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terça-feira, 25 de dezembro de 2018

NA RESSACA DO NATAL


Acaba mais uma celebração de Natal. Os mais puristas dirão que lá se vão mais de dois mil anos de celebrações. Outros, mais atentos e analíticos, questionarão, considerando que não há indícios de celebração do Natal nos primórdios da Igreja e que mesmo a data do nascimento nunca se conseguiu precisar e o que se celebra é uma convenção.
Há quem coloque o início das celebrações no século IV, a partir da figura de Nicola, nascido em Pátara – Ásia Menor, figura reverenciada por diferentes tradições cristãs. Com idas e vindas na história de Nicolau, que acabou virando santo e bispo de Myra, a tradição de São Nicolau, que envolvia o distribuir presentes na noite de natal, se expandiu pela Europa no século XII. Quinhentos anos depois, os holandeses levaram esta tradição aos Estados Unidos, e também se difundiu por toda a América Latina.
Inicialmente Papai Noel distribuía os presentes montado em um cavalo. Mais tarde o escritor Clement Moore  colocou o São Nicolau em um trenó puxado por renas. Mas foi a Coca-Cola quem, em 1931, fez uma campanha natalina, onde o personagem ganhou roupa vermelha, barba e enorme barriga.
Muito se escreveu criticando esta celebração do Natal onde o Papai Noel tem maior importância que o nascido, onde os presentes falam mais alto que a mensagem do nascimento de Jesus, a comilança toma espaço da fraternidade.
Há, no entanto, algumas coisas que devem ser consideradas depois que a festa acaba. Não há na cultura brasileira e, quiçá, na cultura ocidental, outro evento social que produza mais encontros familiares e de conhecidos, que promova mais tempo à mesa, mais confraternização, mais generosidade, mais perdão que o Natal. Que outro momento se tem tanta gente saindo de suas casas para visitar pais e parentes, para ter um tempo em família? Que outro evento provoca mais tempo à volta de uma mesa para uma refeição comunal? Talvez alguns citem o Thanksgiving estadunidense, mas ele tem um demérito: parte da tarde todos se sentam à frente da televisão para ver o Super Bowl. No Brasil e América Latina nem futebol tem. A televisão é de uma pobreza indescritível e o melhor é ficar conversando que ver o que passam.
Que outro evento produz mais giro no mercado, mais movimentação nas lojas, mais generosidade nos presentes, mais empregos, mais desejos de felicidade mesmo expressos a desconhecidos? Que outro evento produz mais gente engajada em solidariedade distribuindo presentes e comida aos mais necessitados, cânticos corais com apresentações nos mais variados espaços? Que outro evento inspirou tantos compositores a compor músicas, algumas que são obras primas da humanidade, como, por exemplo, o Aleluia de Haendel?
É verdade que houve quem bebeu e se excedeu no Natal. É verdade que tem gente de ressaca hoje. É verdade que tem gente que vai levar alguns meses para pagar os presentes que comprou e outros a comida que colocou sobre a mesa. Mesmo assim, nunca vi alguém reclamar da celebração do Natal. Há algo de mágico nele e sua comemoração. Tenho para comigo que o mágico é a mesa. O comer juntos é a prática mais antiga da humanidade. Já li o Yuval Harari, o Reza Aslam, o Domenico de Masi em suas incursões sobre a história da humanidade. Não vi neles uma ênfase no comer juntos como elemento formador da comunidade, ainda que isto seja tão antigo como o ser humano. Comer juntos é compartilhar, é dar do que se tem, é beneficiar o outro com o alimento. Isto também se faz no Natal e assim se retoma a prática mais antiga da humanidade!
Marcos Inhauser

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

JOÃO! DE DEUS?


Há notícias que impactam e que não entendo por que elas têm este poder, uma vez que se tratam de coisas corriqueira. Há outras que, pelo inusitado, se transformam em sensações jornalísticas (a águia que fez ninho na janela de um apartamento na área do Central Park). Há as que nos estarrecem pela violência dos fatos (o caso do Tsunami nas Filipinas), pela crueldade (o caso da morte e emasculação do jogador de futebol), pelo volume do dinheiro envolvido (as descobertas da Lava Jato), pela constância na prática do crime (o ex-governador Sérgio Cabral) ou pela imprevisibilidade (o massacre na Catedral de Campinas). Muitos mais exemplos poderiam ser dados para exemplificar o que afirmo.
Estamos, nestes dias, diante de notícias que a cada dia nos estarrecem pela antiguidade da prática delituosa, pela quantidade de acusações, pelo tempo em que demorou para que viessem à luz, pelo abuso da autoridade religiosa e pela natureza dos crimes. Falo dos fatos relacionados ao João, indevidamente alcunhado de João de Deus.
Para mim, o problema começa com a alcunha: de Deus. Isto o elevou a um patamar de divindade, de alguém acima dos normais, de um quase deus. Se se prestar atenção às acusações agora feitas, perceber-se-á que muitas das mulheres dizem que não o denunciaram para não prejudicar a obra que ele fazia, que ele era idolatrado pelos seguidores, que ninguém acreditaria no que contassem. Nem mesmo uma juíza e promotor acreditaram no relato de uma abusada, e arquivaram a denúncia por falta de provas (queriam fotos ou vídeos que provassem?). Se era tido neste plano superior, suas ameaças de que a doença voltaria se contassem do abuso, que os demônios as atacariam ganhava foros de verdade, sem diminuir a grau de chantagem.
Neste exercício de poder há um desequilíbrio entre o religioso e o fiel. Cito aqui o que já escrevi anteriormente nesta coluna (Poder Divino): “... estudos feitos sobre os casos de violência sexual sempre mostram uma relação desigual de poder, onde os abusadores, no exercício de suas autoridades, impõem suas vontades sobre as partes mais fracas. Também afirmava que, no campo do religioso, esta desigualdade do poder se estabelece quando o religioso se apresenta como revestido de “autoridade espiritual”, o que facilita a investida sobre a presa de sua sanha sexual. Uma “cantada” de um religioso é mais efetiva que a de um cidadão normal. Há nisto a mística de estar se relacionando com o sagrado, com alguém mais próximo de Deus, uma elevação espiritual pelo sacrifício da entrega do corpo, de orgasmo mais pleno porque feito com a santidade. Há o caso (sem o mesmo destaque na mídia) de pastor que Deus revelou que as mulheres dos membros da Diretoria da Igreja deveriam ser acessíveis e acabou sendo flagrado no escritório pastoral com uma delas.”
No caso do João Abusador havia o argumento de equilíbrio das energias, de transferência, via genital, de energia para a cura e outras abobrinhas. Insaciável, até uma filha acusa o pai.
Não é para menos que, até o momento em que escrevo esta coluna, pelo menos 506 mulheres já ofereceram denúncia contra o João Abusador. No entanto, pasma-me o instituto da prescrição da punibilidade por ter decorrido algum tempo. A dor das abusadas, violentadas e estupradas não prescreveu. As lágrimas são atuais, a dor é diária, o sofrimento ininterrupto. É justo não aceitar denúncias porque feitas depois de seis meses? Dos 506 casos conhecidos sobrará um caso. É isto mesmo que entendi?
Marcos Inhauser


quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

GERAÇÃO INÚTIL


Você certamente já ouviu falar da Geração Nem-Nem: nem trabalham, nem estudam. Escrevi em minhas últimas colunas sobre a geração que não tem vocabulário porque não leem e, em função disto, usam emojis e memes para tentar dizer o que pensam ou sentem. Curtos de vocabulário, sabem apertar teclas e tocar telas.
Eu já tinha ouvido algo parecido a isto quando trabalhei com treinamento em uma fábrica que contratava centenas de jovens para trabalho temporário, com duração de seis meses. Nos primeiros cinco trabalhavam razoavelmente bem, mas no sexto já encostavam o burro na sombra. Demitidos ao final do contrato, ficavam pendurados no seguro desemprego por mais uns seis meses. Ouvi mais de uma vez dos supervisores destes jovens de que se tratava de uma geração perdida. O assunto deles era só balada e bebedeira.
Mais tarde ouvi de uma professora universitária preocupada com a quantidade de alunos que entravam na sala de aula, assinaram a lista de chamada e saiam para ir beber no bar em frente à faculdade. Não queriam saber de estudar e a escola era o pretexto para sair de casa.
Com as recentes mudanças nos perfis das vagas de trabalho, que exigem mais conhecimento e habilidades comunicacionais, relacionais e trabalho em equipe, uma parcela da nova geração está ficando à margem dos processos seletivos. Tenho para comigo que dentre os 14 milhões de desempregados, há grande parte formada pelos desprovistos de mínimas habilidades relacionais e comunicacionais. Gente inútil desde o ponto de vista funcional.
Por algumas vezes fui solicitado por amigos para dar uma garibada em currículos de filhos ou amigos. No mais das vezes continham erros crassos de português, falta de sentido nas frases ou estava pavoneado: inglês básico, curso de Word e Excel. Se nem sabiam lidar com o idioma materno, como esperar que soubessem inglês?
Dia destes vi um presidente de multinacional sentado no seu escritório olhando CVs para seleção de uma funcionária para um determinado cargo. Olhei para o CV e vi que nas telas (haviam duas conectadas ao mesmo tempo) do computador estavam abertas, uma no Facebook, outra no Instagram. Antes que eu perguntasse, ele me disse: o currículo está bom, mas o que escreve no Face e Instagram é horrível. Alguém fez este CV para ela.
Certa feita, em uma viagem de Rio Verde a Campinas, uma moça sentou ao meu lado e puxou conversa. Nova, tinha ido visitar o noivo e estava para casar em poucos dias. Morava em uma cidade muito pequena, onde emprego era raridade. O pai era agricultor e ela falava muito mal, comendo os “s” e errando em todas as concordâncias. Ela me disse que ia casar e que iriam mudar-se para a cidade dela para ajudar o pai. Do nada ela me disse que ela queria estudar inglês e o que eu achava disto. Perguntei qual o emprego na cidade dela requeria inglês, ao que me respondeu: nenhum! Eu disse a ela que seria melhor estudar o português antes de se aventurar em outro idioma, porque este aprendizado exigia bom conhecimento da língua materna. No meu entender, ia gastar dinheiro para nada.
Fico a pensar o que será desta gente quando tiverem seus 35 anos de idade, a crise da meia idade bater à porta e sem perspectivas de futuro! Sem INSS, sem plano de saúde, sem salário para comprar o básico, dependentes dos pais, sem sonhos e, especialmente, sem realizações. Não terão história para contar! Inúteis sociais!
Dá para entender porque o consumo de drogas está aumentando!
Marcos Inhauser

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

PESSOAS INSÍPIDAS


Aconteceu de novo! Estava na casa de uns parentes e lembrando de coisas passadas, quando veio à tona a lembrança de um fato que envolveu um pastor que visitava a cidade. Ao lembrar dele, recordei-me do filho que estudou comigo e que nunca mais havia lembrado que ele tinha passado pela minha vida. Entrei em contato com outros colegas do mesmo tempo que também estudaram conosco e também não se lembravam, nem tinham notícia dele.
Foi uma pessoa insípida: passou, conviveu e não deixou nenhum sabor de sua passagem. São pessoas que passaram em “brancas nuvens e em plácido repouso” foram colocadas no esquecimento. Morrem na lembrança porque não viveram na convivência.
A passagem delas foi sem nenhuma contribuição, sem benefício para os circundantes, sem ensino passado, sem marcar em algo que tenham dito ou feito. Olhando para trás percebo que o assunto delas era muito reduzido, limitando-se a falar de futebol, contar piadas, falar de doença, reclamar da vida. São doutores em falar obviedades. Têm PhD em Mesmice. Não tem assunto porque nunca leram um livro, não leem jornal, não se atualizam, têm vocabulário limitado. Costumo dizer que estas pessoas não têm “cabine pressurizada”: é só levantar voo na conversa e começam a ter dor de cabeça pela falta de oxigênio (neurônios).
Uma das primeiras colunas que escrevi para o Correio Popular (Somos Água) eu dizia que uma vida significativa se mede pela quantidade de água (lágrimas) derramada na hora da morte e que o epitáfio mais cruel da história é a do rei bíblico que “morreu e não deixou saudades”. Há quem nem na vida dos filhos fez diferença, ao ponto de uma filha me pedir para não falar alto durante a cerimônia de sepultamento do pai porque, se ele estivesse só dormindo e acordasse, ela não ia levá-lo de volta para casa!
Tenho estudado o fenômeno e tenho pensado que as pessoas que passam e marcam a passagem são aquelas que foram significativas porque tiveram alguma destas ações. Marcam a passagem as que nos ensinaram algo que nos ajudaram em um momento concreto, supriram a falta de um conhecimento específico. Lembro-me com clareza onde e quem foi que, diante de uma dúvida quanto ao significado da palavra inglesa foreigner, me ensinou o significado.
O segundo grupo é formado por aqueles que nos deram um norte para a vida, que nos ajudaram a encontrar uma profissão, que nos ajudaram a ter um sonho. Agradeço ao “seo Lineu” quem me chamou à sua casa e me disse, entre outras coisas, que eu devia me dedicar ao ensino. Foi o que fiz a partir daquela conversa.
O terceiro grupo é formado por aqueles que, em momento de crise pessoal, nos ouviram e, muitas vezes com uma só palavra ou frase, levantaram a nossa cabeça. Assim fez o Lauro quem me fez lembrar de um trecho dos Salmos: “as lágrimas podem durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã”. Outro me disse que “depois do dilúvio sempre há um arco-íris”.
O quarto grupo é daqueles que, diante de uma necessidade financeira ou de conhecimento, se dispuseram a investir na nossa vida. Lembro-me do Adilson quando, tendo ido à faculdade com os últimos centavos que tinha, estava disposto e voltar a pé para casa, percorrendo uma distância de uns 10 km. Ele apareceu e se ofereceu a me dar uma carona, sem saber da minha dificuldade. Ele me deixou na porta de casa. Alguns dias depois contei a ele o que tinha acontecido e ele me afirmou que tinha decidido não ir à aula naquele dia, mas que foi porque, em certo momento, percebeu que tinha errado o caminho de volta para casa e estava indo à faculdade.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

MEME: A PALAVRA HUMILHADA


Virou febre. Ao invés de escrever, de expressar sentimentos, de pensar, refletir e se posicionar, busca-se memes para passar adiante algo com o qual a pessoa concorda. Ele é uma unidade de informação que tem a habilidade de se multiplicar, através das ideias e informações que se propagam de indivíduo para indivíduo. Na internet, ele tem a capacidade de viralizar.
O termo foi cunhado por Richard Dawkins, em 1976, em seu livro “O Gene Egoísta” e a palavra vem do grego mimeme que tem o sentido de imitação, e podem ser ideias, músicas, sons, desenhos, modas, valores ou qualquer coisa que possa ser apreendida com facilidade. É uma forma simplificada de informação, que não exige muito do emissor e quase nada do receptor.
A narrativa bíblica coloca a comunicação como ato primeiro do ser humano. Assim que Adão viu a Eva disse: é carne da minha carne, osso dos meus ossos. O interessante é que, antes disto, de acordo com a segunda narrativa da criação, o homem havia sido solicitado a dar nomes aos animais e, ao final do processo, Deus afirma não haver entre eles quem estivesse à sua altura. Isto se deu porque houve monólogo e não diálogo. Era um “eu” que falava e não havia um “tu” para responder à altura. Com a criação da companheira, Eva, se criou o diálogo, elemento fundante das relações e construção da sociedade.
Quando o diálogo se esvazia e cede a outras formas de interação, paga-se alto preço social. É o diálogo que constrói a convivência, que estabelece bases para a convivência na diversidade, que incrementa o espírito da tolerância. O esvaziamento do diálogo é, em última análise, o empobrecimento do ser humano. Ele foi feito para se comunicar, para pensar, refletir, trabalhar conceitos, expressar sentimentos, negociar, buscar consenso, ver no outro a “carne da sua carne e o osso dos seus ossos”. Ao empobrecer o diálogo, empobrece-se o próximo e, por consequência, a si próprio.
Quando o diálogo cede espaço aos memes, quando a conversa se resume em uma imagem ou símbolo (ainda que eles façam parte da comunicação), a palavra é humilhada. Não se fala, se desenha. Não se expressa sentimentos, manda-se emojis.
O diálogo pressupõe o falar e o ouvir na mesma intensidade e qualidade. Quando alguém se comunica por memes e emojis, há emissão da comunicação, há recepção da mensagem pelo outro, mas a coisa para aí ou, na melhor das hipóteses, outro meme ou emoji é devolvido. É uma conversa de tartamudos!
O meme é a humilhação da palavra (tomo o termo emprestado do Jacques Ellul). Ela é jogada fora como elemento essencial da comunicação. Seu poder de articular ideias, de expressar sentimentos, de trocar conhecimento, de ensinar, de cativar, de seduzir é trocado pela forma mais básica de comunicação: desenhos. Esta era a forma primitiva de se comunicar via hieróglifos, ideogramas, gravuras. É o retorno à era das cavernas.
Isto talvez explique o nível de violência que as redes sociais têm revelado. Pessoas que não conseguem ouvir o diferente, que só sabem usar meia dúzia de palavras ofensivas, que não sabem ouvir, têm dificuldades em articular três ou mais frases encadeadas pela lógica. Não cultuaram o hábito de ler e, por isto, não sabem escrever. Não lerão esta coluna até o fim, mas vão me espinafrar com afirmações ridículas.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

GOVERNADOS POR NÃO-ELEITOS


Tenho meus questionamentos com a forma de escolha dos presidentes nas democracias, especialmente quando a mídia e o marketing jogam papel preponderante. Os marqueteiros conseguem eleger postes e há inúmeros exemplos brasileiros e fora do país em que tal se deu. A eleição do Trump, até onde se sabe, tem grande chance de ter sido fruto de marketing político. Se antes era o tempo de televisão e as técnicas de filmagem e enquadramento que interferiam nas escolhas, com o advento das redes sociais, os memes entraram e jogaram pesado.
Neste sentido houve uma democratização da propaganda eleitoral. Se antes meia dúzia de Dudas Mendonças faziam o trabalho ao ponto de ser arriscado não utilizar seus serviços, hoje uma câmera razoável e um pequeno estúdio podem fazer estragos. As recentes eleições nos EUA e Brasil alçaram ao estrelato as fake news. O tempo de TV perdeu vigência para o tempo de celular (que o diga o Alckmin e seu tempo de TV que era maior que a soma de todos os outros e os pífios 4% de votos conseguidos).
Mas o que me intriga nos eleitos é que eles pouco ou nadam decidem sobre a vida da nação. Precisam escolher pessoas para ocupar cargos e fazer o que precisa ser feito. No modelo tomá-lá-dá-cá que se convencionou chamar de presidencialismo de coalizão, já vimos ministros saltando da cadeira de Economia para a da Saúde, gente que mal sabia do que se tratava, assumindo ministérios e fazendo suas inhacas. Haja visto o que aconteceu com o ministério do Trabalho. A Cristiane Brasil, nomeada e nunca empossada, entendia de conchavos e acertos espúrios.
No caso do recém-eleito presidente, vão surgindo figuras com autonomia e liberdade para altos voos e que não receberam nenhum voto. A Economia via ser comandada por alguém que nunca recebeu um voto, nem para síndico do prédio. Ele vai comandar a economia e outras áreas da nação e parece ter mais poder que o eleito. O mesmo se pode dizer do Sérgio Moro. Quando foi que ele se submeteu ao escrutínio popular para galgar ao posto que lhe foi oferecido? Muitos me dirão: mas ele foi escolhido por sua comprovada capacidade como juiz federal. O fato de ser um prolatador de sentenças o habilita, automaticamente, para assumir as mais variadas funções administrativas. O fato de ser um bom juiz garante que será um bom administrador?
Quando ouço o Roberto Castello Branco dizendo que vai privatizar parte da Petrobras, quem lhe deu este mandato e autonomia? Foi o Paulo Guedes. Quantos votos o Guedes teve? Quem elegeu o Levy como presidente do BNDES? Quantos votos ele teve para ter poder sobre o maior banco do Brasil? A ministra da Agricultura foi eleita como deputada e alçada ao ministério. Foi para isto que ela foi eleita?
Fica no ar uma pergunta: a democracia se faz através do voto, pela escolha popular? Ou a democracia se faz elegendo alguém que recebe uma carta em branco para colocar ao seu lado quem quiser, os quais, ser ter passado pelo escrutínio, recebem autonomia para fazer o que quiserem ou as forças que o pressionam desejarem.
Perguntado sobre algumas nomeações, o presidente disse que deu “carta branca” para que escolhesse quem ele achasse que seria competente. Pelo que vejo, o papel que resta ao presidente neste “presidencialismo de delegação” é o de “porta-voz”, coisa que tem feito quase que a diário via Instagram e outras redes sociais. E como falador do governo, já produziu o estrago dos Mais médicos, a ira do mundo árabe com a pretendida mudança da embaixada brasileira para Jerusalém. A continuar assim, nem porta-voz será, delegando a tarefa ao vice. Um desastre anunciado.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

SOLIDÃO NA MULTIDÃO

Talvez você viva isto ou conhece alguém que o experimente: morar em um condomínio e não conhecer o vizinho. No máximo há um cumprimento formal de “bom dia” ou “boa noite”.
Aristóteles, em sua obra Política fez a declaração que se tornou célebre e paradigmática: somo seres políticos. Ele fez tal afirmação a partir da constatação de que a cidade é uma comunidade, formada com vistas ao bem-comum, onde as ações dos habitantes visam um bem. Portanto, todos participam da vida da polis (cidade) e a atuação deles na comunidade é política. Logo, esta atuação se dá no contexto social e comunitário, nunca na atuação isolada e solitária. Viver em sociedade exige interação e integração com os demais.
Isto era verdade nas sociedades rurais, onde o sistema cooperativo era fundamental para que se alcançassem os objetivos do grupo: boas colheitas ou cuidado excelente do rebanho. Adicione-se a isto a diminuta rede de contatos que a vida rural permitia. Os encontros nas festas ou aos domingos nos eventos religiosos eram a única forma de expandir os contatos, o que era valorizado.
Com a gradativa transferência para o ambiente urbano, os contatos extrafamiliares foram se intensificando e, inversamente, a qualidade deles foi sendo comprometida. Cada vez se conhece mais gente com as quais se têm um relacionamento formal. Trabalha-se em empresas e corporações, em um ambiente competitivo, onde cada qual precisa mostrar suas habilidades e talentos e onde o colega pode ser uma ameaça ao desenvolvimento ou crescimento profissionais. São as “amizades profissionais”. Evidência disto é o surgimento dos networks, redes de relacionamentos profissionais onde, na medida do possível e conveniência, há algum tipo de ajuda comunitária.
Os meios de comunicação tiveram sua contribuição. A mesma notícia é vista por milhões, a mesma piada ouvida por toda a rede de relacionamentos, os mesmos programas são assistidos por expressiva maioria dos conhecidos. Esta massificação torna as conversas problemáticas porque é difícil trazer algo novo ou diferente. No mais das vezes, as conversas acrescentam algo para alguém que não teve a oportunidade de ver o que as mídias trouxeram. Com a recente customização da programação, onde cada qual pode ver o que lhe interessa na hora em que está disponível, sem a necessidade de estar à frente do televisor no horário predeterminado pela emissora, se produz a massificação pela audiência do que interessa.
Este processo de tornar-se um entre milhões gerou, no meu entender, alguns comportamentos típicos da geração solidão. O primeiro deles é a necessidade de postar selfies todos os dias, forma um tanto patológica de pedir que as pessoas olhem para a pessoa. Isto me faz lembrar da Elaine, quando criança, que pedia: “tio, olha prá mim!” A cada post uma ansiedade para saber quantos likes teve.
Outro comportamento é a onda das tatuagens. Acho que isto é uma forma de busca de identidade pelo diferencial que os desenhos ou símbolos afixados ao corpo pode dar. É uma forma de dizer: olha como sou diferente! Quanto mais tatuagem, mais garantia de chamar a atenção e ser notado.
As competências da vida em sociedade, do relacionamento, do olhar no olho, das leituras facial e corporal estão caindo em desuso. O que vale são os ícones, carinhas das mais variadas formas que até dicionário já exigem para saber o que querem dizer. Não mais se precisa ter palavras: basta uma coleção de carinhas (emojis)!
Salvo engano de alguém que se coloca pessimista, estamos regredindo para os tempos da caverna quando, por falta de vocabulário, se sentavam à volta da fogueira para contemplar as labaredas.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

CAPITAL RELACIONAL


Há certo modismo em falar sobre o futuro das profissões, apontando para as que mais não existirão em pouco tempo. Entre elas são citadas todas as que fazem trabalho repetitivo: cartórarios, advogados, bancários, operadores de máquinas, etc.
Nesta esteira há estudos que apontam as habilidades profissionais que serão valorizadas: controle emocional, capacidade relacional e habilidade comunicacional. Privilegiar-se-á a capacidade de trabalhar em equipe multidisciplinar, com características inclusivas, onde o diálogo entre as diferenças e a busca do consenso será o objetivo.
A tomar-se estes dois elementos como norteadores (desaparecimento de profissões e ênfase em habilidades antes não tanto valorizadas), preocupa-me o futuro de muita gente, especialmente das gerações dos caras-pintadas, globalizados e colaborativos (tomo por empréstimo terminologia do Volney Faustini). Para eles, o tipo de relacionamento preferencial é o das redes sociais, onde o contato face-a-face é trocado pelo virtual, o diálogo é substituído pela discussão, o consenso pelo acirramento das posições pessoais. É um tempo em que as pessoas se medem pelos likes que recebe, onde o chamar a atenção, gerar comentários e ter seguidores é mais importante que ser ético. Um mundo onde o vocabulário é exíguo, as frases são clichês, a profundidade dos conceitos tem a profundidade de uma capa asfáltica feita por construtora da lava-jato.
A informação é feita pelos titulares das notícias e não pela leitura do conteúdo. O jornalismo sério é trocado pelas “notícias do Face, Instagram e Twiter”, a verdade é o que pensa e acredita. Os jornalismos opinativo e investigativo, as matérias de fundo, com substância e conceituais são desvalorizadas e ridicularizadas. Os conceitos cabem nos memes com frases feitas e de conteúdo questionável. Só leem o que cabe nos 140 caracteres do Twiter. Mais que isto dá nó nos neurônios! Quando veem alguém lendo um livro de 300 páginas, assustados, perguntam se vai ler tudo! Para prender a atenção deles por mais de 10 minutos o orador tem que usar palavras de baixo calão.
Porque não leem, não desenvolvem o vocabulário, não conhecem conceitos, não sabem se expressar, a fala deles é um interminável repetir de “tipo assim”, “veja bem”, “na verdade”, “mano”, ”realmente”, e quejandas. Não é para menos que, no recente exame do Enem, a redação tenha sido o bicho-papão. Ela exige mais que 140 caracteres!
Palavras menos comuns como consonância, sincronia, distonia, entropia, beneplácito são grego para eles (cito exemplos de coisas que já experienciei). Porque o vocabulário é curto, não conseguem acompanhar o raciocínio mais elaborado. Na terceira frase mais elaborada já se perderam e não há GPS para achar o caminho da rota a ser seguida. Eles não têm cabine pressurizada: se levantar o voo, têm dor de cabeça e falta de ar. A função da comunicação oral passou a ser digital: é melhor escrever que falar! Ao escrever não demonstram conhecimento de pontuação e escrevem à maneira antiga: scripto continua.
Para estas gerações, quem concorda é amigo. Quem discorda, ainda que seja de uma vírgula, é inimigo. Cria-se a atmosfera de beligerância. Equipe é o grupo de trabalho de gente que concorda com o que pensa. Qualquer dissonância é disruptiva e a equipe vai para o brejo. Mais vale o que pensa e crê que o que se pode fazer em conjunto. A equipe passa a ser “eu mais eu”. Isto redunda no muito falar e no pouco produzir. Talvez isto explique a alta rotatividade destas gerações em seus trabalhos, com níveis de permanência média de dois anos.
Parece que quem quiser se dá bem no futuro terá que se desconectar das redes e se conectar nas bibliotecas; terá que consultar dicionários mais que Instagram; terá que aumentar o vocabulário e praticar o diálogo; terá que perceber e concluir que há gente que pensa diferente e que é tão ou mais capacitada; terá que trocar o virtual pelo real; terá que aumentar o seu capital relacional. Mais vale 10 amigos reais que milhares virtuais!
Marcos Inhauser

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

HÁ QUE SE TEMER O MESSIANISMO


Existiram vários movimentos messiânicos no Brasil, do norte ao sul do país. “O Reino Encantado”, (1836-1838, em Pernambuco), “Povo do Velho Pedro” (década de 1940, no interior da Bahia), “Guerra Santa do Contestado (1912-1916, Santa Catarina); Canudos (1893-1897, Bahia); “Beato do Caldeirão” (sucessor do Padre Cícero), para citar alguns. 
Estudiosos afirmam que os líderes messiânicos nascem em meio a uma desorganização social, especialmente demonstrada pela insatisfação com a situação reinante, onde se apresentam como salvadores pela instalação de um novo modelo social, político e econômico. A vinculação do novo ideário ao simbolismo religioso e sacro ajuda na formulação do agente messiânico, quase sempre com a promessa de melhores dias e a afirmativa de voltar a tempos mais “puros e perfeitos” vividos em algum tempo no passado. É a mítica dos velhos tempos.
Neste sentido, o messianismo de Jesus dever ser entendido em uma categoria separada, uma vez que sua aparição e pregação não se deveram a um retorno ao passado, mas à instauração de algo novo, uma nova aliança. Reza Aslam, no seu livro Zelotes, traz estas indicações. 
Outro elemento distintivo do messianismo jesuânico dos outros que surgiram é que, no mais das vezes, os messias utilizaram o uso de armas, da violência e da revolução como forma de alcançar os fins que propunham. Daí porque, a violência pregada ou disseminada pelos messias se afasta do modelo jesuânico, que pregou a paz, a pacificação e o amor ao próximo.
No período em que viajei pela América Latina pelo Conselho Latino Americano de Igrejas, me deparei com alguns autoproclamados ou denominados messias. Lembro-me de haver escrito sobre o messianismo de Augusto Pinochet, tomando por base dados do sociólogo chileno, Humberto Lagos. Pinochet cria que Deus o havia chamado para a missão de salvar o povo do comunismo. Também acompanhei de perto a ascensão do Ríos Mont na Guatemala, o presidente que se achava ungido de Deus e que tinha um programa em cadeia nacional de televisão, quando orava pela nação e, ao mesmo tempo, as tropas aniquilavam indígenas ao norte do país. Houve certos traços de messianidade no Lula presidente e no Temer, quem acreditou que sua ascensão se deveu à vontade de Deus para resgatar a nação do caos econômico. Messianismo pode se ver no venezuelano Maduro, em alguns comandantes sandinistas (em especial Ortega). Ainda que sem forte apelo religioso, o mesmo se pode dizer de Che Guevara.
Na perspectiva religiosa, os messias (exceção feita a Jesus) se caracterizam por soluções simplistas, teologia superficial e rasa, afirmações genéricas de cunho religioso, a identificação com o grupo pela participação em um rito e, no caso dos messianismos cristãos, pela interpretação fundamentalista e literalista das Escrituras, quase sempre expressas na frase: “obediência à Palavra de Deus”. Mostram com isto que a tomam como manual de conduta, onde a hermenêutica se ajusta à conveniência. No dizer de Vinhas de Queiroz, estudioso dos messianismos e especialmente do Condestado, a fundamentação religiosa, expressa uma “falsa consciência da realidade, alienada, autista e mórbida”.
Colocou-me na defensiva as duas primeiras aparições do presidente eleito. Na alocução feita aos seguidores, via rede social, afirmou que seu governo se pautará pela “caixa de ferramenta para consertar o homem e a mulher que é a Bíblia Sagrada” e “seguindo ensinamentos de Deus”. A segunda aparição, que me causou constrangimento e desconforto, foi a sessão pública de oração do Magno Malta, quem, sabe-se lá baseado em quê, afirmou que o presidente era o “ungido de Deus”!
Estão aí os elementos básicos para que o messianismo prospere. Só espero que ele não acredite no Messias do seu nome!
Marcos Inhauser

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

CRIME, CASTIGO E INJUSTIÇAS


Percebo que há interrogações na cabeça de muita gente, inclusive na minha. Elas dizem respeito ao judiciário e aos processos tramitados e julgados. A primeira e mais comum é: a justiça precisa ser tão lenta para ser justa, ou a lentidão pode se transformar em injustiça? Parece que há certo consenso de que a justiça célere corre o risco de julgar mal. Os processos sumários estão aí para provar a porcentagem de erros que foram cometidos quando não se deu devido tempo de “decantação”. Processos acelerados tem cheiro de injustiça ou de impunidade. Se há certa sabedoria em trâmites mais pausados, o mesmo não se pode dizer dos que demoram décadas para serem concluídos. Há inúmeros casos que exemplificam que a demora na proclamação da sentença gera injustiças, com gente que faleceu sem nunca ter se beneficiado da causa pleiteada e finalmente ganha. Há outros, criminosos notórios que se beneficiaram da prescrição da pena, muitas vezes pelo uso das chicanas protelatórias. Crimes cometidos que tiveram a borracha do apagão, por causa da demora na proclamação da sentença. Isto é injustiça.
Outra área que percebo inquietação e perguntas é referente à conceituação da gravidade do crime. Uma pessoa pega em flagrante roubando um frango em um supermercado é preso. Um deputado ou secretário de governo, seja municipal, estadual ou federal, que desviou milhões da merenda escolar, por não ser pego em flagrante, responde em liberdade. Não seria a gravidade do crime proporcional ao número de pessoas prejudicadas com os desvios ou crimes cometidos? Um ladrão de galinha ofende o proprietário dela. Um corrupto que desvia verbas da saúde, educação ou dos fundos de previdência deveria ter seu crime amplificado na proporção das pessoas prejudicadas pelos seus atos. Se um assassino da namorada é julgado por feminicídio, por que o que rouba da saúde, condenando inúmeras pessoas à morte por falta de recursos no sistema de saúde, não tem sua pena classificada como genocídio? O primeiro matou uma pessoa. A segunda matou dezenas, talvez centenas ou milhares.
Causa inquietação também a facilidade com que, notórias personalidades públicas, acusadas de desvio, corrupção, peculato, seja lá o que for, tem seus processos sumariamente encerrados por “falta de provas”. Neste quesito entram os Habeas Corpus concedidos a granel, mesmo para gente notoriamente corrupta, criminosa, lavadores de dinheiro, ao ponto de um ministro dizer, ironicamente, que há gabinete no STF que dá senha para atender aos pedidos.
É justa a progressão da pena para todos os tipos de crimes? Um pedófilo contumaz deve ter o mesmo benefício de alguém preso por não pagar a pensão do filho por estar desempregado? Uma pessoa esclarecida e ciente da gravidade do crime que comete deveria ter a mesma regalia de alguém que cumpre pena por crime menor?
Se roubou, desviou recursos públicos, fraudou a previdência de funcionários crédulos quanto à idoneidade dos gestores, não se deve tirar deles até o último centavo? Como pode um sujeito que tinha mais de dez milhões de dólares na Suiça, fazer delação premiada, ser solto e ficar gozando na casa de praia as benesses que o dinheiro desviado propicia? É pena ter prisão domiciliar em casa comprada e sustentada com dinheiro do crime? É castigo poder sair o dia todo e só ter que voltar para casa às 22:00 horas? É castigo ter que usar uma tornozeleira que pode ser camuflada?
Tenho para comigo que a justiça brasileira nem sempre é cega e imparcial. Acho mesmo que muitos juízes e ministros julgam atentando para a capa dos autos, onde aparece o nome do réu. Muitas vezes fico com a impressão de que, no Brasil, o crime compensa.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

INTOLERÂNCIA


Segue mais um texto da minha amiga Maria Ruckert: “Os israelitas tiveram a experiência do Êxodo, receberam os Dez Mandamentos, e estavam atravessando o deserto, rumo à Terra Prometida. O povo então se rebelou contra a liderança de Moisés, lembrando a comida que tinham no Egito, pois estavam saturados de comer somente o maná. Moisés se queixou diante de Deus, alegando que essa liderança era demasiadamente pesada.
Deus ordenou que Moisés separasse setenta homens dos anciãos do povo, posicionando-os ao redor da Tenda. Deus tirou do Espírito que estava sobre Moisés e o pôs sobre os setenta anciãos, os quais profetizaram.
No arraial permaneceram Eldade e Medade. Eles estavam entre os inscritos, mas não saíram à Tenda. No entanto, o Espírito pousou também sobre os dois e eles profetizaram. Um jovem correu e comunicou a Moisés que Eldade e Medade estavam profetizando no arraial. Josué, ajudante de Moisés e o seu futuro sucessor, disse: “Moisés, meu senhor, proíbe-os”. Moisés lhe respondeu: “Tens tu ciúmes por mim? Tomara todo o povo do Senhor fosse profeta, que o Senhor desse a todos o seu Espírito” (Nm 11).
A rebelião do povo é uma contestação à liderança de Moisés, mas também significa uma afronta a Deus, pois o Senhor deu os Mandamentos, apresentando-se como aquele que tirou os israelitas do Egito. Des queria ser reconhecido como o Libertador do povo. Com sua revolta e com saudade da comida do Egito, o povo não estava confiando nas promessas de Deus. Eles estavam se rebelando contra o intermediário Moisés e rompendo a aliança com o Senhor. Moisés ora a Deus e intercede pelo povo. É uma queixa audaz, pois ele não havia ambicionado esse cargo. Deus responde: codornizes para o povo e colaboradores para Moisés. Para liderar o povo, Moisés havia recebido o Espírito.
Dessa plenitude do Espírito, Deus retira uma parte proporcional à responsabilidade dos colaboradores de Moisés. Os setenta anciãos também passam a ter a responsabilidade de levar a carga do povo. Ao receberem o Espírito, os anciãos passam a profetizar. O Espírito também pousou sobre Eldade e Medade, que não estavam presentes na cerimônia. Esse detalhe mostra que o Espírito é livre e não pode ser controlado por regras cerimoniais. Josué sente ciúmes. No seu entender, Moisés precisa impor sua autoridade, ou seja, proibir a manifestação dos dois que não participaram na cerimônia. Ele entende que a atuação do Espírito deve permanecer restrita ao grupo que foi convocado por Moisés. O Espírito deve estar sob o controle da consagração de Moisés.
A declaração de Josué é uma clara manifestação de intolerância. Moisés responde com tolerância, manifestando o desejo de que todo o povo profetizasse. A única maneira de enfrentar a intolerância é com a tolerância. A intolerância não deve ser combatida com outra intolerância.
Outro episódio de intolerância foi protagonizado pelos discípulos de Jesus. Disse-lhe João: “Mestre, vimos alguém que não nos segue, expulsando demônios em teu nome, e o proibimos porque não nos seguia”. Jesus, porém, disse: “Não o proibais, pois não há ninguém que faça milagre em meu nome e logo depois possa falar mal de mim. Porque quem não é contra nós é por nós” (Mc 9:38-40). Atuar em nome de Jesus não é monopólio dos que estão geograficamente próximos a ele. Com sua proibição, os discípulos representam a autarquia eclesiástica que pretende deter o monopólio da salvação. Eles falam como representantes de uma igreja estabelecida, que se considera o coroamento da missão.
O olhar de Jesus vai mais longe: ele visa o Reino de Deus. Quando uma igreja se considera um fim em si, ela se torna intolerante em relação às demais entidades. Despontam então comportamentos de exclusão; os diferentes são excluídos. Anunciando e realizando a proximidade do Reinado de Deus, Jesus ensina a tolerância. A partir da tolerância de Jesus, nós podemos compreender o que significa: “Sede misericordiosos como o vosso Pai celeste é misericordioso”. O importante não é o monopólio e o controle da administração da religiosidade humana, mas entender que o sábado (o valor sagrado) está em função do ser humano. O que importa é a libertação da pessoa. Que o exorcista continue libertando pessoas em nome de Jesus.”
Maria Ruckert, editado por Marcos Inhauser

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

REMANESCENTE FIEL

Quem me lê nesta coluna que escrevo há mais de 17 anos, já leu esta minha afirmação, feita mais de uma vez: “o senso comum é a expressão da idiotice, porque é a somatória das afirmações feitas pelos que não pensam, mas repetem o que ouviram sem refletir no que ouviram ou repetem”. Também já devem ter lido que tenho minhas dificuldades com acreditar naquilo que a maioria acredita, pois, aprendi muito cedo na minha vida, graças à professora Margot Proença, que devo sempre perguntar sobre tudo o que ouço. Acredito no efeito manada, que faz com que alguns touros saiam correndo e a manada toda, sem saber porque, também corre. É o processo de indução comportamental em grandes aglomerações, onde, sem razões, todos se apavoram e passam a ter comportamentos até autodestrutivos.

Decorre disto a minha dificuldade em ver filmes premiados com o Oscar, ler best-sellers, duvidar de pesquisas que dão uma grande margem de diferença entre o primeiro e o segundo e, em segunda opção, duvidar do que está melhor colocado nas pesquisas. A lição da Margot está sempre na minha mente: questione tudo! E é isto que procuro fazer.

Levando para o campo da teologia e da eclesiologia, tenho minhas dificuldades com as estrelas midiáticas do mundo gospel, com os aplaudidos e idolatrados cantores, com pregadores incensados, com igrejas monumentais onde a maior virtude é ser grande. Conheço muitas delas em alguns países da América e Ásia e constatei in loco a minha suspeita. Minha definição para igreja é: “qualquer comunidade que tenha alguém que os demais não sabem o nome e nem quem é, deixou de ser igreja”. Não acredito que uma reunião de 1.000 ou mais seja igreja. Pode ser plateia. O essencial do ser igreja é a comunhão e isto implica em “comum+união” e não é igreja onde as pessoas entram e saem e não conhecem e nem são conhecidas. Para mim, a promessa de Jesus de Ele estaria onde estivessem dois ou três é altamente significativa.

O conceito de remanescente fiel, presente no AT e o Apocalipse tem sido descartado porque atenta para a onda do tamanho, do gigantismo, do efeito manada onde todos correm e aplaudem as estrelas. Em várias ocasiões este conceito está presente. Veja-se o cântico de Débora (Jz 5), a família de Noé (Gn 5 em diante), Elias e os profetas de Baal (IRs 18 ss), o profeta Micaías que, chamado por Acabe, disse oi contrário de todos os outros profetas (IICr 18, ss), Jeremias quem foi o único e predizer a desgraça e orientou no sentido de se entregar. Saliente-se que Deus sempre manteve para si um remanescente fiel, formado por aqueles que não dobraram seus joelhos diante de Baal (1 Reis 19.18). Esse remanescente incluía Davi, Joás, Isaías e Daniel, Sara, Débora e Ana.

Tome-se esta promessa feita através do profeta Miqueias: “E da que coxeava farei um resto (remanescente) ... (Mq 4:7. Deve-se também considerar a explicação para a escolha de Israel: “Se Iahweh se afeiçoou a vós e vos escolheu, não é por serdes o mais numeroso de todos os povos – pelo contrário: sois o menor dentre os povos! – e sim por amor a vós e para manter a promessa que ele jurou aos vossos pais.” (Dt 7,7-8)

O compromisso de Deus é com o pequeno, o órfão, a viúva, o estrangeiro, o menor, o marginalizado, explorado, escravizado, violentado, abusado, etc. Prefiro estar deste lado da história que formando as grandes massas que apoiam e aplaudem sem critério.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

A SABEDORIA DA TEMPERANÇA


Já se disse que a sabedoria está no meio termo. Acho a afirmação questionável porque as mudanças e o desenvolvimento, no mais das vezes, exigem radicalidade, que implica em apegar-se a algo com unhas e dentes, até que a coisa se concretize. Não fosse a radicalidade de Sócrates, Copérnico, Thomas Edson, Einstein, Martin Luther King, Mandela, Steve Jobs e muitos outros, não teríamos hoje os benefícios que a radicalidade deles trouxe à luz. É verdade que a ela pode, em muitos casos, ser também chamada de obstinação que é o foco em uma só coisa, deixando de lado a visão de coisas conexas ou laterais.
Uma característica dos radicais mencionados, e outros, é que a radicalidade/obstinação deles teve benefícios sociais por adesão. Suas ideias, conquistas e invenções foram aceitas de forma espontâneas pelos que assim quiseram. No caso específico do Mandela, a sua radicalidade contra o apartheid o levou à prisão por quase três décadas. Como fruto disto houve a abolição do sistema que separava negros e brancos e a eleição do próprio Mandela. No cargo de presidente, a sua radicalidade foi substituída por um espírito pacificador e conciliador, vividamente apresentados no filme “Invictus” que trata da sua história.
A radicalidade dos governos Bush (pai e filho) deram lugar a governos mais conciliadores como foram os dois mandatos de Clinton e de Obama. A radicalidade estapafúrdia e inconsequente do Trump tem mostrado o perigo de alguém que, imbuído de um cargo democrático, deixa de buscar o consenso e a conciliação e parte para a radicalidade. O mesmo pode ser dito do ditador norte coreano Kin Jong Un, do ditador venezuelano Maduro, do protoditador nicaraguense Daniel Ortega, do facínora Bashar Al Assad. Se olharmos para o passado, muitos exemplos podem ser dados de radicais investidos de poder que foram tragédia, a começar por Hitler, Mao Tse Tung, Vargas, Idi Amin Dada, Papa Doc, Médici, Geisel, etc.
Na Bíblia a temperança é um dom do Espírito Santo. Há várias recomendações para o seu cultivo. Na orientação de Paulo, deve-se examinar de tudo e reter o que é bom, quem pensa que está em pé deve tomar cuidado para que não caia. Por outro lado, parece que há uma certa radicalidade em Jesus quando ele diz que a nossa palavra deve ser sim, sim e não, não, o que passar disto é de procedência maligna. Talvez por isto é que Paulo pede a Timóteo que, na escolha dos líderes da igreja, atente para fatos relacionados ao seu passado, à sua forma de viver e se posicionar na sociedade, a forma como se relaciona com a família. Escolher um líder com autocontrole é tarefa que exige olhar para os fatos anteriores. Ao fazer esta incursão na biografia do indivíduo perceber-se-á se ele tem a temperança como atributo reconhecido.
O falastrão, o agressivo, o violento, o egoísta, o narcísico, não têm autodomínio. A temperança é zero e, por isto, não devem ser guinados a postos onde o espírito conciliador, pacificador, de busca do consenso devem ser a tônica.
Nestes dias meus netos, por vez primeira, quiseram fazer caranguejo para que eu experimentasse. Foi um baita trabalho. Mas eles erraram no tempero: muito temperado com um tal de cajun. “Incomível” para o meu gosto. Depois do segundo pedaço não aguentava mais. Eles mesmos reconheceram isto. O excesso do tempero foi radical. Estragou o resultado.
Neste momento de escolha de líderes para a nação, nos mais variados níveis, a busca de pessoas com a sabedoria da temperança, com espírito pacificador e consensualista deve ser a tônica dos que se pautam pelo evangelho.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

UM ATO DE CONSTRUÇÃO COLETIVA


Dos mais variados espectros teológicos (presbiterianos de vários matizes, batistas de várias denominações, pentecostais, anabatistas e episcopais), de diversas correntes políticas (esquerda, centro esquerda, centro, centro direita e alguns que são rotulados como de direita), incluindo democratas, republicanos, monarquista, semianárquico, se reuniram, muitos sem mesmo se conhecer, para juntos pensar a realidade brasileira e produzir algo que refletisse o evangelho e os valores do Reino Deus.
Depois de mais de três mil mensagens trocadas, muita reflexão, contribuições as mais diversas, foi-se afunilando a redação e se chegou à Carta Pastoral à Nação Brasileira (disponível no https://peticaopublica.com.br/pview.aspx?pi=cartapastoral2018). Houve uma preocupação com a biblicidade das afirmativas, que não fosse academicamente teológica, mas acessível ao povo, de caráter essencialmente pastoral.
Lançada com uma centena de assinaturas e aberta para que, quem quisesse, também a assinasse, para surpresa dos redatores, em pouco tempo o número dos subscritores, entre os quais me incluo, cresceu exponencialmente.
Creio que, por vez primeira no Brasil, se produziu algo a partir da contribuição e colaboração coletiva. A Carta é um trabalho de muitas mãos e nenhum dono, nenhuma face, mas pretende ser as muitas faces de todos as que a subscreveram.
Seria ingenuidade da parte dos que a escreveram pensar que não haveria reação. Uma delas veio de quem se pretende e se arvora como porta-voz das igrejas evangélicas. Com suas malafalas, por não ter como criticar o conteúdo, passou a criticar os que a subscreveram, afirmando se tratar de esquerdopatas, termo generalizado para todos os que dissentem ao que o histriônico pensa.
Houve quem afirmou que o documento se tratava de algo para trazer de volta um determinado partido ao poder. A resposta que lhe foi dada é que, se atuar em favor dos pobres, viúvas e estrangeiros, isto é valor do Reino, ensinado por Jesus. Se isto é ser de esquerda, ele era esquerdista. Outro, na arrogância de ter mais de 200.00 seguidores no Face (quem me garante que não são seguidores impulsionados, estratégia muito comum), se arvorava mais fiel representante dos evangélicos que a meia dúzia que assinou (2.488 subscrições no momento em que escrevo esta coluna).
O que mais me chama a atenção destes pretensos porta-vozes dos evangélicos, enciumados com o surgimento de algo que teve repercussão na mídia e que não passou pela “benção” destas estrelas midiáticas, é que não criticam o conteúdo (será que porque é criticar a Bíblia), se preocupam em descobrir o redator da Carta, como se fosse fruto de uma única mão. Acostumados a serem os donos da verdade e únicos a dizer o que os outros devem pensar, não creem na possibilidade de haver algo que seja uma construção coletiva. Incorrem no grave erro de abandonar o conteúdo porque escrito por quem não gostam. Se quem escreveu é de direita, centro ou esquerda e isto não é seu perfil ideológico, não vão perder tempo lendo porque deve ser ruim.
Acabo de receber uma pesquisa do Ibope (fonte por mim conferida) que afirma que rejeição da parte dos evangélicos ao líder saltou de 32% a 41%, que o segundo saltou 26% a 33% (entre 11/09 e 24/09). Seria isto um indicativo de que os religiosos, sejam católicos, evangélicos ou outras religiões, estão tomando consciência de que a eleição busca um presidente para o Brasil e não um pastor para uma nação, que se quer seja uma democracia e não uma teocracia comandado por um “iluminado”.
Marcos Inhauser

terça-feira, 18 de setembro de 2018

TEXTO MAGNO DO EVANGELHO

Filho de protestantes, fui criado na tradição calvinista, estudei teologia em seminário arminiano, fiz complementação em seminário calvinista. Tinha meus pruridos com algumas questões que me ensinavam sobre os reformadores, especialmente o conceito de guerra justa e a justificação da violência. Vários anos mais tarde, entrei em contato com o Anabatismo, ramo pertencente à Reforma Radical (e por, isto, também reformado).
Nele via uma nova abordagem para as questões que me intrigavam e enumero algumas delas. O Antigo Testamento apresenta a guerra como sendo, muitas vezes, promovida por Deus. Daí que algumas guerras eram chamadas de santas. Há uma condescendência com a violência e o menosprezo da mulher e da criança como seres humanos. Além desta aparente divinização da guerra, há o uso da violência da parte de Deus no castigo do seu povo. Estas abordagens me faziam pensar e, por mais que tentasse, não encontrava respostas.
Ao ler os Anabatistas e tomar conhecimento de sua história (ainda que não haja unanimidade entre eles), fui tomando conhecimento de algumas posições que me chamaram a atenção e mudaram minha forma de ver as coisas.
A primeira delas é a centralidade dos evangelhos e de Jesus Cristo. Há uma certa hierarquia nas Escrituras: as palavras proferidas por Jesus estão acima de todas as outras. Em seguida o que se conta sobre Jesus. Os demais trechos da Bíblia são palavra de Deus na medida em que se harmonizam com Jesus e o que Ele disse e ensinou. A fundamentação para isto está no fato de ser Jesus a “Palavra de Deus encarnada”, a “expressão exata do ser de Deus”, ao ponto de ser “Um com o Pai”. Esta hierarquia toma como Palavra de Deus, no caso do Antigo Testamento, aquilo que concorda com os evangelhos. O que não concorda pode ser texto de consolação, de instrução ou de informação de como foram ou eram feitas as coisas. Perdem assim o caráter normativo, assumindo o instrutivo.
Neste contexto, ganha relevância o Sermão do Monte, proferido por Jesus e que é tomado por muitos Anabatistas como texto magno para a vida cristã.
Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus (fora estão os orgulhosos, prepotentes e assemelhados)   
Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados (fora estão os que fazem chorar, que provocam lágrimas pela imposição da injustiça e da violência).   
Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra (fora estão os violentos, os agressores, o que promovem a violência, a guerra, que negam a virtude do diálogo)   
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça porque eles serão fartos (fora estão os que fazem injustiça, concedem habeas corpus a torto e a direito)   
Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia. (fora estão os que massacram o próximo ou tiram proveito dele em uma situação de dificuldade)   
Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus (fora os que tem agenda oculta, caixa dois, negam desconhecer o que praticaram, mentem, os cara-de-pau, os pinóquios políticos).   
Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus (fora os promotores da violência, do armamento, das guerras, da vingança, das fake News).   
Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus fora os que estão perseguindo em nome da justiça e os que se julgam perseguidos porque a eles se aplica a justiça).
Sei que vou levar pedrada por causa deste texto. Termino com a última: Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguiram e, mentindo, disserem todo mal contra vós por minha causa.   
Marcos Inhauser

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

O MEDO E A FÉ


Segue texto enviado por Maria Luiza Rücket, autora do livro "Capelania hospitalar e ética do cuidado", amiga, que me autorizou a fazer pequenas edições no exto para que o mesmo coubesse no espaço desta coluna.
“Um dos chefes da sinagoga, chamado Jairo, prostrou-se aos pés de Jesus, pois sua filha estava à beira da morte. Com insistência, suplicou que Jesus impusesse as mãos sobre a menina, para que ela fosse salva e continuasse viva. Jesus o acompanhou, mas enquanto caminhavam veio a notícia de que a menina havia morrido. Jesus então falou ao pai: “Não temas, crê somente” (Marcos 5,36).
Jesus contrapõe a fé ao temor: o medo deve ser vencido pela fé.
O medo é uma força atuante. O médico francês Frederic Leboyer, que se notabilizou com o livro Nascer sorrindo, constatou que o medo nos acompanha do nascimento à morte. Reflexões já foram elaboradas a respeito de medo, temor, angústia, ansiedade, preocupação. Essas emoções negativas causam malefícios à saúde e às relações interpessoais.
Até uma determinada intensidade, o medo pode nos ajudar a evitar certos perigos. Ele se torna em profilaxia para não nos expormos a riscos desnecessários. Mas, nós não temos o controle sobre essa dosagem do medo e ele se torna uma força muito poderosa e prejudicial em nossa vida.
Nos dias atuais despontou mais um tipo de temor: é o medo do anonimato. Para se diferenciarem das demais, as pessoas recorrem cada vez mais às tatuagens e às técnicas de modelar o corpo. Mesmo sabendo dos riscos, muitas pessoas recorrem ao implante de silicone industrial. Recorre-se a uma enormidade de recursos para se tornar diferenciado. O risco é grande, mas o medo do anonimato fala mais alto.
É desse temor nocivo e até patológico que Deus quer nos libertar. A exortação de não temer perpassa a Bíblia toda – desde Gênesis 15,1 até Apocalipse 1,17.
Em nossa existência, nos defrontamos com duas forças poderosas: o medo e a fé. O medo tem dominado muitas vidas, causando infelicidade e desgraça. Mas a fé é mais forte do que o medo. E somente a fé pode vencer o medo. A declaração de Jesus mostra isso.
Como devemos proceder para substituir o medo pela fé?
Para o salmista, fé é sinônimo de confiança. O salmista confiava na intervenção de Deus, capaz de socorrer em meio às angústias e perigos. Também Jesus interpelava as pessoas apontando para a confiança. Para acontecer a cura, a pessoa precisa se posicionar. Portanto, a confiança em Deus é uma força mais poderosa do que o temor – diante de doenças, do anonimato, da calúnia, da desonra, da morte.
Precisamos sempre, de novo, redimensionar a nossa fé. Muitas pessoas entendem a fé como sendo a adesão a um conjunto de doutrinas. E a fé torna-se sinônimo de “acreditar”. Esforçam-se para acreditar, mesmo percebendo que a realidade não cabe dentro dessa doutrina. Mas, com essa insistência, continuam com medo, muito medo. Inclusive com o medo de que a doutrina venha a ser ameaçada pelo ateísmo.
A confiança é diferente, pois ela resulta do reconhecimento de que nós não temos o controle dos acontecimentos. Portanto, só nos resta entregar a nossa existência ao poder que controla toda a realidade. Confiança é entrega. Ela precisa ser exercitada diante de cada circunstância que se apresenta.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

VIRANDO CINZAS


Todos ficamos estarrecidos com o incêndio do Museu Nacional e ainda mais indignados porque a tragédia havia sido anunciada por várias fontes. No que pesem os alertas dos responsáveis e de outras pessoas que se preocupavam com o Museu e tudo o que nele havia, encontraram ouvidos moucos. Tão moucos que nenhum ministro compareceu às cerimônias de comemoração dos duzentos anos do Museu. Deu no que deu: virou cinza!
Há algum tempo, os governantes brasileiros, nos níveis municipal, estadual e federal, seja no executivo, no legislativo ou no Judiciário, têm revelado a sua incúria e incapacidade de gerir a coisa pública. São especialistas em fabricar cinzas.
A Petrobras por pouco não virou cinza. Mas parte dela foi queimada pelos gestores corruptos, nomeados pelos partidos políticos para dar espaço à bandidagem e para encher as borras dos partidos. A Eletrobras foi levada à cinza pelos gestores indicados pelos políticos. Agora estão vendendo na bacia das almas as cinzas do que outrora fora a maior empresa de energia do Brasil. E a Eletronuclear não teve caminho diferente, ainda que as cinzas não estejam à venda.
O SUS virou cinza nas mãos dos últimos governos. O povo vai para o SUS, o político é badalado nos hospitais de primeira grandeza e manda a conta para que o erário pague. A Educação virou cinza nãos mãos de alguns professores sindicalistas, que mais sabem promover greve que dar boas e decentes aulas. A totalidade está no forno de cremação dos salários indignos e da falta de condições para uma boa educação.
O PIB previsto em prosa e verso para 2018 virou cinza. O Real está virando cinza na hora de fazer o câmbio. O Congresso Nacional, com tendências piromaníacas, ateia fogo no orçamento, aprovando medidas esdrúxulas, sem a devida provisão de recurso. O Executivo compra a impunidade do presidente a peso de ouro, dando milhões a parlamentares fisiológicos e contingenciando verbas de educação, investimentos, saúde, etc. O judiciário, o poder com os mais altos salários da República, se concede um aumento abusivo de quase 17%, mesmo sabendo da grave crise que o país atravessa. O Orçamento virou cinza!
O Temer ascendeu ao cargo todo chamuscado pelo processo. Todos o viam com graves queimaduras, mas ele insistia em dizer que estava tudo bem e que iria se recuperar e recuperar as finanças do Brasil, bem assim a taxa de emprego. O que se vê é um presidente qual frango em forno de padaria, girando para todo lado e se queimando por inteiro. Com as temperaturas mais elevadas pelas duas denúncias, virou cinza. Pela primeira vez temos um ex-presidente no exercício. Os seus asseclas estão virando cinza a cada delação premiada. Lá estão as cinzas do Padilha, Moreira Franco e outros. Com a aberração da cinza falante: o Marun, o rei das patacoadas.
A Reforma da previdência, mais uma vez, virou cinza. Assim também as reformas política e tributária.
Neste cenário tem a cinza que está na caixa em Curitiba e que insiste que está viva! Tem cinza prometendo armar o país, desfazer todas as privatizações, cortar a jornada de trabalho e manter o mesmo salário, etc. No forno das propostas eleitorais, há de tudo, mas, ao final, é cinza.
Somos o país da quarta-feira de Cinzas, dia de arrependimento pelas maluquices cometidas no período anterior. Não há arrependimento nas cinzas dos brasileiros. Mesmo condenado a dezena de anos, ainda afirmam que são inocentes e vítimas de perseguição política. A Festa dos Guardanapos foi montagem fotográfica da imprensa marrom!
Valha-me Deus!
Marcos Inhauser

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

ANABATISTAS E O SERMÃO DO MONTE

Na minha caminhada de teologia e igreja, percebi que muitos, como eu durante meus primeiros anos, têm pouca ou nenhuma informação sobre o movimento da Reforma Radical (Anabatistas) e suas contribuições para a teologia reformada.

Uma característica bastante forte na maioria dos grupos anabatistas (Menonitas, Irmandade e Quakers) é a forte ênfase na obediência aos princípios presentes no Sermão da Montanha e mais especialmente nas Bem-aventuranças. Fruto disto é o compromisso radical de vários grupos anabatistas com questões relacionadas à paz e ao ser pacificador. Há várias histórias sobre este compromisso radical.

Uma delas é a relatada no Livro dos Mártires (Mundo Cristão, 2011). Um anabatista estava sendo perseguido por um soldado que o levaria preso e à morte por ser anabatista. Ao cruzar um rio congelado, o gelo se trincou com os passos do anabatista e o soldado, que veio no seu encalço, se afundou no rio gelado. O anabatista voltou, o ajudou a sair do rio e em seguida o soldado o levou preso e à morte. Obediência radical.

Outra história se deu nos Estados Unidos no período da colonização. Durante os anos imediatamente anteriores à Guerra de Independência, alguns da Irmandade se mudaram para uma área na Pennsylvania, chamada Morrison Cove. Ali, com outros colonizadores brancos, começaram a trabalhar na agricultura. Em novembro de 1777, os indígenas atacaram quem estava em Cove. Os da Irmandade não fugiram, nem lutaram contra eles. Cerca de 30 personas da Irmandade foram mortas. À medida que atacavam, os da Irmandade diziam em alemão Gottes Wille sei getham. (“a vontade de Deus seja feita”). Os indígenas se impressionaram com a maneira como suportavam o sofrimento, sem revidar. Muitos anos mais tarde, os antigos indígenas perguntaram se os “Gotswilthans” ainda viviam em Cove. Era a maneira como se lembravam da Irmandade.

Nestes dias, a Igreja da Irmandade da Nigéria deu mais um exemplo concreto de obediência radical. Grande parte das meninas raptadas em uma escola (mais de duzentas) pelo Boko Haran (grupo terrorista que se afirma muçulmano) pertencia à Irmandade. Agora, “no processo de reconstrução de suas vidas após os ataques dos terroristas do Boko Haram, irmãos e irmãs da Igreja da Irmandade na Nigéria (Ekklesiyar Yan’uwa a Nigeria) decidiram reconstruir também suas relações com seus vizinhos muçulmanos. Esse processo não se deu somente através do reestabelecimento do diálogo e da convivência pacífica, tão comuns antes do terror e da divisão imposta pelos terroristas. Eles incluíram em seu projeto a reconstrução de uma mesquita queimada pelo Boko Haram, impactando profundamente os líderes e a comunidade muçulmana local. Decididos a seguir o exemplo de Jesus em sua radicalidade, eles literalmente deram a outra face, não pagaram o mal com o mal, expressando a regra de ouro em sua forma mais concreta: "Portanto, tudo que quereis que os homens vos façam, fazei-o também a eles." (Mateus 7:12)” (dados fornecidos pelo Rev. Musa Mambula, um dos líderes da Igreja da Irmandade na Nigéria).

É também a aplicação concreta dos ensinamentos bíblicos: "Vede que ninguém pague a outro mal por mal. Antes, procurai sempre praticar o bem entre vós e para com todos." (1Ts 5:15) e “procurai a paz da cidade, para a qual fiz que fôsseis levados cativos, e orai por ela ao Senhor: porque na sua paz vós tereis paz." (Jr 29:7).

Como cristão não entendo como há quem apoie quem promove o armamento, a guerra, a violência, etc. Quem é cristão promove a paz!

Marcos Inhauser

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

MEMÓRIAS DE LITURGIAS LIBERTÁRIAS


... E o verbo se fez Liturgia e habitou entre nós, peregrinos, cheio de cantos, gestos, cores, cheiros, saberes e sabores...
E vimos, em momentos efêmeros e cheios de eternidade, a glória de QUEM tem um nome indizível, impronunciável...
Nesse “pleroma extático”, arriscamos fazer preces, divinamente humanizadas, através de nosso mantra ": Pai Nosso, de infinito carinho Maternal...”.   Propusemo-nos a inventar celebrações que nos trouxessem à terra o Deus da beleza celestial.  Fizemos coro com o Rubão: “Amo, na liturgia, tudo aquilo que saiu das mãos dos artistas. Mas quando ouço as explicações dos teólogos e mestres, o encanto quebra e eu desejo que eles tivessem falado em latim, para que eu não tivesse entendido (...) Deixe que Beleza, sem palavras ou catecismos, evangelize o mundo. Deus é beleza.”
Há uma história da liturgia contextualizada, (en)cantada sob a inspiração dos versos e os reversos da vida, desde a paixão de “Aleijadinho” até o trenzinho tupiniquim de Villa Lobos! Em toda a sua plenitude! Vivenciando Paixão, Morte e Ressurreição de um povo “maltrapilho e maltratado “!
Houve um tempo em que se celebrou esta liturgia libertária! Houve um santuário devocional! Não nos moldes dos soturnos templos, erguidos para tentar enclausurar o Criador. Palpitava na alma de irmãos e irmãs a oração atribuída a Spinoza: “Para de ir a esses templos lúgubres, obscuros e frios que tu mesmo construíste e que acreditas ser a minha casa. Minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos rios, nos lagos, nas praias. Aí é onde Eu vivo e aí onde expresso meu amor por ti".
Alguém há de perguntar: quem eram, quem foram e quem são os peregrinos e peregrinas que para lá faziam suas santas romarias? Seremos todos nós que diremos: “São gente refugiada de comunidades regidas por Leis de Segurança Paroquial. Pastores, pastoras, seminaristas, leigos e leigas que procuravam alternativas devocionais diante daqueles manuais prescritos por técnicos da fé. São pretos, pobres e profissionais da vida que ali se identificavam com a presença da Grande Face Onipresente do Espírito!”
Ecos de Caetano Veloso:
“A tua presença envolve meu tronco, meus braços e minhas pernas
A tua presença é branca, verde, vermelha, azul e amarela
A tua presença é negra (...)
A tua presença transborda pelas portas e pelas janelas (...) “
A nossa Liturgia começava quando, como líderes paroquiais, esperávamos, ansiosamente, cada reunião deste Corpo Místico, macro-ecumênico, que se reunia em torno da mesa, da celebração e da liberdade. Nunca foi tão atual o credo wesleyano: “O mundo é nossa Paróquia“, ao qual poderíamos acrescentar: “O mundo é nossa Paróquia Litúrgica”!
Infere-se que essa expectativa “pré Reino de Deus”, verdadeiro e caipiríssimo, “aperitivo do Reino”, trazia-nos o cheiro primaveril de novos tempos. Expectativa que nos segredava a certeza de novos tempos.
Assimilamos no corpo e na alma, a festa de foliões latino-americanos, homenageando Atahualpa Yupanky, bem como os nossos da nossa estirpe “T”: Tião, Tom, Tonico e Tinoco. Aprendemos a gozar as delícias inspiradas num cancioneiro-de-vida cuja "Satisfação" era ter um Cristo com o rosto de povo, de amor radical, universal, incondicional!
Descartamos o cartesianismo eclesiástico e seus dogmas excludentes, para corajosa e graciosamente, incluir as razões de um “coração feito pele morena”.  E sob as arrebatadoras utopias apocalípticas, tivemos visões “do aqui e agora”. Revelações que nos livraram e ainda continuam livrando-nos, mesmo que temporariamente, de um cenário carregado e intoxicado pelas retas doutrinas de nossas paróquias, quase sempre neuróticas.
Libertamos liturgicamente, como bem “kerigmatizou e didatequetizou” o poeta, profeta e trovador ZÉ-das-palavras-LIMAdas, “ a pele, os pelos e os poros desta paixão". Em vez de continuarmos cantando as "Quatro Leis Espirituais", começamos a cantar a Espiritualidade de um Jesus nascido neste "chão-menino-chão-preto-chão-do-coração”.
Nesta virtual Catedral do Místico e Mesclado Corpo de Cristo redescobrimos novos sacramentos...
-          O sacramento da viola
-          O sacramento do pandeiro
-          O sacramento do chimarrão
-          O sacramento da saudosa maloca
E é sobre estas coisas sacrossantíssimas que na sequência, cantaremos, sempre sob a batuta do brincalhão Arcanjo Gabriel e seus Blue Caps...
Texto do meu amigo Carlos Alberto Rodrigues Alves, poeta, violeiro, teólogo e corajoso, que me deu a autorização para editar e aqui publicar.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

PARADOXO SOCIAL


O mundo ficou pendurado nas notícias que saíam sobre a situação dos 12 garotos e do técnico que ficaram presos em uma caverna nas Filipinas.
Há algumas considerações que quero fazer quanto a esta situação. Um grupo de amigos, praticantes do futebol, depois da partida, decidem celebrar o aniversário de um deles (celebração da vida), entrando na caverna, coisa que já haviam feito antes sem problemas. Era uma celebração. Entraram pelo túnel de acesso, cheio de umidade e foram surpreendidos por algo inesperado: chuvas que inundaram e os obrigaram a ficar presos no seio da terra.
O mundo orou, rezou e torceu pela salvação das crianças. Todos se empenharam no resgate, muitos voluntários, mergulhadores ou não, se envolveram no trabalho. O mundo esteve pendente das notícias e do resgate de todos. À medida que iam sendo retirados, como que por fórceps, o mundo exultava com a vida salva.
Juntamente com isto, no Brasil, recebíamos notícias que também convulsionavam a sociedade. Elas davam conta das balar perdidas e das crianças mortas por elas. Por serem crianças, mais comoção havia. Parece que há um apelo emocional mais forte quando se trata da morte das crianças. Ontem recebi a notícia da morte de uma sobrinha de 10 anos, baleada por bala perdida, e que me foi comunicado pelo tio, inconsolável.
Em meio a estes fatos, assisti, ainda que parcialmente, o debate público promovido pelo Supremo Tribunal Federal, sobre a possível legalização do aborto. Meus dois neurônios, sincronizados (talvez por vez primeira), me perguntavam: não é este o mesmo pessoal que torcia pelo resgate dos meninos nas Filipinas, que clamou pela cessação da violência das mortes de crianças? Como podem estar, agora, defendendo a morte de crianças no útero de uma mãe?
Os meninos na caverna tiveram uma parafernália para que fossem salvos. Até um submarino de pequeno porte foi construído, para que a o resgate fosse levado a contento. Muito dinheiro foi gasto para a infraestrutura que permitiu a salvação de todo o grupo. Semana de hospital para a recuperação de todos.
Imagine o escândalo que teria sido se alguém tivesse vindo a público sugerir que se jogasse veneno no local onde os meninos estavam, para evitar que não sofressem com a demora no resgate. Imagine que alvoroço teria sido se alguém sugerisse que se introduzisse um aspirador/triturador, para que os meninos morressem. Imagine quanta celeuma teria acontecido se alguém, sob pretexto de que os pais não têm condições econômicas ou afetivas para recebê-los de volta, sugerisse o “aborto” deles no útero da terra.
Se para os meninos que estavam no útero da terra a salvação era questão de honra nacional e mesmo internacional, por que a vida de infantes no útero da mãe pode ser disposta a bel prazer delas, sob o argumento de que devem ter a autonomia sobre seus corpos? Se o argumento da viabilidade econômica da mãe e dos pais pesa na defesa do aborto, por que não foi usado na questão dos meninos?
Meus dois neurônios deram um curto-circuito. A ética da morte de crianças é circunstancial? A vida de filipinos vale mais que a vida de infantes brasileiros? Mas eles tinham mais de dez anos de vida, podem argumentar. Mas qual a diferença na qualidade essencial da vida entre um feto e uma criança de dez ou onze anos?
Confesso que não consigo entender. Se alguém consegue explicar que o faça.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

TÔ COM SAUDADE DELE


Viajando, parei em um posto de gasolina para tomar um café. Era bem cedo e ali estávamos vários para tomar o café da manhã. A pessoa que me atendeu estava fazendo o meu com leite quando uma outra atendente, bem mais jovem, dela se acercou e perguntou se ela tinha visto ultimamente um senhor que costumava passar com regularidade.
A que estava me atendendo, pediu mais detalhes sobre quem ela estava falando. A mais jovem disse que era o “senhorzinho” que a chamava de “minha linda” e que, quando ia embora, sempre dizia; “ainda caso com você”. A mais velha disse que há algum tempo não o via. A outra perguntou: “será que ele está enfermo?”. Pode ser, mas também pode ser que tenha morrido. Ele era já bastante idoso.
Olhei para a mais nova e percebi que seus olhos marejaram. Ela se emocionou. “Não pode ser, ele era tão alegre”. A outra, mais velha respondeu que mesmo as pessoas mais alegres também morrem.
Senti que a mais jovem estava bastante emocionada com a possibilidade de que o “senhorzinho” tivesse morrido. “Eu sabia que ele dizia que ia casar comigo e que isto era brincadeira dele, mas aquilo me fazia muito bem. Saber que havia alguém que me dava atenção, me elogiava, e que fazia questão que eu o servisse.”
Ela deu tempo. Respirou fundo. E volitou a falar: “sinto falta dele, sinto falta dele dizendo minha linda e sair dizendo que um dia iria se casar comigo”. Dito isto, ela entrou na cozinha. Não duvido que tenha ido ao banheiro curtir suas lágrimas e sentimentos.
Eu fiquei ali parado pensando no que havia ouvido e visto. Imaginei que, talvez, houvesse quem o tivesse ouvido dizendo “minha linda” para a jovem, ou “ainda me caso com você” e tenha dito: “velho safado”.
Saí dali com lágrimas nos olhos. Cheguei ao meu destino com a coisa rodando na minha cabeça e refletindo no poder que a atenção tem de dar sentido à vida das pessoas, o como o elogio pode criar vínculos inimagináveis. Mais tarde, quando conversava com uma pessoa que tem problemas de relacionamento com sua equipe, contei a ele o que tinha presenciado. Senti que a coisa bateu forte nele. Acostumado a ser um sujeito extremamente racional e frio, vi seus olhos, tal qual os da jovem, marejarem.
Vivemos dias em que pouco tempo temos para prestar atenção nas pessoas, não nos arriscamos a elogiar quem nos serve, a dizer “minha linda”. Fomos criados para estar em relação com os outros, para amar o próximo como se fôssemos nós mesmos, para dar alegria ao outro. Acho que uma das missões mais sublimes da vida é plantar sorrisos na face das pessoas com as quais nos relacionamos.
Podemos fazer isto sorrindo, elogiando ou brincando. O humor é uma das formas mais sublimes que o ser humano tem para tornar a vida mais alegre, leve e prazerosa. Rir, sorrir, fazer sorrir e rir são o exercício do divino em nós. Na Idade Média se discutia e se digladiava sobre o tema do riso em Jesus. Havia os que defendiam que Ele, sim, riu, e outros diziam que, por ser o Filho de Deus, nunca teria sorrido.
Eu, de minha parte, acho que Deus dá gargalhadas com algumas coisas que fazemos ou dizemos e que ele está no meio dos que se reúnem e dão boas risadas. Acho que, quando o “senhorzinho” brincava com a jovem, Deus dava seus sorrisos.
Marcos Inhauser