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terça-feira, 26 de maio de 2009

COMIPÇÃO

Nos últimos meses tive a oportunidade de conversar com algumas pessoas que tem ou tiveram relações estreitas com os corredores do poder, tanto em nível federal, estadual, como municipal. Nas conversas, como é óbvio, não poderia deixar de tocar o tema da corrupção e os casos que vieram à tona, notadamente os relacionados ao Senado e a farra das passagens aéreas.

Nas considerações que ouvi, houve uma unanimidade: o que veio à tona é só a ponta do iceberg, só uma pequena ponta de tudo o que ocorre nos descaminhos do poder. Cheguei à conclusão de que se cobra comipção (neologismo formado de comissão e corrupção) até na compra de palito de dente.

Segundo estes, há muita coisa, como favores prestados a deputados e senadores que traficam influência, viciam licitações para que sejam vencidas por quem “financiou” suas campanhas, aceitam sobrepreços, pagamentos de pilares inexistentes em túneis e pontes, metragens descumpridas em estradas, capa asfáltica 50% menos espessa e largura de estradas mais estreitas do que está no contrato, o que dá ganhos exorbitantes às empreiteiras. Há os “pedágios” mensais em base a um porcentual sobre a arrecadação nos serviços “privatizados”.

Um deles me contou de uma farra financiada há mais de uma década por um empresário que levou de passeio a Mônaco mais de dez deputados e senadores e alugou um iate ao custo de US$ 120.000,00 dólares/dia.

O outro me perguntou se eu acreditava que a farra dos pedágios e o jardineiro fantasma eram os casos mais cabeludos da Câmara de Campinas. Ele me disse que a celeuma em cima da identificação dos carros usados pelo poder municipal é quase nada diante de outras coisas. Ele me pediu que prestasse mais atenção às mudanças nas leis de zoneamento, contratos sem licitação feitos em regime de urgência, custo do aluguel dos carros, a forma como certos “empregados” são pagos por agências de publicidade e locadores de veículos, como forma de camuflar gastos.

Na segunda-feira houve uma manifestação dos donos de postos de gasolina, vendendo o produto sem os impostos para que a população se conscientize do quanto há embutido no preço. Houve onde se vendeu o produto a R$ 1,27. Se remédio genérico paga 37% de imposto, se vacina para animal é isento, se escola paga mais tributo que lotérica, dá um mal estar danado. É um dinheiro que vai pelo ralo, falcatruas de ilustres “otoridades”.

Quando pergunto a estas pessoas se há esperança eles me afirmam que não vêem luz no final do túnel, que a cultura da comipção é arraigada no Brasil, que a população tem um comportamento bovino de passividade. De minha parte, não voto mais em ninguém que tenha mandato. É meu não à reeleição.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

A BENÇÃO DA DIFERENÇA

Se os seres humanos foram criados por Deus, concluimos que Ele nos fez diferentes por uma de duas razões: por capricho de Deus ou porque há um propósito. Quando Deus percebeu que não era bom o homem estar só, criou a companhia, que diferia em gênero: uma mulher. Para ser auxiliadora tinha que ser diferente. A ajuda vem da diferença. Quando duas pessoas iguais estão juntas, não podem se ajudar porque iguais.
O mesmo se aplica à espiritualidade. Somos ajudados no crescimento espiritual quando convivemos com a diferença. Não é o cercar-se de gente igual que dá a certeza de estar certo. Há mais probabilidade de incorrer em erro quando cercado de gente igual do que quando de gente diferente.
Os iguais bajulam, porque dizem o que se gosta de ouvir, não criticam porque seria criticar-se, uma vez que pensam e agem igual. Quando se cerca de gente igual, ao invés de crescer, para-se no tempo e fica se deliciando com as verdades que se cre e recusa as novas, porque envolvem o risco.
Por outro lado, se se cerca de gente com capacidade e a liberdade de questionar, perguntar, duvidar do que se crê, afirmar coisas diferentes, a convivência será caracterizada pela constante reflexão, análise e reposicionamento. Quando se revê pensamentos, os avalia criticamente à luz de posições divergentes, há amadurecimento. A maturidade não está na certeza e na repetição ad infinitum das verdades. Ser um poço de certezas é ser inseguro e de imaturo. O ignorante é o que mais sabe e Sócrates dizia que uma coisa sabia: que nada sabia.
Estas reflexões me levam ao ecumênico. Tenho visto gente na defensiva e no ataque ao ecumênico. Acusam-no de tudo pelo fato de colocar pessoas que pensam diferente para conversar e encontrar caminhos comuns. O ecumenismo é uma proposta para gente madura, sem medo do diferente, do novo, de avaliar-se e até reconhecer que está errado. O ecumênico é um risco para os donos da verdade, porque podem ser falsas. Os inseguros se lançam ao ataque difamatório. Donos da verdade e ditadores em suas comunidades, não tem maturidade para o diálogo, porque treinados no arbítrio. Pregam como verdade o que creem, sem dar chances de serem questionados ou criticados.
Estes se esquecem que Paulo diz que nos últimos tempos cercar-se-iam de mestres segundo as suas cobiças e que estariam rodeados de gente igual. Nada mais tentador e arriscado para a fé que cercar-se de iguais. No antigo Israel a diferença foi feita pelos profetas, que anunciavam o diferente, que quebravam o discurso dogmático e questionavam os sacerdotes e reis.
Quando se celebra nestes dias Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, é hora de aceitarmos que o propósito de Deus é a vida com a diferença.

Marcos Inhauser

terça-feira, 12 de maio de 2009

SEM PODER FICAR, NEM SAIR

A cana é um dos produtos agrícolas mais fortes da República Dominicana e o governo tem grandes interesses na sua produção. Há algumas décadas, como forma de reduzir o custo da produção via mão-de-obra barata, o governo dominicano fez vista grossa (alguns dizem que estimulou) a vinda de haitianos ilegais para trabalhar na lavoura da cana. Eles vieram e foram formando pequenos povoados, alguns em terras do governo, conhecidos como batéis.
São vilas de extrema pobreza, sem água encanada ou esgoto, onde se vive sob constante tensão pelo medo das investidas policiais. Há alguns anos o governo dominicano decidiu privatizar várias usinas de açúcar e as menos rentáveis foram fechadas e os trabalhadores, na quase totalidade haitianos ilegais, ficaram à mercê da sorte, visto não terem nenhum direito trabalhista.
Não bastasse isto, há outra situação que raia a um drama kafkiano: a constituição dominicana assegura o direito à nacionalidade para aqueles que nascem em seu território, como acontece com quase todos os países. Por manobras interpretativas, este direito tem sido negado a quem nasce em território dominicano e não é filho de pais dominicanos, mesmo quando um deles o é, tal como ocorre com inúmeros casais haitianos.
Com isto, filhos de haitianos nascidos na República Dominicana não podem ter o direito à nacionalidade e lhe é negada a certidão de nascimento. Sem isto, eles não são aceitos nas escolas públicas e, por conseguinte, não podem estudar e aumentam a população miserável de haitianos.
O assunto tomou tal monta que o governo se viu pressionado a revisar esta conduta de negar a cidadania aos que nascem em seu território. Ao invés de rever a norma, por inconstitucional que é, está promovendo uma reforma na Constituição para assegurar que haitianos não possam ter cidadania dominicana. As discussões estavam acaloradas nos dias em lá estive e ainda não havia um veredicto final, mas as coisas se encaminhavam para a vitória governista e o impedimento à cidadania de filhos de não-dominicanos.
Cria-se assim uma situação de horror e surreal: eles não podem ficar em território dominicano porque não são aceitos como tais, mas não podem se mudar para outra parte porque não possuem documentos. É a velha história do “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”.
O que mais me chama a atenção neste episódio é que não vi em nenhum jornal, noticiário ou notícias na internet alguma alusão a este imbróglio. Talvez porque se trate de negros, haitianos, ilegais, pobres, e sem nacionalidade. Não são gente.
Depois querem me vender a idéia de que a mídia noticiosa é imparcial e que busca a justiça.

Marcos Inhauser

terça-feira, 5 de maio de 2009

ATOLADO NO ESGOTO

Recebi uma foto, destas que rodam a internet, que vinha em meio a uma série de outras que mostravam trabalho duro. Entre as muitas, havia uma de um trabalhador em limpeza de esgoto que estava com a boca-de-lobo aberta e tinha enfiado a cabeça no esgoto entupido e transbordante, ficando ajoelhado na parte de fora e assim “atolado” até a cintura para conseguir arrumar a coisa. Quando vi a foto, imediatamente pensei que ela era um retrato das nossas casas legislativas.
Os recentes escândalos da farra das passagens, da casa do Agaciel, do apartamento funcional dados aos filhos do diretor João Carlos Zoghbi, do laranjal que ele tem para camuflar empresas que prestam serviço à casa, da quantidade de diretores que o Senado sustentava, a quantidade de denúncias feitas pelo casal Zoghbi que agora se retira, das denúncias feitas por ex-assessor do Jereissati, vem reforçar que se trata de um esgoto a céu aberto e que deputados e senadores estão como aquele trabalhado da foto: enfiados de cabeça.
Não acredito que a coisa seja nova, haja visto o argumento mais usado pelos parlamentares para explicar suas condutas, qual seja, de que sempre se fez assim, que as coisas não estavam claras, que se entendia deste ou daquele jeito. O que é novo é a imprensa e segmentos da sociedade terem acesso a certos dados, depois de muita pressão e trabalho duro de investigação, e revelarem o que se faz nos corredores e subterrâneos das casas legislativas.
Outro elemento que acho que pesou para a revelação destes fatos é a sede da república sindicalista e dos “cumpanheros” agraciados com cargos na administração federal, de estatais e demais esferas da administração pública. Famintos de uma riqueza fácil e sendo liderados por um chefe que não sabe de nada, atacaram com voracidade, fazendo botins nas licitações, contratos e outros expedientes comissionáveis, que acabou gerando uma luta interna pela partição da parte do bolo que se corta debaixo da mesa. Descontentes e prejudicados se encarregaram de vazar para o público certas práticas da partilha.
Plagiando o guru-mór-sindicalista, nunca na história deste país se soube de tanta corrupção quanto agora. O estado está aparelhado para fazer a sucessora do Lula, ou, caso se agrave sua saúde, emplacar uma mudança constitucional que lhe permita a segunda reeleição.
Espero e sonho que tenhamos uma mobilização nacional, como nunca se viu na história neste país, que, com a coisa até o pescoço, dê um basta nos oligarcas do esgoto.

Marcos Inhauser

Marcos Inhauser

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Igrejas Históricas da Paz

Volto, depois de dez anos, à República Dominicana, país que já visitei mais de vinte vezes, em função de trabalho de educação teológica que aqui realizei, sendo diretor de um seminário. À primeira impressão, parece que muita coisa mudou, pois novas avenidas, viadutos e túneis se abriram para escoar o tráfego e os cortes de luz parecem menos freqüentes e mais curtos.

No entanto, quando entro pelo país adentro, especialmente indo em direção ao Haiti, percebo que as coisas continuam iguais ao que era e, talvez, em alguns lugares, ainda mais complicado. No domingo estive em um Batei (vila de haitianos ilegais que vem à República Dominicana para trabalhar nos canaviais) e conclui, falando com as pessoas, que as coisas continuam iguais e talvez piores. Hoje vou a outro Batei onde os moradores viviam do trabalho do corte da cana e que já não tem o que fazer porque a usina fechou. Sem trabalho e na condição de ilegais, não podem sair da vila onde vivem, com medo de serem capturados pelas autoridades.

Neste contexto, as Igrejas Históricas da Paz (Irmandade, Menonitas e Quáqueros) se reuniram para convocar uma Conferência que busque ações concretas para reduzir a violência, no marco da Década para Redução da Violência. A tarefa é hercúlea, as formas de violência são múltiplas, mas algo se deve fazer, ainda que seja plantar grãos de mostarda.

Historicamente estas três igrejas tem se dedicado a elaborar uma teologia da paz e a buscar formas concretas de implementá-la. Representantes destas igrejas foram responsáveis por várias ações mundiais de denúncia da guerra, qualquer que seja, como pecado. Muitas ações foram desenvolvidas para os objetores de consciência (jovens que se negam a servir ao exército por razões de consciência), formas alternativas de serviço durante a guerra (criou-se um hospital em San Juan, Porto Rico para atender aos feridos de guerra e os que lá serviam não seriam chamado às armas). Também há forte mobilização entre os membros das Igrejas Históricas de Paz pelo desarmamento das nações e pessoal. Membros destas Igrejas tem se notabilizado por serem estudiosos das técnicas de resolução de conflitos e mediação, tendo, inclusive cursos universitários voltados ao tema e vários trabalhando para a ONU e na mediação de conflitos internacionais.

A Conferência que agora se convoca tem por objetivo reunir estas experiências pela paz na América Latina, coordenar ações e disseminar a teologia da paz entre outras igrejas e movimentos, de tal forma que a paz deixe de ser sonho e se torne realidade nas ações diárias das pessoas.

Quero ser criança, sempre

Já tive oportunidade de contar minhas peripécias com meus netos e como aprendi com a história o real robot. Mas, talvez, a mais significativa, tenha sido uma que não diretamente relacionada ao robô. Estávamos em Shanghai em um dia chuvoso e sem muita opção de passeio. Fomos a um shopping com muitos brinquedos para crianças, mas coisas eletrônicas, onde a participação é mínima: você passa a ser o objeto da ação e não senhor dela.

Minha filha viu um cartaz de um show de acrobatas chineses e nos perguntou se queríamos ir ver. Os netos perguntaram o que era isto e ela explicou. Eles se animaram. Ao me perguntar e devolvi a pergunta: mas vamos poder aplaudir com entusiasmo? Ela respondeu afirmativamente.

Lá fomos nós. Sentamos na quarta fila e meus lados, um de cada lado. Começado o espetáculo eu coloquei o menor no meu colo para que pudesse melhor ver (sentou um cabeção à sua frente) e comecei a comentar que era difícil fazer o que o acrobata estava fazendo, que por trás da exibição havia muitas horas de treino. Ao final daquela apresentação, plauadimos com entusiasmo. Em seguida, o neto mais velho também para o meu colo e comecei a dizer “uau” e eles começaram a dizer “awesome” a cada coisa mais atrevida ou difícil. A certa altura estávamos todos de tal forma envolvidos e participando do show, que gritávamos “unbelievable”, “incredible” a cada pouco e os netos aplaudiam em pé. Era uma festa. Era como estivéssemos no palco juntos, fazendo com eles as coisas.

A filha e a esposa tentavam estavam desconfortáveis com nossa euforia.

Olhando para trás, acho que foram dois shows: o dos acrobatas no palco e o nosso na platéia. Saímos em êxtase, como se tivéssemos visto o indizível. Os netos chegaram ao hotel e contaram ao pai tudo o que haviam visto e não o deixaram dormir até bem tarde da noite, tentando reproduzir os saltos e contorcionismo que viram.

Voltando para casa, eles montaram um circo no porão e começaram a praticar saltos, a melhorar a performance. E eu com eles, incentivando e vivendo a criança com eles. No dia do aniversário da avó fizemos uma apresentação de acrobacia (se é que não ofendo os acrobatas chamando assim ao que fizemos).

O Reino é assim: ele nos entusiasma, nos convida a subir ao palco e brincar como crianças. Quando deles participamos queremos contar aos outros a nossa delícia de experiência e evangelizamos pelo entusiasmo e pelo convite a ser crianças como nós. E sendo crianças sempre, nos apropriamos da plenitude do Reino.

terça-feira, 7 de abril de 2009

LEVEI UM BAILE

Ou melhor, mais de um. O primeiro foi quando recebi o pedido dos netos para fazer com eles um "real robot". O segundo baile foi pensar em algo que pudesse fazer e que se parecesse ao que me pediam. Para tanto, vários amigos me ajudaram e me deram idéias. O terceiro foi chegar aqui e começar a fazer a coisa.
Trouxe um monte de coisas, mas o básico eram algumas peças de metal e parafusos que, juntados, serviriam de estrutura para o que iríamos construir. Vim com uma idéia bastante completa e pronta e quis impor isto a eles. E aí entrou o mais completo baile que levei. Eles me mostraram o quanto eu havia perdido a capacidade de imaginar, sonhar, fantasiar, de ser criança. Eles me mostraram que mais importante que o produto pronto e acabado, a coisa bem feita, é a imaginação, o que se sonha ao fazer.
Quando menos esperei a imaginação deles estava a mil e a minha execução trôpega. Eu queria colocar algo em um local definido e eles viajavam e queriam outras coisas em outros lugares. Onde eu via uma haste mecânica, eles viam o braço, a mão, os dedos. Onde eu via um monte de hastes mal montadas, eles viam o real robot, onde eu via algo a ser completado, eles viam mundos.
Acho que é por isto que Jesus ensinou que se não nos tornarmos como crianças, não poderemos entrar no Reino de Deus. Há no Reino algo de sonho, fantasia, utopia, de possibilidade diante da impossibilidade. É um tornar-se criança, um desfrutar das coisas mais simples tirando delas as doçuras que só a fantasia e o sonho conseguem. É querer as coisas simples, as verdades menos complexas (quanto mais complexa mais possibilidade de erro), acreditar nas pessoas, viajar nas possibilidades, crer no impossível. É um contentar-se com um estilo de vida simples, onde o conforto simples e não o luxo é a tônica.
Muitos amigos me escreveram desejando-me sorte na empreitada e outros pedindo fotos da obra. Publicamente quero reconhecer que não consegui fazer um real robot nos moldes que imaginei e que os amigos imaginaram. Tampouco tenho absoluta certeza de que os netos acham que conseguimos. Mas o que valeu foi o tempo que passamos juntos, as coisas que puder ensinar de mecânica, eletricidade, de trabalho em equipe, de planejamento. Se o real robot não saiu como eu queria, a intimidade, a amizade, o amor entre mim e os netos que não tenho oportunidade de conviver porque a distância é enorme só fez aumentar.
Não há real robot mas há, por causa dele, real love and friendship e, importantíssimo, sonhos que queremos se tornem realidade.

terça-feira, 31 de março de 2009

A MALA ME CARACTERIZA

Certa vez uma psicóloga me pediu que algo que me identificaria. Fiquei na dúvida entre a sala de aula e a caneta, por me achar professor e gostar de escrever. Hoje eu ficaria na dúvida entre as mesmas coisas mais a mala de viagem. Parece que não nasci com pés, mas com rodas. Minha vida foi viajar. Já rodei um bocado.
Na semana passada, o que nunca sonhei na vida, estive em Shanghai e mais uma vez a monumentalidade das construções chinesas me deixou boquiaberto. Eu havia acabado de assistir a um documentário sobre o Edifício Torre Mayor na cidade do México e a grandiosidade dele, suas características antissísmicas e o fato de ser único na América Latina. Em Shanghai deve haver uns 50 deles. A arquitetura dos novos edifícios é arrojada, moderna e busca privilegiar conceitos ecológicos. O aeroporto de Pudong (o mais novo) tem 233 portas de embarque. Vi árvores sendo plantadas aos montes por todas as partes, assim como vi a poluição terrível que cobre a cidade e um trânsito simplesmente caótico.
Por todas as ruas que passei (e não foram poucas) havia obras de remodelação, ampliação, ajardinamento. Da janela do hotel contei ao menos 8 áreas em construção. Quando subi na torre de televisão, cartão postal da cidade que equivale a um prédio de uns 150 andares, o que vi lá em baixo foi um grande canteiro de obras.
Tal se deve a duas razões: Shanghai hospedará em 2010 a maior Convenção Internacional de Comércio e Negócios e a decisão de transformar a cidade no maior porto do mundo. Para se ter uma idéia, eles construíram um em pleno mar, com 25 quilômetros de extensão, usando umas pequenas ilhas e aterrando os espaços entre elas. A cidade é ainda a capital financeira da China, sede da maior parte das indústrias e onde as multinacionais tem seus escritórios. Simploriamente poderia dizer que Beijing é a capital política, mas Shanghai é a capital financeira e dos negócios.
Ao ver estas coisas e também saber das condições de trabalho da maioria dos chineses, fico a pensar se é certa a afirmação de que o Brasil é o campeão mundial das desigualdades sociais. Por outro lado, se só um por cento da população é rica, há na China um Brasil inteiro de milionários. Acima de tudo, há que se considerar que esta é uma sociedade que não privilegia o consumo, mas a poupança. Daí dá para entender porque eles tem mais de um trilhão de dólares aplicados nos Estados Unidos. E nosso Lula todo lampeiro se gabando de ter 200 bilhões em caixa. Isto talvez explique porque a China deve crescer só sete por cento em 2009 e o Brasil do Lula vai ficar patinando.

segunda-feira, 23 de março de 2009

TRÊS BEIJINGS

Esta é a minha terceira vez em Beijing. Na primeira delas, há quase oito anos, fiquei impressionado com a imponência das coisas. Tudo é muito grande, muito majestoso. Visitei a Grande Muralha, a Cidade Proibida, o Templo da Paz Celestial, a praça da Paz Celestial entre muitas outras coisas entre shopping centers e centros de comércio popular. A largura da avenida central da cidade foi algo que me deixou boquiaberto. Tudo me pareceu tão gigantesco, como não havia visto em nenhum outro lugar que eu tivesse visitado, exceto o Palácio de Versalhes.
Na minha segunda viagem fiquei mais tempo dentro de casa por causa do inverno e porque tínhamos vindo visitar o neto que tinha alguns meses de vida. Mesmo assim, em uma noite saímos para jantar e entramos em uma garagem no subsolo de um centro comercial e hotel que me pareceu um labirinto.
Nesta terceira vez fiquei assustado com o tamanho do novo aeroporto, com o requinte das suas dependências, com a quantidade de novas construções no entorno de onde minha filha mora, com a quantidade de coisa nova no centro da cidade, as novas avenidas e estradas, que me pareceu uma nova Beijing.
Em conversas com minha filha e amigos brasileiros que aqui vivem, bem assim alguns de outras nacionalidades, eles são unânimes em afirmar o ritmo acelerado das construções e mudanças que ocorreram para as Olimpíadas e que se estende até hoje. Aqui perto de onde estou, construíram um Centro de Convenções que muito seguramente é o maior do mundo.
Quando no sábado saímos para um passeio fora de Beijing, fiquei surpreendido pela quantidade de áreas de reflorestamento ao redor da cidade e meu genro me explicava a prioridade que se está dando para dar à cidade árvores e um cinturão verde como forma de minimizar a poluição (esta também monumental) e minorar as tempestades de areia que ocorrem em certo período do ano.
Nestas três visitas, todas feitas em período de inverno (ou final dele como esta última), não pude ver o verde que há em Beijing, especialmente com a massiva plantação de árvores para as Olimpíadas. Mas acreditando no que me dizem os que por aqui vivem, acho que terei que voltar na primavera ou outono para ver uma quarta Beijing, mais bela, mais verde e com menos céu cinza.
Uma coisa é comum às três visitas: ainda que me digam que este é um país comunista, não consigo acreditar porque tudo por aqui me cheira puro capitalismo. A quantidade de coisas com jeito ocidental, fastfood, hotéis de cadeias internacionais, em certos momentos me parece que estou em uma cidade americana ou européia.

Marcos Inhauser

domingo, 22 de março de 2009

EU TENHO O PODER

Causou-me espécie a atitude do “pastor” que atentou contra a liberdade de imprensa quando do episódio da queda do teto na Universal de Campinas. Havia decidido escrever sobre isto quando recebi da amiga, historiadora e professora Rute Salviano as seguintes reflexões:
“O ... ocorrido com o repórter no templo da Igreja Universal é ... amostra de como o poder que a si mesmo se outorgam diversos pastores ... tem prejudicado a igreja cristã e a comunidade em geral. O que ocorreu refletiu ... devido ao envolvimento ... da imprensa, mas imaginem, no dia a dia, dentro daquele templo como aquele líder arrogante deve liderar os membros de sua igreja.
O rebanho de Deus ... deve ser pastoreado sem domínio, mas com serviço e exemplo ... Acontece que os pastores que deveriam servir seus liderados acreditam que devem dominá-los e governar sobre eles. Alguns pastores ... declaram ter recebido um chamado divino de pastorear a igreja de Cristo e sabem que devem conduzi-la até o noivo. Sabem que a Igreja pertence a Cristo, que é seu Senhor. ... Porém, rapidamente de servos passam a senhores, assenhoreiam-se da noiva, dominam a igreja e acreditam que são os verdadeiros donos do rebanho e, por conseguinte, controlam a tudo e a todos dentro das quatro paredes do templo.
Membros ... são afastados de seus cargos ou por fazerem sombra ao pastor ou por mero capricho e interesse pessoal. Eles sempre têm a última palavra e a bela democracia cristã transforma-se em ditadura. Neste orgulho, nesta prepotência e arrogância crêem equivocadamente que estão servindo a Deus, mas, infelizmente servem só a eles mesmos e contam-se aos milhares os decepcionados com este tipo de liderança, totalmente anti-cristã, que já saíram das igrejas evangélicas.”
A estas considerações eu acrescentaria que quem crê que tem o poder de dar ordens a Deus, orando com atrevimento e exigindo a benção da prosperidade, se julga também no direito e com o poder de cercear a informação, dar ordens a Deus e todo o mundo, impedir o trabalho investigatório. No caso do templo da Renascer, sabe-se hoje que foi a bancada evangélica quem pressionou para que os templos não fossem vistoriados. No caso de Campinas, até hoje não entendo como se burlou a lei que impede a construção de templos, escola e afins a menos de 500 metros de posto de gasolina. A esta altura uma pergunta não quer calar: o prédio tem o habite-se?
Marcos Inhauser