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quarta-feira, 29 de maio de 2013

É IXTRANHO!

Lembrei da frase do Zagalo, no seu peculiar jeito de falar, ao ouvir as lambanças ocorridas com a Caixa e o Bolsa Família: “é ixtranho, muito ixtranho.”
É estranho que um banco do porte da Caixa, que administra o Bolsa Família, que tem impacto sobre milhões de pessoas, decida fazer o depósito antecipado da parcela mensal. Que me perdoem os ingênuos, nunca vi banco favorecer a vida de ninguém, muito menos dar dinheiro antes da hora.
É estranho que o depósito tenha sido feito sem notificação aos interessados e sem que se prevesse a comoção que isto poderia causar.
É estranho que se diga que foi boato o fato de que beneficiários tenham acessado na sexta o seu extrato e tenham visto o depósito antecipado e não tenham acreditado em um “presente da Dilma”, pois certamente estavam acreditando que no dia determinado, uma nova parcela seria depositada. Lógica simplista de quem vive das migalhas do governo.
É estranho que uma ministra do governo tenha atribuído à oposição a onda de boatos, sem ter em mãos a mais mínima informação, sendo obrigada a desdizer o que disse, alegando que o que disse não queria dizer o que foi dito.
É estranho que o vice-presidente da Caixa tenha vindo a público dizer que havia determinado a antecipação das parcelas para fazer frente à onda de saques que houve, como forma de aliviar a tensão social que o fato gerou. Mais tarde veio com a história de que, quando determinou a antecipação, ele não tinha a informação de que ela já havia sido feita.
É estranho que o presidente da Caixa venha a público afirmar que não era do seu conhecimento a antecipação das parcelas e que, por isto, demorou uma semana para trazer explicações, uma vez que precisava levantar todas as informações necessárias para o esclarecimento.
É estranho que dois bilhões de reais (que é o total conhecido do Bolsa Família) seja antecipado, sem que o vice-presidente e o presidente da Caixa tomassem conhecimento do fato inusitado.
É estranho, muito estranho, que a razão para tal antecipação seja a atualização do sistema feita entre março e abril deste ano e que, de acordo com Hereda, a Caixa identificou 700 mil a 1 milhão de beneficiários portadores de mais de um Número de Identificação Social (NIS). Com a atualização, essas pessoas passaram a ter apenas o número mais antigo do NIS, o que poderia gerar confusão na hora do pagamento, segundo o presidente.
É estranho que ele não tenha explicado se a duplicidade do NIS implica e duplicidade de pagamentos. Se assim for, dizer que o Bolsa Família seria cortado não é boato. Por outro lado, como pode um banco que administra estas contas permitir que no mínimo 700 mil inscrições tenham sido feitas em duplicata?
É estranho que a presidente Dilma tenha dito que era “desumano e criminoso” o que estava acontecendo e que, agora, se sabe, foi gente do seu governo que aprontou a lambança.

É ixtranho, muito ixtranho.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 22 de maio de 2013

NÃO UM ZÉ: O ZÉ


Eu o conheci há mais de 30 anos. Estávamos em um encontro e um dos preletores faltou. Foi quando ele disse que tinha um texto que poderia ser lido. Nunca me esqueço: O Primeiro De(s)maio, um trocadilho sobre as condições do trabalho e o dia primeiro de maio, dia do Trabalhador.
Depois disto nos encontramos incontáveis vezes, seja em reuniões, conferências, seminários ou tomando um chopp. Cada vez que eu o ouvia falar e compartilhar suas ideias minha admiração por ele crescia.
Por duas vezes eu tive a honra de apresenta-lo como conferencista. Falei o que pensava dele: uma cabeça brilhante, um poeta, um artista das palavras e dos conceitos, hábil no uso das metáforas, etc.
Certa feita eu o convidei para falar sobre a história do pensamento humano (não podia dizer que era história da filosofia porque o auditório religioso era extremamente conservador). No caminho para o salão encontramos uma senhora e eu o apresentei como Doutor José. Ela mal tinha se afastado ele me deu uma bronca: “Marcão, não quero mais que você me apresente do jeito que você faz. Quando você for me apresentar, diga que sou o Zé. Nada mais.” “Mas Zé...” tentei retrucar e ele foi enfático: “Só Zé. Nada mais. Entendido?”
Eu já tinha preparado o discurso de apresentação. Ia dizer que era autor do livro Corpoética, Cosquinhas no Umbigo da Filosofia, Papo de Boteco e outras coisas mais. Fiquei mudo. Fiz o que ele me pediu: “aqui está o Zé”.
O grupo cantou um hino que dizia: “é mui certo que a gente tropeça, por isso Senhor, eu preciso de ti./Bem sei que nas preces eu posso buscar-te / Jamais dessa bênção na vida eu descri, / Contudo, é possível que eu dela me aparte / Por isso Senhor eu preciso de ti.”
Ele começou dizendo: “este sou eu. Já tropecei, já me apartei. Peço a vocês para não acreditarem no que vou dizer, mas que examinem e só aceitem aquilo que entenderem ser certo.”
Começou com os pré-socráticos e veio desfilando até o existencialismo. Eu estava abismado porque o auditório, que eu tinha certeza teria resistências, estava participando, fazendo perguntas, etc.
No período da tarde veio o segundo preletor. Começou dizendo que queria fazer algumas observações sobre o que o Zé havia dito, porque podia dar lugar a interpretações heréticas. E começou a desfilar um rosário de certezas e jactância.
Uma hora de palestra do segundo orador, o presidente do grupo veio até mim e perguntou: “Não dá para fazer este cara calar e colocar o Zé no lugar dele?”
Perguntei ao Zé, depois, porque não queria que o apresentasse da forma como queria. Ele me disse duas coisas que me marcaram: “primeiro que você exagera. E quando você exagera as pessoas ficam esperando a fala de um gênio. E eu não o sou. Dizendo que sou o Zé, qualquer coisa que vier depois disto é lucro.”
Não vou dar o nome completo dele para não levar outra bronca. Mas quem quiser saber quem é, me escreva que eu conto. Isto o Zé não pode me proibir....... E o faço como gratidão pelo muito que com ele aprendi e tenho aprendido. 
Marcos Inhauser

quarta-feira, 15 de maio de 2013

PODER DIVINO?

Mal tinha enviado para a redação a coluna na semana passada, na qual fazia algumas reflexões sobre o poder, entre elas a de que “nada mais terrorista que o poder exercido em nome de Deus” e surge a notícia de que o “pastor” Marcos Pereira estava sendo preso por ter, supostamente, abusado sexualmente de fiéis da sua igreja. Segundo as notícias veiculadas, ele promovia cultos de exorcismo e dizia a algumas fiéis que o demônio só sairia delas se mantivessem relações com um homem santo, no caso, o próprio “pastor.”

O argumento, ao menos para mim, não é novo. Nos idos anos 80 ouvi de mais de uma testemunha, de uma profetisa na cidade de Jaú que revelava o tal “mandamento da carne”, onde fulano deveria transar com cicrana, porque esta era a vontade de Deus. A mesma coisa ouvi depois como prática em outros círculos “proféticos”, dando-me a sensação de ser algo usual em determinados círculos.
Já mencionei aqui há algum tempo (Desequilíbrio de Poder) que estudos feitos sobre os casos de violência sexual sempre mostram uma relação desigual de poder, onde os abusadores, no exercício de sua autoridade, impõe suas vontades sobre as partes mais fracas. Também afirmava que, no campo do religioso, esta desigualdade do poder se estabelece quando o religioso se apresenta como revestido de “autoridade espiritual”, o que facilita a investida sobre a presa de sua sanha sexual. Uma “cantada” de um religioso é mais efetiva que a de um cidadão normal. Há nisto a mística de estar se relacionando com o sagrado, com alguém mais próximo de Deus, uma elevação espiritual pelo sacrifício da entrega do corpo, de orgasmo mais pleno porque feito com a santidade. Há o caso (sem o mesmo destaque na mídia) de pastor que Deus revelou que as mulheres dos membros da Diretoria da Igreja deveriam ser acessíveis e acabou sendo flagrado no escritório pastoral com uma delas.
Neste contexto fica mais fácil entender como pais e familiares próximos são os maiores violadores das crianças e como a pedofilia ganhou níveis epidêmicos no seio da religião. Atendi certa feita uma pessoa que foi abusada pelo pai evangélico que usava o mandamento do “honra teu pai” e o texto “filhos, em tudo obedecei vossos pais, porque isto é justo” como forma de obrigar a família a ceder aos seus impulsos.
Há que lembrar-se que o agora acusado teve seus momentos de glória midiática quando apareceu no Fantástico, que lhe deu longos minutos de reportagem, apresentando-o como recuperador de viciados, negociador de rebeliões e salvador de pessoas condenadas à morte pelo tráfico. Talvez por causa disto, ele tenha conseguido as verbas públicas milionárias para seu “trabalho”.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 8 de maio de 2013

O PODER

Somo seres quer buscamos incessantemente o poder. Em todas nossas relações estabelecemos “nosso território” e buscamos ampliá-lo com negociações e artimanhas. A busca pelo poder é inerente ao ser humano e o altruísmo, quando acontece, pode ser que seja um investimento no longo prazo.
Há certas circunstâncias em que cedemos certo espaço de poder. Há povos que, vivendo em liberdade, quiseram ver a ordem estabelecida e esta superou e a liberdade e poder de exercê-la foi parcialmente suplantado.
Ninguém consegue viver sem um espaço de poder. A autonomia é necessária para que haja a individualidade. A ausência total do poder pessoal é a completa despersonalização. No entanto, como seres humanos, somos a somatória das obediências que prestamos a quem não podíamos e não podemos desobedecer. No fundo, sobrevivemos porque cedemos algo do nosso poder para figuras ditatoriais patriarcais, matriarcais, avunculares, professores, chefes, etiqueta, moda, etc.
Neste contexto deve-se ver a política. O império político tem o objetivo de manter a massa no limite mínimo da satisfação e abafar o clamor dos pobres e sofridos. Deputados, senadores, vereadores, governadores e quejandas não são deserdados. São eleitos porque têm cacife, tem poder anterior para lá chegar. E quando lá chegam buscam ampliar o seu espaço de poder.
A política existe para congelar o status quo. Daí porque, as Câmaras Municipais mais concedem honrarias que legislam mudanças. E quando elas ocorrem são cosméticas. Um governo sem atribulações, azeitado, sem greves, sem reclamações é o que todo governo quer. Ele busca manter e aumentar seu poder, usando de todos os artifícios disponíveis, não importa se éticos. E para legitimar esta sua ânsia, usa do processo educativo e da propaganda oficial para persuadir os dominados a aceitar a dominação, via consenso ideológico. É um processo de acomodação e domesticação das classes, especialmente as emergentes. Talvez com isto se possa entender porque no Brasil não se permite a “educação em casa” (home schooling). Seria ter gente pensando fora do consenso ideológico.
Nada mais terrorista que o poder exercido em nome de Deus. O fanatismo religioso, na história da humanidade, é o responsável pela maioria das mortes violentas. Se o poder do monarca vem de Deus, nada nem ninguém irá suplantá-lo ou diminui-lo. O “poder divino” cria messias, iluminados, fazedores de milagres e ladrões do povo via ofertas religiosas e dízimos. Cobra vidas como é o caso dos fanáticos muçulmanos. Quem tem olhar crítico sobre estes “poderosos divinos” é tachado, até mesmo pelos domesticados, de herege.
No âmbito da sociedade são tachados de revolucionários, antissociais, guerrilheiros, esquerdistas. Usam dos meios de comunicação (que está nas mão dos poderosos) para vender esta ideia aos dominados que, consensualmente, aceitarão a versão oficial e a outra como subversão.
Marcos Inhauser

FERVENDO
As relações entre os poderes da República não andam nada harmônicas e estão ferevendo. Soube-se, dias antes do início do julgamento do mensalão, que o ex-presidente da República tentou chantagear um dos integrantes do STF. Mais tarde, soube-se também do périplo do ministro Fux em suas visitas a autoridades, no objetivo de conseguir a sua indicação para o Supremo e que o fizeram na esperança de que seu voto fosse favorável aos mensaleiros. Não sendo, foi xingado e execrado pelos filiados ao partido governante. Os votos do Toffoli não convenceram ninguém da imparcialidade que um juiz deve ter.
O Planalto andou tendo algumas derrotas no Congresso e a sua base de articulação, qual centroavante irregular, tem errado o gol na hora agá. Em outras, jogo com o rolo compressor e arranca vitórias que evidenciam interesses nada republicanos. Nos últimos dias vimos esta máquina de votação passar o rodo e levar ao plenário a limitação (ou a criação de obstáculos mil) para a criação de novos partidos, naquilo que se pode definir como animus legendi, quando uma lei é feita com o objetivo de alcançar alguém específico, no caso a Marina da Silva e sua Rede de Sustentabilidade. Também limita as articulações do Eduardo Campos, provável candidato do PSB à presidência.
O PSDB bateu às portas do STF e conseguiu liminar para suspender a tramitação do projeto, por entender ser inconstitucional. O Gilmar Mendes (que deve ganhar por liminares e habeas corpus que expede), concedeu e a grita no legislativo foi grande: o judiciário está se metendo nas atribuições do legislativo. Veio a desforra: o legislativo propôs que algumas questões votadas pelo STF, mesmo pelo seu pleno, sejam referendadas pelo Congresso. Em outras palavras, o STF estaria sub judice do legislativo. A grita foi geral pois, inclusive assim acho também, isto cheira a golpe.
Agora vêm os impolutos Calheiros e Alves com a conversa iniciada pelo Maia quando presidente da Câmara, de que o que se quer é delimitar com precisão as atribuições de cada poder, para que as relações sejam mais harmônicas e a coisa pública ande com mais celeridade. Isto me cheira raposa se candidatando a xerife do galinheiro. A continuar assim, vão propor a extinção da Procuradoria Geral da República, dos Tribunais de Contas e a Controladoria Geral da União porque andam “criando problemas”para a aplicação das verbas parlamentares.
Aliado a isto está a proposta da votação em listas feita pelo partido e não mais em candidatos. Só vamos poder votar no bloco! Não me assustaria que um iluminado viesse com a proposta de acabar com as eleições em função dos altos níveis de popularidade do Lula e Dilma, o que evidencia a aceitação popular e a efetividade de seus governos.
Seria a realização do sonho do companheiro Zé Dirceu e seus aspones.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 24 de abril de 2013

CONSERVADORISMO

Uma das características das igrejas é a confessionalidade, determinada pelo conjunto de doutrinas que a denominação ou religião estabelece como sendo a verdade. Esta doutrina teórica é ensinada através de Catecismos que são ensinados e que os aprendizes devem memorizar, repetir e recordar. Ora, ao fazer isto, a igreja conserva o mesmo, as mesmas verdades que foram pronunciadas há séculos por algum iluminado, seja Agostinho, Aquino, Lutero, Calvino, Zwinglio, Wesley ou qualquer outro.
A preeminência desta Confissão é tão grande que o Código de Disciplina da Igreja Presbiteriana do Brasil, no Capítulo II, quando trata das faltas, no Art.4º, Parágrafo Único – “Nenhum tribunal eclesiástico poderá considerar como falta, ou admitir como matéria de acusação aquilo que não possa ser provado como tal pela Escritura, segundo a interpretação dos Símbolos da Igreja”. Percebe-se assim que só é falta (pecado) aquilo que é previsto nos Símbolos da Igreja (Confissão de Fé, Catecismos Maior e Menor).
A memória, a recordação preservam o passado e este é imutável. Não se muda o que já aconteceu. Ao fazer esta retro-oculatra, as igrejas perdem o sentido de uma resposta ao presente, preferindo a saudade de tempos idos. A recordação tem algo de opressora: ela não permite a novidade, a descoberta, a criatividade. Ela congela o pensamento e nega o diferente. Ao assim proceder, entroniza o passado como verdade absoluta e demoniza o presente e os sonhos de futuro melhor como demoníacos.
Não é para menos que os profetas tenham sido mortos, torturados, serrados ao meio. No dizer do escritor de Hebreus: “Todos esses morreram cheios de fé. Não receberam as coisas que Deus tinha prometido, mas as viram de longe e ficaram contentes por causa delas, declararam que eram estrangeiros e refugiados, de passagem por este mundo. E aqueles que dizem isso mostram bem claro que estão procurando uma ... Não ficaram pensando em voltar para a terra de onde tinham saído. Se quisessem, teriam a oportunidade de voltar. Mas, pelo contrário, estavam procurando uma pátria melhor, a pátria celestial. E Deus não se envergonha de ser chamado de o Deus deles, porque ele mesmo preparou uma cidade para eles.” (Hb 13:12-16).
Para a religiosidade ortodoxa, ciosa das verdades que sustenta há séculos, os pregadores de alternativas, os promotores de perguntas, os questionadores devem ser liquidados, taxados de hereges, queimados no fogo da Inquisição.
Nada mais fácil que taxar alguém que pensa de herege, apóstata. Não há lugar para os profetas! A função do ministério profético é manter juntos o espírito crítico e a ação. É na dialética entre crítica e ação que nos tornamos fiéis a Deus. Optar por um ou outro é cair nas armadilhas do progressismo e do conservadorismo.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 17 de abril de 2013

PROVA CABAL


A lentidão da justiça brasileira tem nesta semana sua prova mais cabal: vinte anos para que os indiciados no massacre do Carandiru sejam julgados! No que pese a comoção nacional e internacional com o caso, o processo andou a passos de tartaruga.
Já se falou e se falará sobre a quantidade de pessoas envolvidas, seja como acusados ou como testemunhas, tentando com isto justificar a demora no julgamento.
Não há como colocar de lado o sentimento de impunidade que grassa na população. Tamanha crueldade e barbárie ficam para as calendas. A percepção popular é que não vai dar em nada, mesmo porque, o comandante do massacre já morreu e os demais implicados de alto escalão (governador e outros), têm poder de fogo (entenda-se bons advogados).
Os testemunhos prestados até agora neste julgamento são estarrecedores. O ex-detento Marco Antônio de Moura, afirmou que atiravam em direção à cadeia de dentro de um helicóptero: "Tinha um helicóptero com uma metralhadora atirando ...  tinha presos que estavam no telhado, tentando fugir. Todos foram atingidos por essas balas e morreram".
Ele ainda testemunhou que “na minha cela, entraram uns 30. Fechamos a porta. Um policial chegou, colocou o cano da metralhadora pela janela que fica na porta e atirou. Uns dez foram atingidos, oito morreram ... No momento em que os presos eram levados para o pátio, os presos ouviam os policiais gritando: ´Deus cria, a Rota mata´ ... Tive um amigo que estava com um furo no pé, pisou no sangue e pegou HIV. Morreu por causa da doença há uns cinco anos".
Outro ex-presidiário, Antônio Carlos Dias, disse em seu testemunho acreditar que o número de mortos no massacre foi o dobro dos 111 divulgados oficialmente.
Há ainda quem coloque o massacre como o ponto de partida da criação da facção criminosa PCC. Promotoria e defesa concordam que o massacre ocorrido em 1992 e o surgimento da facção em 93 estão relacionados. A advogada de defesa dos policiais, Ieda Ribeiro de Souza, atribui o surgimento da facção às reações críticas à atuação policial no episódio. Para ela “deram carta branca aos bandidos quando restringiram a PM de entrar nos presídios. Por isso, estamos na situação que estamos hoje". O PCC reivindicava o fim da linha dura e dos maus-tratos contra os presos. 
O que me intriga é que o julgamento não tenha comovido a população para acompanhar e exigir lisura e justiça. Talvez isto se explique pelo fato de que apenas 10% das pessoas acreditam que eles serão condenados e presos.
Os dados são de pesquisa realizada entre 4 e 5 de abril, com 1.072 entrevistados com mais de 16 anos. Estou entre os descrentes, até prova em contrário.
Marcos Inhauser

MEGAIGREJAS

Megaigrejas são fenômeno novo. As grandes congregações estavam ausentes da história da Igreja Cristã. Em qualquer período histórico não havia mais do que uma dúzia destas congregações em todo o mundo, mas nenhuma delas se enquadra no que hoje são as megaigrejas. Elas são mais do que igrejas com frequência enorme. São congregações com padrão distinto de organização nas relações, nos ministérios e na associação. A rápida proliferação desta forma de vida congregacional ocorreu nas últimas décadas. Quase todas as megaigrejas foram criadas depois de 1955.
O crescimento explosivo experimentado por essas congregações não existiu antes da década dos oitenta. Dados coletados em 1992 nos Estados Unidos revelam algo em torno de 350 de tais congregações.
A característica mais evidente das megaigrejas é o número de pessoas presentes em uma semana. O atendimento tamanho deve girar em torno de 2.000 pessoas para que elas passem a ser consideradas como tais.
O tamanho de algumas megaigrejas pode ser enganoso. Uma contagem de milhares de frequentadores raramente é exata. Estimar a participação com base no número de pessoas pela quantidade de assentos disponíveis é algo que carece de precisão. Muitos denunciam um atendimento inflacionado, sob a alegação de que ninguém frequenta mais de uma vez por semana a igreja. Assim, na maioria dos casos, o que se tem são estimativas, mesmo porque, uma das características destas igrejas é não ter um rol de membros.
O grande número de frequentadores cria várias dinâmicas. Se se atinge a massa crítica de 2000, a força numérica se torna em poderoso fator de atração. Um líder destas igrejas disse que “quando se atinge certo tamanho, a igreja se torna autogeradora: atrai as pessoas por seu tamanho. As pessoas sabem que vão estar na TV e que o lugar é grande. Há uma sensação de que alguma coisa está acontecendo e tamanho gera mais crescimento”.
A grande igreja cria um movimento de atração de outros. Um fluxo de carros de domingo em uma rua tranquila desperta o interesse. Grandes edifícios e amplos estacionamentos marcam presença no entorno.
Muitas vezes não é apenas o tamanho que caracteriza a megaigreja. A maioria experimenta crescimento rápido ao longo de um período de tempo muito curto. É "sucesso instantâneo" que muitas vezes define uma megaigreja na ecologia religiosa. Este aumento explosivo define esta congregação para além de outras opções espirituais da comunidade. Elas são igrejas dependentes da figura de um líder, muitas vezes autocrático. Ele é a cara visível da igreja e é conhecida como a “igreja do fulano”.
Considerados estes fatores, algumas perguntas se impõem: são as megaigrejas verdadeiras igrejas? Se a essência da igreja cristã é a comunhão, que comunhão há entre duas, três, quatro mil pessoas? Elas são congregações ou auditórios? O que prevalece é o estilo de vida simples ou o espalhafato tecnológico? A adoração genuína ou o show dos “modernos levitas?”
Marcos Inhauser

quarta-feira, 3 de abril de 2013

PETULÂNCIA RELIGIOSA


O deputado federal e pastor evangélico Marco Feliciano fez algumas declarações durante um culto em Passos – MG, na sexta-feira da Paixão, em função da pressão que vem sofrendo por ser o presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara: "Essa manifestação toda se dá porque, pela primeira vez na história desse Brasil, um pastor cheio de espírito santo conquistou o espaço que até ontem era dominado por Satanás".
Há algumas coisas que quero ressaltar na reportagem feita pela Folha de São Paulo sobre as declarações. Uso o texto escrito por Alexandre Gonçalves, pastor da Igreja da Irmandade: “Nas entrelinhas da reportagem surge um detalhe curioso: o jornalista Daniel Carvalho ... escreveu "espírito santo" com letras minúsculas e "Satanás" em maiúsculo. Não sei se proposital,  ..." ou intenção deliberada ... do jornalista, mas para mim providencial. ... eis que o pastor se declara um homem "cheio de espírito santo", e portanto, cheio de "poder", de "verdade", e ... de legitimidade divina para tomar suas decisões. Ele quer nos fazer crer que há uma "batalha espiritual" no Congresso ... , e ... que ele é a resposta de Deus para essa batalha (pela primeira vez na história desse Brasil!). Ele segue a lógica de que é necessária uma força maior, ... divina ... para vencer o mal instalado no mundo.
Nessa dicotomia estabelecida entre o BEM ... e o MAL (Satanás, por meio dos ativistas dos direitos dos homossexuais, encabeçado pelo Dep. Jean Wyllys) não sobram espaços para refletir sobre os absurdos proferidos de todos os lados, sendo um dos mais graves, ... anunciar-se como o "primeiro pastor cheio de espírito santo na história desse Brasil a conquistar o espaço que até ontem era dominado por Satanás". Nessa luta de verdades absolutas só há espaço para o triunfalismo da teologia dos "homens muito usados por Deus".
Talvez o jornalista tenha mesmo razão em escrever "de espírito santo" com letras minúsculas. Feliciano está cheio daquilo que compreende como espírito de santidade, de pureza e superioridade, que dá carta branca a ele para fazer o que desejar, afinal, está sob a legitimidade divina. Saudades dos profetas: "Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças como trapo da imundícia; e todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniquidades como um vento nos arrebatam”. (Isaías 64,6).
Talvez o jornalista tenha acertado também em escrever "Satanás" em maiúsculo, por perceber ser ele o único protagonista, de fato, disso tudo.
A petulância está em arvorar-se em “pastor cheio do Espírito Santo”. É tão petulante como quem afirma ser gênio, sábio ou iluminado. Nem Jesus fez esta afirmação sobre si. O que ele tem é o espírito do messianismo: escolhido por Deus para salvar a família brasileira!
Livrai-nos Deus dos falsos Messias!
Marcos Inhauser

terça-feira, 26 de março de 2013

OS MEUS DOIS NEURÔNIOS ESTÃO FERVENDO


Um dos dois neurônios que tenho está fervendo. O outro está em estado de convalescência. Eles nunca funcionaram bem, mas, desde a semana passada, entraram em curto-circuito. Por todos os meios e exercícios tentei reanimá-los, mas estão em pane.
A coisa começou na semana passada quando li que o Conselho Federal de Medicina decidiu propor que o aborto seja legal até o terceiro mês de gestação. Segundo o presidente do CFM, Roberto Luiz d'Avilla, “é inaceitável que mulheres morram em abortos realizados sob condições inseguras”. Ele também criticou “a desigualdade de meios à disposição de mulheres ricas e pobres que desejam interromper a gravidez. A realidade dos fatos mostra as mulheres fazendo aborto com uma grande iniquidade. As ricas em condições seguras e as pobres, totalmente inseguras. E elas [as pobres] é que estão enriquecendo as estatísticas de mortalidade e de morbidade. Ou seja, as complicações, perdendo útero, perdendo partes do intestino, morrendo. Isso que não é possível. Essa desigualdade é inaceitável do ponto de vista médico".
O que me deixa intrigado é a lógica utilizada. Na argumentação se diz que os abortos ilegais produzem muitas mortes (terceira causa de morte em gestantes) e internações na rede pública, em função dos procedimentos inadequados. O que sobra para o Estado são as “pobres”, porque as ricas têm como arcar com os custos. Qual a garantia que a legalização dará às pobres condições seguras de praticar o aborto? Ou a consequência disto é prover clínicas de aborto do SUS?
Por outro lado, a salvaguarda da vida da mãe é determinada pela morte certa de um inocente. O possível risco de vida da mãe determina a morte certa do feto. Mais: em um momento em que se têm inúmeros métodos de controle da natalidade (até camisinha grátis o governo tem dado), engravidar pode ser visto como irresponsabilidade ou descuido. Esta atitude vitima quem não teve nada a ver com a história: o feto, a criança. A sentença da morte certa, feita de forma correta e legalizada!
A segunda pancada no meu teco veio da proposta encaminhada pelos redatores do novo Código Penal Brasileiro. Outra vez a lógica me deu nó neural: criminaliza-se o racismo, a homofobia, mas se legaliza a morte via aborto. É crime afirmar ser contra a homossexualidade, mas será avalizada, talvez até com dinheiro público via SUS, quem quiser interromper uma vida embrionária.
Ainda que seja pastor, não me valho de argumentos teológicos ou religiosos para expor minha indignação. Poderia fazê-lo e o farei em outra oportunidade. Quero, sim, explicitar a lógica de dois pesos e duas medidas. É crime racismo, mas é legal o aborto. É crime a homofobia, mas é legal a interrupção da gravidez. Denegrir alguém é mais crime que matar alguém!
Só espero que não venham com mais coisas e acabem inviabilizando o neurônio que sobrou. É verdade que ele levou um belo tranco com as eleições dos presidentes do Senado e Câmara. Mas os meus neurônios estão com a saúde frágil. E o SUS não tem tratamento para eles.
Marcos Inhauser

terça-feira, 19 de março de 2013

MUDANÇAS À VISTA?

Quando da eleição do sucessor de João Paulo II, escrevi aqui que foi eleito quem já era. Dizia eu: “Os cristãos mais progressistas da América Latina, notadamente os que se alinharam à Teologia da Libertação, às comunidades Eclesiais de Base ... e ao movimento ecumênico ... não estão ... satisfeitos com a eleição do Cardeal alemão Ratzinger como o novo papa ... Creio até que este mesmo sentimento está presente em todos os que esperavam um papa ... mais alinhado com os novos tempos, com as descobertas da ciência, com as grandes questões sociais, éticas e políticas deste início de século XXI. Não há como esquecer que ... Ratzinger foi a eminência parda por trás do pontificado de João Paulo II, quem, como ideólogo influente dentro da estrutura de poder do Vaticano, colocou muitas das cores que marcaram o último pontificado. Com ... certeza, saiu dele a orientação para uma maior centralização do poder em Roma, retirando dos cardeais e bispos ... espaços de poder, quem determinou uma linha teológica ... conservadora, quem foi o ideólogo para o desmonte da Teologia da Libertação, quem esteve por trás das disciplinas de Leonardo Boff, Hans Kung e outros que ousaram levantar uma voz destoante da afinação decretada pelo Vaticano” (20/04/2005).
Tenho para comigo, e há muitos que vão discordar, que o papado de Ratzinger foi um dos mais fracos do último século. Quando da sua renúncia escrevi: “Especulo ... que Bento XVI nunca foi unanimidade na igreja. Uma coisa é o discurso formal, o rosário de elogios que bispos fazem. Outra ... é o que vai na alma e no coração. Converso com muitos católicos, clérigos e leigos, e nunca percebi que a eleição de Bento XVI fosse consenso. Houve quem tivesse dito que tiveram que engolir a eleição “goela abaixo”. Por suas posições quanto à Teologia da Libertação, ele tinha sérios questionamentos por parte de latino-americanos. Questionado na sua eleição, no seu posicionamento teológico (essencialmente conceitual, tratando de temas que não são pertinentes à realidade de povos da África, Ásia e América Latina) e enfrentando a luta por espaço por parte de grupos que atuam no interior da Cúria, só lhe restou a renúncia.”
Talvez eu tivesse que acrescentar: renunciou ao papado quem nunca foi papa.
A eleição do Cardeal Bergoglio indica, pelos primeiros sinais, mudanças. A primeira na suntuosidade e opulência que os anteriores costumavam ostentar. A segunda, a escolha do nome que, se for harmônica com os princípios de Francisco de Assis, será um papado franciscano, voltado aos pobres e com preocupação ecológica (coisas que já foram sinalizadas pelo novo papa). A terceira, sua vocação pastoral e não acadêmica. Ele é mais de abraçar e sorrir que produzir encíclicas sobre temas que não são preocupação dos fiéis, como foi o caso do seu antecessor.
Resta saber como ele tratará os temas da Cúria, do Banco e dos crimes sexuais de pedofilia. No entanto, esperar mudanças mais radicais em temas como casamento de padres, homossexualidade, aborto, controle da natalidade, uso de preservativos, é esperar milagre.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 13 de março de 2013

O SERMÃO DO BÊBADO


Estávamos em uma fase difícil na igreja. Problemas com o antigo pastor, um grupo de membros havia deixado a comunidade, éramos poucos questionando por que Deus estava permitindo tudo aquilo. Um domingo, quando éramos meia dúzia reunidos, com um sentimento de desânimo que pairava no ar, uma membro disse enfaticamente: “eu não sinto mais Deus no nosso meio. Tivemos tantos problemas e estou tão desmotivada que não sei o que fazer. Quando vinha para cá hoje tive esta certeza – Deus não está no nosso meio”.
Ficamos em estado de choque. Todos nos perguntávamos o que estava acontecendo e no nosso íntimo questionávamos se Deus era conosco. Ela teve a coragem de explicitar a pergunta que todos fazíamos no íntimo.
O pastor iniciou o culto. No meio dele escutamos um barulho dentro do salão onde nos reuníamos e uma voz reclamando. Era um bêbado que havia entrado de bicicleta e tudo e tinha caído. Fomos ajuda-lo a se levantar e ele perguntou se era uma reunião de igreja. Dissemos que sim e ele pediu para participar.
Mal o pastor retomou a palavra ele o interrompeu, querendo falar algo, sem nexo e com a voz empastada pela bebida. Outra vez o pastor tentou falar e ele interrompeu. O pastor perguntou se ele queria dizer algo à igreja e ele respondeu afirmativamente. Olhando para todos nós, como que para saber o que pensávamos, ele sentiu o apoio da comunidade e disse ao bêbado: “pode falar que vamos te ouvir. Depois de você eu vou falar e você vai me ouvir quietinho. Certo?”
Aquele homem se transfigurou. Não era mais o bêbado que havia entrado de bicicleta e caído. Parecia sóbrio. Sua história foi mais ou menos a seguinte:
“Desde pequeno minha mãe me ensinou as coisas sobre Deus. Um dia perguntei a ela onde Deus morava e por que nunca o tinha visto. Ela me disse que ele morava no céu e que não se podia ver a Deus por causa da sua glória. Na adolescência, intrigado com o fato de Deus existir ou não, raciocinei que, se Deus mora no céu, eu devia ir ao local mais alto que conhecesse e lá pediria que ele provasse para mim que ele existia. Subi ao monte mais alto que tinha na minha cidade e no alto dele clamei pedindo que Deus, se de fato existisse, se revelasse a mim. Nada aconteceu. Fiquei ali parado esperando. Acabei dormindo. Em certo momento, fui despertado por um vento que bateu e da árvore debaixo da qual eu estava caíram flores perfumadas e me cobriram de perfume e senti naquele momento que era Deus dizendo para mim: eu existo.
Nunca mais senti aquele perfume, mas nunca o esqueci. Mais de trinta anos se passaram e hoje, quando estava passando em frente deste templo, senti o mesmo perfume que me cobriu lá no alto da montanha. E eu entrei. E entrei para dizer para vocês que Deus está aqui no meio de vocês. Nunca duvidem disto”.
Aquilo caiu como bomba em nosso meio. Ficamos quietos e chorávamos. Depois de um longo tempo de silêncio, o pastor disse: “não há mais nada a dizer hoje. Já recebemos a Palavra de Deus”.
Estávamos mortos pelo desânimo. Sem pedir licença e da forma mais inesperada possível ele vem à comunidade. Entra atropelando, atropela o andamento do culto e pede a palavra. Em sã consciência ninguém daria a ele a oportunidade de falar. Fomos movidos a fazer uma loucura.
Descobrimos Deus se movendo entre nós, usando alguém que não tinha credenciais eclesiásticas. Ele foi o instrumento de Deus para nos trazer nova vida, nova esperança, novo começo. O bêbado foi usado por Deus para nos dar novo ânimo, ele frutificou em nosso meio, nos levou de volta a Deus e até hoje a igreja é edificada pela palavra que ele nos trouxe.
Marcos Inhauser

quinta-feira, 7 de março de 2013

ISTO É UM BEÇURDO!


Quase analfabeto, tinha três habilidades que eu admirava. A capacidade de ficar de cócoras, sentado sobre os pés, por longos períodos de tempo. Era uma posição fetal, que ele gostava de ter. Acocorado, pegava um pedaço de madeira e ficava a rabiscar coisas no chão de terra e a conversar. A outra era seu vocabulário peculiar. Tinha dificuldade em pronunciar palavras que tivessem uma consoante muda (objeto virava bejeto, opção virava opição, psicologia era pronunciada como pissicologia, etc.). Admirava também sua capacidade em fazer diagnósticos, quase sempre simplistas e reducionistas, mas pronunciado com a certeza dos deuses.
Quando ouvia algo que lhe parecia estranho ou fora da normalidade, lá vinha a sentença: “isto é um beçurdo”.
Lembrei dele na quarta-feira, quando do jogo no Pacaembú, com os portões fechados. Se ele tivesse ouvido ou visto a coisa, teria proferido a sentença. E no que pese a sua incapacidade de aprofundar na análise dos fatos, devo dizer que eu concordaria com ele.
É um beçurdo que o Corinthians e sua torcida tenham sido penalizados por algo que, no frigir dos ovos, também é culpa do time de Oruru e da polícia boliviana, que não teve condições de garantir a segurança no estádio.
É um beçurdo que, mesmo tendo identificado dois autores (outro beçurdo, porque se sabe que só um é o responsável pelo sinalizador), toda uma torcida que não esteve no estádio de Oruru tenha sido penalizada.
É um beçurdo que, mesmo com a confissão de um adolescente (que pode vir a se comprovar ser outro beçurdo para livrar a cara dos reais culpados), um prejuízo de mais de dois milhões tenha sido importo ao time brasileiro.
É um beçurdo que uma instituição não brasileira tenha o poder de cercear a liberdade de assistir a um jogo, com ingressos vendidos e jogo realizado em solo nacional.
É um beçurdo que os quatro que entraram na justiça e ganharam o direito de entrar, tenham sido aconselhados a não fazer valer seu direito, porque isto poderia ser mal interpretado pela Conmebol e que complicaria a vida do time brasileiro.
É um beçurdo que a Conmebol só agora tenha instituído uma comissão para analisar os atos de violência que ocorrem na Libertadores, onde policiais com escudo devem proteger quem vai bater um escanteio, radio, pilhas e outros “bejetos” sejam lançados em campo, sem que haja alguma punição.
É um beçurdo que não se possa tomar ações legais contra os descalabros das entidades de futebol. Até hoje ninguém me explicou convincentemente porque a Fifa vem ao Brasil e exige a mudança das regras aqui vigentes e libera a bebida nos estádios durante a Copa, que um executivo da instituição diga o que disse o sr. Volke, que exija coisas e condições como se fosse um governo paralelo.
É um beçurdo que eu gaste duas semanas e duas colunas para escrever sobre este assunto.
Espero que o leitor não considere um beçurdo ter lido isto.
Marcos Inhauser

UM SINALIZADOR

Para mim não é coincidência que um sinalizador lançado por um torcedor seja também o sinalizador de uma série de coisas relacionadas à violência social, política e policial que vivemos. O fato em si é o ápice de uma série de fatores que devem ser analisados e considerados.
A primeira sinalização é de que não há nenhum resultado fruto de uma única causa. Querer reduzira morte do jovem boliviano a um sinalizador disparado por alguém é tão estúpido quanto o indivíduo que usou o artefato.
A segunda é que há uma grave falha no sistema de vigilância e policiamento na entrada e comércio de armas e outros artefatos. Um sujeito qualquer (mesmo um adolescente, se se comprovar a história da autoacusação feita) pode comprar por R$ 20,00 um sinalizador na 25 de março.
A terceira é que é fácil atravessar as fronteiras do Brasil para o exterior e vice-versa, portando artefatos que podem ser usados para matar, como foi o caso.
A quarta é que é possível entrar em estádios com artefatos perigosos, dentro de uma mochila, seja ela de um brasileiro, seja de um boliviano (porque fogos de artifício também foram usados pela torcida de Oruro).
A quinta é que, mais uma vez, se sinaliza que as torcidas organizadas estão mais para máfia que para torcida. Sabe-se há bom tempo que há alto índice de sujeitos com passado nada recomendável, dirigindo estas agremiações.
A sexta é que, ao interior das torcidas, a ascensão social e de poder se dá pelo arrojo e destemor na prática de “atos de coragem”. Os novos passam por processos e ritos de iniciação e ganham status à medida que se mostram mais valentes. Isto ficou patente no discurso do adolescente que afirma ter sido ele que atirou o sinalizador para que fosse notado pelos colegas.
A sétima é que, na tentativa de dar uma resposta à pressão popular e internacional, a polícia, a esmo, selecionou um grupo e os prendeu, sem ter conseguido, até o presente momento, comprovar a real participação deles nos eventos trágicos. Um sinalizador não pode ser disparado por duas pessoas e há dois acusados de fazê-lo.
Uma sucessão de violências.
A luta contra a violência precisa mudar e renovar o tecido da vida política. Deve criar nova identidade política, controlada e assumida pelo próprio povo, pela organização dos marginalizados e pelos organismos das classes dominantes.
O aprendizado centrado na crueldade, na violência, na tortura, leva o torturado, o que sofreu a crueldade e a violência a ter um aprendizado que vai gerando na pessoa uma agressividade e violência que ele acaba aplicando no outro, tendo ou não uma voz de comando que o leve a agir. A violência gera a violência.
A fome é tão violência quanto a tortura, a falta de moradia é tão violenta quanto a prisão arbitrária, o sinalizador lançado contra um torcedor é tão violento quanto a prisão indiscriminada e aleatória de torcedores.
A violência é uma força que fere a vida e destrói a liberdade e a dignidades humanas. Ela restringe, controla e determina comportamentos de pessoas, grupos sociais e instituições políticas e culturais.
Tanto quanto em qualquer outro período da história, a violência nos machucou. Juntemos forças para mudar esta cultura.
 Marcos Inhauser

A “ZONA” AZUL

Não acredito que eu seja o único que anda irritado com a deterioração da zona azul na cidade de Campinas. Implantado em 1995, tinha o objetivo declarado de “democratizar a utilização do solo público e facilitar a acessibilidade da população à região central do município”.
A Emdec diz que há 1950 na região central e Guanabara, ao preço de R$ 2,70 pelo cartão da Zona Azul, o que é uma ficção. Quem quiser usar a Zona Azul terá enormes dificuldades para encontrar um posto credenciado que venda o cartão de estacionamento. Quando você acha um que deveria vender porque consta como credenciado, dizem que “não vendem mais porque não compensa”. Foi o que me informou a proprietária de um estabelecimento na Costa Aguiar e que se quisesse comprar teria que fazê-lo com o flanelinha que estava na rua. Perguntei se havia algum outro local credenciado e ela me informou ‘que ninguém mais quer vender porque a Emdec exige que eles comprem uma grande quantidade de cartões, que o investimento é alto e que o lucro é mínimo”. Disse ainda que correm o risco de serem ameaçados por alguns flanelinhas que não querem perder o lucro que tem vendendo a R$ 4,00 e até R$ 5,00 cada cartão. O mesmo aconteceu esta semana na Rua Lusitana e na semana passada na Regente Feijó.
Certa feita, ao estacionar na Avenida Aquidabã, quase cruzamento com a Francisco Glicério, o flanelinha veio me oferecer o cartão, perguntei o preço e, por ser bem mais caro, disse que iria comprar em um posto credenciado (naquele tempo ainda se achavam alguns). Ele ficou bravo e disse que não se responsabilizaria se algo acontecesse ao carro. Eu disse que tinha memória fotográfica e que iria denunciá-lo se algo ocorresse.
Outra feita, fui ao centro, achei uma vaga (raridade!), estacionei e sai em busca de um ponto credenciado e voltei uns 10 minutos depois com o cartão. Perdi tempo e dinheiro: paguei o cartão e ainda levei uma multa.
Outra feita, em frente à Casa de Saúde, estacionei, a mulher queria me vender um cartão pelo dobro do preço. Disse que não e fui a uma papelaria pegar um bloco de sulfite. Quando voltei tinha sido multado e, ao sair, uma pessoa me disse que a própria mulher chamou o amarelinho para me multar.
Quando achava postos credenciados, muitas vezes comprei o talão inteiro para que não mais me acontecesse o que havia ocorrido. No entanto, uma visita de outra cidade, vai ter que ir a um estacionamento e gemer com R$ 6,00 na primeira hora e mais acréscimos por hora adicional. Ainda é mais barato que a multa de R$ 53,20.
Acabo de chegar de Jales. Lá também tem Zona Azul. Só que há funcionários do próprio sistema que vendem os cartões e o preço é de R$ 1,00! Se em uma cidade menor conseguem ao preço de R$ 1,00 manter um funcionário em cada quadra, por que na cidade de Campinas a Zona Azul é esta “zona”?
Marcos Inhauser


quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

QUASE 600 ANOS DEPOIS


A última vez que um papa renunciou ao papado foi em 1415, renúncia perpetrada por Gregório XII.  A alegada razão para a renúncia (problemas de saúde e incapacidade de atender às demandas do papado) são plausíveis. No entanto, aprendi que não se deve confiar nas explicações singulares aos fatos. Não há nada que aconteça por uma única causa. Acredito que há várias outras causas subjacentes, muitas das quais ficarão no campo das especulações, pois não acredito que um dia Bento XVI virá a público revelá-las.
De minha parte tenho também o direito de especular sobre as outras razões não explicitadas.
Sabemos que a igreja (seja católica, protestante, pentecostal ou neopentecostal) atravessa período de severa crise que se deve, em parte, à insistência em manter um discurso desatualizado e que não reponde às questões da humanidade no século XXI. Novas e angustiantes questões foram e estão sendo levantadas e a igreja não tem sabido responder, e no caso específico de Bento de XVI, preferiu voltar ao passado, reafirmando que se havia dito. O mesmo ocorre com os fundamentalistas e os puritanos (na Igreja presbiteriana). Depois de Aquino e Calvino, nada de novo se disse. Deve ter havido uma pressão muito forte da ala mais arejada da igreja para que ele cedesse em questões como uso de anticoncepcionais, da camisinha, do casamento dos clérigos, etc.
Outro elemento que, a meu ver, dever ter pesado é que a igreja romana é europeia. Está na Europa, vive a Europa, tem um papa germânico. Na Europa, desde o fim da Segunda Guerra Mundial avançou o secularismo e as igrejas perderam a vitalidade e a pujança. São bispos e papa europeu os que estão a dar as diretrizes para a igreja ao redor do mundo. Onde a igreja tem mostrado vitalidade? Na África, América Latina e Ásia. Qual a voz que estes povos têm no centro do poder romano? É um secretário aqui, outro nomeado ali, mas a igreja terceiro-mundista não apita na proporção do seu vigor e pujança. Acredito que Bento XVI sentia a pressão por voz e voto por parte de bispos africanos, asiáticos e latino-americanos.
Especulo ainda que Bento XVI nunca foi unanimidade na igreja. Uma coisa é o discurso formal, o rosário de elogios que bispos fazem. Outra, bem diferente, é o que vai na alma e no coração. Converso com muitos católicos, clérigos e leigos, e nunca percebi que a eleição de Bento XVI fosse consenso. Houve quem tivesse dito que tiveram que engolir a eleição “goela abaixo”. Por suas posições quanto à Teologia da Libertação, ele tinha sérios questionamentos por parte de latino-americanos. Questionado na sua eleição, no seu posicionamento teológico (essencialmente conceitual, tratando de temas que não são pertinentes à realidade de povos da África, Ásia e América Latina) e enfrentando a luta por espaço por parte de grupos que atuam no interior da Cúria, só lhe restou a renúncia.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

AMOR MAIOR

O evangelho de João traz uma palavra de Jesus que diz: “O meu mandamento é este: amem uns aos outros como eu amo vocês. Ninguém tem mais amor pelos seus amigos do que aquele que dá a sua vida por eles”.
Diante da tragédia de Santa Maria e dos inúmeros comentários e análises já feitos, pouco ou nada a mais tenho a acrescentar, reafirmando, no entanto, que não há efeito (tragédia) produzido por uma única causa. As muitas causas já foram levantadas (projeto inadequado, superlotação, material inflamável, falta de saídas de emergência, imprudência da banda, extintores que não funcionaram, etc.).
No que pese toda a tristeza que o fato gerou, há uma coisa que merece ser destacada como positiva: as várias pessoas que, mesmo tendo conseguido sair da boate, para lá voltaram para resgatar a outras pessoas e várias delas acabaram morrendo. Deram suas vidas por amor ao próximo. Há os que foram em busca de amigos e namoradas, há os que se atiraram para salvar quem pudesse, há os que não saíram, mas ajudaram outros a sair.
O caso do soldado que salvou quatorze pessoas e não conseguiu se salvar, o caso de um dos que, à marretadas, abriu buracos na parede e inalou os gases e acabou internado em estado grave, são dignos de nota e elogios.
Se é verdade que houve quem visasse só o lucro, permitiu a multidão que superlotou a casa e não permitiu a saída imediata do pessoal porque deviam mostrar a comanda paga, é verdade muito mais evidente que houve quem se sacrificasse para salvar vidas.
Outro aspecto altamente positivo foi a solidariedade mostrada, quando centenas, talvez milhares de pessoas se dispuseram, dentro das suas forças e habilidades, a ajudar no que podiam e era preciso. É o caso do pedreiro que se voluntariou a fechar os túmulos porque não havia gente suficiente para todos os caixões que deveriam ser sepultados. Gente que fez o café para quem estava no velório, gente que abraçou, acolheu, chorou junto com os que haviam perdido familiares e amigos. Gente abanando feridos e asfixiados em plena rua, gente carregando a outros, gente que ajudou pessoas caídas a se levantar para que não fossem pisoteados, como é o caso do músico da banda. Quem o ajudou não olhou se era ele o culpado ou não.
Em um país marcado pela corrupção, impunidade e mau caráter (como os casos candidatos à Câmara e Senado, enrolados até o pescoço em denúncias várias), onde mensaleiros julgados pela opinião pública e STF reafirmam suas inocências, o exemplo deixado pelos atos de heroísmo em Santa Maria, devem nos orgulhar e enaltecer os valores do amor, mesmo que seja ele sacrificial.
Eles mostraram que o que Jesus ensinou pode ser verdade não só na vida do Mestre, mas também na vida de seus discípulos.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

DEUS POLICIAL?

No princípio acreditava em um Deus policial, que estava todo o tempo a me vigiar, atento a cada deslize que cometesse, a cada pecado que praticasse. Era um vigilante eterno, que não dormia nunca. Naquele tempo não havia câmeras nem radares a fotografar cada erro cometido e a mandar multas para casa, mas Ele era implacável: castigava de forma dura cada pecado.
Acreditava que Deus me punia cada vez que tropeçava. Se não fosse assim, por que Ele ficava me vigiando e me espreitando? Tinha a sensação de que, quando me "pegava com a mão na botija", Ele me gritava: "te peguei!". Tinha um sorriso de satisfação nos lábios, por ter-me flagrado.
Esta visão de Deus me levou a pensar que Ele tinha prazer em castigar seus filhos. Neste tempo eu usava versos bíblicos que falam da disciplina de Deus, do sofrimento, da privação, da provação. A vida espiritual era para mim o exercício do autocontrole para não tropeçar e para agüentar as conseqüências de haver tropeçado.
Cria neste Deus e ensinava isto a outros. Fazia ver e entender que a vontade de Deus é que sejamos santos, irrepreensíveis e que Ele, para nos levar a esta perfeição, nos castiga quando erramos para nos fazer sentir que o preço do pecado é maior que o preço da obediência.
Ensinava que a pessoa deve orar e ler a Bíblia todos os dias, dizimar, envolver-se nos trabalhos da igreja, que dura coisa é cair nas mãos do Deus vivo. A vida só teria significado quando a pessoa cumprisse com os requisitos da vontade de Deus. Quanto mais orasse, lesse a Bíblia, trabalhasse na igreja, mais satisfeito e feliz seria. Acreditava que devia acordar de madrugada para orar ou passar noites em vigília, porque Deus veria meu esforço e me recompensaria. Havia em mim a ideia de que poderia comprar os favores de Deus, "alcançar a graça" mediante minha dedicação e sofrimentos autoimpostos. Já que Ele se agradava em me vigiar e punir, talvez Ele também se agradasse em me ver autoflagelando.
Mas este tipo de espiritualidade era como um vício. Quando praticava tais atos, me sentia bem, mas depois de um tempo, sentia que faltava algo, que havia um vazio lá no fundo, um medo constante de não estar agradando a Deus. Lá ia eu a tomar outra dose de dedicação, oração, leitura bíblica, oferta na igreja, assistia a tantos cultos quanto possível. E isto não assegurava que não entraria de novo no "down", em uma espécie de ressaca espiritual.
Em um processo lento, gradual, dolorido porque destruía antigas convicções, fui percebendo que Deus não é policial, mas Pai/Mãe bondoso, um Deus da graça. Ele faz o que faz independentemente das circunstâncias, do que faço ou deixo de fazer. Ele não é mais Deus ou menos Deus em função da quantidade de horas que oro, da quantidade de textos bíblicos que leio ou sei de memória, do meu dízimo. Ele me abençoa porque é da Sua essência de um Deus de amor. Ele me amou quando eu era ainda um desgraçado pecador. Não foi, não é e nunca será por mérito. Ele é graça pura, ação incondicional, amor, dádiva sem que haja nada que o obrigue a isto, nem mesmo a minha consagração. Ele me ama como sou, graças a Deus!!!!!!!
Marcos Inhauser

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

HIPERETOLOGIA


Aprendi esta palavra no seminário e nunca mais a vi, nem ouvi. Já busquei em dicionários e nada. Já estava achando que me ensinaram ou que aprendi errado.
Quando já estava desistindo, encontrei um artigo que trata da doutrina da vocação (eu sabia que se tratava desta doutrina). É um artigo de George Emanuel que cita Washington P. Emrich, onde ele diz, entre outras coisas, que a palavra vem “do verbo grego “uperetês” que quer dizer servir, fazer serviço pesado, remar, trabalhar e o substantivo que significa servo, assistente, oficial subalterno. Vem também do verbo hebraico “kara” que significa chamar alguém de maneira efetiva. Em Isaias 42:6 e Is. 48:12. O vocábulo correspondente na língua grega é kalein, kaleu, que significa chamar, convocar, convidar. O substantivo que surge é klesis que quer dizer chamado, vocação, convocação.  Os dois verbos juntos ligam dois conceitos, a saber: chamado e serviço.  Não é um chamado e um serviço qualquer. É o chamado de Deus para uma vida de reconciliação com Ele e de glorificação ao Seu nome por meio do serviço prestado ao próximo. Em outras palavras: vocação é chamada de Deus ao homem para que ele se torne parte do corpo de Cristo, que é a Igreja e, em segundo lugar, para que O sirva em todas as suas relações com o próximo.” (http://www.sentidounico.com.br/v4/files/files/64/Hiperetologia.pdf ).
Fui buscar a tal palavra porque recebi um artigo que fala do mercado de pastores que se estabeleceu entre as “emprejas” (igrejas que são verdadeiras empresas) Universal do Reino de Deus Renascer, Mundial do Poder de Deus e Internacional da Graça de Deus e Assembleia de Deus Vitória em Cristo.
Resumo aqui algumas coisas do artigo: “A disputa por gente qualificada provoca atualmente uma guerra. Valdemiro Santiago, da Mundial do Poder de Deus .. tira gente dos quadros da Universal e da Internacional da Graça de Deus. Ele oferece plano de saúde, aluguel da casa e salários maiores ... O teto salarial da Mundial é de R$ 15.000. Em alguns casos, ... aumenta a remuneração fixa, concedendo de 8% a 10% da arrecadação das ofertas ao pastor. A Renascer, de Estevam e Sonia Hernandes, paga entre R$ 1.500 e R$15.000 aos membros mais graduados. Para fazer parte da ... comunidade, é preciso passar por um processo seletivo. Profissional bom, com o dom da palavra e comprometimento com o ministério, precisa ser valorizado”, defende Malafaia, o único entre os grandes líderes a expor a receita de sua igreja: segundo ele, R$ 40 milhões em 2012.” 
Segundo Malafaia, “meus discípulos ganham entre R$ 4.000 e R$ 22.000. Também banco casa e escola para os filhos”. Mais recentemente, Malafaia estabeleceu que, caso alguém de sua equipe seja aceito em qualquer curso da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, ele financiaria integralmente os estudos.
Talvez a palavra hiperetologia esteja em desuso porque a doutrina da vocação se perdeu há muito. Ser pastor, “bispo” ou “apóstolo” é uma questão de mercado e não mais de vocação, de chamado, de experiência íntima com Deus que se manifesta no atendimento do rebanho, reconhecido por este como sendo vocacionado. Não é uma questão de salário, mas de consagração.
Ainda bem que ainda existem os verdadeiros vocacionados, que ministram ao rebanho por amor, com suor e lágrimas, gente que se vê recompensada pelo brilho nos olhos das pessoas cuidadas e pastoreadas.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

TUDO É GRAÇA!

Há teologias e teologias.
Há quem a chame de doutrina, outros de regras.
Há quem entende de teologia e há quem pensa que entende.
A verdade é que, por pertencer a um campo de domínio geral (a religião), há muitos que se consideram teólogos, na mesma proporção em que há os que se julgam técnicos de futebol. Talvez se pudesse aplicar o ditado: “de teólogo e louco, todos temos um pouco”, ainda que, na minha experiência, tenho visto mais loucuras que teologias.
No campo da teologia, há dois grandes grupos: os teólogos conservadores que só fazem repetir o que alguns iluminados do passado disseram, acreditando que depois deles nada de novo se produziu e o que eles falaram é a nata da verdade. Tenho um amigo que foi fazer um curso de Mestrado e se matriculou em um curso de Teologia Contemporânea. O professor, PhT, começou a descrever o desenvolvimento teológico desde a patrística, chegou a Calvino e encerrou o curso. O meu amigo, indignado porque foi para um curso de teologia contemporânea, questionou o professor e este se saiu com esta pérola: “o último teólogo foi Calvino. Depois dele, só lixo”.
O outro grupo é dos que trazem “novidades”. Este se divide em dois: os que inventam novidades, sem embasamento e coerência (dente de ouro, cuspe santo, unção de Abraão, prosperidade, doença como castigo de Deus, maldição de família, G12, castigo hereditário, adoração ousada, etc.). O segundo subgrupo é dos que ousam fazer perguntas às formulações clássicas e reconhecidas e buscam novas compreensões para a fé. Neste contexto se pode mencionar a Teologia da Libertação, as Novas Cristologias, a Teologia Relacional, Teologia Feminina, Teologia Negra, Igreja Emergente, Ortodoxia Generosa, Teísmo Aberto, Teologia Quântica, etc.
Há outra forma de ver. Há duas grandes correntes de teologia: a da justiça retributiva e a da graça. A primeira tem uma multidão de seguidores. Acho que não exagero se digo que mais de 99% a seguem. A característica desta é que é sinergista: Deus faz a parte dEle e o ser humano tem que fazer a sua. Ouvi no final do ano um pregador se estender por 40 minutos pregando sobre o texto “pela graça sois salvos e isto não vem de vós, é dom de Deus” e ele enfatizava que a pessoa precisava acreditar, crer e aceitar. Era a incoerência absoluta e a negação do que o texto afirmava.
A outra afirma a graça de Deus, o favor imerecido. Não é o pagamento de algo que se faz ou se deixa de fazer, não é o agir de Deus constrangido por alguma circunstância, não é resposta à oração. É o agir motivado somente pelo amor de Deus. A primeira vê as dificuldades, os obstáculos, os períodos de trevas como sinais do castigo de Deus, em função de pecados conhecidos ou ocultos. A segunda vê em tudo a graça de Deus. No dizer de um cântico: “indo e vindo, trevas ou luz, tudo é graça, Deus me conduz”. Ainda que seja no vale da sombra da morte, a presença dEle se faz sentida e a graça se manifesta.
Não há poço que a graça não alcance, não há escuridão que a graça não ilumine, não há pecador que a graça não perdoe. Em Deus, tudo é graça!
Marcos Inhauser