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quarta-feira, 29 de abril de 2020

O CONTEÚDO IDEOLÓGICO DO PODER

Já dizia o Maquiavel que: “percebendo os grandes (elites) que não podem resistir ao povo, começam a dar reputação a um dos seus elementos e o fazem príncipe, para poder, sob sua sombra, satisfazer seus apetites” (Maquiavel, Cap. IX, parágrafo II). Já disse Marx que o "Estado moderno não passa de um comitê instituído para gerenciar os interesses da Burguesia" (perdi o endereço da citação).

A democracia representativa via eleições que têm um amplo uso da mídia (caríssima) não é jogo para pequenos. Uma campanha para vereador, prefeito, deputado estadual, federal, senador ou presidência exige investimentos muitas vezes superior aos proventos que porventura venham a receber. Se ganha, precisa se locupletar para pagar o que gastou e ainda sair com algum. Se perde e tem o apoio do partido, pode receber algum do fundo partidário. Se não tem, está falido. É um investimento de alto risco!

Há que se considerar também que há um conjunto de regras, leis, decretos e verbas que facilitam a reeleição de quem já são deputados, prefeitos ou presidentes. No caso dos deputados e vereadores, há os assessores que, na verdade, funcionam como cabos eleitorais. No caso dos deputados, além dos assessores, as verbas parlamentares destinadas aos seus redutos eleitorais ajudam a alavancar os votos. Daí porque a renovação das câmaras e senado é mínima.

O coeficiente eleitoral é outro imbróglio, porque elege quem não teve votos, mas está um em partido que tem um Tiririca ou Enéas.

Se se entende que a democracia representativa, via voto popular, deve eleger os que têm a maioria de votos da população, é uma excrescência alguém ser eleito com 30% ou 35% dos votos válidos de uma nação. Ele vai representar a nação 100% com 30% de apoio! O eleito, financiado que foi seja pelo partido (uso de verbas públicas) ou via apoio de empresários ou elite econômica, o foi porque esta gente tem seus interesses que deverão ser defendidos. Ser financiados pela indústria das armas implica em legislar a favor da liberação das armas. A medida provisória 936, foi questionada e, em parte, foi revogada. O dono da Havan, apoiador número 1 do presidente, foi rápido no gatilho: em poucas horas da entrada em vigência ele fez uso dela e demitiu 11.000 funcionários. Parece que sabia de antemão o que iria ser editada. Estes funcionários estão agora em um limbo jurídico.

O Paulo Freire, tão vilipendiado pela atual administração, tem um parágrafo elucidador no seu “Educação como Prática da Liberdade” (pg. 17) “Do ponto de vista das elites, a questão se apresenta de modo claro: trata-se de acomodar as classes populares emergentes, domesticá-las em algum esquema de poder ao gosto das classes dominantes”. As idas e vindas no ministério da Educação mostram este acomodamento. Um ministro incompetente, que mal sabe escrever, que tem o dedo podre porque tudo o que toca vira piada, acomoda os sonhos dos emergentes via Enem e FIES, onde a reprovação é culpa do sonhador e o custo é bancado a posteriori por quem ousou sonhar e “alcançou seu sonho”.

Como um governo que tem 33% de apoio e 67% de rejeição, que tem metade da população querendo o seu impeachment ou renúncia, que troca o Superintendente da PF (Polícia Federal) e a transforma em PF (Polícia Familiar) pode se sustentar? Um piromaníaco que, tendo o incêndio do Corona Vírus não se contenta e ateia mais fogo?

Há segredos obscuros nas salas e cafezinhos de Brasília. Há financiamento inexplicáveis que o STF está tentando desvendar.

Marcos Inhauser

DOIS DISCURSOS SOBRE A IGNORÂNCIA

Semana passada, o Brasil e o mundo tiveram a possibilidade de ouvir dois discursos por ocasião da posse do novo ministro da Saúde. Foram dois discursos sobre a ignorância.

O discurso do presidente é o da ignorância de alguém que ignora a ciência, os dados estatísticos, a vivência de outras nações, as decisões acertadas e erradas, as lições que delas se podem tirar. É o discurso da ignorância de alguém que, tão somente baseado no seu instinto e premonição pelo achismo, faz afirmações sem base alguma em dados científicos e estatísticos. Nem mesmo as muitas conclusões de estudos sérios sobre a cloroquina, que não trazem resultados definitivos, é levada em conta. Ele as ignora.

O discurso do novo ministro da Saúde também foi o da ignorância. Ele disse que precisava conhecer melhor o SUS, que precisava de mais dados para tomar decisões, que as possíveis flexibilizações seriam feitas a partir de dados que ele não tinha. Ele afirma sua ignorância sobre detalhes da Covid-19.

Há uma diferença substancial entre os dois discursos: o primeiro é o da ignorância porque, deliberadamente, não quer conhecer ou considerar os dados. Não estuda a fundo o assunto e sai fazendo afirmações tresloucadas. Só empata com o ditador da Bielorrússia que diz que a vodca e sauna evitam o contágio. Bolsonaro tem se isolado e isto lhe garantiu o título de “o pior líder mundial a comandar uma reação contra a pandemia do novo coronavírus”. Seu posicionamento tem sido motivo de chacota internacional, a crer no que amigos que moram fora do Brasil me afirmam.

O discurso do Teich é o discurso da ignorância. Ele conhece muito e sabe que há muito mais por conhecer. É o discurso de quem, conhecendo a ciência médica com especialidade em um ramo complexo, a oncologia, sabe que o Corona está dando um baile na comunidade científica internacional. Ele, tal como seu antecessor, afirma que “basta a cada dia a sua surpresa”. Cada dia é um novo dia com novos conhecimentos e mistérios. Até agora não sabem ao certo se a falta de oxigênio é por problema nos pulmões ou na corrente sanguínea que é afetada pelo vírus.

Não é de hoje que pensadores, os mais variados, afirmam que a falta de conhecimento produz certezas absurdas. Quanto menos a pessoa sabe, mais ela acha que está certa. A maior evidência de uma pessoa burra é a somatória de certezas que ela tem. Quem tem conhecimento, que estuda, sabe que há muito mais por conhecer e que, mesmo o que sabe, está sujeito a revisões.

O pré-socrático Empédocles formulou uma teoria para a visão que se revelou maravilhosa para a sua época: vemos as coisas porque os olhos emitem fachos de luz que iluminam o objeto e assim os vemos. Foi preciso Aristóteles fazer uma pergunta certeira: se assim é, por que não enxergamos no escuro? Todo saber pode ser reformulado. Cabe relembrar outro filósofo grego: “desejar violentamente uma coisa é tornar-se cego para as demais” (frag 72).

A sabedoria está em saber o que se sabe, mas sempre estar aberto a novos saberes. A palavra chave da sabedoria é “talvez”, “está é uma possibilidade”, “hoje eu penso que as coisas são assim” e outras afirmações com mesmo sentido conceitual.

Dois discursos: um foi o da estultície; o outro tem sinais de sabedoria.

Marcos Inhauser

A QUARENTENA DE JESUS

Relatam os evangelhos (Mateus, Marcos e Lucas) que Jesus entrou em quarentena, logo no início de seu ministério. Os textos afirmam que ele foi levado ao deserto pelo Espírito e o diabo o tentou neste período. O que ele fez foi uma quarentena real porque foram quarenta dias isolado de tudo e todos.

Os relatos também afirmam que ele nada comeu neste período, findo o qual (ou no final dele) Jesus teve fome. Foi quando, espertamente, o diabo o tentou e a primeira das tentações foi transformar pedra em pães.

A primeira coisa que quero salientar deste episódio é que o isolamento social é algo que pode ser visto e encontrado em muitos personagens da história humana, seja ele um isolamento imposto ou autoimposto. No caso de Jesus ficamos com as duas possibilidades: ele foi imposto a Jesus pelo Espírito que o levou ao deserto ou foi autoimposto, em consonância com a terceira pessoa da trindade. Não há motivação externa para este isolamento, a não ser que, guiado pelo Espírito, o foi para ser tentado (no dizer de Mateus e Lucas). Não havia uma epidemia que o obrigasse a tal.

A segunda coisa é que houve privação de alimento durante a quarentena. Tal foi esta privação que o diabo, astuto, fez sua primeira tentação apoiada nesta situação famélica. Jesus percebeu que poderia comer se usasse o que podia fazer, mas que colocava sua vida e ministério em risco.

Estamos em quarentena imposta e há também os que assim estão por autoimposição, conscientes do momento que vivemos e dos riscos que corremos. Muitos são os que, como Jesus, veem minguar as possibilidades de ter e dar alimento aos seus, são tentados a abandonar o isolamento e dedicar-se às coisas que possam trazer o sustento. Há os que, acostumados com a rotina diária de sair e trabalhar, não se sentem confortáveis ficando “engaiolados”. Como passarinhos precisam sair para voar.

Todos, tal como Jesus, estamos tentados a transformar pedras em pães.

A segunda tentação foi a de mostrar o poder de ser imune à queda: “atira-te do pináculo do templo”. Usando do poder e ele poderia dar ordens aos anjos para que o protegessem. Muitos há que, neste tempo de infestação, acham que são intocáveis. Mudam até o salmo e dizem: “Porque ele me livra do laço do corona e desta peste. ... Não temo os terrores da pandemia, nem o vírus que voa de dia, nem peste que anda na escuridão, nem mortandade que assole ao meio-dia. Milhares vão morrer, dez mil à minha direita; mas eu não serei atingido”. (Sl 91).

Tal com o Jesus somos tentados a mostrar nossa fortaleza e o poder de não se contaminar

A terceira tentação foi a de dirigir sua adoração para outra coisa que não fosse Deus. O diabo lhe promete céus e terra. Como podia ele fazer isto se Deus é o criador e mantenedor de tudo e, por conseguinte, o dono de tudo? Estava oferecendo algo que não tinha poderes para oferecer. Nesta quarenta também há os que estão oferecendo o que não podem entregar. Baseados na ignorância que os caracteriza, afirmam e prometem o que não podem concretizar.

Tal como Jesus, somos tentados a adorar quem não tem poder nem para demitir um funcionário seu.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 8 de abril de 2020

O PRIMEIRO ISOLAMENTO SOCIAL

Ao que parece e se considerarmos o relato bíblico, podemos afirmar que o primeiro isolamento social se deu com Noé e sua família. Se se considera que a história bíblica inicia-se com o Abraão, estamos nos referindo a um período da pré-história bíblica.

A narrativa diz que “a terra estava corrompida diante de Deus, e cheia de violência ... eis que estava corrompida; porque toda a carne havia corrompido o seu caminho sobre a terra”. Há aqui um primeiro elemento a ser considerado: havia uma desordem social e moral que reinava. Não sabemos, com certeza, quais elementos influenciavam para esta corrupção da terra, mas o caos havia se instalado.

Creio que situação igual estamos vivendo: uma desordem social promovida pela ganância, onde uma elite detém mais de 50% da riqueza de toda a terra e o resto fica para os outros bilhões de moradores. Há uma desordem social nas relações de trabalho, onde a escravatura não foi abolida e muitos trabalham noite e dia por míseros trocados, para que os donos das empresas andem de jato e gastem fortunas em restaurantes, boutiques e cassinos., iates, etc.

Houve uma sentença: “O fim de toda carne é chegado”. Divinamente instruído, Noé começa a construir a arca, segundo as orientações técnicas que a divindade lhe havia passado. Não é exagero imaginar o quanto ele foi criticado, quantos quiseram demovê-lo da ideia, quanto acharam um absurdo. Ele estava seguro na sua empreitada. Acredito mesmo que deveria haver algum pretenso líder querendo mover as massas via WhatsApp para acabar com a “loucura de Noé”.

No tempo certo a arca foi finalizada e ele, sua esposa seus três filhos com suas respectivas esposas entraram na arca para uma quarentena. Aqui foi literal: quarenta dias de chuva, de infestação!

Tal como o tempo que vivemos, o vírus da inundação veio chegando e foi invadindo e tomando de sobressalto a todos. Era uma inundação democrática: nada escapou, nem primeiro ministro, nem príncipe, nem médico ou secretário da saúde. Os que estavam em isolamento social estavam a salvo.

É verdade que o estresse bateu nos confinados. Estavam doidos para dar uma volta. Noé, prudente e obediente às ordens emanadas da OMS, soltou uma pomba e ela logo regressou e ele concluiu que não era hora de decretar o fim do isolamento. Sete dias mais tarde, novamente soltou a pomba e ela voltou com um galho de oliveira. Sábio como era, Noé conclui que a curva da inundação estava entrando na decrescente. Mas ainda não era hora de sair do isolamento. Mais sete dias. Nova pomba foi solta e esta não mais voltou, pelo que concluiu que já se podia sair do isolamento em segurança.

A família inteira estava a salvo para uma novidade de vida em uma nova terra.
Perceba-se que havia um caos, houve um julgamento dolorido com muitas mortes, para então e só então, haver a novidade, a nova criação.

Acredito que estamos em um processo de juízo sobre a maldade imperante, sobre a estrutura econômica injusta, onde a vontade do Trump se sobrepõe sobre a necessidade de saúde de milhões, o que lhe dá o “direito” de sequestrar equipamentos. Acredito também que estamos em dores gestacionais de uma nova sociedade. Esperemos a pomba não mais voltar para saber que podemos reconstruir.

Marcos Inhauser




quarta-feira, 1 de abril de 2020

(RE)FLEXÕES


Flexão é o dobrar-se, curvar-se. Também se aplica à ginástica no sentido de exercícios específicos feitos. Reflexão é aqui usada em sentido diverso do dicionário, onde ela significa “Ação ou efeito de refletir, de se desviar da direção original; meditação, pensamento ou análise detalhada sobre um assunto, sobre si próprio ou sobre algum problema ou sentimento; atributo de quem se comporta com prudência.” Eu aqui o emprego no sentido de algo sobre o qual, mais uma vez me ponho a exercitar a capacidade (sic) interpretativa sobre algo que me parece complicado e não tenho respostas.
Assim, a (re)flexão que quero trazer está baseada em um dos Salmos bíblicos, o 42: “Por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei pela salvação que há na sua presença. Ó Deus meu, dentro de mim a minha alma está abatida; ... Um abismo chama outro abismo ao ruído das tuas catadupas; todas as tuas ondas e vagas têm passado sobre mim. Contudo, de dia o Senhor ordena a sua bondade, e de noite a sua canção está comigo, uma oração ao Deus da minha vida. A Deus, a minha rocha, digo: Por que te esqueceste de mim? por que ando em pranto por causa da opressão do inimigo? Como com ferida mortal nos meus ossos me afrontam os meus adversários, dizendo-me continuamente: Onde está o teu Deus? Por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei, a ele que é o meu socorro, e o meu Deus.
O que me intriga é o trecho que “um abismo chama outro abismo ao ruído das tuas catadupas; todas as tuas ondas e vagas têm passado sobre mim” onde se vê um indicativo para o juízo de Deus.
No contexto da crise que vivemos, tenho recebido muitos vídeos, mensagens, áudios e memes. O que tem me irritado é quantidade de apocalipsistas que têm se levantado para declarar com a autoridade de um asno que o corona é um vírus comunista, que saiu de um país comunista, que é o Satanás em forma de vírus, que é o castigo de Deus sobre as iniquidades da humanidade, que é sinal da segunda vinda de Jesus, que é uma das bestas apocalíticas, etc.
Outros, menos terroristas, afirmam que Deus está usando um microrganismo de DNA bastante simples para aplacar a arrogância dos governantes mundiais e da elite capitalista. É Deus fazendo seu juízo sobre a soberba humana.
Eu me pergunto: se o Corona é obra de Deus como castigo, como é que o salmista, em situação ao que parece mais ou menos idêntica à que vivemos hoje, me pede para me aquietar, para experimentar a bondade de Deus, para cantar de manhã e à noite? Se a bondade de Deus está comigo, por que Ele permite que os inimigos zombem de mim e me façam sofrer ainda mais? Se é castigo de Deus para os soberbos e gananciosos, porque eu, que não sou ganancioso, avarento ou explorador do próximo devo sofrer? Se o Corona é castigo de Deus, todos devem ser castigados, especialmente os mais velhos e com comorbidades?
Não tenho respostas e estou aberto para ouvir quem, com seriedade, queira ajudar a trazer luz para este texto.
Marcos Inhauser


quarta-feira, 25 de março de 2020

MAQUIAVELISMO VIRÓTICO


Não concordo com nada do que a seguir vou dizer. Trata-se de um exercício de realismo fantástico.
Está assentado por todas as fontes confiáveis que a Covid-19 ataca a todos indistintamente, sendo que, na população com mais de 60 anos e portadora de alguma comorbidade, ele é fatal com taxas superiores às outras idades.
Imagine que ministros da Economia de alguns países, sejam formados e orientados pelas ideias de Nicolau Maquiavel, aquele que, entre outras coisas disse que “os fins justificam os meios” e  o “mal se deve fazer de uma só vez e o bem deve vir a prestação” (citei as ideias e não as frases exatas). Imagine que estes ministros e o governo que eles participam têm sérios problemas com a Previdência, especialmente porque a idade da população está aumentando exponencialmente. Imagine que eles fazem cálculos, puxam daqui, esticam dali e não encontram onde arrumar oxigênio para manter esta população geriátrica viva ou mesmo como diminuir os custos sociais e médicos que tal parcela da população acarreta.
Estes ministros enviam aos Congresso dos seus países projetos de Reforma da Previdência e enfrentam forte resistência da população, da mídia, da parte afetada e, especialmente, dos funcionários públicos (do legislativo, executivo e judiciário) porque a pressão para que seus salários de marajá sejam reduzidos é muito forte. Os ministros já retardaram as aposentadorias, mexeram nos benefícios, precarizaram a saúde para ver se a geriatria desistia de ir a hospitais. A reforma sai capenga, mas sem mexer no grande problema: os velhos aumentam como juros de agiota e os marajás continuam carvalhos: “imexíveis”.
Aí vem o Corona!
Há clamor popular para que se tomem medidas, mas os mesmos que pedem providências têm dificuldades em aceitar o autoexílio. Os chefes-mor minimizam e dizem que é gripezinha. Alguns outros líderes de países fazem coro.
Conversas prá todo lado, simulações mil sobre a curva de infecção e a possibilidade de achatamento dela para que o sistema de saúde não se colapse, os primeiros casos de morte são idosos que estavam no Sistema Privado de Saúde, fala-se no pior, prepara-se a população para um genocídio etário, entenda-se geriátrico. Aventa-se a impossibilidade de ter isolamento nas periferias das grandes cidades, fala-se da Índia, Bangadlesh, Afeganistão, a falta de água e sabão em muitas residências, compara-se a Itália, com a China, Coreia, Alemanha, França, Reino Unido. Acentuam-se as cores na quantidade de velhos morrendo. É uma forma sub-reptícia de dizer: preparem-se, os velhos morrerão.
Neste turbilhão liberam-se a astronômicas quantidades de recursos para aumentar o número de leitos e UTIs que não se sabe se vão se tornar reais nas proporções prometidas. Especialistas criticam a decisão. Alguns altruístas destinam pequena parcela de suas polpudas reservas para que o sistema de saúde tenha mais uns segundos de sobrevida. O tempo corre e a curva das mortes se acentua. Montam-se esquemas alternativos. O povo é destinatário de um monte de Fake News e a internet colapsa pela quantidade de gente em casa usando streaming. Surgem profetas, pregadores, especialistas, residentes em algum canto infestado, todos trazendo sua verdade sobre a crise, reforçando a ideia que é esperar que vai passar. Tudo vai dar certo! Vejam a China!
Pouca conversa de vizinhança, nada de papo de boteco onde as coisas podem ter uma interpretação diferente da mídia dominante.
Os maquiavélicos, em seus gabinetes desinfetados e imunes à desgraça, esperam a Reforma da Previdência que a natureza está promovendo. No final da crise, muitos dos aposentados não mais terão que ser pagos porque morreram. Alivia-se a curva ascendente e agora descendente dos gastos previdenciários. O fim da geriatria vai se conquistando. Uma nova realidade Previdência se implantará, graças a Maquiavel e seus seguidores.
Quem sobrou vivo vai dar graças a Deus por ter escapado do vírus. E a massa ignara aplaudirá os esforços feitos pelas “otoridades”.
As cenas aqui descritas são pura ficção e não têm nenhuma semelhança com qualquer fato real. Quem assim interpretar está dá sinais de que é analfabeto.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 18 de março de 2020

MINHA EXPERIÊNCIA COM O CORONA


Viajei dos Estados Unidos para o Brasil no dia 01 de março, chegando ao Brasil no dia 02 pela manhã. Tinha estado na Califórnia (clima ameno) e Dayton – OH e Richmond – IN (climas bastante severos, com nevadas e temperaturas abaixo de zero).
Ao chegar fui visitar minha mãe no hospital, pois a mesma, com 90 anos de idade, havia sofrido uma queda e quebrado o fêmur. Na terça, dia 03 voltei a visitá-la na parte da manhã, mas, depois do almoço comecei a ter tosse, coriza, febre de 39 e muitas dores pelo corpo. Liguei para o SAMU pedindo orientação sobre como ser atendido e eles, depois várias pessoas que não quiseram dar instruções (isto eu ouvia pelo telefone, ao fundo), uma delas veio e me disse que deveria ir ao Pronto Socorro. Achei um tanto estranha a orientação, pois, se estava infectado para um local de concentração de pessoas.
Fiz segundo a orientação recebida e me dirigi, acompanhado de minha esposa, para o pronto socorro de um hospital de Campinas. Ela se dirigiu ao balcão, falou da suspeita e imediatamente me levaram para uma sala isolada. Até aí, tudo bem. A minha surpresa e estarrecimento começou quando médico plantonista, sem nenhuma proteção que o caso exige, entrou na sala, pediu que eu abrisse a minha boca, disse que estava com secreção de pus, mas que não era corona porque não havia caso “autóctone”. Argumentei que estava chegando dos Estados Unidos e que não se tratava de um caso autóctone brasileiro. Ele reafirmou que não havia “casos autóctones nos Estados Unidos” e que, definitivamente eu não estava com o corona vírus. Ele me deixou ali mais um tempo, minha esposa depois for ver o que que estava acontecendo e ele disse que eu não estava com dengue e que deveria tomar dipirona para a febre. Voltei para casa e, por conta própria, decidi entrar em isolamento.
Na sexta-feira o quadro se gravou e voltei a outro Pronto Socorro. Fui atendido com a presteza e cuidados que o quadro ameritava. O médico, todo paramentado com vestes apropriadas me examinou, fez uma série de perguntas e colheram material para o teste. Disse que iria me deixar em isolamento porque eu apresentava ciclos respiratórios curtos. Argumentei que tinha condições de ficar em isolamento em minha casa e que me comprometi a voltar caso o quadro se modificasse. Nisto estou desde o dia 6 de março.
Tal como orientado, nos primeiros dias, recebi chamadas telefônicas de controle, buscando informações sobre meu quadro. Comecei a perguntar sobre o resultado do teste e nada de me darem resposta conclusiva. Houve um dia em que eu disse que estava em isolamento e assim permaneceria por consciência da gravidade e que minha permanência não dependia do controle deles. Que eu estava fazendo a minha parte e que estava esperando que eles fizessem a parte deles: o resultado do teste. Nunca mais me ligaram!
Acionei alguns contatos e um deles, que tem acesso aos resultados do Fiocruz, me informou que meu resultado só sairá no dia 06 de abril! Fiquei indignado. Voltei ao hospital, mesmo porque a tosse persiste em ficar, e novo teste foi feito, cujo resultado demora quatro dia úteis! Não sabia que o corona trabalha só nos dias de semana.
Aqui estou de molho há 14 dias, sem perspectiva de alta e sem saber se o que tenho é o corona. Descobri que a mídia do governo é muito melhor que a prática, que, mesmo com um plano de saúde, estou nesta pendência e espera. O que será dos que precisam e precisarão nos momentos de pico da pandemia? Não quero nem pensar!
Marcos Inhauser

quarta-feira, 11 de março de 2020

A DURA BENÇÃO


Foi em julho de 1991 quando assisti ao primeiro curso com vistas ao meu mestrado. Tratava do processo de envelhecimento e o fazia em duas dimensões: o crescente envelhecimento da nação estadunidense (de resto, verdade para todas as demais) e o processo de envelhecimento individual, com os cuidados, custos e atenção que se deve dar a ele. Lembro-me, com bastante clareza, de muita coisa que foi passada, seja pele dificuldade inicial com a língua, seja porque apresentou alguns dados que nunca havia pensado.
Um deles, que me marcou muito, foi o processo visto como um retorno à infância. Nascemos precisando que nos carreguem, que nos deem comida na boca, dependentes, carentes afetivamente, vamos ganhando corpo, forças e, a cada dia, vamos nos libertando da dependência ao ponto de, em certo momento, podermos andar sozinhos. E assim caminhamos até o dia em que a idade nos tira parte das forças das pernas, nos torna mais dependentes, a cada dia temos uma nova necessidade de ajuda, precisamos que alguém volte a colocar a comida na nossa boca e voltamos a usar fraldas.
Cuidar de um bebê é cuidar da esperança: amanhã ele vai estar maior, mais seguro, mais forte e logo, logo, vai andar sozinho. Cuidar do ancião é o cuidado sem esperança: a cada dia uma coisa nova a definhar e tirar energias. É o cuidado da graça que cuida sem esperar retorno.
Na época em que estudei isto, fiquei impactado, mas uma coisa é saber a outra é viver. Nos últimos sete anos tive minha mãe morando comigo. Ela veio com 83 anos, estava bem, andava, fazia tudo, comia de tudo. À medida que foi envelhecendo com a gente, percebemos que passou a dormir mais tempo, a ter menos energia para certas coisas, resmungava quando tinha que tomar banho, ficou mais agressiva nas respostas, confundia datas, não se recordava com precisão certas coisas fundamentais da sua vida. Fomos acompanhando este processo dia-após-dia e nos certificando que a velhice é um processo de infantilização.
No curso que mencionei, por se tratar de um Seminário, deu-se muita atenção ao conceito da benção que se tem ao cuidar dos pais. Sempre acreditei nisto e vivi isto nos dias em que tivemos minha mãe conosco. Foram momentos alegres e difíceis, houve momentos prazerosos e outros em que deu vontade de mandar para uma clínica. Sempre pensei que ela seria tratada por estranhos. Aqui, por mais difícil que fosse, era um filho e uma nora cuidando dela.
Sabíamos que ela orava todos os dias por nós e todos os dias, antes de ir deitar ela vinha orar comigo. Era sempre a mesma oração que ela havia aprendido na infância e que, em certa parte, ela dava uma ênfase peculiar: “... e pela noite gostoooooosa que Tu vais nos dar”. Quando precisávamos sair à noite para uma visita ou compras ela ficava sentada na sala esperando a nossa volta, não importando o horário que voltávamos. Havia nela um cuidado e a ideia mágica de ficar nos esperando nos guardaria. Mas não era mágica: ela ficava orando pela nossa volta. Quando chegávamos, invariavelmente, ela nos recebia com um “bem vindos” espontâneo e acolhedor. Vou sentir falta disto e da oração repetida ao dormir.
Seu sonho era chegar aos 90 anos, idade que ninguém da sua extensa família havia chegado. Ela chegou, celebrou seus 90 anos em grande estilo reunindo os parentes e se recolheu para os paramos celestiais. Deixou e exemplo de uma mulher forte, dedicada, fiel ao Senhor e mãe admirada pelos filhos, noras e netos. Foi trabalhoso, mas valeu pela benção de tê-lo conosco até os últimos momentos.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 4 de março de 2020

CADÊ OS PROFETAS?


Não é de hoje que me preocupo com a dimensão profética da igreja. Não me refiro às profetadas, tão comum em centros de adivinhações e chutes prognósticos, nem aos “porta-vozes de Deus” que manipulam a vida de incautos, mas à dimensão veterotestamentária: pessoas vocacionadas para diagnosticar o presente, denunciar os pecados individuais, sejam eles cometidos por pessoas simples como pelos reis, e o pecado nacional (tão esquecido pelos púlpitos e dos animadores de auditório religioso). Falo do pro+phemi, do pro+phetai, dos Isaías, Jeremias, Amós, Habacuques modernos.
Lembro-me de ter conversado com o presidente de uma igreja protestante de Cuba em 1989, que me falava das maravilhas do ser igreja naquela nação, da liberdade que tinham em pregar e evangelizar dentro das quatro paredes, da dimensão querigmática, diacônica, didática que estavam exercendo. Quando lhe perguntei sobre a dimensão profética, senti que ele se encolheu mais que maracujá maduro. E respondeu que tudo tem seu tempo.
O mesmo aconteceu com um renomado pastor guatemalteco, diretor de seminário e aclamado como teólogo, que em uma reunião de seminários em Campinas, dizia ser a Guatemala o país latino americano mais evangélico e evangelizado em todo o continente. Na hora das perguntas eu lhe perguntei como explicava o fato de ser (falo de 1990) o país mais violento politicamente da América. Ele me disse que não estava ali para falar de política. Mas este homem, quando pastor de uma igreja que fica atrás do Palácio Nacional, permitiu que tropas do Exército se colocassem na torre da Igreja para vigiar e atirar nos manifestantes. E ele sabia que eu sabia disto, porque estive na sua igreja e constatei isto.
Olho para a igreja brasileira e fico a procurar profetas no sentido bíblico e não os encontro. Conheci o Federico Pagura, argentino, metodista, um p(r)o(f)eta, mistura de profeta e poeta. Conheci o Dom Pedro Casaldáliga, outro p(r)o(f)eta. Li sobre o Helder Câmara e o respeitei e o respeito. E entre os evangélicos? Quem foi ou é profeta? Quem está levantando de forma profética e poética sua voz para denunciar os escândalos, os desmandos, a locupletação da coisa pública, as hienas do erário, o dono do Maranhão, os boquirrotos?
Que igreja é esta, muito mais conhecida pelos “louvores”, solicitação de ofertas e dízimos, pelos escândalos de seus “líderes”, pela falta de ética em seus vereadores, deputados e senadores? Que igreja é esta que seus líderes gostam mais de holofotes, de palcos, multidões,  carrões, televisão, rádio que ter cara e coragem para denunciar os políticos? Quem é profeta nesta igreja brasileira? Quem está dando sua cara? Onde estão os Jeremias, Amós, Habacuques, Isaías, Miquéias?
Não temos profetas porque a igreja evangélica brasileira não prega sobre o pobre e o empobrecido, sofre as viúvas e órfãos, sobre a injustiça no campo e na cidade. A igreja brasileira produziu gramáticos como bem cita Eber Ferreira da Silva em sua tese (Eduardo Carlos Pereira, Othoniel Motta, Erasmo Braga, Francisco Augusto Pereira Junior, entre outros). Mas profetas? ... Nunca!
Esta é uma igreja manca porque sua teologia está centrada em uma só perna. Enferma, deficiente, anormal, porque prega um evangelho pela metade, só prega o que interessa ao grande público e não confronta os empoderados. Falta-lhe coragem para o ministério que não dá holofotes, que mais leva às cavernas que aos palcos. Uma igreja que tem mais cantores e milagreiros que pastores e profetas. Uma igreja que tem mais animadores de auditório que doutrinadores, que tem mais excitação que adoração, mais embusteiros que mensageiros.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

A MOTIVAÇÃO PROFÉTICA

Figura tão antiga quanto as religiões, o profeta teve status máximo na religião judaica. Durante séculos eles foram vistos, ouvidos, criticados e (per)seguidos. Há indícios e referências bíblicas para a existência de “escola de profetas”. Ao que tudo indica, a organizada por Samuel, (I Sm 10.5; 19.20) é a primeira. Elias e Eliseu foram responsáveis pela escola dos profetas, que funcionou como resistência à apostasia imperante no reino do norte (II Rs 2.3; 4.38; 6.1). Havia destas escolas em Ramá, Gibeá (I Sm. 19.20; 10.5,10) Gilgal, Betel e Jericó (II Rs. 4.38; 2.3,5,7,15; 4.1; 9.1). Uns cem estudantes faziam parte da escola dos profetas de Eliseu. Quando Elias e Eliseu foram ao Jordão, cinquenta da escola dos profetas estavam com eles (II Rs. 2.7,16,17).

Ser profeta não é uma questão de escolha pessoal, ainda que muitos assim decidam, indevidamente, devo dizer. Se olharmos para as histórias bíblicas dos profetas, constataremos que todos eles receberam um chamado e que foram relutantes em aceitar o mandato e a missão. Haja visto o exemplo de Jeremias que se sentiu chamada quando ainda era um “nah’ar” (imberbe, adolescente).

Percebe-se também que o profeta era alguém que tinha uma mensagem dura, denunciando os pecados do povo e especialmente dos governantes. Como disse Max Weber, em Israel havia uma classe social formada pelos reis e sacerdotes que explorava a segunda classe que era o povo. A terceira era a dos profetas que denunciava a exploração, se colocava ao lado do pobre, explorado, estrangeiro, órfão, e os defendia da tirania. Eles eram a oposição ao governo corrupto dos reis e sacerdotes!

Não é de estranhar que foram execrados. No dizer do escritor aos Hebreus, os profetas praticaram a justiça, da fraqueza tiraram forças, foram torturados, experimentaram escárnios, açoites, cadeias, prisões, foram apedrejados, serrados ao meio, morreram ao fio da espada, necessitados, aflitos e maltratados. Eram homens que o mundo não era digno!

Eles não alcançaram a promessa que anunciavam, mas nem por isto esmoreceram. Havia neles a consciência da vocação. Jeremias quis desistir e veja no que deu: “Seduziste-me, ó Senhor, e deixei-me seduzir; mais forte foste do que eu, e prevaleceste; sirvo de escárnio o dia todo; cada um deles zomba de mim. Pois sempre que falo, grito, clamo: Violência e destruição; porque se tornou a palavra do Senhor um opróbrio para mim, e um ludíbrio o dia todo. Se eu disser: Não farei menção dele, e não falarei mais no seu nome, então há no meu coração um como fogo ardente, encerrado nos meus ossos, e estou fatigado de contê-lo, e não posso mais. ... Mas o Senhor está comigo, tropeçarão os meus perseguidores, e não prevalecerão; ficarão muito confundidos, porque não alcançarão êxito, sim, terão uma confusão perpétua que nunca será esquecida. (Jr 20:7 ss).

Ser profeta é questão de vocação e não de opção. Ser profeta é ser chamado para ser questionado, odiado e viver em solidão porque os “amigos” fugirão na hora agá. Ser profeta é não ser o que gostaria de ser, mas é ser o que sente que deve fazer e o faz com um sentido de missão e obediência ao chamado. Ser profeta é ter experimentado o que Agostinho definiu como o chamado da “graça irresistível” e Calvino disse que “é “vocação eficaz, tão eficaz que não aceita o não!
Marcos Inhauser

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

DIVINO TRAVESSEIRO


Com certeza você já foi se deitar algum e, no meio da noite, acorda com uma ideia nova, algo que poderia fazer, uma invenção. Ou foi para a cama com um grande problema, revirou na cama, acabou dormindo e, quando acordou, o problema já não era tão grande e grave quanto parecia no dia anterior. Ou você foi se deitar com uma mágoa muito grande de alguém e acordou percebendo que o tamanho dela parece que havia diminuído. 

Também há os que foram se deitar com um problema sobre o qual passaram horas tentando resolver e não encontravam solução. Ao acordar, a solução estava na ponta da língua.

Há também vezes que você foi se deitar e não conseguiu dormir porque o problema ou mágoa era tão grande que você não conseguia conciliar o sono. Levantou mais enrolado ou mais bravo que antes.

A experiência não é nova. Já os antigos recomendavam consultar o travesseiro. No livro bíblico dos Salmos se ensina que se deve “falar com o vosso coração sobre o travesseiro (em outras traduções diz sobre a cama) e calar” (Sl 4:4).

Os estudiosos, a partir das pesquisas que fizeram, mostram que o cérebro, quando estressado, é “envenenado” pelo cortisol, o hormônio do estresse. Quando estamos cansados ou há muito tempo nos batendo com o mesmo problema, parece que a mente bloqueia e se perde a capacidade de ver além do que já foi visto. Nem sempre trabalhar mais significa render mais. Há uma capacidade de trabalho que é natural e saudável. Não respeitar isto é risco sério à saúde.

E por que o descansar, o colocar a cabeça no travesseiro ajuda? Porque “descansa” o cérebro, baixa as guardas dos filtros lógicos e de preconceitos que atuam no nível consciente e bloqueiam avenidas cerebrais que conduzem a novos caminhos e soluções. Quando se dorme, estes filtros e bloqueios são diminuídos ou não utilizados e o cérebro tem liberdade para andar por caminhos novos, com novas conexões, ideias e soluções.

Outro importante fator para o travesseiro é a máxima que não sei se ouvi ou a estabeleci para mim mesmo: “entre a provocação e a reação, deve haver um travesseiro”. A resposta impulsiva, o ato impensado é fábrica de feridas, de inimizades, de tolices etc. Quando somos provocados (uso a palavra provocação não só no sentido negativo, mas também no positivo, quando alguém nos pergunta algo, nos pede um conselho ou orientação que exigem certa reflexão), a sabedoria pede travesseiro: tempo para pensar com calma. O tolo é impulsivo, fala pelos cotovelos, tem lição para tudo e todos, sempre tem a última palavra, é especialista em recitar e receitar o óbvio. O tolo é imaturo e o imaturo é tolo, exatamente porque seus atos e palavras não recebem o tempo de travesseiro.

Isto leva a outra máxima: “não decida hoje o que pode ser decidido amanhã”. A razão para isto é simples: podem ocorrer coisas, contratempos, imprevistos entre o tempo que você decidiu e o tempo que tinha para decidir e você terá que refazer ou voltar a atrás. Há correções e revisões que vão mostrar que o atropelo, o afogadilho, a pressa fizeram você se precipitar. Será evidência inequívoca da imaturidade.

Pense, acalme, deixe o travesseiro ensinar sabedoria.

Adoro meu travesseiro!

Marcos Inhauser

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

A DIVINA DIFERENÇA


Já fizeram isto. Colocaram várias pessoas sob as mesmas condições e usando o mesmo aparelho de ressonância magnética funcional e as expuseram ao mesmo estímulo e viram que cada qual respondeu diferentemente no que às conexões neurais se referem.
Isto provou que cada um de nós tem uma forma diferente de fazer suas conexões neurais e que não há duas pessoas que as façam da mesma maneira. Ainda que haja a predominância de uma área cerebral estimulada, no detalhe as conexões são diferentes.
Quando olhamos algo, quando somos provocados por uma sensação tátil, olfativa, auditiva ou gustativa, cada um de nós reage de uma maneira. Daí porque tem gente que adora chuchu, abobrinha e jiló e eu detesto. E eu gosto de sashimi e tem gente que tem nojo. Isto nos leva a pensar que, quando olhamos um quadro, uma árvore florida, eu posso “sentir” a coisa de uma maneira e outro a sentirá de maneira distinta. Ambos podemos concordar que se trata de algo lindo, mas não significa que eu e ele vejamos cerebralmente a mesma coisa. Isto explica por que, diante de um mesmo fato podemos ter interpretações diferentes e até antagônicas.
Não que um esteja certo e outro errado, mas ambos trazem à tona a forma como cerebralmente as coisas acontecem. Também se pode entender por que um é mais exagerado e outro mais sóbrio nas suas alocuções, porque um é histriônico e outro moderado, veemente e passivo. O que para mim parece mentira, para o outro pode ser a mais pura verdade. Também explica por que temos mais dificuldades em ver problemas nos nossos familiares que em outras pessoas. Uma mãe tem extrema dificuldade em reconhecer problemas comportamentais ou físicos nos filhos. Há uma conexão neural que passa pelo emocional e filial que a impede de ver as coisas. É um certo mecanismo de defesa para que não sofra.
Há fatores culturais familiares, escolares e vivenciais que interferem no mecanismo da criação neural e nos fazem ser diferentes. Mesmo colocadas em situações de igualdade sócio-ambiental e educacional, dois gêmeos univitelinos serão diferentes. Com isto entendemos por que há partidos políticos, ortodoxia e heresia, fãs de música clássica e funk, pessoas menos aceleradas e outras 220V.
Quem está certo? Em tese todos. Quem é o culpado? Deus! É a única conclusão a que posso chegar quando vejo pessoas tendo problemas viscerais para lidar com os diferentes. Como me disse alguém: “ele se nega a dialogar; a palavra dele sempre é verdade”. Lembrei-me da esposa meio burrinha que viu uma notícia de um carro na contramão na autopista, colocando a vida dos demais. Ligou para o marido, também fraco de neurônio, e ele responde: “não é só um, é um monte de gente vindo na direção contrária.
Somos como somos porque o Criador nos fez indivíduos únicos e irrepetíveis. Só existe um igual a mim: eu mesmo. Não sou o padrão de medida para mais ninguém. O que penso, creio, acredito, a minha verdade, são coisas minhas. Servem para mim. Não sou exemplo infalível para os demais. Posso até ter quem goste do meu jeito de ver, pensar e sentir e queira ser igual, mas nunca será.
Ao invés de reclamar e brigar com a diferença, devemos celebrá-la e tirar proveito delas. Não tenho o dom nem as habilidades para ser enfermeiro. Minha mãe está hospitalizada em estado grave. Devo deixar a enfermeira fazer o que não sei e não posso criticar porque não sei, não entendo e não tenho jeito. Elas, sob qualquer circunstância farão muito melhor que eu faria.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

A PETULÂNCIA DO VERDADEIRO


Sei que sempre fui chato com certas coisas e parece que, com os anos, isto tem se acentuado. Seria fruto do envelhecimento ou a quantidade de veze que já me aborreci? Tenho minhas broncas com pessoas que repetem o que dizem duas três ou mais vezes, como se eu não tivesse entendido na primeira. Acho que, ao repetir, está me chamando de burro. Detesto quando as pessoas usam o “realmente” em profusão. Quando uma pessoa solta o primeiro, começo a contar e descubro que tem gente, e até jornalistas televisivos, que conseguem falar mais de dez vezes em uma inserção de 30 segundos.

Não consigo ler artigos ou livros que trazem títulos absolutos. Veja estes exemplos: Negociação Total, Tudo sobre Inteligência Emocional, Manual Completo de Coaching, Manual Completo do Líder, etc. Citei só os que ganhei de presente e estão na minha biblioteca. Ganhei duas biografias: uma do Einstein e a outra do Chaplin. Gosto de ler biografia. Uma se chama “Einstein, uma biografia”. Li quase que de uma sentada. Adorei. Peguei a segunda: Chaplin: Uma Biografia Definitiva”. Tentei ler, mas achei pedante, cheia de detalhes insignificantes e o título me convenceu a parar de ler. Ele diz que depois desta biografia nada mais poderá ser escrito ou nada mais será descoberto sobre o gênio da cinematografia. Petulância!

Acabo de receber um artigo pelo WhatsApp: “O Verdadeiro Sentido dos Evangelhos”. Não li e não vou ler. É petulante. Só ele sabe o que “verdadeiramente” os evangelhos dizem? Tem ele a interpretação infalível dos evangelhos? Outro que recebi foi: “O verdadeiro amor”. Tentei ler, mas dizia que uma esposa que ama seu marido deve obediência irrestrita e ele. Isto é amor? Também recebi uma mensagem no WhatsApp me informando a “verdade” sobre o corona vírus e culpando os governos comunistas da China, Cuba e do PT de terem produzido vírus.

Para mim, tudo que começa alegando autoridade, verdade, tem ares de ser absoluto, eu deleto. Mas o meu lado masoquista me leva, às vezes a ler um pedaço da podridão que me mandam. Tenho meus pruridos de prestar atenção a quem começa sua apresentação desfilando o que já estudou e o que fez. Tem um escritor bastante lido que, nos primeiros livros que escreveu, falou mais da sua autoridade em escrever o que escreveu, do que explicar o que de novidade tinha a dizer. Era especialista desde motor à explosão até cesariana! Nunca comprei nem um livro do narciso. Outro dia minha esposa recebeu um vídeo de um “médico midiático” que iria discorrer sobre diabete. Estávamos no carro e fui obrigado a escutar. Ele gastou uns 10 minutos para falar onde deu aulas, onde estudou, com quem esteve, quantos livros já escreveu, quantos vídeos já produziu, quanto seguidores tem. Pedi a ela que parasse e ela, também irritada com o rosário de atributos da “otoridade”, desligou sem questionar.

Há leitores que me escrevem criticando. Tem quem me chame de comunistas, socialista, guerrilheiro, petista, herege, bolsonarista, machista, e coisas outras que nem posso repetir. O que chama a atenção nestas mensagens é o tom autoritário e absolutos das frases. Há quem me escreve na esperança de que eu dê um espaço a eles na coluna, rebatendo o que dizem. Perdem tempo.

Marcos Inhauser




quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

REPETIR E CRIAR


Uma coisa é saber de memória todas as peças musicais de Mozart ou Beethoven. Outra é saber executar cada uma delas, executando-as com perfeição. O primeiro é conhecimento, o segundo é habilidade. A habilidade pode prescindir do conhecimento, mas para tocar Mozart ou Beethoven, o conhecimento é fundamental. Sem ele e só no exercício da habilidade pode se tocar qualquer coisa, menos as obras dos gênios da música.
Conhecimento e habilidade associados formam um exímio pianista ou, até mesmo, um regente. Mas conhecer profundamente e tocar perfeitamente o que eles escreveram e compuseram não torna ninguém um compositor. Há uma enorme distância entre ser um virtuoso no piano e ser um compositor, mesmo que de músicas medíocres.
Posso ler todas as obras T. S. Elliot, posso recitar seus poemas com maestria e perfeição, dando quase-realidade ao que ele escreveu, mas daí a eu ser um poeta, vai uma distância de anos-luz.
Para ser genial na música ou na poesia não basta conhecer, mas é fundamental ter a originalidade e a rejeição do que é senso comum. É lançar um “olhar e proposta rebeldes” sobre o que se tem. Excelentes alunos na escola, que tiram nota dez em quase tudo, não serão gênios nesta ou naquela área, porque aprenderam a repetir o que lhes foi ensinado. As notas tiradas mostram o cabestreamento que o sistema educacional colocou, obrigando-os a saber exatamente como ensinaram, responder na ponta da língua, de preferência com as mesmas palavras. Qualquer desvio é punido com notas baixas.
Eles se dedicam de corpo e alma em conhecer o que há e não em produzir coisa nova. Bons alunos dificilmente serão gênios criativos. Eles podem sofrer com o sistema, mas não estão treinados a questionar, desafiar, mudar, rejeitar. A palavra-chave é obediência. E repetição. “Sempre foi assim e continuará sendo assim”.
Não serão o “aluno-do-ano” ou o “empregado-modelo” que mudarão o mundo. Se queremos mudanças não peça a eles. Estudos têm mostrado que as pessoas que conseguiram mudar o mundo ou uma área do mundo não foram crianças excepcionais na escola. Porque se rebelaram contra o sistema impositivo do conhecimento existente, tiveram a audácia de propor coisa nova, diferente, que foi uma ruptura com o dado. Os alunos “caxias” fazem de tudo para receber a aprovação dos pais e professores e para isto reproduzem o que existe. Os alunos rebeldes não se prestam a agradar ao sistema, mas em propor novidades.
A ênfase no sucesso é uma forma de “criar autômatos”. Para se ter sucesso precisa ser obediente, seguir as regras, trilhar caminhos já percorridos. Leem o que podem de biografias de pessoas que foram exitosas e tentam repetir o que eles fizerem para chegar ao topo. Quanto mais se valoriza o sucesso, menos se dá asas à imaginação da criatividade. É a busca incessante do sucesso garantido.
Para ser um gênio e mudar o mundo é preciso ter a coragem para a destruição criativa. O novo e a invenção, requerem que coisas velhas sejam derrubadas, quebradas, destruídas. Estabelece uma ruptura no modo de fazer e propõe a novidade. É revolução e não reforma. Para ser original há que se ter estrutura emocional e resiliência para aguentar os trancos e pauladas que os conservadores darão. Ser a novidade é coisa para gente grande, emocionalmente bem firmada. É perseguir o objetivo mesmo que isto custe milhares de tentativas frustradas, como foi com Thomas Edison até que inventou a lâmpada.
Marcos Inhauser


quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

EMPREJA


A coqueluche da ciência destes dias é a engenharia genética. Começou fazendo experimentos com plantas para produzir espécies mais resistentes, depois passou para os animais, chegou à clonagem e boatos dizem que já clonaram seres humanos. Parece ilimitada sua capacidade em produzir novidades.
Ela chegou também ao campo das igrejas. A partir da década de oitenta, começaram a aparecer os primeiros seres híbridos entre a empresa e a igreja. E disto nasceu uma espécie bastante robusta e vistosa que é a empreja.
Como todo novo ser criado em laboratório, este também precisou incorporar certos vocábulos novos ou assimilar outros do mundo com o qual se associou. O pastor foi cedendo espaço para o líder. O pastorado passou a ser mais administrativo que relacional. A hierarquia tomou conta e surgiram centenas de apóstolos, bispos, profetas, missionários, evangelistas, uma nova geração com títulos bíblicos que estão mais para a Qualidade Total que para o pastoreio do rebanho. O discipulado virou coaching, evangelização agora é marketing da igreja. O trabalho deles passou a ser medido em termos quantitativos e não mais qualitativos.
A empreja passou a ser avaliada em termos de crescimento, renda, arrecadação, tamanho da platéia, níveis de decibéis no momento do louvor. O financeiro passou a falar mais alto que o espiritual. Como me confidenciou um pastor, tem Deus Revelado a ele que a saúde espiritual de sua igreja deve ser medida pelo saldo da conta corrente.
A empreja não evangeliza, faz marketing; não tem rol de membros, tem cadastro de freqüentadores; não tem assembléia, tem liderança que decide em nome da comunidade. Na empreja o fiel não pensa, repete. É um autômato de uma linha de produção em série, bem ao estilo henrifordiano. Na empreja o narciso de um ou alguns têm completa liberdade de expressão. Tal como aquele jogador de futebol que bate escanteio e corre para a área para cabecear, na empreja o narciso ora, canta, prega, dá a benção, faz a coleta e não muito raro, gasta o dinheiro arrecadado.
Na empreja é pecado perguntar, mas é virtude submeter-se; o assunto predileto é autoridade na visão bíblica, onde é maldito o que se levanta contra o “ungido do Senhor”, que é o pastor-proprietário do rebanho. Alguns chegam ao cúmulo de alterar o estatuto para prever que ninguém pode levantar qualquer assunto na Assembléia sem que seja do conhecimento e aprovação do pastor da igreja.
Na empreja se valoriza o tempo de exposição na mídia, pois, como empreja que tem um produto a vender, a salvação em Jesus Cristo, quanto mais ela esteja visível tanto mais sucesso terá. Daí porque tantos programas religiosos na TV.
Os princípios de qualidade total substituem os valores bíblicos e teológicos. O pastor deve ganhar pela sua produtividade: um porcentual pelo número de freqüentadores e outro pelo volume de ofertas levantadas. Em alguns casos, a fórmula é: o dízimo arrecadado é para o líder (pastor, apóstolo, bispo ou seja o que for) e as ofertas extras são para pagar as despesas de funcionamento da empreja.
Este ser geneticamente produzido está privatizando o céu, com lotes à venda nas emprejas, quais imobiliárias da eternidade. Emprejários tem conseguido mandato político e se arvoram em porta-vozes dos mundo religioso, mal denominado de evangélico.

Marcos Inhauser


quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

SONS E BARULHO


Ruídos. O vento faz o seu, o mar ruge, os galhos estalam, os cachorros ladram. Eles vêm de toda a parte. O que os caracteriza é que eles são sons sem sentido aparente, desconexos, sem mensagem. Para ouvidos mais atentos um vento pode sinalizar algo, o estalo de um galho pode prever uma tragédia, um cachorro ladrando pode ser anúncio de algo.
Há os que são harmônicos com os que ocorrem em música sinfônicas, os produzidos por orquestras, órgãos, pianos, violinos. São sons com uma delicadeza ou até mesmo certa ênfase, mas que nos indicam que há muito mais por trás deles. Há uma certa previsibilidade na próxima nota, um encadeamento sonoro quase que lógico. E como se ficássemos esperando a próxima nota e, quando ela vem, enche o vazio que estava à sua espera. Há um sentimento de saciedade quando as notas nos alcançam, como se nossa vida estivesse a depender delas ara renovar nossas foras ou pensamentos.
Mas há um som que é fundamental para todos nós: o som da palavra proferida. A palavra dá uma nova dimensão a tudo. A música, quando cantada, traz a palavra que, aliada à sonoridade e harmonia, nos provoca pensamentos. Ela é o traço distintivo que faz com que os seres humanos se relacionem, se amem, se odeiem, construam castelos e façam guerras. A palavra faz o ser humano ser qualitativamente diferente de tudo.
Nada é mais poderosa no mundo dos sons que a palavra. Nada é mais efêmero que a palavra. Ela tem curtíssima duração: dura o tempo de ser enunciada. Ela tem o vigor do instantâneo. Ela morre assim que é pronunciada. E mesmo assim é poderosíssima! Ela declara amores e pede favores. Ela declara ódios e tira dos pódios quem se arvora ser grande. Ela entra pelo ouvido e dá um trabalho imenso aos neurônios, porque semeia sonhos, planos, imaginações. Ela fomenta sentimentos de raiva, ódio, de vingança. Ela reconstrói pontes. Ela pede e declara o perdão.
Sem a apalavra o ser humano seria um “quase zero à esquerda”. Estudos antropológicos tentam reconstruir os caminhos e descaminhos para que o ser humano criasse uma forma avançada de comunicação, onde conceitos e sentimentos pudessem ser expressados. Como seriam os mais primitivos que só conseguiam falar uma meia dúzia de palavras e todas elas relacionadas a coisas concretas: chuva, água, fogo, comer, beber? Parece que um indicativo disto pode se ter no hebraico bíblico, bastante pobre em palavras e conceitos O recurso utilizado foi o uso das metáforas.
Línguas mais completas e onde se produziu boa parte da filosofia, são línguas ricas em palavras e com flexibilidade para construir novos vocábulos, como é o grego, o alemão e o francês. O português também tem sua riqueza, mas peca por certa inflexibilidade. Daí porque, me parece na minha laicidade, que usa palavrões, expressões regionais, caipirismos, onde há maior flexibilidade, para dizer o que as palavras não alcançam.
Palavra não é som emitido pelo ser humano. É o espírito humano que sai como sopro sonoro, é o vento que Deus soprou nas nossas narinas para que, aos expirá-lo, criássemos mundos. A palavra é muito mais do que aquilo que se fala e aquilo que se ouve. É algo divino entre os humanos. Por isto, Jesus nos alertou que seremos cobrados por toda palavra tola saída de nossa boca. Fala é o uso de um recurso divino em nós. Com ela somos co-criadores com Deus.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

IRA, IRÃ, IRA(QUE) E I(S)RAEL


Não é surpresa para ninguém que o Trump é um presidente irascível e imprevisível. A sua imprevisibilidade é motivo de orgulho para ele e de apreensão para os demais, tanto pessoas como governos.
O seu caráter iracundo já mostrou as garras em vários episódios. Desde a questão do muro separando o México dos Estados Unidos, passando pela forma como tem tratado os ilegais e as crianças, os filhos dos que tentam entrar ilegalmente colocados em campos de concentração, até a forma como tem lidado com questões internacionais. O início do diálogo com a Coreia do Norte foi abruptamente interrompido por sua deserção, por motivos nunca bem esclarecidos. A sua impetuosidade no trato das questões comerciais com a China, a desconsideração para com o acordo firmado pelo Barack Obama na questão nuclear do Irã, a saída do Acordo Climático, a decisão de sobretaxar aço e alumínio brasileiros, são outros exemplos deste par de características: imprevisibilidade associada à irascibilidade.
Fomos novamente surpreendidos pela sua decisão de matar o segundo homem na estrutura de poder do Irã, o Qasem Soleimani. A sua ira ele a direcionou ao Irã, na questão do acordo firmado sobre o enriquecimento do urânio. E para fazê-lo usou o território do Iraque que ele acha que é extensão do americano, uma vez que tem lá mais de seis mil soldados. Um ataque ao Irã desde o Ira(que)!
Na geopolítica mundial, a ação teve implicações que envolvem diretamente a I(s)rael, aliado ao qual destina sua fidelidade canina. Irã e Iraque são inimigos figadais e, ao mexer com o Irã, o tabuleiro também balançou para o lado da nação que já tem seus problemas com a vizinhança.
É imprevisível as ações que redundarão de tal ataque. A retórica já experimenta graus de ebulição, mas, em se tratando de Trump, é difícil dizer o que é verdade e o que é encenação. De uma coisa podemos estar certos: haverá retaliação. O problema está em definir quando e como. Mas, aqui, com meus botões, acho que quem vai pagar o pato, será Israel.
A justificativa para tal ataque é que o Soleimani era um terrorista e que os EUA têm o direito de combatê-los onde quer que seja. A definição de terrorista é subjetiva e se alinha com os interesses dos EUA. Já escrevi aqui, em outra oportunidade, que o que os EUA fizeram no Afeganistão, foi terrorismo. O ato de um homem e seus poucos aliados (Bin Laden) foi alastrado para toda uma nação. Como terrorista foi classificado o exército norte-americano, uma forma de retaliação feita pelo Irã.
Parece que, afirmar que alguém é terrorista, é a mesma coisa é como dizer que alguém é herege: sempre o outro o é e o é por questões menores. No entanto, a mesma classificação poder-se-ia dar ao exército e serviço de inteligência israelitas. Sob o pretexto de retaliar ataques de terroristas palestinos, têm desferido duros golpes conta a população civil. Quando confrontados com os danos civis, falam de danos colaterais ou que eram terroristas travestidos. A Ira justifica tudo!
Ira, ódio, vingança, retaliação. Palavras que fazem parte da cultura de muitos governantes e países. Pasma-me que, entre eles o que são religiosos (Irã), uma nação religiosa (Israel), um presidente aliançado aos evangélicos (Trump e a recente participação no encontro de Miami, os discurso de que os democratas querem impor uma agenda antirreligiosa), o discurso de ódio com todos os que são diferentes ou pensam diferentemente.
Ira, iracundo, irascível, ir(r)acional, imprevisível, intempestivo, impulsivo, insolente, inábil, inapto e inepto para o poder e a liderança. Este é o homem que promove a ira. Mais que isto, tem gente que se orgulha de imitá-lo!
Marcos Inhauser

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

CONTROLE POPULAR DO PODER


Acabo de ler artigo publicado no El Pais explicando por que o povo elegeu Hitler. Voltei aos meus livros e leituras para ver o que mais poderia ler para fundamentar algumas das razões que o escritor do artigo elenca.
Encontrei este de William Godwin (Enquiry Concerning Political Justice and its Influence on Moral and Happiness, GG Robinson, London, 1796, Vol I, pg 108): “O grau de imaturidade ou maturidade da população se refletirá no sistema político, produzindo um regime ditatorial ou uma situação de liberdade. Fraqueza interna torna um povo presa fácil de um conquistador, ao passo que o esforço para oprimir um povo maduro na liberdade, provavelmente não será bem-sucedido”.
Isto foi alertado pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos; “ ... as potestades constitucionais do Chefe de Estado, por ser tão numerosas, amplas e importantes, lhe outorgam um poder muito grande, sem os contrapesos significativos, que por sua natureza, não só abre as portas a uma aplicação abusiva do poder, mas também permite que se anule, limite ou distorça o exercício efetivo da representação política e da participação popular e, por conseguinte, a observância de outros direitos e garantias.” (Diez años de actividades” – 1971 a 1981, pg 270).
Para citar um pensador, o governo é um comitê com poder para gerir e facilitar os interesses da elite. Para tanto, ele deve acomodar as classes populares emergentes, domesticá-las em algum esquema bem ao gosto das classes dominantes. Lembro-me que, quando cursava o pós-graduação em Educação na UFSCAR, estudamos as reformas educacionais que o Brasil já teve. O professor centrou sua análise na exposição de motivos, situados no contexto histórico, social e econômico que a nação vivia. Ficava claro como as reformas educacionais foram feitas para prover às elites a mão de obra que necessitavam naquele momento. Lendo Bordieu e Passeron (A Repodução), percebi como a escola é a célula reprodutora do pensamento dominante e de domesticação das mentes.
As elites, ao perceberem que não podem resistir ao poder do povo que se rebela, começam a dar reputação e espaço para um dos seus elementos (do povo) e o fazem príncipe, para, sob sua sombra, ter seus apetites saciados. O povo, por sua vez, dá sustentação ao “príncipe do povo eleito”, pois acreditam que ele irá defender os seus interesses. Eles se equivocam pois, quem o elegeu, foi o poder econômicos dos ricos. O Brasil está cheio de exemplos desta natureza, tanto à direita como à esquerda.
É citada com frequência a frase atribuída ao governador mineiro Antônio Carlos de Andrada: “façamos a revolução antes que o povo a faça”. É a revolução dos poderosos para aplacar a ira do povo, vendendo como se a revolução viesse para satisfazer seu anseio. Assim foi com o Collor, com a Ditadura mal denominada de Regime Militar, com o plano Cruzado etc.
Quando se tenta unificar as coisas colocando juntos anjos, cosmos, Igreja, estruturas políticas, religiosos, religião e Deus como sendo a origem e o sustentador da integração das partes, a coisa assume aura de sagrado. Isto pode dar-se pelo uso de textos bíblicos fora de seus contextos, presença constante de religiosos ao redor do núcleo do poder, discursos com ares de sagrado, mantras religiosos repetidos à exaustão, pseudo-fundamentação em valores religiosos. Nada mais pernicioso e maléfico do que a ditadura religiosa. Que o diga Irã, Afeganistão, Guatemala sob a égide de Ríos Mont, Pinochet e seu messianismo. O governo assim concebido acha que está acima da lógica política (quer governar sem a política e os políticos), busca uma solidez ontológica (como se existisse de per se) e tudo passa a ter validade ética. Aos de fora do núcleo só cabe obedecer. Os desobedientes e contestadores são lançados ao fogo do inferno. Que o digam os defenestrados de Sarney, Collor, Lula, Dilma, Temer e Bolsonaro.
É o esquema de um poder que trabalha o povo, manipula seus sentimentos, fabrica comportamentos, tudo para fortalecer o poder econômico de poucos.
Alguma dúvida? Olhe os recentes dados de concentração de renda no Brasil. É indecente como nos últimos 50 anos a coisa foi feita para que os ricos sejam mais ricos.
Que os profetas (denunciadores do pecado do poder) não se calem. Quando não há profecia, a nação padece! Isto é bíblico!
Marcos Inhauser

sábado, 7 de dezembro de 2019

BIBLIOPLANISTAS


Virou moda, apesar do absurdo que é, afirmar que a terra é plana. Tem gente que o afirma categoricamente e há um autodidata louco e aprendiz de astrólogo que diz que não há nada que refute a ideia de que a terra é plana.
A coisa é tão estapafúrdia que se chegou a realizar a primeira Flat Con, a Convenção Nacional da Terra Plana, com a seguinte enunciação: "A Terra está parada. Não se move. A superfície da Terra é plana. Há uma cúpula sobre nós chamada o Firmamento. O sol, a lua e as estrelas estão sob a cúpula do Firmamento. O sol e a lua são muito menores e mais próximos do que nos dizem. O sol e a lua se movem em seus próprios padrões sobre a superfície da Terra. Não há planetas. Apenas estrelas no céu. Não há espaço. Não podemos sair da cúpula. Está tudo bem aqui ..."
Eles dizem que nossos sentidos indicam que Terra é plana, o mundo parece ser plano, logo deve ser plano. Para eles a Terra é um disco redondo e achatado, o Polo Norte está no centro, a borda é formada por gelo (Antártica), a circum-navegação da Terra é fazer volta ao redor do Polo Norte. Sol e a lua são pequenas esferas a poucos milhares de quilômetros da Terra, que se movem em círculos ao redor do Polo Norte, e outras barbaridades.
Duvidam da evidência fotográfica, porque acham ser fácil manipular imagens. Para eles, a exploração espacial nunca aconteceu: é conspiração. Os astronautas, que disseram ter visto a Terra é redonda, foram subornados ou obrigados a dizer isso.
Mas há, em número maior e com o mesmo grau de absurdo, os Biblioplanistas. Contra toda a evidência histórica, linguística, cultural, da crítica literária e da glotologia, saem afirmando besteiras sobre a Bíblia. Mesmo quando uma palavra se trata de uma apax legomena (palavra que ocorre uma única vez), eles sabem tudo sobre o significado dela, mesmo em se tratando, no caso da Bíblia, de duas línguas mortas (hebraico bíblico e grego koiné).
Para os Biblioplanistas, os gêneros literários são coisa de hereges para torcer o real sentido das Escrituras. As contradições entre narrativas históricas ou a duplicidade delas (como no caso da criação), é coisa que só incrédulo acredita. A Bíblia é infalível e inerrante. As aparentes contradições têm algo a mais e o leitor mais atento e cuidadoso fica míope para estas “verdades ocultas”. Perguntar, questionar e duvidar de certos relatos é condenação eterna para os Biblioplanistas.
Acreditam que o Pentateuco foi escrito por Moisés ainda no deserto (só não explicam como há tanta água no texto da criação se o ambiente dele era o deserto). Acreditam na literalidade numérica: Moisés esteve 40 anos na corte de Faraó, 40 anos no deserto, 40 dias no monte Sinai e mais 40 anos na peregrinação, saiu do Egito com 600.00 homens, perseguido por 600 carros de combate do Faraó.
Desconhecem os gêneros literários. Para eles não há na Bíblia novela, saga, lenda, mito, saga etiológica, ironia, hipérbole, poesia, conto, anedota, discurso narrativo ou épico, ode, metáfora etc. As parábolas devem ser tomadas no seu sentido mais literal possível. Tudo deve ser interpretado desde uma ótica plana e rasa: literalmente, onde cada palavra tem o sentido primário, sem possibilidades de interpretações segundo o gênero no qual foi escrito. A poesia se torna historiografia, a saga etiológica é descritiva de fatos originais, as fábulas são fatos históricos.
Também acreditam que a vida na terra é um campo de batalha entre Deus e Satanás, com seus demônios que trazem enfermidades, desgraças, falências, adultérios e que há pessoas escolhidas a dedo por Deus para expulsar os demônios e trazer prosperidade.
Com tamanha infantilidade interpretativa, não surpreende que expulsem demônios da caspa, da obesidade, acreditem que a serpente e a mula de Balaão realmente falaram, que o universo foi criado em sete dias de 24 horas e que a terra tenha não mais de 7000 anos!
Marcos Inhauser

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

ASSASSINOS DE COMPETÊNCIAS


Tive a oportunidade de fazer coaching com um gerente de área de uma multinacional. Ele me foi encaminhado como tendo problemas relacionais e de liderança. Fiz as duas primeiras sessões e descobri que havia algo mais que o atrapalhava: era extremamente centralizador.
Ele tinha uma equipe de umas 10 pessoas, todas competentes, com habilidades reconhecidas e expertise em áreas próprias. Um sabia bastante de Excel e dos macros que muitas planilhas demandam, outro era bom na manutenção e reparo na rede de computadores, tinha uma pessoa boa em escrever textos, outra que era boa no design gráfico, e assim por diante.
Ele tinha em mãos um potencial de trabalho que talvez nenhuma outra equipe na empresa se equiparasse. Tinha uma McLaren na mão, mas sua produção era de um Fusca. Voltei a conversar com o RH sobre o que estava percebendo e eles me afirmaram que eu estava no caminho certo e me pediram para ser mais direto sobre este tema com o coachee.
Na próxima sessão perguntei a ele quais eram, individualmente, as competências de cada um dos seus liderados. Ele foi descrevendo com certa acuidade e fui percebendo que ele tinha uma visão bastante completa do quadro funcional que tinha em mãos. Chegou a hora de ir mais fundo na questão: “qual foi a última vez que usou Fulano para fazer o que você diz que ele sabe fazer bem?”. Ele pensou, rememorou e foi taxativo: “não me lembro”, mas emendou em seguida: “talvez porque não houve nenhum trabalho que demandasse a competência que esta pessoa tem”.
Dei uma segunda rodada: “e Beltrana? O que você delegou a ela que ela pudesse usar suas competências? A resposta dele foi uma variação da primeira: “eu deleguei a ela uma tarefa, mas dada a urgência e complexidade, acompanhei a execução de perto e, no final, tive que assumir, para garantir que as coisas saíssem tempo e a contento”.
Na terceira rodada mudei o foco. Ao invés de perguntar sobre o passado, passei ao presente: “quais atividades que você tem hoje e a quem você delegou, segundo a habilidade que cada um tem?”. Ele citou alguns projetos nos quais o seu departamento estava envolvido, falou da complexidade de vários deles e mencionou, já prevendo a próxima pergunta: “eu tenho delegado coisas à minha equipe, mas, por questão de segurança, acompanho de perto o desenvolvimento e se vejo que as coisas estão fora do prazo ou não são feitas do jeito estabelecido, eu tomo as rédeas do processo”.
Conversa vai, conversa vem e descubro que ele era um acaparador. O termo vem do espanhol e significa a pessoa que assume todas as coisas, tem dificuldades de delegar, não usa as pessoas que tem, não desenvolve talentos e sepulta as competências que tem na equipe. Elas morrem por desmotivação, frustração e inanição. O acaparador entende de cesariana a motor a explosão. Tudo ele sabe, tem opinião marcante sobre todos os temas, sempre se coloca numa posição crítica em relação à opinião e sugestões que porventura lhe façam. Lógico, bastante racional e de boa argumentação, justifica sua atitude acaparadora como sendo benéfica para a empresa e a equipe, porque “ele sabe fazer melhor que qualquer um.” Usa de alguma deficiência de uma outra delegação que passou para justificar que prefere ele fazer todas as coisas.
Não preciso dizer que o acaparador é assassino de talentos, mas também é autofágico. Ou morre pela quantidade de coisas que assume para fazer (nem sempre fazendo tudo o que assume) ou morre pela avaliação funcional: é demitido por “excesso de trabalho e resultados pífios”. Ele se vê uma McLaren, a empresa e os colegas o veem como Fusca.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

CORRIGINDO-SE


Isto já me aconteceu várias vezes e percebo que não é só comigo. Escrevo algo, leio o que escrevi, corrijo, releio, e outra vez corrijo e mais uma vez leio e acho que está tudo bem. Mando a coluna para a publicação e quando é publicada percebo que escaparam coisas que deveriam ser corrigidas. Até já tive leitoras que me escreveram alertando sobre isto.
Tenho notado isto em outros colunistas (sou meio viciado em notícias e no jornalismo opinativo). É frequente encontrar erros nos textos que publicam na internet, coisas que não percebia no jornalismo impresso. Parece que é um mal do mundo digital.
Há muitos erros. Um deles e bastante comum no mundo da digitação é a inversão de letras na hora de digital. Lembro-me de, certa feita, ter escrito graça e na publicação descobri que havia digitado garça. Outro comum é a inserção de espaço no meio de uma palavra (ins tantâneo) ou colocar a última letra acoplada à palavra seguinte (queir aDeus), ou ainda a falta espaço entre palavras (coisassimples, queevidenciam). Tais erros são facilmente reconhecidos e merecem o beneplácito da indulgência. Há os erros de ditografia (escrever duas vezes em seguida a mesma palavra). Há ainda os erros que podem parecer de digitação, mas que, na realidade, são de alfabetização: souteira, adimito, pissicologia, previlégio e outras mais.
Outro erro comum, mas mais grave, é o da concordância que corta o “s” final ou não declina o verbo apropriadamente (os filho, fulano e beltrano comeu). Há ainda o erro de grafia e de gramática que evidenciam problemas mais sérios de conhecimento da língua: trocar mas por mais, eminência por iminência, precursora por percussora.
Certos tipos de erros podem ocorrer quando se copia um documento a partir de ditado. Podemos substituir uma palavra homófona por outra; i.e., “cozer” por “coser” ou “massa” por “maça”, “haja” e “aja”, “haver” e “a ver”, “passo” e “paço”.
Mas o que me chama a atenção é a incapacidade de ser perfeita a correção de alguém que relê o que escreveu. A gente escreve, lê, relê várias vezes e passa por cima dos erros. Parece que a mente não se atina para coisas simples ou tem um mecanismo de defesa para que não perceba os próprios erros.
Acho que é uma benção não termos a capacidade de ver todos os nossos erros. Se tal fizéssemos, seríamos eternos deprimidos e candidatos sérios ao suicídio. Há uma taxa de erros e defeitos em nós que reconhecemos e que nos fazem (ou deveriam) ter a consciência de que não devemos ser arrogantes ou jactanciosos. Há outros que os conhecemos pela ajuda de outros, que podem ser suaves ou duros ao apresentá-los a nós.
Depois de ter sido alertado para alguns erros de digitação (e mesmo de concordância), passei a levar a sério a orientação de um famoso jornalista do New York Times: escreva do jeito que você fala. Coloque o que escreveu na gaveta e no outro dia volte a ler e corrija. Coloque de novo na gaveta. Depois de dois ou três dias volte a ler e corte os adjetivos, as palavras terminadas em “mente”, transforme metade das vírgulas em ponto final. Dê um tempo e volte a ler. Depois peça para alguém corrigir o que você escreveu.
Mesmo assim não há garantia de perfeição. E se não somos perfeitos, por que se considerar melhor que os outros? Cada um tem sua taxa de imperfeição que deverá saber administrar. Cada pessoa com quem nos relacionamos tem sua taxa de imperfeição que devemos saber relevar. Nada mais chato do que conviver com uma pessoa que se acha perfeita!
Marcos Inhauser

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

EVANGÉLICOS NÃO-CRISTÃOS


Pode parecer uma incoerência, mas não o é. Há muitos que declaram ser evangélicos e negam em suas vidas e pregações o que os evangelhos ensinam. Mas, antes de mais ada, precisamos conceituar os termos. Evangélico vem de evangelho, palavra que tem sua origem no grego neotestamentário (euangelión) e que significa “boas novas”. Curiosamente, ela foi originalmente usada até para o anúncio da vitória militar trazida por um mensageiro. Também se sabe que a palavra era usada para se referir a qualquer boa nova, independentemente da natureza ou do contexto onde a mesma estava inserida. Só mais tarde é que os escritores do Novo Testamento, ao fazerem dela uso, começaram a restringir o seu significado para se referir a Jesus Cristo e ao anúncio da salvação.
Estrita e morfologicamente falando, qualquer boa nova é euangelión e, por conseguinte, anunciar boas novas é evangelizar, não importa o campo em que tal boa nova pertença. Também se refere ao conteúdo conhecido como evangelhos. E mais contemporaneamente, o termo “evangélico” se refere aos que “pautam suas vidas pelos ensinamentos dos evangelhos”. Uma denominação evangélica seria, portanto, aquela que tem nos evangelhos a sua Carta Magna e referência maior para os valores e práticas da vida. Ser evangélico é ter nos quatro escritos o parâmetro para avaliar todos os demais livros, até mesmo os que estão na Bíblia.
Os anabatistas mais radicais acreditam e ensinam que há uma gradação na revelação que está nas Escrituras: Palavra de Deus é o que Jesus falou, o que Ele ensinou e isto está nos evangelhos. Todos os demais escritos bíblicos são Palavra de Deus desde que concordem com os que Jesus falou e ensinou. Note-se que, nesta visão radical do evangélico, há coisas bíblicas que não são evangélicas, porque vão contra os ensinamentos de Jesus. Os textos que falam da guerra são informativos e não normativos. Seguir a Cristo é seguir ao que dEle se sabe e conhece e descartar o que contra Ele e seus ensinamento se colocam.
Ora, se um “evangélico” prega a ira, o racismo, a beligerância, o armamento, pode ele ser considerado um evangélico e cristão? Se um “evangélico” defende a tortura e cultua um torturador, pode ele ser considerado evangélico? Se o Sermão do Monte é parte central nos ensinos de Jesus, pode ser cristão quem os nega e ensina o que vai contra os ensinamentos do Sermão do Monte? Pode ser o guerreiro um pacificador? Pode ser cristão quem promove o armamento, se envolve sistematicamente em corrupção, desvia verbas da merenda e a saúde? É cristão quem tem a ira como a essência do viver? Como achar que é evangélico quem não aceita e nem pratica a recomendação de “amar os inimigos” e “dar a outra face a quem bateu”? Se o evangelho é o anúncio da graça, é evangélico quem vende bençãos?
Tudo o que não é amor a Deus, ao próximo e a si mesmo (não no sentido egoísta e narcísico, mas no sentido de zelar pela própria vida) não pode ser considerado cristão e nem evangélico. Esta foi a resposta de Jesus quando perguntado qual era o maior dos mandamentos. O verdadeiro cristão se conhece pela sua dedicação ao próximo e seu ministério para empoderá-lo, suprindo suas necessidades, aconselhando, dando agasalho, conforto e norte para a vida. Evangelizar é dar sentido a vida do outro, é dar a dimensão de eternidade para quem está na depressão, é ar a esperança de melhores dias pela solidariedade e justiça
Marcos Inhauser

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

HIENAS E SUAS HISTÓRIAS


Elas entraram na história não é de hoje. Também não é de agora que elas estão envoltas em projetos de poder político com roupagem religiosa.
Conta história que, no informe Albuquerque de 1514, antes mesmo que os descobrimentos continentais feitos por espanholes e portugueses tivessem atraído a maior parte dos colonos, Espanha destinou um milhar de espanhóis quando só restavam 29.000 indígenas, demonstrando que os anos primeiros foram terríveis na mortandade dos nativos. Georg Friederici em seu livro “Caracter del Descubrimiento y la Conquista de America” (Fondo de Cultura Económica, Mexico, 1987, pg. 397) relata que o cortar das mãos aos prisioneiros de guerra (nativos) e obrigá-los a sair correndo, era uma crueldade que se praticava na Espanha antes do descobrimento da América. Na América os espanhóis fizeram uso destes recursos com uma crueldade ainda mais espantosa, Depois de cortar as mãos e os pés dos homens e os seios das mulheres, eles os obrigavam a arrastar-se ou andar até que morressem por esgotamento sanguíneo. Era um espetáculo que propiciavam aos demais para infundir o terror.
Cieza de León em sua obra “Guerra de Añaquito”, citado pelo mesmo autor antes mencionado, afirma que “os piores exemplos da pavorosa e desalmada crueldade e da contextura moral dos conquistadores nos brinda ... no campo de batalha de Añaquito, onde o licenciado Benito Juarez de Carbajal, como uma hiena sedenta de sangue, estava em busca do representante do monarca Carlos, o vice-rei Blasco Nuñes de Vela. Encontrou, por fim, o ancião dignatário ferido, mas não mortalmente e ainda em estada de consciência. Ele o cobriu de impropérios e teria cortado pessoalmente a sua cabeça se seu acompanhante, Pedro de Puelles, não o tivesse alertado da infâmia de tal ação.” Conta a história de Blasco Nuñes obrigou a seu escravo a cortar cabeça ao vice-rei, tomou-a pelas barbas e saiu caminho afora levando o troféu e apresentando-o a todos quantos encontrava.
No “Arquivo Geral da Índias” se lê que “muita da prata que se tira daqui para esses reinos é beneficiada com o sangue dos índios e vai envolta em suas peles” (Dussel, Henrique. Caminhos da Libertação Latino Americana, Ed. Paulinas, 1989, pg.59).
Bartolomé de la Casas, dominicano e voz profética de denúncia dos desvarios da corte espanhola, afirmou que “a causa foi a cobiça e ambição insaciáveis que possuíam, que foram as maiores que podem existir no mundo ... não tiveram nem respeito, nem estima, que não digo que as trataram como bestas, mas como menos que esterco das praças” (Dussel, idem, pg 59-60).
Contraponto a Bartolomé de las Casas estava Gines de Sepúlveda, quem, baseado numa questionável Teologia Natural, alegava que os indígenas não tinham alma e que, portanto, não eram seres humanos. Este Ginés teve uma infância e adolescência cheia de insucessos e problemas (mentais?), com atos e escritos que beiram ao ridículo. Hoje, talvez, fosse diagnosticado como esquizofrênico ou bipolar.
São duas posturas religiosas: uma que usa dela para fundamentar um projeto político imperialista. O outro que usa da teologia para denunciar os desvios dos governantes e religiosos apaniguados. A retro-oculatra mostra do acerto do profeta em detrimento da voz mancomunada com o poder.
A minha sensação ao fazer este reconto histórico é que ele é muito atual. As hienas sedentas estão por aí, mas pregadas pelos Ginés de Sepúlvedas modernos.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

O CULTO DE UM SÓ

Acabara de chegar do exterior para voltar a morar no Brasil. Buscando retomar contatos e tomar pé da situação das igrejas brasileiras, um domingo à noite, minha esposa e eu fomos a uma igreja reformada, histórica, tradicional, etc.
Lá chegando fomos recebidos por alguns líderes da igreja que já nos conheciam e nos assentamos. Para surpresa minha, o pastor entrou pelo corredor central em processional. Estranhei porque conheço a forma de ser desta igreja e da denominação. Os pastores entram pela porta lateral ao púlpito, sem alarde ou exibição. Ele, no entanto, entrou pela porta central, fez a processional e, fiquei pasmo, estava vestido com uma beca usada por mestres e doutores e usada em cerimônias acadêmicas. Ele mal tinha concluído o bacharel! Era uma túnica pesada, destoante com o calor que fazia. Era a prova de um exibicionismo descabido.
Começou o culto e o indivíduo, com a voz empostada, fez a oração inicial, leu os Salmos, fez comentários e convidou a igreja a cantar um cântico que ele havia composto. Pegou o violão a começou a tocar a “seu” hino. Havia piano e órgão, mas ele se bastava ao violão. Terminado o cântico, ele leu outro trecho das Escrituras com aquela voz empostada, antinatural e entoou o solo de um cântico que ele também havia composto. No momento dos pedidos de oração pediu que a igreja orasse pelo CD que estava gravando para que fosse uma benção na vida de quem o comprasse. Ninguém mais teve a oportunidade de pedir que orassem.
Contou alguma coisa sobre sua vida e iniciou a prédica, onde, se me lembro bem, duas ilustrações eram sobre experiências próprias. Pediu que cantassem outro cântico que ele havia composto, ao som do violão que ele tocava.
Terminou o culto dando a benção apostólica com uma música de sua autoria e saiu da forma como entrou.
Ao sair minha esposa perguntou: para que existe piano e órgão no templo se ele é quem faz tudo? Lembro-me de haver dito: “ele bate o escanteio e corre para a área para cabecear e celebra o gol sozinho como se fosse o único em campo.” Devo dizer que não durou muito naquela igreja e em nenhuma outra.
O mesmo acontece com a equipe de louvor. Terminada sua “apresentação”, deixam o templo, porque, para eles, o culto acabou. Eles são o culto!  Preste atenção nos “cultos” televisivos do neopentecostalismo: só o midiático aparece e faz tudo!
Episódios como este eu os presenciei em outras oportunidades em variadas igrejas no Brasil e no exterior.
A igreja é uma comunidade. A igreja é uma cooperativa de dons e habilidades. Todos na igreja devem participar, cada qual com seu dom e habilidade. Paulo colocou isto de forma magistral: “o corpo inteiro bem ajustado, e ligado pelo auxílio de todas as juntas, segundo a justa operação de cada parte, efetua o seu crescimento para edificação ...” Se na igreja há alguém que tem um dom ou habilidade e não é usado, é uma anomalia. O culto de um só é uma excrescência, porque o “polifacético e polivalente” faz tudo. Ele entende de música, de decoração, de liturgia, de exposição bíblica, cita grego e hebraico, ensina, exorta, arrecada, administra, assina, entrega, devolve. Quando confrontado, se exime citando autores e uma lógica egoísta.
Ele não ajunta, espalha. Não pastoreia, se exibe. O púlpito vira palco. Manda instalar holofotes para que seja iluminado enquanto performa.
Graças a Deus, os narcisos não prevalecerão na congregação dos humildes!
Marcos Inhauser