seus
sentimentos, fabrica comportamentos, tudo para fortalecer o poder econômico de
poucos.
Alguma dúvida? Olhe os recentes dados de concentração de
renda no Brasil. É indecente como nos últimos 50 anos a coisa foi feita para
que os ricos sejam mais ricos.
Que os profetas (denunciadores do pecado do poder) não se
calem. Quando não há profecia, a nação padece! Isto é bíblico!
Marcos Inhauser
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sábado, 7 de dezembro de 2019
BIBLIOPLANISTAS
Virou moda, apesar do absurdo que é, afirmar que a terra é
plana. Tem gente que o afirma categoricamente e há um autodidata louco e
aprendiz de astrólogo que diz que não há nada que refute a ideia de que a terra
é plana.
A coisa é tão estapafúrdia que se chegou a realizar a
primeira Flat Con, a Convenção Nacional da Terra Plana, com a seguinte
enunciação: "A Terra está parada. Não se move. A superfície da Terra é plana.
Há uma cúpula sobre nós chamada o Firmamento. O sol, a lua e as estrelas estão
sob a cúpula do Firmamento. O sol e a lua são muito menores e mais próximos do
que nos dizem. O sol e a lua se movem em seus próprios padrões sobre a
superfície da Terra. Não há planetas. Apenas estrelas no céu. Não há espaço.
Não podemos sair da cúpula. Está tudo bem aqui ..."
Eles dizem que nossos sentidos indicam que Terra é plana, o
mundo parece ser plano, logo deve ser plano. Para eles a Terra é um disco
redondo e achatado, o Polo Norte está no centro, a borda é formada por gelo
(Antártica), a circum-navegação da Terra é fazer volta ao redor do Polo Norte.
Sol e a lua são pequenas esferas a poucos milhares de quilômetros da Terra, que
se movem em círculos ao redor do Polo Norte, e outras barbaridades.
Duvidam da evidência fotográfica, porque acham ser fácil
manipular imagens. Para eles, a exploração
espacial nunca aconteceu: é conspiração. Os astronautas, que disseram
ter visto a Terra é redonda, foram subornados ou obrigados a dizer isso.
Mas há, em número maior e com o mesmo grau de absurdo, os
Biblioplanistas. Contra toda a evidência histórica, linguística, cultural, da crítica
literária e da glotologia, saem afirmando besteiras sobre a Bíblia. Mesmo
quando uma palavra se trata de uma apax legomena (palavra que ocorre uma
única vez), eles sabem tudo sobre o significado dela, mesmo em se tratando, no
caso da Bíblia, de duas línguas mortas (hebraico bíblico e grego koiné).
Para os Biblioplanistas, os gêneros literários são coisa de
hereges para torcer o real sentido das Escrituras. As contradições entre
narrativas históricas ou a duplicidade delas (como no caso da criação), é coisa
que só incrédulo acredita. A Bíblia é infalível e inerrante. As aparentes
contradições têm algo a mais e o leitor mais atento e cuidadoso fica míope para
estas “verdades ocultas”. Perguntar, questionar e duvidar de certos relatos é
condenação eterna para os Biblioplanistas.
Acreditam que o Pentateuco foi escrito por Moisés ainda no
deserto (só não explicam como há tanta água no texto da criação se o ambiente
dele era o deserto). Acreditam na literalidade numérica: Moisés esteve 40 anos
na corte de Faraó, 40 anos no deserto, 40 dias no monte Sinai e mais 40 anos na
peregrinação, saiu do Egito com 600.00 homens, perseguido por 600 carros de
combate do Faraó.
Desconhecem os gêneros literários. Para eles não há na
Bíblia novela, saga, lenda, mito, saga etiológica, ironia, hipérbole, poesia,
conto, anedota, discurso narrativo ou épico, ode, metáfora etc. As parábolas
devem ser tomadas no seu sentido mais literal possível. Tudo deve ser
interpretado desde uma ótica plana e rasa: literalmente, onde cada palavra tem
o sentido primário, sem possibilidades de interpretações segundo o gênero no qual
foi escrito. A poesia se torna historiografia, a saga etiológica é descritiva
de fatos originais, as fábulas são fatos históricos.
Também acreditam que a vida na terra é um campo de batalha
entre Deus e Satanás, com seus demônios que trazem enfermidades, desgraças,
falências, adultérios e que há pessoas escolhidas a dedo por Deus para expulsar
os demônios e trazer prosperidade.
Com tamanha infantilidade interpretativa, não surpreende que
expulsem demônios da caspa, da obesidade, acreditem que a serpente e a mula de
Balaão realmente falaram, que o universo foi criado em sete dias de 24 horas e
que a terra tenha não mais de 7000 anos!
Marcos Inhauser
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literalismo
quarta-feira, 27 de novembro de 2019
ASSASSINOS DE COMPETÊNCIAS
Tive a oportunidade de fazer coaching com um gerente de área
de uma multinacional. Ele me foi encaminhado como tendo problemas relacionais e
de liderança. Fiz as duas primeiras sessões e descobri que havia algo mais que
o atrapalhava: era extremamente centralizador.
Ele tinha uma equipe de umas 10 pessoas, todas competentes,
com habilidades reconhecidas e expertise em áreas próprias. Um sabia bastante
de Excel e dos macros que muitas planilhas demandam, outro era bom na manutenção
e reparo na rede de computadores, tinha uma pessoa boa em escrever textos,
outra que era boa no design gráfico, e assim por diante.
Ele tinha em mãos um potencial de trabalho que talvez
nenhuma outra equipe na empresa se equiparasse. Tinha uma McLaren na mão, mas
sua produção era de um Fusca. Voltei a conversar com o RH sobre o que estava percebendo
e eles me afirmaram que eu estava no caminho certo e me pediram para ser mais
direto sobre este tema com o coachee.
Na próxima sessão perguntei a ele quais eram, individualmente,
as competências de cada um dos seus liderados. Ele foi descrevendo com certa
acuidade e fui percebendo que ele tinha uma visão bastante completa do quadro
funcional que tinha em mãos. Chegou a hora de ir mais fundo na questão: “qual
foi a última vez que usou Fulano para fazer o que você diz que ele sabe fazer
bem?”. Ele pensou, rememorou e foi taxativo: “não me lembro”, mas emendou em
seguida: “talvez porque não houve nenhum trabalho que demandasse a competência
que esta pessoa tem”.
Dei uma segunda rodada: “e Beltrana? O que você delegou a
ela que ela pudesse usar suas competências? A resposta dele foi uma variação da
primeira: “eu deleguei a ela uma tarefa, mas dada a urgência e complexidade,
acompanhei a execução de perto e, no final, tive que assumir, para garantir que
as coisas saíssem tempo e a contento”.
Na terceira rodada mudei o foco. Ao invés de perguntar sobre
o passado, passei ao presente: “quais atividades que você tem hoje e a quem
você delegou, segundo a habilidade que cada um tem?”. Ele citou alguns projetos
nos quais o seu departamento estava envolvido, falou da complexidade de vários
deles e mencionou, já prevendo a próxima pergunta: “eu tenho delegado coisas à
minha equipe, mas, por questão de segurança, acompanho de perto o
desenvolvimento e se vejo que as coisas estão fora do prazo ou não são feitas
do jeito estabelecido, eu tomo as rédeas do processo”.
Conversa vai, conversa vem e descubro que ele era um acaparador.
O termo vem do espanhol e significa a pessoa que assume todas as coisas, tem
dificuldades de delegar, não usa as pessoas que tem, não desenvolve talentos e
sepulta as competências que tem na equipe. Elas morrem por desmotivação,
frustração e inanição. O acaparador entende de cesariana a motor a
explosão. Tudo ele sabe, tem opinião marcante sobre todos os temas, sempre se
coloca numa posição crítica em relação à opinião e sugestões que porventura lhe
façam. Lógico, bastante racional e de boa argumentação, justifica sua atitude acaparadora
como sendo benéfica para a empresa e a equipe, porque “ele sabe fazer
melhor que qualquer um.” Usa de alguma deficiência de uma outra delegação que
passou para justificar que prefere ele fazer todas as coisas.
Não preciso dizer que o acaparador é assassino de
talentos, mas também é autofágico. Ou morre pela quantidade de coisas que
assume para fazer (nem sempre fazendo tudo o que assume) ou morre pela
avaliação funcional: é demitido por “excesso de trabalho e resultados pífios”.
Ele se vê uma McLaren, a empresa e os colegas o veem como Fusca.
Marcos Inhauser
quarta-feira, 20 de novembro de 2019
CORRIGINDO-SE
Isto já me aconteceu várias vezes e percebo que não é só
comigo. Escrevo algo, leio o que escrevi, corrijo, releio, e outra vez corrijo
e mais uma vez leio e acho que está tudo bem. Mando a coluna para a publicação
e quando é publicada percebo que escaparam coisas que deveriam ser corrigidas.
Até já tive leitoras que me escreveram alertando sobre isto.
Tenho notado isto em outros colunistas (sou meio viciado em
notícias e no jornalismo opinativo). É frequente encontrar erros nos textos que
publicam na internet, coisas que não percebia no jornalismo impresso. Parece
que é um mal do mundo digital.
Há muitos erros. Um deles e bastante comum no mundo da
digitação é a inversão de letras na hora de digital. Lembro-me de, certa feita,
ter escrito graça e na publicação descobri que havia digitado garça. Outro
comum é a inserção de espaço no meio de uma palavra (ins tantâneo) ou colocar a
última letra acoplada à palavra seguinte (queir aDeus), ou ainda a falta espaço
entre palavras (coisassimples, queevidenciam). Tais erros são facilmente
reconhecidos e merecem o beneplácito da indulgência. Há os erros de ditografia
(escrever duas vezes em seguida a mesma palavra). Há ainda os erros que podem
parecer de digitação, mas que, na realidade, são de alfabetização: souteira,
adimito, pissicologia, previlégio e outras mais.
Outro erro comum, mas mais grave, é o da concordância que
corta o “s” final ou não declina o verbo apropriadamente (os filho, fulano e
beltrano comeu). Há ainda o erro de grafia e de gramática que evidenciam
problemas mais sérios de conhecimento da língua: trocar mas por mais, eminência
por iminência, precursora por percussora.
Certos tipos de erros podem ocorrer quando se copia um
documento a partir de ditado. Podemos substituir uma palavra homófona por
outra; i.e., “cozer” por “coser” ou “massa” por “maça”, “haja” e “aja”, “haver”
e “a ver”, “passo” e “paço”.
Mas o que me chama a atenção é a incapacidade de ser
perfeita a correção de alguém que relê o que escreveu. A gente escreve, lê,
relê várias vezes e passa por cima dos erros. Parece que a mente não se atina
para coisas simples ou tem um mecanismo de defesa para que não perceba os
próprios erros.
Acho que é uma benção não termos a capacidade de ver todos
os nossos erros. Se tal fizéssemos, seríamos eternos deprimidos e candidatos
sérios ao suicídio. Há uma taxa de erros e defeitos em nós que reconhecemos e
que nos fazem (ou deveriam) ter a consciência de que não devemos ser arrogantes
ou jactanciosos. Há outros que os conhecemos pela ajuda de outros, que podem
ser suaves ou duros ao apresentá-los a nós.
Depois de ter sido alertado para alguns erros de digitação
(e mesmo de concordância), passei a levar a sério a orientação de um famoso
jornalista do New York Times: escreva do jeito que você fala. Coloque o que
escreveu na gaveta e no outro dia volte a ler e corrija. Coloque de novo na
gaveta. Depois de dois ou três dias volte a ler e corte os adjetivos, as
palavras terminadas em “mente”, transforme metade das vírgulas em ponto final.
Dê um tempo e volte a ler. Depois peça para alguém corrigir o que você
escreveu.
Mesmo assim não há garantia de perfeição. E se não somos
perfeitos, por que se considerar melhor que os outros? Cada um tem sua taxa de
imperfeição que deverá saber administrar. Cada pessoa com quem nos relacionamos
tem sua taxa de imperfeição que devemos saber relevar. Nada mais chato do que
conviver com uma pessoa que se acha perfeita!
Marcos Inhauser
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imperfeição
quarta-feira, 13 de novembro de 2019
EVANGÉLICOS NÃO-CRISTÃOS
Pode parecer uma incoerência, mas não o é. Há muitos que declaram
ser evangélicos e negam em suas vidas e pregações o que os evangelhos ensinam.
Mas, antes de mais ada, precisamos conceituar os termos. Evangélico vem de evangelho,
palavra que tem sua origem no grego neotestamentário (euangelión) e que
significa “boas novas”. Curiosamente, ela foi originalmente usada até para o
anúncio da vitória militar trazida por um mensageiro. Também se sabe que a
palavra era usada para se referir a qualquer boa nova, independentemente da
natureza ou do contexto onde a mesma estava inserida. Só mais tarde é que os
escritores do Novo Testamento, ao fazerem dela uso, começaram a restringir o
seu significado para se referir a Jesus Cristo e ao anúncio da salvação.
Estrita e morfologicamente falando, qualquer boa nova é euangelión
e, por conseguinte, anunciar boas novas é evangelizar, não importa o campo
em que tal boa nova pertença. Também se refere ao conteúdo conhecido como
evangelhos. E mais contemporaneamente, o termo “evangélico” se refere aos que “pautam
suas vidas pelos ensinamentos dos evangelhos”. Uma denominação evangélica seria,
portanto, aquela que tem nos evangelhos a sua Carta Magna e referência maior
para os valores e práticas da vida. Ser evangélico é ter nos quatro escritos o
parâmetro para avaliar todos os demais livros, até mesmo os que estão na
Bíblia.
Os anabatistas mais radicais acreditam e ensinam que há uma
gradação na revelação que está nas Escrituras: Palavra de Deus é o que Jesus
falou, o que Ele ensinou e isto está nos evangelhos. Todos os demais escritos
bíblicos são Palavra de Deus desde que concordem com os que Jesus falou e
ensinou. Note-se que, nesta visão radical do evangélico, há coisas bíblicas que
não são evangélicas, porque vão contra os ensinamentos de Jesus. Os textos que
falam da guerra são informativos e não normativos. Seguir a Cristo é seguir ao
que dEle se sabe e conhece e descartar o que contra Ele e seus ensinamento se
colocam.
Ora, se um “evangélico” prega a ira, o racismo, a beligerância,
o armamento, pode ele ser considerado um evangélico e cristão? Se um “evangélico”
defende a tortura e cultua um torturador, pode ele ser considerado evangélico? Se
o Sermão do Monte é parte central nos ensinos de Jesus, pode ser cristão quem
os nega e ensina o que vai contra os ensinamentos do Sermão do Monte? Pode ser o
guerreiro um pacificador? Pode ser cristão quem promove o armamento, se envolve
sistematicamente em corrupção, desvia verbas da merenda e a saúde? É cristão
quem tem a ira como a essência do viver? Como achar que é evangélico quem não
aceita e nem pratica a recomendação de “amar os inimigos” e “dar a outra face a
quem bateu”? Se o evangelho é o anúncio da graça, é evangélico quem vende
bençãos?
Tudo o que não é amor a Deus, ao próximo e a si mesmo (não
no sentido egoísta e narcísico, mas no sentido de zelar pela própria vida) não
pode ser considerado cristão e nem evangélico. Esta foi a resposta de Jesus
quando perguntado qual era o maior dos mandamentos. O verdadeiro cristão se
conhece pela sua dedicação ao próximo e seu ministério para empoderá-lo,
suprindo suas necessidades, aconselhando, dando agasalho, conforto e norte para
a vida. Evangelizar é dar sentido a vida do outro, é dar a dimensão de
eternidade para quem está na depressão, é ar a esperança de melhores dias pela
solidariedade e justiça
Marcos Inhauser
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quinta-feira, 7 de novembro de 2019
HIENAS E SUAS HISTÓRIAS
Elas entraram na história não é de hoje. Também não é de
agora que elas estão envoltas em projetos de poder político com roupagem religiosa.
Conta história que, no informe Albuquerque de 1514, antes
mesmo que os descobrimentos continentais feitos por espanholes e portugueses
tivessem atraído a maior parte dos colonos, Espanha destinou um milhar de
espanhóis quando só restavam 29.000 indígenas, demonstrando que os anos
primeiros foram terríveis na mortandade dos nativos. Georg Friederici em seu
livro “Caracter del Descubrimiento y la Conquista de America” (Fondo de Cultura
Económica, Mexico, 1987, pg. 397) relata que o cortar das mãos aos prisioneiros
de guerra (nativos) e obrigá-los a sair correndo, era uma crueldade que se
praticava na Espanha antes do descobrimento da América. Na América os espanhóis
fizeram uso destes recursos com uma crueldade ainda mais espantosa, Depois de
cortar as mãos e os pés dos homens e os seios das mulheres, eles os obrigavam a
arrastar-se ou andar até que morressem por esgotamento sanguíneo. Era um
espetáculo que propiciavam aos demais para infundir o terror.
Cieza de León em sua obra “Guerra de Añaquito”, citado pelo
mesmo autor antes mencionado, afirma que “os piores exemplos da pavorosa e
desalmada crueldade e da contextura moral dos conquistadores nos brinda ... no
campo de batalha de Añaquito, onde o licenciado Benito Juarez de Carbajal, como
uma hiena sedenta de sangue, estava em busca do representante do monarca
Carlos, o vice-rei Blasco Nuñes de Vela. Encontrou, por fim, o ancião
dignatário ferido, mas não mortalmente e ainda em estada de consciência. Ele o
cobriu de impropérios e teria cortado pessoalmente a sua cabeça se seu
acompanhante, Pedro de Puelles, não o tivesse alertado da infâmia de tal ação.”
Conta a história de Blasco Nuñes obrigou a seu escravo a cortar cabeça ao vice-rei,
tomou-a pelas barbas e saiu caminho afora levando o troféu e apresentando-o a
todos quantos encontrava.
No “Arquivo Geral da Índias” se lê que “muita da prata que
se tira daqui para esses reinos é beneficiada com o sangue dos índios e vai
envolta em suas peles” (Dussel, Henrique. Caminhos da Libertação Latino
Americana, Ed. Paulinas, 1989, pg.59).
Bartolomé de la Casas, dominicano e voz profética de denúncia
dos desvarios da corte espanhola, afirmou que “a causa foi a cobiça e ambição
insaciáveis que possuíam, que foram as maiores que podem existir no mundo ...
não tiveram nem respeito, nem estima, que não digo que as trataram como bestas,
mas como menos que esterco das praças” (Dussel, idem, pg 59-60).
Contraponto a Bartolomé de las Casas estava Gines de
Sepúlveda, quem, baseado numa questionável Teologia Natural, alegava que os
indígenas não tinham alma e que, portanto, não eram seres humanos. Este Ginés
teve uma infância e adolescência cheia de insucessos e problemas (mentais?),
com atos e escritos que beiram ao ridículo. Hoje, talvez, fosse diagnosticado
como esquizofrênico ou bipolar.
São duas posturas religiosas: uma que usa dela para
fundamentar um projeto político imperialista. O outro que usa da teologia para
denunciar os desvios dos governantes e religiosos apaniguados. A retro-oculatra
mostra do acerto do profeta em detrimento da voz mancomunada com o poder.
A minha sensação ao fazer este reconto histórico é que ele é
muito atual. As hienas sedentas estão por aí, mas pregadas pelos Ginés de
Sepúlvedas modernos.
Marcos Inhauser
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quarta-feira, 30 de outubro de 2019
O CULTO DE UM SÓ
Acabara de chegar do exterior para voltar a morar no Brasil.
Buscando retomar contatos e tomar pé da situação das igrejas brasileiras, um
domingo à noite, minha esposa e eu fomos a uma igreja reformada, histórica,
tradicional, etc.
Lá chegando fomos recebidos por alguns líderes da igreja que
já nos conheciam e nos assentamos. Para surpresa minha, o pastor entrou pelo
corredor central em processional. Estranhei porque conheço a forma de ser desta
igreja e da denominação. Os pastores entram pela porta lateral ao púlpito, sem
alarde ou exibição. Ele, no entanto, entrou pela porta central, fez a
processional e, fiquei pasmo, estava vestido com uma beca usada por mestres e
doutores e usada em cerimônias acadêmicas. Ele mal tinha concluído o bacharel!
Era uma túnica pesada, destoante com o calor que fazia. Era a prova de um
exibicionismo descabido.
Começou o culto e o indivíduo, com a voz empostada, fez a
oração inicial, leu os Salmos, fez comentários e convidou a igreja a cantar um
cântico que ele havia composto. Pegou o violão a começou a tocar a “seu” hino.
Havia piano e órgão, mas ele se bastava ao violão. Terminado o cântico, ele leu
outro trecho das Escrituras com aquela voz empostada, antinatural e entoou o
solo de um cântico que ele também havia composto. No momento dos pedidos de
oração pediu que a igreja orasse pelo CD que estava gravando para que fosse uma
benção na vida de quem o comprasse. Ninguém mais teve a oportunidade de pedir
que orassem.
Contou alguma coisa sobre sua vida e iniciou a prédica,
onde, se me lembro bem, duas ilustrações eram sobre experiências próprias. Pediu
que cantassem outro cântico que ele havia composto, ao som do violão que ele
tocava.
Terminou o culto dando a benção apostólica com uma música de
sua autoria e saiu da forma como entrou.
Ao sair minha esposa perguntou: para que existe piano e
órgão no templo se ele é quem faz tudo? Lembro-me de haver dito: “ele bate o
escanteio e corre para a área para cabecear e celebra o gol sozinho como se
fosse o único em campo.” Devo dizer que não durou muito naquela igreja e em
nenhuma outra.
O mesmo acontece com a equipe de louvor. Terminada sua
“apresentação”, deixam o templo, porque, para eles, o culto acabou. Eles são o
culto! Preste atenção nos “cultos”
televisivos do neopentecostalismo: só o midiático aparece e faz tudo!
Episódios como este eu os presenciei em outras oportunidades
em variadas igrejas no Brasil e no exterior.
A igreja é uma comunidade. A igreja é uma cooperativa de
dons e habilidades. Todos na igreja devem participar, cada qual com seu dom e
habilidade. Paulo colocou isto de forma magistral: “o corpo inteiro bem
ajustado, e ligado pelo auxílio de todas as juntas, segundo a justa operação de
cada parte, efetua o seu crescimento para edificação ...” Se na igreja há alguém que tem um dom ou
habilidade e não é usado, é uma anomalia. O culto de um só é uma excrescência,
porque o “polifacético e polivalente” faz tudo. Ele entende de música, de
decoração, de liturgia, de exposição bíblica, cita grego e hebraico, ensina,
exorta, arrecada, administra, assina, entrega, devolve. Quando confrontado, se
exime citando autores e uma lógica egoísta.
Ele não ajunta, espalha. Não pastoreia, se exibe. O púlpito
vira palco. Manda instalar holofotes para que seja iluminado enquanto performa.
Graças a Deus, os narcisos não prevalecerão na congregação
dos humildes!
Marcos Inhauser
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quarta-feira, 23 de outubro de 2019
RESPOSTA ÀS ORAÇÕES?
Flávio Rico, colunista especializado em coisas da TV, noticiou na semana passada que a redução dos espaços das igrejas na TV aberta do Brasil é algo importante. Como exemplos ele informa que “Universal, que por mais de uma década vinha ocupando quatro horas diárias na programação da TV Gazeta, hoje só está com três.” “A Igreja Mundial do Poder de Deus, de Valdemiro Santiago, ... no decorrer dos tempos, diminuiu de forma bem drástica os seus espaços”. “E a Plenitude, que antes tinha mais da metade da grade da Rede Brasil, ficou só com duas”.
Não foge à regra o caso da Band com o televisivo R. R. Soares, que deverá deixar o horário nobre que ocupa na grade da emissora. O colunista salienta que as mudanças estão acontecendo e que, no caso da Internacional da Graça de Deus, do R. R. Soares, só deverá acontecer no ano que vem, por razões contratuais. O colunista não dá razões para este enxugamento, mas, alguma coisa se sabe por outras vias.
Há um esgotamento do modelo, seja porque todos fazem a mesma coisa com alguma maquiagem diferente, seja porque a mensagem, em sua essência é sempre a mesma. Eles socializam o sucesso (a Igreja ou o “apóstolo/ bispo” é quem fez o milagre) e privatizam a derrota, alegando falta de fé do ouvinte ou fiel.
Outro elemento é a conscientização popular de que estes pregadores midiáticos são inacessíveis. Não são pastores das ovelhas que têm seus dramas diários. São apresentados como exemplo de sucesso e de prosperidade, mas nunca estão disponíveis para ouvir e aconselhar.
Também há a conscientização de que o que estes midiáticos mais fazem é pedir dinheiro e o fazem com insistência, ousadia e constrangimento. Parece que há uma meta diária a ser batida e enquanto não chegam lá, precisam extorquir o quanto podem.
Há que se mencionar também que os exemplos de sucesso são apresentados na TV e, considerada a audiência, são mínimos. Vi certa feita um “testemunho” de conquista de alguém que eu conhecia bem e que dizia que estava com três carros na garagem, tinha quatro linhas telefônicas e uma casa de quase mil metros quadrados. O que ele não disse e eu sabia, era que os carros eram financiados e ele não pagava as prestações, que três das linhas estavam cortadas e a casa estava em execução para ter fraude na venda. Este cara morreu alguns anos depois deixando de “herança para os filhos” uma dívida milionária.
Há muita empulhação, manipulação e engano nestes midiáticos. Porque o Malafaia não vem contar sobre a falência da sua editora, ele que andou vendendo a Bíblia com suas anotações e o livro “Lições De Vencedor”?
Quero ver como sobreviverão porque é da essência do neopentecostalismo a necessidade de exposição midiática diária. Sem ela a arrecadação cai. E é o que está acontecendo. Eles estão enfrentando problemas para pagar suas contas com as redes de TV. Cada vez menos as pessoas estão dispostas a sair de casa e ir a um templo para ouvir lá o que podem ouvir em casa. E se não vão ao templo não ofertam. E não ofertando, as contas ficam a descoberto.
De minha parte, sem querer ser pré-vidente ou profeta adivinhatório, canto esta bola há tempos. Não é questão de premonição, mas de análise dos fatos e conclusão lógica. Um dia esta casa cai.
E isto será resposta a muitas orações por causa do mal que esta gente tem feito para o evangelho! Hoje, dizer que se é pastor, é motivo de chacota, graças ao empenho arrecadatório destes midiáticos!
Marcos Inhauser
quarta-feira, 16 de outubro de 2019
TEOLOGIA ZIRCÔNIO!
Um casal apareceu em casa porque soube que minha filha
entendia de pedras preciosas. Eles haviam ganho de um andarilho uma pedra
lapidada que brilhava muito. O casal era evangélico, passava por momentos
difíceis e acreditaram no milagre da provisão.
Levaram a pedra para algumas pessoas tão leigas quanto eles
para que a examinassem e quase todos disseram que havia grande possibilidade de
ser um diamante. Olharam os preços de um diamante parecido e a cifra chegava à
casa do milhão. Eles nos mostraram a pedra e, confesso, ficamos surpresos com a
beleza dela. Chamei minha filha que morava na China e trabalha com pedras
preciosas. Ela pediu fotos em vários ângulos, pediu para ver se havia impureza
interior, se havia mancha de uma cor que eu não sabia identificar, mas minha
esposa e o casal conseguiram ver. Ao final, minha filha pediu para eu soltar a
pedra em cima do vidro da mesa. Deveria levantá-la a uns 30 centímetros e
soltar.
Assim procedi. Ela me pediu para falar no reservado e foi
quando ela sentenciou: “Pelo barulho na batida com o vidro isto é zircônio”.
“Você tem certeza?” “O som do diamante é outro”. Argumentei que o som era via
WhatsApp e do outro lado do mundo. “É zircônio!” concluiu ela.
No outro dia, minha esposa e o casal foram ver o seu Jozo,
um japonês amigo nosso e de nossa filha e que é um dos maiores gemologistas do
Brasil. Ele viu a pedra de longe e disse: “não é diamante e, para provar o que
digo, vou mostrar alguns testes para vocês acreditarem”. Ele assim fez e provou
que era zircônio de péssima qualidade.
Esta história me veio à mente ao ver gente cristã se
empolgando com a ondas de “babaquices pseudoteológicas”. Estão achando que
encontraram o diamante da teologia e da vida espiritual, que agora têm ao seu alcance
a pedra fundamental do entendimento bíblico, que agora sabem a chave
hermenêutica para todos os problemas espirituais e sofrimentos humanos, que
descobriram o Santo Graal da vida cristã, que têm a pedra teologal. Abraçam as
novidades como se diamante fossem. São alertados por quem tem alguma noção da
coisa, que trabalha com teologia e eles simplesmente dão de ombros. Acham que a
palavra do gemologista da teologia não é válida. Não acreditam que um perito
pode identificar pelo barulho que faz. Quem nunca mexeu com gemas teológicas,
se julga mais entendido que os gemologistas reconhecidos e respeitados.
A leitura literal e fundamentalista da Bíblia é mais
verdadeira que a feita por linguistas especializadas em grego koiné e hebraico
bíblico, ambas línguas mortas. Suas “descobertas”, mesmo que não tenham
comprovação arqueológica ou sejam refutadas por quem entende das coisas da
arqueologia, ainda assim é verdade absoluta. Acabam crendo no demônio da caspa,
esquizofrenia, psicopatia, depressão, bipolaridade. Exorcizam obesidade e
pobreza!
Mais tarde, quando a decepção vem porque descobrem que fizeram
um anel solitário com uma pedra de péssima qualidade, um zircônio de quinta
categoria, acusam Deus e o mundo de serem desonestos. Eles se revoltam e, via
de regra, deixam a fé e a comunidade de lado. Para não pagar o mico de terem
sido surdos às advertências dos gemologistas teológicos, fogem deles como o
diabo da cruz. Preferem o zircônio das novidades à credibilidade dos teólogos!
Mas, como dizia um ex-aluno meu, citando Nietsche (duvido
que o aforisma seja dele, mas mesmo assim muito válido): “todo palhaço tem sua
plateia!” E zircônio vira diamante!
Marcos Inhauser
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quarta-feira, 9 de outubro de 2019
MANIQUEÍSMO INTERPRETATIVO
Maniqueu, nasceu no terceiro século antes de Cristo no
território do Império Sassânida (hoje Iraque) e é conhecido como fundador
do maniqueísmo, filosofia religiosa dualística que divide o
mundo entre Bom (Deus) e Mau (Diabo). Para ele, a matéria é
má, e o espírito é bom. Passou, com o tempo, a se referir a toda postura
fundada em dois princípios opostos: Bem e Mal. Para o maniqueísmo não existe
meio termo: ou é do bem ou é do mal.
Nestes tempos estranhos de redes sociais e de gente que se
“educou” respondendo questões de múltipla escolha, onde deveria escolher a
alternativa certa entre duas ou mais, o maniqueísmo se alastrou qual praga da
tiririca. Por ser uma geração que não foi treinada na dúvida, nem no
questionamento, em que umas poucas premissas foram apresentadas como verdade
absolutas, há o condão de achar que o que ele “sabe” é definitivo, absoluto e
inquestionável.
Caracterizam-se por uma profundidade de conhecimento que se
assemelha a um pires, leram os livros obrigatórios do ensino básico e o mais
filosófico deles foi Capitu. Das notícias só leem os títulos, não leem artigos
opinativos e adoram o Datena em suas platitudes. Por não serem treinados na
leitura, mal entendem o que leem e acham que o autor disse o que não disse,
afirmam o contrário do que está escrito e se julgam o Bem lutando contra o Mal.
Desnecessário dizer que sempre representam o Bem! Merecem o neologismo de
“leitor(anta)”.
Para quem, como eu, que escrevo há quase vinte anos esta
coluna semanal, a cada pouco recebo manifestações via e-mail ou nas redes
sociais deste tipo de leitor que diz o que eu não disse, que me julga pelas
vírgulas, que vê em mim um cruzado contra a religião cristã, especialmente a
evangélica. Certa feita recebi de um pastor uma crítica feroz e me aconselhando
a usar este espaço para “pregar o evangelho” e não para apontar as mazelas de
algumas igrejas. Respondi a ele perguntando se ele me oferecia o espaço no
boletim da sua igreja para eu escrever. Estou esperando a resposta até hoje.
Uma das coisas mais comuns é o maniqueísmo diagnóstico: se
ataco algum aspecto do capitalismo, sou comunista. Se ataco algo do marxismo,
sou capitalista, se critico uma posição dos evangélicos sou católico etc.
Quando da invasão do Afeganistão pelos Estados Unidos, ao criticar as ações e a
mortandade provocada, recebi manifestações dizendo que eu era a favor dos
talibãs!
Mais recentemente, em algumas vezes em que critiquei os
destemperos verbais do atual presidente, fui acusado de ser comunista, petista,
esquerdista. Quando critiquei o PT no governo, fui acusado de ser conservador,
retrógrado, capitalista. Quando fiz algum reparo à Lava Jato, fui condenado por
ser a favor da corrupção! Um deles me escreveu dizendo que eu sou
“inguinorante” e que minha “inguinorança” me descredenciava a ser colunista.
Estamos na época em que qualquer alfabetizado se sente no
dever e poder de dizer ao mundo o que pensa, mesmo que sua postagem seja a
revelação do quão imbecil é. Neste contexto se inserem os haters, gente
especializada em difamar, denegrir e fazer bullying virtual. Machucam pessoas
pela aparência que têm, por serem gordas ou magras, cabelo curto ou comprido, e
aí por diante. Não é para menos que vários destes famosos fecharam suas contas
nas redes sociais.
Marcos Inhauser
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quarta-feira, 2 de outubro de 2019
FAÇO O QUE QUERO?
Quantas vezes você já
fez promessas de que faria regime, exercícios físicos, estudaria todo dia,
leria 10 livros por anos? Quantas destas decisões foram cumpridas? Quantas
coisas que você “sabe” que deve fazer ou mudar e nunca fez ou mudou?
O saber muda? Esta é
uma pergunta que fui instigado a fazer para mim mesmo e tenho feito a algumas
pessoas e percebo que, comigo e com outras pessoas, o fato de saber não
garante, necessariamente, a mudança nos meus hábitos. Quantos viciados,
alcoólatras, diabéticos que “sabem” que drogar-se, beber ou comer doces
prejudica a saúde e a vida deles e que continuam nas mesmas práticas?
Quantas mães perderam
horas aconselhando seus filhos, ensinando coisas e que veem seu trabalho
frustrado porque seus filhos, a despeito de tudo o que ela disse, se envolveram
com as coisas para as quais foram alertados? O questionamento não é novo, nem
sou eu só que o faço. Já o apóstolo Paulo o fazia (e muito provavelmente outros
antes deles, que não conheço): “Pois o que
faço, não o entendo; porque o que quero, isso não pratico; mas o que aborreço,
isso faço. Pois não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse pratico
... o querer o bem está em mim, mas o efetuá-lo não está.” (Romanos 7: 15-17).
O dilema é: se sei o que devo fazer e decido fazê-lo, por que
nem sempre a decisão consciente que tomo se transforma em ação correspondente?
A explicação mais plausível que se tem até o momento é que existem variáveis
outras, inconscientes ou conscientes, que interferem no processo volitivo e o
sabota, inoculando a ação e fazendo-a abortar.
No processo de entender estes “mecanismos subterrâneos” há a psicanálise,
a interpretação de sonhos, a terapia da linha do tempo, a regressão, a hipnose,
a terapia cognitiva, behavioral, a abordagem sistêmica, a das constelações
familiares e assim por diante por diante. Cada uma delas tem seu valor e
apresentam seus resultados, mas, ao fim e ao cabo, sempre fica algo escondido.
Diante disto, a máxima de Sócrates “conhece-te a ti mesmo”,
tem sua razão de ser e é pertinente a todos nós. Se ela ainda é valida e a
busca por conhecer-se deve ser uma missão individual e solidária, porque
conhecer-se implica em ouvir o que outros têm a dizer sobre mim e perscrutar o
que posso conhecer olhando para dentro de mim. Ocorre que, como humanos, sempre
nos vemos melhores do que somos e do que os outros nos veem.
Há que considerar-se a capacidade humana de auto-engano.
Acreditamos nas mentiras que contamos para nós mesmos. E, talvez, a mais
terrível delas é enganar-se achando que nos conhecemos profundamente e cada
entranha do consciente e inconsciente. A frase “eu me conheço” é uma mentira
que acredito porque ela é produzida por mim e para mim mesmo. Acho que é aqui
se aplica a máxima sapiencial: “Aquele que vive isolado busca seu próprio desejo; insurge-se
contra a verdadeira sabedoria. O tolo não tem prazer no entendimento, mas tão
somente em revelar a sua opinião.” (Provérbios 18:1-2).
O conhecer-se se dá no ambiente
relacional. Outra vez o sábio: “... na multidão de conselheiros há sabedoria.”
(Provérbios 11:14).
Em outras palavras, somos um enigma
para nós mesmos!
Marcos Inhauser
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quarta-feira, 25 de setembro de 2019
SOMOS UM POÇO QUASE TOTALMENTE ESCURO
Depois de vários anos morando fora do Brasil e muito mais
tempo para morando fora da casa de meus pais, voltei para lá para ali estar por
alguns dias. À noite, levantei-me para ir ao banheiro e, sem pensar ou tentar
lembrar, eu sabia onde estava o interruptor e acendi a lâmpada sem problemas.
Em seguida fui à cozinha e fui buscar o interruptor e não o encontrei. Eu sabia
onde estava, mas, em função de uma reforma, havia mudado de lado. Eu fiquei
perdido.
Por que eu sabia o do banheiro e não o da cozinha. Como eu
“sabia” se eu não precisei pensar, rememorar ou tomar uma decisão a respeito?
Eu simplesmente sabia pelo hábito de, durante anos, ir ao banheiro e saber onde
estava o interruptor.
Lembrei-me disto nestes dias. Dirigindo na Califórnia,
estava focado nas regras e sinalizações de trânsito. O “Pare” é “Pare”! Se não
brecar o carro e olhar para entrar, é sinal de problemas se algum guarda
estiver à espreita. No vermelho se pode dobrar à direita se não houver carros
vindo. Vira e mexe eu me atrapalho com o “Pare” e só olho e mantenho a marcha
se não houver nada que me impeça de fazê-lo. Por outro lado, no sinal vermelho,
é minha tendência parar e esperar que o sinal abra para eu fazer a conversão à
direita. Isto se deve a um hábito arraigado de dirigir no Brasil. Mesmo
sabendo, não faço!
Dia destes, estava parado em um semáforo, meio absorto e dirigindo
“no automático”. Eu esperava o sinal abrir para seguir em frente. Sem prestar
atenção ao sinal, vi que os carros que estavam na mão oposta se movimentaram e
eu arranquei. Não era a minha vez, mas o sinal autorizava para virar à
esquerda. Quase uma trombada. Eu estava na força do hábito, uma vez que, no
Brasil, são raríssimos os semáforos de três tempos que me permitem virar à
esquerda. Eu “sabia” que assim é aqui, mas este conhecimento não valeu. O força
do hábito foi maior. Para dirigir aqui, terei que praticar muitas vezes para
que meu hábito arraigado nos “meus ossos” determine um comportamento diferente.
Outra coisa que me intrigou é como eu “sei” que devo falar
em inglês com meus netos e o faço de forma automática. Quando estou com
hispanos, “sei” que devo falar em espanhol e com os brasileiros em português.
Não preciso “decidir”. Sai no automático.
Estas coisas se estendem a outras coisas menos importantes.
Não preciso decidir comer de boca fechada, colocar a mão na frente da boca
quando vou tossir ou espirrar, não fazer barulho “chupando” a sopa que está na
colher, lavar as mãos depois de usar o banheiro, etc. Estes são saberes
incorporados pela repetição desde a mais tenra infância, de tal forma que minha
identidade é também formada por estes saberes inconscientes, mas que se tornam
visíveis e notados quando a eles presto atenção. Mas também sou mais do que
conheço a meu respeito e nem sempre sei dar razão a algumas coisas que faço
automaticamente. Nem tudo sei explicar e o que explico sobre mim, nem sempre
está correto. Sou um enigma para mim mesmo!
As terapias analíticas tentam me fazer descobrir este
subsolo da minha (in)consciência. Podem fazer bom trabalho, mas arrancam uma ou
duas camadas da escavação de um poço escuro que todos somos. Ainda é vigente o
alerta do filósofo: conhece-te a ti mesmo!
Marcos Inhauser
quarta-feira, 18 de setembro de 2019
FALSOS PROFETAS
É fácil encontrar
citações bíblicas alertando para os falsos profetas, pois eles são praga eterna
e comum. Se o sábio falso é raridade, o profeta falso é achado em quantidade.
Para reconhecê-los talvez o melhor caminho é olhar para as características do verdadeiro
e perceber os que dele se desviam.
O verdadeiro profeta
é apartidário. Ele não apoia este ou aquele candidato ou partido. Ele deve ser
independente para poder dizer o que pensa deste ou daquele, mesmo os mais
poderosos. Ele, no entanto, não é imparcial, visto que tem um compromisso
radical com os pobres, as viúvas, explorados, estrangeiros e órfãos. Sempre
está do lado deles. Como disse Max Weber, no antigo Israel havia a realeza
mancomunada com os sacerdotes, o povo explorado por eles e o profeta que
denunciava as injustiças da realeza/sacerdócio na exploração do povo.
O profeta, na pura
acepção da palavra é “o mensageiro da parte de ... ”. Ele traz a mensagem da
parte de Deus, palavra de denúncia e esperança. Não é o vidente que prevê o
futuro, ainda que diga o que acontecerá caso insistam nas práticas iníquas. Seu
exercício de futurologia é o da lógica que levas às últimas consequências os
atos desastrosos praticados. Não é para menos que muitos o veja como vidente,
como anunciador do futuro em termos visionários. Para tanto o Deuteronômio
orienta: “Como saberemos se uma mensagem não vem do Senhor? Se o que o profeta
proclamar em nome do Senhor não acontecer nem se cumprir, essa mensagem não vem
do Senhor. Aquele profeta falou com presunção. Não tenham medo dele” (Dt 18:20-22)“. Outro alerta vem
de um profeta: “Assim diz o Senhor Deus: Ai dos profetas loucos, que
seguem o seu próprio espírito sem nada ter visto! ... Tiveram visões falsas e adivinhação mentirosa os
que dizem: O Senhor disse; quando o Senhor os não enviou; e esperam o
cumprimento da palavra.” (Ez 13:3-7). Jesus também alertou: “Acautelai-vos dos falsos profetas, que se vos apresentam disfarçados em
ovelhas, mas por dentro são lobos roubadores. Pelos seus frutos os
conhecereis” ( Mt 7:15).
Pastores, bispos, apóstolos
ou missionários que se apresentam como abençoadores de governo e deles
necessitam para manter suas estruturas midiáticas ou religiosas, reproduzem o que
havia no antigo Israel: a realeza casada como o sacerdócio para explorar o
povo. É verdade que devemos orar pelos governantes, mas a mesma Bíblia estabelece
que eles foram instituídos para punir os ímpios e zelar pelos pobres, estabelecendo
a justiça e a paz.
A religião extorque com
os impostos religiosos (dízimos e ofertas), assim como a realeza se mantém pelo
extorquir via pesados impostos. A injustiça se dá no campo religioso e no
governamental: se, quanto mais eu oferto na igreja, mais sou abençoado, o pobre
está lascado. Se quanto mais rico eu for, menos imposto eu pago (jatinhos e
iates não pagam imposto!), o fato de ser rico me dá um plus para ser ainda mais
rico. O pobre paga mais e, por isto, está mais propenso a continuar na miséria.
Isto gera a concentração de renda via lógica draconiana, perversa, iníqua e
pecaminosa.
Na análise/diagnóstico
para se conhecer os falsos ou verdadeiros profetas não se pode usar a lógica
maniqueísta: se denuncio o governo A não significa, necessariamente, que sou a
favor do governo B. O profeta denuncia erros e injustiças, mas isto não o
compromete como apoiador da oposição. Sua posição sempre é de luta a favor dos
pobres e explorados.
Como disse o sábio: “Não havendo
profecia, o povo se corrompe” (Pr 29:18). Tomo a liberdade de modificar
ligeiramente: “Não havendo profecia o governo se corrompe”.
Marcos Inhauser
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quarta-feira, 11 de setembro de 2019
FALSOS SÁBIOS
Na minha última coluna pontuei alguns aspectos
característicos do sábio e do profeta e a distinção entre eles. Recebi alguns
comentários que me levaram a refletir mais sobre o assunto e a ele quero
voltar.
Tanto o sábio como o profeta são pessoas de fala comedida e
campos limitados de atuação. Como eles não têm resposta para tudo, sabem que o
silêncio é sabedoria. O sábio fala pouco porque sua fala é fruto da reflexão,
análise, investigação e, assim creio, ele é sábio em uma ou outra área, mas não
o é em todos os assuntos. Uma pessoa que se acha entendida em todas as áreas,
que entende de cesariana a motor a explosão, não é sábia: é cega e não se
enxerga. Elas me fazem lembrar uma coisa que vi escrita em um muro de uma
oficina mecânica em Manágua, Nicarágua: “especialista em carros nacionais e
estrangeiros”. A primeira questão que me veio à mente foi perguntar qual era o
carro nacional nicaraguense. A segunda foi questionar como podia entender de
tudo.
Disto se tem duas características para se conhecer o
falastrão do sábio, o verdadeiro do falso: quem fala muito, dá bom dia prá
cavalo, fala besteiras, vomita insensatez. Disto temos exemplos no cenário
brasileiro, especialmente no campo da política. A segunda é que o verdadeiro
sábio não fala do que não entende, não julga o que não sabe, não acusa de ser
falso o que não compreende. Se o faz é tolo e não sábio. É falso sábio.
Fiquei a me perguntar e revisar minhas memórias de um falso
sábio e, confesso, não o encontrei. A razão para isto é que o falso sábio é
descoberto e desacreditado em pouco tempo. Basta algumas conversas para que sua
tolice seja explicitada e o pretenso sábio passa a ser motivo de chacotas.
Quero acrescentar uma terceira característica: o falso sábio
se proclama como tal. Ele se afirma como sábio, se comporta como se tal fosse,
se intitula como tal. No máximo tem um séquito de alguns cegos tão tolos quanto
ele, que o aplaudem, muitas vezes familiares tão tolos quanto. O verdadeiro
sábio é reconhecido como tal e nunca autoproclamado.
Há outra questão. O sábio, me parece, se atém à área das
humanas. Ele fala e se posiciona sobre comportamento, valores, ética,
conflitos, etc. O equivalente do sábio para as ciências e arte é o gênio.
Einstein, Da Vinci, Michelangelo, Thomas Edson, Pascal, Lavoisier não são
chamados de sábios, mas de gênios. Einstein era gênio, mas no campo das
relações humanas, especialmente nas relações familiares, era um desastre. Da
Vinci era um procrastinador inveterado e entregou meia dúzia das muitas
encomendas que recebeu e que por elas recebeu. Michelangelo era de difícil
trato, bem retratado no filme “Agonia e Êxtase”. Prosaicas são as histórias
sobre o gênio Steve Job.
No entanto, a bem da verdade, devo admitir, alguns poetas
maravilhosos, escritores talentosos, músicos que quase nos fazem tocar o divino
quando os ouvimos, ainda que estejam na área que eu definiria como própria para
os sábios, não são assim chamados. Penso em Frost, Victor Hugo, Goethe, Platão,
Aristóteles e outros que são mais comumente chamados de gênios e não de sábios.
Para finalizar, não é a política o campo para os sábios.
Eles têm um compromisso com a verdade, coisa rara na política. Alguns bons
políticos são chamados de estadistas, mas não de sábios. Abraham Lincoln talvez
possa ser considerado como tal, Mandela é outro. Estadista é o título para os
políticos que se destacam e lideram a classe. Muitos políticos, especialmente
os falastrões, estão mais para tolos que para sábios.
Quem sabe ler entenderá!
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quarta-feira, 4 de setembro de 2019
O SÁBIO E O PROFETA
Na cultura grega ser considerado sábio era o ápice. Tal
reconhecimento não era fruto de autoproclamação, auto reconhecimento ou
petulância de quem assim se arvorasse. Ser sábio era o fruto de longa caminhada
no saber e no discernimento das coisas. O sujeito inteligente, ou o que muito
sabe, não, necessariamente, era sábio. Por outro lado, o sábio, não
necessariamente, precisava ser dotado de acúmulo de saber, mas de percepção
clara das coisas, dos fatos, das pessoas.
Trazendo para nossos dias, o sábio não é quem tem um PhD em
algo, ou um título de Livre Docência, que tenha escrito muita coisa ou livros.
O sábio pode ser alguém que, não tendo caminhado as trilhas do saber acadêmico,
entende das coisas, normalmente as comezinhas. Não é um autodidata (que se
caracterizam pela arrogância), mas alguém que aprendeu no convívio social, nas
interações humanas e nas comunicações ecléticas. No dizer de Gramsci, acho, é o
intelectual orgânico.
Na cultura hebraica e na semita, o ápice era ser profeta, no
sentido de ser uma pessoa inserida na comunidade e que se compromete com a
história. Tanto no sentido hebraico como no grego, a palavra que fala do
profeta, não é a do vidente. Ainda que possa haver textos onde a conotação
aparece, considerada no seu strictu sensu o profeta é o “que fala da
parte de”, é o mensageiro, a pessoa dos recados. Daí porque ocorre com
frequência a expressão “veio a mim a palavra do Senhor dizendo”, “vai e dize ao
meu povo”, “assim disse o Senhor”
No ambiente hebraico, o profeta era alguém da comunidade,
que vivia os dilemas sociais e econômicos dela, e se comprometia com a denúncia
dos erros e pecados, especialmente dos dirigentes e governantes. O profeta
tinha um compromisso radical com os pobres, viúvas, órfãos, estrangeiros,
sujeitos prediletos dos exploradores e governantes injustos. Daí porque, no
mais das vezes, a palavra profética é a da denúncia, do juízo sobre esta casta
exploradora, sempre em favor dos menos favorecidos. A pregação profética da
esperança futura não tem nada de visão, antecipação ou premonição, mas é o
desejo genuíno de que haja mudanças na situação. Mais que uma revelação
antecipatória é uma aspiração sublimatória do momento presente pela esperança
futura.
Colocadas e explicitadas estas coisas, não preciso de muito
espaço para afirmar que a relação profeta/reis/governantes/pseudo sacerdotes é
espúria. O profeta não se assenta com os escarnecedores, com os exploradores,
com os que praticam injustiças. Ele fica de fora destes círculos, dos palácios
e só se dirige a eles para denunciar seus pecados e injustiças. Ele também se
dirige aos explorados para dizer: vai haver troco, vai haver novos tempos,
aguenta que Deus vai virar o jogo! O casamento do profeta com o governante é
adultério e promiscuidade. Pior que isto é o governante se apropriar dos
símbolos e discursos da religião, para passar a imagem de que seu governo é
ungido e que ele faz a vontade de Deus. Quer parecer sábio ao dizer quem é
terrivelmente evangélico.
Devemos lembrar que algumas das piores ditaduras que a
humanidade conhece e viveu foram ditaduras religiosas, seja em nome de Javé, de
Alá, ou outro deus qualquer. O presidente que se acha messias é um risco aos
governados. Assim foram Pinochet, Hitler, para citar dois dos mais recentes. O
messianismo que acreditavam e sustentavam validava as coisas que faziam. Uma
coisa é ter metas no governo, outra é ver isto como missão com tempero religioso
e discurso pseudoteológico.
Também acintoso é o governante que vai aos templos e se
arvora pregador e recebe benção de sacerdotes que estão sub judice.
Marcos Inhauser
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quarta-feira, 28 de agosto de 2019
DOM QUIXOTE DA CHAMA
Lá se vão mais de 35 anos quando, por determinação pessoal
contrária à minha vontade, decidi ler o Dom Quixote. Eu o li em espanhol e, no
princípio, achei o estilo rebuscado e rococó. Aos poucos fui tomando gosto e,
devo dizer, acabei adorando o livro e ele marcou muito a minha vida e
cosmovisão.
A sua “vocação” era tresloucada e, até onde se sabe, não
tinha o treino e as habilidades necessárias para desempenhar a missão de
cavaleiro a que se propôs. Saiu em desvairada aventura épica. Para tanto tinha
seu fiel escudeiro, o Sancho Pança. Pelas gravuras se percebe ser uma dupla de
opostos: Quixote era magro e alto, Sancho gordo e baixo. Este antagonismo é
proposital na paródia anacrônica que a novela é. Também se percebe o antagonismo
nos comportamentos: Quixote era visionário, irrealista, sonhador e psicótico. O
Sancho era realista, comedido e sensato. O problema é que Quixote não o
escutava.
Quixote tinha um cavalo, o Rocinante e uma inspiração, a
Dulcineia. Ele nunca a viu e nem ela a ele. Ela nem mesmo sabia que ele
existia. Era um devotado anônimo. Em homenagem a ela enfrentou inimigos
imaginários (como os moinhos de ventos). Via inimigos por onde olhasse.
Da leitura aprendi a olhar os possíveis inimigos e perguntar
se são reais ou imaginários. Busquei ter os meus Sancho Pança que me chamassem
à realidade. Meu Rocinante é o que escrevo e ensino. Minha Dulcineia é a esposa
e os netos e netas (que são reais e sabem das minhas lutas).
Este romance de cavalaria se tornou um clássico e o é porque
sua história, ainda que anacrônica, encontra eco em situações presentes. Como
exemplo, cito o Brasil atual. Temos um presidente que se encaixa na figura do
Dom Quixote. Ele saiu do fundão do plenário, do baixo clero, nunca mostrou ter
habilidades e competências para a missão que diz ter, tem seus fiéis escudeiros
na trinca de filhos, arrumou mais três (Guedes, Moro e Lorenzoni). Tem seu
Rocinante que são as redes sociais e vê inimigos a cada novo dia. Mais
recentemente ele viu inimigos nas fotos e estatísticas do INPE e caiu de pau,
apoiado pelos escudeiros, em cima do diretor e acabou por exonerá-lo. Viu
monstros nas ONGS, nas fotos de satélites, nos governadores da região
amazônica, no Macron e até na mulher dele. Até em ajuda internacional ele vê
inimigos hipotéticos!
Parece que quanto mais fumaça as queimadas produzem, mais se
deteriora a visão do nosso cavaleiro. Depois de ver o tiro sair pela culatra,
chamou os ministros e o Exército para mostrar algo que deveria ter feito há
muito tempo.
O seu Rocinante é vociferante! Todo dia tem que colocar algo
nas redes, quase sempre (e não me lembro quando não o foi) de forma a criar o
caos e a controvérsia. Parece que se inspirou no Jânio Quadros e no César Maia,
especialistas em factoides para sempre estar na mídia. Que se inspira no Trump
não há nenhuma dúvida, uma vez que o idolatra. Ainda que haja quem, no seu
entorno, tente chamá-lo à realidade, nada muda.
Ele mexeu com a chama e saiu queimado! E o Brasil está
saindo chamuscado pelas suas intemperanças e alucinações!
Marcos Inhauser
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