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terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

FICHA LIMPA SEM CINZAS


O calendário litúrgico coloca esta quarta como sendo de “cinzas”, a raiz da prática semítica de mostrar o arrependimento usando sacos e se cobrindo de cinzas. Exemplo mais emblemático e conhecido desta prática é Jó, o personagem bíblico que suportou tamanha provação e privação. Diz o texto que “Jó tomou um caco para se raspar com ele; e estava assentado no meio da cinza” (Jó 2:8).
Ela era o sinal externo de um arrependimento interno, de uma prática de devoção que implicava na mudança de hábitos de vida. Na prática cristã a inclusão de uma data no calendário para que se faça esta contrição e arrependimento tem uma longa história, que não cabe aqui recontá-la.
O que quero é mostrar a relação entre a Ficha Limpa, lei recentemente considerada constitucional pelo STJ e a quarta-feira de cinzas. A lei nasceu do desejo e anseio populares de dar um basta aos larápios do erário, que se reelegiam e assim davam continuidade a seus atos de rapina no carnaval da política nacional. E a lei entra em vigor nestes dias.
Havia um carnaval na política brasileira. Escolas de samba com gente fantasiada de senador, deputado, governador, prefeito, vereador, que desfilavam seus brilhos, pumas e paetês na passarela da política nacional. Era a escola dos políticos doidos, que acreditavam que o Carnaval não tinha fim. A plateia, do alto das arquibancadas do sambódromo político, decidiu que o Carnaval da corrupção tinha que ter fim.
Houve mobilização, abaixo assinado, coordenação e a coisa foi parar na presidência da Escola de Samba do Planalto. Pressionados pelo calor das vaias que ouviam, decidiram dar um tempo no samba, crendo que era questão momentânea. Acharam que as vaias para a performance grotesca de suas alegorias e samba seriam, como sempre foram, relegadas a um segundo plano. Ledo engano. O coro e as vaias cresceram.
Decidiram pedir ajuda a outra escola de samba para que interferisse e dissesse se a coisa valia ou não. Os togados, também pressionados por vaias para a desafinação de alguns integrantes que estavam movimentando mais grana do que a ética, a decência e os salários permitiam, decidiram que o Carnaval das propinas estava levando um tranco e que o samba teria que ser outro.
Os foliões que estavam atravessando na harmonia, foram cirurgicamente impedidos de renovar suas participações no sambódromo político nacional.
Ocorre que estes foliões atravessados e bêbados pelo sangue do povo não conhecem o que é contrição e arrependimento. Nunca se vestiram de pano de saco, nem se cobriram de cinza. Ainda querem passar a ideia de são vítimas das notas de jurados incompetentes que não lhes dão notas dignas de sua ilibada performance. Eles perderam nos itens harmonia, comissão de frente, samba enredo. Podem ter alguns pontos em criatividade, fantasias, hipocrisia, evolução patrimonial.
Não esperemos que venham a público vestidos de saco e cobertos de cinza, por mais cristãos que afirmem ser. Fazer isto seria devolver ao erário o que roubaram. Nisto o Zaqueu, chefe dos publicanos era mais cristão que estes. Decidiu devolver o que havia tomado indevidamente. 
Marcos Inhauser