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quarta-feira, 21 de setembro de 2011

DADOS INQUIETADORES

Recentes dados trazidos à tona pelas mídias, fruto de pesquisas feitas, revelam que o segmento religioso no Brasil passa por momentos que não são os melhores. O segmento que se diz não religioso aumentou significativamente. As igrejas históricas (católicos, presbiterianos, metodistas, batistas, luteranos) perderam parcela significativa de sua membresia. Os pentecostais históricos (Assembleias de Deus, Evangelho Quadrangular, Brasil para Cristo e outras) não estão mais crescendo nas mesmas taxas que cresceram anteriormente. As neopentecostais Universal do Reino de Deus e Renascer estão começando fazer água. A primeira teve queda de 25% na sua assistência e a segunda fechou 70% de seus templos. Correm por fora a Mundial do Poder de Deus, a Internacional da Graça de Deus e a Assembleia do Malafaia. Podem estar tendo algum crescimento, mas creio que será temporário. É um modelo repetitivo, centrado na constante solicitação de dinheiro, fato que tem assustado a muitos e tem criado uma imagem falsa da igreja no Brasil. Mais recentemente, o fato de que Edir Macedo e outros líderes da Universal tenham sido indiciados e denunciados por lavagem de dinheiro, falsidade ideológica e fraude para arrecadação de fundos, foi mais uma gota de água nesta tempestade que estes senhores criaram no contexto das igrejas brasileiras. Juntamente com o casal Hernandez, acusados e presos por ingresso ilegal de fundos nos EUA, fundos estes que não foram declarados também quando deixaram o Brasil, associado ao fato de que há centenas de processos por não pagamento de alugueis e outras obrigações, trazem mais lama a este segmento religioso. Traz-me curiosidade saber como pastores e líderes de igrejas tidas como sérias e que mudaram suas liturgias e forma de ser para encher seus templos com uma cópia do que os neopentecostais faziam, estão agora a ver e analisar a presente situação. Copiaram modelos que se mostravam viciados e agora estão perdidos. Muitos líderes religiosos sérios estão a perguntar o que será daqui para frente. Lembro-me de haver lido um livro nos anos 90 que comparava a igreja a um navio em alto mar que estava debaixo de uma grande tempestade. Sabiam que o navio não afundaria, mas não sabiam onde estavam nem para onde estavam sendo levados. A igreja não afundará porque, creio, não é invenção humana. Ela resistirá, tal como disse Jesus: as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Não significa que o inferno não vai adentrar a igreja (como creem muitos), mas que se o inferno entrar e entrou muitas vezes, na minha opinião), não resistirá muito tempo a convivência de gente séria que tem como único objetivo louvar e servir a Deus. O que tem se servido da igreja para projetos pessoais de riqueza ou mesmo narcísicos, podem ter seu momento de glória, mas será efêmera. Há uma igreja que precisa repensar sua forma de ser, buscar ser fiel aos ensinamentos de Jesus através de uma hermenêutica comunitária, com práticas de serviço ao próximo. Marcos Inhauser

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

RESPONSABILIZE-SE

Quando uma empresa precisa de funcionário ela abre a vaga, anuncia, recebe currículos, analisa-os, entrevista os candidatos e, pelo processo seletivo, escolhe o que melhor se ajusta aos requisitos do cargo. O funcionário, por sua parte, tem responsabilidades a cumprir e uma justiça trabalhista a seu favor ou como algoz, caso faça algo errado. No setor público o processo é idêntico. A cada quatro anos abre-se a vaga para prefeito, vereador, deputado, senador e presidente. Os candidatos se apresentam no processo seletivo, a banca examinadora (os eleitores) escolhe aquele que a seu juízo tem mais condições de trabalhar pela cidade, estado ou país. Ele assume o cargo e tem responsabilidades a cumprir e um salário pago pelo exercício da função. Assim como na iniciativa privada, ele tem certa autonomia. No caso do prefeito, ele pode contratar assessores e secretários para atuarem nas várias pastas. Esta contratação está implícita no cargo, mas é feita pela autoridade que sua eleição lhe dá. Ao escolher fulano ou sicrano, ele não se isenta da responsabilidade pelos atos ilícitos que venham a cometer, mesmo porque, é da sua função fiscalizar os seus subordinados. Da mesma forma a Câmara. Os vereadores são eleitos, empossados e pagos. Devem legislar e fiscalizar o Executivo. Estes vereadores podem também contratar assessores para ajuda-los na tarefa de fiscalização e devem exigir destes o cumprimento de suas funções. . Se não o fazem, são relapsos, coniventes ou comprados. A incompetência ou inapetência de um vereador ou de vereadores em fiscalizar é crime de lesa população, porque ganham para fazer o que não fazem. Ora, nos recentes episódios na cidade de Campinas, mais especificamente o das construções com alvarás indevidos ou inexistentes, a responsabilidade é do secretário da área, mas é, no final das contas, do prefeito que o nomeou e dos vereadores que, com a penca de assessores que tem, não fizeram o que deveriam ter feito. Foi preciso o Ministério Público para descobrir “o que se fazia dentro da casa do prefeito” e que ele alega ignorância e traição de amizades de longa data. Se prefeito, secretário e vereadores não fizeram aquilo para o qual foram contratados (eleitos) e pagos regiamente, que se processe a cada um deles e se exija que os compradores das casas e apartamentos agora embargados sejam recompensados sem que percam um centavo do que investiram de boa fé, acreditando que em Campinas havia governo e não quadrilha. Que cada um deles (prefeito, vereadores, secretários e fiscais) sejam responsabilizados pela inação (ou deveria escrever ina$$ão?). Esta catatonia governamental custou um rombo aos cofres públicos pelo que foi desviado e pelo que foi pago em salário para fazer o que eu não fizeram. Já vi cálculos do desvio. Gostaria de ver os cálculos com o dinheiro jogado fora com gente incompetente ou conscientemente preguiçosa e omissa. Que os lesados por este time de funcionários relapsos acionem a justiça e peçam o reembolso do dinheiro que é deles e também o dos salários que não mereceram e não merecem. Marcos Inhauser

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

VAI ACABAR EM PIZZA?

Quando do processo de cassação do prefeito Dr. Hélio, levantavam-se questões sobre o sucessor dele, uma vez que o vice-prefeito, quem por lei deveria assumir, estava também enrolado. A saída seria que o presidente da Câmara assumisse. Ocorre que, nos bastidores se articulava que seria muito difícil alguém querer assumir o cargo por um mandato tampão, sendo que depois não poderia concorrer à eleição e ter um mandato completo. Falava-se em “deixar o Vilagra na Prefeitura” e buscar alternativas para que o processo se estendesse até a posse do novo prefeito, eleito pelas urnas. Desconfiado por natureza, especialmente com a classe política, eu identificava nestas conversas um cheiro de pizza no ar. Tinha para comigo que haveria um baita jogo de cena para que as coisas ficassem como estão. Tive a pachorra de assistir a toda a sessão da Câmara que recebeu a denúncia contra o Vilagra, assisti aos poucos discursos feitos (quem mais falou foi o PT) e notei e anotei o que o líder deles (aceito por indicação oral ao presidente da Câmara, em desobediência ao Regimento Interno que pede que a indicação através de carta) entrou com pedido rejeição da denúncia alegando que os fatos apontados não estavam relacionados ao exercício do mandato de prefeito e que, por isto, não poderia ser investigado por uma Comissão Processante. Anotei também que o mesmo líder, conhecido o resultado, declarou que entrariam com recurso junto ao Judiciário. Notei e anotei que o presidente da câmara, quando “soube” da decisão do juiz, se disse “surpreso” e afirmou que a coisa estava agora no colo do juiz e do Judiciário, que avocou para si a decisão de manter o prefeito, no que pese a decisão da Câmara. Estranhei. Ele disse que a Câmara recorreria da sentença, primeiramente junto ao mesmo juiz pedindo que revisse a decisão tomada e que depois, se necessário, iriam às instâncias superiores. Notícias dão conta de que o Tribunal de justiça negou provimento ao recurso da Câmara e o Vilagra continua no cargo. Ora, para que ele tenha um mínimo de governabilidade terá que se acertar com a Câmara que votou maciçamente contra sua permanência. Os mesmos vereadores que o afastaram agora vão negociar apoio. Que me perdoem os vereadores, mas isto tem, no mínimo, cheiro de pizza no ar. Em que bases serão negociados estes acordos? Como entender esta negociação se há na mesma Câmara investigação de compra de voto pelo não afastamento do Dr. Hélio? Seria a Câmara, que já teve vereadores envolvidos em escândalos de ticket-refeição, pedágios, funcionários fantasmas, nepotismo, se convertido em Convento de Santos Políticos? Eu, de minha parte, homem de fé, devo confessar que minha fé não chega a tanto. Marcos Inhauser

BARRIL DE ALEGRIA

Este é o nome de uma ONG que desenvolve um trabalho com crianças e adolescentes carentes e em situação de risco. Ele abrange os distritos de Joaquim Egídio, Sousas e bairros da cidade de Campinas como o Jardim
São Fernando. O objetivo do trabalho é oferecer a eles alternativa para o desenvolvimento pessoal, interpessoal e resgatá-los da exclusão social, violência, preconceitos, drogas e marginalização através da prática do futebol.
O Barril de Alegria não tem fins lucrativos, foi criado em setembro de 2005 por César Caetano. O trabalho nunca recebeu nenhum apoio da Prefeitura, mas utiliza a praça de esportes Jordão Cesarini, situado a Rua Valentim Santos Carvalho,
no distrito de Joaquim Egídio.
Ocorre que esta praça encontra-se em total estado de abandono pela administração da subprefeitura. Apesar dos constantes apelos e reuniões com o secretário de esportes e subprefeito nada de concreto é feito. Reuniões com vereador e com membros do Conselho Tutelar já foram feitas e o problema persiste. Há a necessidade de se fazer a limpeza da quadra, pintura de todo o complexo, corte da grama e marcação das linhas no campo de futebol, religação da energia elétrica da quadra esportiva e dos vestiários, uma vez que subprefeito cortou o fio que caiu com a queda de um dos galhos de eucalipto. Ao invés de consertar, preferiu cortar a eletricidade.
Existe um processo em andamento dentro da Secretaria de Esportes da Prefeitura
de Campinas, com reunião já feita com o secretário Sr. Petta. Misteriosamente o processo vai e volta dentro dos setores vários da Prefeitura e não se consegue uma definição. A solicitação feita neste processo é que a Prefeitura entregue a manutenção da praça aos cuidados da ONG Barril de Alegria, que buscará parcerias para realizar a manutenção.
Não fazem e não deixam fazer.
Que me perdoem, mas não consigo deixar de me perguntar: não fazem por incompetência, por inapetência, ou por conveniência? Se por incompetência, que se afaste o Secretário de Esportes e o subprefeito. Se por inapetência, que se baixem ordens superiores para que a coisa seja feita. Se por conveniência a coisa me parece mais grave. Seria, por acaso, que, ao transferir a manutenção da praça para a ONG serão menos licitações e tomadas de preço que o poder público terá que fazer e assim menos chances de “tirar uma lasca”. Veja que o raciocínio não é descabido visto que indícios de favorecimento nas licitações e contratos são a marca da administração que saiu e, queira Deus, não seja a da nova administração.
DE qualquer forma, isto é mais uma evidência do descaso e do descalabro que a cidade de Campinas está enfiada, graças à República de Mato Grosso que se instalou com o cego, surdo e mal informado Dr. Hélio. Ele não sabia de nada, não viu nada e nem escutou coisa alguma. Parece que deste mal também padecem o Secretario de Esportes e o Subprefeito de Joaquim Egidio.
Marcos Inhauser

terça-feira, 23 de agosto de 2011

NO PARAÍSO HÁ DISCIPLINA

O paraíso tem limites. Nem tudo se pode no paraíso. Há coisas possíveis e impossíveis. O paraíso não é o desfrutar de tudo que queremos, mas o desfrutar de tudo que podemos. No Éden havia um limite: até aqui podem comer de tudo; daqui para frente já não mais. Isto requeria uma dose de autocontrole, de disciplina.
Uma das coisas que tem me preocupado na tão propalada pós-modernidade é a ausência de critérios universais pela absoluta relativização e subjetivização dos valores morais. É certo e bom o que julgo como tais. Sou eu e mais ninguém quem deve ditar normas éticas para mim.
Uma vertente disto é a orientação que se tem passado aos pais de que a educação dos filhos não pode ser negativa (é proibido falar “não aos filhos”) antes deve ser de completa liberdade para que a criança descubra por si mesma o que pode e não pode. Ocorre que, a uma criança que não soube ouvir e obedecer “nãos”, será um adulto que não saberá dizer não quando isto for necessário. Uma das grandes consequências disto é que, quando lhe oferecerem drogas, porque na infância não lhe ensinaram a respeitar limites, não terá autocontrole para dizer não. Antes, porque tinha que descobrir por si o certo e o errado, se atirará de corpo e alma, tal como o educaram.
Não há paraíso sem domínio próprio, sem autocontrole, sem disciplina. Já no paraíso edênico, o lugar perfeito criado por Deus, havia um limite que impunha aos seus habitantes uma dose de domínio próprio. Estavam no paraíso, mas nem tudo lhes era permitido. O paraíso não é anarquia, a ausência de regras ou comportamento ético. Muitos são os que buscam o paraíso no comportamento aético ou antiético e se dão mal porque encontram o inferno.
Acabo de ler um livro que trata dos modelos de pais e sua influência sobre as filhas. A autora, depois de muito pesquisar, afirma que um pai que tenha autoridade (o que é diferente de ser autoritário – fabricante de ordens), que coloque de forma clara e precisa os limites dos “podes” e “não podes”, traz benefícios duradouros para seus filhos. A grande maioria deles não terá problemas de comportamento, nem mesmo na adolescência, e a vida sexual deles será qualitativamente melhor que a de filhos e filhas provindas de lares anárquicos.
Há limites no trabalho. Quem o faz além da conta se estressa, se enferma, ganha morte. Há coisas que podem e devem ser feitas no trabalho e há outras que não podem ser feitas. Um comprador de uma firma não pode comprar além de certos limites determinados pelas necessidades da sua empresa. O encarregado dos pagamentos não pode pagar além do devido e das reservas existentes. O atleta tem seus limites e deve conhecê-los e respeitá-los. Se ele treina para correr dez quilômetros e um dia decide correr trinta ou quarenta e cinco, poderá se lesionar gravemente. O cantor tem seus limites ditados pela extensão da sua voz. Poderá alcançar até um determinado limite os agudos e graves. Tentar ir além pode redundar em prejuízo à sua voz. Há limites no comer e no beber. O excesso pode se constituir no pecado da glutonaria e da bebedice, com os consequentes sintomas e enfermidades que isto acarreta.
O limite de não poder tocar na árvore do conhecimento do bem e do mal estabelece uma dimensão ecológica: há limites na capacidade e autoridade do ser humano de explorar a criação do Senhor. Deus criou o mundo e tudo o que nele há e o deu ao ser humano. Ocorre que esta doação não foi completa. Houve restrição. Mesmo no paraíso não se pode tudo e avançar o sinal é alterar o equilíbrio da natureza com a introdução da morte. Quando o ser humano explora a natureza de maneira irracional e sem considerar o equilíbrio ecológico, está trazendo morte à terra, à vegetação, aos animais. Ir além do que lhe é permitido no uso da natureza é repetir o pecado original, é trazer morte.
Em todo lar, família, trabalho, negócio, enfim em tudo que fazemos, há coisas permitidas e não permitidas. Educar os filhos para viver esta realidade é uma prova de amor e de responsabilidade.
O paraíso requer responsabilidade. Se é verdade que há limites a serem postos e obedecidos, também é verdade que o estabelecimento deles tem suas consequências. As decisões no paraíso não são inconsequentes: produzem, sempre, vida ou morte. O fato de haver necessidade de limites não nos dá autoridade de ir colocando-os onde bem entendemos. De cada ato de estabelecer limites ou de transgredi-los há um preço a ser pago. Há limites que produzem morte e há os que produzem vida. O legalismo é uma tentativa de colocar limites além da conta, gerando a morte da consciência crítica. Para o legalista só há uma alternativa: obedecer. O pai autoritário, o líder religioso legalista, o governante totalitário não permitem arguições, só obediência.
Cada limite colocado merece uma reação igual e contrária. Pode ser questionado e até desacreditado. Os limites perdurarão na medida em que produzem vida naqueles que os respeitam. E esta deve ser a chave para analisar os limites que temos nos nossos paraísos: desobedecê-los produz morte? E esta é a eterna alternativa que todos temos diante de nós: ou comemos da árvore da vida ou comemos da árvore da morte.
Marcos Inhauser

terça-feira, 16 de agosto de 2011

DESIGREJADOS

Acabei de receber telefonema de um amigo de longa data que foi pastor e ele se caracterizou como “desigrejado” atualmente. Ele é um dos muitos que aparecem na estatística publicada nesta segunda-feira dando conta que o número de ex-evangélicos tem subido em proporções inquietantes, de 4% para 14%, o que dá um total de quatro milhões de pessoas que frequentaram igrejas evangélicas e hoje não frequentam mais nenhuma. Os dados comparam os anos de 2003 e 2009, o que me leva a crer que este número é ainda maior, por algumas razões.
O fenômeno não é novo. No início dos anos 90, colegas que estavam fazendo mestrado na área da Ciência da Religião já vinham detectando este fenômeno e alguns que pesquisavam na região da baixada fluminense chegavam a dizer que um terço era composto de pessoas ex-membros de alguma igreja.
Como pastor há quase quarenta anos, venho notando e me surpreendendo com alguns sinais. O primeiro deles é que a nova geração não tem o mesmo compromisso de frequência e participação que eu encontrava no início de meu pastorado. Na primeira igreja que pastoreei eu tinha um senhor que saía todos os domingos às 5:30 da manhã para pegar ônibus e atravessar a cidade de São Paulo e participar da igreja. Em São Carlos eu tinha um que quando viajava, fazia questão de voltar aos domingos para não faltar aos cultos. Hoje, qualquer coisa é desculpa para faltar.
Outra coisa que venho notando é que a filiação formal como membro de uma igreja encontra resistência nas gerações mais novas. Antigamente se media uma igreja pelo número de membros ativos que tinha. Isto acabou. Ninguém mais está para isto. Querem participar sem se envolver com as coisas da administração da vida da igreja. Querem os benefícios, sem as responsabilidades.
Neste quesito entra também a questão dos dízimos e ofertas. Antes as pessoas dizimavam e ofertavam na igreja, que aplicava o dinheiro segundo a decisão de uma diretoria eleita. Hoje elas tem dificuldade em ofertar nas igrejas por uma de três razões: medo de que isto vá enriquecer os pastores, pelos muitos escândalos de bispos e apóstolos que se locupletaram; ou pelo entendimento de que eles sabem administrar melhor e preferem fazer caridade com o dízimo. Não são poucos os que conheço que tem administrado e distribuído seus dízimos de acordo com necessidades que veem. Uma terceira razão é a insensatez de se ter templos faraônicos que são usados poucas horas por semana. Há mausoléus que custam uma fortuna em manutenção e que são usados duas ou três horas semanais. Um verdadeiro desperdício.
Outro fenômeno que venho notando é a gradativa transformação da igreja em negócio. Dias destes um colega pastor, destes que tem a alma pastoral, me ligou e me contou que foi avaliado depois de um tempo na igreja e esta decidiu contratar outro que tivesse perfil mais gerencial. Estavam trocando o pastoral pelo gerencial. Quando a igreja faz isto, perde a sua característica de cuidar das pessoas e passa a cuidar dos números, da quantidade, da arrecadação. Deixa de ser igreja e passa a ser negócio. Há muitas igrejas que trocaram o termo discipulado por mentoring (termo técnico do mundo corporativo), nomeiam gerentes de áreas (Educação Cristã, Ação Social, Diaconia, etc.). Há ainda as que não buscam mais pastores com sólida base teológica, mas sim animadores de auditório. Se ele sabe fazer o pessoal cantar, pular, aplaudir, chorar, motivar a contribuir, é um excelente “pastor”, não importando o quanto de abobrinha vá dizer.
Com este cenário, não é para menos que tenha saltado de 4% a 14% o número dos desigrejados.
Marcos Inhauser

terça-feira, 9 de agosto de 2011

SÍNDROME DE COELET

O nome é estranho, porque transliteração (mal feita) da palavra hebraica para “pregador”. Coelet é o termo técnico para se referir ao escritor/pregador/sábio do livro de Eclesiastes, na Bíblia. Precisar quem era é um problema, mas há consenso de que deva ser Salomão, já velho, depressivo e desesperançado. Ele diz: “É ilusão, é ilusão, diz o Coelet. Tudo é ilusão. A gente gasta a vida trabalhando, se esforçando e afinal que vantagem leva em tudo isso? Pessoas nascem, pessoas morrem, mas o mundo continua sempre o mesmo. O sol continua a nascer, e a se pôr, e volta ao seu lugar para começar tudo outra vez. O vento sopra para o sul, depois para o norte, dá voltas e mais voltas e acaba no mesmo lugar. Todos os rios correm para o mar, porém o mar não fica cheio. A água volta para onde nascem os rios, e tudo começa outra vez. Todas as coisas levam a gente ao cansaço—um cansaço tão grande, que nem dá para contar. Os nossos olhos não se cansam de ver, nem os nossos ouvidos, de ouvir. O que aconteceu antes vai acontecer outra vez. O que foi feito antes será feito novamente. Não há nada de novo neste mundo. Será que existe alguma coisa de que a gente possa dizer: ´Veja! Isto nunca aconteceu no mundo´? Não! Tudo já aconteceu antes, bem antes de nós nascermos.” Lembrei-me dele com esta nova crise nos mercados mundiais. Também lembrei do Friedrich Nietzche, que, até onde entendi o que dele estudei (se é que entendi alguma coisa), tinha uma concepção meio que espiralada do eterno retorno da história, de tal forma que as coisas se repetem, não de forma idêntica, mas semelhante. Confesso que é difícil não ser contaminado pela desesperança e depressão do Coelet, especialmente nestes dias. Escrevi há um mês (“Nem direita, nem esquerda” 13/7) que as diferenças ideológicas, políticas, teológicas, litúrgicas estão se acabando, tudo convergindo para a mesmice. Há uma predominância do senso comum, das platitudes aceitas irrefletidamente, um exorcismo das diferenças, uma demonização do menino que diz que o rei está nu. Um país comunista, a China, é o maior investidor capitalista na economia do império! Não sei se ser diferente, crítico, cético já foi menos penoso que em nossos dias. Mas sei que isto tem um preço alto. Ser profeta e dizer o novo, o diferente, anunciar o castigo e a reconstrução é tarefa fadada à solidão. Que o diga Jeremias! Não dá holofote, mas caverna. À esta nova crise dos mercados não faltarão profeteiros (religiosos e seculares) a denunciar mazelas, pregar tribulação e anunciar salvação. No entanto, temos um problema insolúvel: há que crescer economicamente para dar empregos a milhares que diariamente entram ao mercado de trabalho, sob pena de ter as cidades incendiadas por hordas de jovens desesperançados, tal como acontece hoje em Londres e aconteceu no Egito, Síria, etc. Para que tenham emprego, há que ter gente consumindo o que se produz. Para produzir há que buscar recursos naturais, que arrebenta a natureza e polui as cidades, rios e mares. Há uma população mundial inviável para o tipo de economia que praticamos, que valoriza o lucro e a exploração sem limite. Estamos nos colapsando. Há esperança? Eu creio no Reino de Deus, na irrupção de Deus na história para nos dar um novo céu e nova terra. Mas hoje estou como Abraão (“crendo contra toda esperança”) e como o Coelet (“vaidade das vaidades, tudo é vaidade”, “será que existe alguma coisa de que a gente possa dizer: ´Veja! Isto nunca aconteceu no mundo?´”). É a síndrome do Coelet. Marcos Inhauser

SÍNDROME DE COELET

O nome é estranho, porque transliteração (mal feita) da palavra hebraica para “pregador”. Coelet é o termo técnico para se referir ao escritor/pregador/sábio do livro de Eclesiastes, na Bíblia. Precisar quem era é um problema, mas há consenso de que deva ser Salomão, já velho, depressivo e desesperançado. Ele diz: “É ilusão, é ilusão, diz o Coelet. Tudo é ilusão. A gente gasta a vida trabalhando, se esforçando e afinal que vantagem leva em tudo isso? Pessoas nascem, pessoas morrem, mas o mundo continua sempre o mesmo. O sol continua a nascer, e a se pôr, e volta ao seu lugar para começar tudo outra vez. O vento sopra para o sul, depois para o norte, dá voltas e mais voltas e acaba no mesmo lugar. Todos os rios correm para o mar, porém o mar não fica cheio. A água volta para onde nascem os rios, e tudo começa outra vez. Todas as coisas levam a gente ao cansaço—um cansaço tão grande, que nem dá para contar. Os nossos olhos não se cansam de ver, nem os nossos ouvidos, de ouvir. O que aconteceu antes vai acontecer outra vez. O que foi feito antes será feito novamente. Não há nada de novo neste mundo. Será que existe alguma coisa de que a gente possa dizer: ´Veja! Isto nunca aconteceu no mundo´? Não! Tudo já aconteceu antes, bem antes de nós nascermos.” Lembrei-me dele com esta nova crise nos mercados mundiais. Também lembrei do Friedrich Nietzche, que, até onde entendi o que dele estudei (se é que entendi alguma coisa), tinha uma concepção meio que espiralada do eterno retorno da história, de tal forma que as coisas se repetem, não de forma idêntica, mas semelhante. Confesso que é difícil não ser contaminado pela desesperança e depressão do Coelet, especialmente nestes dias. Escrevi há um mês (“Nem direita, nem esquerda” 13/7) que as diferenças ideológicas, políticas, teológicas, litúrgicas estão se acabando, tudo convergindo para a mesmice. Há uma predominância do senso comum, das platitudes aceitas irrefletidamente, um exorcismo das diferenças, uma demonização do menino que diz que o rei está nu. Um país comunista, a China, é o maior investidor capitalista na economia do império! Não sei se ser diferente, crítico, cético já foi menos penoso que em nossos dias. Mas sei que isto tem um preço alto. Ser profeta e dizer o novo, o diferente, anunciar o castigo e a reconstrução é tarefa fadada à solidão. Que o diga Jeremias! Não dá holofote, mas caverna. À esta nova crise dos mercados não faltarão profeteiros (religiosos e seculares) a denunciar mazelas, pregar tribulação e anunciar salvação. No entanto, temos um problema insolúvel: há que crescer economicamente para dar empregos a milhares que diariamente entram ao mercado de trabalho, sob pena de ter as cidades incendiadas por hordas de jovens desesperançados, tal como acontece hoje em Londres e aconteceu no Egito, Síria, etc. Para que tenham emprego, há que ter gente consumindo o que se produz. Para produzir há que buscar recursos naturais, que arrebenta a natureza e polui as cidades, rios e mares. Há uma população mundial inviável para o tipo de economia que praticamos, que valoriza o lucro e a exploração sem limite. Estamos nos colapsando. Há esperança? Eu creio no Reino de Deus, na irrupção de Deus na história para nos dar um novo céu e nova terra. Mas hoje estou como Abraão (“crendo contra toda esperança”) e como o Coelet (“vaidade das vaidades, tudo é vaidade”, “será que existe alguma coisa de que a gente possa dizer: ´Veja! Isto nunca aconteceu no mundo?´”). É a síndrome do Coelet. Marcos Inhauser

terça-feira, 2 de agosto de 2011

JUIZO TEMERÁRIO

Já contei aqui uma história dele (“Um pastor paradigmático” 22/02/2011), mas conto outra, por ser também paradigmática de um comportamento bastante comum. Estávamos em um Acampamento Menonita em San Juan de la Maguana, na República Dominicana, para um conferencia de igreja. Havia umas 200 pessoas, entre elas uma jovem que tinha certa deficiência mental, mas muito atenciosa e serviçal. Do local de reuniões ao refeitório havia uma distância de uns 500 metros e à noite não havia iluminação para sair do refeitório ao auditório, o que fazia com que as pessoas andassem por um caminho escuro. Certa noite fiquei até mais tarde no refeitório conversando com alguém e quando fiz menção de sair para o auditório, a jovem me perguntou se podia ir comigo porque tinha medo de andar no escuro sozinha. Disse que sim e lá fomos nós conversando. Fiz a elas algumas perguntas e ela me respondia e nas suas respostas ficava ainda mais evidente as dificuldades mentais que tinha. Eu caminhava devagar porque parecia que ela também tinha alguma dificuldade para andar, especialmente naquelas circunstâncias. Quando já estávamos bem próximos do auditório, havia na estreita calçada uma saliência. Ela tropeçou, caiu e começou a gritar e a chorar alto. No escuro eu não conseguia ver se ela havia se machucado ou não. Alguns homens vieram ajudar e a levamos para o salão onde o pessoal cantava. Ela entrou chorando alto, um tanto descontrolada, típico de uma pessoa em suas condições. Chamou a atenção de todos. O pastor convidado (o mesmo que era doutor em Apocalipse e que tinha estudado a Bíblia sozinho, sem ajuda de ninguém, só do Espírito Santo), veio correndo até ela e sem fazer uma única pergunta, começou a expulsar o demônio dela. Eu que tinha saído para buscar um remédio, quando voltei, vi ao redor dela uns dez homens orando, gritando, berrando e expulsando o demônio. Confesso que fiquei atônito, com vontade de fazer um esparramo e dizer que os endemoninhados eram eles que não perceberam a condição da moça, nem sabiam o que tinha acontecido. Assumiram que se uma mulher entra em um local de culto chorando é manifestação do demônio e pronto. Deixei a coisa rolar. Depois que ela se acalmou, os “exorcistas de araque” saíram dando glórias e ao iniciar sua “prédica” (uma arenga, na verdade) ele disse que o poder de Deus havia se manifestado naquele lugar pela expulsão de quem quis tumultuar o culto maravilhoso que teriam. Eu me acerquei a ela para saber se havia se machucado e percebi que havia torcido o tornozelo que já começava a inchar e tinha escoriado o joelho. A menina precisou ser levada embora para ser medicada porque não havia no local condições sequer de fazer uma compressa com gelo. O pregador ficou. Na avaliação dele, o culto foi uma benção! A avaliação dela eu não sei, não perguntei e ela não me falou. Na minha avaliação foi uma encenação, uma farsa, um tempo de arrogância religiosa. Conto isto porque sei, por testemunho de outros e por outras experiências, que tal prática é comum nos meios religiosos. Há uma impressionante tendência em pegar um sinal e fazer com ele um diagnóstico completo. Já ouvi muitas vezes que “fulano teve uma conversão verdadeira”, pelo fato de haver chorado durante um culto com apelo. Se não chorar, “não se converteu genuinamente”. Já vi alguém ser acusado de herege porque estava usando uma versão de Bíblia que não era a que aquela igreja adotava. A lista poderia se estender, mas não o faço porque cada de um de vocês se recordara de uma situação idêntica, na qual, talvez você mesmo tenha sido vítima de um juízo precipitado. O gozado é que até hoje nunca ouvi ninguém pregar sobre o pecado do juízo temerário, precipitado. Biblicamente falando, ele é tão pecado quanto tantos outros tão veementemente combatidos. Marcos Inhauser

quarta-feira, 27 de julho de 2011

DÁ PARA EXPLICAR?

Já confessei aqui, mais de uma vez, que sou analfabeto de pai e mãe no que à economia se refere. Mal sei fazer as contas de entrada e gastos. Já me esforcei, mas cheguei à conclusão que não entrei na fila quando Deus distribuiu a inteligência econômico-financeira. Por causa disto, há coisas que dão nó na minha cabeça. Eu não consigo entender como um deputado investe uma baita grana para se eleger se o que vai receber de salário e aditivos não paga nem metade do que gastou. Fico admirado com o espírito público deles: pagam para representar o povo! Também não entendo como uma pessoa que tem um salário mais ou menos igual ao meu consegue construir em dois anos uma casa de 2,5 milhões! Nem como se consegue multiplicar o patrimônio vinte vezes em dois anos. Nem como sendo tão analfabeto quanto eu (ainda mais, porque come todos os “s”), consegue que lhe paguem duzentos mil para ir falar abobrinha. Agora estou sem dormir tentando entender o rolo da Grécia e Estados Unidos. Nem com dormonid estou conseguindo. Como pode um país gastar com gastos públicos mais do que arrecada, torrar 200 bi da ajuda, receber ainda mais 160 e estar tecnicamente no calote? Como pode ser calote e o pessoal dizer que a coisa foi resolvida? Por que a população tem que pagar a conta sozinha se os grandes investidores fizeram uma jogada de risco? Se ganhassem era bolada só deles. Perderam, socializam o prejuízo. Na outra ponta está os Estados Unidos. Os Republicanos, capitaneados pelo Lula gringo que foi o Bush, sofreram ataque dos radicais do Bin Laden. Coisa de uma dúzia de doidos. Na lógica do império e da família Bush, o Afeganistão devia pagar pelo crime, porque o Bin Laden tinha sua base no território deles. Morreram milhares e nada do indigitado. Gastaram fortunas e nada. Não contentes, inventaram a mentira das armas químicas que o Hussein teria em seu poder, invadiram o Iraque, gastaram outra bilhonada, autorizada pelo congresso republicano. Eles se enterraram até o pescoço em dívidas e agora querem que a conta seja paga pelos Democratas e, indiretamente por todo o mundo, por causa da repercussão sistêmica que tal default causará. Exigem cortes de bilhões na saúde, educação e outros itens importantes, mas não vejo cortes nos gastos militares. Fazem a sujeira e agora querem limpar com as mãos alheias para que, na próxima eleição, possam desfilar de paladinos dos gastos públicos. Fica a sensação de que políticos em todas as partes são iguais. Aqui é o PR se locupletando no DNIT e VALEC, o PMDB nadando de braçadas no setor energético, o PT mamando em todas as tetas que pode. Aparece a eleição e vão todos repetir o mesmo discurso centenário. Leio que o gasto público brasileiro está aumentando a cada mês e que a coisa não está mais feia é porque estão fazendo a receita crescer. Mais impostos arrecadados, mais gente pagando, menos dinheiro na praça, para que as primeiras damas municipais possam tirar um naco de alguns milhões. E eu, e você, e nós, sofrendo para fechar as contas. Cortamos na carne, para que outros engordem suas contas. Reduzimos ao máximo o conforto pessoal, para que o governador vá com a família de jatinho passear nas Bahamas. Alguém pode me explicar como é isto? Marcos Inhauser

terça-feira, 19 de julho de 2011

$OMO$

Há um crescimento do economicismo, noção de que o valor de qualquer coisa é dado em termos econômicos. Esta ideia domina a mentalidade com a qual as pessoas se aproximam de qualquer evento como transação e até mesmo umas das outras. Toda coisa deve ter uma etiqueta de preço. Está presente em praticamente todas as atividades. Ter um bebê, ouvir música, ir à igreja ou cuidar do meio ambiente são vistos em termos de “quanto custa”. Se uma atividade é caracterizada como “não-rentável”, o seu direito à existência é questionado. Se o que fazemos não traz retornos quantificáveis, nossa atividade é secundária e supérflua. Temos deixado esse valor penetrar em muitas áreas da sociedade. De alguma forma nós fomos levados a pensar nisso como algo normal. Medem-se negócios, atividades, assistência social, igrejas em termos de quanto custa e quanto retorno traz. Se o econômico é o aspecto mais importante de qualquer empreendimento ou ação, então, as pessoas mais importantes são os gestores. Mas como isto se aplica aos professores, aos psicólogos que trabalham com deficientes (o autista, por exemplo)? Qual o retorno econômico que se tem ao atender a uma pessoa necessitada por altruísmo e solidariedade? Estamos sendo treinados para ser gerentes que pensam sobre "produtividade", para atender aos orçamentos e metas, para fazer a escola "competitiva", para atrair os melhores alunos, para descobrir como reduzir custos, para gerenciar recursos exíguos. Isto é cada vez mais verdadeiro em toda as profissões, seja no trabalho de medicina, social ou na argumentação sobre investimentos (“isto daria para construir tantas casa populares”). A corrupção é julgada pela quantidade roubada e não tanto pelo fato de ter sido roubado. Ouvi estes dias que o que se desviou em Campinas dava para comprar duas companhias aéreas como a Webjet. Se quantificamos nossos atos, como podemos descobrir o que causa os crimes, ou educação deficiente ou os divórcios? Os crimes acontecem porque há gente pobre querendo um tênis mais sofisticado (quantia X quantia). A educação é deficiente porque os salários dos professores são baixos (quantia) e as escolas estão mal aparelhadas (quantia). Há mais divórcios hoje porque as mulheres tem mais chance de sobreviver do que tinham antigamente. Começamos a nos contentar com explicações superficiais e quantificadoras e passamos a acreditar que mais investimento melhora a educação, mais renda na sociedade diminui o crime, mais oportunidade financeira aumenta a taxa de divórcios. Para tudo precisamos de mais eficiência, melhor relação custo/benefício. Precisamos de mais competição para que os preços caiam. Temos que ser rentáveis e com este parâmetro temos de regular e controlar o comportamento humano. Quando questões importantes sobre as relações humanas são reduzidas a questões de gerenciamento do comportamento. As pessoas não estão mais sendo levadas a sério. O ser humano é mais que uma quantia, uma máquina de produzir ou consumir. Há mistérios humanos não quantificáveis. Como disseram os Beatles, o dinheiro não compra o amor. Uma bela cozinha planejada não faz mais feliz a ninguém. Uma bela casa pode dar conforto, mas não satisfaz o íntimo de uma pessoa carente de afeto. O problema mais profundo com o economicismo é que ele está fora de sintonia com as necessidades mais fundamentais dos seres humanos. O economicismo ensina que devemos amar coisas que as pessoas usam e não as pessoas que usam coisas. Estas considerações me fazem lembrar um amigo que esteve há alguns anos na sala da presidência de uma multinacional e viu um mapa mundi pedurado que não tinha a África. Ele perguntou por que o mapa não tinha o continente, ao que o presidente respondeu: “eles não contam para nós, porque é um continente que não consome o que produzimos; eles não existem para nós”. Marcos Inhauser

terça-feira, 12 de julho de 2011

NEM ESQUERDA, NEM DIREITA

Na minha adolescência a juventude li muito jornal. Era leitura obrigatória para mim o Estadão e o Jornal da Tarde. Li todos os Pasquins que foram publicados. Estudei em meio de gente que era pró e contra o governo da ditadura. Para mim era claro o que era ser de esquerda e direita. Fui estudar teologia. Comecei em uma instituição fundamentalista de ranço gringo, fui para uma totalmente alinhada com a Teologia da Libertação e também percebi as diferenças entre as teologias de esquerda e direita. Trabalhei com Direitos Humanos na América Latina, viajei à beça, andei por bibocas deste continente latino americano e vi o que governos de direita e ditatoriais podem fazer. Estive em Cuba e Nicarágua, esta na época da Revolução Sandinista e depois na Guerra da Contra. Era claro quem era de direita e de esquerda. Andei visitando igrejas por este mundo de meu Deus. Estive nas Américas, na Europa, Ásia e Oriente Médio, Havia uma clara distinção entre as igrejas e suas liturgias, entre as liturgias mais formais e as mais informais. Hoje estou perdido. Já não sei mais o que é ser de direita ou de esquerda. O PT, referência para a esquerda, se locupletou com a economia de mercado e com a corrupção, criando também o sindicalismo pelego. O PSOL e o PCdoB, que deveriam ser esquerda, tem discursos jurássicos. A teologia convergiu para a prosperidade, arrebanhando calvinistas, wesleyanos, luteranos, batistas, em um movimento de sobrevivência. Todos falam a mesma coisa. Os cultos nas mais diversas igrejas são iguais em forma e conteúdo. Os cânticos das igrejas históricas, pentecostais, neopentecostais e livres, são iguais. A estrutura inexiste em todas elas. As missas carismáticas em pouco diferem dos cultos pentecostais. Os pregadores midiáticos católicos copiam os evangélicos. A diferença entre o PSDB e o PT é retórica, o PMDB se junta a quem está no poder, o DEM quer ser oposição, mas se perde nos mensalões, o PDT se esfarela com o governo de Campinas e com o Paulinho FGTS, o PR mama no Dnit. A Dilma tira os dirigentes do Ministério do Transporte e continua tendo a camarilha do PR à frente do balcão de negócios das estradas e ferrovias. Os Estados Unidos estão a ponto de dar um calote, a Grécia quebrou, a Itália está indo para o buraco, Portugal já foi e a Espanha está a caminho. Fala-se da necessidade urgente de uma reforma fiscal, mas não se acha duas pessoas que falem a mesma língua. Só se consegue consenso dos políticos na hora de aumentar impostos. O governo não cumpre com sua função de prover saúde e educação à população que paga planos de saúde e escolas privadas. Agora, o governo quer receber dos planos pela sua ineficiência, cobrando quando um associado usa o sistema público. Paga educação privada com dinheiro que o governo cobra o Imposto de Renda. A coisa está empastelada (termo usado nas antigas tipografias para se referir aos tipos que se misturavam uns aos outros por queda da caixa e que ninguém mais sabia o que era um e outro), complicada, confusa. Resta-nos uma sensação de desorientação, impotência. Há uma convergência da esquerda com a direita, uma massificação das religiões, uma desorientação cidadã, um generalizado sentimento de desesperança. Estamos vivendo a grande depressão (alguns a chamam de tribulação) apocalíptica? Talvez. De uma coisa tenho certeza: necessitamos de novos céus e nova terra. Uma nova ordem, novos valores, nova sociedade. Enquanto isto, as indústrias farmacêuticas se lambusam nos lucros das vendas de antidepressivos, calmantes e estimulantes sexuais, porque ninguém é de ferro. Marcos Inhauser

terça-feira, 5 de julho de 2011

INDIVIDUALISMO

Há vários anos li um livro, que se não me galha a memória, se chamava “O que pensam os Batistas” de um de tal de Crabtree. A tese dele era que o individualismo é o alicerce para toda a formulação teológica dos batistas. Tenho identificado algumas mudanças culturais que afetam a forma como nos relacionamos, mudanças estas que não vem do nada. Elas se relacionam com os avanços da tecnologia, a evolução demográfica e as necessidades dentro da economia, e também com filosofias. E neste conjunto há uma mudança importante: o individualismo que foi parte das culturas britânica e americana, onde, ao final da grande guerra houve uma preocupação com o bem estar social, mas que acabou sucumbindo ao individualismo. O individualismo tem como tese sagrada a supremacia do indivíduo. Fala de escolha individual, direitos individuais, liberdade, propriedade privada, os quais, juntamente a outros conceitos, se tornaram regra na sociedade individualista onde o sucesso individual, a riqueza individual e lucro individual são valores deontológicos. Ofereceu o convite público para que milhões de pessoas se amassem mais do que a seus próximos. Aqui se encontra um dilema fundamental: torna-se cada vez mais evidente que uma perspectiva individualista é centrada em indivíduos fortes, pois são os que dispõem dos recursos e da unidade para buscar os objetivos da sociedade individualista. Indivíduos fracos são penalizados. Eles são passíveis de ser roubados do seu estado de "indivíduo" e agrupados em blocos sem identidade subjetiva. É uma queixa comum dos desempregados, pobres e desfavorecidos que eles são vistos simplesmente como “números”, “portadores de cartões que devem se ajustar ao sistema”, “pesos para o sistema”, sendo ônus para o Estado (vide INSS). É muito pesado produzir para eles. Esta condição parece estar presente mesmo naqueles que operam os serviços. O contato diário com as "falhas" de uma sociedade orientada para o sucesso pode endurecer as pessoas que trabalham com eles, por exemplo, na administração dos benefícios sociais. Suspeita-se que são ladrões em potencial ou parasitas. É fácil tornar-se insensível e indiferente às necessidades das pessoas quando elas podem ser agrupadas em uma classificação impessoal. Isto, inevitavelmente, tem afetado as relações pessoais. Ética sexual, vida familiar e lazer estão sob a influência do individualismo. Passou a ser a maior barreira à intimidade: pessoas que decidem que “primeiro eu, depois eu e se der..... algo para os outros”, podem acabar sós se perguntando porque são solitárias. A ironia do individualismo é que ele começa com uma preocupação declarada para a realização do indivíduo (através da escolha individual, direitos individuais, a soberania individual), e o resultado é quase sempre que o indivíduo é desvalorizado e isolado. Buscamos nossa privacidade e liberdade com paixão, não querendo qualquer dependência forçada sobre nós. Queremos ser livres para escolher as pessoas com quem nos relacionamos. Partimos da nossa própria família para criar a nossa própria vida privada, familiar nuclear, com uma casa particular, um carro particular, um escritório particular, e não contente com isso, nós queremos dentro de nossa casa um banheiro privado, telefone privado, televisão privada e assim por diante. E quando atingimos isso nos perguntamos “por que estamos sós” E aí vem a teologia individualista botar mais fogo nesta lareira, promovendo competições espirituais e minando comunhões, botando os nossos no céu e os outros no inferno. Marcos Inhauser

terça-feira, 28 de junho de 2011

REESCRITORES DA HISTÓRIA

Primeiro li a “Revolução dos Bichos”. Muitos anos depois foi a vez de 1984, ambos do escritor Eric Arthur Blair, mais conhecido pelo pseudônimo de George Orwell, escritor e jornalista inglês. Adorei seu jeito sarcástico de denunciar regimes totalitários, tão bem descritos no Revolução dos Bichos e 1984. À época em que os li, notei um padrão que se apresenta nos dois livros, sem, contudo, dar muita atenção ao fato: a necessidade dos déspotas em reescrever a história. Na Revolução dos Bichos, ao tomarem de assalto a fazenda, os bichos decretaram uma série de leis, todas em flagrante oposição ao comportamento dos humanos que ali viviam. A relação das leis era: a.) Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo; b.) Qualquer coisa que ande sobre quatro pernas, ou tenha asas, é amigo; c.) Nenhum animal usará roupas; d.) Nenhum animal dormirá em cama; e.) Nenhum animal beberá álcool; f.) Nenhum animal matará outro animal; g.) Todos os animais são iguais. O porco, que se tornou o líder da revolta, aos poucos vai fazendo sutis modificações em algumas das leis, passando a ser: a.) Nenhum animal dormirá em cama com lençóis; b.) Nenhum animal beberá álcool em excesso; c.) Nenhum animal matará outro animal sem motivo; d.) Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros. Em 1984 Orwell mostra como uma sociedade dirigida por uma elite é capaz de reprimir quem se opõe a ela. A história é a de Winston Smith, de vida insignificante, que tem a missão de fazer a propaganda do regime através da modificação de documentos públicos, da história e da literatura para que o governo sempre esteja certo no que faz. Trago estes comentários à tona porque Orwell antecipou algo que ocorre em vários níveis da política nacional e da propaganda oficial. Exemplo disto é o slogan do governo do Dr. Hélio (“primeiro os que mais precisam”) e agora se descobre que primeiros foram os amigos do rei e da rainha. Quando o rei vem a público dar sua versão, reescreve a história (“nunca soube de nada”, “é golpe”, “é antecipação da disputa eleitoral”, etc.). E teve o desplante de dizer que não se devia esquecer que havia sido eleito duas vezes pela população e que tinha um mandato do povo para ficar no governo. Na sua nova versão de mandato, tal qual na Revolução dos bichos, o mandatário da Fazenda Sanasa se esqueceu que mandato era para ser honesto também. No momento em que se envolveu direta ou indiretamente com os desmandos, o seu mandato caiu por terra. E para confirmar a tese orwelliana, o mandatário a Fazenda Sanasa e habitante do Palácio dos Jequitibás, solta uma propaganda ilusionista, uma história cor-de-rosa da sua administração. O mesmo acontece com o PT e seus governos. O seguidor das diretrizes econômicas do anterior se torna o artífice da recuperação econômica. Quebra o sigilo de um cidadão inexpressivo, cai e volta como o articulador político da terceira versão PT no governo. O mensalão foi armação, corrupção passou a ser “recursos de campanha não contabilizados”, articulação política virou “balcão de negócios”, apoio do PMDB virou cargo na administração federal, sindicalista virou pelego. Orwell foi um profeta! No sentido de pré-feta: predisse! Marcos Inhauser

terça-feira, 21 de junho de 2011

ISTO VAI DAR ZICA

Há pouco tempo escrevi aqui sobre os dois países: Brasil e Brasília. Um beirando o inferno pelas precárias condições de educação, saúde e transporte, sufocado por pesados impostos, com bancos cobrando pelo ar que se respira nas agências. No outro, o paraíso. Trabalho de dois dias na semana, passagens aéreas gratuitas, um cardume de assessores pagos, verbas adicionais mil, e se suspeita que haja pagamentos para cada votação que favoreça a este ou aquele grupo. No paraíso não há Receita Federal, o Coaf não pega as transações milionárias e se consegue multiplicar por vinte o patrimônio, sem muito esforço. Ocorre que, no Brasil real e do real fictício, o populacho (assim visto pelos habitantes de Brasília) vem pouco a pouco tomando consciência de que as coisas estão insuportáveis. Estamos nos dando conta da quantidade de impostos e taxas embutidas e escondidas em cada coisa que compramos e isto vai minando o comportamento bovino que nos tem caracterizado e começamos a ficar mais ativos e, em alguns casos, agressivos com a exploração. Estes dias uma pessoa me contava que precisa abrir registro de autônomo. Ela foi à Prefeitura para saber o que deveria fazer e soube que terá que pagar uma taxa de mais de quinhentos reais nos três primeiros anos (quando se supõe que haja isenção de impostos) e depois disto passará a pagar 5% de tudo quanto faturar. A taxa é referente a um autônomo que tem ensino médio, porque, se teve a benção de ter um diploma universitário, a taxa mais que dobra. A pergunta que ele fez à funcionária é “o que recebo em troca por este pagamento?”. O silêncio foi esclarecedor. Ele deve pagar esta taxa e a PM não vai fazer nada, absolutamente nada. Uma outra amiga, da área médica com um consultório na região, teve no último ano três visitas de fiscais de saúde, que implicaram com uma geladeira mini que tinha para ter água e umas frutas para seu consumo, sob a legação de que a geladeira estava próxima à porta do banheiro. E dá-lhe multa. Quando a gente vai a um Posto de Saúde, uma escola mantida pela Prefeitura, uma chreche, percebe-se que a lei serve para os outros nunca para eles próprios. Nunca soube que um Posto de Saúde tenha sido multado pela Vigilância Sanitária do município, ou que uma escola municipal tenha sido interditada porque tem um refrigerador perto do banheiro. Pagamos impostos e pagamos escolas para nossos filhos porque o Estado não faz a sua parte. Pagamos planos médicos porque o sistema de saúde é um desastre. Pagamos pedágios (apesar do IPVA e a CIDE), pagamos segurança particular e guardas noturnos, no que pese pagarmos para ter a PM. A distância entre o Brasil e Brasília está criando um sentimento de insatisfação e irritação nos habitantes do Brasil real, que temo pelo pior. Não consigo ver mudanças significativas com a camarilha que habita Brasília, com passaportes e cidadania conferidos por votos comprados a peso de ouro via propaganda eleitoral e negociações de bastidores. Perdi a esperança na democracia representativa via voto obtido pela propaganda e marketing. Talvez a desobediência civil seja mais efetiva que o voto dos senhores de terno e gravata que se alimentam com o suor de um povo que vive no Brasil e não em Brasília. Marcos Inhauser

quarta-feira, 15 de junho de 2011

TEOLOGIA DA IMPERFEIÇÃO

Há dois consensos entre as religiões: o ser humano foi criado por Deus e ele é inerentemente imperfeito. Logo, Deus criou um ser imperfeito. Esta afirmação machuca, porque a religião não pode afirmar que Deus tenha feito algo menos que perfeito. A saída é introduzir o conceito do pecado, que “danificou” a obra perfeita de Deus. Calvino afirmou a corrupção total do ser humano pelo pecado, Aquino afirmava que restou no ser humano, depois da queda, algo de bom. Pelágio dizia que nascemos sem pecado, mas que o convívio social é o que nos corrompe. Armínio acreditava que o ser humano ficou com o livre arbítrio. São posições que tentam explicar o problema. A questão permanece: se somos imperfeitos, por que as religiões pregam a necessidade de uma vida perfeita, santa e santificada ou seja lá o que preguem, como essencial para agradar a Deus? Se somos imperfeitos, por que se acredita e prega que Deus só usa os bons, os certinhos, os ascéticos ou reclusos? Quando estudamos a vida espiritual dos modelos espirituais que as religiões difundem, se percebe, se se lê com um mínimo de espírito crítico, que há um processo de heroicização destes personagens, mostrando como tiveram vidas austeras, como se negaram aos prazeres, como se mortificaram, que tiveram períodos de santidade plena. A história destes “santos” é uma galeria de gente anulada. No entanto, quando se busca com mais cuidado algumas informações sobre estes “heróis da fé”, vamos perceber gente tão imperfeita como todos nós. No terreno bíblico se tem Abraão, pusilânime diante das pressões da esposa Sara; Jacó, o enganador; Moisés, desobediente e inseguro de sua liderança; Davi, adúltero e assassino; Salomão, megalomaníaco; Jonas, desobediente e omisso; Jeremias, lamentador; Pedro, emocionalmente instável e dissimulado; Paulo perseguidor da Igreja e com espinho na carne. No campo extrabíblico tem-se o Lutero com angústias quanto à sua fé, Aquino que chegou a duvidar da ressurreição de Jesus, Madre Tereza de Calcutá que pediu em 1953: "Por favor, reze por mim para que não estrague a obra d'Ele e que Nosso Senhor possa se mostrar ... pois há uma escuridão tão terrível dentro de mim, como se tudo estivesse morto ... tem sido assim mais ou menos desde que dei início à obra."; "tão profunda ânsia por Deus e ... repulsa ... vazio ... sem fé ... sem amor ... sem fervor. Salvar almas não atrai ... o céu não significa nada ... reze por mim para que eu continue sorrindo para Ele apesar de tudo." Em 1959 ela escreveu: "Se não houver Deus, não pode haver alma, se não houver alma então, Jesus, você também não é real." Isto me faz recordar a resposta de Deus a Paulo que insistia em pedir que sua fraqueza fosse tirada (o tal do espinho na carne): “o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo.” (II Co 12:9) Deus, no exercício de sua soberania e poder, não precisa de coisas e pessoas certinhas para fazer sua obra. Isto o afirmou Paulo: “temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós.” (II Co 4:7) e o motivo é básico: se Ele só pode usar o que é santo e perfeito, a glória será dividida com o “parceiro na santidade e perfeição”, o ser humano. Se ele usa o fraco, o débil, o pecador, e o torna instrumento da sua graça, a glória é dEle. Marcos Inhauser

quarta-feira, 8 de junho de 2011

BRASIL OU BRASÍLIA?

Confesso que ouvi com muita atenção e interesse o depoimento do ministro Antonio Palocci à nação brasileira, via televisão e li o que disse à Folha de São Paulo. Porque também trabalho no ramo de consultoria, estava interessado em aprender como melhorar a minha carteira. Até andei fazendo uns contatos, buscando quem me pudesse fornecer a lista dos clientes do ministro, porque cheguei à conclusão que poderia alavancar significativamente os meus ganhos se tivesse acesso a estes dados. Depois deste exercício de atenção e aprendizado, acho que perdi meu tempo. Ninguém sabe, ninguém viu, ninguém tem a tal lista. Os “esclarecimentos” foram de uma obviedade ingênua. Eu não esperava que ele viesse a público via Jornal Nacional afirmar que sonegou, que atropelou a lei, que agiu ilegalmente. Para dizer o que disse não precisava ficar em silêncio 20 dias nem usar a televisão. Terminada a maratona de paciência a que me impus tentando aprender com este gênio da economia, fiquei com a certeza de que temos dois países: Brasil e Brasília. No Brasil real, temos a carga absurda de impostos, com programas de computador a rastrear em tempo real as coisas que os habitantes fazem. A coisa anda tão avançada que a Receita Federal (é o que dizem) vai antecipar a Declaração de Renda do cidadão. Se você concordar, pague o que eles acham que você deve. Se não concordar, vai lá mostrar os documentos, aguentar a fila e correr o risco de acharem mais coisas, mesmo porque nesta área acham o que querem. Se não tiver dinheiro para pagar eles vão penhorar sua conta bancária e vão pegar o que é deles, não importa outros fatores. No outro país, Brasília, é o paraíso! Ganha-se polpudos salários trabalhando dois ou no máximo três dias por semana, com direito a mais de 60 dias de férias por ano, plano médico integral para ele e os familiares, aposentadoria após alguns poucos anos de trabalho, faltas abonadas sem nenhuma pergunta, viagens ao exterior com tudo pago, possibilidade de apresentar notas frias para combustível e despesas. Aliado a isto há a possibilidade de empregar um monte de parentes e aumentar o já polpudo salário, turbinado por verbas e gratificações. Neste paraíso a Receita é benevolente e em alguns casos inexistente. Não se conhece investigação sobre patrimônio de habitantes eleitos, no que pese evidências, rastros e pegadas deixadas pelo Renan Calheiros, Sarney, Jader Barbalho, entre outros. A Justiça é amiga: tem a impunidade com o belo nome de imunidade (um tipo de vacina jurídica que previne enfermidades com a lei e a Receita Federal). No paraíso Brasília não se pode falar mal do outro. Todos são cordiais, se chamando mutuamente de “excelência”, a imprensa deve ser censurada porque traz desconforto ao clima paradisíaco em que vivem. Tais quais religiosos em profunda comunhão uns com os outros, praticam o espírito de corpo, onde o ataque a um é o ataque a todos. Para a plateia externa encenam algum jogo conhecido como situação e oposição. Fechadas as cortinas do espetáculo, todos comem juntos nos mais caros restaurantes, onde alguns tem até cadeiras cativas. O visto de entrada neste país é o voto, conseguido sabe-se lá como. Outra forma é ser amigo de algum eleito ou, o mais seguro, ser parente de um eleito. Brasília tem filiais em muitas cidades, com embaixada nas Prefeituras Municipais e Câmaras. Exemplo e prova disto é a cidade de Campinas. Marcos Inhauser

terça-feira, 31 de maio de 2011

QUEM É QUEM NO PLANALTO?

No dia 2 de novembro do ano passado eu escrevi a coluna “Dilma ou Lula?”, na qual eu começava com a pergunta: “A eleição da Dilma para a presidência ... impõe a pergunta: o que elegemos? Uma mulher com identidade política própria ou uma versão Lula de saias?” Depois de algumas digressões, eu afirmava que: “... o governo da Dilma pode até ser presidido por uma mulher, mas ladeado de homens, que certamente terão papel preponderante e marcante no estabelecimento das políticas. Um deles vai coordenar o processo de transição (um que renunciou por causa de um escândalo) e o outro vai negociar com homens, donos dos partidos da coalizão ... e, ... com toda certeza, serão em sua grande maioria formado de homens.” Fui criticado e até chamado de machista, porque não acreditava na capacidade da mulher de governar. Os recentes fatos envolvendo o governo Dilma vieram comprovar o que afirmei no passado. Sabe-se hoje que o seu governo está(va) alicerçado na pessoa do ministro Palocci, ex-ministro flagrado com a mão na botija do extrato do Francenildo. Guindado à posição de todo-poderoso na versão Lula-de-saias, o ministro, mais uma vez se enrolou, agora com o extrato da sua própria conta. No desenrolar da crise que se seguiu, soube-se que ele enquadrou o PMDB, na pessoa do Vice-presidente da República, forçando a barra pela aprovação toda suspeita do Código Florestal, cujos interesses que estão por trás ainda não conhecemos bem. A coisa pegou fogo, houve a reação dos fisiológicos peemedebistas, sempre ciosos de seus cargos na administração federal, e a presidente teve que ceder e tirar uma foto com o Michel Temer, como forma simplista e ingênua de que tudo corre às mil maravilhas. Neste interim, quando o circo pegava fogo, ela teve que se valer do ex-presidente, quem foi a Brasília como bombeiro, para salvar a aliança que elegeu a sua eleita. Ela, por sua vez, sumiu. Uma providencial pneumonia a colocou de molho. Especulações falavam de um quadro grave de saúde, com antiga enfermidade retornando. Sabe-se que ela tem problemas de saúde que ameritam cuidados, mas nada que a impeça de governar. Contudo, o que se vê é a inapetência para o manejo das coisas políticas. Ela se associou a cobras criadas para se eleger e agora deixa o ofidiário a seu bel-prazer. A primeira picada venenosa não veio das cobras aliadas, mas das amigas. O Palocci, cria do PT, é um ser trágico: se enrolou e enrolou a outros na Prefeitura de Ribeirão, como ministro esqueceu seu passado trotskista e aderiu de alma lavada à economia de mercado, se envolveu com a casa suspeita, com o mensalão e com o extrato. Reeleito, se enrolou com a Consultoria milionária que prestou (ainda por ser esclarecida, uma vez que os sinais que estão surgindo sugerem tráfico de influência) e agora se enrola com seu gordo extrato bancário e com o silêncio suspeito a que se impõe. Um monte de homens brigando por espaço político e a presidente passeando no Uruguai e se “recuperando de uma pneumonia”. Não era isto que esperávamos do primeiro governo feminino do Brasil. Marcos Inhauser

terça-feira, 24 de maio de 2011

CUPIM NA PORTA

Logo que me mudei para a casa onde atualmente moro, fui alertado que havia um “pozinho” debaixo da porta do quarto. Alertado fui por várias vezes de que este pozinho insistia em aparecer todas as manhãs. Certo dia fui conferir e lá estava ele. No outro dia idem e assim por alguns dias seguidos em que verifiquei. Um dia, conversando com meu pai, quem trabalhou com madeira muitos anos, contei a ele, ao que me perguntou se era pó ou algo como que pequenas bolinhas, granulado. Um dia lembrei de examinar e comentei com ele e ele me disse que há uma diferença entre o pó deixado pelo cupim e pelo coró. Perguntei a diferença entre um e outro e, confesso, não vi muita diferença no estrago que fazem. Não dei mais atenção ao fato, e esperei para ver o que aconteceria. Passados alguns anos, na lateral da porta apareceu um enorme rombo, que deixou ver que a porta estava comida por dentro e que deveria trocá-la. Nestes dias em que estava vendo na televisão o noticiário sobre as denúncias contra funcionários da Sanasa, por uma destas questões que só Freud explica, lancei o olhar para o rombo na porta agora corroída pela praga. Quem acompanha mais atentamente o noticiário já deve ter percebido que a atual administração andou deixando sinais que evidenciavam problema futuro na estrutura. Quem me acompanha nesta coluna poderá se lembrar que, por várias vezes, andei falando do prefeito e sua gestão (Heliofote Santos, Heliossaurus Sanctis, Elogios e Desafios, Roda, Roda-viária, Transtornoviária, Haelius Aegypyt). Nestas colunas eu denunciava que algo estava caindo da porta da Prefeitura Municipal de Campinas. Eu imaginava que o esquema era grande e pesado, mesmo porque, como colunista, muitas vezes fui parado por pessoas ou amigos que me relatavam coisas horripilantes. Algumas até eram funcionárias da Prefeitura e me passavam dados concretos, mas que eu, por não ter as provas necessárias, não podia ser irresponsável e sair usando a coluna para acusar. Outras vezes recebi e-mails não identificados alertando para o pozinho que insistia em aparecer aqui e acolá. Confesso que as acusações que agora são feitas são maiores do que a minha capacidade de imaginação conseguiu abarcar. Aqui com meus botões, eu não estou surpreso, mas estarrecido com a gravidade das denúncias, o tamanho do suposto rombo, a quantidade de gente envolvida e o nível funcional deles. Quando a coisa começou e o Ministério Público chamou os denunciados a depor e começou o festival de licença médica, ausência, ficar em silêncio, não produzir provas contra si mesmo, etc., práticas conhecidas por todos nós em outros esquemas denunciados, tive que ampliar o horizonte da minha imaginação, mas mesmo assim não o fiz suficientemente. Se na porta do meu quarto o estrago foi produzido por cupim ou coró, não importa. A porta foi pro brejo. Se as denúncias tem motivação política ou não, não me importa: a coisa anda podre lá pelos lados da Sanasa e Prefeitura.

terça-feira, 17 de maio de 2011

VINTE VEZES

Esta semana estamos sendo bombardeados com a notícia de que o ex-ministro, depois deputado e agora novamente ministro, Antonio Palocci, teve a façanha de fazer crescer seu patrimônio em vinte vezes nos últimos quatro anos. Fosse ele um nerd do mundo da informática, um Mark Zuckemberg criando algo parecido ao Facebook, ou o Steve Jobs lançando a série de I-tudo, talvez pudéssemos aceitar a notícia sem grande alarde e assombro. Mas o caso em questão é emblemático por tratar-se de figura central do lulo-petismo e da “estabilidade” financeira que o petismo afirma ter trazido ao país. Ele esteve envolvido em casos ruidosos e rumorosos quando de sua passagem pela Prefeitura de Ribeirão Preto, nos contratos denunciados por um ex-assessor seu. A Construtora Leão teve que dar mil explicações e voltas diante das acusações. O próprio Palocci esteve depois envolvido em uma casa nada familiar, alugada para atender aos desejos carnais de gente relacionada ao petismo e a Palocci e, segundo denuncia do Francenildo, ao próprio. A coisa terminou no que todos sabemos, com o ministro envolvido na quebra do sigilo bancário do caseiro e a renúncia do indigitado. Agora, aparece esta capacidade de fazer milagres econômicos e financeiros. Uma consultoria de sua propriedade teve a façanha de ter em quatro anos alguns dos melhores pagadores deste tipo de trabalho que há no Brasil e quiçasmente fora dele. Na média foi um faturamento de 1,9 milhão por ano, ou seja, mais de 150 mil por mês limpinho na mão, ou melhor no caixa da empresa. Se o nobre deputado foi quem trabalhou, ele ganhou a média de R$ 6.000,00 dia, tendo trabalhado 25 dias mês. Acresça-se a isto os salário e benesses do cargo de deputado e a coisa está explicadinha. O problema é que para ele ter trabalhado 25 dias mês, ele não conseguiria ser também deputado. Mas imaginemos que ele fez a meia semana em Brasília como todos os outros fazem, ele ainda assim tinha três dias para trabalhar como consultor. Logo, se foi isto que ocorreu, ele ganhou uma média de R$ 12 mil/dia. Eta consultoria cara. E perceba que isto é o que ganhou só para comprar os imóveis. Parece que não teve despesas de funcionários porque o escritório da consultoria sempre esteve fechado. Mas se a consultoria foi dada ao grupo que mais lucrou (prefiro o termo mamou) no governo Lula, que foram os bancos, a coisa começa a se explicar, porque, ganhando o que ganham, sem nenhum órgão a limitar a fome bancária, talvez a consultoria tenha sido regiamente paga como agradecimento à liberdade de atuação que tem. De minha parte, se posso pedir algo, gostaria que o nobre deputado e consultor me desse a lista dos clientes, para ver se consigo dar uma mamada também. Nem tenho a pretensão de fazer meu patrimônio multiplicar vinte vezes, mesmo porque, vinte vezes quase nada é quase nada,

terça-feira, 10 de maio de 2011

GUZMAN E LADEN

De 87 a 93, por força do meu trabalho com Direitos Humanos na América Latina, acompanhei de perto (mais perto do que gostaria) os problemas políticos no Peru com o governo autocrático do Fujimori, a derrocada da economia com o Fujishock, as investidas dos grupos guerrilheiros Sendero Luminoso e Tupac Amaru. Entre os que trabalhávamos nesta área havia certo consenso de que o Sendero era irracional, não se sabia ao certo o que queria, apostava no caos (seguindo o modelo maoísta de quanto pior melhor). Eles praticavam ataques terroristas e assassinavam qualquer pessoa que ousasse discordar de seus métodos. Há relatos de igrejas inteiras sendo atacadas e os presentes mortos, pelo simples fato de que denunciavam a violência. A figura do chefe, Abimael Guzmán (professor de Filosofia da Universidade Nacional de San Cristóbal de Huamanga) , considerado fundador e que adotou o codinome Presidente Gonzalo, assumiu certa aura mística, vez que o governo, exército e paramilitares não conseguiam capturá-lo. Viveu assim dos anos 60 aos 90, décadas que reforçaram o imaginário popular quanto à sua astúcia e inteligência. Em 12 de outubro de 1992 (data da celebração dos 500 anos de “descobrimento” da América) Guzmán é apresentado como prisioneiro e aparece várias vezes no tribunal, vestido de roupa listradas típica dos prisioneiros e cabeça baixa. Humilhado publicamente, sua mística veio abaixo e com ela o Sendero Luminoso quase desapareceu. Ele continua preso em uma prisão, juntamente com Montesinos, o corrupto mór do governo Fujimori, que teve que fugir do Peru para não ser preso. Laden também fugiu e ninguém o pegava até que o Obama vem a público dizer que havia sido morto em sua casa por um comando especial da Marinha e que seu corpo havia sido jogado ao mar (para evitar uma peregrinação). O problema é que os EUA ainda não aprenderam que um mártir vira herói. Assim foi com o Allende, Getúlio, Sandino, Farabundo Marti, Manoel Rodrigues e tantos outros. Matar é dar cordas à heroicização e isto está acontecendo. Os fatos narrados na primeira hora tiveram que ser recontados pela Casa Branca, porque Bin Laden não estava armado como se havia dito, nem usou a esposa como escudo. Acabo de escutar de que os filhos vão processar o Obama pela morte do pai e pelo insulto de atirá-lo ao mar, um desrespeito segundo a tradição islâmica. O Obama pode ter vindo a público dizer que justiça foi feita, pode ter o respaldo da opinião pública, mas criou um herói. E este herói ainda vai dar muita dor de cabeça ao Obama e aos EUA. É o preço que vão pagar pelo erro cometido. Se tivessem feito o que o Peru fez, não teriam hoje um cadáver a assustar uma nação. E olha que não acredito em assombração. Mas faço uma concessão ao Bin Laden.....

terça-feira, 3 de maio de 2011

INTERNET BÊBADA

Tenho a conexão banda larga pela Net, o tal do Vírtua. Confesso que se Vírtua é algo relacionado à virtude, não vejo virtude alguma no serviço prestado. Falo isto do alto da experiência de mais de cinco anos brigando com a conexão e com a empresa. Já tive o Speedy, e de velocidade nada. Estava mais para tartaruga que para algo veloz. Tenho também do modem da Vivo, que vira e mexe está morto: não funciona nem a pau. Já conversei com gente que tem a GVT, sistema de rádio e todos reclamam a mesma coisa: serviço inconstante, com quedas constantes de conexão, instabilidade na velocidade, propaganda enganosa ao oferecer serviços de tantos megabites e entregam algo que gira em torno de 10% do prometido e comprado. Acrescente-se a isto o serviço de péssima qualidade que prestam nos mal estruturados serviços de call center, com atendentes que mais se parecem a secretárias eletrônica, pois falam sempre a mesma coisa. De conexão entendem tanto quanto eu de física quântica. O que fazem é ler um manual de procedimentos básicos. Na terceira vez que se liga, já se sabe de memória o que vão falar. Se, porventura, decidem fazer uma visita técnica e sobem ao telhado para conferir os cabos e conexões, haja telhas para serem substituídas, porque não tem o menor cuidado e arrebentam o que veem pela frente. Tive que mandar refazer parte do telhado por causa destas “visitas técnicas”. Já cansei de ligar para a Net, para a ouvidoria da Net, para a Anatel. Nestas caminhadas percebi que um finge que vai tomar providências, o outro finge que anotou a reclamação, o outro finge que tomou providências e no final você deve fingir que tem a conexão estável e de qualidade. A minha conexão deve ter tomado uns goles e anda de porre. Vive cambaleando e caindo. Cansei de reclamar porque constatei por fatos e experiências que não resolvem nada. Quando falo isto para outros usuários, todos reclamam da mesma coisa: a conexão brasileira à internet é uma droga. Já cheguei a ficar dias sem net e telefone, no que pese que é meu instrumento de trabalho. E quando reclamei dos dias sem net, que no total foram (somadas todas as interrupções no mês) mais de sete dias, eles me ofereceram um desconto de R$ 12,00 na fatura seguinte! A ANATEL deveria se chamar Agência Nacional de Amparo às Telefonicas, porque estão para defender os interesses das operadoras e não da população. Acho que no Paquistão é a mesma coisa, porque o Bin Laden não tinha nem telefone, nem internet na casa onde vivia. Deve ser porque percebeu que é terrorista a internet, ao menos a brasileira: é uma bomba que explode em toda casa. Quero ver o dia em que vão dar um Engov para a internet brasileira.

ESTADO ESQUIZOFRÊNICO

Não é de hoje que falo, escrevo e protesto contra o Estado brasileiro nos seus diversos níveis. Há nele um aperfeiçoamento célere quando se trata de arrecadação. A Receita Federal, o INSS, o ICMS e o ISSQN passaram por profundas transformações no sentido de coibir as sonegações. Não sei se existe outro país no mundo onde a declaração anual do imposto de renda seja totalmente online, como é a brasileira neste ano. Lembrar que há não muito tempo ainda se fazia em papel. As emissões de nota fiscal eletrônica são outro avanço no sentido de melhor arrecadar impostos. O cruzamento em tempo real de dados é outro elemento deste avanço tecnológico. Nenhum outro país teve tantos radares instalados em tão pouco tempo, vigiando os condutores e punindo ao menor deslize. Dez por cento de excesso de velocidade em sessenta quilômetros por hora, e dá-lhe multa. Mas, quando se trata de devolver ao cidadão o serviço que o Estado por lei e Constituição é obrigado a dar, aí são outros quinhentos. Nem vou falar de segurança, saúde e educação, para não cair nos clichês. Falo de serviços cobrados e mínimos, como um alvará de funcionamento, uma certidão negativa de multa, um parcelamento de débito, aprovação de uma planta, reconsideração de cálculo de IPTU, lançamentos equivocados, etc. Quem nunca se irritou com a demora em ser atendido num posto da Receita Federal, INSS, Prefeitura ou outro órgão qualquer? Quem nunca se intrigou com os movimentos modorrentos de funcionários públicos, que se arrastam para fazer aquilo para que são pagos? O aperfeiçoamento da máquina veio na ponta da arrecadação. A se considerar os inúmeros casos de escândalo e propinas e licitações dirigidas, parece que houve incremente tecnológico na ponta da evasão via corrupção, vide o caso ainda não julgado do mensalão. Mais recentemente, o caso da Sanasa em Campinas, com um propinoduto instalado é outro exemplo. As evasivas dos envolvidos não comparecendo ou ficando em silêncio é a evidência desta “tecnologia” aplicada aos tribunais. A Receita, o ICMS, o ISSQN e os radares foram aperfeiçoados e a informática mal chega capengamente ao judiciário, que, em tese, beneficiaria o cidadão. Ocorre que mais de 50% dos recursos são feitos pelos diversos órgãos da administração pública e não interessa a eles que este processos sejam julgados. Vendo isto eu me lembro do Valdir, um caboclo que me disse uma vez: “a porta do chiqueiro é bonita, mas lá dentro é muita lama prá um chiqueiro tão pequeno”.

A GRAÇA DA ILUMINAÇÃO

Para mim não é coincidência que o relato bíblico inicie com a descrição de um caos (tohu vabohu, no hebraico). Voltei a pensar nisto nos dias que se sucederam ao tsunami no Japão e a profusão de imagens do caos em que a terra se transformou. Nada no lugar, tudo amontoado, arrebentado, quebrado, inutilizado. Para mim, aquelas cenas foram as que mais me ilustraram o que o tohu vabohu significa. O texto do Gênesis afirma que a terra estava sem forma e vazia (tohu vabohu). O caos predominava. A assolação era inimaginável. Diante dos destroços deixados pelo tsunami, a gente fica perdido sem saber por onde começar e como fazer a limpeza de tamanho estrago. Assim era o início. Diante desta situação vem Deus e, sem que ninguém pedisse, sem que alguém tivesse sentido a necessidade, orado, clamado, exigido dEle uma providência, Ele toma a iniciativa de colocar ordem na bagunça. E o faz de maneira surpreendente porque não é a forma como faríamos. Ele fala e ordena as coisas, no duplo sentido que o verbo tem: dá ordens e coloca ordem. Só que havia um caos agravado pela escuridão. A primeira providência divina foi iluminar a bagunça. Nisto há uma dualidade de efeitos: tem-se mais clareza sobre a natureza do caos e agrava-se a sensação do caos. Um dos problemas que enfrentamos na vida é que o caos é uma experiência humana bastante comum. De tempos em tempos ficamos atolados em meio ao tohu vabohu que a nossa vida se transforma ou é envolvida. E quando estamos neste caos, parece que estamos em uma escuridão feito breu. Nada faz sentido, tudo é tão obscuro, falta clareza, cada coisa que se faz, pensa ou decide é como se fosse trombando com coisas que a gente não vê, não tem consciência. A outra questão é que, ao lançar luz sobre o caos, passamos a ver com clareza o tamanho do estrago, da crise. Ao lançar luz, a coisa fica mais feia do que imaginávamos. Na escuridão imaginamos, sob a luz conscientizamo-nos e este processo é dolorido. Por incrível que pareça, há quem prefira ficar na escuridão a ver a realidade do estrago e da catástrofe em que está metido. Tomar pé da situação é esclarecedor, mas, ao mesmo tempo, aterrador. Mas há aqui uma lição: não se ordena o tohu vabohu sem iluminar os fatos. Outro dado é que o processo de colocar ordem na bagunça não é mágico, algo que ocorre em um segundo. É um processo que toma sete etapas, muito ao contrário de alguns pregadores de poder que prometem consertar a bagunça de uma vida com uma oração. Parece que eles são mais rápidos e poderosos que Deus.

O PODER DO ELOGIO

Uma das necessidades intrínsecas do ser humano é a da realização. Todos precisamos fazer algo para dizer que fomos nós que o fizemos. Em certa medida, somos avaliados pelo que fazemos, mais do que pelo que somos ou temos. A crise da meia-idade no homem fica mais acentuada se, ao olhar para trás, ele não fez nada do que possa orgulhar-se. Esta necessidade é irmã gêmea de outra, a do reconhecimento. Precisamos ser reconhecidos como pessoas atuantes e realizadoras. Se alguém faz algo sem que ninguém note o que ele está fazendo, deixará de fazê-lo depois de um tempo, salvo se for um louco totalmente desligado da realidade. O trabalhado invisível parece um mito. Todos, sem exceção (pelo menos na minha ótica) precisamos de alguém que saiba do que fazemos. Isto leva a uma regra do trabalho: toda pessoa que faz qualquer coisa sem ter que reportar a alguém, ou deixará de fazê-lo ou nunca o fará com excelência. Todos sonhamos em fazer algo que nos perpetue na memória dos outros. Com facilidade incrível dizemos que isto ou aquilo é um “marco histórico”, “algo que vai entrar para a história”, porque necessitamos crer que nossos atos serão lembrados ad eternum. Estas considerações preliminares servem para introduzir minhas reflexões sobre o episódio de Realengo e outros similares ao redor do mundo. Há um corte de similitude nos personagens destes eventos trágicos, assim como de bandidos que se tornaram famosos: foram pessoas não notadas, não reconhecidas, não valorizadas pelos colegas e família. Vítimas de chacota, nunca foram reconhecidas por seus méritos, por suas qualidades ou pelo que faziam. O desejo de “entrar para a história”, de fazer algo que fizesse com que seus nomes fossem conhecidos, suas fotos e nomes publicados, ainda que nas páginas policiais, a necessidade de serem famosos, pode ser uma das motivações para que se decidam pelo caminho enviesado do crime. A entrevista dada pelo menino australiano que jogou o colega ao chão depois de ser agredido mostra um jovem que não era reconhecido nem pelo pai, que afirma que se assustou ao saber que por três anos seu filho estava sendo vítima de chacotas, brincadeiras humilhantes e desprezo. Um pai que não notava a presença e a vida do filho. Nem o pai o reconhecia. O mesmo é válido para o outro apresentado como o agressor, que não vive com a mãe e tem um pai manipulador. Vivemos tempos de extrema competitividade, de vidas centradas em si mesmas e perdemos a cultura do elogio, do reconhecimento do outro como ator e causador de coisas boas. Somos rápidos em criticar, tardios em elogiar. E digo isto especialmente em relação aos pais no processo de educação dos filhos. Se elogiamos, não o fazemos com a mesma carga emocional da crítica, da censura. Reconhecer que o outro existe e é autor e causador de coisas boas é uma das formas de se evitar tragédias, seja ela que magnitude tenha.

SESSENTOU

Não leio os capítulos iniciais do livro do Gênesis no seu sentido literal e muito menos historiográfico. Vejo-o como literatura sapiencial, cheio de máximas de vida e instruções de sabedoria. Assim, há nele alguns dados interessantíssimos. No segundo relato da criação, diferentemente do primeiro, o homem foi criado só e somente depois de tudo o mais ter sido criado, Deus percebe que não é bom ele estar sozinho e decide criar a mulher. Isto me faz pensar na ação da graça de Deus: um agir imotivado, não provocado por qualquer circunstância a não ser sua própria vontade. Adão não tinha consciência de que estava só, que seria interessante ter companhia, que poderia ser uma mulher. Deus criou a mulher antes mesmo que Adão tivesse pedido, imaginado, pedido. E ele se surpreendeu com a ação da graça de Deus. Assim sou eu. Na juventude, meio apressadinho, andei pedindo a Deus uma companheira, uma esposa. Atirei para alguns lados, sem resultado. Um dia a graça de Deus se manifestou na minha vida e ele me deu a Eva da minha vida. E o que Deus me deu foi muito, mas muito melhor do que eu poderia ter imaginado, pensado, pedido. A Eva da minha vida, por causa da graça de Deus, vem colhendo anos na vida junto comigo. Se Deus me tivesse dado uma esposa que não envelhecesse, eu hoje, sessentão, estaria com uma jovenzinha sem muita experiência ao meu lado e eu, provavelmente me cansaria dela, porque seria a mesma nestes trinta e oito anos em que estamos juntos. A graça de Deus me deu uma Eva que vem amadurecendo pari passu comigo. E a cada dia eu tenho uma nova Eva ao meu lado, surpreendendo-me e fazendo-me companhia. Ela completa seus sessenta anos amanhã. Eu os completei em dezembro. Juntos passamos quase dois terços de nossas vidas nos fazendo companhia. E, sem nenhuma presunção, foram trinta e oito anos vivendo no paraíso, mais por mérito da minha Eva que meus. Tivemos filhos e não experimentamos o problema de vê-los brigando, tal como Caim e Abel. Antes, eles ajudaram a transformar a nossa casa em paraíso e se ajudam mutuamente. Nossos netos são como pérolas a adornar este paraíso. E, diferentemente da Eva original, a minha não me deu o fruto proibido para comer e pecar, antes, sempre, foi fiel para alertar-me a mim e aos nossos filhos e netos, a benção da fidelidade a Deus. A minha Eva é a manifestação diária da graça de Deus na minha vida. Agradeço a Deus e a ela a experiência diária da graça, coisa que só mais recentemente vim a entender.

TOMOU A VIDA A SÉRIO

Há uma letra de música nicaraguense que diz que “cometió el atroz delito de tomar la vida en serio”, referindo-se aos que, durante a revolução nicaraguense, haviam dado a vida em favor de outros, para que pudessem ter esperança de melhores dias. Outra vai dizer que o alento da vida é a esperança e creio que os que a infundem nos outros, promovem a vida de muitos. Estas coisas me vieram à mente agora à tarde quando, preso no trânsito por causa da chuva, ouvia notícia da morte do ex-vice-presidente José Alencar, ouvi pessoas falando sobre ele e da convivência que com ele tiveram. Alencar levou a vida a sério, sem cometer delito. Não o conheci pessoalmente. Ouvi muitas das coisas que disse, li sobre sua história de vida e aprendi a admirar nele, entre outras coisas, duas que o transformaram para mim em exemplo. A primeira foi seu exemplo de “fé realista”. Em um contexto religioso brasileiro onde pululam manifestações extremadas, promessas absurdas de cura, crença nos impossíveis, ele a cada vez que se manifestava afirmava e reafirmava sua crença na soberania de Deus. A sua afirmação de que Deus não precisaria de um câncer para tirar sua vida se Ele assim quisesse proceder, e que, se Ele quisesse, viveria mesmo com o câncer, mostram uma pessoa consciente dos limites humanos e divino. Ademais, mostra uma pessoa que entende a religião não como exercício de obrigar Deus a fazer o quero (tão em voga nos modelos pentecostais e neopentecostais), mas como o exercício do reconhecimento da soberania de Deus, no que pese as circunstâncias adversas. A segunda coisa foi sua humildade. Já vi e conheci muitos que se fizeram na vida e, quase sem exceções, eles se caracterizam como arrogantes, nariz empinado, petulantes, porque se creem melhores que a média porque conseguiram sair de uma situação de infortúnio para a de fortuna. Nada mais intragável que o novo rico. José Alencar padeceu sob a crise de 29, viu seu pai perder o pequeno negócio que tinha, sai para trabalhar, venceu, construiu um império, mas nunca deixou de ser o José Alencar simples, humilde, que se lembrava a todo instante dos menos favorecidos. Ao estar sendo tratado em um hospital de referência pelo fato de ser vice-presidente da República, sentia-se como que culpado por estar recebendo tratamento que a maioria não tinha. Ele levou a vida a sério, tanto que lutou por ela até à última gota, o último suspiro. Acima de tudo, infundiu esperança em muitos.

ATÔNITOS

Acho que este é o sentimento da grande maioria com os recentes eventos que atingiram o Japão. Não é possível ficar indiferente com os fatos e as notícias que do Oriente vem. Há, no entanto, algumas coisas que precisam ser explicitadas para que a tragédia não nos pareça maior que muitas outras, mesmo que, diante das tragédias, não se deve estabelecer um campeonato da desgraça. Nenhum outro evento catastrófico que a humanidade tenha sofrido até hoje teve tantas imagens gravadas, tantas câmeras em ação e tão imediata divulgação mundo afora. Há uma regra meio que inerente ao ser humano: quanto mais próximo do fato soubermos dele, mais impacto ele causará em nós. Explico-me: se vejo um acidente na estrada e eu vi o carro se acidentando, ele terá um impacto em mim muito maior do que se eu passar logo depois do acidente e vir o carro acidentado. Menos impacto causará se eu passar algumas horas mais tarde e vir o carro já retirado do leito carroçável. Se alguém me conta uma tragédia, ela produz um impacto em mim dependendo das cores que o narrador dela pintou o quadro. Mas se vejo imagens da tragédia, ela impactará muito mais fortemente. Outro fato é que o impacto em mim depende da quantidade de vítimas e a atrocidade da morte. Uma única morte, de forma natural, impactará menos que uma morte de forma violenta. Assim, muitas mortes de forma violenta trarão impacto muito mais profundo. Dito isto, quero tentar dimensionar algumas coisas. Primeiro, os eventos trágicos do Japão tem causado tal comoção porque transmitidos quase em tempo real e com profusão de detalhes e variedade de imagens como nunca se teve até o dia de hoje. Segundo, porque não houve uma única causa (terremoto), mas uma sucessão de causas (terremoto, seguido de tsunami, mais desastre nuclear). Isto faz lembrar a sabedoria popular que “desgraça pouca é bobagem”. No caso dos reatores nucleares, há que salientar-se a sucessão de problemas que redundaram nas explosões: o terremoto, o tsunami que avariou o sistema de refrigeração. Alternativas lançadas (resfriamento com água do mar), falta de combustível e eletricidade para que o resfriamento pudesse ser efetivo e duradouro, mostram algo que devemos ter sempre em menta: nenhum efeito é causado por uma única causa. Sempre há uma multiplicidade de causas a produzir o efeito. Uma tragédia nunca é provocada por uma única causa. As consequências não são únicas. Todo evento tem consequências múltiplas. São efeitos da tragédia o questionamento mundial sobre a viabilidade do uso nuclear para a geração de energia elétrica, o deslocamento de famílias das áreas contaminadas, a decretação de uma zona morta por décadas, o impacto sobre a economia, etc.

Carta do Abileone

Em homenagem ao meu sogro que faleceu há dias e em agradecimento ao local onde ele esteve nos últimos meses de sua vida. Querida Rita Quero pedir perdão porque fui embora sem me despedir de você. Enfermeiras lindas vieram me chamar e dizer que estava sendo promovido para nova casa de repouso. A minha vida foi trabalhar e isto de repouso pouco tive, mas Deus me abençoou com a o Repouso Bem Viver. Confesso que foi difícil repousar depois de tanto trabalho. Até achei que estavam me descartando. Quando vi você, tão jovem e linda (o Alex que ficar com ciúmes) correndo prá todo lado e eu sentado, sem fazer nada, recebendo tudo de mão beijada, me senti desconfortável. Com o tempo fui gostando de ser paparicado. Nunca fui tantas vezes chamado de “meu lindo”, “meu amor”, nunca tantas moças maravilhosas e dedicadas me pediram em casamento! Uma hora era a Marlene, outra a Cida, depoi a Piloto de Cadeira Formula 1, e a Baixinha, e outra, e outra. Cada uma delas com um jeito especial de cuidar de mim. Até homem andou me dando banho. Agora fui promovido para a Casa do Eterno Repouso. Ela não é muito diferente do que vocês me deram. A Rita que me recebeu aqui disse que na terra ora me chamavam de Leone, ora de Abílio, mas agora tenho um novo nome: Abileone, porque vou ser os dois ao mesmo tempo! Sabe, Rita, tô estranhando aqui: ainda não me deram nenhum remédio. E também não vi ninguém tomando remédio algum. É meio esquisito. Acho que esta Casa de Repouso é meio diferente e fora do eixo. E o mais estranho é que estou me sentindo melhor. Parece que a cada hora que passa tô melhorando mais. As pernas já estão mais fortes e esta noite levantei sozinho prá ir mijar. Ninguém reclamou de mim como vocês faziam, muito pelo contrário, me aplaudiram! Me contaram que vão celebrar meu aniversário e vão fazer festa e que vem um conjunto de musica caipira prá cantar. Eu disse que já tinham feito. Insistiram e avisaram que aqui a gente conta a idade de trás para frente. Agora vou fazer 95 anos, depois 94, 93 e assim por diante. Eu perguntei: e quando chegar no zero? Eles me responderam que vou virar criança eternamente. Estranho isto né? Sabe Rita, se eu não tivesse passado pela sua casa, se eu não tivesse conhecido o Alex, a Marlene, a Cida, a Bingueira, eu ia estranhar isto daqui e não sei se seria uma promoção. Talvez até pedisse para voltar. Ficar aí com vocês foi um estágio para me acostumar com o Céu. Aí é a porta de entrada a Casa de Repouso do Eterno Viver. Beijos e lembranças a todos que trabalham com você. Eles são iguaizinhos aos de branco que tem aqui. Como você conseguiu arrumar tanto anjo para trabalhar com você? Preciso ir para a festa de aniversário. Tão me chamando. Vou ter que acostumar com ter 95 anos outra vez. Quando chegar nos 18, aí sim que vai ser “bão demais da conta”. Se alguém me pedir em casamento eu topo na hora!!!! Abileone

ATO FALHO?

Há poucos dias o presidente dos Estados Unidos veio a público fazer sua crítica ao Mouammar Kadhaf e, entre outras coisas, saiu-se com esta: “ele perdeu a legitimidade”. A frase me levou a algumas considerações, todas devidamente alicerçadas em antigas afirmativas de presidentes estadunidenses. Lembrei-me do Jimmy Carter e sua cruzada pelos Direitos Humanos, quando dizia que os EUA não podiam tolerar governos que violassem os direitos essenciais. Lembrei-me das muitas vezes em que afirmavam que não podiam apoiar ditadores, mas derrubaram o Allende legitimamente eleito e colocaram/permitiram o Pinochet. Ajudaram a derrubar o Goulart e apoiaram as Forças Armadas nos seus anos de ditadura. Investiram contra o Noriega e mataram mais de três mil no bairro dos Chorrillos, na cidade do Panamá. Há décadas submetem o povo cubano a um massacre econômico porque não podem apoiar uma ditadura. Criaram o Hussein, que trabalhou para eles e para a família Bush, e depois fizeram uma guerra para derrubá-lo e “levar a democracia a todo o mundo”. Apoiaram por mais de trinta anos o Mubarack e na hora agá, quando a coisa ficou feia, vieram com o discurso da democracia. Agora vem o Obama dizer que o Kadhaf perdeu legitimidade. Isto quer dizer que antes ele tinha a tal da legitimidade? Que legitimidade é esta? Um governo, fruto de um golpe militar em setembro de 1969, que encastela a família nos palácios e vive da grana desviada? Que legitimidade tem se só nos EUA a família teve mais de 50 bilhões de dólares bloqueados? Quem legitimava este ditador? Quem retirou dele a legitimidade, se é que a tinha? Para mim, a fala do Obama revela como os Estados Unidos tem um discurso hipócrita, camaleônico, interesseiro. Levanta a bandeira dos Direitos Humanos na China, mas tolera a corrupção e a violação nos países árabes. Recebe e se beneficia dos bilhões de dólares investidos por ditadores árabes (seja lá que título tenham) e africanos, e quando a coisa aperta, faz a “revolução antes que os outros a façam”. Para mim sempre foi claro e agora o é ainda mais: que a legitimidade é uma questão de posicionamento do império. Do alto de sua arrogância e prepotência eles dizem que é legítimo o que lhes interessa. Quando as coisas já não mais interessam, eles retiram o apoio e a pessoa perde legitimidade. Este tipo de legitimidade imperial, dada pelos que se julgam polícia do mundo, é uma farsa. Ainda bem que na história da humanidade não houve e nem haverá impérios eternos. E este já está caindo pelas tabelas.