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quarta-feira, 26 de agosto de 2020

A CULPA AGRESSIVA

Normalmente experimentamos sentimento de culpa quando reconhecemos que somos a causa do infortúnio de outra pessoa. A teoria intrapsíquica afirma que as regras e valores morais internos que aprendemos e introjetamos desde a infância, quando violados por nós, nos leva a um sentimento de culpa. A culpa, então, é o resultado emocional de um conflito entre nossas regras e valores e nossos comportamentos ou omissões. Nessa visão, a culpa diz respeito ao sentimento de ter desobedecido aos próprios valores morais internos, mesmo sem agir ou compartilhar o sentimento com os outros. Isso pode causar uma expectativa de punição, expiação ou pedido de desculpas. A pessoa que se sente culpada tem a sensação de ser uma “pessoa má”.

Percebe-se que o sentimento de culpa se dá em razão de ações positivas cometidas, intencionais ou não, ou de ações omissivas, também intencionais ou não. A pessoa se sente culpada pelo que fez ou deixou de fazer e este sentimento o leva a várias opções possíveis, no sentido de amainar o sentimento que passa a corroê-lo.

O primeiro deles é reconhecer que errou ao fazer ou deixar de fazer e assumir este erro junto à pessoa afetada. Se isto já não mais é possível, pelo falecimento ou impossibilidade de encontrá-la, tal reconhecimento pode ser feito junto a terceiras pessoas, um confessor, por exemplo.

O segundo comportamento é encontrar motivos para o seu ato ou para a sua omissão. A pessoa buscará um sem-fim de razões para mostrar que o erro não foi intencional ou que não teve a dimensão que se que dar. É um mecanismo de fuga à responsabilidade.

O terceiro é culpar outros pelo seu erro positivo ou omissivo. Ele não é culpado porque alguém o fez errar ou se omitir, alguém não o informou, ou alguém fez algo que o impediu de agir corretamente. Santo Agostinho, em seu livro “Confissões” tem esta atitude ao dizer que “foi forçado a pecar”.

O quarto é quando a pessoa deixou de fazer ou fez algo e outra pessoa assumiu o papel e fez o que ela deveria ter feito. Há nisto um duplo sentimento: o do erro ao ter falhado e o da acusação sub-reptícia de alguém que assumiu o seu lugar fazendo o que ele não fez. A dimensão da culpa aliada ao sentimento de estar sendo acusado pela prontidão do outro em fazer o que se esperava que ele fizesse, leva a pessoa a denegrir as competências ou habilidades de quem o substituiu.

O mecanismo de achincalhar a pessoa que fez o que ele não fez é cruel e perde o sentido da ética e ultrapassa os limites da civilidade. Para não se sentir culpado e acusado, passa a acusar quem cobriu sua falha com acusações não comprovadas, com tentativas de diminuição das capacidades, habilidades e até mesmo desmerecendo os logros acadêmicos ou profissionais que a pessoa que o substituiu tem. A culpa passa a ser agressiva, dirigida a quem fez o que o agressor não fez.

Na teoria interpessoal, por sua vez, a culpa resulta da consciência de ter causado um dano injustificável a alguém, não ter se comportado de forma altruísta ou amorosa, resultando em comportamento egoísta, fruto da falta de empatia e compaixão, mesmo se tratando de pessoa supostamente amada. Aqui, o gatilho é a presença de uma pessoa em sofrimento ou necessidade, sendo injustamente penalizada pelos seus atos, não ajudando, desprezando ou, simplesmente, ignorando.

Aqui entra o auto-engano: a pessoa má não é quem deveria ser e não amou, mas quem no seu lugar amou e cuidou!

Marcos Inhauser

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

UMA ESTANTE DE LIVROS NAS COSTAS

Nove entre dez entrevistados na televisão, lives de especialistas ou vídeo de “otoridades” em algum assunto, tem uma biblioteca nas costas do indivíduo. Há algumas considerações que merecem ser feitas sobre este fato.

Esta é uma forma de mostrar aos que se dispõe a ouvi-lo ou para chamar a atenção dos que passam de relance, que a pessoa é uma pessoa letrada, com muitos livros lidos e vasto conhecimento na área em que pretende falar alguma coisa. Quanto mais livros o sujeito tiver para mostrar, mais autoridade, supostamente, ele tem. Há um deles, o Guga Chacra, que tem livros dos dois lados de sua cabeça, todos colocados para que se facilite a leitura dos títulos e, como deveria ser, relacionados a assuntos do Oriente Médio e mundo árabe. Tal se dá porque ele é, de fato, um especialista no assunto. O que me chama a atenção é a arrumação deles. Parece que estão ali para promover os livros e se assim for, deve ganhar ou livros grátis das editoras, ou algum cachê.

Um ministro do STF tem uma coleção da Enciclopédia Mirador nas suas costas. Ela só pode ser relíquia bibliográfica por ser tão antiga e desatualizada. Deveria estar no sebo! Há quem mostre uma biblioteca toda certinha, com os livros arrumados por tamanho e, parece, por cor também. As que vi pertencem a mulheres: Cristiana Lobo e Eliana Cantanhede. Há quem tenha uma biblioteca com livros em desalinho e meio que jogados ao léu (Jorge Pontual). Há jornalista que aparece para dar seu furo ou reportagem em frente a estantes que supostamente têm livros.

Recebi há algum tempo uma “live” de pessoa que conheço bem e que o último livro que leu foi para a última prova na Faculdade. Lá estava ele em frente a uma biblioteca que nunca vi na sua casa!

Outra coisa, relacionada a esta é a quantidade de “lives” e vídeos feitos por pregadores. Eles obedecem a dois parâmetros: biblioteca nas costas ou uma baita Bíblia que o pregador segura nas suas mãos. Parece dizer que, quanto maior for a Bíblia, mais autoridade espiritual ele tem. Ao segurá-la de forma meio descuidada, quer passar a ideia de que tem familiaridade com o livro, tal como fazia Billy Graham ao dobrar a sua, encostando a capa na contracapa.

Com a tecnologia do chroma key, podemos duvidar que a biblioteca às costas realmente está ali ou foi montagem de cena. Posso perfeitamente ir à biblioteca municipal ou da Universidade, gravar um vídeo das estantes e depois montar a cena. Eu me coloco na frente deles e os espectadores acharão que tenho uma enorme quantidade de livros e que sou letrado.

Uma coisa também me chama a atenção nestes dias de pandemias: é raro ver um dos epidemiologistas, infectologistas, virologistas aparecer com biblioteca nas suas costas. Preferem aparecer no laboratório, como se tivessem parado a pesquisa para dar a entrevista. Há nisto também um ranço ideológico (no sentido de busca de poder).

Como estamos na era em que qualquer analfabeto se acha especialista em alguma coisa ou em tudo (haja vista a profusão de comentários de quem mal sabe escrever que está nas redes sociais, gente que não aprendeu que na língua portuguesa se usa vírgulas e pontos finais), uma biblioteca nas costas dá uma sensação de “otoridade”. Mesmo que seja montagem!

Marcos Inhauser

 

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

CONHECER-SE: UM DILEMA HISTÓRICO

Demócrito nasceu e viveu entre 460-370 a.C. Filósofo do período pré-socrático, foi o primeiro a formular a teoria atomista que afirmava que tudo é composto de átomos, partículas indivisíveis que diferem apenas pela forma, tamanho, posição e ordem. Não se conhece seus escritos completos, só alguns fragmentos, muitos deles através de citações de Aristóteles, quem era seu crítico.

Ele tem alguns conceitos universais (no sentido de que valiam para a sua época e para a nossa). No fragmento 72 ele diz: “desejar violentamente uma coisa é tornar-se cego para o demais”. A paixão desenfreada por algo ou por uma ideia é sinal de cegueira para outras verdades. O vida focada em um só assunto perde a dimensão e visão das demais. A pessoa passa a ter uma visão de tubo e os ouvidos se fecham para tudo o que não confirma o que crê.

O exagero de acreditar em algo mostra que, de alguma forma, o sujeito está fora de si ou que perdeu o senso de realidade. É um obstinado, cego para outras perspectivas e possibilidades, com a impossibilidade de enxergar-se. Acaba sendo ridículo.

O filósofo Karl Popper, filósofo da ciência, rejeitou as posições indutivistas clássicas propondo o falsificacionismo, porque, para ele, pelas ciências empíricas não se prova nada, mas se falsifica. Tudo deve ser examinado por experimentos decisivos. O que a experiência e as observações podem e fazem é encontrar provas da falsidade de uma teoria. Quando isto acontece, há que eliminá-la por ser falsa e buscar outra que explique o fenômeno em análise. Percebe-se assim que, para o obcecado pelas verdades que crê, não admite ser questionado e muito menos, que alguém prove a falsidade de seu posicionamento. Ele é a verdade e nunca admitirá que pode estar errado. Entra-se no surreal de que a mentira é “liberdade de expressão”.

Quem se conhece a si mesmo, sabe dos seus limites e não exagera na convicção de suas crenças, antes é alguém aberto ao diálogo, ao confronto, ao contraditório. Aceita que, mesmo que creia com toda a força dos argumentos que têm em mãos, pode ser que seu ponto de vista esteja errado ou seja falso. Isto é maturidade. Quem não se enxerga não vê o outro. Só aceita quem diz o que ele diz ou o que ele quer ouvir. O que pensa diferente é inimigo.

O sujeito maduro tem a capacidade de examinar seus próprios sentimentos, de ver-se desde fora de si mesmo, distanciar-se dos exageros que os sentimentos promovem e, assim, reduzir o risco da miopia obtusa que a extremada convicção lhe dá. Cabe aqui o provérbio bíblico: “quem confia no próprio coração é um insensato (28:26).

Em tempos de exacerbação das opiniões via redes sociais, onde cada um tem o poder de escrever e dar sua opinião sobre tudo, mesmo sobre coisas que nunca soube que existia ou que não é de sua área de conhecimento, percebe-se, seja pela ortografia, pela sintaxe ou pela lógica que se revelam ignorantes. No dizer do apóstolo Paulo: “Desviando-se algumas pessoas ..., perderam-se em loquacidade frívola, pretendendo passar por mestres ..., não compreendendo, todavia, nem o que dizem, nem os assuntos sobre os quais fazem ousadas asseverações.” (ITm 1:11).

Marcos Inhauser

 


quarta-feira, 29 de julho de 2020

TOLICE RENITENTE

No seu livro “Autoengano”, Eduardo Giannetti traz a seguinte afirmação; “Se o tolo persistisse em sua tolice ele se tornaria sábio” (pg 56). Citando Platão ele afirma que “todas as tentativas são arriscadas, e é verdadeiro o provérbio segundo o qual aquilo que vale a pena nunca é fácil (República, 497 d). Ao comentar o assunto ele afirma que a atividade humana é como uma loteria, onde a aposta precisa ser paga na entrada, o que leva a melhor parte das esperanças e energias. No entanto, as chances de sucesso são mínimas e para cada ganhador há uma multidão de perdedores”.

Isto assim é, continua Giannetti, porque a capacidade humana de autocontrole, perseverança e autoconhecimento é limitada. O saber não é condição suficiente para o fazer. Há os que, mesmo sabendo muito e ensinando, diante de uma tarefa que exige tenacidade e persistência, desistem ao enfrentar os primeiros embates e justifica sua falta de competência em fazer, acusando e atirando pedras em tudo e todos, como se eles fossem os culpados da sua incompetência. Heráclito dizia que “a natureza ama esconder-se” (frag. 123).

Minha sogra tinha um ditado: “cada ladrão julga por sua condição”. Sem saber, ela afirmava algo que filósofos clássicos já haviam dito. Vejo no outro aquilo que não quero ver em mim, e como não tenho coragem de afirmar que tenho os erros que aponto no outro, é mais fácil projetar e acusar os outros ao invés de me denunciar. Para que não se descubra o seu ignominioso interior, o acusador precisa que os outros creiam na sua credibilidade, que é honesto nas intenções que tem. A máxima por trás disto é o que Protágoras dizia: “qualquer um que não professe ser justo só pode estar louco” (323 b). Para tanto, via de regra, fazem autoelogios: “a minha honestidade não permite”, “tenho um currículo a zelar”, “o tempo mostrará que estou com a razão”. A questão, nestes casos, é a hermenêutica por trás das palavras para descobrir as mentiras que o acusador profere para acobertar o que nele existe.

Como humanos, o maior erro seria nunca errar. Falíveis, erramos desde a fonte da humanidade. No que pese as afirmações dos autoenganados honestos e impolutos, a sapiência está em reconhecer que todos, imperfeitos que somos, não temos autoridade para atirar pedras, por melhor que sejam as razões. O acusar o outro como responsável pelas minhas incapacidades é mecanismo de defesa dos tolos.

Bernstein, no seu livro “Against the Gods” (pg 202) cita um anônimo: “A informação que se tem não é a informação que se quer. A informação que se quer não é a informação da qual se precisa. A informação da qual se precisa não é a que se pode obter. A informação que se pode obter custa mais do que se quer pagar”. Não sei por que, mas me vem à cabeça as mentiras e desistência de um obstinado perdedor, que na loteria da vida ganhou uma presidência e mostrou sua incompetência no trato da pandemia e acusa STF, governadores e prefeitos pelo descalabro.

Para os tolos e perdedores, a busca da informação necessária é tarefa tão cara que eles não estão dispostos a pagar, porque a incompetência inata não lhes dá a resiliência para continuar até o fim e obter o prêmio da vitória. Ao ver o tamanho da estrada desiste da carreira.

A desistência é típica dos frágeis, dos tolos, dos perdedores.

Marcos Inhauser

VERDADE E VERDADES

Mencionei na coluna passada a parresía, que é a virtude de dizer a verdade. Outra anotação sobre o tema está no diálogo entre Sólon e Pisístrato. Sólon afirma sobre Pisístrato: “se o soberano se apresenta exercendo um poder militar, ameaçando pela força armada a outros cidadãos, é normal que que os cidadãos [em troca] cheguem armados”. Se o tema é a parresía, e o governante vem armado de mentiras, é normal que os cidadãos de bem o combatam com investigações e verdades. A certa altura Sólon afirma; “sou mais sábio do que os que não compreenderam os maus desígnios de Pisístrato, e sou mais corajoso dos que o que os conhecem e se calam por terem medo” (Foucault, M. Coragem da Verdade, pg 66).

Sólon desnuda assim que a parresía diante do governo mentiroso é arriscada e pode causar a morte, seja ela física, seja ela moral pela execração da indústria de mentiras que tal governante deve ter. “Quem quiser dizer a verdade no jogo de um regime democrático pode se expor efetivamente a morrer” (Idem, pg 67-68).

Sócrates, na Assembleia de Arginusas, declara: “eu votei contra vosso desejo!”. “Eu estimava que meu dever era enfrentar o perigo com a lei e a justiça, em vez de me associar a vós em vossa vontade de injustiça, por temer prisão e morte” (idem, pg 68). O medo faz a consciência calar-se. Mas esta não é a única razão: o desejo do poder é o que move a muitos para bajular os poderosos de plantão. Com Sócrates aprendemos que a prática de dizer-a-verdade é diferente da que ocorre na cena política. Para ele, mesmo o oráculo proferido pelos deuses deve passar por um elégkhein, palavra grega para “fazer recriminações, objeções, questionar, submeter alguém a um interrogatório, opor-se ao que alguém disse para saber que o que disse se confirma ou não” (idem, pg 70).

Há algumas coisas que pastores e líderes religiosos podem aprender com Sócrates: não dar ouvidos às palavras proferidas, por quem quer que seja, e que se pretende ser a Palavra de Deus via boca de algum “iluminado”. Tudo, absolutamente tudo o que lhe for dito, deve passar pela elégkhein, que é o processo de saber se o que se arvora como parresía é, de fato, a verdade.

Neste raciocínio, o pretenso líder que se arvora como parresiasta e é, ao mesmo tempo, aliado dos poderosos, tem toda a chance de ser um embusteiro, porque a parresía é oposta à democracia, tal como a concebemos e vivemos. Daí que, se levada a lógica ao paroxismo, teremos que afirmar que um político religioso, especialmente o cristão, é uma excrescência. Ou será religioso e, se espera, comprometido com a verdade, ou será político aliado à trama de mentiras que norteia os poderosos. Se coloca os pés nos dois barcos, ou perderá a autoridade religiosa ou se mancomunará com as tramas do poder.

Na necessidade da parresía apareceram os profetas. Nenhum deles esteve associado aos reis, antes, pelo contrário, suas alocuções denunciavam os desmandos, injustiças, mortes e exploração que praticavam. Não é possível ser profeta e político partidário, mesmo porque, como ser social, todos somos políticos, já dizia Aristóteles. A política da parresía dever ser a do cristão, e este engloba as denúncias das injustiças, das explorações, do racismo, da xenofobia, da carga tributária escorchante, da corrupção, do caixa dois, das meias verdades, do negacionismo.

Sinto que faltam parresiastas no Brasil!

Marcos Inhauser

quarta-feira, 15 de julho de 2020

É FAKE?


Que me perdoem os poucos leitores que tenho, mas fui treinado por meu pai, por minha professora de filosofia e pelas leituras de Nassim Taleb e Michel Foucault a duvidar de todas as informações que me chegam, especialmente as relacionadas aos políticos.
Foucault, nas suas últimas aulas, tratava da parresía (falar a verdade) na democracia, algo incomum. Citando Platão e Isócrates diz que, em geral, as pessoas querem ouvir os que “falam no sentido dos seus desejos” e que “a democracia não é o lugar privilegiado da parresía ... e [onde] o exercício da parresía é mais difícil” (A Coragem da Verdade, Pg. 51). Com o Nassim Taleb refinei algo que já tinha: tudo o que tem aprovação da maioria, é senso comum, best seller, tem grande chance de ser engodo.
Vivemos uma democracia que elegeu um presidente que, à medida que as investigações avançam e o Facebook revela, se sabe que usou de desinformação, fake News e robôs para gerar clima antagônico ao oponente e favorável à sua candidatura. Ao fazer isto e polarizar a eleição entre petismo e conservadorismo, o fez por meios maquiavélicos e nada republicanos. Sabe-se que o uso de desinformação, postagens com mensagem não comprovadas, dados incorretos, são a tônica deste que não é um parresiasta. Até um site dedicado a contar as informações equivocadas foi montado (aosfatos.org).
Quero trazer uma inquietação e não uma afirmação. Ele fez alguns testes para saber se teve a Covid-19. Disse que os exames deram negativo. O jornal Estadão conseguiu na Justiça, depois de várias chicanas da parte do requerido, que os exames fossem apresentados e o foram com pseudônimos e justificou-se que assim era por razões de segurança. Neste tempo ele alardeou que era uma gripezinha, receitou a milagrosa hidroxicloroquina, mesmo não sendo médico e contra o posicionamento da comunidade científica, afirmou mais de uma vez que havia certa histeria na veiculação jornalística, tentou maquiar os números de infectados e mortos, brigou com a OMS.
Mais recentemente ele fez um novo teste. Para surpresa geral, ele vem a público e diz que está com Covid-19, apresenta o teste positivo e agora com seu nome. Mais: faz uma entrevista coletiva, retira a máscara para anunciar o fato e que estava muito bem. No outro dia aparece mais de uma vez tomando a milagrosa pílula de hidroxicloroquina e afirmando que estava dando resultados e que estava se sentindo bem.
Estranhei. Todas as pessoas que estiveram com ele nos dias anteriores, quando testados, deram negativo. O Embaixador dos EUA e esposa, as pessoas que com ele viajaram a Florianópolis, os ministros, filho e assessores. Até a esposa testou negativo. Ele é um fenômeno! Não infectou ninguém, apesar do seu descuido com os protocolos que seu governo estabeleceu para todos (menos ele!).
Minha pergunta: será que esta revelação não é fake? Será que ele não veio dizer que estava com a Covid-19 para mostrar que, tal como disse, é uma gripezinha? Será que o remédio maravilhoso não está enchendo os bolsos de quem o fabrica? Como pôde não ter infectado a esposa e o filho? Como este evento da “gripezinha” ajuda a alavancar a candidatura em 2022? Há alguma relação entre a prisão do Queiroz, o emudecimento estranho e a gripezinha? Há alguma relação entre o cancelamento de contas da família no Facebook e esta Covid-19, como forma de criar um boi de piranha?
O tempo dirá. Alguém vai acabar dando com a língua nos dentes e ficaremos sabendo a verdade.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 8 de julho de 2020

ENGANOS SEQUENCIAIS


Lá nos anos 60, venderam-me a ideia de que o problema do país, que era periferia no mundo da economia mundial, era a dependência do centro e que a solução era o socialismo ou comunismo, dependendo de quem me pregava. Do outro lado, leitor assíduo do Estadão e Jornal da Tarde que me acompanharam durante a adolescência, me era vendida a ideia de que o capitalismo era a solução de todos os males. Soube que as marchas da família e a revolução dos militares era a solução para o Brasil entrar no primeiro mundo. Depois, pelo Pasquim, lia a mensagem de crítica aos militares e à ditadura.
Mais tarde, me venderam a ideia de que as multinacionais eram a desgraça deste país e que o jeito de combatê-las era criando as nossas próprias super-empresas. Lá veio a Petrobrás que se agigantou e foi uma das primeiras, no que foi seguida pela Vale e as grandes siderurgias.
Passado algum tempo, veio a onda da dívida externa, que asfixiava nossa vida e que o jeito era decretar a moratória e o perdão incondicional da dívida. Aplaudi o Sarney e fui às ruas pela ideia do Ano Jubileu, ao estilo judaico de passar a régua e recomeçar do zero.
Aí veio o Collor que vendeu a ideia de que o problema do Brasil eram os marajás e os funcionários públicos. Deu no que deu. Veio o FHC e disse que o problema eram as estatais. Vendeu tudo e o dinheiro sumiu, e ainda por cima enfiou outro engodo: o problema estava nas aposentadorias e no INSS. Veio o Lula, mexeu nas aposentadorias, pegou uma maré internacional super-boa, aumentou a carga tributária na relação com o PIB e ainda veio com o discurso de que a CPMF era necessária e que não se cortam quarenta bilhões de uma hora para outra.  Teve um mandato e meio para se preparar e não se preparou para a redução e/ou corte da CPMF.
Veio o Temer e insistiu na Reforma da Previdência para a solução dos males brasileiros. Não conseguiu porque foi flagrado em outro mal brasileiro: a corrupção via gravação de conversas nada republicanas com empresário da JBS.
Veio o atual com seu Posto Ipiranga. Prometeu o paraíso em curto espaço de tempo. Fala fácil e metáforas afinadas, conseguiu fazer a reforma da previdência, não por empenho do chefe, mas por trabalho do César Maia. Agora ele retorna no pós-pandemia prometendo privatizar quase tudo como solução para o reaquecimento da economia. Fala em privatizar os Correios, o Banco do Brasil, a Telebrás e outras coisas mais.
Não acredito nesta arenga! Já venderam a Vale, as teles estaduais, os licenciamentos para uso das bandas da telefonia celular, e o dinheiro sumiu, ninguém sabe, ninguém viu.
De minha parte, não acredito em mais nada a não ser na história, analisada depois de alguns anos dos fatos e assim mesmo com os filtros e condicionantes dos instrumentos de análise. E desta experiência me sobram o ceticismo, a aversão à classe política e uma azia incurável a discurso político-partidário. De uma coisa sei: não confio no Posto Ipiranga e nem no chefe dele.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 1 de julho de 2020

A "CONVERSÃO” DE CONSTANTINO


História ou "lenda", conta-se que Constantino viu um sinal no céu: uma cruz com as insígnias "com este sinal você vencerá". Constantino estava fraquejando nas suas crenças no Panteão Romano e inclinado a acreditar em um só Deus. Por causa da visão a cruz foi colocada nos escudos. Constantino venceu a batalha, como prometia a visão, e ele passou a se achar o escolhido por Deus.
Constantino tornou-se um enigma para os cristãos e historiadores. Foi conversão ou movimento político para colocar os cristãos sob sua influência? Muitos acreditam na inteligência de Constantino e os primeiros anabatistas acreditavam que a conversão era fake. Com ele a igreja se afastou de sua origem simples. A mãe de Constantino, Helena, "se converteu" pouco depois que o marido a deixou.
Aliado às vitórias que obteve após a visão e o sinal da cruz colocado nos escudos, algo aconteceu a Constantino. A melhor das hipóteses é que ele se converteu, e a pior é que ele tomou uma decisão política.
Ele viveu cercado por filósofos, sábios e pagãos. Em raras ocasiões, ele se conformava às exigências da adoração cristã. Suas cartas aos bispos mostram quão pouco as diferenças teológicas o interessavam. Os bispos foram tratados por ele como assistentes políticos. Os concílios eclesiásticos foram convocados e presididos pelo imperador. Para ele, o cristianismo significava um meio, não um fim.
Ele usou a linguagem monoteísta que qualquer pessoa aceita. Durante a primeira parte de sua conversão, ele participou do cerimonial exigido como Pontifex Maximus; mas os templos pagãos foram restaurados, ele usou os ritos cristãos, assim como os ritos pagãos, usou fórmulas mágicas para proteger as plantações e curar doenças.
Ocorreram mudanças: os símbolos pagãos desapareciam; os bispos tinham maior poder em suas comunidades e localidades; as igrejas eram isentas de impostos; houve legalização e direito de posse; a propriedade dos mártires poderia pertencer à igreja sem fazer inventário; templos foram construídos com dinheiro público; a nova capital Constantinopla foi construída por Constantino para ser a nova sede do império e da Igreja; a proibição do culto às imagens; as seitas cristãs começaram a sofrer perseguição.
Muitos ficaram felizes com as mudanças, vendo a mão de Deus. Outros tinham preocupações pessoais específicas ligadas a heresias que grassavam pelas igrejas. Elas não eram vistas pelo imperador como assuntos religiosos, mas como ameaça ao império.
Percebe-se que usar a religião para realização de projetos pessoais de poder é coisa antiga. Outro já usaram, tanto na Antiguidade como na Modernidade. À medida que a população cristã cresce em um país, candidatos “evangélicos” aparecem. Que o diga a Guatemala.
A ingenuidade de grande parcela do segmento religioso acredita que, porque o candidato usa um versículo da Bíblia como lema de campanha, ou participa de alguns cultos, se deixa batizar ou se casou com uma membro de igreja batista, ele tem a chancela do divino sobre sua proposta. Outros, pretensos líderes evangélicos que detém algumas horas de programação televisiva pagas com o suor alheio, precisando que suas dívidas fiscais milionárias sejam perdoadas por uma canetada do presidente-evangélico, ficam babando ovos à sua volta.
O evangelho já alerta quem usa de trechos do evangelho para se eleger: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! Entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.” Promover o armamentismo, mentir repetidas vezes, ofender, desprezar os 58.000 mortos não é ser cristão, ainda que diga Senhor, Senhor!
Marcos Inhauser

quarta-feira, 24 de junho de 2020

ORE PELAS AUTORIDADES!


Já recebi um monte de e-mails e mensagens privadas e públicas me criticando por fazer críticas aos governantes. Estas mensagens não têm cor ideológica: recebia no tempo do Lula, da Dilma do Temer e agora com o Bolsonaro. 

O interessante é que estas recomendações me são enviadas por quem, sendo apoiador do governante de plantão, se sentiu ofendido. Via de regra, as exortações vêm acompanhadas do conselho de que deveria usar do espaço da coluna para evangelizar e não me meter em política.

Quero me deter no conselho de que devo orar pelas autoridades. Se a memória não me falha, não encontro em nenhum dos profetas do Antigo Testamento um deles em oração pelos reis do seu tempo. Nem mesmo o impoluto Daniel! Antes, pelo contrário, encontro uma montanha de sermões e oráculos mostrando os pecados dos reis que praticavam injustiças e oprimiam os pobres, viúvas, órfãos e estrangeiros.

Também não encontro nos evangelhos sinóticos nenhuma menção a uma oração específica de Jesus, ou uma recomendação dEle aos Seus discípulos para que orassem pelos invasores de Israel, os romanos. Olhando para o Evangelho de João, o mesmo posso afirmar. Nem mesmo no sermão de despedida há qualquer alusão aos governantes e a necessidade de orar por eles. Não há nada no Sermão da Montanha, no Sermão das Dores, nem nas parábolas ou milagres.

O que se tem na Bíblia são as recomendações paulinas: “Antes de tudo, recomendo que se façam súplicas, orações, intercessões e ações de graças por todos os homens; pelos reis e por todos os que exercem autoridade, para que tenhamos uma vida tranquila e pacífica, com toda a piedade e dignidade”. (ITm 2:1,2) e ainda "porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas" (Rm 13:1). A questão é saber o que Paulo entende por autoridade.

No mesmo contexto em que pede as orações, ele afirma: “quando as autoridades cumprem os seus deveres, elas estão a serviço de Deus” (13:6). Resumindo: é autoridade aquela que cumpre com seus deveres. Quais deveres? “Porque as autoridades estão a serviço de Deus para o bem. Elas estão a serviço de Deus e trazem o castigo dele sobre os que fazem o mal”. Elas, em outras palavras, cumprem com o dever de promover a paz, a vida, a dignidade humana, a justiça etc.

Quando a “autoridade” promove dissensões, conflitos, impede a aplicação das leis, protege os mais chegados e ofende os que se lhe opõem, interfere nas instâncias que não lhe compete, se nega a ver a realidade dos fatos, menospreza as mortes, faz críticas contundentes, mas sempre genéricas sem especificar ou pessoalizar, ela pode ser tudo, menos autoridade.

Há aqui uma distinção que merece ser feita. Os votos podem dar a uma pessoa uma posição de vereador, prefeito, governador, deputado, senador ou presidente. Isto não implica que, automaticamente tenha autoridade. Ele tem o poder, que é diferente da autoridade. Esta se constrói com o exemplo, com as decisões sábias, com afirmativas prudentes e pacificadoras, com a construção de pontes de diálogo, com decisões imparciais, mesmo que afete a vida do filhos. O uso do poder pode levar a esconder quem não pode ficar à mercê da imprensa. Autoridade é dizer onde se encontram os bandidos e encaminhá-los para o juízo justo e imparcial.

Tenho disposição de orar por quem é autoridade e não por quem está investido de poder sem a autoridade que deveria ter.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 17 de junho de 2020

QUANDO AS PALAVRAS FALTAM

É jargão alguém dizer: “não tenho palavras para dizer ...” Elas revelam algumas coisas sobre a pessoa que as profere. A primeira é que o que ele está sentindo ou vendo é de tal magnitude que todas as palavras que têm ou conhece não exprimem o sentido e a verdade do momento. É como se algo que dissesse fosse insuficiente. Ao dizer as palavras comuns deixa a aberta a porta para que que os ouvintes imaginem o que gostaria de dizer. Ocorre que, mesmo imaginando, não se consegue chegar perto do que a pessoa sente ou vê, porque não há pistas para se seguir.
Outro grupo de pessoas é formado por aquelas que não tem vocabulário. Estudaram pouco ou só passaram pela escola, não leram um livro na vida e o que sabem falar é o corriqueiro. Nada que consiga expressar conceitos ou sentimentos. Diz o trivial, o básico. Nada além disto porque lhe faltam mais palavras.
Há o que tem dificuldades de se expressar porque teve o contato com o numinoso. O apóstolo Paulo, ao falar da experiência de arrebatamento e ida ao céu, afirmou que ouviu palavras inefáveis que ao homem não é lícito pronunciar. Tenho para comigo que ele não tinha palavras para descrever.
Há, no entanto, aquele que nunca vai proferir a frase “não tenho palavras...” porque acha que tem palavras para tudo. Fala besteiras, vomita obviedades, se acha sábio e não percebe que é uma anta rosnando. Estes que são rasos de vocabulário e de autopercepção falam pelos cotovelos porque creem que falam pérolas. O único livro que leram foi o “Caminho Suave” quando foram alfabetizados.
As pessoas com déficit de vocabulário se revelam pela quantidade de vezes que repetem as muletas orais. Abundam nas suas falas o “né”, “entendeu”, “realmente” e coisas parecidas. Falam uma palavra ou frase e usam a muleta para pensar no que vão falar adiante. O discurso não é fluído, fácil.
Outra característica é que acreditam nas coisas sem muita inquirição ou análise, porque lhes falta o treino da lógica e o vocabulário para ler algo mais denso. Se tiverem que ler uma explicação do porquê a terra precisa ser redonda e não plana em função das leis físicas, prefere ser terraplanista, por não entender a diferença entre vírus e bactérias e pela falta de treino no estudo, prefere ser negacionista. Não consegue ter visão universal, antes vê o mundo a partir da sua ótica de tubo: uma coisa de cada vez. Acha que floresta são as árvores que ele vê. Não consegue ver a floresta como um todo.
Quando o vocabulário da pessoa é raso, parco e pobre, ele usa palavrões, os mais variados. Não tem outra forma de se expressar, não tem vocabulário e usa uma infinidade de vulgaridades para se expressar, para ofender, para denegrir.
O Brasil tem exemplos pródigos de autoridades que se enrolam ao falar. Há os que tinham muitas palavras, mas pouca empolgação para falar e para ouvir. Refiro-me ao Sarney e ao FHC. Há o que falava empolgado, mas era pastel chinês, sem recheio: Collor. O Itamar mais parecia um gravador: monocórdico. O Lula falava empolgado, empolgava que o ouvia e usava metáforas o que ajudava no seu vocabulário escasso. A Dilma não se entendia o que falava, pois sem nexo. O Temer abusava das mesóclises e pouco se aproveitava do que dizia.
O atual, que cada qual classifique em uma das categorias aqui colocadas.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 10 de junho de 2020

1984: JÁ FOI, É OU SERÁ?


Li o romance “1984” em 1976. Ele é a visão-pesadelo de George Orwell sobre o totalitarismo. Publicado após a Segunda Guerra Mundial, permanece atual. Nele Orwell trata do abuso do poder, a negação do eu e a erradicação do passado e do futuro. Lembro-me de alguns pensamentos e sentimentos que me afloraram com a leitura.
Um deles, a sensação de que 1984, que àquela altura estava tão próximo, não me parecia que se concretizaria na data prevista pelo autor, mas que poderia ocorrer em futuro mais longínquo. O outro foi a repulsa sentida com os “reescritores da história”, encarregados que eram de reescrever os dados e discursos do regime totalitário, para que ninguém pudesse acusá-lo de ter mudado de opinião. Estes reescritores também se encarregavam de maquiar os números de safras e produtividade, para mostrar um regime mais bonito do que na realidade era.
Na sequência li “Revolução dos Bichos”, e impressionou-me a facilidade com que se mudavam as leis revolucionárias para criar uma casta e justificar os desmandos do Porco Ditador. Incentivado pelas leituras anteriores li “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, onde o autor apresenta uma sociedade organizada cientificamente. As pessoas são programadas em laboratório e domesticadas segundo os interesses da sociedade. Elas não têm consciência crítica e aceitam as notícias tal como lhes são passadas. A cultura (literatura, a música e o cinema) só solidifica o conformismo. Há avanço da técnica, a linha de montagem, a produção em série, a uniformidade, a obediência cega.

Estes três livros me vêm à mente nestes dias, com as investigações sobre as fake news, a polarização política, os desmandos governamentais, a manipulação de dados, a negação da ditadura, a exaltação de torturadores, o armamentismo da população, a imprecisão das informações presidenciais, as mentiras ditas com a firmeza de quem acredita nelas como sendo expressão da verdade. O site www.aosfatos.org fez recenseamento das frases ditas e concluiu que, em “Em 524 dias como presidente, Bolsonaro deu 1151 declarações falsas ou distorcidas”.

Não bastasse isto, a recente interferência no Ministério da Saúde transformando-o em quartel pela quantidade de militares ali alocados, sem expertise na área da saúde, causa espanto. Mais espantoso ainda é que, em plena pandemia, não se tenha um ministro médico, nem se lidere as ações de combate, jogando no colo dos governadores e prefeitos. Como desgraça pouca é bobagem, a manipulação dos dados estatísticos, a mudança nos critérios e a omissão de informação relevante para o combate ao Covid-19, vem me dar a certeza de “1984” e “Admirável Mundo Novo” não são utopias impossíveis. O número de mortos diários precisa ser reduzido pela engenharia estatística e pela reconceituação dos óbitos. Chame-se os reescritores da história!

A imprensa está noticiando o que não agrada? Fabrique-se notícias e espalhe-se pelas redes sociais! O povo vai engolir porque não tem massa crítica! Os ministros do STF estão interferindo nas decisões do mandatário? Coloque os produtores em série de manifestações e peça o fechamento do STF e Congresso! Precisa dizer algo? Crie um “curral de vaquinhas de presépio” e todos os dias faça as lives sem a mediação da grande mídia!

Marcos Inhauser


quarta-feira, 3 de junho de 2020

O DERRETIMENTO DAS AUTORIDADES


Não é de hoje que o mundo ressente a falta de grandes líderes. Há quem cite Churchill, Eisenhower, Mandela e Margareth Tatcher como os últimos que a humanidade produziu. Há quem se aventure a citar Barack Obama e Angela Merkel.

Se se faz um reconto nas lideranças políticas das últimas três décadas, vamos perceber que muitos dos que se destacaram, tiveram suas autoridades questionadas, deterioradas, derretidas e acabaram condenados pela opinião pública. Daria para citar muitos exemplos. Faço uma lista dos que agora me lembro. Perón na Argentina que, ao regressar do exílio, não teve o lustre que o havia caracterizado. Deixou a Evita no seu lugar, que acabou em desgraça. A Cristina Kirchner e o Mauricio Macri deixaram péssimas heranças. A Michele Bachelet, do Chile, saiu questionada por conta de empréstimos concedidos a seu filho. O sucessor, Sebastián Piñera, enfrentou a convulsão social e teve que ceder para sobreviver na presidência.

Os Bush, tanto o pai como o filho, foram questionados pelo envolvimento nas guerras do Iraque e Afeganistão. O Nixon teve que renunciar por causa do Watergate. O Clinton enfrentou um processo de impeachment pelo seu envolvimento com a estagiária, Monica Lewinsky.

O atual, Trump, mais dá tiro no pé que governa. Não tem propostas objetivas para os problemas que enfrenta. O seu remédio, a hidroxicloroquina, não ajuda na pandemia, não soluciona a economia e não apazigua os ânimos exaltados da população negra.

O Macron, na França, anda se equilibrando, assim como seu par, o Boris Johnson na Inglaterra. Depois que o Corona o pegou, teve que mudar de rumo e não recuperou o seu prestígio. A sua antecessora, a Theresa May, fez o que pôde e não conseguiu se manter no cargo.

Olhe-se para a Itália, onde há uma dificuldade enorme para se montar um gabinete, coisa que também acontece com o Netanyahu em Israel, que compôs com a oposição para ter sobrevida. O Peru, com o ex-presidente que se suicidou por causa de corrupção, mais os dois presidentes que também derreteram pela mesma acusação.

A Nicarágua teve um líder, Daniel Ortega que, ao regressar ao poder, se transformou em déspota. O mesmo ocorre com o Putin, na Rússia. A liderança do Xi Jinping é mantida por um partido monolítico e altamente obediente.

No Brasil dos anos recentes Sarney saiu queimado da presidência, seguido pelo carbonizado Collor. O Lula acabou preso, a Dilma é alvo de chacotas pelas suas declarações sem pé nem cabeça. O Temer saiu do poder, mas não sai do noticiário policial.

O Brasil de hoje vive dias de angústia, tanto para os que estão no poder, como para os que fazem oposição. A autoridade presidencial vem derretendo sob o sol escaldante das milhares de morte e contaminados, de um vídeo de uma reunião abjeta onde mais se falou palavrões do que se decidiu algo, das investigações que se aproximam do Planalto, de filhos que mais tumultuam que ajudam.

Assim como o gelo e a neve, as autoridades estão derretendo. Os exemplos estão aí, seja por envolvimento com a corrupção, por inépcia, incúria ou incontinência verbal e comportamental.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 27 de maio de 2020

REGRA PARA AVALIAÇÃO DOS REIS


Na antiguidade era comum os reis serem considerados deuses. Assim era com os Faraós. Eles não eram considerados simples reis, mas eram tidos como de caráter divino, filhos dos deuses e seu corpo era divino, porque seu sangue teria origem no deus Hórus. 

O Faraó, assim concebido, era o administrador máximo, chefe do exército, juiz e sacerdote. Ele decidia sozinho, sendo, na quase totalidade deles, déspotas. Quando delegava suas missões a assessores, fazia questão de ter o controle das decisões. Tinha um séquito de escribas que registravam seus atos, decretos, relações comerciais. Nesta narrativa, como se pode depreender, vicejava o elogio, a exaltação dos seus feitos heroicos. Muitas destas narrativas eram exageradas ou mesmo falsas.

Por serem deuses ou filhos dos deuses, só podiam se casar com quem também tivesse sangue divino. Os casamentos entre irmãos e parentes próximos era comum, razão pela qual, muitos deles sofriam de enfermidades e deformações por causa dos casamentos consanguíneos. Os pais de Tutancâmon eram irmãos e seu pai, Aquenáton, costumava procriar com as próprias filhas. Não é de se admirar que fossem machistas. Ainda que houvesse mulher com sangue divino (como Hatchepsut) ela era representada em esculturas com barba.

Não é de surpreender também que, para eles, a família era o reino, fazendo de tudo para preservar os seus, sob o argumento de que preservavam a realeza divina. Para reafirmar a divindade, tinham os sacerdotes que se encarregavam de reforçar a ideia da natureza divina deles, incensando-os como divinos e mitológicos, porque descendentes do deus Hórus

Este padrão foi, em certa medida, preservado nos reis da Idade Média, quando se desenvolveu o conceito do direito divino dos reis, pelo qual o reinado deles tinha sua origem e sustentação na vontade de Deus. A raiz disto, provavelmente, está em Constantino, o imperador “cristão”

Foi em Israel que se pode notar mudança significativa. Os reis de Israel e Judá não eram divinos ou filho dos deuses. Eram “escolhidos” e ungidos (abençoados). A avaliação que se fazia dos seus reinados era a concordância dos seus atos com a Lei do Senhor. Exemplo disto é a do sábio Salomão: “Porque Salomão me deixou ... e não andou nos meus caminhos para fazer o que é reto perante mim, a saber, os meus estatutos e os meus juízos, como fez Davi, seu pai. (IRs 11:33); “Fez o que era mau perante o SENHOR e andou nos caminhos de seu pai e no pecado com que seu pai fizera pecar a Israel” (IRs 15:26) e tantos outros exemplos.

Os governantes modernos que se dizem cristãos devem ser analisados pela mesma regra, acentuando-se que, além dos “estatutos e juízos” de Deus, há os ensinamentos de Jesus. As regras dos Dez Mandamentos de “não matarás”, “não dirás falso testemunho” (entenda-se “não mentirás”), mais os ensinamentos do Sermão da Montanha (bem-aventurados os misericordiosos, os pacificadores, os mansos) são padrões para avaliar governantes.

Quem promove a morte por ato ou decisão indireta, quem semeia a discórdia, a divisão, o conflito, quem mente (uma ou reiteradas vezes), ainda que afirme ou se creia o messias (ungido para tal missão), é tudo menos evangélico. Não basta repetir versículo bíblico, ter sido batizado ou ter parentes cristãos, nem mesmo uma horda de “religiosos aduladores”. A vida e os atos é que devem ser avaliados à luz das Escrituras.

Marcos Inhauser.

quarta-feira, 20 de maio de 2020

AS “LIVES” ME MATAM

Virou moda! A quantidade de gente fazendo “lives” é estarrecedora! Se fosse acompanhar todas que fui convidado, não faria outra coisa. É uma nova onda de pregadores, professores, especialistas de toda espécie etc.

Vi algumas de gente que não conhecia. Eram “mesmólogos”: especialistas em repetir o que há se sabe e uma multidão já disse. Vi gente, sem ideia do que seja um vídeo gravado ou uma transmissão ao vivo, tentando fazer “sua live”. Um desastre! Um deles, sentado em uma cadeira de cozinha em um quarto vazio, com um notebook no colo, câmera mal focalizada, lia um sermão horroroso.

Outro iniciou dizendo que era militar reformado, que havia recebido, depois da aposentadoria, um chamado para abrir uma igreja (Luizão: vocação reumática!), falou o que tem feito para que a igreja cresça e mostrou “sua igreja”: um salão vazio, cheio de cadeiras e um palco com alguns instrumentos. Ninguém mais do que ele. O primeiro desatino foi confundir igreja com templo ou salão de reunião. Igreja nunca foi e nunca será edifício, catedral, templo ou salão. Igreja é gente reunida em nome de Jesus. Não importa onde se reúna.

Participei de uma igreja que se reunia debaixo de uma árvore na Nicarágua e de outra que se reunia entre os escombros de um templo abalado pelo terremoto de Manágua. Na Coréia visitamos uma igreja que se reunia na rua, todos sentados no chão. Um grupo da Igreja da Irmandade na Austrália se reunia nas escadarias de um edifício. Na igreja primitiva ela se reunia nas casas dos familiares.

Recebi esta semana um vídeo de um “té-logo” implorando ao governador para permitir que os pastores fossem aos templos para que de lá pudessem gravar suas lives, pois não estavam se reunindo, segundo orientação governamental. Para ele, para que a live fosse abençoada, precisava ser gravada no templo. A benção depende do local onde ela é ministrada e deve ser feita no templo!

Acrescente-se a isto a quantidade de lives de artistas. Só no sábado passado dever ter havido umas dez, uma atrás da outra, de gente conhecida e outras nem tanto. Recebi o convite para uma dupla (irmão e irmã): ele tocando o básico no violão, ela cantando desafinado.

Neste universo da mesmice, raros são os casos de gente que tem algo novo e sábio para dizer. Cito um exemplo entre alguns: o Rev. Lampreia. Acho mesmo que tem gente que se acha tão bonita que precisa mostar a cara na live. Sendo eu um antinarcísico juramentado, tenho meus pruridos com esta profusão de faces falando coisas, seja em vídeos ou lives. Parece que, se não aparecer a cara do sujeito, não serve. A opção do podcast, onde só a ideia é veiculada, sem necessidade de colocar uma face, não tem sido usada pelos pregadores virtuais.

Preocupa-me o que está por trás dos pregadores que usam a live: acham que gravar um sermonete, reproduzir um culto em templo vazio, ler trechos bíblicos é pastorear o rebanho. Pastoreio é mais que lives. Envolve o face-a-face, o escutar pacientemente, entender os sentimentos numa dimensão empática e não simpática. O syn+pathós é sentir com o outro, dois sentimentos que caminham justos. O em+pathós significa entrar no sentimento do outro e sentir da mesma maneira que ele sente. É ser um com o sentimento do outro.

Pregadores não são, necessariamente pastores. "Lives" não pastoreiam.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 13 de maio de 2020

ESCOLA EM CASA

Uma das coisas que esta pandemia produziu foi trazer a escola para dentro de casa. Havia, em certa parcela da população, um clamor para que o governo liberasse o “homeschooling”, onde pais e mães se encarregariam de, no ambiente familiar, ensinar os conteúdos previstos para cada ano escolar. O sistema, utilizado em países europeus e nos Estados Unidos, tem um viés ideológico bastante acentuado.

Há vários argumentos evocados pelos “homeschoolers”. Um deles é que, sendo os filhos educados em casa, há mais segurança para eles ao não se exporem à necessidade diária de se locomover até um determinado ponto. Evita-se também o bullying. Há nisto certo romantismo de que o lar é um ambiente seguro. Se se considera as estatísticas sobre violência e abuso da criança e adolescente, a gente fica estarrecido. A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM) e o Ministério dos Direitos Humanos informa que, no Brasil, diariamente, são notificadas a média de 233 agressões de diferentes tipos (física, psicológica e tortura) contra crianças e adolescentes com idade até 19 anos. Estes dados são corroborados pelo Sistema Nacional de Agravos de Notificação (Sinan), que mostram que, em 2017, foram feitas 85.293 notificações. Na escola, bem ou mal, há controle externo sobre possíveis violências (professores, inspetores, colegas, polícia, etc.)

Outro argumento é o do controle sobre o conteúdo a ser ensinado. Os pais questionam certos ensinos passados (evolucionismo versus criacionismo, educação sexual, papel social dos gêneros, modelo patriarcal e hierárquico de estruturação familiar, etc.) Percebe-se que, os mais ferrenhos defensores do sistema de homeschooling são oriundos de igreja fundamentalistas, onde as verdades absolutas são a constante. Não é de se estranhar que entre estes haja quem defenda o terraplanismo, a criação da terra há pouco mais de seis mil anos, que ela foi criada em seis dias, negacionismo, talvez até o geocentrismo. Dizer que duvidam da ciência e que preferem as afirmações da fé é voltar ao período medieval, quando a “teologia” era a “scientia prima”, e toda e qualquer formulação deveria se ajustar aos ditames da fé. Que o diga Galileu.

Também se alega que os pais são os que devem escolher o que seus filhos devem aprender, de acordo com suas visões de mundo e possibilidades profissionais. Eles devem determinar o que pode e não pode ser ensinado, para que o saber adquirido seja o necessário para vida profissional que vão ter. Trabalha-se com a ideia de que há saber supérfluo.

Um dos graves problemas deste modelo familiar de educação é que promove pessoas que aprendem sem o confronto com outras pessoas e ideias. Por adquirirem conhecimento em redomas, sem a possibilidade de conhecer outras formulações, cria-se o “dono da verdade”. Seu universo cognitivo se restringe aos que seus pais determinaram que deveriam conhecer e o que sabem lhes foi passado com sendo a mais pura expressão da verdade. Na vida social tenderão a ser arrogantes achando que têm saber superior.

Uma das coisas que a atual crise tem trazido à tona é a necessidade do convívio social. Ficar isolado, sem contatos e relacionamentos com os outros, sem abraçar, beijar, comer juntos é torturante. Os relacionamentos se tornam mais saborosos e proveitosos quando a identidade dos relacionados têm mais ou menos a mesma estrutura e nível cognitivo. Os “donos da verdade” terão dificuldades em se relacionar e se isolarão. Isto leva ao provérbio bíblico: “Aquele que vive isolado busca seu próprio interesse; insurge-se contra a verdadeira sabedoria.” (Pr 18:1)

Marcos Inhauser

quarta-feira, 6 de maio de 2020

AUTOAFIRMAÇÃO

Se se busca informações sobre o conceito de autoafirmação, encontrar-se-ão milhares de artigos e posicionamentos sobre o tema, muitos deles conflitantes. A autoafirmação é a ação que uma pessoa faz para dizer quem ela é, o que faz e o que não sabe fazer.

Assim, há uma autoafirmação que é positiva e necessária para a solidificação da identidade pessoal. Devo saber quem sou, o que gosto, o que não gosto, o que sei fazer bem, o que sei fazer e o faço, mas não com excelência, e o que, decididamente, não sei fazer. Isto devo ter bem claro para mim. Algumas vezes isto deve ser dito aos outros para que saibam quem sou. Faz parte da construção de relacionamentos saudáveis. Ela é saudável e necessária.

Há também uma autoafirmação destrutiva, quando a pessoa se desmerece, se diminui na frente dos outros, se anula nos relacionamentos. Ela acha que não tem qualidades e deixa isto refletir na forma como se relaciona. Ela é corrosiva e deve ser trabalhada.

Há uma autoafirmação repetitiva que é preocupante. Ela é feita pelas pessoas que, sentindo-se inseguras ou não acreditando no que fazem ou posição que têm, precisam dizer repetidas vezes: “eu sou o chefe”, “quem toma decisões aqui sou eu”, “eu tenho o melhor carro”, “quem está na cadeira de chefe sou eu”, “eu sou empreendedor”, “eu sou doutor”, “eu tenho amigos importantes”, “eu apareço nas colunas sociais”, “eu sou uma pessoa religiosa”, “eu sou o cara”, “eu sou uma mulher linda” “não vou admitir que haja interferências nas minhas decisões”, “quem manda em casa sou eu”, “sou bonita”, “sou másculo”, “eu sou bom no que faço”, “eu tenho a caneta” etc.

Esta autoafirmação se dá por causa da enorme carência afetiva que alguns têm. Precisam estar em evidência, ter suas qualidades constantemente reconhecidas. Elas, no íntimo, não acreditam em si mesmas, duvidam que os outros reconheçam suas posições, autoridade e poder. Por isto precisam afirmar diante dos outros e de si mesmos, para, de algum modo convencer e ser convencido. A autoafirmação repetitiva transforma-se em uma manifestação neurótica de se destacar diante dos outros, para ser respeitado, aprovado e enaltecido.

Provavelmente viveram experiências traumáticas, se sentiram desprezados, excluídos ou submetidos às situações humilhantes, sofreram bullying na infância ou adolescência.

O exagero na autoafirmação é mecanismo de compensação porque tem visão alienada do mundo e é recurso para compensar o medo de perder espaço na vida pessoal e social.

Diante de uma pessoa que, sem necessidade, faz autoafirmações e se coloca como superior, o melhor é desconversar e mudar de assunto. O que elas querem é que se concorde com elas ou que se dê espaço para que demonstrem suas “qualidades”.

Estávamos em uma roda de amigos, alguns deles gerentes e diretores de RH. O “autoafirmativo”, novo no grupo, do nada disse que estava fazendo coaching e que seu método era superior. Disse isto e adicionou: “eu tenho muita experiência como diretor de empresa e muita vivência lidando com comportamentos humanos”. Um a um foi se levantando. Ao final ficou falando a um único que permaneceu e que tinha o dom de vítima.

O autoafirmativo arrogante é intragável. Ele quer se convencer que é bom tentando convencer os outros das suas qualidades e estas não são impostas, mas reconhecidas na vivência. Se preciso dizer que sou é porque ninguém está reconhecendo.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 29 de abril de 2020

O CONTEÚDO IDEOLÓGICO DO PODER

Já dizia o Maquiavel que: “percebendo os grandes (elites) que não podem resistir ao povo, começam a dar reputação a um dos seus elementos e o fazem príncipe, para poder, sob sua sombra, satisfazer seus apetites” (Maquiavel, Cap. IX, parágrafo II). Já disse Marx que o "Estado moderno não passa de um comitê instituído para gerenciar os interesses da Burguesia" (perdi o endereço da citação).

A democracia representativa via eleições que têm um amplo uso da mídia (caríssima) não é jogo para pequenos. Uma campanha para vereador, prefeito, deputado estadual, federal, senador ou presidência exige investimentos muitas vezes superior aos proventos que porventura venham a receber. Se ganha, precisa se locupletar para pagar o que gastou e ainda sair com algum. Se perde e tem o apoio do partido, pode receber algum do fundo partidário. Se não tem, está falido. É um investimento de alto risco!

Há que se considerar também que há um conjunto de regras, leis, decretos e verbas que facilitam a reeleição de quem já são deputados, prefeitos ou presidentes. No caso dos deputados e vereadores, há os assessores que, na verdade, funcionam como cabos eleitorais. No caso dos deputados, além dos assessores, as verbas parlamentares destinadas aos seus redutos eleitorais ajudam a alavancar os votos. Daí porque a renovação das câmaras e senado é mínima.

O coeficiente eleitoral é outro imbróglio, porque elege quem não teve votos, mas está um em partido que tem um Tiririca ou Enéas.

Se se entende que a democracia representativa, via voto popular, deve eleger os que têm a maioria de votos da população, é uma excrescência alguém ser eleito com 30% ou 35% dos votos válidos de uma nação. Ele vai representar a nação 100% com 30% de apoio! O eleito, financiado que foi seja pelo partido (uso de verbas públicas) ou via apoio de empresários ou elite econômica, o foi porque esta gente tem seus interesses que deverão ser defendidos. Ser financiados pela indústria das armas implica em legislar a favor da liberação das armas. A medida provisória 936, foi questionada e, em parte, foi revogada. O dono da Havan, apoiador número 1 do presidente, foi rápido no gatilho: em poucas horas da entrada em vigência ele fez uso dela e demitiu 11.000 funcionários. Parece que sabia de antemão o que iria ser editada. Estes funcionários estão agora em um limbo jurídico.

O Paulo Freire, tão vilipendiado pela atual administração, tem um parágrafo elucidador no seu “Educação como Prática da Liberdade” (pg. 17) “Do ponto de vista das elites, a questão se apresenta de modo claro: trata-se de acomodar as classes populares emergentes, domesticá-las em algum esquema de poder ao gosto das classes dominantes”. As idas e vindas no ministério da Educação mostram este acomodamento. Um ministro incompetente, que mal sabe escrever, que tem o dedo podre porque tudo o que toca vira piada, acomoda os sonhos dos emergentes via Enem e FIES, onde a reprovação é culpa do sonhador e o custo é bancado a posteriori por quem ousou sonhar e “alcançou seu sonho”.

Como um governo que tem 33% de apoio e 67% de rejeição, que tem metade da população querendo o seu impeachment ou renúncia, que troca o Superintendente da PF (Polícia Federal) e a transforma em PF (Polícia Familiar) pode se sustentar? Um piromaníaco que, tendo o incêndio do Corona Vírus não se contenta e ateia mais fogo?

Há segredos obscuros nas salas e cafezinhos de Brasília. Há financiamento inexplicáveis que o STF está tentando desvendar.

Marcos Inhauser

DOIS DISCURSOS SOBRE A IGNORÂNCIA

Semana passada, o Brasil e o mundo tiveram a possibilidade de ouvir dois discursos por ocasião da posse do novo ministro da Saúde. Foram dois discursos sobre a ignorância.

O discurso do presidente é o da ignorância de alguém que ignora a ciência, os dados estatísticos, a vivência de outras nações, as decisões acertadas e erradas, as lições que delas se podem tirar. É o discurso da ignorância de alguém que, tão somente baseado no seu instinto e premonição pelo achismo, faz afirmações sem base alguma em dados científicos e estatísticos. Nem mesmo as muitas conclusões de estudos sérios sobre a cloroquina, que não trazem resultados definitivos, é levada em conta. Ele as ignora.

O discurso do novo ministro da Saúde também foi o da ignorância. Ele disse que precisava conhecer melhor o SUS, que precisava de mais dados para tomar decisões, que as possíveis flexibilizações seriam feitas a partir de dados que ele não tinha. Ele afirma sua ignorância sobre detalhes da Covid-19.

Há uma diferença substancial entre os dois discursos: o primeiro é o da ignorância porque, deliberadamente, não quer conhecer ou considerar os dados. Não estuda a fundo o assunto e sai fazendo afirmações tresloucadas. Só empata com o ditador da Bielorrússia que diz que a vodca e sauna evitam o contágio. Bolsonaro tem se isolado e isto lhe garantiu o título de “o pior líder mundial a comandar uma reação contra a pandemia do novo coronavírus”. Seu posicionamento tem sido motivo de chacota internacional, a crer no que amigos que moram fora do Brasil me afirmam.

O discurso do Teich é o discurso da ignorância. Ele conhece muito e sabe que há muito mais por conhecer. É o discurso de quem, conhecendo a ciência médica com especialidade em um ramo complexo, a oncologia, sabe que o Corona está dando um baile na comunidade científica internacional. Ele, tal como seu antecessor, afirma que “basta a cada dia a sua surpresa”. Cada dia é um novo dia com novos conhecimentos e mistérios. Até agora não sabem ao certo se a falta de oxigênio é por problema nos pulmões ou na corrente sanguínea que é afetada pelo vírus.

Não é de hoje que pensadores, os mais variados, afirmam que a falta de conhecimento produz certezas absurdas. Quanto menos a pessoa sabe, mais ela acha que está certa. A maior evidência de uma pessoa burra é a somatória de certezas que ela tem. Quem tem conhecimento, que estuda, sabe que há muito mais por conhecer e que, mesmo o que sabe, está sujeito a revisões.

O pré-socrático Empédocles formulou uma teoria para a visão que se revelou maravilhosa para a sua época: vemos as coisas porque os olhos emitem fachos de luz que iluminam o objeto e assim os vemos. Foi preciso Aristóteles fazer uma pergunta certeira: se assim é, por que não enxergamos no escuro? Todo saber pode ser reformulado. Cabe relembrar outro filósofo grego: “desejar violentamente uma coisa é tornar-se cego para as demais” (frag 72).

A sabedoria está em saber o que se sabe, mas sempre estar aberto a novos saberes. A palavra chave da sabedoria é “talvez”, “está é uma possibilidade”, “hoje eu penso que as coisas são assim” e outras afirmações com mesmo sentido conceitual.

Dois discursos: um foi o da estultície; o outro tem sinais de sabedoria.

Marcos Inhauser

A QUARENTENA DE JESUS

Relatam os evangelhos (Mateus, Marcos e Lucas) que Jesus entrou em quarentena, logo no início de seu ministério. Os textos afirmam que ele foi levado ao deserto pelo Espírito e o diabo o tentou neste período. O que ele fez foi uma quarentena real porque foram quarenta dias isolado de tudo e todos.

Os relatos também afirmam que ele nada comeu neste período, findo o qual (ou no final dele) Jesus teve fome. Foi quando, espertamente, o diabo o tentou e a primeira das tentações foi transformar pedra em pães.

A primeira coisa que quero salientar deste episódio é que o isolamento social é algo que pode ser visto e encontrado em muitos personagens da história humana, seja ele um isolamento imposto ou autoimposto. No caso de Jesus ficamos com as duas possibilidades: ele foi imposto a Jesus pelo Espírito que o levou ao deserto ou foi autoimposto, em consonância com a terceira pessoa da trindade. Não há motivação externa para este isolamento, a não ser que, guiado pelo Espírito, o foi para ser tentado (no dizer de Mateus e Lucas). Não havia uma epidemia que o obrigasse a tal.

A segunda coisa é que houve privação de alimento durante a quarentena. Tal foi esta privação que o diabo, astuto, fez sua primeira tentação apoiada nesta situação famélica. Jesus percebeu que poderia comer se usasse o que podia fazer, mas que colocava sua vida e ministério em risco.

Estamos em quarentena imposta e há também os que assim estão por autoimposição, conscientes do momento que vivemos e dos riscos que corremos. Muitos são os que, como Jesus, veem minguar as possibilidades de ter e dar alimento aos seus, são tentados a abandonar o isolamento e dedicar-se às coisas que possam trazer o sustento. Há os que, acostumados com a rotina diária de sair e trabalhar, não se sentem confortáveis ficando “engaiolados”. Como passarinhos precisam sair para voar.

Todos, tal como Jesus, estamos tentados a transformar pedras em pães.

A segunda tentação foi a de mostrar o poder de ser imune à queda: “atira-te do pináculo do templo”. Usando do poder e ele poderia dar ordens aos anjos para que o protegessem. Muitos há que, neste tempo de infestação, acham que são intocáveis. Mudam até o salmo e dizem: “Porque ele me livra do laço do corona e desta peste. ... Não temo os terrores da pandemia, nem o vírus que voa de dia, nem peste que anda na escuridão, nem mortandade que assole ao meio-dia. Milhares vão morrer, dez mil à minha direita; mas eu não serei atingido”. (Sl 91).

Tal com o Jesus somos tentados a mostrar nossa fortaleza e o poder de não se contaminar

A terceira tentação foi a de dirigir sua adoração para outra coisa que não fosse Deus. O diabo lhe promete céus e terra. Como podia ele fazer isto se Deus é o criador e mantenedor de tudo e, por conseguinte, o dono de tudo? Estava oferecendo algo que não tinha poderes para oferecer. Nesta quarenta também há os que estão oferecendo o que não podem entregar. Baseados na ignorância que os caracteriza, afirmam e prometem o que não podem concretizar.

Tal como Jesus, somos tentados a adorar quem não tem poder nem para demitir um funcionário seu.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 8 de abril de 2020

O PRIMEIRO ISOLAMENTO SOCIAL

Ao que parece e se considerarmos o relato bíblico, podemos afirmar que o primeiro isolamento social se deu com Noé e sua família. Se se considera que a história bíblica inicia-se com o Abraão, estamos nos referindo a um período da pré-história bíblica.

A narrativa diz que “a terra estava corrompida diante de Deus, e cheia de violência ... eis que estava corrompida; porque toda a carne havia corrompido o seu caminho sobre a terra”. Há aqui um primeiro elemento a ser considerado: havia uma desordem social e moral que reinava. Não sabemos, com certeza, quais elementos influenciavam para esta corrupção da terra, mas o caos havia se instalado.

Creio que situação igual estamos vivendo: uma desordem social promovida pela ganância, onde uma elite detém mais de 50% da riqueza de toda a terra e o resto fica para os outros bilhões de moradores. Há uma desordem social nas relações de trabalho, onde a escravatura não foi abolida e muitos trabalham noite e dia por míseros trocados, para que os donos das empresas andem de jato e gastem fortunas em restaurantes, boutiques e cassinos., iates, etc.

Houve uma sentença: “O fim de toda carne é chegado”. Divinamente instruído, Noé começa a construir a arca, segundo as orientações técnicas que a divindade lhe havia passado. Não é exagero imaginar o quanto ele foi criticado, quantos quiseram demovê-lo da ideia, quanto acharam um absurdo. Ele estava seguro na sua empreitada. Acredito mesmo que deveria haver algum pretenso líder querendo mover as massas via WhatsApp para acabar com a “loucura de Noé”.

No tempo certo a arca foi finalizada e ele, sua esposa seus três filhos com suas respectivas esposas entraram na arca para uma quarentena. Aqui foi literal: quarenta dias de chuva, de infestação!

Tal como o tempo que vivemos, o vírus da inundação veio chegando e foi invadindo e tomando de sobressalto a todos. Era uma inundação democrática: nada escapou, nem primeiro ministro, nem príncipe, nem médico ou secretário da saúde. Os que estavam em isolamento social estavam a salvo.

É verdade que o estresse bateu nos confinados. Estavam doidos para dar uma volta. Noé, prudente e obediente às ordens emanadas da OMS, soltou uma pomba e ela logo regressou e ele concluiu que não era hora de decretar o fim do isolamento. Sete dias mais tarde, novamente soltou a pomba e ela voltou com um galho de oliveira. Sábio como era, Noé conclui que a curva da inundação estava entrando na decrescente. Mas ainda não era hora de sair do isolamento. Mais sete dias. Nova pomba foi solta e esta não mais voltou, pelo que concluiu que já se podia sair do isolamento em segurança.

A família inteira estava a salvo para uma novidade de vida em uma nova terra.
Perceba-se que havia um caos, houve um julgamento dolorido com muitas mortes, para então e só então, haver a novidade, a nova criação.

Acredito que estamos em um processo de juízo sobre a maldade imperante, sobre a estrutura econômica injusta, onde a vontade do Trump se sobrepõe sobre a necessidade de saúde de milhões, o que lhe dá o “direito” de sequestrar equipamentos. Acredito também que estamos em dores gestacionais de uma nova sociedade. Esperemos a pomba não mais voltar para saber que podemos reconstruir.

Marcos Inhauser




quarta-feira, 1 de abril de 2020

(RE)FLEXÕES


Flexão é o dobrar-se, curvar-se. Também se aplica à ginástica no sentido de exercícios específicos feitos. Reflexão é aqui usada em sentido diverso do dicionário, onde ela significa “Ação ou efeito de refletir, de se desviar da direção original; meditação, pensamento ou análise detalhada sobre um assunto, sobre si próprio ou sobre algum problema ou sentimento; atributo de quem se comporta com prudência.” Eu aqui o emprego no sentido de algo sobre o qual, mais uma vez me ponho a exercitar a capacidade (sic) interpretativa sobre algo que me parece complicado e não tenho respostas.
Assim, a (re)flexão que quero trazer está baseada em um dos Salmos bíblicos, o 42: “Por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei pela salvação que há na sua presença. Ó Deus meu, dentro de mim a minha alma está abatida; ... Um abismo chama outro abismo ao ruído das tuas catadupas; todas as tuas ondas e vagas têm passado sobre mim. Contudo, de dia o Senhor ordena a sua bondade, e de noite a sua canção está comigo, uma oração ao Deus da minha vida. A Deus, a minha rocha, digo: Por que te esqueceste de mim? por que ando em pranto por causa da opressão do inimigo? Como com ferida mortal nos meus ossos me afrontam os meus adversários, dizendo-me continuamente: Onde está o teu Deus? Por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei, a ele que é o meu socorro, e o meu Deus.
O que me intriga é o trecho que “um abismo chama outro abismo ao ruído das tuas catadupas; todas as tuas ondas e vagas têm passado sobre mim” onde se vê um indicativo para o juízo de Deus.
No contexto da crise que vivemos, tenho recebido muitos vídeos, mensagens, áudios e memes. O que tem me irritado é quantidade de apocalipsistas que têm se levantado para declarar com a autoridade de um asno que o corona é um vírus comunista, que saiu de um país comunista, que é o Satanás em forma de vírus, que é o castigo de Deus sobre as iniquidades da humanidade, que é sinal da segunda vinda de Jesus, que é uma das bestas apocalíticas, etc.
Outros, menos terroristas, afirmam que Deus está usando um microrganismo de DNA bastante simples para aplacar a arrogância dos governantes mundiais e da elite capitalista. É Deus fazendo seu juízo sobre a soberba humana.
Eu me pergunto: se o Corona é obra de Deus como castigo, como é que o salmista, em situação ao que parece mais ou menos idêntica à que vivemos hoje, me pede para me aquietar, para experimentar a bondade de Deus, para cantar de manhã e à noite? Se a bondade de Deus está comigo, por que Ele permite que os inimigos zombem de mim e me façam sofrer ainda mais? Se é castigo de Deus para os soberbos e gananciosos, porque eu, que não sou ganancioso, avarento ou explorador do próximo devo sofrer? Se o Corona é castigo de Deus, todos devem ser castigados, especialmente os mais velhos e com comorbidades?
Não tenho respostas e estou aberto para ouvir quem, com seriedade, queira ajudar a trazer luz para este texto.
Marcos Inhauser


quarta-feira, 25 de março de 2020

MAQUIAVELISMO VIRÓTICO


Não concordo com nada do que a seguir vou dizer. Trata-se de um exercício de realismo fantástico.
Está assentado por todas as fontes confiáveis que a Covid-19 ataca a todos indistintamente, sendo que, na população com mais de 60 anos e portadora de alguma comorbidade, ele é fatal com taxas superiores às outras idades.
Imagine que ministros da Economia de alguns países, sejam formados e orientados pelas ideias de Nicolau Maquiavel, aquele que, entre outras coisas disse que “os fins justificam os meios” e  o “mal se deve fazer de uma só vez e o bem deve vir a prestação” (citei as ideias e não as frases exatas). Imagine que estes ministros e o governo que eles participam têm sérios problemas com a Previdência, especialmente porque a idade da população está aumentando exponencialmente. Imagine que eles fazem cálculos, puxam daqui, esticam dali e não encontram onde arrumar oxigênio para manter esta população geriátrica viva ou mesmo como diminuir os custos sociais e médicos que tal parcela da população acarreta.
Estes ministros enviam aos Congresso dos seus países projetos de Reforma da Previdência e enfrentam forte resistência da população, da mídia, da parte afetada e, especialmente, dos funcionários públicos (do legislativo, executivo e judiciário) porque a pressão para que seus salários de marajá sejam reduzidos é muito forte. Os ministros já retardaram as aposentadorias, mexeram nos benefícios, precarizaram a saúde para ver se a geriatria desistia de ir a hospitais. A reforma sai capenga, mas sem mexer no grande problema: os velhos aumentam como juros de agiota e os marajás continuam carvalhos: “imexíveis”.
Aí vem o Corona!
Há clamor popular para que se tomem medidas, mas os mesmos que pedem providências têm dificuldades em aceitar o autoexílio. Os chefes-mor minimizam e dizem que é gripezinha. Alguns outros líderes de países fazem coro.
Conversas prá todo lado, simulações mil sobre a curva de infecção e a possibilidade de achatamento dela para que o sistema de saúde não se colapse, os primeiros casos de morte são idosos que estavam no Sistema Privado de Saúde, fala-se no pior, prepara-se a população para um genocídio etário, entenda-se geriátrico. Aventa-se a impossibilidade de ter isolamento nas periferias das grandes cidades, fala-se da Índia, Bangadlesh, Afeganistão, a falta de água e sabão em muitas residências, compara-se a Itália, com a China, Coreia, Alemanha, França, Reino Unido. Acentuam-se as cores na quantidade de velhos morrendo. É uma forma sub-reptícia de dizer: preparem-se, os velhos morrerão.
Neste turbilhão liberam-se a astronômicas quantidades de recursos para aumentar o número de leitos e UTIs que não se sabe se vão se tornar reais nas proporções prometidas. Especialistas criticam a decisão. Alguns altruístas destinam pequena parcela de suas polpudas reservas para que o sistema de saúde tenha mais uns segundos de sobrevida. O tempo corre e a curva das mortes se acentua. Montam-se esquemas alternativos. O povo é destinatário de um monte de Fake News e a internet colapsa pela quantidade de gente em casa usando streaming. Surgem profetas, pregadores, especialistas, residentes em algum canto infestado, todos trazendo sua verdade sobre a crise, reforçando a ideia que é esperar que vai passar. Tudo vai dar certo! Vejam a China!
Pouca conversa de vizinhança, nada de papo de boteco onde as coisas podem ter uma interpretação diferente da mídia dominante.
Os maquiavélicos, em seus gabinetes desinfetados e imunes à desgraça, esperam a Reforma da Previdência que a natureza está promovendo. No final da crise, muitos dos aposentados não mais terão que ser pagos porque morreram. Alivia-se a curva ascendente e agora descendente dos gastos previdenciários. O fim da geriatria vai se conquistando. Uma nova realidade Previdência se implantará, graças a Maquiavel e seus seguidores.
Quem sobrou vivo vai dar graças a Deus por ter escapado do vírus. E a massa ignara aplaudirá os esforços feitos pelas “otoridades”.
As cenas aqui descritas são pura ficção e não têm nenhuma semelhança com qualquer fato real. Quem assim interpretar está dá sinais de que é analfabeto.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 18 de março de 2020

MINHA EXPERIÊNCIA COM O CORONA


Viajei dos Estados Unidos para o Brasil no dia 01 de março, chegando ao Brasil no dia 02 pela manhã. Tinha estado na Califórnia (clima ameno) e Dayton – OH e Richmond – IN (climas bastante severos, com nevadas e temperaturas abaixo de zero).
Ao chegar fui visitar minha mãe no hospital, pois a mesma, com 90 anos de idade, havia sofrido uma queda e quebrado o fêmur. Na terça, dia 03 voltei a visitá-la na parte da manhã, mas, depois do almoço comecei a ter tosse, coriza, febre de 39 e muitas dores pelo corpo. Liguei para o SAMU pedindo orientação sobre como ser atendido e eles, depois várias pessoas que não quiseram dar instruções (isto eu ouvia pelo telefone, ao fundo), uma delas veio e me disse que deveria ir ao Pronto Socorro. Achei um tanto estranha a orientação, pois, se estava infectado para um local de concentração de pessoas.
Fiz segundo a orientação recebida e me dirigi, acompanhado de minha esposa, para o pronto socorro de um hospital de Campinas. Ela se dirigiu ao balcão, falou da suspeita e imediatamente me levaram para uma sala isolada. Até aí, tudo bem. A minha surpresa e estarrecimento começou quando médico plantonista, sem nenhuma proteção que o caso exige, entrou na sala, pediu que eu abrisse a minha boca, disse que estava com secreção de pus, mas que não era corona porque não havia caso “autóctone”. Argumentei que estava chegando dos Estados Unidos e que não se tratava de um caso autóctone brasileiro. Ele reafirmou que não havia “casos autóctones nos Estados Unidos” e que, definitivamente eu não estava com o corona vírus. Ele me deixou ali mais um tempo, minha esposa depois for ver o que que estava acontecendo e ele disse que eu não estava com dengue e que deveria tomar dipirona para a febre. Voltei para casa e, por conta própria, decidi entrar em isolamento.
Na sexta-feira o quadro se gravou e voltei a outro Pronto Socorro. Fui atendido com a presteza e cuidados que o quadro ameritava. O médico, todo paramentado com vestes apropriadas me examinou, fez uma série de perguntas e colheram material para o teste. Disse que iria me deixar em isolamento porque eu apresentava ciclos respiratórios curtos. Argumentei que tinha condições de ficar em isolamento em minha casa e que me comprometi a voltar caso o quadro se modificasse. Nisto estou desde o dia 6 de março.
Tal como orientado, nos primeiros dias, recebi chamadas telefônicas de controle, buscando informações sobre meu quadro. Comecei a perguntar sobre o resultado do teste e nada de me darem resposta conclusiva. Houve um dia em que eu disse que estava em isolamento e assim permaneceria por consciência da gravidade e que minha permanência não dependia do controle deles. Que eu estava fazendo a minha parte e que estava esperando que eles fizessem a parte deles: o resultado do teste. Nunca mais me ligaram!
Acionei alguns contatos e um deles, que tem acesso aos resultados do Fiocruz, me informou que meu resultado só sairá no dia 06 de abril! Fiquei indignado. Voltei ao hospital, mesmo porque a tosse persiste em ficar, e novo teste foi feito, cujo resultado demora quatro dia úteis! Não sabia que o corona trabalha só nos dias de semana.
Aqui estou de molho há 14 dias, sem perspectiva de alta e sem saber se o que tenho é o corona. Descobri que a mídia do governo é muito melhor que a prática, que, mesmo com um plano de saúde, estou nesta pendência e espera. O que será dos que precisam e precisarão nos momentos de pico da pandemia? Não quero nem pensar!
Marcos Inhauser

quarta-feira, 11 de março de 2020

A DURA BENÇÃO


Foi em julho de 1991 quando assisti ao primeiro curso com vistas ao meu mestrado. Tratava do processo de envelhecimento e o fazia em duas dimensões: o crescente envelhecimento da nação estadunidense (de resto, verdade para todas as demais) e o processo de envelhecimento individual, com os cuidados, custos e atenção que se deve dar a ele. Lembro-me, com bastante clareza, de muita coisa que foi passada, seja pele dificuldade inicial com a língua, seja porque apresentou alguns dados que nunca havia pensado.
Um deles, que me marcou muito, foi o processo visto como um retorno à infância. Nascemos precisando que nos carreguem, que nos deem comida na boca, dependentes, carentes afetivamente, vamos ganhando corpo, forças e, a cada dia, vamos nos libertando da dependência ao ponto de, em certo momento, podermos andar sozinhos. E assim caminhamos até o dia em que a idade nos tira parte das forças das pernas, nos torna mais dependentes, a cada dia temos uma nova necessidade de ajuda, precisamos que alguém volte a colocar a comida na nossa boca e voltamos a usar fraldas.
Cuidar de um bebê é cuidar da esperança: amanhã ele vai estar maior, mais seguro, mais forte e logo, logo, vai andar sozinho. Cuidar do ancião é o cuidado sem esperança: a cada dia uma coisa nova a definhar e tirar energias. É o cuidado da graça que cuida sem esperar retorno.
Na época em que estudei isto, fiquei impactado, mas uma coisa é saber a outra é viver. Nos últimos sete anos tive minha mãe morando comigo. Ela veio com 83 anos, estava bem, andava, fazia tudo, comia de tudo. À medida que foi envelhecendo com a gente, percebemos que passou a dormir mais tempo, a ter menos energia para certas coisas, resmungava quando tinha que tomar banho, ficou mais agressiva nas respostas, confundia datas, não se recordava com precisão certas coisas fundamentais da sua vida. Fomos acompanhando este processo dia-após-dia e nos certificando que a velhice é um processo de infantilização.
No curso que mencionei, por se tratar de um Seminário, deu-se muita atenção ao conceito da benção que se tem ao cuidar dos pais. Sempre acreditei nisto e vivi isto nos dias em que tivemos minha mãe conosco. Foram momentos alegres e difíceis, houve momentos prazerosos e outros em que deu vontade de mandar para uma clínica. Sempre pensei que ela seria tratada por estranhos. Aqui, por mais difícil que fosse, era um filho e uma nora cuidando dela.
Sabíamos que ela orava todos os dias por nós e todos os dias, antes de ir deitar ela vinha orar comigo. Era sempre a mesma oração que ela havia aprendido na infância e que, em certa parte, ela dava uma ênfase peculiar: “... e pela noite gostoooooosa que Tu vais nos dar”. Quando precisávamos sair à noite para uma visita ou compras ela ficava sentada na sala esperando a nossa volta, não importando o horário que voltávamos. Havia nela um cuidado e a ideia mágica de ficar nos esperando nos guardaria. Mas não era mágica: ela ficava orando pela nossa volta. Quando chegávamos, invariavelmente, ela nos recebia com um “bem vindos” espontâneo e acolhedor. Vou sentir falta disto e da oração repetida ao dormir.
Seu sonho era chegar aos 90 anos, idade que ninguém da sua extensa família havia chegado. Ela chegou, celebrou seus 90 anos em grande estilo reunindo os parentes e se recolheu para os paramos celestiais. Deixou e exemplo de uma mulher forte, dedicada, fiel ao Senhor e mãe admirada pelos filhos, noras e netos. Foi trabalhoso, mas valeu pela benção de tê-lo conosco até os últimos momentos.
Marcos Inhauser