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quarta-feira, 24 de junho de 2015

COM SAUDADES DELE

Eu o conheci solteiro. Meses depois ele se casou e participei daquele casamento cantando no coral. A esposa dele era a regente. Um ano e pouco depois eu me casei e nossas famílias se tornaram muito amigas. Nossos filhos eram amigos e só não cresceram juntos porque eu me mudei para o interior e eles ficaram em São Paulo. Qualquer coisa era motivo para nos reunirmos. A bem da verdade, nós íamos mais vezes à casa deles do que eles vinham à nossa.
Reunir as famílias era um evento. Era uma eucaristia. Comida repartida, orações feitas, cânticos entoados e muita, mas muita risada. Ele era um especialista em fazer trocadilhos com as palavras e em fazer humor com coisas triviais.
Eu fui seminarista na igreja onde ele era membro e ocupava cargos. Sempre admirei nele a capacidade de separar a nossa amizade da sua função de presbítero e tesoureiro. Na política eclesiástica que dominava a denominação naqueles tempos, eu estava na oposição e ele na situação e isto nunca foi empecilho na nossa amizade, ainda que, sabia de gente que perdeu amizades por causa daquela disputa interna. A nossa se fortaleceu pelo respeito dele para comigo e pelo respeito que com ele aprendi a ter por ele.
Extremamente ético, certa feita deixou um emprego por não concordar com certas práticas. Ficou um tempo desempregado, justamente logo depois que comprou a sua casa. Eu o vi comendo o pão amargo de um desemprego prolongado.
Seu filho mais velho tornou-se médico. Um dia, à mesa jantando em família, diante de um fato, o filho disse: precisamos ver isto com urgência. No outro dia o levou para exames e descobriu-se um câncer agressivo que o levou à mesa de cirurgia e retirou dele parte do intestino.
Nesta fase, recebo uma ligação da família de que o Adilson queria conversar comigo e se podiam vir no sábado para visitar a mim e minha família. Entramos em uma sala reservada, e ele me disse: “vim para agradecer pela amizade e para despedir-me de você”. Fiquei perplexo.
Eu tinha duas alternativas: ou tentava dizer que ele estava enganado e que se restabeleceria ou aceitaria sua palavra. Decidi pela segunda: “você nunca mentiu para mim e não acho que está mentindo agora. Vou acreditar em você.” Foi uma longa conversa entre dois homens que aprenderam a se amar e se respeitar como homens. Oramos juntos agradecendo a Deus pela nossa amizade e pela amizade de nossos filhos. Alguns meses depois ele faleceu.
Há mais de um mês recebi um e-mail do seu filho médico, recordando o dia em, que, em uma Veraneio que chamávamos de Jabiraca (que um médico me havia emprestado quando perdi meu carro por causa de um seminarista), fomos ao estádio assistir a um jogo de futebol. Foi uma farra. Dois pais que eram de “deixar a rédea solta” e seis filhos, três homens e três mulheres extasiados com a oportunidade. O e-mail mexeu comigo e não consegui responder. A saudade dele bateu em mim e travei.
Para escrever estas linhas, as lágrimas correm, mesmo depois deste tempo todo. A saudade dele dói em mim. Quanto mais deve doer no Marco Aurélio, Maristela e Márcio Henrique e na sua esposa, Marycleme. Ao Adilson, quem foi um amigo mais chegado que um irmão, a minha gratidão pela amizade.
Marcos Inhauser

GUITARRAS E MAPAS

Recebi o seguinte artigo de um amigo, Abimael Cereda Júnior, que editei e o publico aqui, por apresentar algo que nunca havia pensado.
“Não importa o estilo musical que você gosta de ouvir, consumir ou apreciar. Com certeza você já prestou atenção em um guitarrista de blues. Poderíamos ficar horas discutindo – e alguns até brigando – para chegar a nenhum consenso sobre qual seria o melhor do mundo.
Mas, neste momento, pense naqueles guitarristas que, ao tocarem, estão mais que transferindo energia aos dedos e palheta. Artistas que, ao criarem uma música ou interpretarem uma canção, vão além da execução de notas dispostas na partitura; pessoas que utilizam o ‘instrumento’, ‘cabos’ e ‘amplificador’ não como simples equipamentos, mas como extensão do corpo para realizar algo que organicamente não se tem. Chamamos isto de técnica.
B.B. King não nasceu com cordas nos braços ou amplificador no corpo, mas transformou madeira, metais e eletroeletrônicos em extensão física, para além de sua mente e alma: e a chama de Lucille. Coloca em cada nota e bend não só a urgência desta no lugar certo, no momento correto. Sente, analisa e interpreta e utiliza a caixa de ferramentas disponível em seu cérebro.
Você pode entrar em um site, comprar uma guitarra, pedais, amplificador, guias de aprendizado, um ‘jogo’ interativo para o videogame, acessar vídeos na Internet ou mesmo comprar revistas e sair tocando sua música ou riff preferidos; aprenderá técnicas, acordes, dinâmica e tempo. Mas quando e como você atingirá o nível de interpretação daquele que brinca com os sons e, de repente, está criando novidades?
Quando se criam mapas, seja para o cálculo do melhor caminho para a loja mais próxima, para auxílio dos gestores públicos na definição da aplicação de recursos ou para a denúncia sobre um problema em seu bairro estamos utilizando técnicas de Análise Espacial e o mesmo fenômeno dos guitarristas ocorre.
Você pode adquirir o melhor hardware disponível no mercado (desktops, notebooks, smartwatchs); pode adotar mais que um software e uma Plataforma Tecnológica que permite a utilização de técnicas e métodos para coletar, armazenar, modelar, analisar e compartilhar seu problema de negócio – desde a localização dos seus clientes, cálculos de risco ambiental, proposição da criação de uma nova escola; contudo, a componente principal continua sendo o músico
Poderíamos abolir o termo ‘usuário’ e usar ‘cidadão’. Afinal, mapas pressupõem a representação – mesmo que ilustrativa em algumas situações – do Território, vivendo o Lugar.
Temos urgência por respostas territoriais “no local certo, no momento certo”. A utilização da Inteligência Geográfica – integração da Geografia e Tecnologia – pode trazer estas respostas, assim como um guitarrista constrói a melodia pela continuidade de suas notas e, desta construção, a transformação. E, um mapa, vale mais que mil imagens e tabelas.
Ferramentas tecnológicas são aplicadas à Ciência Geográfica desde seu início. Antes a extensão que precisávamos eram bússolas (e alguns pássaros já nascem com ela), barbantes, criação de projeções para planificação, nanquim e tantos outros instrumentos. Hoje, podemos empoderar toda a sociedade como construtora do seu Espaço pelo uso da Inteligência Geográfica.
E então? Tocar é somente técnico? Não. Analisar o Espaço Geográfico utilizando extensões tecnológicas? Muito menos. B.B. King ao interpretar o que talvez seja uma de suas músicas mais conhecidas – Thrill Is Gone – desvela uma nova história a cada show. Que possamos revelar e construir um novo mundo, em plena transformação, que vive em uma relação dicotômica de estabilidade dinâmica. Construamos o Novo!


quarta-feira, 10 de junho de 2015

ESSA É A MIRANDA!

Brasileira, filha de chineses e vivendo agora na China, eu a conheci em Beijing. Estávamos visitando nossa filha e a acompanhamos à sua loja. Cansado de ouvir tantas mulheres conversando, tinha me desligado do entorno. A certa altura ouvi um papo animado em português. Era minha filha, minha esposa e mais alguém que não reconheci a voz. Fui ver quem era e assim a conheci.
Entrei na conversa e soube que ela vive há quase 10 anos em Beijing. Casada com um alemão, já rodou pelo mundo. Quando estávamos em um aniversário, alguns dias mais tarde, e todos falavam inglês e eu minha esposa já estávamos sufocados de tanto ouvir e falar um idioma que não é o nosso. Chega a Miranda e aí a conversa ficou entre nós três. Soube que foi criada em Igreja Batista, pais severos. No dizer dela, “começou a viver quando saiu de casa e foi para a faculdade”. Trocamos experiências, mas algo começou a me chamar a atenção: a preocupação dela com os estrangeiros, especialmente os brasileiros que vivem na China. Ela está envolvida com uma associação de brasileiros  (Brapeq) e é quem, de certa forma, carrega as coisas nas costas. Seu ministério é promover eventos para que os brasileiros possam se reunir, se conhecer e estreitar os laços de amizade. Os almoços e eventos organizados pelo Brapeq são, de certa maneira, a única maneira com que muitos brasileiros que moram quase toda uma vida fora do Brasil, de manter as tradições, falar sua língua e sentir saudades juntos.  Ela se dispõe a pegar suas próprias coisas, quando necessário, abrir sua casa para eventos e passar horas organizando e preparando almoços e jantares, simplesmente pelo prazer de ver a comunidade brasileira se reunir e celebrar sua brasileiridade. Ela está envolvida nisto até o pescoço e o faz como ministério e vocação.
No meio da conversa falamos sobre ser graça e benção na vida dos outros. Há muito tempo não encontrava alguém que tivesse noção prática da graça de Deus como ela. Não havia nela teologia, conceitos, mas prática.
Durante a festa, minha esposa mencionou o quanto a Miranda estava linda e que tinha adorado sua blusa.  No dia seguinte, quando chegamos em casa, havia uma sacola com um bilhete.  Era a mesma blusa que minha esposa tinha admirado no dia seguinte.  Quando perguntei à minha filha porque ela havia enviado tal presente, a sua resposta foi simples: essa é a Miranda!
Alguns dias mais tarde, em outro evento, tinha a certeza de que ela também estaria. Não veio. Perguntei à minha filha por ela e fui informado de algo que me emocionou: a Miranda estava fazendo uma festa de aniversário para uma pessoa que nunca tinha tido uma festa bem feita. Ela se dispôs a pegar as suas coisas (cristais, taças e talheres), levar à casa da pessoa e fazer para ela o que nunca tinha recebido. A minha filha completou: essa é a Miranda!
Há muitas pessoas que fazem o que devem fazer, no entanto, há poucas que fazem aquilo que ninguém quer ou se atreve a fazer. Não fazem para aparecer, serem elogiadas, reconhecidas ou aduladas.  Fazem, pelo prazer de ajudar e trazer um pouco de felicidade aqueles ao seu redor. Fazem porque são canais da graça de Deus.

Essa é a Miranda!!!
Marcos Inhauser

quarta-feira, 3 de junho de 2015

DO LIMÃO, LIMONADA

A frase é lugar comum e clichê. Sei disto. Mas não achei outra agora que melhor expressasse o que quero compartilhar.
Quem me lê sabe que já critiquei muitas vezes os conservadores. O amanhã deles é o ontem. Padecem de sonhos e de impulso criativo. O melhor seria que tudo continuasse da mesma forma eternamente. Veem o mundo como se fosse um imenso congelador onde as coisas estão para serem preservadas.
Por outro lado, há os que buscam a novidade a toda hora e em todo lugar. Nada mais emocionalmente desestabilizador que ter tudo sempre diferente a cada vez. Se cada vez que eu entrasse em casa, tudo estivesse em novos lugares, a minha vida seria um inferno. Isto me faz lembrar de um sonho que tive em um determinado momento de minha vida onde muitas mudanças estavam ocorrendo. Nele eu estava em uma cidade muito bem conhecida por mim, mas os quarteirões rodavam sobre seu próprio eixo, de tempos em tempos, e eu ficava perdido sem saber em qual rua estava e para onde deveria seguir para chegar onde queria.
Assim, há um nível saudável entre o preservar e o mudar. Se o eterno preservar é quase-morte, o sempre-renovar é loucura.
Somos abalados diariamente por mudanças, situações, eventos, perdas, tensões, trombadas (reais e metafóricas), pelo aleatório, pela incerteza, etc. Diante de tais imponderáveis temos duas possibilidades: ou resistimos ou nos flexibilizamos. Há, então, três possibilidades: sair dos fatos pior do que se entrou, sair dos fatos igual ou sair dele melhor. O conceito de resiliência vem desta capacidade de enfrentar estas adversidades e sair adiante.
Salvo melhor juízo, tenho para comigo que a resiliência me habilita a enfrentar os fatos que me abalam de tal maneira que saia deles incólume. Seria a opção de sair igual, como se o que me aconteceu não me tenha derrubado.
Tenho para comigo que as vicissitudes da vida não são para me deixar igual, mas para me mudar e me fazer melhor. Quem não aprende e melhora com os caminhos da vida é imbecil. Daí porque haver o ditado: “a sabedoria vem com as cãs” (cabelos brancos). E porque os solavancos da vida amadurecem, porque as novidades me fazem pensar e reposicionar, porque os percalços me passam lições que a escola não me ensina, tenho por eles uma certa predileção. Não que goste de sofrer. A rotina para mim é sofrimento. Gosto do novo, do desafio, da crítica, da controvérsia. Penso melhor sob pressão.
Daí, talvez, porque esteja com esta coluna há quinze anos. Ela me obriga a pensar, a produzir, a diagnosticar. Recebo e-mails me espinafrando. Certas críticas são elogio porque vindas de quem não sabe ler e entender o que leu. Um deles, que vivia me esculhambando, lia o que não escrevi e dizia que disse o que nem me passou pela cabeça. Outras vem de gente que pensa, que discorda, que apresenta argumentos, que me manda um tratado de mais de 40 páginas sobre Michel Foucault porque não gostou que o citei e como o citei.
A novidade tem o risco implícito. Se é novo posso não saber direito, posso errar ao fazer, talvez tenha que repetir muitas vezes até dominar. Assim são certos programas de computador: mudam a cada pouco e a gente tem que reaprender a usar. O conhecido não precisa de receita: sabe-se de memória. A possibilidade de erro é reduzida ao mínimo. Cozinhar arroz e feijão dificilmente eu erro. Agora, fazer um prato novo com temperos recém conhecidos é outra história.

Por isto digo: “viva a mudança”. No duplo sentido: saudando e desfrutando, fazendo do limão uma limonada!
Marcos Inhauser

ENVELHECER EM COMUNIDADE

Tenho para comigo que um dos grandes erros do cristianismo foi trocar a experiência e vivência com uma pessoa (Cristo) pela adesão a um código de verdades. O que deveria ser uma experiência diária se transforma em uma ideologia religiosa onde a discussão ganha vitamina por querelas doutrinárias, cada qual defendendo o seu ponto de vista.
A vida cristã é mais que a adesão a um determinado conjunto de verdades. É a vivência constante e diária do amor ao próximo nas suas necessidades, no agir motivado pelo amor em direção a quem necessita de amparo, colo, ouvido, sentido de pertencimento, reconhecimento. A igreja deve ser formada por cristãos comprometidos com Cristo e com o próximo, beneficiando-os pelo exercício dos dons dados por Deus.
À igreja não basta promover e realizar cultos, ter momentos de adoração, súplicas, confissão, mensagens. Ela não se plenifica no ministério de um pastor ou sacerdote. Não é o número dos congregantes que transforma a reunião em igreja, a plateia em congregação. O mais importante elemento na vida da comunidade é a comunhão dos seus membros. Uma igreja deixa de ser igreja quando há alguém dentro dela que não se sabe o nome, não se conhece as suas lutas e problemas. Os membros da comunidade vêm trazendo suas dores e perguntas e é na comunhão que possibilita o compartilhar, o abrir o coração, que se tem respostas de fé para cada uma das necessidades.
Nos aglomerados religiosos, nas mega-igrejas, ninguém conhece ninguém. Se alguma resposta é dada a algum dos problemas específicos que este ou aquela tem, é por acaso. Nas pequenas comunidades, nos pequenos grupos há pertencimento. Cada um dos que participa percebe sua importância para a comunidade porque percebe o cuidado dos demais para consigo e, ao mesmo tempo, pode ser de ajuda aos outros. A vida vivida em comunidade se torna, pois, significativa no duplo sentido: sou ajudado a significar a minha vida e ajudo aos demais a significar as suas.
Há a metáfora da família que se usa para descrever a comunidade dos cristãos. Ela mostra que na igreja deve haver a relação fraterna, igualitária, respeitosa, onde o amor incondicional deve ser a tônica. Na igreja, as barreiras de cor, gênero, idade são transpostas. As crianças vivem em companhia com os jovens e anciãos. Negros, pardos, brancos e amarelos juntos podem ter comunhão. Há na convivência da diversidade que a igreja propicia, uma riqueza ímpar porque possibilita a troca de ensinamentos vindos das mais variadas fontes. A criança e o jovem aprendem do velho e este é levado a pensar na sua experiência e reformular seus conceitos à luz do momento atual, porque para isto é desafiado pelos mais novos a quem ama. Os mais novos têm as respostas às suas inquietações dadas pelos mais velhos porque estes já passaram pelos caminhos que agora aqueles estão passando.
O envelhecer solitário é dramático e traumático. O envelhecer em comunidade e em família é abençoador. Ter uma comunidade onde se possa envelhecer e ao mesmo tempo, sentir-se amado e útil, é cereja no bolo da vida. 
Marcos Inhauser

INTERNET OU INTRANET?

Acabo de voltar da China onde fiquei por duas semanas. Já havia estado lá outras vezes. Fui acreditando que de lá poderia fazer algumas coisas via internet, tal como bancos, e-mails, ler notícias, ligar via Skype para falar com familiares no Brasil. Eu já sabia das dificuldades que poderia enfrentar, mas, confesso, me surpreendi com as que enfrentei desta vez, muito maiores que da última vez, onde um VPN resolvia as questões de acesso internacional.
Se você quiser usar a internet para acessar sites chinês, trocar mensagens, ler e-mails ou ler notícia chinesas, não há problemas. Nunca fiz isto por causa da barreira do idioma, mas com quem trabalhei mais de perto e me relacionei, dizem que não enfrentam problema algum com a navegação.
Quando tentei acessar sites de notícias brasileiros, ler meus e-mails, ver minha conta bancária, começava o suplício. Tudo que não tivesse terminação ".cn" ficava rodando e rodando e depois dava a mensagem de que se esgotou o tempo de conexão. Tentar acessar o Facebook era impossível. Fazer pesquisas no Google também. A alternativa que mais funcionava era usar o "bing.com".
Quando tentava usar o VPN, às vezes conseguia uma conexão e acessar algo fora da China, tal como notícias ou Skype. Depois de um tempo, a conexão caía e era impossível reconectar. Parece que, quando detectavam o uso do VPN eles bloqueavam a conexão.
Há gente oferecendo VPNs exclusivos para romper as barreiras da internet na China, mas a informação que tenho é que não entregam com regularidade o que prometem. É uma briga de criar novidades e esperar algum tempo para que a porta se feche.
Pesquisando sobre o assunto se descobre que estas restrições começaram depois de uma série de reportagens de jornalismo investigativo que mostraram o dinheiro que dirigentes do Partido tem/tinham em contas fora da China. Os números rodavam em torno de US$ 160 bi e envolviam altas autoridades. Os resultados desta investigação foram vários: um deles foi a barreira imposta ao acesso dos chineses aos sites internacionais de notícias. Outro foi uma onda de prisões de ministros e altas autoridades do partido, com vários sentenciados à morte ou prisão perpétua.
Há quem diga também que há temor das autoridades chinesas com a replicação na China dos movimentos populares havidos no mundo árabe e Egito, onde as redes sociais foram usadas para alavancar apoios e protestos. Impedir o acesso a estas redes sociais que tem suas sedes fora do alcance das autoridades chinesas foi uma das formas. Por não querer se submeter aos ditames desta regulação o Google "brigou" feio e preferiu não ceder e por isto está barrado.
Há estudos e gente da área que tem dito que a China estaria utilizando uma nova técnica, o "grande canhão", para atacar sites. Isto permite colocar sites fora de serviço, usando o conceito da "Great Firewall", o nome dado ao sistema de supervisão e censura da internet de Beijing, segundo relatório do Citizen Lab da Universidade de Toronto.
"O 'grande canhão' não é apenas uma extensão da 'Grande Muralha', mas trata-se de uma técnica de ataque diferente que desvia o tráfego" em direção ou a partir de um endereço IP pessoal, acrescentam os universitários, que foram acompanhados nesta investigação pela Universidade da Califórnia e de Princeton.
Por ele a China coloca fora de funcionamento "sites espelho" que oferecem conteúdo bloqueado pela internet chinesa, como o New York Times.
Os investigadores do Citizen Lab dizem que encontraram "provas irrefutáveis de que o governo utiliza o "grande canhão", algo negado pelo governo chinês. 
Assim, a China tem uma intranet (net interna). Quem quiser internet, vai ter que aprender a driblar muito para poder marcar um gol.
Marcos Inhauser

O DESODORANTE DEVERIA SER OBRIGATÓRIO

É a terceira vez que passo pelo aeroporto de Dubai. Já estive em muitos outros, alguns considerados os maiores do mundo (Chicago, Nova York, Atlanta, Frankfurt, etc.). Todos eles têm suas caraterísticas e seu jeitão de ser.
O que me chama a atenção no de Dubai é que, como em nenhum outro, se dá a confluência de culturas e raças em profusão. Sendo um hubble que liga Oriente e Ocidente, que traz passageiros do norte e do sul, Dubai é um cadinho de gente das mais diversas religiões, vestimentas, cabelos, modos e línguas.
Passar algumas horas neste aeroporto é menos cansativo que passar em Frankfurt, por exemplo. Para quem gosta de ver e analisar pessoas, Dubai é um prato cheio por causa do desfile de cores, cabelos, penteados, chinelos, sapatos, famílias e, pasmem, cheiros.
Desta vez tive a experiência de cruzar algumas vezes com um grupo de homens, todos vestidos com os mesmos trajes (não iguais, mas semelhantes), vindos de uma mesma etnia e região, e todos (acredito) sem nunca ter usado na vida um desodorante. Era uma nuvem de cecê vencido por onde andavam. O cheiro era tão forte que eu, que não tenho um olfato dos mais apurados, me senti enjoado com a fedentina.
Fiquei a imaginar como seria voar no mesmo avião ou ao lado deles, como já me tocou certa vez com dois casais de alpinistas que embarcaram no Equador de regresso à Europa. Desta vez escapei!
Mas o fato me levou a pensar um monte de coisas. Lembrei-me de haver lido há algum tempo os comentários em um blog que tratava de perfume, uma mulher que havia escrito que preferia um homem menos inteligente e perfumado a um gênio fedido. Neste quesito, ao que parece, o Einstein era Nobel da Fedentina. Não gostava de tomar banho e escovar os dentes, a acreditar-se em um dos seus biógrafos.
Já escrevi aqui sobre o Palácio de Versalhes e a inexistência de banheiros e como fediam os que ali moravam. Os escravos a abanar constantemente os reis e rainhas eram, na verdade, espantadores de mosquitos, atraídos pelo mau cheiro exalado pelas eminências. Há ainda a história de Bonaparte que escreveu um recado à sua amada, pedindo que não se banhasse porque ele voltaria em um mês e a queria o mais pronto possível e com todo o seu cheiro de mulher! Talvez por isto que foram os franceses que se aperfeiçoaram na arte de fazer perfumes.
Há uma nacionalidade que nunca vi nenhum indivíduo escovar o dente. Nos aeroportos deste país, quando escovo os meus, tenho impressão que ficam com nojo. Dão banho nas crianças na pia da cozinha, mas escovar os dentes na pia do banheiro de um aeroporto é asqueroso.
No entanto, nos dias atuais, onde já se inventou o sabonete, a pasta de dente, o desodorante e o perfume, deveria ser item básico e obrigatório para a convivência social o banho, a escovação dos dentes e o uso desodorante.
Tenho absoluta certeza de que não há Bonapartes hoje em dia e o nariz da quase totalidade agradeceria!
Marcos Inhauser

quarta-feira, 22 de abril de 2015

“AS PROSTITUTAS VOS PRECEDERÃO”

Confesso que sempre tive problemas com a frase proferida por Jesus, registrada em Mateus 21:31 “Jesus disse-lhes: Em verdade vos digo: os publicanos e as meretrizes vos precedem no Reino de Deus!” A minha incompreensão durou até o dia que me contaram a seguinte história, vivida indiretamente por quem a contou.
Houve uma chamada de emergência no Serviço de Água e Esgoto, dando conta de um vazamento de esgoto que transbordava e estava rolando abaixo na via pública. O problema estava na Zona de Meretrício da cidade. O encarregado escalou uma equipe para ir ao local e o motorista que deveria leva-los. O motorista escalado era membro de uma igreja “pentencostal”, que vivia pregando a todo o mundo no trabalho e cheio das certezas morais. Quando soube que deveria ir à Zona do Meretrício, enfureceu-se, dizendo que não iria para o inferno, que aquele lugar era de perdição e que ele se recusava a ir. O chefe o enquadrou e determinou que fosse.
Na viagem de 20 minutos foi resmungando, murmurando e reafirmando sua santidade. Os demais estavam fazendo brincadeiras sobre o fato e com ele. Lá chegando, desceram as ferramentas e iniciaram o trabalho, sob os olhares curiosos das meninas e da tia que tinha a casa em frente à qual aconteceu o rompimento. O motorista continuava a resmungar e murmurar, ao ponto dos colegas pedirem que ele fosse embora e que, quando terminassem o trabalho, o chamariam para vir pegá-los. Ele preferiu ficar, pregando sua “santidade”.
Uns quinze minutos depois de iniciado o trabalho, já suados com o esforço da picareta, uma das meninas trouxe uma jarra de suco gelado e um copo para cada um dos trabalhadores, inclusive o motorista, que recusou a bebida para não se contaminar.
Trabalharam a manhã toda. Almoçaram a marmita que levaram, mais o suco que novamente lhes ofereceram. O motorista “santo” continuava a praguejar.
Lá pelo meio da tarde terminaram o trabalho. Para surpresa deles, a senhora dona da casa convidou-os para entrar, se lavar e um lanche que ela e as meninas haviam preparado estava sobre a mesa. Ao entrarem, viram um banquete, todas meninas com lenço na cabeça e avental por questão de higiene.
Aqueles homens que haviam trabalhado no esgoto, entrado nele, se lambuzado com ele, estavam agora sendo recepcionados por quem se preocupou com a higiene no preparo da comida. O “santo” não entrou porque não queria se contaminar.
Quem amou o próximo? O motorista “crente, santo e pentencostal” ou as meninas e a dona da casa delas?
Confesso que me emocionei quando ouvi a história por parte de quem trabalha no serviço de águia e esgoto e me emociono agora ao escrever sobre ela. Houve graça da parte delas e justiça empedernida e arrogante por parte do motorista.
Com uma história como essa entendo porque Jesus disse que elas precederão os “fariseus, santos, incontaminados e arrogantes”.

Marcos Inhauser

quinta-feira, 16 de abril de 2015

A ANTIMIDAS

Midas, rei da Frígia, teve sua realeza herdada do pai, escolhido pelo povo que o via como o cumprimento de um oráculo. Certa feita, Midas recebeu a visita de alguns camponeses que levaram a ele um velho, bêbado e perdido, que haviam encontrado pelos caminhos do reino. Midas o reconheceu: era Sileno, mestre e pai de criação do deus Baco. Midas cuidou de Sileno e o levou a Baco, deus do vinho, que concedeu um pedido a Midas. Este, sem refletir muito, pediu o dom de transformar em ouro tudo o que por ele fosse tocado. Mesmo percebendo a ânsia gananciosa de Midas, Baco realizou o pedido.
Midas voltou feliz e surpreso com a capacidade que passou a ter. Transformou em ouro várias coisas: pedras, folhagens, frutos... Quando em casa, ordenou que lhe servissem um banquete. Ao tocar o pão, este transformou-se em ouro. Tudo o que tocava virava ouro. Desesperou-se porque jamais poderia se alimentar, pois tudo virava ouro.
A expressão “toque de Midas” se cunhou para designar as pessoas que tem a capacidade de transformar em riquezas e prosperidade tudo o que tocam.
O Brasil tem uma rainha que é a AntiMidas. Tudo o que ela toca vira pó. Na década de 90 abriu uma lojinha de R$ 1,99. Não aguentou o tranco do mundo real e depois de 17 meses, quebou. Mais tarde, ela veio com esta maravilhosa e abrangente explicação para o seu desastre: “Quando o dólar está 1 por 1 e passa para 2 ou 3 por 1, ele [o microempresário] quebra. É isso que acontece com o microempresário, ele fecha. A minha experiência é essa e de muitos microempresários desse país”. Bom saber, porque o dólar subiu e ela transformou em pó as economias de muita gente.
Veio a Brasília como expert no setor energético, uma vez que, sendo do PDT, “ganhou um cargo” do então governador Colares, que também era do PDT. Nada de importante ela fez. Foi a Brasília convidada pelo Lula. Assumiu o Ministério das Minas e Energia e fez um estrago. Na sua gestão não se investiu na geração e nem na transmissão. Mal tocou o que havia.
Foi para a Casa Civil em meio ao mensalão, na esperança de que ajudasse a blindar a “cumpanherada” enrolada até o pescoço. Nada aconteceu e todos foram condenados e presos.
Ganhou a presidência do Conselho da Petrobrás. Desde que assumiu o mandato, no dia 1 de janeiro de 2011, o valor das ações da Petrobras despenca. A Petrobras deixou a 12ª posição no ranking das maiores empresas do mundo em valor de mercado, lugar que ocupava em 2010. No ranking de março deste ano do britânico Financial Times, a estatal perdeu 108 posições, sendo agora a 120ª maior empresa do mundo.
Ela forçou a aqueda do preço da energia elétrica. Deu no que deu: aumentos de até 60% para corrigir o desastre provocado pela intervenção dela.
Obrigou os bancos a baixarem os juros. Pagamos hoje as maiores taxas de juros do mundo. Juros bancários de fazer agiota ter inveja.
Pegou a popularidade inicial e mandou às cinzas: 68% de rejeição. Ganhou um segundo mandato só Deus sabe como e passados cem dias, o que se tem é uma sucessão de desastres. Teve que fazer uma renúncia branca e entregar o governo para o Temer.
O Brasil precisa de um Midas e não de um buraco negro onde tudo o que cai nele vira nada, uma AntiMidas!
 Marcos Inhauser



quarta-feira, 8 de abril de 2015

A AÇÃO SUBSTITUÍDA PELO CONCEITO

Nada pode ser tão fatal para a vida humana que alguém trocar a ação por conceitos, a realidade por ideias. Deve-se temer quem crê que pode, somente falando e teorizando criar categorias e mudar sociedades. Os grandes teóricos foram péssimos nas suas ações de implementação.
A vida humana é um relacionar-se em sociedade que deve dar-se na dimensão dos valores pessoais que alicerçam o agir, mas um agir respeitoso e tolerante para com as diferenças de prática e concepção. Ao negar a primazia dos conceitos sobre a práxis, não estou advogando o simplismo, o reducionismo, o ativismo, mas, antes, a práxis alicerçada no entendimento possível para cada pessoa, segundo suas capacidades e habilidades. Nego sim a arrogância cognitiva que, abdicando da prática, se arvora em palavra última e verdade absoluta. Nego as concepções gestadas em ambiente climatizado de ar-condicionado.
O conhecimento só é válido quando ele tem o objetivo de beneficiar o próximo, a sociedade. O arrogante é egóico. Pensa em si, acha que só ele sabe e sua preocupação é promover-se. O saber autêntico não se encerra em uma masmorra de proteção, antes deve ser fermento de esperança e promotor de mudanças visando melhorias sociais e relacionais. Busca a verdade e a justiça, sem se alienar do amor.
Lembro-me dos tempos de Mestrado em Educação quando professores se acusavam de ortodoxos e revisionistas (marxistas versus gramscianos), sem que nenhum deles tivesse uma vivência no mundo fora da Universidade. Cansei de participar de reuniões internacionais onde o que mais se fazia eram diagnósticos. Eram especialistas em RX, desvendando minucias de uma fratura, mas que nunca tinham colocado um gesso ou uma tala em um braço ou perna. Isto me faz lembrar o Dadá Maravilha: “eles trazem a problemática, eu venho com a solucionática.”
Trago estas reflexões porque acho que se faz, uma vez mais, um crime contra a educação neste país. Ainda que o lema da represidente seja Pátria Educadora, ela entregou a pasta inicialmente a um conhecido verborrágico, de tradição familiar, que de educador tinha nada e nem educado era. Deu no que deu.
Para substituí-lo ela entrega o cargo a um filósofo. Andei lendo coisas do Janine, coisas sobre o Janine e o vejo como mais um teórico que terá que assumir algo que ele só conhece nas radiografias que faz. Nisto ele empata com o Mangabeira Unger, o “ministrus absconditus” porque sumido está. Duvido que ele faça algo, ainda que, do fundo da minha razão quero que ele consiga fazer algo.
O que mais me preocupa nele é sua guinada conceitual. Escreveu ele que: “"A cultura é a educação fora de ordem, livre e bagunçada. Para cursos, há currículos. Para a cultura, não. Cada vez mais, a educação deverá se culturalizar: um, deixando de seguir currículos rígidos; dois, tornando-se prazerosa; três, criativa. O próprio caráter imprevisível da ação cultural e a dificuldade de planejá-la fazem dela um dos modelos para o que deve ser a educação numa sociedade criativa."

Se entendi, ele propõe uma educação “fora de ordem, livre e bagunçada”. Se fizer isto, será a cereja no bolo da zona que se instalou no país. Era o que faltava: um acadêmico propondo a bagunça. Espero que não saiba fazer isto, como soe acontecer com os acadêmicos.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

COMODISMO E IMATURIDADE

É mais fácil ao ser humano ser tutorado pelas ideias de outros que produzir as suas próprias. O Iluminismo pregava o libertar-se da menoridade (estado em que se é dirigido pelas ideias alheias) e assumir a maturidade, guiando-se pelas próprias convicções. Paul Tillich chamava a isto de heteronomia (governo do outro) e autonomia (governo próprio).
A permanência na imaturidade é, no frigir dos ovos, produto da preguiça intelectual e da covardia. Preguiça porque se recusa a trabalhar a mente para chegar a um pensamento próprio. Covardia porque não tem coragem de assumir o risco de guiar-se pelas próprias ideias. Vai que dá errado e não há a quem culpar! Na heteronomia sempre se pode acusar e culpar quem passou a ideia que deu errado.
No entanto, há uma menoridade forçada, quando os pais não permitem que seus filhos cresçam, que enfrentem os riscos do viver. Superprotetores, inibem a exposição à vida real. Tudo que vão fazer precisam de autorização, de uma ligação no celular dizendo onde estão, com quem estão. Se a mãetorista se atrasa alguns minutos para pegá-lo no colégio, o bebezão se apavora e liga desesperado para saber se aconteceu alguma coisa. Imaturos, quando vão para o mercado de trabalho, têm medo de decidir, de pensar. Sempre se fiaram nas decisões dos pais.
Trago o assunto à baila porque, nestes dias, está sendo discutida na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, a maioridade penal, reduzindo-a para 16 anos. O projeto tramita há 20 anos e ainda gera polêmicas acaloradas, haja visto os últimos episódios envolvendo os deputados pró e contra e os manifestantes.
Não se pode deixar de concordar que o adolescente da época em que foi estabelecida a maioridade penal aos 18 anos é diferente do adolescente que vive nos dias de hoje. Sem sombra de dúvidas, em função de uma série de fatores, os jovens de hoje estão muito mais conscientes e instruídos que os que viveram no passado. Há que acrescentar-se a isto que o crime evoluiu e hoje se usa o menor para roubar e matar porque se sabe que a pena para ele é mais branda.
Por outro lado, há que dizer-se também, em função do modelo superprotetor já mencionado ou da fragmentação dos laços familiares, quando muitos dos jovens marginais não tiveram nem pai nem mãe, que mais do que culpados, são vítimas. Vítimas de uma sociedade que exige que os pais trabalhem para pagar um custo de vida exorbitante, vítimas de um sistema que gera lucro fácil com a venda de drogas ou no furto, roubo ou assalto, vítimas de um modelo educacional desmotivador, vítimas de uma mídia que cria necessidades de supérfluos como o tênis da moda, o celular de última geração, etc.
Não reduzir a maioridade penal é manter estes jovens sob a tutela, o que é imaturidade. Diminuir a menoridade penal como sendo a panaceia de todos os males é romantismo ingênuo. É comodismo dos incomodados.
Temo que, reduzindo-se a maioridade penal, nossas já abarrotadas prisões, ainda mais superlotadas ficarão. O custo de uma pessoa presa é muito maior que o custo de dar a ele uma educação sadia, com apoio de trabalhos comunitários e gente que, por vocação, tem se dedicado ao terceiro setor, que vive às mínguas com os recursos mínimos que são disponibilizados.
Sou a favor da redução da maioridade penal, mas não com prisão, mas com educação e carinho para a reabilitação, feito por gente vocacionada e capacitada para isto e não por trogloditas que se valem da violência para obter obediência.
Marcos Inhauser


domingo, 29 de março de 2015

TIPOS DE SILÊNCIO

Não tive paciência para ver o depoimento do Duque na CPI. Vi depois alguns flashes, o primeiro deles de que “há tempo de falar e há tempo de se calar”. A partir daí, pelo que li, foi uma repetição das frases: “reservo-me no direito de ficar em silêncio” e a variante “reservo-me no direito de ficar calado”. Isto me levou a aprofundar algo que venho meditando há tempos, que é o significado e os tipos de silêncio.
Há o silêncio do ignorante. Ele não fala nada porque não tem nada para falar. Seu cérebro não tem informações para poder dizer qualquer coisa significativa. E, para não dar vexame, se fecha em copas. Ele sabe que não sabe. Este é um silêncio raro, porque o ignorante, no mais das vezes, é boquirroto e tem respostas e soluções para tudo. Já pensei que a ignorância é diretamente proporcional à quantidade de palavras ditas. Neste capítulo há o silêncio do ignorante honesto que, quando perguntado, ele diz: “não sei”, “não tenho como explicar” e sua resposta lacônica é honesta.
Há o silêncio conveniente. A pessoa não fala porque, se falar, se incrimina. O não produzir provas contra si é um direito reconhecido em quase todas as nações sérias que tenham um regramento constitucional que mereça o nome. Neste quesito se inserem os silêncios dos muitos “depoimentos” que se tentou fazer nas CPIs e que os convocados, baseados ou não em liminar, faziam valer o direito ao silêncio. Deve-se notar que o Duque, quando perguntado se conhecia o Vaccari (o que é sabido de todos que, sim, conhecia) preferiu manter-se em silêncio.
Há o silêncio cúmplice. Na máfia há a omertà que é o pacto de silêncio cúmplice, para que ninguém seja dedurado pelos companheiros. O Barusco e o Paulo Roberto Costa quebraram a omertà e deduraram meio mundo! O silêncio do Delúbio e agora do Vaccari se enquadram nesta categoria, pois, se abrirem a boca, ferram com todo mundo. A omertà do dono da UTC, Ricardo Pessoa, também, se mantido, pode ser colocado dentro desta categoria.
Outra modalidade é o silêncio reflexivo. A pessoa permanece calada, quieta, não porque não tenha nada a dizer, nem porque não quer se incriminar, nem é um ato de cumplicidade com a companheirada, mas porque, diante dos fatos e novidades, precisa de tempo para ler, ver, diagnosticar, avaliar o diagnóstico, para só então falar. É o silêncio da prudência!
Há o silêncio da sabedoria. Se o ignorante, no mais das vezes, fala pelos cotovelos, dando respostas a tudo e ensinando todo mundo, o sábio só fala quando solicitado e mesmo assim, fala com parcimônia. Fala o estritamente necessário. O sábio, ao falar, não se delonga, não dá reposta prontas, antes instiga os ouvintes a se perguntarem e acharem por si mesmos respostas para as questões que a ele foram dirigidas.
Ainda se pode dizer do silêncio inquisitivo. A pessoa fica em silêncio e no seu silêncio todas as perguntas e respostas são possíveis. Ele não fala, mas obriga os outros a falarem e explicitarem o que estão pensando. É um silêncio angustiante para quem o recebe, porque nele cabem todas as possibilidades.  Este silêncio também é o da sabedoria. Ele obriga as pessoas a se posicionarem, a se definirem, sob risco próprio. Nunca poderão se valer das palavras do sábio, porque elas não virão.
Para os que não gostam de pensar e querem respostas prontas e esclarecedoras, o silêncio é cruel, mas enriquecedor.


quarta-feira, 18 de março de 2015

NÃO CONFUNDA VEEMÊNCIA COM ESTRIDÊNCIA!



A vida me deu certo gosto pela precisão no uso das palavras. Só o gosto, porque a prática tem se mostrado muito mais complicada que a intenção. A intenção é boa, mas ...
Neste afã de entender o sentido preciso das palavras, andei “assuntando” nestes dias sobre o significado de quatro delas, relacionadas entre si por serem do contexto da comunicação e se referirem ao comportamental.
Como seres humanos, temos “sangue” que nos move a mostrar os sentimentos quando falamos. Especialistas atribuem à linguagem corporal e à metalinguagem algo em torno de 75% do processo comunicacional.
A primeira palavra é indolência. Ela veio do latin indoles (prefixo in significando negação e dolens e dolere usada para dor). No português indolência está mais para a passividade, para a atitude indiferente em relação aos fatos e/ou fala. O indolente é aquele que ouve um insulto e parece que não ouviu ou não deu bola para o que lhe foi dito. É aquele que, quando fala, mais parece ter sangue de barata que ser uma pessoa com sentimentos e convicções. Parece que não acredita no que fala.
A segunda é veemência. Ela também veio do latim: vehementia, significando o ardente, que tem vigor. Ela tem uma relação com vehere que significa levar ou portar. A pessoa veemente é a que fala e acredita no que fala e leva isto aos seus ouvintes. Ela fala com “sangue nos olhos”. Acredita e quer que os demais acreditem no que está falando. Uma pessoa veemente não vai falar baixinho, manso, antes terá um tom de voz mais elevado para expor o que pensa. Os ultrassensíveis acharão que ela exagera, que poderia e deveria falar com menos vigor e intensidade, que grita quando fala.
A terceira é estridente, que também vem do latin (stridente que significa fazer ruído). O estridente é verborrágico, fala alto como se o volume da sua fala pudesse ser entendida como veemência. O estridente, no mais das vezes é uma pessoa sem argumentos que usa da gritaria para fazer calar as vozes que não quer ouvir. Há o estridente que se vale da tergiversação da fala do outro para fazer valer seu raciocínio, pois ele cria ruído na comunicação e entende o que lhe convém entender.
Há ainda a violência, que também vem do latim (violentus: “o que age pela força”, com sentido derivado de violare que é “tratar com brutalidade, desonrar, ultrajar”). O violento na comunicação tem a intenção de ofender e ultrajar o outro, faltando com o respeito e usando, no mais das vezes, palavras de baixo calão.
Há certo consenso de que a sociedade brasileira é indolente no que se refere às questões políticas. O consenso é que o brasileiro faz piada de tudo e tem memória curta. Parece que a cúpula do PT acredita nisto. Acham que podem fazer o que querem que o povo vai fazer piada e logo cai no esquecimento.
Quando o povo decidiu comunicar com veemência o que acredita e quer, não poucos foram os que se levantaram para tergiversar o que está acontecendo e alguns partiram para a estridência. Neste contexto, entendo que o panelaço foi estridência e não veemência. Chamar os manifestantes de “elite branca” e “coxinhas” foi violência.
Mas, na fala dos ministros que deram a cara aliviar a vergonha da Dilma, houve veemência e estridência. Afirmaram com a convicção que se esperava que deveriam ter (ainda que não concorde com eles), mas a estridência ficou por conta do Rosseto ao dizer que falar de impeachment é ilegal e que os manifestantes eram pessoas que não tinham votado na Dilma. Puro ruído para atrapalhar o que as ruas estavam dizendo.
Se alguém puder ensinar isto ao Rosseto, ao Mercadante, Berzoini e Cardoso, eu, na minha humildade, agradeceria, mesmo porque, não acredito que eles tenham tempo para ler o que este escriba da periferia tem a dizer.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 4 de março de 2015

SOCIEDADE MINIMAMENTE SATISFEITA

SOCIEDADE MINIMAMENTE SATISFEITA
Sonho ter um governo comprometido com uma sociedade plenamente satisfeita. Alguns dirão que isto é utópico, mas de u-topós (o não existente “ainda”) vivem os sonhadores e os revolucionários. O conservador se contenta com o status quo. Foram os sonhadores e os profetas (não os que predizem o futuro, mas o que o propõe) que levaram alguns a lutar pelo novo. Os conservadores, como o próprio termo designa, querem manter o que existe, sem mudanças.
No afã de manter a sociedade do jeito que está, os conservadores precisam “vender o peixe” de uma satisfação mínima como sendo o “máximo” que a sociedade pode ter. Usam da mídia para tergiversar valores e satisfação, onde uma cerveja, um carro novo, uma boa novela, o BBB são sinais de uma sociedade satisfeita. Neste contexto se deve incluir as inúmeras bolsas oferecidas pelos “ex-revolucionários-agora-conservadores”. Receber uma Bolsa Família do governo é o “must”! É o contentamento com a miséria presente para que não sonhem com o paraíso futuro. Sonhar com um futuro melhor é revolucionário.
O tresloucado Maduro, na Venezuela, está batendo em quem pede uma nação melhor. Milhares de jovens, especialmente franceses e ingleses, diante da impossibilidade de um emprego decente em solo europeu, estão abraçando a jihad e indo para o Estado Islâmico ou a Al Qaeda, porque eles estão propondo algo novo no futuro (questionável por certo, porque repetição de desastres do passado).
Os conservadores, especialmente os religiosos, tremem de medo do novo. Não foram preparados para a novidade, no que pese o fato de sempre estarem falando de uma Jerusalém futura, a pátria celestial. Para tanto, se dedicam a um trabalho de doutrinação incultural, onde valores do mundo ocidental e notadamente os valores estadunidenses, são passados como valores do Reino. O que se faz é ensinar uma coisa retórica, um catecismo, que se deve memorizar. Memorizar é conservar o passado. Teoriza-se para não dar lugar à experiência. Repetir o que se aprendeu não permite pensar no novo e no diferente.
Pensar repetidas vezes o mesmo é depressivo. Todo dia é tudo sempre igual. As mesmas rezas, as mesmas frases, as mesmas orações. Plenifica-se assim a imbecilidade.
Porque são incapazes de lidar com a graça e suas surpresas, preferem aprisionar o Espírito em “Cinco Leis Espirituais”. Querem ordenar o mundo em estruturas rígidas, exigindo a obediência dos fiéis, bem ao estilo dos fariseus dos tempos jesuânicos. Um “sábio que estudou no seminário ou se auto-ordenou” deve ensinar as mesmas coisas, sermão após sermão, para não correr o risco de ver suas ovelhas pensando o diferente ou o inusitado.  Se as ovelhas passam a pensar e questionar, ele pode perder o emprego.
Quando se defrontam com o novo, antes mesmo de fazer o “examinar de tudo e reter o que é bom”, são rápidos em acusar de heresia. Preferem o acanhado e medíocre mundo conhecido a viver a plenitude da graça. Vivem a des-graça!
Não é coincidência que tenho encontrado mais sinais e vivências da graça fora dos templos. Eu as tenho visto em letras de música, em filmes seculares, em experiências comuns de pessoas não-tão-religiosas e mesmo nas arreligiosas. Nas vezes em que estive em um templo ouvindo um sermão, confesso, deu-me náuseas teológicas pela contundência na espiritualidade servil à instituição religiosa, pautada na obediência aos postulados seculares chamados de doutrina ou ortodoxia.

Prefiro a liberdade da graça ao engessamento da sã doutrina.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

SOU O BEM SUPREMO

Wolfhart Pannenberg, teólogo alemão, afirmou certa feita algo que outros já haviam dito com outras palavras “todos os movimentos revolucionários se tornam, de repente, conservadores, assim que fazem a revolução. Então, a estrutura estabelecida de poder se identifica muito facilmente com o bem supremo”. Traduzindo: quando os revolucionários chegam ao poder, a aura de messianismo e superioridade sobe à cabeça.
Lembrei disto nestes dias em que o Maduro (que maduro só é no nome), andou fazendo mais algumas trapalhadas, seguindo as pegadas do mestre Chávez. Mas neste saco também se pode enfiar a Cristina Kirchner e o Evo Morales.
Mas, a bem da verdade, o que me chamou mesmo a atenção foi o discurso atravessado da represidente, dizendo que a culpa da corrupção na Petrobrás é do FHC, porque, se tivessem investigado a coisa no início, a santidade dos nomeados do PT na PTrobrás não teria acontecido.
É melhor ouvir isto que ser surdo. Assim como prefiro ouvir o Maduro acusando os EUA do desabastecimento na Venezuela e de financiar a oposição que pede comida, e a Cristina suicidando o promotor antes de qualquer laudo pericial.
Na visão dos petralhas, eles são santos e o que fazem o fazem para o bem do povo, ainda que o povo não tenha visto centavos da dinheirama locupletada na estatal e em outras maracutaias. O projeto de governo do PT é o bem maior, um dogma político inquestionável e quem ousa falar contra é ameaçado com o “controle social da mídia”.
Neste contexto de “revolucionários” que se tornaram o bem supremo, a função profética da denúncia nunca é bem vista. Os ex-revolucionários agora conservadores têm a tendência em achar que nada deve ser mudado porque o que fizeram e fazem é o bem supremo. Exemplo disto é a dificuldade da represidente em destituir o Mantega e a Graça Foster, em negociar com o Eduardo Cunha e em flexibilizar o valor do reajuste do Imposto de Renda. Ela sabe o que é certo e bom para o governo e para o povo.
Os revolucionários autênticos têm a tendência em ser excelentes em diagnósticos e fracos em propostas. Parecem máquina de RX. Só dizem onde está o problema, mas as soluções são anêmicas. Estes também não gostam da função profética por explicitar a carência que têm em propor soluções.
A função profética trabalha na dialética da crítica e da ação, com o objetivo de ser fiel ao Reino de Deus. Se o profeta tende à crítica ou à ação, ele peca por ser conservador (ação engessada) ou de progressismo (crítica exagerada). No entanto, tanto um como outro se atordoam quando a voz profética diz que o “rei está nu”, que isto não é o que estão dizendo que é, que os revolucionários se transformaram em deuses promotores do bem supremo, que as propostas do progressismo são inviáveis. Não é para menos que os profetas devem ser mortos. Eles perturbam a direita e a esquerda.
Os pregadores de certezas detestam os profetas, porque lançam perguntas e questionam a segurança medíocre que passam à plateia. Os sacerdotes institucionais se arrepiam diante do profeta porque os desmascara como usurpadores do povo, movidos pela ganância e pelo engodo de que podem abençoar porque são mediadores entre Deus e os homens, tendo assim um status superior.
Fecho esta reflexão com uma citação do Alvin Gouldner: “a velha sociedade se mantém através de teorias e ideologias que estabelecem sua hegemonia sobre as mentes humanas, as quais, por isto mesmo, se submetem a ela voluntariamente, sem cruzar os dedos”.

Talvez seja aqui que se entende o comportamento passivo da sociedade brasileira.
Marcos Inhauser