O modelo vigente nas igrejas por séculos é o da cátedra, onde há uma confissão de fé, aceita pela denominação como expressão final e definitiva das crenças e ensinamentos exarados nas Escrituras, ensinados domingo após domingo pelo catedrático (pregador). O pregador, no uso da palavra não interrompida e nunca questionada no momento em que é proferida, deve ser a repetição para consolidação dos ensinamentos confessionais.
O problema com este tipo de religiosidade é que o líder não pode pensar, não pode fazer teologia, porque a sua já está feita e consolidada na Confissão de Fé de sua denominação. Se ousa dizer algo fora do que preceitua o receituário doutrinal, será inquirido, processado eclesiasticamente poderá ser disciplinado por um período de suspensão ou afastamento definitivo. Eu passei por isto, juntamente com alguns outros colegas.
Ousamos pensar e criticar algo e fomos acusados por uma mente fundamentalista, quem, treinado na letra da lei, só via obediência e jamais podia aceitar o questionamento. Para estas confessionalidades, a pergunta inquisitiva e exploratória de novas possibilidades é pecado. Perguntar arguindo o estabelecido é pecado sem perdão. É atentar contra a sacralidade de um Manual Doutrinário que, não importa quando foi estabelecido, nem as circunstâncias históricas em que tal se deu, aceitam que as formulações ali contidas têm a aura da infalibilidade. Um amigo foi fazer um curso de teologia contemporânea dado por uma pessoa recém-chegada com o título de ThD (Doctor in Theology). Ele começou na patrística, foi até Calvino e terminou seu curso. Meu amigo o questionou sobre os teólogos contemporâneos e ele disse que, depois de Calvino, não houveram mais teólogos.
Falar o novo, pensar o diferente, perguntar sobre o estabelecido é garantia de ser rotulado como herege. Herege não é um título que alguém se dê a si mesmo. Encontrar-se-ão milhares dos que se afirmam ortodoxos, conservadores, fieis à Palavra, fundamentalistas. Mas alguém que, sem estar sendo irônico, se caracterize como herege, é algo raro, incomum mesmo. Herege é sempre o outro. Dizer que o outro é herege é um ato de exercício de um pretenso poder de julgar quem é quem e quem está certo ou errado. Neste processo muitos foram sacrificados pelos donos do poder eclesiástico, tanto nas inquisições, como nos tribunais eclesiásticos das igrejas não-católicas.
Se perguntar criticamente sobre a fé e a confissão é ser herege, devo admitir que o sou. Por estar em uma denominação, talvez a única no mundo, que se afirma como não-credal (não temos um credo) e não-confessional (não temos uma confissão de fé), não há lugar para ser herege no seio dela. Nela não há quem tenha a autoridade de dizer: “você está errado”. O máximo que podemos é discordar, dizendo: “eu não penso como você”. Posso até dar as razões pelas quais creio diferente, mas sem acusar ou discutir opiniões.
No seio desta denominação, por isto, se pratica a hermenêutica comunitária, onde todos podem e devem participar da interpretação do texto estudado naquele momento. É no exercício de todos os dons presentes na comunidade que se dá a interpretação consensual. Nela o perguntar é virtude, o discordar é maturidade, o afirmar o que se pensa é essencial.
Marcos Inhauser
Professor, pastor, teólogo e educador corporativo Textos escritos para a coluna semanal no Correio Popular, da cidade de Campinas e texto escritos depois de 2021, que tratam de temas nacionais, internacionais, sobre igreja e teologia
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quarta-feira, 26 de outubro de 2016
A HERESIA DO PERGUNTAR
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quarta-feira, 19 de outubro de 2016
FÉ? O QUE É ISTO?
Há enorme quantidade de gente que, perguntada sobre o que é a
fé, não hesitariam em responder com a afirmação constante no livro dos Hebreus:
“a fé é o firme fundamento das
coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não veem” (Hb 11:1). No entanto, a definição
acima traz dificuldades intrínsecas, uma vez que só se aplica às coisas que se
esperam e às que se não veem. Interpretada a definição literalmente, não há fé
nas coisas passadas e nem nas que se veem.
Se ela só se aplica ao que se espera, como ter fé no Jesus
histórico que veio e que é fato do passado? Como crer nos relatos bíblicos da
libertação do povo de Deus do Egito, nas pragas, na passagem do Mar Vermelho e
outras narrativas do passado? Se são passado, já não são alvo de espera e se
não o são, não são objeto da fé.
Como fica a narrativa de Tomé que precisou ver para crer? “Se
eu não vir o sinal dos cravos nas suas mãos, e não meter o dedo no lugar dos
cravos, e não meter a minha mão no seu lado, de maneira nenhuma o crerei” (Jo
20:27).
Se olharmos para o Antigo Testamento e para as narrativas de
fé que ali se encontram, vamos perceber que não há nele um manual de crenças,
ou um compêndio de teologia conceitual. Antes, pelo contrário, vamos encontrar
uma coletânea de narrativas de fé de que Deus estava agindo na história a favor
do seu povo. Parece mais uma página de um diário de fé nos atos de Deus. Criam
no Deus da história que faz dela o seu palco revelacional. Deixar de ver nas
minúcias dos atos históricos concretos o agir de Deus é cegar-se à revelação.
Pasma-me que os púlpitos e os cânticos em moda nos templos
pouco ou nada façam desta leitura do agir de Deus na história hoje. Parece que
as prédicas ensinam um Deus que morreu no passado, ou em um Deus catatônico que
deixou de agir e está paralisado. Ficou mudo no dia em que, sábios teólogos
concluíram quais os livros que fazem parte do cânon e depois disto proibiram
Deus de continuar falando e se revelando.
Olham para o passado para encontrar histórias bonitas de como
Deus agiu, mas são cegos para o presente e para os atos de Deus na história
brasileira, latino americana e mundial do ano de 2016. O Deus mudo e catatônico
das modernas pregações se limita a curar enfermos, expulsar demônios e dar
prosperidade aos bispos de igrejas gananciosas.
Deus encolheu. Foi exuberante no passado, mas perdeu seu
brilho e vigência no século da tecnologia. Como discípulos devemos viver das
glórias do passado, ir aos templos que são museus a contar histórias antigas,
preservar a memória de um povo, e acreditar que um dia a glória será
restabelecida na mesma Jerusalém de antanho. Ele fazia milagres e hoje ... bem
.... hoje ... é diferente.
Mais que pregadores, deveriam ser “leitores da história”. Como
disse o Karl Barth, um bom pregador é o que tem a Bíblia em uma mão e o jornal
na outra. Um iluminando o outro. O jornal trazendo luzes para a leitura bíblica
e a Bíblia iluminando o entendimento dos acontecimentos atuais.
Um Deus fora da história é marionete nas mãos de pregadores
analfabetos e inescrupulosos.
Marcos Inhauser
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quarta-feira, 12 de outubro de 2016
SOMOS?
Na
narrativa bíblica se conta que Moisés teve o seguinte diálogo com Deus: “Moisés perguntou: Quando eu chegar diante dos israelitas e lhes disser:
O Deus dos seus antepassados me enviou a vocês, e eles me perguntarem: ‘Qual é
o nome dele? ’ Que lhes direi? Disse Deus a Moisés: Eu Sou o que Sou. É isto
que você dirá aos israelitas: Eu Sou me enviou a vocês" (Êxodo 3:13,14). A
expressão Eu-sou-o-que-sou só pode ser dita por Deus sobre si mesmo. Ninguém
mais pode afirmá-la.
Digo isto
porque, nós, humanos, não somos um “eu-puro”, um “eu-sou-eu-mesmo”. Somos, sim,
a somatória das obediências que prestamos a quem nos deu ordens e formou a
nossa forma de ser. Sou a somatória das ordens recebidas e para as quais não
tive poder de desobedecer.
Cada um de
nós tem algo de si mesmo, mas tem também um monte de coisas que os pais, a
família e a sociedade impuseram sobre nós. Ninguém pode dizer “eu-sou-eu
mesmo”, “eu-sou-só-eu”. Como já disse Ortega y Gasset, somos nós mesmos e o
contexto em fomos criados, as influências que recebemos.
Ainda que
haja no português e, mais especificamente no Brasil, a expressão
“e-sou-mais-eu”, ela não se refere ao grau de autonomia do eu, mas ao grau de
autoconfiança e autoestima que a pessoa tem.
Se somos
esta mistura de autonomia e heteronomia (a lei própria e a lei dos outros sobre
nós), ninguém pode se arvorar em ser completamente independente das pressões,
injunções, constrangimentos e obediências prestadas, ainda que de forma
inconsciente ou até mesmo consciente, as circunstâncias não permitem
desobedecer.
Assim, o
comportamento individual não é só um ato de volição autônomo, mas, antes, um
ato de obediência ou rebeldia. A obediência se dá quando o nível de poder não
permite outra coisa a fazer senão o que lhe pedem, ensinaram ou a sociedade
exige. O nível de desobediência se dá no exercício consciente da desobediência
pela avaliação de que se tem poder para enfrentar as consequências. Diante
disto, há mais “eu” nas rebeldias que nas obediências.
Isto posto,
digo que o conservador é um “ser-sem-opinião-própria” porque repete ad nausean o que lhe ensinaram e não tem
a mais mínima possibilidade, em função das coisas que lhe ensinaram e do poder
sobre ele exercido, de romper o círculo ideológico que o mantem preso. E quando
se trata de um “conservador-religioso” a coisa fica ainda mais complicada
porque o poder de quem ensinou as coisas que repete qual papagaio vieram com a
aura da infalibilidade, da Vox Dei, e afirmar algo diferente é pecado e
passível de condenação eterna. Pensar, refletir e se posicionar autonomamente é
desvio da fé, é ser herege, apóstata.
Fica assim
proibido o fazer perguntas ao texto sagrado, seja ele Bíblia, Alcorão, Bhagavad
gita ou algo assemelhado. Os dissidentes (os que pensam e tem posições
autônomas) são infiéis e merecem a morte. Isto explica a guerra entre xiitas e
sunitas, entre reformados e pentecostais e neopentecostais. Todos são donos da
verdade. E se são donos da verdade, quem não repete e não obedece o que
ensinam, merece morte e castigo eterno.
Fica fácil
entender porque tantos são mandados ao inferno pelos fundamentalistas,
conservadores e assemelhados. Na constelação dos eu não-pensam-mas-repetem, a
graça de Deus é heresia, o perdão é abominação e o amor ao inimigo é coisa de
louco varrido.
Marcos Inhauser
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quarta-feira, 5 de outubro de 2016
PERPETUAÇÃO POLÍTICA
Nenhum poder político é natural e inerente. Sempre é
concessão via votos, eleições ou, em casos extremos e recrimináveis, via
violência do golpe ou pelas “vias constitucionais” (vide exemplo da Venezuela e
Bolívia). Nenhum poder político é eterno. Mesmo os mais poderosos imperadores e
reis sucumbiram pela morte, deposição ou queda. O exercício do poder
democrático é o exercício do diálogo, ao contrário do poder autocrático que é o
monólogo de “um-que-tudo-sabe”. Na democracia se busca a maturidade cidadã (ao
menos é o que se espera), na autocracia se produz o paternalismo.
Por outro lado, já dizia Maquiavel, que não há posse mais
duradoura que a ruína. Quem se torna senhor de uma nação livre e não a destrói,
será destruído por ela. O desejo de liberdade não se esquece nunca e ele será o
motor para destronar os reis que arruínam a vida do seu povo.
O exercício do poder político se dá sobre um determinado
povo e espaço geográfico. Não há controle remoto nesta matéria. Quando os
poderosos deixam de cooperar para o bem do seu povo, mesmo que antes o tenham
feito, este mesmo povo, anteriormente beneficiado, se levantará contra para
recuperar o que lhe foi tirado ou para ampliar o que tem. Quando o povo tem os
benefícios e estes se mantêm iguais por um longo período, a insatisfação cresce
e o poder político está ameaçado. Eis, assim, o paradoxo: se não dá o que o
povo espera, é derrubado. Se dá e se mantém no mesmo nível, o povo se insurge
querendo mais.
Como todo poderoso tem o desejo de se tornar eterno no poder
e que seu reinado se perpetue na lembrança do povo, precisa ele ser hábil nas
concessões e na administração das insatisfações. Ser eterno, eis a questão.
Para que este projeto se realize, precisam conquistar o
poder, prometendo ao povo, aos mais necessitados, aquilo que anseiam porque
vital para eles: saúde, educação e segurança. Daí porque os discursos de
campanha se repetem a cada nova rodada.
Na história recente do Brasil viu-se projetos que esperavam
vinte ou mais anos de poder. Se inicialmente produziram alguns benefícios para
o povo, enveredam-se por caminhos os mais desastrados possíveis. Assim foi o
Sarney com o Plano Cruzado que redundou na hiperinflação (ainda que, dizem as
más línguas, ele se eternizou no poder); assim foi com o Collor e sua “caça aos
marajás”, que redundou na sua própria caçada e de seu tesoureiro. O FHC com sua
ambição produziu o advento da reeleição e, depois de terminar seu mandato,
muitos dos seus tinham vergonha de colocá-lo ao lado nas aparições públicas.
Assim foi com o PT: do “Fome Zero” para o Mensalão e Petrolão.
Muito se fala que o povo não sabe votar. Isto é verdade em
parte. Muitos dos corruptos, dos malandros, dos propineiros não conseguiram se
eleger ou se reeleger. Ficaram pelo caminho. Partidos há que encolheram,
perdendo votos, prefeituras e representação nas Câmaras Municipais. O PMDB
encolheu 12,5% e o PT bateu os 60,9%. Como toda regra tem sua exceção, o PP,
todo enrolado com a Lava Jato, manteve-se praticamente igual: -0,1%.
Houve significativa renovação nos quadros políticos, o que
dá certa esperança de que gente nova terá novos hábitos e nova forma de fazer
política. E assim deve ser, haja visto a alta taxa de abstenção, votos nulos e
em branco. Somados, pode-se entender como uma nota Zero para a classe política.
Marcos Inhauser
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quarta-feira, 28 de setembro de 2016
MUDANÇAS À VISTA?
Atribui-se a Churchill a frase de que a democracia é um
péssimo sistema de governo, mas ainda é o melhor que conhecemos. Tenho que
concordar com ele, especialmente quando se considera que a democracia é feita
por eleições baseadas no poder aquisitivo dos candidatos, o que permite maior
exposição e chance de ser lembrado na hora do voto.
Com as mudanças havidas na legislação brasileira impedindo a
doação de empresas, estabelecendo teto de gastos segundo as cidades, fazendo o
cruzamento dos dados de arrecadação com o CPF dos doadores, algo mudou na forma
eleitoral brasileira. No entanto, ainda não são mudanças radicais, haja visto
que o ex-prefeito de Campinas, que tem seus direitos políticos cassados,
apresenta-se como candidato e consegue manter a candidatura sabe lá Deus como.
Neste novo modelo de arrecadação via contribuição de pessoas
físicas, já se sabe que muitas maracutaias foram feitas e que mais ou menos 30%
das contribuições são questionáveis: mortos doando, gente com bolsa família
doando, funcionários de prefeituras doando o salário integral, um candidato do
Paraná que deu para a sua campanha mais do que todo o seu patrimônio declarado.
Acredito que mais maracutaias aparecerão. Explico-me com
este exemplo. Na minha declaração de Imposto de Renda do ano que vem não
declaro nenhuma contribuição partidária ou para algum candidato. Se algum
candidato, inescrupulosa e sorrateiramente, usou meu CPF para declarar alguma
contribuição, a Receita virá por cima de mim. Como provar que não dei? Se fosse
para provar que dei, teria um recibo. Como não tenho como provar a
inexistência, corro o risco de ser tributado pelo que não doei.
Com estas que já apareceram e outras que aparecerão, com
candidatos semi ficha suja (estão condenados em primeira instância), com
verdadeiros 171 se apresentando como éticos e probos e com poder de fogo na
mídia, com vereadores carregados de assessores pagos com dinheiro público,
prefeitos com centenas de cargos comissionados a garantir votos próprios, dos
familiares e na cabala, fica difícil haver uma mudança radical no cenário
político municipal.
Há que considerar-se ainda que os deputados estaduais e
federais se envolvem de cabeça nesta eleição, porque dependem dos vereadores e
prefeitos para conseguir votos nas suas respectivas eleições.
É verdade que o terremoto que se abateu sobre a classe
política, especialmente sobre o PT, PP e parte do PMDB, fez com que houvesse um
rearranjo de forças, especialmente nas eleições dos prefeitos das capitais.
Estas mudanças implicarão em um novo arranjo político na macro política, ainda
que não se deve desprezar a capacidade dos profissionais do voto de se
articularem para sempre estar por cima. São surfistas do poder: sempre pegando
a onda.
Tenho esperanças, mas prefiro ser realista. Haverá mudança,
mas não no tamanho que a população espera e nem na medida que se precisa ter.
Mas, antes algo que nada!!
Marcos Inhauser
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quarta-feira, 21 de setembro de 2016
MUDARAM A MOSCA, MAS …
Sai uma, o Eduardo Cunha, mas o monte permaneceu. E a mosca
que o substituiu tem o mesmo DNA da mosca antecessora.
A certeza veio da maracutaias celebrada na segunda-feira
próxima passada, com as bênçãos do Rodrigo Maia e do Renan, para a aprovação,
por baixo dos panos, de um projeto de lei prá lá de safado: anistiar deputados
que fizeram caixa dois nas campanhas. Por ser beneficioso, a sua aplicação pode
ser retroativa. E todos os desmandos das campanhas seriam colocados neste item.
O argumento do “caixa dois” foi o que se usou para diminuir
a culpabilidade e a pena dos envolvidos no mensalão. Se o dinheiro usado é
lícito e de boa origem, por que o esconder com subterfúgios contábeis? A quem
interessa esconder os recebimentos e pagamentos? Quantos ficaram ricos com as
“sobras de campainha”?
A prevalecer esta maracutaia, as doações com propina feitas
aos partidos e candidatos, serão “caixa dois” e anistiadas por lei feita de
encomenda e para benefício dos próprios legisladores. É o criminoso se
inocentando por sentença auto-proclamada.
E quem estava neste rolo? A julgar pelas notícias que vieram
à luz, parece que quase todos os partidos, representando os impolutos deputados
e senadores que se valeram e ainda se valem dos descaminhos para se reeleger.
Com estas artimanhas e patranhas, percebe-se e sabe-se hoje porque é tão
difícil renovar a Câmara e o Senado. Além do salário, tem as verbas mil, e um
monte de aspones para sair a campo e trabalhar a candidatura do chefe, forma de
garantir a continuidade no emprego. Concorrer com eles, sem as verbas, a
visibilidade na televisão pública, sem a capacidade de legislar em causa
própria, renovar é tarefa tão hercúlea quanto carregar o mundo nas costas.
Espetáculo de igual fedentina se deu e se concretizou no
fatiamento da votação do impeachment. A artimanha engendrada nos bastidores e
negociada com o presidente do STF (a julgar pelo que se descobriu e noticiou).
Ele foi chamado de ato vergonhoso por um ministro do próprio STF e de algo
estranho por outro.
Quando a Justiça Eleitoral, que já a chamei de ELENTOral,
começa a dar sinais de que está se modernizando e usando dos meios eletrônicos
para flagrar em tempo real as maracutaias de candidatos à eleição e reeleição;
quando, antes mesmo do pleito, já se flagrou defunto doando para candidato;
beneficiário de bolsa família contribuindo regiamente para as campanhas de
candidatos e nem conhecem; quando um deles deu para sua campanha mais que todo
o capital que diz ter; quando vídeos mostram “pastores” em meios cultos,
pedindo votos e orações para os candidatos por eles indicados; quando
religiosos 171 se apresentam como ovelhas beatificadas, mas manchadas por
processos de apropriação indébita e ações de despejo; quando a população tem
participado denunciando a propaganda eleitoral irregular, a manobra dos
deputados nesta segunda é deplorável, vergonhosa e digna de mafiosos.
A nota de destaque positiva é que, diante do clamor popular,
ou diante do medo do clamor popular, a votação foi retirada de pauta. Uma
vitória temporária, porque, com certeza, aparecerá como emenda jabuticaba em
alguma medida provisória, tal como já ocorreu inúmeras vezes.
Cabe a nós população vigiar e orar, porque os ladrões nos
assaltam a toda hora. Se antes se dizia que não se sabe a hora em que ele vem,
agora se sabe que a cada sessão da Câmara ou do Senado ou de ambas no
Congresso.
Marcos Inhauser
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quarta-feira, 14 de setembro de 2016
DUAS MUDANÇAS SIGNIFICATIVAS
A data de 12 de setembro poderá ser lembrada no futuro como sendo o dia
em que duas mudanças significativas ocorreram no cenário brasileiro. A saída do
Lewandowsky da presidência do Supremo Tribunal Federal e a cassação do Eduardo
Cunha.
Quanto ao primeiro, quem me lê com certa assiduidade, sabe que sempre o
critiquei e afirmei que ele não tinha postura e competência para assumir um
cargo no STF, muito menos na presidência da corte. Sua atuação no processo do
Mensalão, a meu ver, sempre foi criticável e atenuante, como para eximir os
envolvidos de suas culpas e responsabilidades. Se já não gostava dele, tenho
hoje ainda mais motivos para manter-me nesta posição, em função da sua
escorregada como presidente do STF e condutor da votação do impeachment, ao
permitir o fatiamento da decisão. Versões e mais versões dão conta de que o
assunto foi tratado/negociado com ele de antemão e há quem veja neste seu ato,
um agradecimento a quem o indicou ao STF.
A sua substituta, pelo menos, tem mais seriedade e menos apreço aos
holofotes (coisa que o Gilmar Mendes e o Marco Aurélio adoram). Sua saudação ao
povo brasileiro é fundamental em se tratando de uma corte onde o povo quase nenhum
acesso tem, pois ela tem tratado muito mais de assuntos pertinentes aos
poderosos e ricos. Fico em polvorosa com o seu vice, futuro presidente o
Toffoli. Que a saída do Lewandowsky seja também a saída da justiça feita sob a
luz dos holofotes.
Quanto ao Eduardo Cunha, tudo o que se diga, ainda é pouco. Com uma
capivara que se estende desde as primeiras aparições na vida pública, ele
representa um tipo de fazer política que deve ser apagado e escorraçado da vida
nacional. Os rolos na Telerj, o convite para que fosse tesoureiro no RJ da
campanha do Collor, seus métodos de intimidação e clientelismo (haja visto a
afirmação feita a um dos delatores e por este trazido a público de que
sustentava mais de 200 deputados), sua inteligência maquiavélica e maldosa, os
arroubos na defesa sem nunca provar o que diz (nunca mostrou uma só lata da
carne que diz ter vendido; nunca permitiu o acessos aos passaportes que,
segundo ele, comprovariam as suas idas ao país africano, nunca mencionou um só
dos seus clientes), suas falaciosas argumentações para provar que o que é seu
não é seu, que Trust não é conta, no que pese governos suíços e brasileiro, em
várias instâncias assim afirmarem.
Auto apresentado como evangélico (ainda que nunca soube conceitualmente
o que este termo significa), trazia suas mensagens, tem 228 sites (ejesus.com)
e gasta mais de R$ 11.000, por mês para hospedá-los. Muitos destes são de cunho
religioso como, por exemplo: youtubejesus.com.br, facebookjesus.com.br e gmailjesus.com.br.
Sites de compras coletivas também ganharam versão religiosa. É o caso docrenteurbano.com.br e do shoppingjesus.com.br.
No seu afã de vincular seu nome à uma denominação, não teve escrúpulos
em fazer doação suspeita a uma Igreja da Assembleia de Deus, que está sob
investigação. Ele não teve escrúpulos para colocar a esposa e filhas enrascadas
nas suas falcatruas. Atrevido nas suas investidas ao dinheiro público, cruel no
trato com quem lhe deve, ardiloso ao ponto de usar seu computador para fazer
petições intimidatórias e dar para uma assecla assinar e apresentar, cínico no
seu sorriso e argumentação, ofensivo ao ponto de voltar as costas a quem dele
falava, Eduardo Cunha é exemplar da pior espécie de político.
Que sua cassação e afastamento da vida pública seja também o afastamento
desta forma de se fazer política.
Marcos Inhauser
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quarta-feira, 7 de setembro de 2016
ERROMENÊUTICA
Não é a
primeira vez que ouço sermão ou leio textos que trabalham sobre o tema do amor
na Bíblia e que o mesmo tipo de má interpretação acontece. Refiro-me ao
clássico texto do “amarás ao Senhor teu Deus sobre todas as coisas e ao teu próximo
como a ti mesmo”. O erro está no fato, costumeiramente praticado, de ver no
texto três mandamentos: amar a Deus, ao próximo e a mim mesmo, como se fossem
três coisas distintas e que se pode observar por parcela ou na integralidade
segundo uma escala de valores.
Há não
muito tempo estive em uma igreja como visitante e outra vez ouvi o descalabro
desta erromenêutica. Afirmou o “pregador” que Jesus nos ensinou três coisas
essenciais à vida cristã e que as três devem ser observadas em ordem. Primeiro,
disse ele, temos que amar a Deus. Se não O amamos antes de tudo e sobre tudo,
não estamos habilitados a amar a nós mesmos e ao próximo. Só depois de cumprido
este mandamento estaremos aptos a passar para o cumprimento do segundo
mandamento. Afirmou ainda que é possível amar a Deus sobre todas as coisas e
não amar ao próximo e a mim mesmo. Seria uma obediência parcial, mas válida.
Neste
momento, em mais uma prática da erromenêutica e da má fé, inverteu a ordem do
texto e disse que, em segundo lugar, devemos amar a nós mesmos. Como condição
para isto, devemos estar conscientes de que Deus nos fez como somos, devemos
amá-lo sobre todas as coisas e entender que, criaturas de Deus feitos à sua
imagem e semelhança, devemos nos amar.
Quando
cumprimos a primeira e segunda partes do tríplice mandamento, podemos e estamos
habilitados para amar ao próximo. Não podemos amar ao outro se não nos amamos e
não conseguimos nos amar se não amamos a Deus.
Não
preciso dizer que a esta altura eu já estava na ponta dos pés para sair dali.
Mas aguentei firme e ouvi a pérola: “amar ao próximo é o último dos mandamentos
essenciais da vida cristã. É possível ser verdadeiro cristão cumprindo os dois
primeiros”.
Pasma-me
a negligência teológica e prática das igrejas no amor ao próximo. Se no Antigo
Testamento os dízimos trazidos à Casa do Senhor eram para que mantimento
houvesse para suprir aos necessitados, hoje a ênfase é na compra dos
equipamentos de som, no ar condicionado, no pagamrntos das horas de televisão
ou rádio, na reforma, na suntuosidade e pouco ou nada se faz pelo necessitado.
Algumas montam uma cesta básica por mês e acham que já fizeram a sua parte
social.
O
mandamento é único e indivisível. Não há como amar a Deus sem me amar e ao
mesmo tempo amar ao próximo. Se amo ao próximo e por ele faço o que precisa ser
feito, passa a amar-me e amo a Deus que o fez a mim também. Como posso amar a
Deus a quem não vejo se não amo meu irmão a quem vejo, pergunta o escrito da
carta joanina. Colocar uma hierarquia na obediência do mandamento, fazer do
único mandamento um picadinho de mandamentos, estabelecer prioridades no amor,
é erromenêutica, coisa de analfabeto bíblico e teológico.
Marcos
Inhauser
quinta-feira, 1 de setembro de 2016
NÃO SOUBE PARAR
Em viagem, passei o dia de sábado em quarto de hotel, com
chuva e vendo o desenrolar das coisas no Senado. Ouvi cada pergunta e cada
resposta. No domingo li o que eu pude sobre o processo de impeachment, ouvi
programas específicos com especialistas e análises. Nesta segunda, assim que
voltei ao hotel, tive a pachorra de ouvir na íntegra o discurso da Dilma, assim
como peguei algumas das respostas que a Dilma deu às perguntas de senadores.
Há neste processo algumas coisas que quero salientar e
comentar nesta coluna. A primeira é que, passados vários meses insistindo no
mesmo discurso de golpe, os aliados da presidente não conseguiram reverter um
só voto. Isto ficou claro na votação para a admissibilidade do processo e na
votação na comissão. A proporção foi a mesma.
A segunda é que, no que pese todo o esforço feito, pouca ou
nenhuma explicação plausível foi dada para os fatos apontados e denunciados. A
tese do golpe foi repisada mil vezes, sem que nenhuma novidade fosse
adicionada. Como diria o Einstein (ao menos é a ele que se atribui a frase):
nada mais idiota do que esperar resultados diferentes fazendo sempre as mesmas
coisas. Foi o que ela e seus aliados fizeram.
A terceira é que a tropa de choque no Senado foi histérica e
histriônica. As atitudes, os comportamentos e as atuações das senadoras Gleisi
e Graziotini, e do senador Lindenberg foram causadoras de uma atitude de
defensiva e recusa de qualquer possibilidade de se dialogar.
A quarta é que não se esperava que a presidente fosse pessoalmente
ao Senado se defender. Ela o fez. E o seu discurso lido foi um posicionamento
claro, coisa não comum nas falas da presidente. Se ela tivesse parado e ficado
nele, teria conseguido desmontar muita coisa. Ela, no entanto, cedeu à tentação
de responder às perguntas. Aí a coisa se complicou.
Eu me explico. Se ela tem alguns neurônios na cabeça e se
tem ouvidos para conselhos, deveria ter feito o discurso e se retirado. Ela
sabe e todos sabem que a votação está definida. Ela sabe e todos sabem que não
vai se reverter o resultado previsto do processo. Se ela sabia que não mudaria
os votos e o resultado, porque insistir em responder perguntas? Será que havia
nela e no grupo a veleidade de que poderiam mudar as coisas? Se ela tivesse
denunciado que estava ali em um julgamento que já havia se definido há tempos,
por que ela não acentuou a característica de jogo marcado do julgamento?
Teria marcado posição, teria feito um discurso para a
história e deixaria a sala se recusando a participar de uma coisa pró-forma.
Teria sido mais contundente se recusasse a responder aos questionamentos. Do
bom discurso inicial ela passou a um péssimo desempenho ao responder as
perguntas, assumindo o tom arrogante, professoral e a insistência nas
expressões “eu acho”, “estou convencida”. Nada de mea culpa para uma recessão de magnitude nunca antes vista, para a
insistência em manter o eterno ministro das desgraças econômicas, o responsável
pela “contabilidade criativa” (Mantega, que não está sendo julgado pelas
lambanças que fez). Nenhuma menção a Lula, ao PT, aos apoiadores enrolados com
a justiça (Lindenberg, Gleisi, Wagner, Mercadante, Lula, Humberto Costa, e
outros mais).
Ela não soube parar. Falou mais do que devia e a sobriedade
e sabedoria ensejavam. Foi verborrágica de uma tese só: repetitiva e irritante.
Marcos Inhauser
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quarta-feira, 24 de agosto de 2016
QUANTO CUSTA UMA MEDALHA?
Havia me proposto a não falar das Olimpíadas porque, diante da profusão de notícias, comentários e críticas, eu seria repetitivo. Mas, cedo à tentação. Li no site da UOL que cada medalha que o Brasil ganhou custou R$ 194 milhões. O levantamento considera os investimentos diretos feitos por estatais, isenção, loteria, Forças Armadas e Ministério dos Esportes no período compreendido entre Londres e Rio de Janeiro.
Será este o único investimento? Estive em Seul alguns anos depois da Olimpíada e visitei algumas das construções feitas para as Olimpíadas de 88, assim como visitei as instalações de Beijing. Uma das coisas que ouvi nas duas cidades de moradores delas é que os complexos olímpicos se tornaram elefantes brancos.
Penso também no que custa uma medalha em termos de sacrifício pessoal. Inúmeros foram os que salientaram o tempo que estiveram afastados de suas famílias, da privação de muitas coisas, para que pudessem chegar onde chegaram. Michael Phelps, Usain Bolt, as duplas Diego e Nory, Jader e Flavinha, Alison e Bruno e muitos outros falaram, alguns com lágrimas, o quanto se esforçaram e sofreram (literalmente) para conseguir algo.
Virou bordão (ao menos na Globo) que a dor é o uniforme do atleta olímpico. As marcas de ventosa no ombro do Phelps, os muitos esparadrapos para enganar músculos doloridos, as baixas por contusões, os acidentes (Annemiek van Vleuten, ciclista que capotou na curva; Samir Ait Said que quebrou a perna ao saltar, e outros) provam que não falavam irrealidades. De um total de 11.544 atletas que participaram, quase 10% deles tiveram lesões. Os relatórios médicos das 92 delegações nacionais, revela que a metade dos 1.055 atletas que se machucaram durante a Olimpíada tiveram problemas nas pernas ou nos pés e outros 100 sofreram com contusões na cabeça. O boxe, o futebol, handebol, o hóquei, o tae-kwon-do e o levantamento de peso foram os que mais lesionaram atletas.
Para os que “chegaram lá”, será que vale a pena, se se considera a quantidade de dores sofridas e que, na quase totalidade dos casos, os acompanhará pelo resto da vida? O prazer de mostrar uma medalha compensa o sofrimento atual e futuro?
Fico a pensar que um dos charmes das Olimpíadas é a quebra de recordes. No entanto, um dia eles acabarão. O ser humano chegará ao seu limite. Depois, o que se terá, será a manutenção do que já se conseguiu? Será que alguém, algum dia, pelo uso tão somente de suas forças e músculos, conseguirá baixar o que já se conseguiu nos 100 metros rasos, ou nos 200 metros. Será que o recorde mundial do Cielo poderá ser superado? Quando o for, sobrará qual motivação para os atletas? Se não há mais chance de quebrar recordes, para que servirão as Olimpíadas?
É verdade que os esportes promovem o congraçamento dos povos e que as Olimpíadas se constituem em evento ímpar para isto. No entanto, deve-se pensar que isto se faz em clima de competitividade, de subliminar mensagem de superioridade desta ou daquela nação. Não fosse isto, por que a Rússia teria investido tanto em dopar seus atletas? Por que o “quadro de medalhas” é tão cobiçado e divulgado? O que dizer da música, da poesia, da literatura? Seria o caso de se ter eventos mundiais para estes segmentos?
Marcos Inhauser
Será este o único investimento? Estive em Seul alguns anos depois da Olimpíada e visitei algumas das construções feitas para as Olimpíadas de 88, assim como visitei as instalações de Beijing. Uma das coisas que ouvi nas duas cidades de moradores delas é que os complexos olímpicos se tornaram elefantes brancos.
Penso também no que custa uma medalha em termos de sacrifício pessoal. Inúmeros foram os que salientaram o tempo que estiveram afastados de suas famílias, da privação de muitas coisas, para que pudessem chegar onde chegaram. Michael Phelps, Usain Bolt, as duplas Diego e Nory, Jader e Flavinha, Alison e Bruno e muitos outros falaram, alguns com lágrimas, o quanto se esforçaram e sofreram (literalmente) para conseguir algo.
Virou bordão (ao menos na Globo) que a dor é o uniforme do atleta olímpico. As marcas de ventosa no ombro do Phelps, os muitos esparadrapos para enganar músculos doloridos, as baixas por contusões, os acidentes (Annemiek van Vleuten, ciclista que capotou na curva; Samir Ait Said que quebrou a perna ao saltar, e outros) provam que não falavam irrealidades. De um total de 11.544 atletas que participaram, quase 10% deles tiveram lesões. Os relatórios médicos das 92 delegações nacionais, revela que a metade dos 1.055 atletas que se machucaram durante a Olimpíada tiveram problemas nas pernas ou nos pés e outros 100 sofreram com contusões na cabeça. O boxe, o futebol, handebol, o hóquei, o tae-kwon-do e o levantamento de peso foram os que mais lesionaram atletas.
Para os que “chegaram lá”, será que vale a pena, se se considera a quantidade de dores sofridas e que, na quase totalidade dos casos, os acompanhará pelo resto da vida? O prazer de mostrar uma medalha compensa o sofrimento atual e futuro?
Fico a pensar que um dos charmes das Olimpíadas é a quebra de recordes. No entanto, um dia eles acabarão. O ser humano chegará ao seu limite. Depois, o que se terá, será a manutenção do que já se conseguiu? Será que alguém, algum dia, pelo uso tão somente de suas forças e músculos, conseguirá baixar o que já se conseguiu nos 100 metros rasos, ou nos 200 metros. Será que o recorde mundial do Cielo poderá ser superado? Quando o for, sobrará qual motivação para os atletas? Se não há mais chance de quebrar recordes, para que servirão as Olimpíadas?
É verdade que os esportes promovem o congraçamento dos povos e que as Olimpíadas se constituem em evento ímpar para isto. No entanto, deve-se pensar que isto se faz em clima de competitividade, de subliminar mensagem de superioridade desta ou daquela nação. Não fosse isto, por que a Rússia teria investido tanto em dopar seus atletas? Por que o “quadro de medalhas” é tão cobiçado e divulgado? O que dizer da música, da poesia, da literatura? Seria o caso de se ter eventos mundiais para estes segmentos?
Marcos Inhauser
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quarta-feira, 17 de agosto de 2016
IGREJA É GENTE
Não entendo que seja
acidental o fato de que os evangelhos, as cartas e o Atos dos Apóstolos façam
qualquer menção a um edifício que abrigasse alguma comunidade cristã nos
primórdios da igreja. Sem espaço nesta coluna para me delongar na fundamentação
histórica e fática de tal afirmativa, relembro que Jesus pregou seus sermões no
monte, na praia, desde um barco, no interior de uma casa. Uma única vez o vemos
em uma sinagoga. Relembro ainda que quando ele foi a Jerusalém e ao templo pela
primeira vez, foi quando criança. Quando adulto, criticou o que ali se
praticava, tendo derrubado as mesas dos cambistas.
Por ter sido
perseguida, a igreja nascente teve que se esconder, fazer suas reuniões de
forma quase silenciosa, em Roma se reuniu nos subterrâneos (catacumbas), teve
seus líderes perseguidos, presos e martirizados.
Nos primeiros
trezentos anos da igreja não se falou em edifícios, templos ou coisa que o
valha. Tudo indica que isto começou a acontecer depois que o cristianismo foi considerado
a religião oficial do império romano, por obra e graça (para alguns, desgraça)
de Constantino. Porque agora era legal, oficial e abrigava o imperador, se
devia ter construções que abrigassem ao imperador e seu séquito. Ele mudou a
capital do império para Constantinopla (em homenagem a si mesmo) e ali
construiu um palácio eclesial que fosse digno de sua presença. Nascia assim a
catedral!
Esta associação do
templo com o palácio real também se deu nos tempos de Salomão que teve o seu
palácio ao lado do templo, com acesso privativo.
Esta associação levou
o cristianismo a um caminho desviante: confundir igreja com edifício. Igreja é
gente reunida em comunhão, nunca edifício. Igreja é feita de gente e não de
tijolos, telhas, bancos, púlpito e holofotes.
Igreja é gente reunida
em comunhão, que tem o compromisso de amar o próximo e ajudá-lo em suas
necessidades. Igreja é o compromisso de atender ao pobre, à viúva, ao exilado,
ao estrangeiro. Igreja é serviço, é doação, é lavar os pés.
Se olharmos para as
religiões templárias (as que se apresentam em função do edifício que têm), o
quanto arrecadam, o quanto gastam com a manutenção do patrimônio (limpeza,
conservação, água, luz, pintura, faxineiros, etc.), aliado ao uso semanal que o
elefante branco tem, constata-se que há um clamoroso desperdício de recursos na
construção e uso dos edifícios. E o pobre, a viúva e os demais necessitados
pouco ou nada tem de ajuda destas comunidades templárias.
Templos são locais
maravilhosos para os narcisos se exporem. Congregam centenas, milhares, todos
olhando à frente, para o iluminado pelos holofotes. Todos ouvem o que ele diz
porque um potente sistema de som irradia o que ele fala. Templo não é lugar de
conversa, diálogo, mútuo aprendizado, antes de exercício do monólogo do que
sabe, que “ instrui a horda que não sabe”. No templo não se exercita comunhão,
só a audição. No templo só ficamos sabendo das necessidades da organização:
precisamos de tantos mil para terminar a reforma disto, para pagar o programa
de rádio ou televisão, para reformar o telhado, etc.
No templo não se fala
do pobre, porque não são bem-vindos: precisam estar decentemente vestidos,
tomados banho e perfumados, como a maioria dos templários estão.
Igreja é gente, é
serviço de amor ao próximo, é comunhão íntima que se tem nos pequenos grupos.
Igreja é conhecer gente, é saber das suas histórias e necessidades, é
envolver-se com o outro. Igreja é ser família, a família da fé que é tão
família quanto pai, mãe e filhos.
Marcos Inhauser
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quarta-feira, 10 de agosto de 2016
NEYMAL E NEYMARTA
Sou leigo em futebol, mas sei quando um jogador está abaixo da média ou jogando mal. Não preciso de comentaristas esportivos para dar meu diagnóstico, ainda que os ouça e leia para me certificar da avaliação que faço. Assisti aos dois jogos da seleção olímpica e fiquei irritado. Ainda mais com as explicações dadas: “jogamos bem, só faltou a bola entrar”.
Há tempo venho atravessado com o Neymar. Ele me faz lembrar algo que ouvi no Peru sobre o Alan Garcia: “ele é pomada, só serve para uso externo”. Ele me dá a impressão de que só joga no Barcelona e aí me pergunto: será que joga porque tem bom meio de campo para lhe dar bolas açucaradas e companheiros como Messi e Suarez para azeitar as coisas? Porque, até hoje, e até onde minhas lembranças alcançam, ele não teve nenhuma atuação destacada e brilhante jogando pela seleção? A camisa amarela pesa?
Mais que isto: porque, de forma irresponsável, se envolveu em encrencas que o tiraram dos jogos da seleção. Não gostava do Dunga? Ou a seleção não faz parte dos seus planos? O seu descontrole ao final da última partida, na condição de capitão da seleção, é porque estava emocionalmente comprometido ou algo pensado e executado para cair fora dos jogos e do certame, tal como ocorreu na Copa América? Ainda não entendo como uma pessoa que teve uma vértebra fraturada com uma joelhada nas costas, pôde, poucos dias depois, estar à beira do campo pulando e torcendo pelos companheiros. Ele se livrou por sorte do 7 x 1 ou já sabia algo de antemão? Como não censurar quem deixou a seleção por expulsão e no mesmo dia estava em balada com os amigos?
Como um craque como ele, jogando pela seleção, erra tantos passes, perde tantas bolas e não dá um chute certeiro quando bate falta? Que tenha um dia de baixa, se entende. Mas ter 180 minutos e não fazer nada é suspeito.
Como dar a ele a condição de capitão se já mostrou que é esquentado e, de forma irresponsável, arruma confusão. Pode um capitão, no que pese a força de um contrato, sair sem dar uma palavra à imprensa, nem ao término da partida, nem depois do jogo?
Quando a torcida comparou Neymar à Marta não estava ironizando. Ela percebe a diferença de postura, atitude e comportamento entre ambos. Do lado da Marta sobra humildade, empenho, compromisso e qualidade. Os muitos memes, as muitas piadas e a repetição do coro pedindo a Marta na seleção masculina quando do jogo contra o Iraque, mostra que o Neymar está Neymal. Ela já foi escolhida cinco vezes como a melhor do mundo e com todos os méritos. Ele nunca o foi e se continuar assim nunca será.
O que a torcida espera é que o Neymar deixe de ser o incensado, badalado e alçado à condição de maior estrela do futebol brasileiro. Deixe de ser Neymal e passe a ser um Neymarta: aprenda com ela a jogar em equipe, ser sério, comprometido, humilde e menos baladeiro.
Marcos Inhauser
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quarta-feira, 3 de agosto de 2016
NUMEROLATRIA
Chama-me a atenção
como as igrejas e os membros delas estão obcecados pelos números. É só
perguntar a alguém qual a igreja que frequenta e, invariavelmente, dará o nome
da igreja e em seguida emendará alguns números: “temos um templo para 8.000
membros”, “nossa igreja tem 17 pastores”, “recebemos 154 pessoas por batismo no
domingo passado”, “a arrecadação da nossa igreja tem uma média de R$ 250.000
por mês”, “temos 345 grupos familiares”, “tivemos um culto abençoado e 87
pessoas foram à frente se decidindo por Jesus”, “nossa igreja sustenta 12
casais de missionários nos campos”, “estamos construindo um templo para 10.000
mil pessoas”, “fazemos a oração dos doze apóstolos”, “impetramos a benção dos
318 servos poderosos”, etc.
Cada qual quer impressionar
com a grandiosidade dos números apresentados, como se a pujança e o vigor de
uma comunidade estivessem nos números que apresenta. Eles avalizam a prática
ministerial, teológica, programática e doutrinária da igreja. É um tipo de “os
números validam a prática”. Quanto maiores forem eles, mais acertada estará a
comunidade no seu entendimento da vida religiosa.
Ao anunciar um
convidado especial, fazem 1questão de dizer que o mesmo é pastor de uma igreja
de tantos mil membros em algum local desconhecido, de preferência no exterior.
Dá mais autoridade ao convidado e a quem o convidou. Há pouco tempo fui buscar
um amigo que participava de uma convenção dos numerólatras. Com voz triunfante
anunciavam que há menos de 10 anos tinham começado com 55 pessoas reunidas e
que naquele momento estavam com 2.300 pessoas na atual convenção. E desafiavam
a todos para que, no próximo ano, chegassem a 5.000.
A busca dos números
superlativos para uma comunidade se transformou em uma idolatria. Eles são a
certeza da benção, da garantia do acerto da prática ministerial. Eles validam
qualquer prática, desde que os templos estejam cheios. Grupos pequenos são
sinônimo de fracasso.
Certa feita, convidado
a pregar em uma igreja que nunca tinha visitado, tive o pastor da Igreja
afirmando que a certeza de que Deus estava no meio deles era que havia gente
até do lado de fora do templo. Não aguentei. Mudei o sermão: “onde estiverem
dois ou três reunidos em meu nome, aí estarei”. Afirmei que só podia garantir a
presença de Deus, segundo as Escrituras, quando dois ou três estivessem
reunidos em Seu nome. Mais que isto era temerário. Não preciso dizer que nunca
mais me convidaram para pregar naquela igreja.
Arrecadação,
frequência, membresia, programas, festas, cultos especiais são o alvo maior
porque se pode contar e propagandear as façanhas. Comunhão, serviço ao próximo,
ajuda ao necessitado, visitas aos enfermos, apoio ao que sofreu perdas
significativas, não dão Ibope. Muitos frequentam esta ou aquela igreja porque
não precisam se envolver. Vão, assistem, e saem. Outros frequentam esta ou
aquela igreja e fazem questão de colocar um adesivo no carro, porque aquela
igreja tem grife, tem números!
Seria a ênfase nos
números uma necessidade para que uma comunidade se caracterize como igreja? É o
número dos que frequentam que validam a existência? É o tamanho do templo a
garantia de que se está em um local sagrado? São os 45 minutos de louvor que
fazem um culto ser uma benção? É o número de músicos à frente o que abençoa?
Se na antiguidade se
condenava o deus mamon e o da fertilidade, hoje se deve combater o deus da
grandiosidade e dos números.
Marcos Inhauser
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Marcos Inhauser
A NOBREZA DO ANONIMATO
Transcrevo aqui mais um texto do
meu amigo e colega Marcos Kopeska.
Acredito serem poucas as pessoas a
viver absolutamente satisfeitos com suas identidades e realizações. Parece que
temos a tendência de ambicionar ser o que não somos e vivemos insatisfeitos
como nossas conquistas e identidade. Ouvi a respeito de Julio Cesar, um dos
maiores estadistas da história que foi flagrado por um assessor em choro copioso
ante a estátua de Alexandre Magno. Quando perguntado da razão do choro,
respondeu em desconsolo: “Choro porque
não sou Alexandre, o Grande, que quando tinha mesma idade que tenho, conquistou
seu fabuloso império.” Cabe ressaltar que Alexandre Magno, da Macedônia, foi
o general mais vitorioso e de estratégias minuciosamente perfeitas, seguido por
Julio Cesar, imperador de Roma que veio quase quatro séculos depois.
Penso que em maior ou menor
escala, muitos de nós somos “Julio César”, chorando por não sermos quem gostaríamos de ser, comparando a idade que
temos com as idades que tinham nossos heróis quando dos seus grandes feitos. Acontece
que essa cobrança perversa nos impede de descansar naquilo que somos e nos tolhe
de sentirmo-nos dignos pelo que somos, no tempo em que chegamos onde chegamos.
Confesso que, em certa ocasião,
senti-me desnorteado sabendo que Charles H. Surgeon escreveu seu primeiro
tratado de teologia sistemática aos dezesseis anos de idade, enquanto aos
dezesseis eu nem ao menos falava em público. Senti-me inútil ao ler que Billy
Graham, aos trinta anos, já influenciava o mundo pregando sermões impactantes e
sendo conselheiro pessoal do presidente dos EUA, enquanto eu aos trinta, patinava
sofregamente no inglês e vivia enfurnado nos meus dilemas de pastor
interiorano. Senti-me inadequado quando olhava para quem tinha mais de cem
livros publicados, tinha doutorado em teologia, era conferencista, enquanto eu,
com quarenta e dois apenas administrava os caprichos de um grupo de líderes
nepotistas e confusos da igreja local. Confesso que demorei para fazer a oração
de Davi registrada no Saltério: “Senhor, não é soberbo o meu coração, nem
altivo o meu olhar; não
ando à procura de grandes coisas,
nem de coisas maravilhosas demais para mim.” (Sl 131:1). Cheguei
à conclusão que o que vale é a relevância
e não a importância. Descobri que,
por vezes, apenas o existir e cumprir fielmente nossa missão, é o maior legado
que podemos construir. Atinei-me de que, em muitas ocasiões, somos “João
Ninguém” aos nossos próprios olhos, vivendo na linha mediana da existência, não
obstante ao longo da história colocarmos em funcionamento importantes
engrenagens que farão parte do agir de Deus no tempo.
No presente não avaliamos os
desdobramentos que apenas se revelarão no futuro. Quando penso nisso, logo
lembro do discípulo de Damasco, Ananias, instrumento usado por Deus para orar
por Saulo de Tarso, quando da sua conversão e batismo do apóstolo. Ananias
batizou Saulo e desapareceu da história da igreja, enquanto Saulo se levantou
com inegável intrepidez para ser o maior teólogo e missionário da história. Ananias
foi uma destas engrenagens da história do cristianismo e o desdobramento foi a
evangelização do mundo de então. Ananias não foi importante, mas relevante.
Sendo assim, não sejamos afoitos
por holofotes, mas desejemos manifestar a soberania absoluta de Deus na cronologia
da vida, mesmo que você nunca venha a saber dos desdobramentos finais. Creia, nenhum
anonimato é pobre e desvalido, se Deus é soberano na história. Há nobreza em apenas
ser uma destas engrenagens da história quando o desfecho é a glória de Deus. Isso
nem sempre é importância, mas sempre será relevância.
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Marcos Kopeska
O AMOR NÃO É ...
O
amor não cobra. Quando se ama não há o direito de cobrança da pessoa amada pelo
fato de que o amor não pode exigir respostas positivas da parte da outra pessoa
receptora do meu amor. Ele é um ato incondicional da minha parte para com ela e
querer cobrar o outro pelo fato de eu o amar é uma desautorização do meu
sentimento, porque o ato da cobrança violenta o ato do amor e o transforma em
algo de significado zero.
O
amor não é proprietário. Amar alguém não confere o direito de propriedade. O
amor proprietário é um dos grandes problemas da humanidade e o é pelo fato de
que as pessoas, por amarem, se sentem donas do outro e no direito de controlar
a vida do outro, de estabelecer limites, seja para a roupa que veste, o cabelo
que pode ter, onde pode ir, com quem pode conversar. O amor não pode se sentir
dono do outro que só é o destinatário dos meus sentimentos e atos de amor. O
amor nunca toma posse. O amor possessivo, ciumento é doentio, é patológico.
O
amor não é investimento. Não se pode amar alguém hoje, fazer coisas em
benefício dele e amanhã cobrar alguma resposta, retribuição ou recompensa pelo
fato de eu o ter amado e o ter beneficiado. O ato do amor não exige pagamento.
O ato do amor é uma doação incondicional e gratuita.
Outra
característica do amor: ele é doação. Foi o que Deus fez. O texto diz: “porque
Deus amou o mundo, deu o seu filho”. Outro texto diz que Deus provou seu amor
para conosco no fato de ter Cristo morrido por nós, de ter se dado por nós.
Outro texto vai dizer que ninguém tem amor maior do que dar a sua vida em favor
do outro. Amar é entregar-se ao outro. Quando se dá não se espera nada em troca.
É
verdade que o ápice do amor é amar e ser amado por quem se ama. O clímax do
amor é ter o agradecimento do outro por ter recebido. Amar e ser amado por quem
se ama ou amar e receber a gratidão da pessoa amada não deve ser condicionante para
amar.
O
amor não precisa dar provas. Ele é a prova em si mesmo. O ato de amar, que é o
ato de fazer algo em benefício do outro é, em si mesmo, a prova inteira do amor
que se tem. O amor se vive e se faz presente no ato. Ainda que existam algumas
expressões, inclusive bíblicas, no sentido de dizer que Deus prova o seu amor
para conosco, o texto vai mostrar que a prova do amor está no próprio ato de amar.
Amar
não tem limites. Quando se ama, há entrega, doação completa. O amor não aceita
ou não impõe restrições. O amor libera as coisas positivas, os atos das pessoas
que amam e elas se sentem libertas, felizes. Ele também liberta as pessoas
amadas porque, ao receberem o amor, são por ele beneficiadas e libertas. O amor
não infelicita. O que infelicita é o ciúme, que mata ao controlar o objeto amado.
O
objetivo maior de quem ama é ver o amado sendo promovido, crescendo, florindo,
desabrochando para a vida. O amor coloca sorriso nos lábios de quem ama, lágrimas
de alegria na face de quem é amado. O amor promove a vida, perdoa, não se
ressente do mal e não busca o seu próprio interesse.
Marcos
Inhauser
quarta-feira, 13 de julho de 2016
GESTOS DE AMOR
A Igreja da Irmandade está há 106 anos na China. Começou com
um trabalho médico, teve algumas igrejas, com a revolução maoísta elas foram
fechadas e ficou o trabalho médico. Eles hoje têm uma casa de acolhimento de
doentes terminais, na quase totalidade com câncer, sendo uma das poucas
existentes no país.
Um dia receberam um doente muito mal. Não tinha parentes e
vivia completamente só. Acolhido, recebeu tratamento, carinho, atenção e aquilo
se tornou no seu lar. Um dia a cuidadora perguntou a ele qual o desejo que ele
tinha a ser realizado antes que morresse. Muito constrangido disse que queria
lavar os pés. Ela, seguindo a tradição anabatista do lava pés, tomou da bacia,
toalha e água e lavou os pés daquele moribundo. Ao terminar, ele segurou a mão
dela e disse: “há dezoito anos que não lavo os pés, porque não conseguia”. Ele
faleceu pouco depois.
A Igreja da Irmandade está há mais de vinte anos na
República Dominicana. Já tratei aqui, por três vezes, da surreal situação dos
filhos de casais haitianos, ou de um casal em que um deles é haitiano e que os
filhos nasceram na República Dominicana. Não podem ter certidão de nascimento,
e por isto não têm acesso ao sistema público de saúde e educação. São
indocumentados e apátridas. A igreja tem uma boa porcentagem de haitianos, tem
trabalho em Bateis (vilas isoladas onde vivem os indocumentados e que se dali
saírem podem ser presos), tem pastores haitianos e indocumentados.
Houve forte pressão internacional e o governo teve que abrir
um processo de arrolamento dos haitianos/dominicanos (HD), para dar a eles uma
cédula de identidade. Um dos pastores da igreja, HD, indocumentado, foi
encarregado de mobilizar as pessoas, levá-las para fazer o registro e ajudar
nas custas (verba da Igreja nos EUA foi dado para que este trabalho pudesse ser
feito). No meio do seu trabalho encontrou
um senhor HD, doente, sem família, sem moradia, aterrorizada pelo medo de ser
preso e deportado, sem consciência de que poderia ter a sua cédula de
identidade. O pastor o tomou pelas mãos, fez o que devia ser feito: levou-o ao
Departamento de Inscrição, testemunhou a seu favor, buscou descobrir onde tinha
nascido, nome dos pais, etc.
O problema se complica ainda mais porque, em muitos casos,
casais que iam ao hospital para o nascimento, de medo de serem presos e
deportados, davam nomes fictícios e muitos apresentavam identidades de
dominicanos que emprestavam seus documentos. Assim, encontrar o registro de
nascimento não é o suficiente, porque o nome do pai ou da mãe pode estar
adulterado.
No caso do velho senhor HD não conseguiram, mas pelo
testemunho da igreja e do pastor que gestionava a seu favor, ele conseguiu a
sua cédula de identidade. Mais: a igreja propiciou-lhe um local para morar.
Em uma de minhas viagens à RD estive em um Batei. Lá havia
uma escola só para crianças indocumentadas e impedidas de frequentar a escola
pública. Esta escola era fruto da dedicação de uma haitiana, legalizada na RD,
que decidiu abrir a escola e mantê-la com as ofertas que recebesse. Ela tinha
uma sala de aula, uma cozinha, um banheiro precário e um pátio para as crianças
brincarem. A professora morava em uma barraca, ao lado de um alicerce de uma
muito pequena casa que tentava construir. Perguntei a ela porque construiu
antes a escola e ela me disse: “lá eu beneficio muito mais gente que construir
uma coisa só para mim. Passo o dia na escola e só venho aqui para dormir. Minha
vida está lá e de lá vai sair gente que vai mudar esta situação, beneficiando
muito mais gente.”
Amar é simples. Não requer teologia, filosofia ou qualquer
outra “ia”. É ir e amar.
Marcos Inhauser
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Marcos Inhauser
A SIMPLICIDADE DO AMOR
Acabo de entrar em um restaurante na Times Square. Na entrada há
um cartaz que diz mais ou menos isto: "não sou nada inteligente, mas sei o
que o amor significa".
Durante uma semana participei, juntamente com minha esposa, de uma conferência
da Church of the Brethren, onde o tema central foi a luz, e vários dos
conferencistas estabeleceram a relação da luz com o amor. Um deles foi enfático
ao dizer: "se há amor há luz, se não há amor há trevas". A luz
explícita as oportunidades e os meios de se amar.
Se associo o que li na entrada do restaurante com o que ouvi nas conferências devo dizer que ninguém está isento de amar. Quem trabalha com pessoas carentes afirma que eles têm muita demonstração de amor, um tipo de demonstração espontânea e incondicional.
Se o resumo das leis do Antigo Testamento (amarás o Senhor teu Deus sobre todas as coisas) e do Novo Testamento (amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a si mesmo), o amor é a essência da espiritualidade. Como diz Paulo, o apóstolo, sem amor nenhuma ação é válida.
Amar até os tolos conseguem. Os que se creem inteligentes racionalizam e inventam desvios e obstáculos para o amar simples e benéfico ao próximo. Amar não é questão de inteligência, mas de simplicidade, inocência e despojamento do eu e das barreiras.
Amor é doação do eu, do tempo, das habilidades, do carinho, do ouvir sem julgar, do que tenho e o outro necessita. A oração ensinada por Jesus coloca o pão como "nosso". O pão "meu" é pecado porque avarento e egoísta. No pão meu não há amor, mas racionalização impeditiva do que deve ser " nosso".
Para o amor não há contra-indicação, nem efeitos colaterais adversos. Só o benefício da felicidade de sentir útil e significativo.
Marcos Inhauser
Se associo o que li na entrada do restaurante com o que ouvi nas conferências devo dizer que ninguém está isento de amar. Quem trabalha com pessoas carentes afirma que eles têm muita demonstração de amor, um tipo de demonstração espontânea e incondicional.
Se o resumo das leis do Antigo Testamento (amarás o Senhor teu Deus sobre todas as coisas) e do Novo Testamento (amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a si mesmo), o amor é a essência da espiritualidade. Como diz Paulo, o apóstolo, sem amor nenhuma ação é válida.
Amar até os tolos conseguem. Os que se creem inteligentes racionalizam e inventam desvios e obstáculos para o amar simples e benéfico ao próximo. Amar não é questão de inteligência, mas de simplicidade, inocência e despojamento do eu e das barreiras.
Amor é doação do eu, do tempo, das habilidades, do carinho, do ouvir sem julgar, do que tenho e o outro necessita. A oração ensinada por Jesus coloca o pão como "nosso". O pão "meu" é pecado porque avarento e egoísta. No pão meu não há amor, mas racionalização impeditiva do que deve ser " nosso".
Para o amor não há contra-indicação, nem efeitos colaterais adversos. Só o benefício da felicidade de sentir útil e significativo.
Marcos Inhauser
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A FÉ TEMPLARIA
Vivemos há séculos com
a vinculação estreita entre o templo e o culto, ao ponto de, para muitos, não
haver culto sem ser realizado no templo. As reuniões cúlticas fora dos templos
recebem nomes outros, mas não o de culto.
Esta herança a devemos
à religiosidade do antigo Israel onde, com a construção do tabernáculo e depois
do templo, se associou de tal forma as duas coisas que passou a fazer parte do
DNA das religiões. O mesmo se pode dizer do islamismo, onde as mesquitas são
elementos centrais na vida religiosa e há a preeminência de uma sobre as
demais: Meca. O mesmo se aplica ao catolicismo, com a centralidade da Basílica
de São Pedro na cidade do Vaticano.
Há, contudo, algumas
considerações que devem ser feitas quando isto ocorre. Não se imagina um
santuário sem sacerdotes ou uma casta de gente dedicada ao serviço religioso.
Por serem os “mediadores” entre a divindade e os humanos, estes recebem alta
consideração e respeito por parte dos adoradores. A palavra por eles proferida,
a instrução por eles dada, o ensino por eles ministrado, passam a ter a
chancela da superioridade, da infalibilidade, da inquestionabilidade. O que
falam, fazem ou ensinam estão acima de qualquer suspeita. As suas mensagens são
Vox Dei.
Esta concepção dos
“dedicados ao serviço religioso” (seja lá qual o título que se queira a eles
dar) facilita o surgimento de uma verticalização:
Deus-sacerdote/bispo/apóstolo/pastor-povo. O Supremo se comunica com os fiéis
pela intermediação de “vocacionados”. Estes, por gozar desta reverência e
funcionalidade, não raro, assume ares de ditador espiritual e deixam o seu lado
narcísico aflorar. Colocam fotos suas nas fachadas dos templos, sonham em ter
um horário na televisão para serem vistos por milhares, querem ouvir sua voz na
rádio. Sua visão teológica (quando as tem, o que é raro), suas doutrinas
(quando não são coleção de podes e não-podes, o que é o mais comum), sua
administração (quase sempre egóica), produz um ditador que invade a vida das
pessoas e, para espanto, até os mesmo os quartos de casal, ditando o permitido
e o pecado.
Porque vivem de manter
e incrementar seu poder, fabricam leis e multiplicam pecados, produzindo o
sentimento de culpa em massa. Passam a ter prazer quase orgásmico em ver os
fiéis se sentirem pecadores, indignos, merecedores do castigo divino. Oferecem
assim seus préstamos de mediadores da benção e da graça, sempre aliado à
contribuição do dízimo e das “ofertas de amor”. Empreendem programas
mirabolantes, alugam horários televisivos a peso de ouro e, quando chega a hora
de pagar a conta, ao invés de reconhecerem que exageram no sonho,
responsabilizam os fiéis pela manutenção de suas megalomanias narcísicas.
Para manter o poder e
dar asas ao narciso, os fiéis precisam ir ao templo. Se em Israel todo judeu
devia ir ao templo uma vez ao ano, se o muçulmano deve ir a Meca uma vez na
vida, nos modernos templos-gazofilácio os fiéis devem ir tantas vezes quantos
os dias da semana. Prestam a reverência ao ditador/espiritual, pedem orações,
recebem a benção e, infalivelmente, são constrangidos a deixar a “ben$ão para o
$ustento da obra do $enhor”.
Sem o templo não há
culto, sem o templo não há “vocacionados”, sem o templo não há salvação. Quanto
maior for o templo, mais benção há. Por isto, os narcisos/ditadores/arrecadadores,
precisam construir seus palácios: o templo de Salomão, o Santuário para quinze
mil pessoas, o maior templo do mundo, a Casa de Deus. Fora do templo não há fé,
milagre ou livramento.
Todos ao templo é o
lema. Quanto maior o templo, mais bonito você está na fita e mais gratificado
está o ditador/arrecadador.
A religiosidade
não-institucional, não mediatizada, de pequenos grupos caseiros não é expressão
de culto e fé. É subversão. Sem guru não há edificação.
Chegamos ao tempo em
que o Espírito Santo pode ser aposentado!
Marcos Inhauser
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quinta-feira, 16 de junho de 2016
SEMELHANÇAS NA INCOMPETÊNCIA
Os dois nomes começam
com a mesma letra.
Ambos têm cinco letras
em seus nomes e três delas são consoantes.
Ambos têm duas vogais
e terminam seus nomes com a mesma.
Ambos vêm do sul do
país. Ambos começaram suas carreiras por cima e tiveram suas funções por
apadrinhamento. Tiveram uma mão milagrosa para adentrar ao mundo dos
“iluminados”. Os dois tem seus assessores próximos com nomes que lembram
tempero: Cebola e Mantega. Ambos têm seus defensores gratuitos: Gilmar Rinaldi
e José Eduardo Cardoso.
Ambos têm a estranha
capacidade de sempre culpar os outros pelos seus infortúnios, de nunca
reconhecer seus erros, de não se enxergar. No que pese o descalabro de suas
atuações, ainda vendem a imagem de que tudo foi maravilhoso e que querem “bola
prá frente”. Ela quer voltar para fazer o mesmo que fazia. Ele quer continuar
para fazer o mesmo que sempre fez.
Quando falam e
discursam é necessário um intérprete para entender. Prolixos e com lógica
questionável, deixam os ouvintes aturdidos e se perguntando: o que foi que
queriam dizer?
Ambos são avessos a
qualquer mudança. Repetem ad nauseam
as mesmas frases e conceitos e, diante de uma situação que exige decisão
ousada, ficam catatônicos. Ela, diante da possibilidade concreta de ser afastada,
ao invés de tomar decisões que mudassem o curso dos fatos, preferiu se colocar
de vítima, chamando os que pediam mudanças (o que ela é incapaz de fazer) de
golpistas. Ele, diante da derrota iminente, trocou um jogador leve e talvez o
mais atuante em campo, por um pesado e que não ficava dentro da área como
referência para os lançamentos. Tendo ainda duas substituições para fazer,
olhava para o campo com cara de espanto, paralisado. Deixou de orientar a
equipe, não fez o que dele se esperava e criticou o juiz por validar um gol
irregular.
Ela estudou economia.
Quem estuda economia não é garantia que venha a ser economista, assim como quem
estuda filosofia ou teologia não é garantia de que venha a ser filósofo ou
teólogo. Há uma distância entre estudar a matéria e ser economista, filósofo ou
teólogo. Posso saber de economia, filosofia ou teologia e nada mais que isto.
Ela não percebeu isto e se arvorou economista e na sua gestão produziu um
déficit histórico, um desemprego na casa dos quase 12 milhões e a proliferação
de “vende-se” ou “aluga-se” em função dos milhões de negócios fechados.
Jogar futebol não
credencia a ser técnico de futebol. Uma coisa é jogar, outra é ser líder de uma
equipe que coloca as peças certas no lugar certo. Uma coisa é fazer um lançamento
em profundidade, outra é fazer uma substituição. Nem todos os bons jogadores
são técnicos e há os que, tendo sido bons jogadores, se aventuraram na carreira
e não tiveram sucesso ou tiveram que abandoná-la. Aí estão os exemplos de
Zetti, Mario Sérgio, Roque Júnior, entre outros. Ele conseguiu dar ao Brasil a
segunda maior vergonha no futebol: ser eliminado na primeira fase da Copa
América.
Um estudou economia e
não é economista. Outro jogou futebol e não é técnico. Os dois são
incompetentes nas “profissões” que abraçaram. Ambos são incompetentes. Nos dois
casos, quem pago o pato é o povo: com o desemprego, inflação alta, falta de
perspectiva e vergonha de, sendo pentacampeão mundial, amargar um 7 a 1 e a
gora a eliminação precoce.
Marcos Inhauser
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quarta-feira, 8 de junho de 2016
JOÃOZINHO FIM-DO-MUNDO
Acordei dias destes lembrando dele. Eu
o conheci há mais de 35 anos. Mais velho que eu uns 25 ou trinta anos, era
membro de uma igreja da mesma denominação que eu. Ele era de estatura baixa, do
tipo de pessoa que nasceu ligado em 220. Falante, com alto grau de extroversão,
trabalhava em uma grande empresa “fazendo os serviços de rua”, que era como ele
definia seu trabalho. Eu era pastor na cidade e o encontrava ao com
regularidade na agência do Banco do Brasil. A cada encontro ele vinha me
perguntar algo e afirmava: “é o fim-do-mundo, pastor”.
Esta sua obsessão pelos temas
apocalípticos rendeu-lhe a alcunha de “Joãozinho fim-do-mundo” e como tal era
conhecido na cidade. Eu nunca soube de onde surgiu esta sua obsessão/compulsão.
O certo é que o tema o fascinava. Tinha um conhecimento superficial do
Apocalipse, tratava-o e interpretava-o ao sabor dos fatos e cada novo evento de
alguma relevância, tanto no cenário nacional como internacional, ele via como
“sinal do fim dos tempos”.
Lembro-me da primeira vez.
A eleição presidencial dos Estados
Unidos de 1980 disputada entre o presidente democrata em
exercício, Jimmy Carter, e seu adversário republicano, Ronald Reagan, com
a crise dos reféns no Irã de pano de fundo. Para ele era sinal dos tempos
que um “evangélico” (Jimmy Carter) tivesse perdido por causa do fiasco no
resgate dos reféns que estavam em um país islâmico.
Relembrando-me dele e suas questões
apocalíticas, imaginei que hoje ele viria com a afirmação: “é o fim-do-mundo,
pastor. O que está acontecendo no Brasil é o fim-do-mundo. Neste apocalipse que
estamos vivendo, quem seriam as duas testemunhas apocalíticas? E os cavaleiros?
O que seriam as trombetas?”
Como era de seu estilo, as perguntas
eram retóricas. Vinham acompanhadas das respostas que, na sua livre
interpretação, se permitia fazer. Acho que diria que as duas testemunhas são o
juiz Moro e o procurador Janot, ou o Teori, que as trombetas que anunciam
desgraças são dos delatores premiados, que os líderes do Senado e Câmara são os
cavaleiros do Apocalipse, todos trazendo desgraças ao país. Talvez se atrevesse
a, considerando certas menções a dias de penúria, fixar a data para a queda
definitiva da Dilma. Fiquei pensando em quem ele colocaria como Anti-Cristo e
achei que ele tascaria o título ao Cunha. A Besta, com seu temível 666, poderia
ir para o Temer, o Lula ou o Renan. Também poderiam ser contemplados com o
título o Léo Pinheiro ou o Marcelo Odebrecht. Com certeza diria, por causa da
sua visão pré-milenista pré tribulacionista, com toda a ênfase que pudesse:
“estamos na grande tribulação, pastor”.
Na manhã desta terça fiquei a pensar
como ele harmonizaria suas livre interpretações com a nomeação da ex-deputada
Fátima Pelaes para a Secretaria da Mulheres, no que pese ter contra si graves
denúncias de desvio de verba; das citações escabrosas quanto ao ex e atual
ministro do Turismo, o Henrique Eduardo Alves e, principalmente, com a notícia
de que o Janot pediu a prisão do Jucá, do Renan e a prisão domiciliar do
Sarney. Talvez ele visse o princípio do fim.
De uma coisa tenho que concordar com o
bordão do Joãozinho Fim-do-Mundo: é o fim-do-mundo! Não na sua literalidade,
mas na interpretação alegórica de ser algo que nunca se pensou que a coisa
pudesse chegar a tal nível de descalabro.
É o fim-do-mundo!
Marcos Inhauser
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quarta-feira, 25 de maio de 2016
PEDÓFILOS E CORRUPTOS
Na minha “santa inguinorança”
da medicina psiquiátrica e da psicopatologia, tenho a informação de que
psicopata, especialmente os que se revelaram como tais já adultos, não têm
cura. Também tenho a informação de que os pedófilos são psicopatas e, por
conseguinte, incuráveis.
Isto explica porque eles,
mesmo sendo descobertos e penalizados por seu comportamento, voltam a
delinquir. Há estados dentro dos Estados Unidos e, se não me engano, também em
alguns países da Europa que, ao libertarem o pedófilo por terem cumprido a
pena, são devolvidos à sociedade e um alerta é dado à vizinhança para que o
indivíduo seja monitorado, com vistas a evitar que pratique a pedofilia outra
vez. Isto também explica porque muitos sacerdotes e pastores flagrados no
crime, são tratados com certa benevolência pelas autoridades religiosas que os
move para outros lugares, na esperança de que não voltem a praticar o crime, o que,
no mais das vezes, não acontecesse e ele reincidem.
Nestes tempos de Lava Jato
e declarações públicas de indiciados e réus, tenho sido levado a apensar em um
novo tipo de psicopata: o politicopata. Ele se apresenta com a maior
cara-de-pau tentando explicar o batom na cueca, com a maior desfaçatez e
hipocrisia. A certeza deste enfermo (sic) veio com as “explicações” do Romero Jucá
para a divulgação de uma conversa nada republicana que manteve com o ex-senador
e ex-diretor da Transpetro. A cara-de-pau em explicar o inexplicável, o
malabarismo feito para contornar interpretações que saltam do texto de forma
inequívoca, a cara de vítima e santarrão, me levaram a pensar que ele é
extremamente inteligente e sem nenhum sentimento (ambas características do
psicopata).
A revelação de um
corrupto traz-nos à tona a sua corrupção não só no nível da propina, mas na
capacidade que ele tem de corromper o idioma e o sentido estabelecido da
palavra. O Jucá teve a capacidade de, sem ficar vermelho, dar ao termo “boi de
piranha” sentido completamente diferente daquele que todos os brasileiros lhe
dão. Corrompeu o sentido useiro e vezeiro da palavra.
Para não restar dúvida
da sua capacidade de corromper, também ressignificou a palavra “delimitar”, dizendo
que era investigar e punir quem de merecia condenação. O sentido dicionário de “colocar
limites”, “estancar”, “parar” foram para as calendas.
O Jucá, quem tem mais
tempo na política que muitos, é um boquirroto e um bravateiro. Dizer que
poderia haver um pacto nacional, com os três poderes, para “delimitar” a Lava
Jato, é coisa de gente insana, seja pela impossibilidade real, seja pelas
circunstâncias atuais.
São politicopatas o Zé
Dirceu (mesmo condenado pelo Mensalão, continuou a delinquir), o Genu (que
zombou do Judiciário e transferiu o esquema do Mensalão para o Petrolão), o
Cunha e sua impassividade circunstancial que se traduz em vingança hepática, o
Renan e sua fleuma em dar a entender que nada o atinge, o André Moura quem,
mesmo tendo uma extensa folha corrida com acusação de tentativa de homicídio se
afirma inocente e se apresenta como líder do governo, e muitos outros que o
tamanho da minha coluna não me permite nominá-los.
Seria o Temer um
autista político quem, mesmo vendo o seu entorno e as pessoas que com ele se
relacionam, ignora as advertências e segue em frente como se nada pudesse
acontecer?
Marcos Inhauser
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quarta-feira, 18 de maio de 2016
TEMER(IDADES)
O sentimento de
indignação com a corrupção está à flor da pele dos brasileiros. Não há dia que
algo novo não venha à tona, envolvendo os mais variados setores da economia, os
mais variados personagens, tanto na esfera pública como privada, tanto tubarões
como lambaris. A coisa transpareceu na Câmara, quando da votação da
admissibilidade de julgamento da presidente. Muitos (se não a maioria dos
deputados), ao explicitar seu voto no festival de babaquices que se viu, declarou
o desejo de colocar um fim à corrupção, ainda que o assunto não fosse o que
estava em pauta e nem era o que se votava.
Com isto, vejo que a
nomeação do ministério feita pelo presidente-interino Michel Temer foi uma Temer(idade).
Indicar sete ministros que estão sendo acusados pela Lava Jato é uma
temeridade. Sei que ninguém é culpado a priori, que só se torna culpado depois
de sentença transitada em julgado, que a pessoa é inocente até que se prove o
contrário. Ocorre que, salvo raríssimas exceções, os que tiveram seus nomes
citados pelos delatores premiados foram posteriormente investigados e se
comprovou o que diziam. Aí está o caso do Eduardo Cunha, do Delcídio Amaral, do
Argolo, do Pedro Henry e outros mais.
Ter o ministro Eliseu
Padilha é uma temeridade. Ele foi acusado de ser lobista, de ter atuado em
favor de empresas e de ter pago dois milhões de forma ilícita. A acusação foi
feita em 2003, a ação foi impetrada em 2013 (!!!) e até agora nada de
julgamento.
O Geddel Vieira Lima é
acusado de ter desviado mais de um milhão da corretora de valores do Baneb (1999),
o que lhe custou a demissão do cargo que ocupava. Ainda pesam sobre ele o fato
de ter mensagens interceptadas nas quais advogava a favor da OAS, o que lhe
garantiu recursos para sua candidatura ao Senado, graças à “generosidade” do Léo
Pinheiro.
O ministro Moreira Franco
teve um apartamento leiloado pela Justiça (1997) para que se devolvesse dinheiro
utilizado indevidamente para enaltecer as suas obras à frente do governo do
estado do Rio.
O ministro Henrique
Eduardo Alves, quando da sua eleição para a presidência da Câmara em 2013 teve
uma série de acusações feitas contra ele: de ter dinheiro não declarado no
exterior, contratar empresa laranja, beneficiar assessor, entre outras.
O ministro Blairo
Maggi ganhou o prêmio Motosserra de Ouro, já foi considerado como um dos mais
ferrenhos apoiadores do desmatamento, é conhecido como rei da soja (título que
perdeu para Eraí Maggi). O estado de Mato Grosso forma o "Arco do
Desmatamento" (a parte da Amazônia mais desflorestada) e o desmatamento do
estado dobrou no seu governo. Uma temeridade colocá-lo no Ministério da
Agricultura.
Temeridade foi a entrevista
do ministro da Justiça, falando o que não era hora de falar e dando cordas para
uma série de interpretações, inclusive a de que o novo governo interferiria na
Lava Jato. Na mesma linha, também a entrevista do ministro da Saúde (que
recebeu financiamento de campanha de planos de saúde), quem disse que o SUS
precisa ser readequado, o que provocou celeuma e ele teve que recuar no mesmo
dia.
Temeridade é chamar
sindicalistas para que proponham mudanças na Previdência. Pura perda de tempo,
porque nunca apresentaram nenhuma proposta concreta e não o farão agora.
Temeridade é ter um ministério
com doze ministros que receberam, contribuições de empresas que estão na Lava
Jato.
Temeridade é ter um
ministério sem mulheres e negros.
Temeridade é querer
mudar o Brasil nos seis meses que, porventura, estará em um governo interino,
ou até 2018, caso venha a assumir a presidência.
Marcos Inhauser
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quarta-feira, 11 de maio de 2016
VIROU CIRCO?
Há algumas palavras que, parecidas foneticamente, são
diferentes e enunciam significados próprios: conveniência, convivência,
conivência e competência. Lidamos com estas palavras (ou com o que elas
significam) a cada decisão que tomamos. Elas embasam atitudes e comportamento
social, regem valores éticos e, sobretudo, avaliações sobre os outros.
Há decisões que as tomamos por conveniência. Compro
determinado produto, pago com dinheiro ou cartão, segundo me for conveniente.
Vou de carro, ônibus ou avião de acordo com minhas conveniências. Hospedo-me na
casa de amigos ou prefiro um hotel, segundo o que me for mais conveniente. Para
vender algo em momento de crise, talvez me seja conveniente reduzir o
preço. A conveniência pode ser positiva
ou negativa. Ela será negativa quando o conveniente encobre erros ou crimes.
Há uma certa tendência de sermos favoráveis e privilegiarmos
quem conhecemos e com quem “já comemos um quilo de sal juntos”. Mas a verdade
oposta também pode ser considerada quando, por conhecermos a pessoa por termos
com ela convivido, fazemos juízo negativo. Dia destes sugeri uma pessoa para
uma posição e o meu interlocutor, por conhecer bem a pessoa que eu indicava,
foi taxativa: “não, é muito enrolada”. Há quem diga que a muito provável
decisão do Temer de nomear como Ministro da Justiça ao Alexandre Moraes, se
deve ao fato de serem amigos. O mesmo se diz do outro que fôra cotado para o
mesmo cargo, o Antonio Mariz.
Há as contemplações favoráveis que fazemos por conivência.
Avalio bem certa pessoa porque não quero que ele diga o que sabe de mim. Nomeio
este ou aquele porque pertence ao meu grupo de negociatas. As revelações da
Lava-jato mostram quantas nomeações, indicações e cargos foram contemplados por
parceiros do crime. Havia conivência.
Há agora a promessa do Temer de montar um ministério de
notáveis, o que, se deduz, de gente competente. Estamos cansados de ter gente
nomeada por conivência, por convivência (indicado por ser amigo), por convênio
partidário (a famosa coalizão). Aí estão fartos exemplos desta forma de se
montar uma equipe ministerial.
Na análise destes elementos me vem a pergunta: qual foi o
critério que se usou para colocar o Valdir Maranhão como vice-presidente na
chapa do Eduardo Cunha? Com certeza, não foi o da competência. Qual foi o
critério que se usou para manter o Mantega no ministério por tanto tempo,
apesar das lambanças feitas e que agora vêm à luz? Quais foram os critérios
para se colocar na tesouraria do partido ao Delúbio e o Vaccari? Quais os critérios
para o Temer se cercar do Geddel, Romero Jucá. Nascimento, Henrique Eduardo
Alves?
Mas a coisa complicou quando ontem, em uma decisão
surpreendente, o presidente interino (ou intestino?) da Câmara, em decisão
monocromática, mostrou toda a sua incompetência, complacência às pressões e
conveniência (quando percebeu que perderia o mandato e, por conseguinte o
mandato, o que lhe colocaria sem foro para enfrentar as acusações que sobre ele
pesam), foi inicialmente conivente, depois incompetente, depois conveniente e,
afinal, indecente ao revogar a decisão tomada horas antes.
Quando soube da notícia da anulação, o primeiro pensamento
que me veio à mente foi: virou circo! Somou-se à vergonha que tive ao ouvir
todos os votos dados na sessão da Câmara que aprovou a plausibilidade do impeachment:
um rosário de babaquices. Fui ver e ouvir as repercussões do ato e o sentimento
circense não me fugia da cabeça. Vi a espetacularização do embate no Senado e a
conveniência do senador Renan ao forçar a barra pela cassação do Delcídio, por
medo de ser acusado em plenário pelo delator-premiado.
Neste universo, chego à conclusão de que o sistema eleitoral
brasileiro não privilegia as competências, antes elege quem está em evidência
fabricada pela mídia e propaganda eleitoral.
Marcos Inhauser
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quarta-feira, 4 de maio de 2016
QUEM VOS FASCINOU?
Acredito que o
apóstolo Paulo, quando foi à Galácia, encontrou ali gente receptiva às novas
ideias, o que o levou a se dedicar em criar uma comunidade alicerçada na
teologia da graça e a completa libertação da escravidão das regras e
mandamentos. Feito o serviço, foi para outras bandas. Mais tarde recebeu
notícias que o deixaram frustrado. O que havia ensinado e posto em prática tinha
sido abandonado.
Escrevendo a
eles, em carta bastante biliática, exclama: “Ó
gálatas insensatos! Quem vos fascinou a vós outros … Sois assim insensatos que,
tendo começado no Espírito, estejais, agora, vos aperfeiçoando na carne?”
(3:1-3). A frustração se devia ao retrocesso, à troca do excelente pelo
medíocre.
No trabalho pastoral tive este tipo de sentimento algumas vezes. Pessoas
e comunidades onde dei o sangue para ensinar a viver a graça e descobri, mais
tarde, que se deixaram levar pelo domínio de regras e mandamentos. Gente que
vem a mim elogiar pregadores de obviedades, anunciadores da justiça
retributiva, mendigos religiosos a pedir esmolas para sustento deste ou daquele
programa. Ouvir que Fulano é excelente pregador quando o elogiado foi duramente
criticado por um grupo de pastores com teologia anêmica, que pediu que ele
nunca mais fosse convidado. Gente que me manda vídeo de sermões horrorosos, no
anseio de me converter ao be-a-bá que abandonei há muito tempo. Gente que se
julga auxiliar e braço direito do Espírito Santo na obra da conversão,
convencimento e santificação!
A mesma frustração se pode
aplicar a outras esferas. Quem foi que vos fascinou para que, tendo começado no
combate pela ética, vos tornastes símbolo da corrupção? Quem vos fascinou para
que, tendo começado na luta pelos trabalhadores, vos tornastes a causa da maior
crise de empregos da história do Brasil? Quem vos fascinou para que hoje
condenes os instrumentos que vós usastes no passado?
Quem vos fascinou, ó Zé
Dirceu, para mudar o que dissestes em 1992, quando do impeachment do Collor: "Não é o presidente Ibsen Pinheiro, não são os
partidos que sustentam o processo de impeachment do presidente da República e
não é esta Casa; mas, sim, a Constituição que estabelece que a autorização é
matéria de competência da Câmara dos Deputados".
Quem vos fascinou, ó Aldo
Rebelo, para hoje pensar diferente do que pensavas em 1992: "Querem melhor
proteção, querem mais democracia, querem mais direito de defesa do que esta
Casa precisar de dois terços de seus votos para autorizar processo contra um
corrupto? Para que mais proteção? Para que mais democracia?".
Quem vos
fascinou, ó Aloizio Mercante, para que hoje negues o que dissestes em 1992:
"O desafio de consolidarmos a democracia no Brasil e darmos ao mundo o
exemplo de quem sabe corrigir os erros sem ferir a ordem constitucional.”
Seria o Fiat Elba do Collor mais
pecado que as pedaladas e decretos ilegais? Seriam os desvios do PC Farias mais
corrupção que o que já se sabe pela Lava Jato?
Quem vos fascinou? Ou deveria
ser a pergunta feita desta forma: o que vos fa$cinou para serdes hoje o oposto
do que dizias que serias?
Marcos Inhauser
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