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terça-feira, 25 de dezembro de 2018

NA RESSACA DO NATAL


Acaba mais uma celebração de Natal. Os mais puristas dirão que lá se vão mais de dois mil anos de celebrações. Outros, mais atentos e analíticos, questionarão, considerando que não há indícios de celebração do Natal nos primórdios da Igreja e que mesmo a data do nascimento nunca se conseguiu precisar e o que se celebra é uma convenção.
Há quem coloque o início das celebrações no século IV, a partir da figura de Nicola, nascido em Pátara – Ásia Menor, figura reverenciada por diferentes tradições cristãs. Com idas e vindas na história de Nicolau, que acabou virando santo e bispo de Myra, a tradição de São Nicolau, que envolvia o distribuir presentes na noite de natal, se expandiu pela Europa no século XII. Quinhentos anos depois, os holandeses levaram esta tradição aos Estados Unidos, e também se difundiu por toda a América Latina.
Inicialmente Papai Noel distribuía os presentes montado em um cavalo. Mais tarde o escritor Clement Moore  colocou o São Nicolau em um trenó puxado por renas. Mas foi a Coca-Cola quem, em 1931, fez uma campanha natalina, onde o personagem ganhou roupa vermelha, barba e enorme barriga.
Muito se escreveu criticando esta celebração do Natal onde o Papai Noel tem maior importância que o nascido, onde os presentes falam mais alto que a mensagem do nascimento de Jesus, a comilança toma espaço da fraternidade.
Há, no entanto, algumas coisas que devem ser consideradas depois que a festa acaba. Não há na cultura brasileira e, quiçá, na cultura ocidental, outro evento social que produza mais encontros familiares e de conhecidos, que promova mais tempo à mesa, mais confraternização, mais generosidade, mais perdão que o Natal. Que outro momento se tem tanta gente saindo de suas casas para visitar pais e parentes, para ter um tempo em família? Que outro evento provoca mais tempo à volta de uma mesa para uma refeição comunal? Talvez alguns citem o Thanksgiving estadunidense, mas ele tem um demérito: parte da tarde todos se sentam à frente da televisão para ver o Super Bowl. No Brasil e América Latina nem futebol tem. A televisão é de uma pobreza indescritível e o melhor é ficar conversando que ver o que passam.
Que outro evento produz mais giro no mercado, mais movimentação nas lojas, mais generosidade nos presentes, mais empregos, mais desejos de felicidade mesmo expressos a desconhecidos? Que outro evento produz mais gente engajada em solidariedade distribuindo presentes e comida aos mais necessitados, cânticos corais com apresentações nos mais variados espaços? Que outro evento inspirou tantos compositores a compor músicas, algumas que são obras primas da humanidade, como, por exemplo, o Aleluia de Haendel?
É verdade que houve quem bebeu e se excedeu no Natal. É verdade que tem gente de ressaca hoje. É verdade que tem gente que vai levar alguns meses para pagar os presentes que comprou e outros a comida que colocou sobre a mesa. Mesmo assim, nunca vi alguém reclamar da celebração do Natal. Há algo de mágico nele e sua comemoração. Tenho para comigo que o mágico é a mesa. O comer juntos é a prática mais antiga da humanidade. Já li o Yuval Harari, o Reza Aslam, o Domenico de Masi em suas incursões sobre a história da humanidade. Não vi neles uma ênfase no comer juntos como elemento formador da comunidade, ainda que isto seja tão antigo como o ser humano. Comer juntos é compartilhar, é dar do que se tem, é beneficiar o outro com o alimento. Isto também se faz no Natal e assim se retoma a prática mais antiga da humanidade!
Marcos Inhauser

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

JOÃO! DE DEUS?


Há notícias que impactam e que não entendo por que elas têm este poder, uma vez que se tratam de coisas corriqueira. Há outras que, pelo inusitado, se transformam em sensações jornalísticas (a águia que fez ninho na janela de um apartamento na área do Central Park). Há as que nos estarrecem pela violência dos fatos (o caso do Tsunami nas Filipinas), pela crueldade (o caso da morte e emasculação do jogador de futebol), pelo volume do dinheiro envolvido (as descobertas da Lava Jato), pela constância na prática do crime (o ex-governador Sérgio Cabral) ou pela imprevisibilidade (o massacre na Catedral de Campinas). Muitos mais exemplos poderiam ser dados para exemplificar o que afirmo.
Estamos, nestes dias, diante de notícias que a cada dia nos estarrecem pela antiguidade da prática delituosa, pela quantidade de acusações, pelo tempo em que demorou para que viessem à luz, pelo abuso da autoridade religiosa e pela natureza dos crimes. Falo dos fatos relacionados ao João, indevidamente alcunhado de João de Deus.
Para mim, o problema começa com a alcunha: de Deus. Isto o elevou a um patamar de divindade, de alguém acima dos normais, de um quase deus. Se se prestar atenção às acusações agora feitas, perceber-se-á que muitas das mulheres dizem que não o denunciaram para não prejudicar a obra que ele fazia, que ele era idolatrado pelos seguidores, que ninguém acreditaria no que contassem. Nem mesmo uma juíza e promotor acreditaram no relato de uma abusada, e arquivaram a denúncia por falta de provas (queriam fotos ou vídeos que provassem?). Se era tido neste plano superior, suas ameaças de que a doença voltaria se contassem do abuso, que os demônios as atacariam ganhava foros de verdade, sem diminuir a grau de chantagem.
Neste exercício de poder há um desequilíbrio entre o religioso e o fiel. Cito aqui o que já escrevi anteriormente nesta coluna (Poder Divino): “... estudos feitos sobre os casos de violência sexual sempre mostram uma relação desigual de poder, onde os abusadores, no exercício de suas autoridades, impõem suas vontades sobre as partes mais fracas. Também afirmava que, no campo do religioso, esta desigualdade do poder se estabelece quando o religioso se apresenta como revestido de “autoridade espiritual”, o que facilita a investida sobre a presa de sua sanha sexual. Uma “cantada” de um religioso é mais efetiva que a de um cidadão normal. Há nisto a mística de estar se relacionando com o sagrado, com alguém mais próximo de Deus, uma elevação espiritual pelo sacrifício da entrega do corpo, de orgasmo mais pleno porque feito com a santidade. Há o caso (sem o mesmo destaque na mídia) de pastor que Deus revelou que as mulheres dos membros da Diretoria da Igreja deveriam ser acessíveis e acabou sendo flagrado no escritório pastoral com uma delas.”
No caso do João Abusador havia o argumento de equilíbrio das energias, de transferência, via genital, de energia para a cura e outras abobrinhas. Insaciável, até uma filha acusa o pai.
Não é para menos que, até o momento em que escrevo esta coluna, pelo menos 506 mulheres já ofereceram denúncia contra o João Abusador. No entanto, pasma-me o instituto da prescrição da punibilidade por ter decorrido algum tempo. A dor das abusadas, violentadas e estupradas não prescreveu. As lágrimas são atuais, a dor é diária, o sofrimento ininterrupto. É justo não aceitar denúncias porque feitas depois de seis meses? Dos 506 casos conhecidos sobrará um caso. É isto mesmo que entendi?
Marcos Inhauser


quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

GERAÇÃO INÚTIL


Você certamente já ouviu falar da Geração Nem-Nem: nem trabalham, nem estudam. Escrevi em minhas últimas colunas sobre a geração que não tem vocabulário porque não leem e, em função disto, usam emojis e memes para tentar dizer o que pensam ou sentem. Curtos de vocabulário, sabem apertar teclas e tocar telas.
Eu já tinha ouvido algo parecido a isto quando trabalhei com treinamento em uma fábrica que contratava centenas de jovens para trabalho temporário, com duração de seis meses. Nos primeiros cinco trabalhavam razoavelmente bem, mas no sexto já encostavam o burro na sombra. Demitidos ao final do contrato, ficavam pendurados no seguro desemprego por mais uns seis meses. Ouvi mais de uma vez dos supervisores destes jovens de que se tratava de uma geração perdida. O assunto deles era só balada e bebedeira.
Mais tarde ouvi de uma professora universitária preocupada com a quantidade de alunos que entravam na sala de aula, assinaram a lista de chamada e saiam para ir beber no bar em frente à faculdade. Não queriam saber de estudar e a escola era o pretexto para sair de casa.
Com as recentes mudanças nos perfis das vagas de trabalho, que exigem mais conhecimento e habilidades comunicacionais, relacionais e trabalho em equipe, uma parcela da nova geração está ficando à margem dos processos seletivos. Tenho para comigo que dentre os 14 milhões de desempregados, há grande parte formada pelos desprovistos de mínimas habilidades relacionais e comunicacionais. Gente inútil desde o ponto de vista funcional.
Por algumas vezes fui solicitado por amigos para dar uma garibada em currículos de filhos ou amigos. No mais das vezes continham erros crassos de português, falta de sentido nas frases ou estava pavoneado: inglês básico, curso de Word e Excel. Se nem sabiam lidar com o idioma materno, como esperar que soubessem inglês?
Dia destes vi um presidente de multinacional sentado no seu escritório olhando CVs para seleção de uma funcionária para um determinado cargo. Olhei para o CV e vi que nas telas (haviam duas conectadas ao mesmo tempo) do computador estavam abertas, uma no Facebook, outra no Instagram. Antes que eu perguntasse, ele me disse: o currículo está bom, mas o que escreve no Face e Instagram é horrível. Alguém fez este CV para ela.
Certa feita, em uma viagem de Rio Verde a Campinas, uma moça sentou ao meu lado e puxou conversa. Nova, tinha ido visitar o noivo e estava para casar em poucos dias. Morava em uma cidade muito pequena, onde emprego era raridade. O pai era agricultor e ela falava muito mal, comendo os “s” e errando em todas as concordâncias. Ela me disse que ia casar e que iriam mudar-se para a cidade dela para ajudar o pai. Do nada ela me disse que ela queria estudar inglês e o que eu achava disto. Perguntei qual o emprego na cidade dela requeria inglês, ao que me respondeu: nenhum! Eu disse a ela que seria melhor estudar o português antes de se aventurar em outro idioma, porque este aprendizado exigia bom conhecimento da língua materna. No meu entender, ia gastar dinheiro para nada.
Fico a pensar o que será desta gente quando tiverem seus 35 anos de idade, a crise da meia idade bater à porta e sem perspectivas de futuro! Sem INSS, sem plano de saúde, sem salário para comprar o básico, dependentes dos pais, sem sonhos e, especialmente, sem realizações. Não terão história para contar! Inúteis sociais!
Dá para entender porque o consumo de drogas está aumentando!
Marcos Inhauser

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

PESSOAS INSÍPIDAS


Aconteceu de novo! Estava na casa de uns parentes e lembrando de coisas passadas, quando veio à tona a lembrança de um fato que envolveu um pastor que visitava a cidade. Ao lembrar dele, recordei-me do filho que estudou comigo e que nunca mais havia lembrado que ele tinha passado pela minha vida. Entrei em contato com outros colegas do mesmo tempo que também estudaram conosco e também não se lembravam, nem tinham notícia dele.
Foi uma pessoa insípida: passou, conviveu e não deixou nenhum sabor de sua passagem. São pessoas que passaram em “brancas nuvens e em plácido repouso” foram colocadas no esquecimento. Morrem na lembrança porque não viveram na convivência.
A passagem delas foi sem nenhuma contribuição, sem benefício para os circundantes, sem ensino passado, sem marcar em algo que tenham dito ou feito. Olhando para trás percebo que o assunto delas era muito reduzido, limitando-se a falar de futebol, contar piadas, falar de doença, reclamar da vida. São doutores em falar obviedades. Têm PhD em Mesmice. Não tem assunto porque nunca leram um livro, não leem jornal, não se atualizam, têm vocabulário limitado. Costumo dizer que estas pessoas não têm “cabine pressurizada”: é só levantar voo na conversa e começam a ter dor de cabeça pela falta de oxigênio (neurônios).
Uma das primeiras colunas que escrevi para o Correio Popular (Somos Água) eu dizia que uma vida significativa se mede pela quantidade de água (lágrimas) derramada na hora da morte e que o epitáfio mais cruel da história é a do rei bíblico que “morreu e não deixou saudades”. Há quem nem na vida dos filhos fez diferença, ao ponto de uma filha me pedir para não falar alto durante a cerimônia de sepultamento do pai porque, se ele estivesse só dormindo e acordasse, ela não ia levá-lo de volta para casa!
Tenho estudado o fenômeno e tenho pensado que as pessoas que passam e marcam a passagem são aquelas que foram significativas porque tiveram alguma destas ações. Marcam a passagem as que nos ensinaram algo que nos ajudaram em um momento concreto, supriram a falta de um conhecimento específico. Lembro-me com clareza onde e quem foi que, diante de uma dúvida quanto ao significado da palavra inglesa foreigner, me ensinou o significado.
O segundo grupo é formado por aqueles que nos deram um norte para a vida, que nos ajudaram a encontrar uma profissão, que nos ajudaram a ter um sonho. Agradeço ao “seo Lineu” quem me chamou à sua casa e me disse, entre outras coisas, que eu devia me dedicar ao ensino. Foi o que fiz a partir daquela conversa.
O terceiro grupo é formado por aqueles que, em momento de crise pessoal, nos ouviram e, muitas vezes com uma só palavra ou frase, levantaram a nossa cabeça. Assim fez o Lauro quem me fez lembrar de um trecho dos Salmos: “as lágrimas podem durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã”. Outro me disse que “depois do dilúvio sempre há um arco-íris”.
O quarto grupo é daqueles que, diante de uma necessidade financeira ou de conhecimento, se dispuseram a investir na nossa vida. Lembro-me do Adilson quando, tendo ido à faculdade com os últimos centavos que tinha, estava disposto e voltar a pé para casa, percorrendo uma distância de uns 10 km. Ele apareceu e se ofereceu a me dar uma carona, sem saber da minha dificuldade. Ele me deixou na porta de casa. Alguns dias depois contei a ele o que tinha acontecido e ele me afirmou que tinha decidido não ir à aula naquele dia, mas que foi porque, em certo momento, percebeu que tinha errado o caminho de volta para casa e estava indo à faculdade.
Marcos Inhauser