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terça-feira, 17 de julho de 2012

HOMOGENEIZAÇÃO


Quem já viveu nos Estados Unidos por algum tempo notou que os shopping centers são quase todos iguais, com as mesmas lojas e mesma disposição em cada uma delas, dependendo da rede à qual pertencem. Se se entra em uma loja de rede que nem sempre está nos malls, tal como Target e Walmart, e depois se entra em outras lojas da mesma rede, até a disposição das coisas na loja é igual.
Se se viaja de carro e se quer parar em postos de gasolina, a diferença entre um e outro é mínima e em todos se encontra mais ou menos as mesmas coisas.
Coisa parecida está ocorrendo no Brasil. A invasão das redes Graal e Frango Assado (para ficar em duas citações) nos postos de gasolina e conveniências à beira de estradas, tem dado esta homogeneização gradativa.
Nos shopping centers, as chamadas “lojas ancoras” também tem levado a se ter mais do mesmo em qualquer um que se vá. Lá estão as Americanas, C&A, Renner, Fotóptica, etc. A maior homogeneização se dá nas praças de alimentação: em qualquer praça que se vá se encontra o mesmo: McDonald, Montanara Grill, Vivenda do Camarão, Spoleto, Viena, etc.
O processo se dá também no vestuário: todos de jeans e camisetas. Se se anda na região da Funchal, Vila Olímpia, Alphaville, Berrini, Faria Lima em horário de almoço pensar-se-á que jeans e calças pretas são uniformes das mulheres.
O mesmo se dá no campo das igrejas genericamente chamadas de “evangélicas” (recuso-me a aceitar tal designação como apropriada). Sai-se da Igreja X e vai-se para a Y, e depois a W e a seguir a Z e a coisa é a mesma: meia hora ou mais de cânticos congregacionais liderados por um grupo de narcísicos tocando algum instrumento. Os cânticos são os mesmos, seja nas igrejas históricas, independentes, livres, carismáticas, pentecostais ou neopentecostais. Quando se pensa que a mensagem deveria ser diferente, o que se tem é o monotematismo: todas tratando do mesmo tema, com variação nas ilustrações e nos textos bíblicos. Prosperidade e vitória nas lutas são o pão quente da hora.
A padronização imbeciliza porque não confronta com a novidade, a surpresa, a mudança. Viver a cada dia repetindo e vivendo a mesmice embota as mente e os corações. A homogeneização cultural e religiosa infantiliza porque não exige crescimento: tem-se mamadeira a qualquer dia e qualquer hora em todo lugar. Isto talvez explique a proliferação dos livros de autoajuda: mais do mesmo para as mesmas coisas. Fórmulas simples e mágicas para resolver questões que as pessoas não têm treino para tratar porque acostumadas à mesmice.
Nos templos tem-se uma mercadoria banalizada: a benção via oração do iluminado. Quanto mais pomposo for o título que ostenta (e sabe-se lá como foi que conseguiu esta comenda demissionário, pastor, bispo ou apóstolo – muitos por auto-ordenação!) mais poderosa e for te são a oração e a benção. Só que ela tem validade de yougurte: dura uma semana. Depois tem que ser renovada!
Marcos Inhauser

segunda-feira, 16 de julho de 2012

ADORAÇÃO


Há tempos venho me preocupando com o empobrecimento da liturgia e culto. O que era algo pensado, elaborado, feito com unidade e sequência lógica, foi, gradativamente, sendo substituído pelo “louvor” (um amontoado de cânticos desconexos na mensagem, escolhidos mais pelo entusiasmo que geram que na mensagem que trazem), a mensagem elaborada, estudada e bem fundamentada foi substituída pelos testemunhos de qualidade duvidável, que produziram o neologismo “tristemunho”.
Unidade litúrgica é algo que se perdeu e se desconhece nos cultos modernos. Teologia é sinônimo de palavrão e a própria liturgia ou é desconhecida ou é rejeitada como sendo algo que restringe a liberdade do Espírito. Os que propugnam que o culto deve ser livre para que se dê o agir do Espírito, não percebem que repetem as mesmas fórmulas domingo após domingo. Confundem excitação com espiritualidade, empolgação com manifestação espiritual.
Parece que se perdeu o conhecimento e o entendimento do culto em Israel, tanto no tabernáculo como templo, onde havia uma família inteira dedicada exclusivamente a isto (a família dos levitas), o culto tinha seus regulamentos (há todo um livro dedicado a este ordenamento, o de Levíticos), os cânticos eram selecionados a dedo e formaram o Saltério. Até a roupa dos sacerdotes tinha seu regulamento!
Falar de liturgia hoje em dia é recuperar a riqueza que se tinha e foi se perdendo. Mostrar a relação entre o culto, a adoração e a cura é algo que, ainda que praticado em muitos templos, não tem sido feito com a devida fundamentação bíblica e teológica. Adoração é uma arte perdida! Muitos dos que se promovem como líderes de adoração não tem a mais mínima noção do que teológica e biblicamente isto significa: curvar-se em homenagem, atribuir valor à divindade. Adoração é falar com Deus e não falar de Deus. Nos cânticos, orações, litanias, confissões falamos a Deus de nossas vidas e vicissitudes. Na mensagem ouvimos a Deus falando e nos dando esperança.
Por que cultuamos? Qual o papel da música e do cântico no culto? Sempre houve instrumentos para ajudar no canto congregacional? A congregação sempre foi permitida a cantar durante os cultos? O que esperamos que aconteça quando as pessoas saem do templo e retornam às suas casas? Pode haver cura durante o culto? Qual o papel dos dons no culto?
Conhecer estes aspectos leva as pessoas a ter melhor clareza na hora de adorar. Perceberão que a adoração não é medida pelo barulho, pelas palmas, pelo volume do som, pela quantidade de lágrimas, pelo brilhantismo dos músicos ou seja lá o que for. A adoração é feita em espírito e em verdade. Ela é uma atitude pessoal de render-se, de inclinar-se diante de Deus, de exaltá-lo, de submeter-se a Ele. Não é tempo de exposição narcísica (tal como se dá em muitos púlpitos que se transformam em palcos de exibicionismo), mas de contrição e humildade.

Marcos Inhauser



segunda-feira, 9 de julho de 2012

SECULARIZAÇÃO GRADATIVA


As últimas pesquisas sobre a religiosidade no Brasil têm revelado o crescente número de pessoas que se afirmam arreligiosas ou ateias. Acrescente-se a isto os que declaram ter fé, mas que se negam a estar vinculados a uma estrutura religiosa. Outro dado que veio à luz nos últimos é a queda no número dos que estavam vinculados à Universal e o crescimento da Igreja Mundial do Poder de Deus.
O crescente número dos não-religiosos e ateus se deve a um processo que se deu na Europa a partir da Segunda Guerra Mundial e que se convencionou chamar de secularização, que leva as pessoas a não mais considerar ensinos tradicionalmente religiosos como normativos para as suas vidas, preferindo adotar valores culturais ou de mercado. Há indícios que este secularismo está também vinculado à melhoria das condições sociais e econômicas, pois, tendo mais recursos, menos dependentes de Deus se tornam.
Nesta vertente é comum encontrar os que se valem do pragmatismo ou utilitarismo para justificar ações e comportamentos. Mais que isto, a secularização tem o condão de retirar as esperanças, especialmente as relacionadas à vida futura e até mesmo uma vida aqui mais justa e próspera.
No caso específico do contexto brasileiro, além da propalada ascensão econômica da classe D (fato discutível e que merece aguardar dados estatísticos de mais longo prazo), há a religiosidade secularizante.
A partir dos anos 70, com o surgimento e explosão do neo-pentecostalismo e a competição acirrada que se estabeleceu entre as várias correntes, a fé se tornou marketing (O Show da Fé!), as bênçãos viraram mercadoria e Deus foi esvaziado para se tornar em ajudante de ordens de pregadores que ousam dar-lhe ordens.
Transformada a fé em marketing e a benção em mercadoria que se compra nos templos dos “iluminados”, onde um bispo ou apóstolo determina a Deus o que deve acontecer, a dimensão mística e numinosa da fé e do sagrado se perdem e a racionalidade cartesiana do “pagar para receber” transforma a experiência sagrada da oração, da meditação, da comunhão, do serviço, do amor ao próximo em algo secularizante: Deus se deixa vender! E o Deus que se deixa vender não é Deus e, portanto, passo a ser ateu.
A religião do sucesso tem a habilidade de criar frustrados e decepcionados. Faz aumentar o número dos ex-membros de alguma igreja, que detestam pastores e cultos, que buscam formas alternativas de viver a fé, seja em pequenos grupos ou em vidas cristãs isoladas, muitos se dedicando ao autodidatismo bíblico e teológico, mãe das grandes heresias.
A religião midiática que cresce na direta proporção das horas de programa de televisão que veicula, que gasta milhões mensais para repetir ad nauseam as mesmas coisas, que promete o q não entrega, que fala mais em dinheiro que em amor ao próximo, mais em poder que em serviço, não é religião: é comércio. E comércio é o deus Mamom, secular e secularizante.
 Marcos Inhauser

terça-feira, 26 de junho de 2012

OS IGUAIS SE ALIAM


Um sociólogo da Universidade de Chicago (que a memória não me permite recordar o nome), que afirma que há um elemento gregário no ser humano e que as pessoas se aliam a outras que são iguais a elas e assim formam grupos. Ele chama a isto de conformação tribal. A igualdade passa pela semelhança no vestir, comer, falar, interesses, etc. A afirmação tem sua lógica na medida em que nos sentimos confortáveis ao lado de pessoas que pensam igual a nós, que concordam conosco em quase tudo, onde as conversas fluem em um processo gradativo de troca de experiências e não fica patinando em afirmações e contradições.
Lembrei disto na semana passada por causa dos recentes episódios envolvendo dois líderes de partidos políticos. Para quem acompanha a vida política do país há algum tempo, especialmente a partir do golpe de 64 e o surgimento do movimento operário no ABC paulista que redundou na formação do PT, também acompanhou as idas e vindas desta cria da ditadura que hoje lidera o PP, mas que teve sua peregrinação iniciada na Arena e a carreira política fomentada pelas fardas.
Lula e Maluf viviam às turras, com farpas envenenadas atiradas dos dois lados. Há alguns anos era inimaginável pensar que um dia pudessem se aliar. Mas como já disse Tancredo: a política é como a nuvem, a cada minuto muda de forma. E nuvem mudou e muito a sua forma.
O Maluf continua o mesmo e até hoje deve explicações à nação sobre as acusações e condenações que tem, notadamente as que se referem aos desvios de recursos públicos e dinheiro no exterior. Ele sempre usou a fórmula maquiavélica de que “os fins justificam os meios”. Neste afim sempre se aliou a quem estava no poder e tentou se eleger em tudo quanto é cargo, de prefeito a presidente.
Do outro lado, o Lula encarnava a virgem pura da política, denunciando tudo e todos, especialmente Maluf e Quércia. Como não conseguiu eleger-se presidente adotando a postura purista e de paladino da moral, influenciado pelo amigo Zé Dirceu decidiu deixar o convento da castidade e partir para algumas relações menos santas. Aliou-se ao PCdoB, ao PSB e ao PR, dando a este a vice-presidência, que tinha sido do PRB (antes se chamava PMR) e do PR. Assim se elegeu. Já eleito, fez um leque de alianças que mais parecia arco-íris que algo ideologicamente construído. Em nome da governabilidade valia tudo. Tanto valia que se aliançou ao PMDB a prostitua mór da política brasileira, em pé de igualdade com o DEM. Impôs a Dilma como candidata e para elegê-la entregou a vice-presidência ao Temer, velha raposa política e do PMDB. Tentou o Kassab e sua cria, o PSD e se deu mal.
Agora os iguais e aliançam. Quem mudou? O Maluf ou o Lula? Quem está levando ao paroxismo a máxima maquiavélica dos fins que justificam os meios. Para tentar eleger um poste, vale tudo, até ir à casa do Maluf e tirar fotos sorrindo ao ex-desafeto. O Maluf continua a mesmo. Só resta aceitar que a mudança ocorreu no Lula e nos seus asseclas.
De políticos assim estamos cansados. Queremos gente com valores e que tratem a coisa pública com seriedade e não nos chamem de palhaços.
Marcos Inhauser

quinta-feira, 21 de junho de 2012

CORPORCO


Uma característica bastante comum nos seres humanos é a proteção dos iguais. Parece que necessitamos proteger os que são nossos colegas, para que, na hora da necessidade, também sejamos protegidos.
Este sentimento de “espírito de corpo” pode ser visto e frequentemente é citado quando se trata de julgamentos que são feitos a profissionais pelas suas entidades de classe. Não foram poucas as vezes em que se salientou que os Conselhos Federais de Medicina, Odontologia, dos Contabilistas, da Magistratura, são lentos e muitas vezes omissos nos seus julgamentos. Parece que os julgamentos só se dão quando o caso é de tamanha evidência que nem juízo precisa. Também ocorrem quando há grande comoção social e pressão da opinião publica.
A cada pouco somos informados que o médico este ou aquele, que o juiz fulano ou beltrano, estão sendo acusados de algo e que eles já tem outras acusações anteriores nos órgãos colegiados. Há o caso do “cirurgião plástico” de Brasília que matou algumas pessoas e o Roger Abdelmassih. Há ainda os procuradores denunciados por estarem pegando dinheiro dos precatórios há bom tempo e que o julgamento foi digno de uma lesma.
No campo da política a coisa é ainda pior. Recentemente tivemos o lamentável episódio da absolvição da Jaqueline Roriz, no que pese o vídeo comprovando o recebimento da propina. Aí estão os casos do deputado Saulo Moreira (ALE/RJ);  deputado Sérgio Moraes (PTB-RS), que em 2009 ficou famoso ao dizer que “se lixava” para a opinião pública; deputado José Mentor (PT-SP) por sua participação no Mensalão; Paulinho da Força (PDT-SP), acusado de participar de um esquema de desvio de dinheiro do BNDES; Jair Bolsonaro (PP-RJ), acusado de homofobia e racismo; Olavo Calheiros (PMDB-AL) - Acusado de quebra de decoro supostamente por ter ligações com o dono da construtora Gautama, Zuleido Veras, preso na Operação Navalha da Polícia Federal; Sandro Mabel (então no PL-GO), acusado de distribuição de suborno; João Correia (PMDB-AC), acusado de envolvimento na máfia das Sanguessugas; Vadão Gomes (PP-SP), Pedro Henry (PP-MT, José Janene (PP-PR, Wanderval Santos (então no PL-SP), Professor Luizinho (PT-SP), Roberto Brant (PFL-MG), Romeu Queiroz (PTB-MG), João Magno (PT-MG), João Paulo Cunha (PT-SP), Josias Gomes (PT-BA), todos absolvidos das acusações de participação no mensalão.
Neste momento, há evidências de que o Demóstenes pode se safar. Talvez porque ele saiba demais e pode complicar a vida de muita gente. E o Pagot não querem ouvir porque vai botar lama na mesa presidencial.
Na Câmara de Campinas já tivemos alguns exemplos iguais. Foram absolvidos do uso indevido dos tickets refeição, da contratação de funcionários fantasmas, da retenção de parte dos salários dos funcionários, da farra dos pedágios.
Pelo jeito, mais que espírito de corpo, há nestes colegiados um espírito de porco. Gostam de viver na lama e não saem dela nem a pau.
Marcos Inhauser

ESPIRITUALIDADE DISTORCIDA OU FÉ?


Preocupa-me o conceito de “fé” nos dias e no contexto em que é usado nos dias de hoje no Brasil.. Ela é ensinada fé como virtude mágica, varinha de condão, um “abra cadabra gospel” que produz coisas mirabolantes. Recuso-me a aceitar a fé infantil e estúpida de um pastor que segurava serpentes para provar a veracidade de um verso da Bíblia. Valeu para ele o dito popular: “Se quiseres, confia na pata do coelho: mas lembra-se de que ela não deu sorte ao coelho.”
Recuso-me a aceitar a fé como palavra de ordem que sai de lábios jactanciosos dizendo o que deve Deus fazer. Quando as ações de Deus forem sugestionadas ou dirigidas pelos humanos, ele terá deixado de ser Deus.
Recuso-me a crer que fé é o que faz com que as massas supervalorizem a autoflagelação e o sacrifício, em detrimento da graça pela qual fomos atraídos a Cristo. Ora, se a fé exigisse sacrifícios, a graça não seria graça. Então o que é fé? Fé é crer cega e dependentemente de Deus, mesmo que isso pareça um atentado à sanidade.
Conta-se que numa grande cidade, numa avenida sem nenhum semáforo, um pai procurava atravessar segurando a mão da filha de sete anos. Depois de alguns minutos de indecisão e de espera, o pai alcançou o outro lado da avenida tendo sempre a filha à mão. Ao se encontrar do outro lado, a menina exclamou: “Aquele edifício tem 10 andares. Eu os contei direitinho!” Porque confiava no pai, a menina não tinha visto o perigo da rua e dos carros. Quem confia no Senhor, fica em paz! Isso é fé. Esta é a definição de Hebreus 11:1 “Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem.” Não vejo Deus, mas confio absolutamente que, em sua soberania, ele sempre terá o melhor para mim. Não vejo o futuro, mas creio em quem está à frente: Jesus. Fé expressa em forma de confiança absoluta, de esperança imortal, de serenidade em meio às tempestades.
Analisando a religiosidade tupiniquim vejo mais crendices do que fé real e inabalável. Certa vez, três amigos encontraram-se após muitos anos de separação. Contando suas experiências, um deles disse: “Sou um homem muito infeliz. Perdi todo o dinheiro que possuía. Não tenho mais nada”. O outro disse: “É difícil a sua situação, mas não é tão triste quanto a minha. Perdi minha esposa e meus dois filhos. Oh! Se pudesse dar tudo o que você perdeu para tornar a vê-los!” O terceiro amigo disse: “A infelicidade de vocês é pequena comparada à minha. Um de vocês perdeu o dinheiro, que pode ser recobrado. O outro perdeu os queridos, porém, espera encontrá-los no céu. Mas eu perdi o que de mais precioso existe sobre a terra: perdi a fé”. (Rev. Marcos Kopeska, editado para que caiba neste espaço).

quarta-feira, 6 de junho de 2012

ASSASSINOS DE CONVERSAS


Fui à festa junina no colégio de meus netos para vê-los participar das atividades. Enquanto esperava fui me irritando com o volume do som. Quatro enormes caixas acústicas “animavam” o ambiente. O encarregado do barulho, em uma barraca ao lado da quadra, estava com o fone de ouvido posto e não sei se tinha noção do quão alto o som estava.
À medida que esperava a apresentação, me perguntava: será que não percebem o dano que podem estar causando aos ouvidos das crianças que aqui estão? Como podem enfatizar a reciclagem, ensinando a selecionar o lixo e evitando a poluição, se eles mesmos promovem a poluição sonora? O som equalizado para reforçar os graves, batia na cabeça como se fosse marreta. Eu que sou movido a música, estava irritado com ela.
Quando terminou a apresentação eu achei que teria alívio. Que nada! Lá estava a “música ambiente” em volume tão alto que dificultava a conversa com as pessoas que conhecia. Um tinha que gritar para o outro para ser ouvido e entendido. Saí de lá antes do previsto, cuspindo marimbondos.
Aquele era um tempo em que as famílias estavam reunidas, que as pessoas se encontravam e se cumprimentavam, um tempo de celebração da amizade que foi atrapalhado por um DJ sem noção, que acreditava que a sua música era mais importante que a amizade e as conversas. Longe do local onde as pessoas estavam, o DJ não percebia o estrago que estava fazendo.
Esta não é a primeira vez que fico irritado com a “música ambiente” que é mais música que ambiente”. Detesto restaurantes com música ao vivo. Quando vou a um deles o faço em companhia da esposa, dos filhos ou amigos e o que quero é conversar, trocar ideias, contar piadas. E lá está o barulho a atrapalhar. Ao final, na hora da conta, ainda querem me cobrar o “couvert artístico”. Querem que eu pague por ter sido atrapalhado na conversa, por ter ficado irritado, por ter ficado com dor-de-cabeça.
Lembro-me de um restaurante no interior do estado de Goiás onde fui jantar. Havia um cara grunhindo, equipado com um vilão que mais parecia arma que instrumento musical, cantando desafinado. Horrível! E ainda tiveram a ousadia de me cobrar R$ 15,00 para ser torturado pelo indivíduo. Não paguei.
Outra feita, em uma festa de casamento, quando as famílias que há tempos não se encontravam e tinham a oportunidade de colocar as novidades em dia, foram literalmente impedidas de fazê-lo por causa de um desajustado, equipado com uma mesa de som, que botou putz-putz para tocar e que ninguém conseguia fazer mais nada que ficar calado e olhando um para a cara do outro. Para mim ele tinha a necessidade de ser notado, mais que a noiva. E conseguiu. Todos o xingaram.
Estes sonoplastas de araque são assassinos de conversas. Matam o diálogo interpondo a violência da altura de seu som. A música ambiente é para suavizar, estabelecer um clima ameno e nunca para agredir. Ela deve facilitar o diálogo, o encontro, a conversa e não matar uma das coisas mais preciosas do ser humano: falar e ouvir.
Marcos Inhauser

MELHOROU, E MUITO!


Há mais de quinze anos ou eu ou minha esposa, mensalmente, temos que ir à farmácia de alto custo para a retirada de medicamentos para uma pessoa incapacitada de fazê-lo. Nas primeiras vezes (e por alguns anos) tivemos que ir um cubículo na Unicamp onde, ainda que muito bem atendidos pelos que ali trabalhavam, havia problemas na entrega dos medicamentos, pois ora faltava este ou aquele, ora faltavam os dois. A gente tinha que ficar ligando para saber se tinha chegado (isto quando conseguia ser atendido, pois o telefone vivia ocupado) e não poucas vezes, mesmo tendo chegado os medicamentos, não eram suficientes para cobrir a demanda. Invariavelmente havia que chegar muito cedo, enfrentar fila e não poucas vezes perdia-se a manhã toda para a retirada dos medicamentos.
Quando a coisa começou a funcionar com certa regularidade, fomos surpreendidos com a decisão, sabe-se lá de quem, de mudar a farmácia para outro local, no bairro Ponte Preta. No início a coisa foi um caos. O que começava a funcionar passou a ser um caos. Filas enormes, falta de funcionários e tinha muito mais gente para retirar medicamentos que na Unicamp, pois, ao que parece, concentraram tudo em um só local. Era um festival de gente brava e reclamações, algumas até ofensivas.
Com o passar do tempo algumas mudanças começaram a ser implementadas. Há uma pré-seleção e muitos nem mais precisam pegar a fila para ter a senha. O processo de retirada passou a ser melhor, as orientações quanto aos documentos e receitas necessárias foram melhor explicadas, a renovação passou a ser agendada, as datas de retirada passaram a ser marcadas previamente quando da retirada dos medicamentos, as filas diminuíram, há mais gente trabalhando e atendendo ao público e até um serviço de “ouvidoria” foi implementado. Nas últimas vezes que lá estive não mais percebi reclamações (que eram constantes), não mais gente brava com o atendimento (também constantes no modelo anterior) e não mais tive que voltar por falta de medicamentos.
A falta de planejamento, comum no setor público, quando esperam acabar para então fazer a licitação e a compra, com a devida demora que o processo acarreta, parece (e espero que assim continue) que são coisa do passado, ao menos para a Farmácia de Alto Custo. Isto é o que ocorre nos centros de saúde, onde há muito, não se encontra o terceiro remédio que precisamos retirar e que não há na farmácia de alto custo. Há meses não há fluoxetina e, quando perguntadas, as funcionárias respondem: “só Deus sabem quando vai chegar”. E isto que o prefeito-tampão é médico e o prefeito-defenestrado também o é.
De minha parte quero deixar registrado aqui o meu reconhecimento pela melhoria significativa havida. Quero também afirmar que quando pessoas comprometidas, mesmo sendo funcionários públicos, decidem melhorar o serviço prestado, conseguem fazê-lo. Que o exemplo seja seguido por outros órgãos do setor público.
Marcos Inhauser

quinta-feira, 17 de maio de 2012

MODERNOS VERSALHES


Na semana passada escrevi algo sobre os hábitos higiênicos nos palácios da Europa nos séculos XVII e XVIII e sobre o fato de que no palácio de Versalhes não havia banheiros. As fezes eram jogadas janelas afora. As pessoas não escovavam dentes, nem tomavam banhos regulares e por isto precisavam ser abanadas para disfarçar o mau cheiro.
Enquanto escrevia a coluna comecei a pensar se a situação atual é diferente. Dos Palácios modernos, especialmente os brasileiros, tem saído muito mau cheiro, muita caca. Sejam eles Palácios federais, estaduais ou municipais, o que se tem notícia é que são fétidos e enlameados (perdão pelo eufemismo, mas o espaço não me permite o uso da palavra correta). Os Palácios fétidos são ligados aos poderes Judicial, Legislativo e Executivo. O recente escândalo do Cachoeira veio mostrar o quanto a lama entrou nos palácios e quanto mau cheiro está exalando e por exalar.
Pensei também que as tais CPIs são como leques a esparramar o mau cheiro, afastar o mau cheiroso, sem nos dar a segurança de que os outros gambás também serão retirados. Os paladinos da moral acabam por se mostrar empresários do mal. Aí estão os desembargadores flagrados com o dinheiro dos precatórios, os deputados mamando na contravenção dos bingos, os asseclas encontrados nos palácios se beneficiando de esquemas de sobrefaturamento (vide o recente caso na PM de São Paulo com o encarregado de autorizar alvarás de construção e que tem mais de 120 imóveis), governadores que se enriquecem do dia para a noite ou jantando em restaurantes de contas astronômicas pagas por empresário que se locupleta com o dinheiro público, senadores donos de estado ou proprietários do gado mais fértil do mundo, prefeitos que montam esquemas milionários de desvio, tal como o correu em Campinas e outras cidades da região e no Brasil.
Neste sentido, fico à espera de novidades mau cheirosas na Prefeitura de Campinas, outra vez. Notícia veiculada por este jornal na semana passada mostra como os partidos políticos perderam a vigência em Campinas, cedendo espaço às negociações diretas dos vereadores com o Executivo.
Fontes bastante bem informadas me passaram um dado preocupante: depois da ascensão do novo prefeito, tem havido um festival de nomeação de novos coordenadores e criação de novas coordenadorias na Sanasa, todas com salários entre quatorze e vinte e cinco mil. Até uma Coordenadoria de Saúde Bucal foi criada, só Deus sabe para quê. Boa parte dos recém-nomeados não tem histórico de trabalho com a Sanasa.
Não é de hoje que a Sanasa, ao invés de tratar o esgoto e a água, tem recebido o esgoto da política. É emblemático o fato de ter a Sanasa um prédio sem janelas, envidraçado em sua totalidade, impedindo que se veja de fora o que lá dentro acontece. Total falta de transparência!!!
Marcos Inhauser

quarta-feira, 9 de maio de 2012

CHEIROSOS E LIMPINHOS


Com algumas exceções, todos somos cheirosos e limpinhos.
Isto nem sempre foi assim. Quando se visita o Palácio de Versailles, observa-se que não há banheiros! As fezes humanas eram atiradas pelas janelas do palácio. Na Idade Média não existia pasta de dente, escovas de dentes, perfumes, desodorantes, papel higiênico. As pessoas eram abanadas não por causa do calor, mas do odor que as pessoas exalavam, pois não tomavam banho, não escovavam os dentes, não usavam papel higiênico e não faziam higiene íntima. Os nobres eram os únicos que podiam ter quem os abanassem, espalhando o mau cheiro que o corpo e suas bocas exalavam.
Na Idade Média, a maioria dos casamentos ocorria no mês de junho (início do verão), pois o primeiro banho do ano era tomado em maio. Assim, em junho, o cheiro das pessoas ainda estava tolerável. Como alguns odores já começavam a exalar, as noivas carregavam para disfarçar buquês de flores junto ao corpo, dando assim origem ao costume de se casar em maio e carregar buquês.
Os banhos eram tomados numa única tina. O chefe da família era o primeiro. Depois, sem trocar a água, vinham os outros homens da casa, as mulheres e, por fim, as crianças. Quando chegava a vez delas, a água já estava tão suja que era possível perder o bebê lá dentro. É por isso que existe a expressão em inglês "don't throw the baby out with the bath water” (não jogue o bebê junto com a água do banho).
Os telhados não tinham forro e as madeiras que os sustentavam eram o lugar para animais se aquecerem. Quando chovia, começavam as goteiras e os animais pulavam para o chão. Assim surge a expressão "it's raining cats and dogs" (está chovendo gatos e cachorros).
Os que tinham dinheiro possuíam pratos de estanho. Certos alimentos oxidavam o material e muita gente morria envenenada. Os tomates, sendo ácidos, foram considerados venenosos. Os copos de estanho eram usados para beber cerveja ou uísque. Essa combinação, às vezes, deixava o indivíduo no chão (numa espécie de narcolepsia induzida pela bebida alcoólica e pelo óxido de estanho). Alguém que passasse pela rua poderia pensar que estava morto, recolhia o corpo e preparava o enterro. O corpo era velado por alguns dias e a família ficava esperando para ver se o morto acordava ou não. Surgiu assim o velório.
A Inglaterra nem sempre teve espaço para enterrar todos os mortos. Os caixões eram abertos, os ossos tirados e o túmulo era utilizado para outro defunto. Às vezes, ao abrir os caixões, percebiam que havia arranhões nas tampas, do lado de dentro, o que indicava que aquele morto tinha sido enterrado vivo. Surgiu a ideia de amarrar uma tira no pulso do defunto que passava por um buraco no caixão e ficava amarrada a um sino. Após o enterro, alguém ficava de plantão ao lado do túmulo durante uns dias. Se o indivíduo acordasse, o movimento de seu braço faria o sino tocar. Ele seria "saved by the bell", ou salvo pelo gongo, expressão essa por nós usada até os dias atuais.  (Condensado de um artigo anônimo que recebi há muito tempo).
Marcos Inhauser

quarta-feira, 2 de maio de 2012

MOEDA DE TROCA


A recente cachoeira de vídeos e áudios que tem vindo a público, revelando o lado fétido e nada ético da vida pública e política de altas autoridades da república e da polícia, revela também algumas coisas que merecem ser consideradas.
Sabe-se hoje que o Procurador Geral da República já sabia dos descaminhos do Senador Demóstenes há três anos e nada fez para que o mesmo fosse devidamente enquadrado. Pergunta-se hoje o que o levou a ficar três anos engavetando o assunto. Seria ele Procurador ou, como foi o antecessor, Engavetador Geral da República?  Quais interesses ele defendia ou que temores tinha para que as coisas não fossem trazidas a público?
Outra pergunta que se faz é por que só agora a coisa veio a publico, na profusão de evidências, onde a cada dia nova revelação aparece, como se a cachoeira do esgoto fosse conta-gotas? Haveria alguma estranha relação entre os fatos hora revelados e o julgamento a ser feito pelo STJ sobre o mensalão? Haveria aqui alguma possível moeda de troca ou “presta atenção” à oposição? Seria algo do tipo: se vocês quiserem mexer fundo na lama do mensalão, nós temos uma cachoeira de fezes para jogar sobre vocês.
Causa-me estranheza que a CPI dos Corruptores, tantas vezes aventada e necessidade urgente nesta república de mal feitos, nunca tenha saído do papel e nem mesmo é aventada pelos políticos de plantão. Já se fez algo para punir um ou outro pego na corrupção, mas nada que tocasse no âmago da questão. Se há corruptos há corruptores. Que as construtoras são as grandes vilãs, todo mundo sabe e evidências já foram levantadas, todas devidamente arquivadas por sentenças judiciais, sob a legação de ilegalidade no levantamento das provas. Quem, em sã consciência, acredita que desta vez vão pegar os tubarões? Será que vão mexer fundo na coisa, pegando a construtora que mais contratos tem com o Governo Federal? Duvido e aposto que não. Providencialmente pegaram um lambari da construtora e o puseram em prisão, o Cavendish já saiu de cena, a Alckmin já disse que vai rever os contratos com a Delta, a própria Delta já abriu mão de algumas obras mais vistosas (Maracanã e Petrobrás). Assessores do Agnelo Queiroz já renunciaram para “ter tempo de preparar a defesa”, o Marconi Perilo nega de pés juntos que nada tem a ver com a coisa. Vai sobrar para quem?
O Demóstenes vai receber seu quinhão por ter batido forte no governo e agora recebe o troco. Os dois delegados da PF vão cair em desgraça, os deputados Lereia e o Protógenes vai receber seu quinhão de vingança, o Nercessian é figura insípida e não afeta o tabuleiro do jogo e vai sobrar até para o Tulio Maravilha.
Mas tubarão não vai cair nesta rede. É ano eleitoral e a moeda de troca vai rolar. Vai se fingir que se investiga, vai se fingir que se pune, cada partido vai receber seu quinhão das construtoras, laboratórios farmacêuticos e bancos e continuamos sendo o mesmo país que sempre fomos. E assim será financiada a campanha eleitoral. Quanto mais derem para os partidos, menos chances tem as construtoras, bancos, laboratórios de serem chamados a se explicar na CPI.
Marcos Inhauser

A DECEPÇÃO FOI ELEITO


Nada que me surpreendesse. O resultado da “eleição” na câmara Municipal de Campinas era, para mim, o conto de um final previsível. Eu já disse aqui que o Pedro Serafim não entrou na história de graça. Ele tinha e tem seus objetivos. Seu sonho desde criancinha era um dia ser prefeito de Campinas e conseguiu, ainda que pela via indireta, mesmo porque, se fosse pela urna eu tenho minhas dúvidas de que seria eleito.
Ele, na sua trajetória política, é uma decepção. Em 2010, quando da sua eleição para a presidência da Câmara já se alertava para o fato de que o ele era um dos parlamentares mais ausentes na Câmara. Quase não participava das comissões e nas sessões.  Chegava atrasado e costumava sair antes de terminar as reuniões.  Os vereadores foram questionados sobre os motivos que os levaram a votar nele e não responderam. Nos corredores muitos parlamentares admitiram que Serafim iria rever o valor dos salários dos vereadores.
Aqui está a segunda grande decepção: a forma como conduziu a discussão e aprovação do aumento salarial de 126%. À época eu escrevi: “A Câmara Municipal de Campinas, no melhor dos espíritos natalinos, decidiu dar-se um belo presente: aumento nos salários de 126%! ... Qual o índice usado para que eles aprovassem os 126%? E por que foi feito em uma aprovação às surdinas e de forma sorrateira?”. Na semana seguinte escrevi: “como acreditar no comandante em chefe da decisão que autoconcedeu-se o escandaloso aumento de 126%. O meu raciocínio é: a questão do aumento foi proposta, discutida, aceita e aprovada nos bastidores, bem assim a maneira sorrateira de aprovar. ... Causou-me espanto as afirmações do agora prefeito tampão, ... de que o aumento era para que houvesse independência do legislativo (... confissão de promiscuidade...). “
A terceira decepção é que, no mandato tampão queria governar juntamente com os vereadores, sugerindo o conluio do executivo com o legislativo, inconstitucional. Mais tarde disse que não conseguiu fazer grandes coisas no mandato tampão porque era temporário, ainda que tivesse todo o poder da caneta para fazer acontecer coisas. Se não soube se impor na autoridade de tampão, como acreditar que se imporá no mandato tampão-eleito? Temporário por temporário, os dois os são.
No dia da eleição, em entrevista, disse que daria um choque de gestão e que “controlaria a transparência das contas”. Ato falho? Para mim confissão de um estilo, porque já mostrou na Câmara como controla a informação quando do episódio do aumento salarial. O que a população espera e reclama é que a transparência das contas não seja controlada, mas feita de forma clara.
Não tenho dúvidas: Campinas continuará sem prefeito até dezembro. Até lá haverá muita campanha, muito acerto de bastidores e vereadores tentando limpar a barra que sujou nestes episódios todos. De minha parte não reelejo a nenhum deles!
Marcos Inhauser

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Carta de Princípios da Criança Diabética


Há alguns anos presto serviço voluntário junto à ONG Pró-Diabéticos. Fundada em 2005, pela Sra. Claudia Filatro, mãe de uma criança com diabetes tipo1, a ONG Pró-Crianças e Jovens Diabéticos, sediada em Campinas/SP, e com filial em Guarujá/SP, conta com cerca de 30 voluntários, nasceu com a missão de prover amor, orientação e meios aos pacientes portadores de diabetes tipo 1, com prioridade para crianças e adolescentes de baixa renda, e seus familiares.
O Diabetes mellitus (DM) é um dos principais problemas de saúde pública mundial, tendo afetado no ano de 2011 cerca de 366 milhões de pessoas e com uma estimativa de 552 milhões de indivíduos afetados no ano de 2030 se medidas de prevenção não forem adotadas.
O Diabetes mellitus tipo 1 (DM1) é o distúrbio metabólico mais frequente na infância e na adolescência e caracteriza-se pela deficiência absoluta da secreção de insulina, resultante da destruição autoimune das células beta do pâncreas.
Recentemente a ONG trabalhou dura e arduamente na elaboração da “Carta de Princípios dos Direitos da Criança e do Adolescente com diabetes tipo 1”. Esta é mais uma iniciativa inédita da ONG, cujo papel é defender os direitos, interesses e necessidades das crianças e adolescentes de baixa renda com diabetes tipo 1. A Carta visa garantir os direitos básicos dessa população e para isto precisa ser aprovada pelo Congresso Nacional.  A forma de se conseguir isto é através de Abaixo Assinado eletrônico com 50.000 assinaturas on line.
Com esta carta busca-se o direito de receber cuidados especiais de um Cuidador capacitado em diabetes tipo 1 que ajudará o paciente a receberem os cuidados especiais; que ajudará a criança a gerenciar em nível domiciliar o tratamento medicamentoso do paciente, assim como do plano alimentar de prescrito pelo médico ou de nutricionista; controlará as crises agudas e complicações, manterá registros glicêmicos, estímulo e/ou acompanhamento do paciente nas atividades físicas, visando sempre concentrar esforços no tratamento preventivo.
A ONG lança agora a campanha para as assinaturas sejam colhidas e que podem ser firmadas por pessoas físicas, jurídicas, associações de portadores de diabetes, e demais entidades de defesa dos direitos da criança.
A forma de aderir à campanha e deixar sua assinatura é acessando o site:: http://www.peticoesonline.com/peticao/carta-de-principios-dos-direitos-da-crianca-e-do-adolescente-com-diabetes-tipo-1/456.
Colhidas as assinaturas necessárias, o próximo passo será a entrega da Carta com as devidas assinaturas eletrônicas à Ministra dos Direitos Humanos Maria do Rosário Nunes, ao Ministro da Saúde Alexandre Padilha, Coordenador Nacional de Saúde da Criança e do Adolescente do Ministério da Saúde e ao CONANDA (Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente), a fim de que sejam implementadas as ações necessárias que assegurem a efetivação dos direitos dessa população.
Marcos Inhauser

quinta-feira, 12 de abril de 2012

MEU TEMPLO É A COZINHA


Meu altar é o fogão.
Minha ceia é o arroz e feijão, salada e mistura.
A mesa é a celebração da comunhão.
Os vapores das panelas são o incenso das minhas orações.
O cheiro é a antecipação do paraíso.
A reunião é a adoração.
O barulho dos comensais é o canto de louvor.
Não falo em metáforas, mas na concretude dos fatos de entender que cada refeição é uma Eucaristia. Cada vez que entro na cozinha eu o faço com reverência. Gosto de cozinhar e entendo que fazê-lo é um ato de amor ao próximo. Cozinho não para mim, mas para os meus familiares, os meus amigos. Esmero-me.
Cortar uma cebola ou um tomate é um ato de celebrar ao Criador ao ver as texturas, a disposição das sementes, o cheiro, o gosto. Colher a salsa e a cebolinha é um ato de usufruir do criado e o prazer do sabor na comida. Mesmo folhas minúsculas, moídas, picadas, esmagadas, trazem tempero e a delícia da criação ao prato preparado. Temperar uma carne, um peixe, um frango é um ato de adoração ao Criador que nos deu a comida e a sabedoria em prepará-las.  Que mundo mais sem graça seria se tudo viesse pronto, como fast food divino. Ele deixou a nós a liberdade para temperar, acrescentar sabores, mudar formas, variar arranjos.
A cozinha requer uma estola sacerdotal. O avental é a estola do sacerdote cozinheiro. E cozinheiro que se preze tem seus instrumentos próprios: tem suas facas, sua chaira, sua pedra de afiar, a colher de mexer. Não é qualquer faca, nem qualquer colher. Há hora certa de entrar em cena. Dependendo do que se vai cortar ou mexer, lá vai o instrumento certo. Há uma liturgia no ato de cozinhar.
Cada vez que preparo uma comida posso dizer com toda propriedade e sem nenhuma blasfêmia que “isto é meu corpo dado por vós”, “isto é meu sangue dado por vós”. Quem nunca saiu de uma cozinha exausto e moído de canseira? Quem nunca cortou o dedo preparando a comida? Mais que isto, posso dizer que é meu corpo e meu sangue porque o alimento ali apresentado teve horas de trabalho, de vida consumida para trazê-lo e coloca-lo à mesa. E cada vez que apresento o alimento na mesa da comunhão, propicio o milagre da ressurreição: corpos famintos, esmaecidos pela canseira, tem seu vigor renovado, sua vida ressuscitada.
Sentar-se à mesa tem um quê de sacramental. As inimizades não resistem a uma comida fraternal, a unidade é fortalecida pelo fato de compartilhar da comida. A solidariedade é enriquecida por ter que desfrutar da comida pensando que o outro também deve comer. Há o milagre da multiplicação: quantas vezes você serviu uma janta ou almoço e achou que a comida era pouca? E quantas vezes, apesar disto, sobrou um pouco no fundo da panela?
Cada vez que juntos comemos, esperamos a oportunidade de um novo comer, uma nova reunião, uma nova Eucaristia. Cada almoço e jantar deve ser uma Eucaristia celebrada na intimidade do lar, no convívio dos queridos e no convite dos que queremos nos reconciliar.

Marcos Inhauser

terça-feira, 3 de abril de 2012

A REFEIÇÃO RELIGIOSA


Não é nenhuma coincidência que a celebração cúltica máxima nos tempos do Antigo Testamente seja uma refeição e, de igual forma, no Novo Testamento. Todo o calendário litúrgico da religião judaica estava e ainda está voltada para a celebração anual da Páscoa. A esta celebração Jesus subiu a Jerusalém, assim como muitos faziam em Israel para, no templo, participar da festa que conferia identidade e integridade nacionais.
Todo judeu devia, ao menos uma vez em sua vida, participar desta festa na cidade santa.
A centralidade e importância desta refeição comunitária se devem ao fato de ter sido ela instituída quando o povo ainda estava no Egito, em escravidão por mais de quatro séculos, e que, depois de nove pragas, são orientados a matar um cordeiro, vestir-se para viagem, sandália aos pés, porque iniciariam a peregrinação para a liberdade, conhecida como Êxodo. O sentido de comunhão estava evidente no fato de que todos da família, inclusive as crianças, deviam participar. Se o cordeiro fosse muito para uma família, vizinhos deviam ser convidados para que juntos dele comessem e assim desfrutassem da experiência do convívio celebrativo da libertação.
A celebração tinha ainda o caráter rememorativo e educativo, pois, quando os filhos perguntassem por que celebravam a Páscoa, os pais deviam contar a história da escravidão no Egito e como o povo foi libertado. Além de educar, também tinha o objetivo de evitar que os judeus fizessem com outros povos o que o Egito havia feito com eles.
Já no Novo Testamento a centralidade da Eucaristia não é menor, nem diferente o seu objetivo. Cabe ressaltar que Jesus não deixou para Sua igreja a Bíblia, nem o templo, nem um manual de doutrina, nem rituais definidos e demarcados. A única coisa que Ele deixou foi a Eucaristia ou Santa Ceia. Ressalte-se ainda que, no Seu ministério e muito mais depois da Sua ressurreição, ele ceou com seus amigos, inimigos e apóstolos.
Ele instituiu a Ceia como forma de comunhão e celebração rememorativa, tal como se devia fazer na Páscoa. “Fazei isto em memória de mim” e “porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes deste cálice, anunciais a Sua morte até que ele venha”. Memória do Seu sacrifício e morte libertadora, assim como na Páscoa a morte do cordeiro era libertadora.
Há entre católicos e protestantes divergências quanto ao significado da Eucaristia. Mesmo entre os protestantes não há consenso, havendo os que a consideram sacramento e os que a veem como memorial.
Pessoalmente, seguindo a tradição anabatista, creio que a Eucaristia é compreendida pela lavagem dos pés, pela refeição comunal e pela celebração recordatória do comer do pão e beber do cálice e que, a participação nesta celebração é meio de graça (aqui deixo de ser anabatista e sou calvinista). A Páscoa não é um fim de semana prolongado para que se possa ir à praia ou viajar. É a celebração da intervenção divina na história, sempre para nosso benefício e salvação.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 28 de março de 2012

DOENÇAS: CASUALIDADE OU CASTIGO DIVINO?


O Rev. Kopeska, amigo e irmão por afeição, escreve coisas que gosto: Aqui vai mais uma (com edições para caber aqui).
Epícuro, filósofo grego, tentou entender Deus a partir do sofrimento humano: Deus, ou quer impedir os males e não pode, ou pode e não quer, ou não quer nem pode, ou quer e pode. Se quer e não pode, é impotente: o que é impossível em Deus. Se pode e não quer, é invejoso: o que, do mesmo modo, é contrário a Deus. Se nem quer nem pode, é invejoso e impotente: portanto nem sequer é Deus. Se pode e quer, que é a única coisa compatível com Deus, donde provém então existência dos males? Por que razão é que não os impede? A filosofia epicurista ... reflete ... o egocentrismo infantil e utópico do ser humano em querer passar pela vida sem ... ônus, perda ou pesar. Algo impossível para ... (humanos). Não somente Epícuro e os amigos de Jó interpretaram a doença a partir da existência ou justiça de Deus. Há um livro (“Teorias Sobre as Doenças”) que traz a pesquisa feita em 139 culturas, das quais 135 interpretam as enfermidades como castigo divino. Trata-se da mistificação das doenças, as quais nossos antepassados a julgavam como fenômeno "sobrenatural", ... além da compreensão do mundo, superada, depois, pela teoria de que a doença é decorrente das alterações ambientais ... que o homem vive. ... saúde e doença são estados de um mesmo processo, ... Uma avó ligou para a neta. O bisneto atendeu e ela perguntou por que ele estava em casa e não no colégio. Ele respondeu: "Vó, estou descansando no Senhor". Ele estava doente, mas por causa da convicção religiosa, não podia admitir a doença, pois significava pecado na vida. Enfermidades não são castigos divinos, reflexo da falta de fé, sinais de pecados ou indicativos de negligência na comunhão com Deus. São fatos inerentes da nossa humanidade ... Os que confiamos na soberania de Deus ... cremos que as enfermidades podem ser instrumentos de Deus para a sedimentação emocional e espiritual. Assim é o carvalho, usado por geólogos e botânicos como medidor de catástrofes naturais. Quando querem saber o índice de temporais e tempestades ocorridas numa determinada floresta, eles observam o carvalho, que é a árvore que mais absorve as consequências de temporais. Quanto mais tempestades ele enfrenta, mais forte fica. Suas raízes se aprofundam e o caule se robustece, sendo quase impossível arrancar ou derrubar. Não é necessário fazer análises para saber. Basta olhar. Para absorver as tempestades, o carvalho assume aparência disforme, como se tivesse feito muita força, pode ter aparência triste. A tempestade para o carvalho é desafio e não ameaça. Assim somos nós. Devemos tirar proveito das situações contrárias à nossa vida e ficar mais fortes. Com a aparência abatida, mas fortes! Raízes profundas! O apóstolo Paulo escrevendo aos cristãos, na antessala do martírio em Roma, anima-os: ... nos gloriemos nas próprias tribulações, sabendo que a tribulação produz perseverança; e a perseverança, experiência; e a experiência, esperança.
Marcos Inhauser e Marcos Kopeska

quarta-feira, 21 de março de 2012

ABENSUADO


Não errei na grafia, não!
O que quero afirmar é que a benção vem acompanhada de suor, a inspiração tem muito de transpiração, o sucesso de dedicação. Não há atalhos para as coisas e os atalhos que nos são oferecidos são fraudes.
Milhões jogam todas as semanas na loteria, uns poucos acertam e os que levam a bolada, via de regra, passam a viver um inferno. Ou perdem o que ganharam ou precisam administrar os “amigos”. Chove na minha caixa postal e-mails me prometendo ganhar mundos e fundos sem sair de casa e quando os olho com mais cuidado, vejo que tenho que pagar e fico a pensar e concluir, a partir de experiências anteriores e de outros que as viveram, que o único ganho garantido é de quem recebe.
Quem ainda não recebeu uma carta ou e-mail do tipo corrente? Você conhece alguém que já ganhou dinheiro com isto a não ser quem iniciou a corrente?
Já li a biografia de muita gente que se tornou famosa por “a” ou por “b”. Pegue-se o exemplo de Thomas Edison que fez mais de dez mil experiências até que conseguisse inventar a lâmpada, que durava não mais de 48 horas. Ele teria afirmado que “Não errei dez mil vezes, apenas descobri dez mil coisas que não funcionam.” Li também a história de Ernest Henry Shackelton, definido como o maior líder que a humanidade conheceu. Tentou chegar ao polo sul e nunca conseguiu chegar lá, mas deixou lições preciosas sobre a obstinação, persistência e lealdade aos comandados.
Neste contexto preocupa-me a maciça e massiva pregação religiosa que tem assolado as televisões e templos que abrigam empreendimentos religiosos. Trata-se da pregação que diz que a pessoa pode se tornar rica, próspera, do dia para noite, bastando para tanto obedecer a Deus (obediência nas ofertas e dízimos!). Inúmeros são os relatos de gente que aparece dando seu “testemunho” de como foram abençoados porque deram o dízimo ou ofertaram generosamente. Já se questionou a autenticidade de tais testemunhos, visto que se sabe hoje que vários deles são pagos, de gente que ganha uns trocados para falar o que interessa ao dono do programa.
Esta semana surgiu a notícia de que a Uniesp (União das Instituições Educacionais do Estado de São Paulo) firmou convênios com igrejas comprometendo-se a pagar dízimo pela indicação e matricula de fiéis em seus cursos universitários. Haja criatividade! Aposto que ofereceram à Uniesp que receberiam de volta dez vezes mais do que dizimariam! Os espertalhões por trás de tal negociata querem o bem$ão sem suar a camisa. Usam o nome de Deus para o seu enriquecimento.
Eu, orientado pelo sábio Cirino (boia fria, negro, dos meus tempos de infância que me ensinou algumas lições preciosas) vou botar minhas barbas de molho. Acredito que o que comemos deve vir do suor do rosto. Querer a benção sem suar é comer do suor dos outros, que vão trabalhar mais do que devem e precisam para sustentar a opulência de espertalhões travestidos de sacerdotes, pastores, bispos e apóstolos.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 14 de março de 2012

AMOR TERCEIRIZADO


Ela tinha certa capacidade financeira. Dona de um próspero negócio e metida a madame, frequentava uma das igrejas que pastoreei. Cada vez que tínhamos algum evento na igreja, fosse ele hospedando alguma reunião ou congresso, ou mesmo para angariar fundos para alguma instituição social, as mulheres e homens da igreja se cotizavam para ajudar. Uma vez era um churrasco beneficente, outra um jantar para angariar fundos, ou uma simples confraternização entre membros da igreja. Todos se cotizavam e se dispunham, menos a madame. Ela vinha para mim e dizia: arruma alguém para fazer em meu lugar que eu pago.
Um dia eu estava meio atravessado e disse a ela que não queria gente que pagasse a outros para amar no lugar dela. Ou ela viria ou então não precisávamos do seu amor terceirizado. Ela nunca mais apareceu na igreja.
No tempo em que estive indo quase diariamente à casa de repouso para visitar meu sogro e depois meu pai, revi esta cena muitas vezes. Vi nestas casas gente que ali foi colocada pelos filhos que nunca voltaram para fazer uma visita ao pai ou mãe. Era gente que acreditava que pagando a mensalidade já cumpriam com sua missão. Ouvia história de um homem que foi colocado, pagaram três meses adiantados e nunca mais deram o ar da graça, nem para pagar o restante, nem para levar o pai a outro local. Um deles me contou que tinha seis “tranqueiras na família” e que só uma sobrinha era quem tinha algum cuidado com ele.
É mais fácil terceirizar que sentar-se ao lado e ouvir a mesma história quatro ou cinco vezes em uma hora de convivência. É mais fácil saber que há alguém para cuidar e que se paga para fazer isto.
É verdade que há situações em que a situação de saúde da pessoa exige cuidados especiais e locais apropriados. No entanto, isto não exime os familiares de visitar, se fazer presente, ouvir as histórias.
Há gente que não demonstra amor nas relações pessoais, mas contribui com organizações que representam causas nobres, e estas então amam por elas e assim se sentem isentas de culpa.
Apesar de ser nosso dever contribuir para estas organizações que se propõem a aliviar miséria e sofrimentos humanos, estamos cometendo grave erro se acreditamos que estas contribuições nos livram de nossas responsabilidades pessoais de demonstrar amor ao próximo.
Um filho ou filha, que recebeu dos pais os cuidados na infância, que noites mal dormidas por eles foram por causa do cuidado que deram em momentos de enfermidade, não tem o direito de se ausentar ou mesmo de pagar para que outros amem no seu lugar.
O mesmo se pode dizer de pais que contratam babás para amar em seus lugares, ou mandam para a escolinhas para que lá sejam abraçadas e reconhecidas.
O amor ao próximo é intransferível. Não há como passar procuração. É uma responsabilidade individual, intransferível, inalienável. Amar é altamente recompensador e tem a capacidade de dar significado à vida.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 7 de março de 2012

A VOZ FEMININA CALADA PELA INQUISIÇÃO


Não é de hoje que conheço e admiro o trabalho de pesquisa histórica que a professora Rute Salviano Almeida desenvolve, recuperando vozes femininas caladas pela Igreja. Ela traz a público mais um trabalho de sua lavra e pesquisa.
Lança amanhã seu livro “Uma voz feminina calada pela Inquisição”, no qual apresenta o contexto do final da Idade Média, o papel feminino e a vida das beguinas, mulheres que se dedicaram ao cuidado dos menos favorecidos, tornando-se mestras da vida e artesãs da alma.
A personagem central de seu livro é Margarida Porete, beguina itinerante que foi a primeira mulher queimada pela Inquisição francesa, em 1310. Ela ousou escrever e divulgar suas ideias na língua do povo, quando a permitida era somente o latim, considerada língua sacra. O livro apresenta o Tribunal da Inquisição, com textos da época, bulas condenatórias e o processo que levou Margarida à morte.
Como em seu primeiro livro “Uma voz feminina na Reforma”, a escritora destaca o silêncio das mulheres na História e o alto preço pago pela ousadia de falar, pois o discurso público da mulher equivalia a uma perversão no cenário da Idade Média.
No livro são apresentadas as mulheres como mães, esposas e “escravas da moda”, mostrando como o sexo feminino sempre sofreu em nome da beleza. As mulheres medievais depilavam os cabelos da testa com cal, devido à moda do penteado alto, no qual tinham que mostrar uma testa exageradamente grande.
Na conclusão, a autora reflete sobre as diferenças e semelhanças entre aquela época e a atual. Mais que isto, há que considerar-se que no meio religioso (tanto cristão, como muçulmano e judeu) a mulher continua calada. Poucos são os espaços em que ela pode expressar o que sente e pensa. Ao negar-lhe o acesso ao sacerdócio e à ordenação pastoral, calam suas vozes, mesmo quando elas representam, em média, 67% de todas as igrejas cristãs e religiões.
Na Idade Média, apesar de enfrentar pestes, inundações, guerras e crer que Deus era juiz vingativo e cruel, não queriam ser afastadas da fé, pois ela lhe dava segurança em meio à vida cheia de temores. Nesta pós-modernidade, por seu turno, acha-se vergonhoso crer nas doutrinas, preferindo “desconstruir” dogmas. Ao fazer isso, não conseguem colocar nada no lugar e acabam vivendo perdendo a esperança. Talvez isto explique a falta de empolgação, de brilho nos olhos da nossa geração, gente disposta a levar às últimas consequências seus ideais.
Se a Idade Média foi uma época de temores, hoje o sofrimento é a pobreza, violência, corrupção e desemprego. A fé continua a ser o único esteio da humanidade; se dava esperança ao homem medieval, continua a dar ao homem de hoje.
Uma pessoa que dedicou a vida a recuperar a voz das mulheres silenciadas, merece o apoio até dos homens. O livro pode ser encontrado no site da Hagnos (www.hagnos.com.br)
Marcos Inhauser

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

HÁ FUNCIONÁRIO E FUNCIONÁRIO


Quando da internação do meu pai no PS São José, escrevi dois textos. Em uma destas vezes recebi um e-mail de um funcionário do PS, que segue abaixo, com algumas edições:
“Provavelmente o senhor não se lembra de mim, mas fiz Raio-X do senhor Milton quando ele estava internado no São Jose. Meu nome é Wagner, sou técnico de Raio-X no PS há 11 anos. Muitas coisas já presenciei naquele local, histórias tristes e alegres, de perda e dor, de superação e humanidade.
Tenho orgulho do meu trabalho naquele local. Inúmeras vezes, depois de um plantão exaustivo, saí de lá jurando que na primeira oportunidade pediria transferência, mas até hoje, sempre que uma vaga em outro lugar aparece, acabo dispensando e continuo no bom e insano PS São Jose. Não estamos acostumados com elogios e reconhecimentos. Geralmente levamos apenas pedradas como o senhor mesmo presenciou enquanto cuidava do seu pai. Quantos xingamentos, quantas escarradas no rosto já levei naqueles plantões! Não estou falando no sentido figurado, mas literal. Já fui pra casa levando o DNA de pacientes nervosos, drogados, exaltados, que não se contentaram em ofender...rsrsrsrs. Não tem jeito.
Aquele lugar realmente nos mostra que temos uma missão a cumprir, que precisamos estar ali, mesmo que for para passar por essas agruras.
Quando vemos uma criança chegando toda roxa sem ar e depois saindo de lá sorrindo,  bem de saúde, não tem dinheiro que pague”.
Há aqui algumas coisas. A primeira é o senso de dever para com o próximo que o Wagner tem (e muitos outros). Já escrevi aqui sobre “Um Exército de Anjas” para falar de quem trabalha no Cândido Ferreira e “Mario Gatti da Graça” para reconhecer o cuidado que meu pai ali teve quando foi operado.
A segunda é que este pessoal trabalha sem recursos e há os que colocam dinheiro e equipamentos pessoais para poder atender à população.
A terceira é que os profissionais de saúde estão expostos à violência. Ela tem duas fontes: os que chegam alterados pelo álcool ou pela droga e os que, achando-se com algum direito superior aos demais, ofendem, xingam e agridem. São comportamentos insanos, como relata o Wagner.
Quarto é que causa revolta ver profissionais dedicados lutando com a falta de recursos e o dotô e quadrilha levando os milhões que o Ministério Público está dizendo que levou. Vi gente virando plantão para poder ganhar uns trocados a mais e porque não havia profissionais suficientes. Outros, sem nada fazer além das tramoias, levam malas do nosso dinheiro.
Quinto: o governo central, no ensejo de pagar os juros para os agiotas internacionais, decidiu fazer cortes no orçamento. Não cortaram verbas do Senado ou Congresso, nem das emendas parlamentares. Mas da Saúde. E o ministro tem a cara de pau de vir a público dizendo que os cortes não vão representar queda na qualidade do atendimento. São 5,5 bilhões a menos.
Pensando bem, acho que o Ministro não mentiu: é impossível piorar o atendimento médico público. Se algo funciona é pelo denodo de funcionários como o Wagner e outros que conheço.
Marcos Inhauser


terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

FICHA LIMPA SEM CINZAS


O calendário litúrgico coloca esta quarta como sendo de “cinzas”, a raiz da prática semítica de mostrar o arrependimento usando sacos e se cobrindo de cinzas. Exemplo mais emblemático e conhecido desta prática é Jó, o personagem bíblico que suportou tamanha provação e privação. Diz o texto que “Jó tomou um caco para se raspar com ele; e estava assentado no meio da cinza” (Jó 2:8).
Ela era o sinal externo de um arrependimento interno, de uma prática de devoção que implicava na mudança de hábitos de vida. Na prática cristã a inclusão de uma data no calendário para que se faça esta contrição e arrependimento tem uma longa história, que não cabe aqui recontá-la.
O que quero é mostrar a relação entre a Ficha Limpa, lei recentemente considerada constitucional pelo STJ e a quarta-feira de cinzas. A lei nasceu do desejo e anseio populares de dar um basta aos larápios do erário, que se reelegiam e assim davam continuidade a seus atos de rapina no carnaval da política nacional. E a lei entra em vigor nestes dias.
Havia um carnaval na política brasileira. Escolas de samba com gente fantasiada de senador, deputado, governador, prefeito, vereador, que desfilavam seus brilhos, pumas e paetês na passarela da política nacional. Era a escola dos políticos doidos, que acreditavam que o Carnaval não tinha fim. A plateia, do alto das arquibancadas do sambódromo político, decidiu que o Carnaval da corrupção tinha que ter fim.
Houve mobilização, abaixo assinado, coordenação e a coisa foi parar na presidência da Escola de Samba do Planalto. Pressionados pelo calor das vaias que ouviam, decidiram dar um tempo no samba, crendo que era questão momentânea. Acharam que as vaias para a performance grotesca de suas alegorias e samba seriam, como sempre foram, relegadas a um segundo plano. Ledo engano. O coro e as vaias cresceram.
Decidiram pedir ajuda a outra escola de samba para que interferisse e dissesse se a coisa valia ou não. Os togados, também pressionados por vaias para a desafinação de alguns integrantes que estavam movimentando mais grana do que a ética, a decência e os salários permitiam, decidiram que o Carnaval das propinas estava levando um tranco e que o samba teria que ser outro.
Os foliões que estavam atravessando na harmonia, foram cirurgicamente impedidos de renovar suas participações no sambódromo político nacional.
Ocorre que estes foliões atravessados e bêbados pelo sangue do povo não conhecem o que é contrição e arrependimento. Nunca se vestiram de pano de saco, nem se cobriram de cinza. Ainda querem passar a ideia de são vítimas das notas de jurados incompetentes que não lhes dão notas dignas de sua ilibada performance. Eles perderam nos itens harmonia, comissão de frente, samba enredo. Podem ter alguns pontos em criatividade, fantasias, hipocrisia, evolução patrimonial.
Não esperemos que venham a público vestidos de saco e cobertos de cinza, por mais cristãos que afirmem ser. Fazer isto seria devolver ao erário o que roubaram. Nisto o Zaqueu, chefe dos publicanos era mais cristão que estes. Decidiu devolver o que havia tomado indevidamente. 
Marcos Inhauser