Professor, pastor, teólogo e educador corporativo Textos escritos para a coluna semanal no Correio Popular, da cidade de Campinas e texto escritos depois de 2021, que tratam de temas nacionais, internacionais, sobre igreja e teologia
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quarta-feira, 27 de janeiro de 2021
ILOGICIDADES DA FÉ
Como eram inscritos em alguns grupos de WhatsApp onde compartilhavam coisas relacionadas à fé (tais como memes de versículos bíblicos, mensagens de pregadores famosos, música gospel), uma das filhas avisou nos grupos que a mãe e o pai foram hospitalizados. A coisa começou a ferver com gente dizendo estar orando. Começaram a chover jargões religiosos de cunho motivacional: “Deus está no controle”, “mesmo no vale da morte Ele está conosco”, “tudo podemos em Deus”, “praga nenhuma alcança quem tem fé”, “tudo o que dois ou três concordarem em pedir em Meu Nome, será concedido”, e uma infinidade de outras frases de mesmo sentido: “quem crê tá livre do mal.”
Diariamente, a filha municiava os grupos com informações sobre a saúde dos pais. Repetiam-se os ícones de mão juntas (em sinal de oração), carinhas tristes e outras mais. Os jargões se repetiam.
O quadro de saúde de ambos se deteriorou e a mãe veio a óbito. Nos grupos de WhatsApp proliferaram as mensagens de luto, todas clássicas: “Deus a chamou”, “agora ela está melhor que nós”, “Ela era um anjo aqui na terra e Deus a chamou ao Seu lado”, etc. Nenhuma palavra sobre o fato de que as muitas orações não tenham sido respondidas, nem sobre a falácia dos jargões motivacionais.
O pai continuava internado, UTI, prona, intubação, sedação. A cada dia, a filha postava notícias sobre ele. Os jargões se repetiam. Parece que ninguém se dava conta de que eles não funcionaram com a mãe.
Uns dez dias depois, o pai apresentou quadro de leve melhora e saiu da UTI. Houve celebração: “Deus ouviu nossas preces” era o mais comum. “Vamos orar forte pela saúde dele que Deus vai nos dar a vitória”. No dia ele teve alta, houve uma explosão de “Glórias”, “Aleluias”, “louvado seja Deus”, “nossas orações foram ouvidas” e coisas parecidas.
Uma das participantes escreveu algo mais ou menos assim: “O Fulano é um guerreiro, Deus deu a ele a vitória sobre esta enfermidade. Nós oramos juntos em uma batalha de oração, vencemos e agora celebramos a vitória da fé”.
Ninguém se perguntou: se ele é um guerreiro porque teve alta hospitalar, significa que a esposa era fraca? A fé do marido é maior que a da esposa, por isto ele foi curado e ela morreu? As orações feitas pelo marido foram mais fortes que as que foram feitas pela esposa? Em que medida a oração muda os planos de Deus para a vida de uma pessoa? O pai era mais importante para a saúde emocional dos filhos que a presença da mãe?
Perguntar não é pecado. Se analiso as atitudes da fé neste caso específico não sou herege. Não tenho resposta para as questões que eu mesmo levanto, mas de uma coisa sei: há uma fé enfermiça nos arraiais da religiosidade. Também não quero dizer que a fé mais racional seja mais fé que outra. Entendo e aceito que a fé tem forte componente emocional e certo nível de crença no impossível, o que, pode ser, em alguns casos, sinal de certa irracionalidade. O que critico é a banalização da fé via jargões motivacionais sem sentido, sem prática comprovada e sem análise avaliativa das vezes em que foi empregado e o resultado que produziu.
Como pastor que lida com expressões de fé cotidianamente, muitas vezes me perguntei em que falhava ao ver que muitas das minhas ovelhas eram verdadeiros bonsais: ficam velhas e não cresciam. Pareciam maduras, mas era ingênuas e infantis. Tenho para comigo que o método educacional mais usado nas igrejas, notadamente as denominadas evangélicas, é o da pregação. Pesquisas por mim feitas e por alguns de meus colegas, constatam que a maioria não se lembra na segundo qual foi o sermão do domingo.
Marcos Inhauser
quarta-feira, 20 de janeiro de 2021
HE IS A LOOSER
Quando morei em Chicago, ouvi a expressão algumas vezes. Sempre a tomei como adjetivo inofensivo. Estranhava a facilidade com que se dizia que o outro era um “idiot”. Isto, para mim, era pegar pesado.
Com o tempo
percebi que o termo “idiot” não tem o mesmo peso e negatividade que tem
no português. Da mesma forma a palavra “estupid”. Virou famosa a frase
de James Carville em 1992, dirigida aos trabalhadores da campanha de Clinton.
Um dia,
conversando com um executivo eu o ouvi, irado, chamar de looser a pessoa
que ele estava detonando. Meio embasbacado com a expressão, pedi a ele que a
refraseasse, para que eu a entendesse melhor e ele me disse: não há outra
melhor “looser, looser, looser.”, reiterou enfaticamente.
Percebi que
não tinha entendido o peso da expressão. Ao invés de pegar o sentido no
original, estava traduzindo. Mais tarde vi duas pessoas discutindo. Quando uma
delas se referiu à outra como looser, a ofendida partiu para as vias de
fato.
Nestes dias
ouvi a expressão aplicada ao Trump: ele perdeu a eleição, todas as ações
judiciais que impetrou, o apoio de parte do seu partido, a presidência, a pose,
o discurso, o Facebook, o Instagram, Twitter, o Parler, a votação do segundo
impeachment, vai perder no Congresso, perdeu a casa onde morava porque
despejado pelo voto, vai perder os holofotes e terá que enfrentar a enxurrada
de ações, algumas criminais
Ele é um looser.
Sem dar o
mesmo peso que a palavra tem no inglês, acho que a nosso Trump tupiniquim também
é um colecionador de derrotas. Disse que montaria um ministério de notáveis e
perdeu as estrelas da Justiça (Moro), da Saúde (Mandetta) e a outra (Guedes)
até agora não mostrou a que veio. Se notáveis são o das Relações Exteriores, do
Meio Ambiente, os três da Educação, o atual da Saúde, que me perdoe o idioma,
não sei o que é notável. Só se ela se refere à notabilidade pelos desatinos que
cometem.
Elencar as
perdas sofridas no embate com o STF é fazer lista parecida à do supermercado,
pela quantidade de itens. A investigação sobre a interferência na PF, a não
nomeação do Ramagem, o depoimento oral no caso da PF, e por aí vai. Perdeu ao
querer a possibilidade de reeleição do Alcolumbre. Viu seus apoiadores serem
investigados e com as contas escrutinadas (Luciano Hang é um exemplo), a
investigação do Gabinete do ódio está batendo à porta. Alguns bolsonaristas
ativistas virtuais foram presos, o Godoy também, o Wassef está enrolado, o
filho não explica as rachadinhas e ele não tem explicação para os depósitos na
conta de esposa.
Na
política, perdeu o apoio do Maia, não foi o responsável pela Reforma da
Previdência, não conseguiu emplacar o Major Hugo como líder na Câmara, está
tendo problemas para emplacar seu candidato à presidência da Câmara. Diante de
tantas perdas teve que mudar o discurso, se aliar ao Centrão e fazer o
fisiologismo que tanto atacou.
No caso das
vacinas, perdeu todas. E quem vai salvar a lavoura será a vacina chinesa do
Dória que ele execrou e disse que nunca a compraria. É a China, malhada por
alguns ministros e pelos filhos, quem veio dar um oxigênio a um governo
destrambelhado. Aquilo que era “vacina chinesa do Dória” agora “é vacina do
Brasil e não de algum governador”. Uma coisa ele tem: muda de posição a cada
troca de cueca, no que é imitado pelo Ministro da Saúde.
Marcos
Inhauser
quarta-feira, 13 de janeiro de 2021
EU SOU A VERDADE
Tanto quanto eu, a julgar pelas mensagens e e-mails que recebo, tem muito mais gente intoxicada com os “donos da verdade”. Este sentimento foi fertilizado pela reação do Donald Trump ao insucesso e derrota que sofreu. Na sua visão, no que pese todos quantos o aconselharam, o que é verdade é o que ele acredita.
A ele se aplica o ditado atribuído a Joseph
Goebbels, ministro da propaganda de Hitler: “uma mentira repetida mil vezes se
torna verdade”. De tanto repetir que a eleição foi fraudulenta e que a vitória
lhe foi roubada, isto passou a ser verdade. O que estranha é que uns 20%
acreditam piamente no que ele diz. O problema é que esta estratégia foi
anunciada com antecedência, tentou-se provar a veracidade dela com factoides e
insinuações de que mortos votaram, teve mais votos que eleitores, que os votos
por correio eram uma forma de fraudar etc. Votos foram recontados, a justiça
escrutinou tudo e sentenciou: não houve fraude!
Não foi o
suficiente. Ele insuflou a horda que acredita em teorias da conspiração para
invadir o Capitólio e tentar um golpe de Estado. Não deu certo. Ainda vai
tentar alguma loucura, porque continuar acreditando em fraudes, depois de tudo
o que se fez em averiguação, só pode ser loucura.
Ontem me
mandaram um áudio de uma mulher não identificada, que teria ido a uma
ginecologista não identificada, que lhe teria dito que a Coronavac tem elementos
que permitem rastrear as pessoas e que isto vai habilitar a Inteligência
Artificial a nos manipular. Para desatino maior, informa que quem patrocina
isto é o Bill Gates. Quem enviou a mensagem dizia que por isto não tomaria a
vacina. Perguntei à pessoa por que não usavam o paracetamol, a dipirona, que
todo mundo toma como analgésico, para infiltrar o tal rastreador que permite a
manipulação. Estou aguardando resposta.
Tenho chegado
à conclusão de que é mais fácil lidar com o diferente do que com o ignorante.
Contra a ignorância perde-se tempo usando argumentos. Como disse uma pessoa
acerca de seu pai: “ele só ouve quem diz sim a tudo o que ele fala”.
Um
dos líderes da invasão do Capitólio é Jake Angeli, também conhecido como Q-Shaman,
ativista do grupo que divulga teorias
conspiratórias, entre eles o QAnon. Este grupo dissemina e acredita que o Trump
está salvando o mundo de uma rede internacional de pedofilia e um dos
manifestantes no topo da escada do Capitólio empunhava um cartaz que afirmava
que o Biden é pedófilo. A imprensa séria americana tem chamado a estes
manifestantes de milicianos e terroristas domésticos.
Como brasileiros, não
estamos livres desta praga. Tem gente disposta a ficar retuitando e disseminado
estas teorias sem-pé-nem-cabeça, especialmente contra as vacinas para a Covid,
mas nada falam dos feminicídios, das rachadinhas, não explicam cheques
depositados na conta de esposa, afirmam ter havido fraude nas eleições com voto
eletrônico, sem apresentar provas e documentos. Só ouvem o que querem ouvir.
Vivemos tempos de
colher os frutos de uma educação onde precisava só preencher quadrinhos com um
X, em múltipla escolha. Contrariando a premissa de que a explicação mais
simples tem maior probabilidade de ser a correta, preferem optar pela mais
extensa, porque lhes parece que a verdade é feita de muitos argumentos, mesmo
que desconexos ou ilógicos.
Marcos Inhauser
quarta-feira, 6 de janeiro de 2021
ÓCULOS PARA CEGOS
Guimarães Rosa, no seu conto Manuelzão e Miguelim, traz uma história paradigmática. Nele, o doutor José Lourenço apareceu na fazenda onde Miguilim vivia que o saudou e passou a fixá-lo com insistência, apertando os olhos, porque “era curto de vista”. O visitante foi até à casa onde o menino morava, conversou com a mãe e passou a fazer uns testes, mostrando a certa distância os dedos da mão e pedindo que dissesse quantos havia a cada novo gesto. Ele não enxergava. Foi quando o doutor tirou seus óculos e os colocou em Miguilim que ficou pasmo: era tudo novidade. As coisas ganharam luz, vida, cores, o que não conseguia ver agora apareciam à sua frente. Ele que nunca tinha visto um grão de areia, agora podia vê-los.
Miguilim
começou a descrever as coisas que viu, as belezas nunca vistas. Saiu correndo e
contou para todos quantos achou à sua frente. Quando voltou à sua casa, o
doutor já tinha ido embora e Miguilim ficou profundamente triste. A experiência
de ver se acabara.
A mãe disse
que o doutor foi lá para as bandas dos caçadores, que voltaria. Se Miguilim
quisesse, ele podia levá-lo para a cidade e fazer óculos para ele, entrava na
escola e aprendia um ofício. O coração do menino disparava. Despediu-se de
todos, com lágrimas nos olhos. Foi para uma nova vida para uma nova visão.
Digo que
esta história é paradigmática porque ela é a história de muita gente curta de
visão. Os óculos são o estudo, a leitura de bons livros, a leitura de notícias
várias, a abertura da mente, a compreensão de que as coisas não se resumem a
uma única causa, que os problemas complexos não se resolvem com chá de
camomila, que as mudanças culturais tomam duas ou três décadas para acontecer.
O
radicalismo, o fundamentalismo, o racismo, o sexismo, o machismo tem raízes
fortes. Não acabam por passe de mágica, mas pelo constante e contínuo vigilar e
trocar as informações mentais que se tem e trabalhar para mudar o que é
conhecimento arquétipo e socializado. Há a necessidade de trocar a visão curta
de um Miguilim por outra propiciada pelas novas lentes, pelo estudo, por ver
coisas que a visão míope nunca permitiu.
Enquanto
escrevo estas coisas não me sai da cabeça as notícias que li e ouvi ontem e
esta madrugada sobre a resistência do Trump em aceitar a derrota. Para um
sujeito de visão míope, que cresceu e montou um conglomerado de hotéis e campos
de golf e que são questionados quanto à solidez da sua estrutura, o maior
exemplar de Narciso que já, perder é algo acachapante. Ele nunca mostrou ou deu
a entender que leu algum livro, que estudou além do básico (nos EUA o College)
ou que aceita conselhos ou opiniões divergentes.
Ele perdeu
excelente oportunidade de ganhar óculos para ver as coisas com mais detalhes e
precisão, de perder a visão míope. Plagiando o poeta pantaneiro Manoel de
Barros (“tudo o que não invento é falso”), o lema trumpiano é: “tudo o que não
afirmo é falso”.
Lembrei-me
da primeira leitura em voz alta, na frente da classe, que fiz na escola, assim
que fui alfabetizado. Era a de um cego que também teve um médico que o operou e
passou a ver, mas que continuou agindo como se cego continuasse a ser. A máxima
era: “o pior cego é o que não quer ver”.
Marcos
Inhauser
quarta-feira, 30 de dezembro de 2020
DÁ PARA CANTAR E SONHAR?
Há como celebrar Natal e Ano Novo nesta terra
deixada à sorte por incúria e imperícia dos babilônicos governantes? Há como
ter esperança, quando a única esperança que é a vacina nos é negada e a cada
nova manifestação é dada uma nova data para início da vacinação? Há como ter
esperança quando o babilônico mór diz que não “não dá bola” para a demora no
início da vacinação?
O Salmo citado termina de uma forma arrepiante
e trágica: “Ah!
filha de Babilônia, devastadora; feliz
aquele que te retribuir consoante nos fizeste a nós; feliz aquele que pegar em
teus pequeninos e der com eles nas pedras.” Poderíamos atualizar o texto e dizer: “quando um
dos seus filhos morrer pela Covid haverá esperança e felicidade para o povo?”
Celebrar um novo ano? Só se
fizermos o que Abraão fez: “esperou contra toda esperança”. Em outras palavras,
esperar contra a esperança. Se atentarmos para os fatos e decisões babilônicas,
morreremos de depressão e tristeza. Os fatos nos levam a sentar e esperar a
chegada da infecção.
A autoridade dos babilônicos federais,
estaduais e municipais anda tão baixa quanto a sola do sapato: decretam
lockdown nas praias e comércios, mas eles se fazem de surdos e atuam como
querem. Os jovens se reúnem em baladas e festas nem tão clandestinas. O
babilônico mor incentiva, pelo exemplo, a não usar máscara e a não se vacinar,
quando e se esta chegar às terras tupiniquins.
Há que ressaltar-se que a Babilônia vem da Babel, a torre construída para ser o
referencial de um povo empreendedor e que acabou sendo símbolo da confusão de
línguas e comunicacional. Ninguém se entendia no reino de babel. Seria isto o
paradigma da babilônia moderna, onde as mensagens são modificadas cada vez que
os babilônicos falam, as datas são imprecisas ou revistas a cada nova alocução,
o exercício de falar A e depois dizer B é a constante nesta Babel?
Nabucodonozor foi castigado e
literalmente pastou, por causa da sua soberba e vaidade. Necropolítico, não se
intimidava com as mortes que produzia, mas media seu poderio pela quantidade de
armas que havia no reino. Reinou por 43 anos. Quanto tempo reinará o
Nabolsodonozor?
Marcos Inhauser
quarta-feira, 23 de dezembro de 2020
VIDA EM MEIOS ÀS MORTES
A Palestina no período pré-advento estava sofrendo a “pandemia romana”, que assolava a quase totalidade do mundo então conhecido. Ela enviava seus vírus fardados a toda parte e estes, com o poder das armas, asfixiavam o povo, tirando-lhes o oxigênio via pesados tributos, arrancados, muitas vezes, à força e com a morte do infectado.
Todo o corpo da nação de Israel estava contaminado e havia quem,
no subterrâneo, buscava destruir os vírus-soldados, criando até exércitos
pequenos (zelotes).
Neste contexto de pandemia, com a sufocação de toda a nação,
sem nenhuma UTI para recuperação, havia quem, de outro lado, se aliava ao vírus,
numa atitude de negacionismo e desconsideração com as muitas mortes que estava
provocando. Coletores, religiosos/políticos, elite egoísta, formavam a corte
negacionista e desdenhavam as notícias que vinham das ruas e dos povos
distantes. Perguntados, respondiam: “E daí? Que os mortos enterrem seus mortos;
não somos coveiros”.
Havia, no fundo da alma dos sofridos, uma esperança: “vai
acabar, isto passa, Deus vai levantar uma vacina para nós.”
Sem convocar a mídia, sem estardalhaço, na privacidade de
uma virgem, o anúncio foi feito: você vai ficar grávida da vacina que salvará a
este povo e todos os outros”. O anúncio não se enquadrou nos protocolos e não
passaria nos testes de confrontação das fake News. A virgem e o noivo alegavam
que tinha sido um anjo, que só eles viram. Talvez, por isto mesmo, os dois guardaram
estas coisas nos seus corações.
Mais tarde, contra recomendações para gravidezes, o casal
foi visitar uns parentes: Isabel e Zacarias. O que os visitantes não sabiam era
que o casal que visitavam também haviam recebido uma notícia por meios não
usuais: Izabel seria a mãe de quem anunciaria publicamente a vacina salvadora.
A coisa andava tão polarizada que Izabel, depois de ter dado à luz, escondeu o
bebê por cinco meses. Era o medo da execração nas redes sociais das fofocas.
Quando Izabel viu Maria, ela sentiu o rebento no ventre se
mover e exclamou: “Bendita
és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre!”. Sabe-se que, mais tarde, o ditador de plantão, preocupado com
as repercussões políticas que a vacina que vinha da periferia poderia trazer de
estrago político, pediu à agência reguladora que matasse a vacina. A decisão
não deu certo e ela, depois de 30 anos, apareceu dando sinais de eficácia e
segurança, curando a muitos e prometendo o Reino sem pandemias.
O plano de vacinação não passaria pelos
critérios científicos e nem mesmo pela ansiedade do povo querendo a vacina.
Tentaram aclamá-lo como Rei e até fizeram uma jumentada, forrando o chão com
palmas. O processo vacinal foi outro: lento, face-a-face, na base da persuasão,
pelo arrependimento e nova vida e comportamentos. Quando menos esperavam, a
vacina estava nos palácios e na sede do império, até ser reconhecida como a
vacina oficial do Império.
Até hoje ela não foi promulgada como
obrigatória por nenhum Supremo Tribunal, ainda que haja quem, como soldado
vacinal, use do terrorismo do inferno para quem não se vacinar. Outros,
aproveitando da vacina, extorquem o povo via ofertas, dízimo, contribuições
para a construção do templo ou manutenção do programa de televisão.
A celebração do nascimento desta vida que
traz salvação à pandemia do pecado, em um contexto de mortes mil (provavelmente
190.000 quando você estiver lendo esta coluna), é sinal de esperança e vida que
há mais de dois mil anos se repete. Que venha a vida e ela em sua plenitude!
Marcos Inhauser
quarta-feira, 16 de dezembro de 2020
OLHANDO NO RETROVISOR
Já vivi, talvez, mais de dois terços da vida. Tenho chegado à conclusão de que, depois de certa idade que não é a mesma para todos, nós nos especializamos a olhar para trás. Deste exercício há os que vivem de recordações, os que querem repetir os que viveram e os que buscam no passado lições para enfrentar o futuro. Esta última, tecnicamente, se chama “ante-retro-oculatra”: o que tenho “ante” mim eu olho (oculatra) para trás para aprender a viver o presente.
Os que olham para o retrovisor da vida para viver de recordações,
são bons contadores de histórias onde o sujeito central, quase sempre, são eles
mesmos. São tentados a abrilhantar e heroicizar suas participações para dar
significado mais positivo à vida que tiveram, quase sempre insossa. Via de
regra têm um álbum de fotos onde exibem este ou aquele que hoje é famoso para
mostrar como estiveram no passado com eles, ou como eles foram seus alunos, ou
vizinho, ou colegas de pelada. Vivem do passado e estão mortos para o presente.
O segundo grupo, é formado pelos que querem reviver o
passado, padecem de um romantismo infantil e enfermiço. Acham que as coisas
podem ser como eram. Míopes para as mudanças históricas e sociais, acreditam
que reunir os amigos na mesma churrascaria onde se reuniram há trinta anos,
trará as mesmas energias que se teve quando o fato ocorreu por vez primeira. Há
os que buscam antigos amores querendo ressuscitar algo que está enterrado há
muito. Tive um amigo que queria ressuscitar um projeto abortado e, na visão dele,
seria agora muito melhor que antes.
O grupo da “ante-retro-oculatra” olha frequentemente para o
retrovisor da vida, não para repetir coisas, mas para, avaliando o que fizeram
e viveram, seguir adiante com a sabedoria do aprendizado existencial. Continuam
ávidos no aprendizado, têm amigos que são semeadores de novas ideias e
conhecimentos, lê o que pode, se sentem desafiados a enfrentar os monstros da
tecnologia, dedicam tempo a aprender mexer com PCs, notebooks e celulares.
Quando conseguem enviar o primeiro e-mail, vídeo ou postar a mensagem, celebram
como se fosse o primeiro gol que marcaram na vida.
Sabem que têm limitações, que o corpo já não tem a mesma
flexibilidade e dinamismo de outrora e buscam agora novas atividades que se
harmonizam com seu estado presente. Mais que tudo, aprendem a viver com a
incerteza. As certezas do passado agora são obnubiladas pelas muitas lições que
aprendeu, pela certeza da brevidade da vida, pela mudança de paradigmas e pela
mudança do foco: mais que ganhar uma discussão e provar que está certo,
preferem a benção do relacionamento amistoso.
Há, no entanto, um risco: cercar-se de pessoas que têm o
mesmo padrão de análise dos fatos. Porque evitam confrontos de ideias, acabam
se cercando de quem pensa como eles, para que a vida seja mais pacífica. Ledo
engano. A visão do futuro será obtusa, porque vista com olhos míopes que só veem
quem pensa como eles. Acabam se filiando ao clube dos “apoiadores de fulano ou
cicrano”. Saber categorizar comportamentos e grupos é algo inteligente, mas se
torna patológico quando as categorias usadas se tornam verdade absoluta.
Daí que, a incerteza, o talvez, o pode ser, há grande chance
de ser assim, devem passar a ser as palavras mais pronunciadas por quem já
viveu dois terços da vida.
Marcos Inhauser
quarta-feira, 9 de dezembro de 2020
SETENTAREI
Dios mediante, no próximo dia 14 completo 70 anos de vida. Com ele também tenho 48 anos de namoro e noivado, 47 de casamento, 48 de ministério como pastor. Certa feita, ouvindo a música do seriado Carga Pesada, fiquei a pensar na letra e como ela poderia ser adaptada para a minha vida: “Eu conheço muitos palmos de cada religião / é só me mostrar qual a direção. / Quantas idas e vindas, meu Deus, quantas voltas / viajar é preciso, é preciso / Com a teologia sobre as costas / vou testando a fé, cortando o estradão. / Eu conheço todos os sotaques / dessas igrejas, as miragens / dos “milagres” as verdades / das ovelhas as vontades / Eu conheço as minhas debilidades / pois o pensar não me cobra o frete. / Por onde andei fiquei com saudades / a poeira é minha doutrina / Nunca misturei cifrão com missão / mas não nego que tive meus apertos / Coisas da vocação e do meu jeito / sou profeta no caminho e acho muito bom!
No tacógrafo da vida já registrei coisas
que me arrepiaram por ter me maravilhado e emocionado, como também por ter
ficado estarrecido ou decepcionado. O nascimento dos filhos, o crescer fazendo
bagunça com eles e com o lema de ser sempre um pai e avô presentes. A perda de
amigos queridos que se foram antes da hora, a perda do pai, mãe, sogra e sogro
mexeram muito comigo.
Decidi que seria pai dos meus filhos e não
pastor deles (daqueles que cobram comportamento exemplar dos filhos para não
prejudicar o ministério do pai). Quando
acho que já vi tudo, fico pasmo com mais uma novidade. Alegria quíntupla foi
acompanhar as gravidezes de cada neto e neta, e estar lá na hora do parto
(exceção a um porque foi na China e ele decidiu vir um pouco antes da hora).
Alegria permanente é poder acompanhar o desenvolvimento de cada um deles.
Chegar aos setenta não é mérito, nem opção.
É uma contingência da vida e manifestação da graça de Deus. Foram mais de
25.500 vezes que a graça de Deus se renovou a cada manhã e me permitiu viver. A
graça não só se manifestou a cada dia, ao me despertar. Ela se fez concreta na
companheira que Deus me deu nestes anos todos. A Suely foi a coisa mais
maravilhosa que Deus me deu e a cada dia me surpreendo com suas qualidades,
dedicação a mim, aos filhos e netos. Juntos caminhamos e juntos estamos.
Por muitas vezes ela e eu conversamos
relembrando o que já vivemos, experimentamos e viajamos e a constatação sempre
aparece: não dá para explicar tudo o que na vida experimentamos. Só a graça de
Deus.
Acredito que uma vida significativa se mede
pela quantidade de vezes que ela foi benção na vida de outras pessoas. Tenho
isto como lema de vida: ser graça na vida dos outros. Nem sempre consigo e
avalio que poderia ter sido benção muito mais vezes. Surpreendo-me quando alguém que há muito
tempo não via ou não tinha notícia, me acha neste mundo das redes sociais e se
comunica comigo relembrando algo que ensinei ou fiz. Cada vez que isto acontece
me encho de coragem e digo para mim mesmo: valeu ter vivido! E valeu ter vivido
a vida que vivi. E valerá a vida que Deus, na sua bondade, ainda me permitir
viver!
Marcos Inhauser
quarta-feira, 2 de dezembro de 2020
PÓS TUDO
Já disse aqui, mais de uma vez, que sou viciado em notícias. Só conheci um cara mais viciado que eu. Ele assinava 17 noticiosos que ficavam rodando no rodapé da tela do seu computador, que ele o levava para a cama e acordava no meio da noite para ler o que havia de novo.
Comecei no mundo das notícias com o saudoso Gabino,
diretor-proprietário da Tribuna de Indaiá, que me contratou para “desempastelar
tipos”, a tarefa de separar os tipos segundo o tamanho, a fonte e a letra e
devolvê-los aos seus lugares nas caixas. Disto saltei para o “componidor”,
compondo os textos que iriam para o jornal. Depois para a revisão dos textos.
Na adolescência juventude lia todos os dias dois jornais: o Jornal da Tarde, o
Estadão. E o Diário de São Paulo.
Lançaram a revista Realidade e eu lá estava para comprar e
devorar. Noticioso na televisão só o Repórter Esso. Veio neste tempo o Pasquim
(que eu devorava) e a revista Fatos e Fotos. A televisão entrou com mais força
no mundo das notícias e passei a ser assíduo telespectador dos noticiários.
Nunca deixei de ler o jornal impresso, porque sou dos que acham que há uma
mística em ler um jornal impresso e um livro no papel. Não consigo me adaptar
aos e-books.
Nesta trajetória aprendi a amar e respeitar algumas pessoas
que nunca conheci. Entre o jornalismo informativo e o opinativo, o segundo me
fascinava. O jornalismo investigativo me seduzia, mas nunca tive a chance, nem
a estrutura para ir adiante com esta paixão. Aprendi muito com as colunas do
velho Frias, na Folha de São Paulo. Neste jornal também fui fã do Gilberto
Dimenstein e Clovis Rossi. Lia Zózimo Barrozo do Amaral, Artur da Távola,
Noblat, que escreviam nos jornais do Rio. No tempo em que, nos voos, se
entregava jornal para a viagem, eu pedia exemplares de dois ou três jornais.
Penso que vivi uma época áurea do jornalismo, pela qualidade
dos que escreviam e comentavam. A coisa, me parece, foi definhando e perdendo a
vigência que teve. Lembro-me do Programa do Jô, no tempo da SBT e do
impeachment do Collor, quando os políticos não podiam dormir sem saber o que
aconteceu e aconteceria no próximo dia.
Estamos vivendo a era do pós. Fala-se em pós-modernidade,
pós-verdade, pós-história, pós-especialização. Hoje todo mundo se julga com
capacidade e no direito de emitir sua opinião, por mais esdrúxula que seja. Um
bom divertimento é ler os comentários feitos às postagens. Há momentos em que
penso que voltamos à primitiva escrita, quando se praticava a scripto continua, quando ainda não haviam inventado o ponto
final, a vírgula, a exclamação e a interrogação.
Dá-me um sentimento de pré
mortem saber que jornalistas capazes e reconhecidos estão morrendo ou sendo
demitidos de suas funções nos veículos em que trabalharam por anos a fio. A
cada dia fico sabendo de mais um que foi demitido e que decidiu fazer carreira
solo em algum blog. Sou dos que acreditam que o verdadeiro jornalismo se faz na
redação, na troca de ideias, nos cafés e na fumaça dos cigarros, ainda que eu
mesmo não fume. Jornalismo de carreira solo é algo que não entra na minha
cabeça. O furo jornalístico é um evento de cumplicidade e solidariedade.
Se é verdade que em 2025 se imprimirá o último jornal em
papel no mundo, tenho certeza de que, parte de mim morrerá com ele.
Marcos Inhauser
quarta-feira, 25 de novembro de 2020
JUSTIÇA COM IGNORÂNCIA
Texto Fábio Blanco:
“Ser justo é bom. No entanto, não existe justiça sem amor,
como não existe justiça sem coerência. Amor e coerência são como que a balança
que permite que a justiça seja aplicada com equilíbrio.
No entanto, as pessoas estão sofrendo uma demasiada pressão
social por serem justas, sem que lhes seja exigido, da mesma maneira, que
tenham amor e coerência.
É uma pressão por estar do “lado certo” da sociedade, o que
significa participar de julgamentos coletivos, de justiçamentos sociais, de
determinar que certas atitudes, grupos, crenças e convicções, apenas por não se
encaixarem nas novas concepções desta nova geração, são condenáveis.
Assim, estar do lado certo tornou-se o objetivo e a
necessidade de muita gente, pois colocar-se fora dele é como viver um
ostracismo em meio à multidão. Pior, é como ser marcado por uma letra
escarlate.
Isso gera nas pessoas um anseio por parecerem boas, por
parecerem corretas. Antes de qualquer coisa, elas querem ter certeza que estão
sendo vistas como defensoras da causa certa. Querem ter a consciência limpa,
levantando as bandeiras que disseram para elas que são as mais justas.
O problema é que a maior parte dessas bandeiras são
hipócritas. São, na verdade, julgamentos prévios que, longe de fazer justiça,
criam ainda mais preconceitos. O resultado não poderia ser outro: enquanto os
justiceiros sociais defendem liberdades, agem como censuradores, enquanto falam
em igualdade, promovem a segregação, enquanto gritam por tolerância, são os primeiros
a não respeitar a opinião alheia. No fim das contas, se há algo que caracteriza
todos esses movimentos é a incoerência.
No entanto, convenhamos, ninguém quer ser considerado
incoerente. Mesmo esses justiceiros sociais possuem, como todo ser humano, uma
necessidade intrínseca de serem vistos como pessoas que fazem aquilo que falam
e agem de acordo com o que pregam.
Isso significa que se elas são incoerentes não é porque
querem, mas porque não percebem. E se elas não percebem é porque lhes falta
habilidade cognitiva para tanto. Resumindo: a incoerência das causas modernas
é, antes de tudo, um efeito do baixíssimo nível intelectual geral.
Fica evidente que muito dos erros cometidos hoje em dia, sob
os pretextos de moralidade, bondade e justiça, são efeitos de falhas de
pensamento, da inabilidade de construir raciocínios corretamente e da
incapacidade de perceber esses erros. Claro que tudo isso está aliado a uma
falta de sensibilidade para perceber as injustiças que cometem e até uma certa
hipocrisia.
Porém, parece-me que menos do que perversidade, é a burrice
que está por trás de quase todos esses movimentos. Sem esquecer, é claro, que a
ignorância, como se diz, “é vizinha da maldade.”
Completo: para quem há quase vinte anos escreve uma coluna
semanal em um jornal com expressão, sente-se na pele estas injustiças de quem,
lendo não entende o que se escreveu ou quem lê e acha que eu disse o que eu não
disse. E quando reagem aos que escrevi, fico pasmo porque me parece que estão
voltando às eras primitivas da escrita: o uso da scripto continua, quando não havia ponto final, nem vírgula, nem
exclamação.
A ignorância das verdades absolutas tem sido mato a grassar
o ambiente ecológico das relações humanas, separando uns e outros.
Marcos Inhauser
quarta-feira, 18 de novembro de 2020
E AGORA?
Mais uma rodada de eleições para cargos próximos a cada um de nós. Até onde sei e posso avaliar, as propagandas, horários gratuitos, fake news e debates foram bem mais comportados, sem algumas das baixarias presentes nos anteriores. Isto, talvez, pode ser atribuído á curta temporada das propagandas e aos fatores extraordinários.
Dia de votação sem novidades (até a boca de urna se
comportou), transmissão dos dados com alguma dificuldade e apuração/divulgação
com problemas técnicos, mas que, ainda assim, coloca o sistema eleitoral
brasileiro como modelo para outras nações. Contabilizar 140 milhões de votos e
ter o resultado no mesmo dia é coisa para deixar muitas nações morrendo de
inveja.
Até que se prove o contrário com fatos concretos (e não
especulação e denúncias baseadas no achismo), o sistema é imbatível no quesito
segurança e confiabilidade. Foi concebido de tal maneira que a fraude nas urnas
teria que ser um processo de alterar o programa de milhares de urnas eletrônicas,
coisa inviável. Feita a apuração na urna, fica registrado e, mesmo que algo se
consiga fraudar nos processos posteriores, há o resultado impresso de cada urna
que servirá como elemento robusto em uma auditoria.
Algumas lições podem ser tiradas deste processo. Revelou que
a última eleição (presidencial) foi um ponto fora da curva, que não se repetiu
agora. O ultraconservadorismo não conseguiu se impor. Isto mostra que a eleição
de 2018 foi mais um voto de raiva contra o petismo que adoção sincera e
consciente de um ideário conservador.
Descobre-se também que o voto antipetista ainda teve forte
apelo, pois, pela segunda eleição seguida, o PT é desidratado. Por outro lado,
a centro-direita e partidos de cento, centro-esquerda e esquerda tiveram melhores
resultados. O cometa partidário PSOL, aquele que apareceu, brilhou, sumiu nesta
eleição. Percebe-se a ascensão do DEM e PPS (este com muita gente ficha-suja) e
uma expressiva votação do bloco do centrão.
O que este resultado implica é que o apoio do Centrão será
mais caro daqui para frente. Alie-se a isto a desidratação do peso e liderança
do presidente, cujo cacife político voltou à antiga dimensão de parlamentar do
baixo-clero, e se tem as condições perfeitas para uma tormenta política: cargos
terão que ser distribuídos, a ala ideológica perdendo relevância, a ala
fisiológica ganhando musculatura, o presidente da Câmara e Senado com muitos
mais votos e peso político em seus mandatos.
Diante deste quadro, pode ser que tenhamos um
presidencialismo a la monarquia britânica: um rei figurativo e primeiro
ministro (Maia ou Alcolumbre) atuante e propositivo. Vencida a etapa da
reeleição que pleiteiam, mandarão no Congresso e farão o que quiserem.
O sonho da reeleição acalentado pelo atual ocupante do
Palácio está cada vez mais distante, seja pelo sinal dados pelas urnas, seja
pela sua ligação com o Trump, seja pelas palavras desastradas e discursos de
arroubo, seja pela maneira errática e nada profissional que lidou com a
pandemia.
Muito já se disse sobre as diferenças da eleição municipal e
da presidencial. Mas também se sabe que a eleição de governadores e presidente
está alicerçada nas bases municipais, onde se consegue a capilaridade. Se isto
é verdade, a reeleição terá dificuldades em conseguir a base eleitoral. Diante
deste quadro de derrota iminente, o melhor é questionar a lisura do processo,
semear a dúvida quanto ao voto eletrônico, suspeitar dos resultados. Isto dará
munição para, apurados os votos em 2020, defender-se dos minguados votos com a
existência da fraude eleitoral. O mentor já fez e está fazendo isto.
Marcos Inhauser
quarta-feira, 11 de novembro de 2020
NEGACIONISMO
Virou febre! Tudo o que certas pessoas não entendem ou nunca viram não existe! O que existe é o que entra nas suas cabeças e cosmovisões. São faltos de neurônios, não gostam de ler, de se informar e as suas cosmovisões devem ser o padrão para o entendimento e ações no mundo.
Avessos
a toda e qualquer coisa que possa ser contrária às suas afirmações e verdades,
são lépidos em tirar da frente quem a eles se opõem. Os exemplos de
negacionistas e das pessoas retiradas de sua frente são muitos. O exemplo mais
acabado no presente é o Trump. Ele, do alto de sua arrogância e prepotência,
nega que perdeu a eleição. Como poder ser isto? pergunta ele a si mesmo. Ele
que, na sua ótica obtusa e míope, foi o melhor presidente dos Estados Unidos,
comparando-se a Abraham Lincoln, não perderia uma eleição, a não ser que houvesse
fraude. Ele, quem se julga o que mais beneficiou os negros, como pode ter
perdido em populações negras?
Para
provar que isto aconteceu, o Trump afirma uma séria de inverdades, questiona o
legal, desacredita um processo histórico de eleição, inventa conspirações. Como
tudo o que ele diz tem que ser verdade, a “sua verdade” é aceita pelos
“no-brain people” (gente sem cérebro) e retuitada sem critérios. A mentira
repetida muitas vezes se torna verdade, já disse alguém.
O
negacionista Trump não aceita a derrota, por mais evidente que ela seja. Vai
tentar, por artimanhas e chicanas jurídicas, reverter o irreversível. Assim
como a terra é plana, a Covid-19 é uma gripezinha, máscara só serve para
sufocar quem a usa, o número de mortes está inflacionado, a eleição é uma
fraude.
Dia
destes recebi um destes posts. Afirmava que, no Brasil, em 2019 houve X mortes
e que em 2020 o número de mortos era menor que em 2019. E perguntava: onde está
a mortandade da Covid? Não citava fontes, não dizia qual “otoridade” a postou,
mas me foi passado para eu repensar o que escrevo.
Uma
destas postagens feitas pelo Trump, afirma que há, em Michigan, 14.000 votos de
pessoas mortas. A CNN foi verificar e constatou que as pessoas estavam vivas, que
estavam vivas e votaram ou estavam vivas e não votaram. O mesmo se deu com o
anúncio de que uma pessoa nascida em 1800 e algo havia votado e o responsável
pela eleição no estado, foi atrás e demonstrou ser falsa a alegação.
O
Trump queria que se usassem tropas federais para acabar com as manifestações
pró-Biden, inclusive as que celebravam a vitória. O secretário Mark Esper, que
se recusou a usar tropas federais nas manifestações que surgiram logo após a
morte de George Floyd e o movimento Black Lives Matter, foi demitido na
segunda-feira. “Sai da frente, opositor” deve ter dito. Assim ele fez com
outros. Há a demissão de 46 procuradores federais demitidos por rede social,
para que o caminho fiquei lubrificado para seus questionamentos jurídicos.
Demitiu secretário
de Estado, Rex Tillerson, o ex-diretor da CIA, John Brennan “se demitiu” por crer e afirmar que
houve interferência russa na eleição de Trump.
Aprendi que “todo palhaço tem sua plateia”. Pequena mas tem.
Esta plateia não dá para se reeleger. Que os imitadores do Trump tenham ciência
disto!
Marcos Inhauser
quarta-feira, 4 de novembro de 2020
SERÁ? NÃO É A PERGUNTA
Como advento da pandemia, muita gente começou a se perguntar: será que vou ser infectado? Para mim, a pergunta não é esta,
Depois da mais de seis meses convivendo com o Corona
vírus, que tem se mostrado resiliente na sua missão de se proliferar, as
perguntas mais apropriadas, no meu entender, são: “quando vou ser infectado”? e
“em que grau será minha infecção?”.
Dos mais de cinco milhões e meio de infectados no Brasil,
cento e sessenta mil morreram. Isto significa que o grau de letalidade é de
quase 3%. Se tomarmos os dados globais, temos quarenta seis milhões e
seiscentos mil infectados e pouco mais de um milhão e duzentas mil mortes. Isto
dá uma taxa de mortalidade aproximada da ordem de 2,5%. Não há como saber
quantos dos infectados tiveram complicações graves e os que estão com sequelas.
Tenho para comigo que, mesmo que algumas vacinas sejam
aprovadas e aplicadas, parcela significativa não estará imunizada ao final de
2021. Há que recordar-se que a vacina imuniza, mas não mata o vírus e ele
continuará circulando no mundo. Mesmo com vacinação, os casos de infecção
continuarão a acontecer.
Pontue-se também que, ainda não se sabe da taxa de
possíveis reinfecções e por quanto tempo as vacinas produzirão anticorpos. Daí
por que a pergunta (Será?) não é que deve ser feita. O vírus não será
extinguido e continuará fazendo suas vítimas pelo resto da vida, assim como os
demais vírus que assolaram a humanidade. Há que considerar-se também as
mutações genéticas pelas quais o vírus passa e que podem produzir um novo/novo
Corona, porque o atual já é uma variação de um anterior.
Quanto ao momento em que poderemos ser infectados, por
mais cuidados e precauções que se tome, não são garantia de eterna imunidade.
Mesmo pessoas cercadas de seguranças e todos os cuidados (ministros e
presidentes) foram infectadas. Basta um deslize mínimo e imperceptível para que
o Corona faça a festa. A sabedoria está em tomar todos os cuidados e estar
preparado para o fato de que, mais dias, menos dias, ele virá se hospedar em
você.
A outra pergunta pertinente é: “qual o grau de gravidade
que me afetará?”. Aqui também se deve tecer alguns comentários. Sabe-se hoje
que, em função dos novos conhecimentos sobre a natureza do vírus e medicações
paliativas, a taxa de mortalidade diminuiu e muito. Os casos de intubação e UTI
se reduziram. Novos procedimentos foram adotados e remédios vários foram
testados e alguns deles condenados ou estão em suspeição para o tratamento da
Covid-19. Exemplos disto são a cloroquina, a hidroxicloroquina e a dexocloroquina, os vermífugos
Anita e Ivermecticina.
Sem
remédio de prevenção (não há nada que seja consenso e provado cientificamente),
até o presente momento, sabe-se que o uso de anticoagulantes é benfazejo para a
estabilização do infectado. Sabe-se também que a respiração com o auxílio com
oxigênio ajuda.
Quem
ainda não foi infectado teve mais sorte de quem o foi nas primeira horas. A
taxa de mortalidade inicial era muito mais alta e o tempo de UTI também, Mesmo
as sequelas eram mais presentes nos infectados.
Para
parodiar Jesus, os “últimos serão mais felizes que os primeiros”. Quem não
pegou nas primeiras ondas tem mais chance de sobreviver quando infectado for.
Marcos Inhauser
quarta-feira, 28 de outubro de 2020
A CELEBRAÇÃO DA DIFERENÇA
Se os seres humanos foram criados por Deus, concluímos que Ele nos fez diferentes por uma de duas razões: por capricho de Deus ou porque há um propósito. Quando Deus percebeu que não era bom o homem estar só, criou a companhia, que diferia em gênero: uma mulher. Para ser auxiliadora tinha que ser diferente. A ajuda vem da diferença. Quando duas pessoas iguais estão juntas, não podem se ajudar porque pensam e decidim de forma igual.
O mesmo se aplica à espiritualidade. Somos ajudados no
crescimento espiritual quando convivemos com a diferença. Não é o cercar-se de
gente igual que dá a certeza de estar certo. Há mais probabilidade de incorrer
em erro quando cercado de gente igual do que quando de gente diferente.
Os iguais bajulam, porque dizem o que se gosta de ouvir, não
criticam porque seria criticar-se, uma vez que pensam e agem igual. Quem se
cerca de gente igual, ao invés de crescer, para no tempo e fica se deliciando
com as verdades que crê e recusa as novas, porque envolvem o risco.
Por outro lado, se se cerca de gente com capacidade e a
liberdade de questionar, perguntar, duvidar do que se crê, afirmar coisas
diferentes, a convivência será caracterizada pela constante reflexão, análise e
reposicionamento. Quando se revê pensamentos e os avalia criticamente à luz de
posições divergentes, há amadurecimento. A maturidade não está na certeza e na
repetição ad infinitum das verdades. Ser um poço de certezas é ser
inseguro e de imaturo. O ignorante é o que mais sabe e Sócrates dizia que uma
coisa sabia: que nada sabia.
O sábio não se conhece pela quantidade de certezas que tem,
mas pela qualidade das perguntas que faz. O maduro não precisa dizer “quem
manda sou eu”. Isto é sinal de imaturidade e ignorância. Obrigar que sua
verdade seja a verdade de todos é um ato de estupro intelectual. Se, como
afirma Foucault, a verdade é versão dos poderosos, ter que afirmar a própria autoridade
é autoritarismo. Quem deste recurso necessita dá provas de insegurança e burrice.
Estas reflexões me levam ao ecumênico. Tenho visto gente na
defensiva e no ataque ao ecumênico. Acusam-no de tudo pelo fato de colocar
pessoas que pensam diferente para conversar e encontrar caminhos comuns. O
ecumenismo é uma proposta para gente madura, sem medo do diferente, do novo, de
avaliar-se e até reconhecer que está errado. O ecumênico é um risco para os
donos da verdade, porque elas podem ser falsas. Os inseguros se lançam ao
ataque difamatório. Donos da verdade e ditadores em suas comunidades, não tem
maturidade para o diálogo, porque treinados no arbítrio. Pregam como verdade o
que creem, sem dar chances de serem questionados ou criticados.
Estes se esquecem que Paulo diz que nos últimos tempos
cercar-se-iam de mestres segundo as suas cobiças e que estariam rodeados de
gente igual. Nada mais tentador e arriscado para a fé que cercar-se de iguais.
No antigo Israel a diferença foi feita pelos profetas, que anunciavam o
diferente, que quebravam o discurso dogmático e questionavam os sacerdotes e
reis. Era o questionamento da verdade do poder (político dos reis e religioso
dos sacerdotes), porque o poder, via de regra, necessita do diálogo e da
diferença para ser verdadeiro. Necessita da parresía, o discurso da verdade,
feito pelos que se opõem. Democracia sem oposição é o governo do demo.
Marcos Inhauser
quarta-feira, 21 de outubro de 2020
A DITADURA DA OPÇÃO
Estava, pela primeira vez, em Nova York. Havia esquecido minha necessaire no banheiro do avião e não a recuperei. Precisava de pasta de dente, sabonete, desodorante, fio dental, escova de dente.
Fui ao supermercado próximo ao hotel em que estava
hospedado. Fiquei doido! Tal era a quantidade de marcas, tamanhos e sabores de
pasta de dente, que fiquei olhando aquele mundaréu de opções e não sabia
decidir. Tive uma paralisia de opção.
O mesmo se deu com o desodorante e o sabonete. Foi uma
tortura ter que decidir. A vontade era
comprar duas ou três de cada coisa e decidir depois, no hotel, qual era a
melhor. A mesma situação já vivi em floricultura, para comprar peixes
ornamentais para dar de presente, em loja de roupas e sapatos. Quanto mais
opções eu tenho, mais paralisado eu fico. Decidi: o primeiro que eu gostar vai
ser o que vou levar. Nem sempre gosto logo de início e a tortura se instala.
Estamos vivendo a era das opiniões. Todo mundo tem opinião
sobre tudo! Leia uma notícia e vá ver os comentários que a seguem. Uma profusão
de obviedades e barbaridades agressivas. Acabo de ver um vídeo de uma pessoa
que se apresenta com “intindido” das coisas da teologia. Umas três ou quatro
vezes ele pronunciou alguns termos de forma errada (ex. previlégio e não
privilégio, inreponsabilidade e não irresponsabilidade). Fez uma baita confusão
entre Teologia Liberal, Teologia da Libertação e Teologia de Esquerda, que saí
do vídeo com se estivesse em Seul sem Waze. Ele não consegue distinguir a
figura histórica de Jesus dos Evangelhos e afirma que as duas coisas são a
mesma, agride os universalistas sem apresentar um único argumento próprio etc.
Fala que ortodoxia é o que os primeiros concílios da igreja decidiram, mas tem
medo de falar em Concílios Ecumênicos (termo apropriado, mas que, para ele, ao
que parece, seria concessão à heresia citar a palavra “ecumênico”).
O mundo religioso, mal denominado de evangélico, padece da
mesma sina. Um monte de pregadores, um querendo ser mais eloquente que o outro,
cada qual trazendo uma coisa original, acabam apresentando uma plêiade de
opções aos ouvintes que eles, tal como eu no supermercado, ficam perdidos, sem
GPS ou Waze para lhes dar o norte.
No restaurante por quilo que se transformou a internet e os
pregadores virtuais, há gosto para tudo, mas a variedade deixa as pessoas
confundidas e perdidas. Tem gente que serve de tudo um pouco e fazem pratos
indigestos. O que mais se encontra é sermão de sucesso e autoajuda.
A cada pouco alguém vem me perguntar o que acho sobre isto
ou aquilo que eles ouviram de um pregador em uma “live”. A grande deles nunca
estudou história da Igreja, teologia bíblica, interpretação bíblica. Falam o
que lhes vêm à mente. Não importa que seja abobrinha. Tal a ânsia de likes e
inscritos, tem quem se apresente como “pregador internacional”, só porque
pregou em Pedro Juan Caballero, do outro lado de Ponta Porã. Há uma mendicância
virtual por likes e inscrições!
Parece que estamos revivendo o que sentenciou o Cronista
bíblico: “por muito tempo Israel esteve sem o verdadeiro Deus, sem sacerdote
que o ensinasse e sem lei”. O que vale hoje são aos apaniguados na fila do
beija-mão das “otoridades”, como se a proximidade a eles lhes desse o selo de
qualidade e infalibilidade no que fazem e ensinam.
São os pregadores com selo Decotelli de qualidade!
Marcos Inhauser
O JUDICIÁRIO TISNADO
Estou estarrecido e indignado, e como eu, acredito, há muitos outros brasileiros. Tivemos nos últimos dias alguns eventos que marcaram de forma indelével o judiciário brasileiro.
De um lado, a
aposentadoria do Decano da Corte, ministro Celso de Melo, quem, por 32 anos
atuou no STF, onde, por sua seriedade e competência ganhou a credibilidade
indispensável a quem o cargo ocupa. Conhecido por suas decisões solidamente
embasadas, fruto de muita dedicação e estudo, seus votos eram irretocáveis.
Avesso ao estrelismo, pouco se via dando entrevista extemporâneas. Limitava-se
aos autos e falava pela sentença prolatada.
Em ato de profundo
desrespeito a este que tanto contribuiu, o governo indicou, antes mesmo de sua
jubilação, o seu sucessor. Caso raríssimo e, talvez, único na história judicial
mundo afora. E para ser ainda mais indelicado, indica para sucedê-lo alguém com
postura garantista, contrária ao posicionamento justo e equânime do jubilante.
A ideia que fica é que o queriam ver pelas costas o quanto antes, porque seus
votos não agradavam os áulicos de plantão.
Este evento momentoso
da jubilação de quem deu a sua vida ao Judiciário, teve a translucidez tisnada
pelo nome indicado para sucedê-lo. Adepto do currículo pavoneado de um outro
quase ministro, inchou o seu com cursos breves como se Mestrado, Doutorado e
Pós-Doutorado fossem. Se a constituição requer do indicado ao cargo notório
saber e reputação ilibada, o indicado tem sua reputação tisnada pelos cursos
listados. De tal celeuma ele tenta se safar dizendo que foi erro de tradução,
resposta muito próxima da que deputados, senadores e outras autoridades dão
quando são questionados e dizem que foram mal interpretados.
Para completar a
barafunda instalada, tem-se o habeas corpus concedido pelo novo Decano, o
ministro Marco Aurélio, aliviando a barra de um condenado duplamente, em
segunda instância, com penas que, somadas, chegam aos 25 anos. Questionado,
valeu-se de retórica e hermenêutica enviesada e saiu-se que ele não olha capa de
processo, mas conteúdo. Duvido que leu o conteúdo. Se leu e deu o habeas
corpus, o fato é grave porque deve explicar por que, mesmo sabendo da dupla
condenação e do risco de sua libertação, decidiu monocraticamente ou sequer
solicitou informação ao juízo que emitiu a sentença de prisão preventiva. Se
não leu o conteúdo, deu sentença temerária, passível de admoestação, que é o
que o Presidente do STF, ministro Fux, indiretamente fez.
Sabe-se que há duas
correntes no STF: os garantistas (Mendes, Levandowski e Toffoli) e a outra ala
chamada de punitivista. De minha vontade gostaria que todos fossem
justicialistas, no sentido de que, lendo o texto do processo, o contexto dos
fatos anteriores e a situação presente no momento da sentença, se buscasse a
justiça.
Para a minha cabeça, é
muita coincidência que casos escabrosos caiam quase sempre nas mãos dos
garantistas. Deve-se lembrar que foram eles que garantiram a liberdade ao
médico Abdelmassih, ao banqueiro Cacciola, ao dono dos ônibus no Rio, o Jacob Barata Filho. É o Gilmar
que reverte todas as decisões do juiz Marcelo Bretas, algo que, para mim, é
mais que uma questão de divergência legal, mas é pessoal. E o beneficiado agora
é o André do Rap.
Estou com as barbas de molho, esperando o que vai acontecer
com os processos das rachadinhas, do foro privilegiado do senador e da
interferência na PF por parte do chefe da família.
Marcos Inhauser
quarta-feira, 30 de setembro de 2020
PÁTRIA EM PRANTOS
Não chegamos às 150.000 mortes, mas estamos perto dele. Chegar aos 200.00 é uma questão de tempo. No mundo, na segunda-feira, se chegou a um milhão de mortes pela Covid-19!
O número de
Dunbar é o limite no número de pessoas com as quais alguém mantém relações sociais estáveis, afetivas e conhece dados pessoais
significativos. É o número no qual cada pessoa conhece cada membro do grupo e
sabe identificar a relação dele com as outras pessoas do grupo. Este número foi
estabelecido por pesquisa e referendado por outras e citado em inúmeros
trabalhos acadêmicos, especialmente no campo da antropologia. Proposto
por Robin Dunbar, esse número teórico varia entre 100 e 230 pessoas. Vamos
tomar a média entre o mínimo e o máximo e trabalhar com 165 pessoas com as
quais cada um de nós conhece, se relaciona e sabe quem é, o que faz, tem algum
sentimento em relação a ela e que a falta dela, por ausência ou morte afeta
significativamente a vida das demais pessoas.
Tomando
as 150.00 pessoas que morreram, vezes as 165 pessoas que, em média, sentem a falta
delas, teremos, no Brasil, 2.4750.000 chorando a morte de alguém e 165.000.000
em prantos no mundo. Ocorre que, há casos da morte de pessoas que não conhecíamos
e soubemos das características delas em vida ou como foi a enfermidade, ou as
pessoas que deixaram e nos solidarizamos e, não poucas vezes, choramos pelo
desconhecido.
Ocorre
que, com a seca, as queimadas e a quantidade de animais que foram dizimados ou
feridos com as queimaduras, todos choramos pelo desastre ambiental, aumentando
o manancial de lágrimas da pátria. Não só choramos as mortes humanas, mas
também a morte de parte da Amazônia, do Pantanal e de outros biomas vitimados
por incêndios, quase todos criminosos.
Sabe-se
que há certo nível de sensibilidade nas plantas, que elas podem retribuir o
cuidado, como podem se ressentir com os maus tratos. Se há, como pesquisas têm
evidenciado, certo sentimento nas plantas, acredito que posso afirmar o
sofrimento das árvores cortadas, queimadas, de toda a vegetação dizimada pelo
fogo. Posso falar do sentimento dos animais em pânico com a tragédia que se
avizinhava, posso chorar a morte das onças pintadas, capivaras, porcos do mato,
jacarés, etc.
De
minha parte, chorei nesta segunda-feira com a sentença de morte de outros
ecossistemas decretado pela resolução trágica e insustentável do Conama, apoiada
pela CNA e CNI, capitaneada por um facínora ambiental.
A
dor de algo inevitável é menor que a dor de algo que se perde e se podia
evitar. Ver mesmo que seja a mãe ou pai morrer depois de longo período de
enfermidade, pode até ser reconfortante, ainda que choremos a perda. Mas chorar
a perda quando ela poderia ter sido evitada é muito, mas muito mais dolorido.
Quantas lágrimas rolaram nas faces de quem teve um filho, pai, mãe, esposo ou
esposa perdidos pela falta de leitos, respiradores, remédios? Morte evitáveis,
mas que foram assassinados pela incompetência, incúria e imperícia. Quantos
amantes da natureza não choraram ao ver e saber do que acontecia nos
ecossistemas devastados pelo fogo?
Somos
uma pátria em prantos. A seca não se combate com as águas das nossas lágrimas,
mas elas podem regar novos tempos, novas realidades. As lágrimas doloridas e
amargas das perdas pessoais e da natureza podem fazer crescer o rio para
arrastar para longe o antiministro, para quem o meio ambiente é “só meio
ambiente” ou “ambiente pelo meio”.
Marcos
Inhauser
quarta-feira, 23 de setembro de 2020
INFERNOS URBANOS
Não se sabe ao certo quando a ideia do inferno foi associada
ao fogo. Quando visitei Jerusalém juntamente com outros 16 diretores de
Seminários Menonitas e assessorados por uma arqueóloga, ouvi uma explicação
bastante interessante. Há dois vales ao lado de cidade: Hinon, um vale onde se
depositava o lixo e Cedron, um vale limpo, que não recebia lixo para que não
contaminasse a fonte de água da cidade (Fonte de Gion).
O vale de Hinon, por receber lixo, este se decompunha e
produzia enxofre e por causa do metano, queimava diuturnamente. Criou-se a
ideia de que para o lixo e para ao fogo eterno seriam mandadas as pessoas indesejáveis
socialmente. Na versão dos Setenta (Septuaginta) o Vale de Hino foi traduzido
como Geena.
Ocorre que, me parece, os infernos não são exclusivamente de
fogo. A vida urbana tem criado outros infernos tão suplicantes quanto ficar
queimando eternamente. Vi uma reportagem sobre um determinado bairro em São
Paulo, mais para favela que para bairro, onde o dono de um bar promove bailes
funks que começam na sexta à noite e terminam no domingo à tarde. Música em
volume insuportável para quem do baile não participa, barulho da multidão
gritando e cantando, bebidas, drogas e total falta de respeito aos moradores.
Um inferno todo final de semana!
Uma amiga me contou na semana passada que teve que se mudar
do apartamento onde morava por causa do barulho das motos que a infernizava. Ela
morava em um apartamento perto do Mario Gatti e afirma que as motos dos
entregadores parece que faziam questão de fazer barulho ao deixar os prédios
onde vinham entregar comida.
Se me lembro bem, há uma lei que pede que não se buzine nas
redondezas dos hospitais. O escapamento e a aceleração desnecessária podem?
Onde a fiscalização? Se houvesse da parte da EMDEC a mesma competência para
fiscalizar que tem para aplicar multas, a coisa seria diferente!
As motos já são, de fábrica, barulhentas. Já não bastasse o
barulho “normal”, há quem abra o escapamento para que o som seja mais alto,
estridente, irritante. É uma forma de chamar a atenção e dizer: “Eu tenho uma
moto! Olhem para mim!”
Lembrei-me de um vizinho que tive em 1978, que tinha uma
Vemaguete, motor dois tempos, e que, todo dia às 6:00 da manhã, ligava o motor
e ficava acelerando. Um dia perguntei a ele o porquê disto e ele me disse que
era para “não arriar a bateria”. Mas ele conseguia irritar toda a vizinhança.
Era a forma que ele tinha de anunciar a todos que tinha um carro.
No domingo, no início da noite, estava sentado em frente à
minha casa com minha esposa e uma pessoa que nos visitava. Nisto apareceu um
carro, com três jovens dentro e, para estacionar na frente da casa do outro
lado da rua, acelerou tantas vezes que tivemos que interromper a conversa.
Escapamento aberto, fazia questão de mostrar que tinha um “possante”! Deu pena
do energúmeno!
Algumas perguntas: existe a lei do silêncio em Campinas? Se
tem, está em vigência? Quem já foi multado por ela? Você que é vizinho de
barzinho e já denunciou, resolveu o problema?
Tenho certeza de que serei voz que clama no deserto! E o
inferno vai continuar!
Marcos Inhauser
quarta-feira, 16 de setembro de 2020
ALEGRIA E TRISTEZA
Há várias propostas de abordagem ao livro bíblico de Eclesiastes, o livro do Sábio: um cético, um desiludido, um desesperado, um filósofo da mediocridade ou ainda um pregador da alegria. Tenho para comigo que o autor é uma pessoa de idade, experiente nos percalços da vida, que terminava seus dias sem entusiasmo e descontente com o que havia vivido. Um deprimido? Talvez. Um amargurado? Provavelmente. Uma pessoa triste? Com certeza. Um sábio? Sem dúvida. De uma coisa todos concordamos: ele era tão humano quanto nós, porque ao lê-lo nos identificamos com suas experiências, frustrações e conclusões. Isto é ainda mais verdadeiro quando se refere ao binômio alegria/tristeza.
O Sábio afirma que “tudo neste mundo tem o seu tempo; cada coisa tem a sua ocasião....
Há tempo de ficar triste e tempo de se alegrar; tempo de chorar e tempo de
dançar. Ao
colocar alegria e tristeza como não concomitantes no tempo, mostra a
impossibilidade de alguém sentir-se triste e alegre ao mesmo tempo. Quando
passamos por tristezas, ainda que haja algum motivo para alegria, parece que
ela sufoca ou nos cega para as coisas boas. Quando há motivo de alegria e em
seguida surge algo que nos entristece, parece que a tristeza tem mais força que
a alegria e prevalece nos nossos sentimentos.
Por mais que fujamos da tristeza, há um tempo para ela na
vida. Não escolhemos ficar tristes. Alegria e tristeza são sentimentos que surgem
em decorrência das circunstâncias, quase todas fora de nosso controle. Não há
quem não busque a alegria e que não fuja da tristeza e mesmo assim a tristeza
ocorre. E não há quem não queira eternizar a alegria e mesmo assim não
consegue.
Se há
tempo para tristeza e alegria, significa que elas não são eternas. No dizer do
salmista, “o choro pode durar a
noite inteira, mas de manhã vem a alegria” (30:5). A tristeza pode durar
um tempo, mas não é eterna.
Há uma diferença na percepção
humana da alegria e da tristeza: a alegria é sempre passageira e a tristeza
duradoura. A alegria tem a estranha capacidade de nos anestesiar para as demais
coisas da vida. O Sábio diz que “você não sentirá o tempo passar, pois Deus
encherá o seu coração de alegria” (5:20). Ela nos inebria e só pensamos na
causa da nossa alegria.
A tristeza, por sua vez, tem a
capacidade de aguçar nossos sentidos, nos colocar em alerta geral, fazer pensar
na causa da tristeza e em todas as consequências que ela traz.
O salmista diz ainda que a
tristeza se aguça à noite: Estou cansado de chorar. Todas as noites a minha
cama se molha de lágrimas, e o meu choro encharca o travesseiro (6:6). A tristeza tem a
capacidade de ser mais aguda quando queremos dormir. É quando ela dói mais, que
a cama se transforma em espinheiros e o travesseiro em pedra.
A vida é cheia de alegrias e tristeza e nenhuma das duas é
eterna. O Sábio inverte esta lógica chamando a atenção para os perigos da
alegria e para os benefícios da tristeza. Ao fazê-lo redimensiona a percepção
destes sentimentos e nos dá a chance de tirar lições para viver sabiamente.
Marcos Inhauser
quarta-feira, 9 de setembro de 2020
(FÉ)SIOLOGISMO
Estudiosos e teólogos vêm levantando a questão das implicações ideológicas que se entrelaçam no campo das doutrinas religiosas. Por se tratar de área que trabalha com texto religioso crido como sendo “A Revelação de Deus”, onde o próprio Deus teve participação ativa ao dar-Se a conhecer, os cristãos têm tomado o estudo da Bíblia seria e reverentemente.
No entanto, não são poucos os casos em que estas atitudes
cedem lugar às concepções esdrúxulas e fanáticas. O fundamentalismo com a tese
de inerrância e infalibilidade das Escrituras gerou uma plêiade de intérpretes
que, por trabalharem algo que julgam ser inerrante, também assumem que suas
interpretações são inerrantes e infalíveis.
Tem-se chamado a atenção para a influência do
"reconstrucionismo" em setores carismáticos evangélicos, como forma
de acrescentar poder e prestígio à igreja e ajudar na recuperação do poder
político que a igreja teve com a era constantiniana. Este poder foi abalado com
os Anabatistas, no século XVI, na Reforma Radical. Eles defendiam a completa
separação da Igreja e do Estado.
O reconstrucionismo nasceu nos Estados Unidos nos anos 60 e
ganhou força nos países latino-americanos nos anos 80. Esta teologia está
vinculada a religiosos conservadores estadunidenses e à política neoliberal. Ela
se disseminou por toda a América como ofensiva contra a Teologia da Libertação.
As pregações religiosas carismáticas, pentecostais e neopentecostais passaram a
ser pró-capitalismo (teologia da prosperidade) e individualista (religiosidade
televisiva e individualista).
O reconstrucionismo afirma que os cristãos têm a missão dada
por Deus, um "destino manifesto", devendo assumir posições de poder
no governo, com o objetivo de reconstruir os países. As nações latino
americanas, por seu passado indígena, cultos afros “pagãos” e a colonização
católica “idólatra” legou uma maldição secular que deve ser quebrada com
atitudes de coragem e destemor.
Para tanto, há grupos, até mesmo de empresários e
profissionais liberais, buscando as “fortalezas de Satanás em cada cidade” para
“tomar posse em nome de Jesus”. É a concepção do “evangelho pleno” Inicia-se o
processo de reconstrução a partir da base moral e espiritual. É a ampliação do
governo de Deus através da igreja, ocupando espaços de poder que foram descuidados.
Ministros de Estado evangélicos têm sido celebrados como benção de Deus!
Estamos saindo religiosidade de monopólica para uma concorrencial.
O crescimento numérico dos evangélicos levou ao crescimento do campo evangélico
e carismático, penetrando nos diferentes níveis da sociedade". Com isto
cresce o interesse de alguns desses grupos pela participação política,
notadamente em setores que há alguns anos eram os mais reacionários a tal
participação.
Esta participação na participação política passa pelo clientelismo
e fisiologismo, na busca de benefícios para a igreja e para os evangélicos,
apoiando direta ou indiretamente setores evangélicos marginalizados do poder
durante tantos anos.
Os exemplos de fisiologismo e clientelismo são muitos. Sanguessugas:
escândalo das ambulâncias, quando toda a bancada da IURD estava envolvida;
Eduardo Cunha: filado à Assembleia de Deus, tem dezenas de sites “evangélicos”
e é acusado de usar igrejas para lavar dinheiro; Família Garotinho:
Presbiteriano, tinha programa radial de orientação. Ele e a esposa já foram
presos; Bispo Crivela: Já teve vários pedidos de impeachment pelo desastre na
saúde, agora com o cerceamento do
trabalho da imprensa; Flordelis: líder da bancada evangélica, cantora, dona de
uma denominação, acusada de ser a mentora do assassinato do marido e de
práticas sexuais nada ortodoxas; Pr. Everaldo: atualmente preso, dono de um
partido e envolvido nos escândalos da Saúde no RJ.
Somos agora surpreendidos com um projeto de lei do filho do
R. R. Soares, perdoando dívidas de um bilhão de entidades religiosas flagradas
em esquemas fraudulentos.
Tudo com fundamentação bíblica!
Marcos Inhauser
quarta-feira, 2 de setembro de 2020
PRIVILEGIANDO NEGÓCIOS DE NEGROS
Não me lembro onde foi que li. Sei que era uma publicação em inglês e, provavelmente, de um grupo anabatista dos Estados Unidos. Historicamente os anabatistas têm tido posições e proposto movimentos semelhantes, trabalhando causas relacionadas à justiça e à paz.
A partir dos problemas de violências contra negros nos
Estados Unidos, coisa que já ocorre há muito tempo em função do racismo
estrutural, alavancado pelas violências contra o George Floyd e Jacob Blaker, a
proposta era de que se privilegiasse a compra em negócios cujos donos fossem
negros. Achei interessante e pensei: vou fazer isto.
Comecei a percorrer mentalmente os negócios onde tenho
comprado as coisas: alimentos, remédios, pães, bolos, material de construção,
papelaria, restaurantes, lanchonetes, serviços de conserto de eletrônicos,
oficina mecânica, feira, etc.
Fiquei assustado! Não encontrei um só negócio que tenha um
proprietário negro. Rodei as lembranças e não me lembrei de ter visto algo assim
há muito tempo. Rodei a memória mais ampla: locais onde houvesse negros
trabalhando. Nada! Ampliei o espectro para as cidades onde já morei e os
negócios que costumava frequentar e usar. Nada!
Ao final de muitas lembranças e recorridos mentais, lembrei-me
de duas farmácias que têm atendentes e caixa que são negras. Em uma delas, elas
trabalham no período da madrugada! Não consegui me lembrar de um restaurante
onde houvesse um garçom negro, uma lanchonete onde houvesse um atendente negro,
uma padaria onde o padeiro fosse negro.
A coisa me intrigou e comecei a pensar se sou eu que não sei
escolher os negócios que uso, ou é um problema estrutural. Perguntei a algumas
pessoas conhecidas e a constatação foi a mesma: os negócios são brancos.
Já tive pedreiros e serventes negros trabalhando em minha
casa. Já tive pintor, encanador, eletricista, e alguns deles eram negros. Serviços
braçais. Rodei a memória e só me lembro de um professor negro que tive, nos
Estados Unidos.
Há algo de errado. Quando morei nos Estados Unidos, tinha
por costume ir com a família para as igrejas negras, por causa da música e dos
corais. Sempre achei que os Estados Unidos é a nação mais racista do mundo e
que o dia mais racista é o domingo de manhã quando as igrejas se reúnem:
brancos e negros em igrejas separadas. Fui, certa vez, a convite de um colega
de curso, pastor de uma igreja negra, assistir a Cantata da Páscoa. Depois da
Cantata ele me convidou para ir ao púlpito com ele e dar uma saudação à igreja.
Ele fez questão de dizer que, nos 35 anos daquela igreja, era a primeira vez
que um branco subia ao púlpito e falava à igreja!
É verdade que não temos isto no Brasil, mas também é verdade
que, nas igrejas protestantes e as chamadas históricas, os negros são raridade.
Certa feita fui assistir uma Cantata de Natal em um templo que tinha umas duas
mil pessoas. Nenhum negro ou negra no coral e não consegui achar um só no meio
dos assistentes. Podia ter, mas não vi. É raridade.
Já escrevi aqui uma coluna “O Shopping é Branco”. Tenho que
dizer: os negócios são brancos. As igrejas de classe média são brancas. O
acesso ao pastorado nas igrejas protestantes e históricas tem degraus altos
para que os negros possam subir. Os negros na Câmara Municipal, Assembleia
Legislativa, Câmara e Senado, são poucos (há raríssimas exceções). Os ministros
são brancos.
Falta cor nos espaços públicos do Brasil!
Marcos Inhauser