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quarta-feira, 4 de julho de 2018

TENHO MEDO


TENHO MEDO
Medo todos o temos. Alguns com mais intensidade, outros menores. O problema não é tê-los, mas se deixar dominar por eles. Pior ainda é não reconhecer que eles existem.
Para não incorrer neste erro, quero nomear alguns que tenho e que moldam meu comportamento quando aparecem.
Tenho medo de quem tem explicação para tudo. Se você não está se sentindo bem, lá vem elas com a explicação de que você comeu isto ou aquilo. Se você tem uma diarreia, são prontas em escolher algo que possa ter feito mal. Se tem uma dor de cabeça, culpam do ar poluído ao travesseiro. Elas têm uma obsessão por explicações!
Tenho medo de quem tem respostas simplistas. Os maiores problemas e os mais complexos elas o resolvem com uma única decisão. Fastia-me e me dá medo quem vem com a conversa: "se eu fosse o presidente da república iria resolver o problema da corrupção em uma semana", "se fosse meu filho daria um jeito nele na hora", "garanto para você que resolvo isto no vá".
Tenho medo de quem fala muito. Fala sobre o que sabe e o que não sabe. O importante é falar. Cansam com sua verborragia. Um causo puxo outro causo e te alugam por horas.
Tenho medo de quem me ensina a fazer coisas sem que eu lhes tenha pedido. A frase "sabe o que você deve fazer” ou sua variante “eu, no seu lugar faria isto” me deixam aterrorizado. Eu não pedi a opinião, não vejo nelas competência para sair dando lições e lá vem elas me ditando o que devo fazer. O pior é quando, ao nos encontrarmos mais tarde, vem me cobrar se fiz ou não o que me ensinou. 
Tenho medo de quem dá receitas de remédio. Tenho medo de ter tosse, porque já ouvi todo o tipo de remédio, chá ou simpatia para parar de tossir. O pior é quando, no auge do desejo de ajudar, fazem a gororoba e te forçam a tomar a meleca que fizeram para "cortar a tosse".
Tenho medo de quem fica explicando Deus. “O que Deus quer te ensinar é ...”, “a vontade de Deus para a sua vida é ....", ‘Deus fez isto porque Ele quer ...”. As variantes são muitas, todas blasfemas.
Tenho medo de quem, mal me conhecendo, me elogiam.
Tenho medo de quem, me conhecendo muito, me criticam nas coisas que sabe que faço com sinceridade.
Tenho medo de quem fala mal do outros para mim, porque serei o próximo de quem elas falarão mal.
Tenho medo de quem vem com o discurso: “Deus me falou”, “o Senhor me orientou”, “ouvi a voz de Deus me dizendo”.
Tenho medo de quem dá ordens a Deus.
Tenho medo de ficar perto de políticos, porque posso perder algo.
Tenho medo de resultado de laboratório porque podem dizer que estou pior do que penso que estou.
Tenho medo dos autodidatas porque aprenderam sem ter que confrontar o que que aprenderam e por isto acham que são donos da verdade.
Tenho medo de quem começa suas frases com “na verdade”.
Tenho medo de comida típica.
Tenho medo de mim quando fico bravo.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 27 de junho de 2018

PIOROU, E MUITO!


Passei a manhã e parte da tarde de hoje na Farmácia de Alto Custo. Há mais de dez anos eu ou minha esposa fazemos esta peregrinação em função de enfermidade de um familiar.
No início era um parto! A gente precisava ficar ligando para a farmácia, que ficava na Unicamp, para saber se o remédio havia chegado e sair correndo para pegar a fila e ver se conseguia chegar a tempo de não ter esgotado o estoque. Depois transferiram para o local onde está hoje e as coisas, pouco a pouco foram melhorando, o que me levou a escrever por duas vezes, parabenizando a melhoria no serviço.
Ocorre que a coisa degringolou. Podem dizer que houve uma explosão no número de pessoas atendidas, que há falta de reposição nos estoques, e outras explicações mais. Isto faz-me lembrar de um capitão que tive quando perdi o meu tempo servindo ao exército brasileiro: “explica, mas não justifica”.
Nas cinco horas e meia que lá fiquei, constatei algumas coisas. Fiquei impressionado com a quantidade de funcionários andando/perambulando de uma sala para a outra. Deu-me a impressão que alguns deles mais passeiam que trabalham. Será que tanta gente precisa se locomover durante o expediente? Há alguma lógica no trânsito dos documentos para que seja necessária tanta movimentação?
A segunda coisa que notei foram várias pessoas dedicadas a manusear papeis. Estavam separando e conferindo documentos. Neste quesito, eu me perguntava: se há todo um processo de conferência e exame dos papeis quando a pessoa chega ao posto (é verdade que existe uma longa fila até que isto aconteça), por que precisa ter gente remexendo nesta papelada? A era da informática já chegou ao serviço? Causou-me estranheza ver algumas funcionárias carregando caixas cheias de documentos de uma sala para outra. Ou trabalharam neles, ou iriam trabalhar com eles. É necessária tanta burocracia?
No guichê número quatro havia uma pessoa que não estava atendendo ao público, mas mexendo em papeis. A cada pouco ela parava o que estava fazendo para ler e escrever no seu celular. Estava ali para atualizar suas mensagens nas redes sociais ou para trabalhar?
No primeiro setor de atendimento havia quatro guichês disponíveis e só duas atendentes, no que pese que, no meu caso, haviam 142 pessoas à minha frente. Onde estavam as outras?
Nos guichês internos, em número de 8 ou 9 (não consigo agora afirmar com precisão), haviam só duas atendentes. A certa altura colocaram quatro atendentes nos primeiros guichês e, depois de um bom tempo, outras vieram preencher os guichês vazios. Onde este pessoal estava? Fazendo o quê? Ou deixaram de fazer o que para atender?
Fiquei por quase duas horas, em pé, no corredor de acesso à copa. Como tenho certa mania de contar coisas para passar o tempo comecei a contar quantas pessoas entravam na copa. Se não errei na conta, 57 vezes a porta foi aberta antes das 12:00 horas e uma mesma funcionária lá entrou por quatro vezes!
Não há transparência e nem lógica implícita nas senhas dadas. Não se sabe porque se recebe esta ou aquela senha e nem como é feita a ordem de chamada para cada grupo de senhas. Havia na fila gente que dizia que quem vem para renovação são os que ficam por último. E parece que é verdade: por mais de 45 minutos não houve uma única chamada para o grupo de senhas que eu estava alocado. De repente, o trem acelerou e em menos de 15 minutos, as 24 pessoas que estavam na minha frente foram atendidas. Como explicar isto? Porque não respeitar a ordem de chegada dos usuários?
O que mais me irritou foi um aviso que rodava no painel de chamada: Para melhor o atendimento, por favor, permaneça em silêncio. Qual a razão para este pedido. Para evitar que as pessoas comentem o quão ruim está o serviço? Ou para evitar que as pessoas conversem e se socializem? Ou para desmotivar quem erga a voz para reclamar?
Marcos Inhauser

quarta-feira, 20 de junho de 2018

QUANDO UM LOUCO GOVERNA


A máxima dele é ser mais popular e fotografado que a Lady Diana. Seu sonho é entrar para o livro dos recordes como a pessoa que mais vezes apareceu nos jornais, telejornais, blogs e afins. Seu lema é: falem mal ou bem, mas falem de mim. Para tanto, fabrica polêmicas, dá declarações enviesadas, ofende, muda de opinião, quebra contratos e acordos. Tudo pela constante exposição na mídia.
Na ânsia de ser notícia, não espera os jornais de amanhã noticiarem o que disse hoje. Vai ao Twiter ou Instagram e lá solta suas pérolas. Governa e dá recados com as breves mensagens que os aplicativos permitem. Hoje se reúne com o primeiro-ministro do Canadá e sua esposa e o elogia. Amanhã, senta com os presidentes do G7 e assina o documento de cooperação. Nem bem entra no avião, dispara suas mensagens criticando o acordo e chama o antes elogiado primeiro-ministro canadense de irresponsável. Faz a bravata de que iria destruir a Coreia do Norte. Pouco tempo depois se reúne com o Homem Foguete e assina um documento rico em dizer nada. Sai do encontro cantando vitória, quando, na realidade, cedeu ao King Jong Um indo a Cingapura para negociar. O que antes se fazia na Casa Branca, teve que ser feito na Ásia.
Defende o uso irrestrito de armas pela população civil, mesmo diante das frequentes e sanguinárias execuções realizadas por atiradores solitários. Belicoso ao extremo, não hesita em soltar amontoados de abobrinhas para dizer que vai acabar com este ou aquele governo, ou com este ou aquele grupo terrorista. Por decisão unilateral e contra todo o bom senso, decidiu mudar a embaixada em Israel, tirando-a de Telavive e colocando-a em Jerusalém, o que provocou centenas de mortes nas manifestações de protesto. No mesmo estilo, quebrou o acordo com o Irã e o acordo do clima.
Por decisão unilateral e desrespeitando acordos comerciais celebrados e respeitados pelo mundo todo, decide sobretaxar a importação do aço. Depois sobretaxa produtos chineses, produzindo uma guerra comercial de resultados inimagináveis. Com suas decisões extemporâneas e sem ouvir o conselho de especialistas, desarruma o comércio mundial. Para ele a máxima “eu sou o mais poderoso do mundo” se torna em arrogância suprema. Já trocou uma carrada de auxiliares. Ele se acha o eleito legítimo, mesmo sendo investigado e as evidências mostrarem que sua eleição foi uma farsa, com a ajuda dos soviéticos. Não teve escrúpulos em trocar o chefe da CIA quando este começou a chegar perto do Alaranjado com suas investigações (alguma coincidência com a troca na PF feita pelo Temer não é irrelevante).
Narcísico, o Homem Laranja se acha o mais belo do mundo. Deveria ter sido eleito o Mister Universo. Seu topete só rivaliza com os penteados do Neymar. Desta cabeça dourada, mais parecendo uma calopsita, saiu a decisão da tolerância zero com a imigração ilegal. No afã de barrar os ilegais, prende os pais e os separa dos filhos, criando um campo de concentração de crianças. Ganhou do Hitler que não fez um Auschwitz infantil. Milhares de crianças, literalmente engaioladas, chorando a ausência dos pais e sendo ridicularizados pelos soldados. Um crime de lesa humanidade, digno de se comparar com os genocidas que infelizmente tivemos ao longo da história.
Depois dizem que o brasileiro não sabe votar. Parece que tem quem compete conosco em escolher Tiriricas como governantes.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 13 de junho de 2018

CONDOMÍNIO DO CRIME


A cada pouco ouvimos notícias de barbaridades cometidas, seja na queima de ônibus, chacinas, tiroteio, acompanhadas da informação de que as ordens para tais atos teriam partido de lideranças de facções que atuam dentro e fora dos presídios. Por preciosismo ou outra razão, não citam o nome das facções ou dos líderes que determinaram as ordens. Uma coisa é recorrente nestes casos: pouco ou quase nada se sabe das investigações e do andamento dos processos contra os envolvidos.
Sabe-se que não é de hoje que o sistema prisional está loteado entre as fações criminosas, que os presos, quando estão no mesmo presídio, precisam ser separados por facções ou devem ser separados segundo o presídio para cada facção. Sabe-se que o crime organizado tem tentáculos em várias áreas da atividade econômica, desde estacionamentos, comércios, postos de gasolina, transporte urbano, vans, TV a cabo, venda de gás, transportadoras, etc.
As refregas com direito a tiroteio nas favelas do Rio mostram como o território está loteado segundo cada grupo.
Por outro lado, mas não tão diferente, aparecem as notícias de loteamento da máquina pública. Notícias recentes dão conta do loteamento do Ministério do Trabalho, com a venda de inscrições de sindicatos, nomeação de parentes e apaniguados, para que cada qual agisse em favor da facção ou partido que pertence. Cada partido tem seu feudo, seja no ministério do Trabalho ou outro qualquer, sendo que alguns destes feudos são mais cobiçados, como por exemplo o do Transportes, Turismo, Cidades, Saúde, em função da quantidade de verba que cada um maneja.
Há um condomínio na máquina pública, onde alguns próceres da ação escusa são os donos do espaço, haja visto a condenação do deputado Meurer e seus filhos, que comandavam a nomeação e garantiam a sustentação do gerente na Petrobrás. Investigações várias e em diversas áreas, mostram como este sindicato do crime está na máquina pública fazendo dele um condomínio do crime, com os tiroteios verbais e chantagens explicitas e implícitas. Que não se tente mexer no domínio territorial desta ou daquela facção: fritarão ministros, derrubarão secretários executivos de ministérios, apoiarão delações premiadas, delatarão o inimaginável e o irreal só para atrapalhar a vida de quem tenta.
Neste condomínio do crime aparecem síndicos e ex-síndicos, com a cara de santos, afirmando que nunca souberam de nada, que as contribuições foram legais e declaradas à Justiça ou à Receita Federal, que nunca fizeram nada ilegal, blá, blá, blá. Um deles, que foi o Ministro das Eternas Desgraças na Economia e que tinha o discurso da Polyana, vem agora a público reconhecer que tinha uma conta de seiscentos mil dólares no exterior. Só falta dizer que se esqueceu de declarar. Justamente ele que cobrou centavos de Imposto de Renda, que se negou a reajustar a tabela do IR, aumentando indiretamente o imposto ano a ano.
Qual diferença entre as facções que operam dentro e fora dos presídios e as que operam dentro e fora dos ministérios? Eles ordenam a queima de ônibus, os outros queimam leitos de hospital, merenda escolar, ambulâncias, remédios, com seus cortes de verbas e/ou desvios. Os primeiros traficam drogas e roubam cargas, os segundos são a própria droga e roubam merendas.
Os primeiros conquistam seu espaços à base da bala, os segundos o fazem pelo voto manipulados via programa televisivo, manipulação das mídias sociais e pela compra de votos. Os primeiros sabem quem são e assumem quem são. Os segundos afirmam ser “legítimos representantes do povo brasileiro”.
Marcos Inhauser





quarta-feira, 30 de maio de 2018

A FATURA CHEGOU!


A análise do histórico de crédito político indicava que o indivíduo tinha seus problemas e que seria arriscado dar-lhe mais crédito. Seu capital beirava o zero. Mesmo assim o Congresso Nacional deu-lhe um cartão de crédito para, no exercício do poder, gerir a nação.
Ressabiados com o histórico de crédito, o que lhe deram foi um limite baixo, diante do medo de que, empoderado, faria besteiras no uso da confiança presenteada. No dirigir do treminhão público, com as carretas do legislativo, executivo e judiciário, ele foi orientado a dirigir com prudência. No obstáculo da primeira denúncia de má-condução, pisou no acelerador e enfiou o pé na jaca do crédito político.
Comprou votos e pagou por eles, jogando no cartão de crédito político a conta, na esperança de que ela seria diluída ou esquecida. Veio a segunda derrapada e, novamente, fez uso do cartão de crédito político e achou que a fatura não viria.
Para piorar a gestão/condução do treminhão, colocou como assessores de rota a dois motoristas trapalhões, que estavam enrolados nos mapas da investigação. Padilha e Moreira Franco, acharam que entendiam das coisas e, como haviam enrolado as investigações até agora, se consideravam experts em dirigir treminhão sem balanceamento na carga e nos pneus. Outros mecânicos e ajudantes caíram do treminhão no meio do caminho, como foram o Yunes, o Loures, Jucá, Geddel, Henrique Alves, etc.
Quando a coisa ficou feia, pegou um mecânico de beira-de-estrada, troglodita, e o colocou na equipe de negociação da fatura. O Marun. Qual elefante em casa de louças, fez o que sabe fazer: estrago.
Quando o Temer recebeu o aviso de que a fatura do cartão de crédito seria cobrada pelos caminhoneiros, achou que poderia desconsiderar a carta de aviso de que seu nome iria para o SCPC público. Pensou, com a assessoria atrapalhada: tiro de letra!
Ao mesmo tempo, uma outra fatura começava a ser cobrada: o decreto dos portos. A cobrança bateu na porta da casa da filha e ele, qual pai indignado, esbravejou, sem ressonância positiva na opinião pública, que já o tinha como ficha suja no SCPC.
Veio a cobrança dos caminhoneiros. Fatura com juros típicos dos bancos e cartões de crédito. Ela foi aberta à população via jornais, telejornais, redes sociais e o que mais poderia dar ressonância.
Cercado de sua equipe trôpega e enlameada em escândalos, negociou ajoelhado. Cedeu uma e outra vez. Tentou falar grosso e ninguém acreditou no que disse. Foi “tiro de traque”. Na negociação, quiseram fazer o povo pagar a conta, para salvar a rainha dos desmandos públicos e privados: Petrobrás. O lema foi: “Salve-se a empresa mãe das corrupções e dane-se o povo”. Deu no que deu!
Botaram tropas para desobstruir estradas e assegurar que caminhões saíssem, mas uma dezena de piqueteiros se mostrou mais forte que a PRF e as Forças Armadas. Proibiram a saída de caminhões nas barbas das forças de intervenção.
Isto tudo mostrou à saciedade uma coisa: não temos, de fato, um presidente da República!
Marcos Inhauser

quarta-feira, 23 de maio de 2018

CONVENCER E “COM+VENCER”


Estava eu dando um curso para uma empresa. Ali estava a equipe de vendas e eu, não sendo um vendedor, estava mostrando algumas características da comunicação. A certa altura entrei no estudo da etimologia e significado corrente da palavra “convencer”. Dizia eu que a palavra, strictu sensu, significa “com+vencer” ou “vencer com”, implicando, desde o ponto de vista meramente etimológico, duas ou mais pessoas vencendo uma batalha ou uma disputa.
Em seguida mencionei que este sentido, ainda que próprio e afeito à origem da palavra, não era empregado no dia-a-dia. Comecei mostrando que, quando se “convence alguém”, se “vence este alguém”. Se há um vitorioso (o que venceu), há um derrotado (o que foi vencido).
Ampliando o conceito, dizia que o “com+vencimento” é a vitória pela qualidade dos argumentos que se mostraram superiores aos argumentos do outro. O que “convence” cala o oponente por ser mais hábil na argumentação. Se se trabalha com convencimento, o que se tem é gente derrotada à volta. Elas buscarão formas e meios para provar que os argumentos que a derrotaram, eram falhos ou equivocados. Farão de tudo para mostrar isto. Quem “com+vence” cria inimigos.
A esta altura, um dos participantes pediu a palavra e disse que havia feito um curso com o Doutor Bambam, PhD em Comunicação e Semiótica, e que ele havia ensinado que o que se deve fazer é convencer, usando argumentos fortes e irrefutáveis. Era a palavra do Dr. Bamban contra a minha. Se eu tentasse provar que eu não aceitava isto porque acredito errado, estaria tentando convencer o meu interlocutor. Fiquei em uma saia justa. Para sorte minha era horário de almoço e eu disse: voltamos ao assunto quando na parte da tarde.
Saí dali com a cabeça fervendo. Não sabia como sair da enroscada.
Ao voltar do almoço, ainda não sabia como sair do beco sem saída. Nesta hora me lembrei de uma palavra de Jesus: “vos entregarão aos tribunais e às sinagogas; sereis açoitados, e vos farão comparecer à presença de governadores e reis ...  Quando, pois, vos levarem e vos entregarem, não vos preocupeis com o que haveis de dizer, mas o que vos for concedido naquela hora, isso falai; porque não sois vós os que falais, mas o Espírito Santo.” Tirei o texto do contexto e apliquei àquela situação (Deus que me perdoe por este pecado hermenêutico!).
Assim que recomecei eu perguntei ao que me questionava: Você já ouviu a expressão que os 11 jogadores de futebol convenceram o time contra o qual jogaram? O sujeito pensou e meio acabrunhado disse que não. Ninguém no grupo havia ouvido a frase. Perguntei mais: Vocês já ouviram a frase que o time tal venceu, mas não convenceu? Todos haviam ouvido, inclusive o que me questionava. Perguntei o que a frase queria dizer. Houve quase unanimidade (um só silêncio, previsível): quer dizer que ganharam o jogo, mas que a qualidade do futebol apresentado não foi a melhor. Venceram o jogo, mas não convenceram.
Pelo exposto, entendo que há gente que pode ser “com+vencida”, mas não ficar convencida. Daí porque, entendo, antes de se atirar à inglória tarefa de derrotar o outro pela qualidade dos argumentos, deve-se preferir a persuasão (fica para outra oportunidade o tema), que é a arte de seduzir o outro para apoiar o que se propõe.
Espero ter “com+vencido” com meus argumentos e que você esteja concencido da validade deles... Se isto acontecer, serei um sujeito convencido de minhas habilidades...
Marcos Inhauser

quarta-feira, 16 de maio de 2018

PEDRA PESADA


Há uma sentença do profeta Zacarias que se torna atual (se é que algum, dia não o foi). Ela se refere à cidade de Jerusalém e afirma: “ ... farei de Jerusalém uma pedra pesada para todos os povos; todos os que a erguerem se ferirão gravemente; e, contra ela, se ajuntarão todas as nações da terra”.
Nestes dias estamos sendo bombardeados com notícias sobre a transferência da embaixada estadunidense para a Cidade de Jerusalém e toda a celeuma e conflitos que desta decisão foram gerados.
Diferentemente do que muitos cristãos acreditam, Jerusalém não foi uma cidade de Israel nos seus primórdios. Sua história se remonta a mais de 4.000 anos antes de Cristo, tendo sido uma cidade dos jebuseus durante um longo período, de onde, provavelmente seu nome derive, uma vez que o nome pode ter sido derivado de Jebu+salém (talvez significando “a cidade da paz dos jebuseus”). Foi só no primeiro milênio antes de Cristo que a cidade foi tomada pelos israelitas e se transformou na cidade de Davi, passando a ser a capital na nação israelita.
Os dados acima são mais complexos e merecem estudos mais profundos, o que foge ao escopo desta coluna. Basta lembrar que o profeta Melquisedec, dos tempos abraâmicos, era profeta de Salém e que as Cartas de Amarna se referem à cidade e que a tradição diz que ela foi fundada por Shem e Eber, antecessores de Abraão.
Ainda que traga o nome paz na sua designação, ela parece que nunca experimentou períodos significativos de paz. Sempre foi alvo ou centro de disputas e tensões internacionais. Mais recentemente se pode mencionar as Cruzadas que tinham o objetivo de resgatar a cidade das mãos dos muçulmanos e devolvê-la aos cristãos. Ainda mais recentemente a cidade, com a criação do estado de Israel em 1948, passou a ser pomo da discórdia entre judeus e palestinos, cada qual reivindicando-a e usando dados históricos em suas defesas.
A palavra do profeta Zacarias, mais do que nunca se torna atual. Jersusalém é uma pedra pesada para todos os povos. Em torno dela gravitam os mais variados interesses, sejam israelitas, palestinícos, e outras nações (Turquia, Irã, Líbia, Jordânia, Egito, etc.), bem assim as três religiões monoteístas: cristianismo, judaísmo e islamismo. Os imbróglios a ela relacionados passam pela geopolítica, pelos interesses econômicos, pela tradição histórica de vários povos, pela teologia de três religiões. Cada palito que se mexe parece que o mundo vai desabar.
As interpretações ligeiras e nada abalizadas do Apocalipse fazem dela a cidade da restauração, onde o Messias retornará para governar sobre todos. Passaria, pois, a ser o centro da política global. Uma visão pró-Israel defendida e propagada por denominações judaizantes que pretendem se incluir na benção abraâmica por serem abençoadores do abençoado Abraão e da nação abençoada. Na contramão, quem se levanta contra Israel, está sob juízo de Deus.
Nesta linha de raciocínio da teologia fundamentalista, apoiar Israel é fazer a vontade de Deus, não importa o que Israel faça. A matança de mais de 50 pessoas que se manifestavam contra a mudança da embaixada para Jerusalém não deve ser criticada, porque é voltar-se contra o povo de Deus. A nação escolhida e o povo eleito podem fazer o que quiserem porque contarão com a benção.
Não acredito nisto. Se não se pudesse criticar o que os reis de Israel fazem não teriam existido os profetas e dois terços do Antigo Testamento não existiria.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 9 de maio de 2018

GERAÇÃO NARCÍSICA


Há duas formas de as pessoas serem notadas na sociedade: pelo conteúdo que tem ou pelo aspecto que tem. As primeiras são vistas, reconhecidas e admiradas pelo que sabem, pelo que pensam, pelas ideias que sustentam, pelas novidades que trazem, pelas contribuições significativas que promovem. Elas têm conteúdo que é produto de estudos, horas de leituras, reflexões, conversas com outras pessoas, avaliações e autoavaliações.

O saber que possuem não é produto de uma empreitada solitária, típica dos autodidatas, mas fruto da interação social onde o aprender e ensinar se tornam a base dos relacionamentos. Porque o saber é fruto das interações sociais, do aprendizado feito com outros e por outros, ela sabe que o que pensa não é exclusividade sua, mas algo construído socialmente. Isto os leva a a serem humildes e a fala não é da arrogância de quem acha que detém a verdade final.

No outro lado, as que tem seu reconhecimento social pelo aspecto que têm, são vistas e reconhecidas pelo look que apresentam. Elea se vestem para serem vistos, fazem penteados exóticos para chamar a atenção, são extravagantes nos gestos, costumam falar alto ou dizer coisas chocantes, pelo simples intuito de que sejam notadas e comentadas. Elas se acham tão lindas que amam olhar-se no espelho, sofrendo da síndrome de Narciso, aquele que amava a própria imagem refletida no espelho d’água.

Neste afã de serem vistas e reconhecidas, não medem consequências. Se pastores, colocam uma placa na frente do local de reuniões com sua foto ocupando a maior parte do espaço. Certa feita estive em um templo que havia um cavalete com um poster do pastor em tamanho real. Não bastava a presença real dele. Tinha que ser visto duas vezes. Há os que precisam de iluminação especial e colocam holofotes centrados no púlpito para que todos vejam a figura “iluminada”.

Proliferou-se na internet os que postam vídeos com “suas mensagens”, onde a cara do buscador de atenção é o que aparece. Querem que os espectadores olhem para eles, mais que prestem a atenção no que dizem.

Há os que fazem tatuagens, as mais variadas e em locais os mais improváveis, para que todos olhem para ele. Nestes dias da catástrofe do edifício em São Paulo, pareceu na TV um que tinha uma frase tatuada na face, logo abaixo do olho direito, como que dizendo: não basta que me olhem, precisam olhar para meus olhos! Assisti, certa feita, a um documentário sobre o tema e nele foi apresentado um homem que se tatuou como se fosse uma onça pintada. A tatuagem cobria todo o seu corpo, até mesmo o genital. E assim se exibia nas ruas e shows. Era a única forma para que fosse visto e notado.

Neste exercício extenuante de buscar a atenção, se proliferou o celular com câmera fotográfica, gerando a explosão das selfies, fotos individuais, postadas diariamente, muitas vezes várias delas, que são postadas nas redes sociais, na esperança de ver a quantidade de curtidas, forma virtual de dizer que gostou. A busca frenética pelos likes é a busca pelo reconhecimento. Like é uma forma de medir quantas pessoal prestaram atenção na pessoa. Pobreza inominável.

A validação social nestes dias é que quantidade de seguidores, de visualizações, de likes que uma pessoa tenha. Num show de esportes apresentaram um cantor que a apresentação foi: ele tem três milhões de seguidores!

O conteúdo cedeu lugar ao continente. Mais vale a aparência que a consistência. Tempos de indigência.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 2 de maio de 2018

HAJA PACIÊNCIA!!

HAJA PACIÊNCIA!

O fato ocorreu no Posto de Saúde da Parque da Figueira, no dia 26 último. Ainda que se trate de uma unidade específica, creio que é paradigmático do que ocorre nas demais.
Consciente da necessidade e diante da massiva propaganda, fui ao Posto de Saúde para tomar minha vacina contra a gripe, uma vez que estou incluído na condição de terceira idade. Lá cheguei às 13:30. Para minha surpresa, um cartaz na porta avisava que iriam atender a partir das 14:00 horas. Na frente já haviam outros seis idosos e duas mães com crianças. Havia um certo desconforto pelo fato de o posto de saúde estar fechado para a vacinação e por duas horas.
O pessoal começar a organizar a fila dos que chegavam e havia certo conformismo com a situação, ainda que resmungos se ouviam na fila. Quando deu as 14:00 horas nada de abrir a porta, deu 14:05 nada. Às 14:10 uma pessoa da fila, já mais inquieta e contrariada, foi ver o que estava acontecendo. Voltou dizendo que “havia um monte de gente de branco conversando no corredor e que lhe disseram que estavam arrumando as coisas”. Se ela saiu meio irritada voltou completamente irritada. Às 14:25, como não abriam a porta, uma pessoa bateu forte. Pouco tempo depois ela foi aberta e não havia nenhum funcionário para orientar. O pessoal procurou manter a fila organizada.
Demoraram mais uns cinco minutos sob a alegação de que estavam arrumando as coisas. Quando, finalmente começaram a atender, um senhor que usava um jaleco de Agente de Saúde, se postou à porta e, sem considerar a fila que havia, começou a mandar entrar.
Houve reação e uma funcionária veio dizendo que devíamos nos organizar em fila porque, caso contrário, não seríamos atendidos. Foi retrucada sob a alegação de que a fila existia e quem instituiu a muvuca foram eles.
Havia gente idosa com problema de locomoção que, por administração dos presentes, foram sendo passados na frente. O Agente de Saúde, figura desnecessária na função de porteiro, uma vez que o pessoal, ainda que irritado com a demora, sabia se organizar. Mas estava ele à porta impedindo a entrada de algum “intruso”.
Eu estava intrigado com a demora em atender cada um dos que à frente estavam. Quando chegou a minha vez, constatei que havia uma funcionária para solicitar as carteiras de vacinação e documento de identidade, anotar dados pessoais, carimbar na carteira e, depois disto, a vacinadora fazia seu serviço. Para cada pessoa que era “registrada”, a vacinadora poderia ter vacinado outras três.
Se houvesse, ao menos mais uma para registrar os dados (coisa burocrática e desnecessária, uma vez que, duvido que estes dados tenham algum dia sido consultados, a não ser para saber a quantidade de pessoas vacinadas) a coisa seria no mínimo duas vezes mais rápida.
Sai dali uma vez mais convencido da morosidade, incompetência, desídia do sistema de saúde e do funcionalismo público (ainda que reconheça que há gente trabalhadora, mas, confesso, encontrei poucas para me atender e quando isto aconteceu, fiz questão de registrar neste meu espaço semanal.
Há que se ter paciência enquanto os responsáveis por estes fatos estão mais preocupados com seus holerites e sindicato, fazendo paralisações a torto e direito.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 25 de abril de 2018

APRENDI ERRADO

Quando estudei Direito e em algumas circunstâncias fora do ensino regular, aprendi que os juízes só se manifestam nos autos e que as manifestações prévias de juízes e jurados colocam a ambos sob suspeição. Aprendi também que um juiz não olha a capa do processo, nem se atém aos personagens dele porque seus veredictos estão baseados na imparcialidade e na aplicação da pena sob o rigor da lei, independentemente de quem esteja em juízo.
Aprendi errado! Especialmente se atento para as declarações do Gilmar Mendes. Acabo de ler mais um se suas inúmeras afirmações nefastas, dizendo que o processo do Lula fatalmente chegará ao STF e que a pena dele pode vir a ser reduzida porque não está claro se o Lula praticou corrupção e lavagem de dinheiro, alegando que o crime de lavagem pode estar "embutido" na corrução. Afirmou ainda que há discussão para saber se os dois crimes imputados são dois ou é um só.
Data vênia, no meu leigo entender, há uma manifestação fora dos autos, o que o coloca sob suspeição, impedindo-o de participar da análise e julgamento do mérito, quando este chegar ao STF. No entanto, cético que sou, ceticismo este construído pelas muitas escorregadas que o judiciário brasileiro deu e tem dado, não acredito que ele venha a ser afastado do julgamento sob suspeição.
Mais do que isto, pela fala do próprio, seu gabinete se transformou em ponto de romaria de Petistas, querendo que ele faça o milagre de reverter a prisão em segunda instância. Ele mudou de opinião, criou uma baita instabilidade jurídica e ainda quer levar de roldão o resto da turma.
Amigo e confidente de outro investigado (e ainda não réu por tramas obscuras e verbas liberadas), tem se reunido fora e dentro da agenda com o Temer. Um juiz, assessor do Gilmar, esteve estes dias com o Temer, em reunião não informada na agenda do presidente. Sintomaticamente, tal reunião veio logo após mais algumas revelações sobre a investigada relação entre o Temer e a Rodrimar. É “ixtranho, muito ixtranho” tudo isto.
Merecedor do título de Liberador Geral da Nação (a lista das pessoas enroladas, presas e por ele soltas é extensa), com algumas delas tendo fugido do país logo após o Habeas Corpus por ele prolatado, ganhou nas ruas o apelido de laxante: aquele que solta tudo. Por respeito aos leitores, não avanço na metáfora.
Suas diátribes com o Barroso, bem ao estilo de barraqueiro, envergonha a mais alta corte do país. Não sou o único a dizer isto. Muitos antes de mim já o disseram. Tanto que o senador Randolfe protocolou um pedido de impeachment dele, e outros haviam antes, que nunca receberam o encaminhamento solicitado, por ação e graça do Renan (também enrolado nas investigações).
Ele continua lá sabe se lá por quais razões. Mas há algo que merece ser investigado: as suas faculdades de Direito esparramadas por várias unidades da federação e as verbas que recebe. Não afirmo nada. É suspeita é um direito.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 18 de abril de 2018

AGORA VAI?

A Primeira Turma do STF deu mais um passo em direção à ansiada expectativa de muitos brasileiros: corruptos condenados. Aceitou a denúncia contra o Aécio e o tornou réu. Mais um do PSDB que se enreda com a Lava Jato. O Outro, o Alckmin, teve suas acusações encaminhadas para a Justiça Eleitoral (sabe-se lá por quais considerações isto assim se encaminhou), por crime de Caixa Dois, e prestou depoimento em sigilo. Só se soube depois que o tinha prestado. Ambos estão enrolados e devem estar tremendo como vara verde ao vento com a prisão do Paulo Preto, operador do PSDB. Se ele decide fazer delação premiada (e tem muita coisa para ser condenado e, portanto, para delatar), Aécio, Alckmin e outros tucanos de alta plumagem vão dançar.
Aos poucos, mesmo que com velocidades diferentes (Curitiba correndo como leopardo e a STF como cágado), as coisas vão sendo investigadas e julgadas. Faltam os bagres grandes como o Renan, Jucá, Eunício, Geddel e Temer. A próxima eleição ou a limitação do foro privilegiado vai dar mais celeridade às investigações e julgamentos. Ao menos é o que espero e, creio, a grande parte da população brasileira.
Neste universo de investigados e corruptos, há certa similaridade nos discursos dos indigitados: é trama política, há falseamento da verdade pelo MP, não existem provas, são ilações da promotoria, etc. Ataca-se o acusador sem dar uma palavra sobre o teor da acusação. Quando o fazem, aparecem as explicações mirabolantes que só quem acredita em Papai Noel engole. É o Cunha explicando suas contas que não são suas, mas de um trust onde era trustee (triste explicação), o Geddel dizendo que eram recursos de campanha, o Renan atribuindo à sua boiada extremamente fértil (média muito acima da mundial), o “não é meu porque não está no meu nome”, a amnésia seletiva que só faz recordar o que interessa e se esquece de coisas que possam complicar, etc.
Coisa de embrulhar o estômago é ver o Temer, com lama até o nariz, falar em combate à corrupção na reunião da Cúpula das Américas. Ele que comprou os votos para não ser investigado e que está com os amigos/escudeiros leais que foram presos e estão sendo investigados, que deve explicações sobre a reforma da casa da filha, que tem muito que explicar sobre o decreto dos portos que facilitou as empresas nada transparentes, seria o último que deveria falar algo. Mas com a cara lavada pela desfaçatez, falou o que falou e defendeu lá fora o que impede aqui dentro.
Ainda bem que ministros e procuradora, indicados pelos caminhos um tanto quanto obscuros das nomeações, onde candidatos a ministro do STF fazem campanha, perambulando por gabinetes, uma lista tríplice é deixada de lado na sua tradição, estão saindo do script que muitos achavam que teriam. Que a Raquel Dodge mande investigar os amigos do rei de plantão é algo alvissareiro. Que o Barroso e o Fachin tenham as posições que têm, mesmo tendo sido nomeados por presidentes do PT/MDB, dão certa vitamina às esperanças.
Mas ainda fica a espada de Dâmocles na cabeça: agora vai?

Marcos Inhauser

quarta-feira, 11 de abril de 2018

OS HORRORES DA GUERRA

Para mim é inadmissível que a guerra ainda seja a primeira solução proposta por um bando de gente, fardada ou não. Diante de qualquer problema internacional eles se eriçam com a possibilidade de enviar e comandar tropas para “solucionar os problemas”.
O país que mais usa deste expediente é os Estados Unidos, que nunca teve uma batalha de guerra internacional em solo pátrio. Sempre fizeram a guerra na casa dos outros. Se não me falha a memória só Pearl Harbor e o ataque às Torres Gêmeas foram em solo americano, dois eventos até hoje amargado pelos gringos como afronta. Participaram da Segunda Guerra Mundial lutando em solo Europeu e Japonês, fizeram a guerra no Vietnan, no Iraque, na Líbia, no Afeganistão, estão agora na Síria e “prontos para enfrentar o ditador norte coreano”.
Quando penso nas pessoas que veem na guerra a saída para problemas, penso que, ou elas não têm coração ou elas são patologicamente insensíveis aos horrores que a guerra traz. A quantidade de gente morta, de crianças órfãs, a fome, as doenças, o custo social, a destruição, o custo astronômico, são variáveis que parece que não são pesadas pelos promotores da guerra. Gasta-se mais para matar que para salvar vidas, para destruir que para construir hospitais e escolas.
O mesmo penso dos fabricantes e comerciantes de armas. Como podem dormir um sono reparador sabendo que o que fazem destrói vidas, acaba com sonhos, com casamentos, com vidas promissoras? Mesmo depois dos muitos eventos de atiradores que escolheram escolas para sair atirando e matando gente, vem o Trump propor que se dê um adicional no salário para os professores que levarem suas armas à sala de aula. O Kim Jon-Un prefere deixar a população passando fome para ter misseis e bomba atômica. Gasta milhares para ter a tropas desfilando nas ruas, para satisfação pessoal e demonstração de poderio, mas não dá ao povo o que ele precisa.
Pasma-me que a igreja cristã tenha se valido deste instrumento para fazer valer seus propósitos. As muitas guerras promovidas pela Igreja, especialmente as Cruzadas, deveriam ter ensinado aos cristãos que toda guerra é pecado. Mas, ao invés de condená-la, os Reformadores clássicos viam a possibilidade de uma “guerra justa”. Onde há justiça na guerra? É justiça dar ao melhor armado a vitória e ao menos aquinhoada a derrota? É justiça abandonar o mais alto grau de possibilidades que é a comunicação e a negociação, para se rebaixar ao mais baixo nível de humanidade, igualada ao animalesco?
Com certeza virão sobre mim os que alegarão que a Bíblia fala do Deus dos Exércitos, que Ele mesmo mandou o povo à guerra e que a usou para expulsar os habitantes da terra que seria dos eleitos. Aos defensores do título Deus dos Exércitos sugiro que estudem hermeneutas mais sérios, que conhecem com profundidade o texto hebraico e suas implicações socais e culturais para saber que título tem sua conotação ideológica nas traduções feitas. Para os defensores das “guerras santas” sugiro que cotejem os relatos de guerra com as promessas de paz que há, propostas pelo mesmo Deus dos Exércitos. Como pode prometer paz quem faz a guerra? Ou a paz é mentira ou o título está errado.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 4 de abril de 2018

DUAS MANIFESTAÇÕES E UMA CONTROVÉRSIA


Nesta semana o STF recebeu duas manifestações, cada qual com milhares de assinaturas, que exemplificam a insegurança jurídica que estamos vivendo. Com a iluminação de uma vela que tenho para estes assuntos, entendo que o STF criou este imbróglio, seja pela inépcia da presidente, seja pela falta de liderança dela no exercício do cargo, seja pelos egos que se insuflaram, vitaminados pelas câmeras de televisão e audiência que o assunto implica, seja pela presença de figuras exóticas a compor o STF.
Causa-me espanto que a presidente, a mesma que tergiversou em seu voto de desempate sobre a necessidade de aprovação do Congresso para o afastamento de deputado ou senador, voto tão transversal que foi preciso que o decano o explicasse e o proferisse, venha agora, a público, pedir serenidade. Isto ela deve pedir aos ministros Gilmar e Barroso, para dizer o mínimo.
As duas manifestações (abaixo-assinados) tem origens distintas. Uma vem dos juízes procuradores e pessoal relacionado ao combate à corrupção. Eles pedem que o entendimento prolatado em três ocasiões, seja mantido, qual seja, prisão com sentença em segunda instância. O argumento é que, sendo a decisão de um colegiado, em grau recursal, ainda que se possa entrar com recursos posteriores, deve exigir o início do cumprimento da pena. Se só houvessem Zé Manés nesta condição, tenham certeza de que a coisa já estaria decidida. liquidada e a cadeia habitada com os sentenciados em segunda instância.
A segunda manifestação é uma, cujo móvel, é a reserva de mercado. Assinada por advogados, regiamente pagos para defender ad eternun os figurões da República (ou alguém que acredita em Papai Noel, também acredita que os Batochio, Maris, Zanin, Kakai e outros trabalham pró-bono?), eles se manifestam para continuar com a “boquinha”. Fechada a esperança de escapar da cadeia com os intermináveis recursos (muitos dos quais repetitivos, ao estilo Zanin), perdem a chance de continuar mamando indefinidamente. É uma manifestação pela “reserva de mercado”. Prisão em segunda instância é menos trabalho para a classe especializada em protelar sentenças.
O pedido deles é manter uma jabuticabeira. A quase totalidade dos países prende em segunda instância. O José Maria Marin foi preso antes mesmo que a sentença tivesse sido proferida. O juri o encontrou culpado, ele foi preso e só depois a sentença foi dada. No Brasil dos recursos, o Maluf ficou décadas se esfalfando com o dinheiro desviado e agora foi para casa, em prisão domiciliar, na mansão que construiu com nosso dinheiro. O mesmo fizeram com o Piciani, com o Sergio Machado, o Eike e tantos outros. Perde-se a conta dos processos que, em função dos recursos, se extinguiram.
Parece que a mulher que simboliza a Justiça e que tem um véu nos seus olhos, (assim está na estátua à frente do STF), derrubou o véu. Se ela era cega para aplicar a lei a quem quer que fosse, os ministros deste STF arrancaram-lhe a venda e, dependendo do figurão a ser julgado/condenado, a sentença se acomoda ao sabor das conveniências. Se amigos do Temer, são soltos com celeridade. Se amigos do Gilmar, recebem HC. Se ex-presidente, fura-se a fila de 4900 HCs e se coloca como prioridade.
Com um STF destes quem precisa de justiça? Ou melhor: que pode acreditar na justiça?
Marcos Inhauser


quarta-feira, 28 de março de 2018

COELET POLÍTICO

Ainda que muitos acreditem que tenha sido Salomão quem o escreveu, gente séria nos estudos do AT não cravam esta autoria, preferindo chamá-lo de Coelet (Pregador). Com certeza era alguém já experiente na vida (talvez bastante avançado em dias), atento aos fatos e deles tirando lições para a vida. Tinha uma visão um tanto quanto pessimista. Estudando-o com certa profundidade, cheguei à conclusão que há uma espiritualidade na depressão.
No seu escrito há alguns refrães que dão a tônica das suas reflexões: “vaidade das vaidades, tudo é vaidade”, “nada há que seja novo debaixo do sol”, “tudo é vaidade e desejo vão”, “proveito nenhum há debaixo do sol”. Estes refrães parecem indicar uma pessoa fatalista, acomodada, depressiva, cansada da vida.
Já tive momentos na vida em que me identifiquei com o Coelet. Estou em uma fase em que, outra vez, encontro nele guarida para meus pensamentos e reflexões.
Olhando à minha volta, constato que tudo é vaidade. Assisti a sessão do STF que discutiu por horas se iria aceitar discutir e que acabou não decidindo o mérito. Antes, pelo contrário, ministros regiamente pagos, se ausentam porque tem uma passagem marcada e, com isto, suspendem uma decisão que a nação ansiosa e justamente aguardava. Mais, o que vi na sessão foi um desfile de egos, cada qual querendo mostrar suas credenciais acadêmicas. A pantomima começou com o advogado de defesa que recitou um trecho de autor francês, fazendo-o na língua original. Os demais, meio que se sentindo inferiorizados, também sacaram de sua alforja o que sabiam de francês ou latim para não ficar por baixo.
Os votos dos ministros são peças retóricas para ficar mais tempo à frente das câmeras, porque o ego/narcísico assim exige. É um rosário de jurisdiquês, de elucubrações, para que os leigos não entendam e achem que eles sabem o que estão fazendo por causa do linguajar hermético.
Nada de novo sob a luz do sol. As querelas são as mesmas, as tensões internas também, as tratativas de excelência e iminência são usadas até quando se ofendem. Eles mudam de opinião qual biruta de aeroporto, ao sabor dos ventos e das conveniências.
Quando se pensava que a Lava Jato era um sinal de esperança no universo da justiça brasileira, eis que o STF faz uma hermenêutica da conveniência. Quando aluno de direito aprendi que juiz não lê a capa do processo porque deve julgar sem considerar os envolvidos, não importando quem fosse, porque todos devem ser tratados igualmente perante a lei. Não é o que vejo no STF. Lá o cliente e os advogados do cliente pesam, e muito, na prolatação da sentença.
Nada de novo sob a luz do sol. Se fosse o Mané da Silva, seu HC estaria na fila dos 4900 e sua liberdade não sairia nem depois de cumprir a sentença. Mas como é Lula da Silva, a coisa é diferente, assim como foi diferente para o Barata (rei do ônibus, amigo do Gilmar), o Abdelmassih (solto pelo Gilmar, que depois fugiu do país), o Cacciola (solto pelo Gilmar, que depois foi viver regiamente na Itália), o Eike Batista (solto pelo Gilmar que está solto jantando caviar), e outras tantas sentenças ilógicas e inacreditáveis que o Marco Aurélio, Toffoli e Lewandovsky têm dado.
“Vi ainda debaixo do sol que no lugar da retidão estava a impiedade; e que no lugar da justiça estava a impiedade” (3:16). É como sinto, vejo e porque me desanimo.
Só Jesus na causa!
Marcos Inhauser

quarta-feira, 21 de março de 2018

A VERDADE LIBERTA


A máxima proferida por Jesus de que "conhecereis a verdade e a verdade vos libertará" é essencial para os dias que estamos vivendo. Diferentemente do que dizem intérpretes afoitos e pregadores mal alfabetizados, o texto se refere a qualquer verdade e não somente à verdade do Evangelho.
Esta diferenciação se faz necessária e importante porque a mentira escraviza. Uma mentira produz a segunda mentira, gerando um círculo vicioso e de escravidão em que o restabelecimento da verdade é a única forma de romper a escravidão.
Qualquer verdade é libertadora. Por mais difícil e cara que a verdade seja, o preço dela é menor que o preço da mentira.
Quem viveu em cidades pequenas antes do advento da internet, quem viveu em círculos fechados, tinha que lidar constantemente com os boatos e as fofocas. As fofocas eram o prato diário das conversas e haviam pessoas especializadas em criar e difundir fofocas. Até nome tinham: fofoqueiras ou candinhas.
No mais das vezes, estas pessoas ficavam à espreita de vizinhos ou conhecidos e interpretavam malevolamente qualquer sinal que viam: podia ser um carro que parasse na frente da casa, o horário que chegava ou que saia, quem visitava, quando compravam alguma coisa e o caminhão vinha entregar, a reforma que faziam, ou a filha que estava engordando.
Muitas vezes, reputações ilibadas eram atiradas na lama de onde era quase impossível sair. Muitas destas pessoas mudaram de cidade para salvar-se do estigma que sobre elas as fofocas colocaram.
Os tempos mudaram. As candinhas modernas estão à espreita nas redes sociais e na internet. Tal como nas pequenas cidades, não há a preocupação de se verificar a veracidade das informações repassadas e cada qual aumenta a sua versão, coloca o seu tempero e acrescenta fatos e dados à invencione.
Exemplos modernos de fofoca existem aos milhares. O FBI está investigando o uso destas fofocas para influenciar a eleição presidencial, gerando notícias falsas dirigidas à opositora na eleição e facilitando a eleição do Trump.
Sabe-se hoje que as duas ou três últimas eleições presidenciais brasileiras também tiveram este expediente. Busca-se acabar com as fake news nas próximas eleições. Tarefa inglória e impossível. O máximo vai se conseguir minimizar os prejuízos, nunca erradicar a fofoca.
O exemplo mais gritante é a recente onda de notícias relacionadas à morte e às atividades e vida particular da vereadora Marielle. Há pessoas que parecem justificar o assassinato alegando fraudulentamente que a assassinada teria ligações com o narcotráfico, ou que teria sido engravidada aos 16 anos, ou que teria sido esposa de um traficante. Levando a lógica às últimas consequências, qualquer mulher grávida aos 16 ou que tenha se casado com alguém posteriormente considerado bandido, pode ser morta porque o seu assassinato está justificado.
No universo das fofocas virtuais o que assusta é que um ex-coronel, hoje deputado e uma atual desembargadora tenham publicado notícias mentirosas. É verdade que vieram a público se desculpar da insensatez de veicular o que não haviam checado. É inadmissível que pessoas com estes cargos cometam tais equívocos. Recebo todos os dias uma quantidade de e-mails, links de vídeos, propostas de pauta de agenda para publicação que não me dão segurança de que sejam verdade. Já recebi sobre a renúncia do Temer, sobre a morte do Lula, sobre a vinculação do tráfico na biografia de várias pessoas. Ainda que as pessoas que me enviaram tenham sido por mim ou por outras pessoas alertadas para a disseminação de notícias falsas, parece que fazem ouvidos moucos e, no afã de serem curtidos, continuam a espalhar fofocas.
Mais do que nunca é necessário que a verdade seja estabelecida. Estamos vivendo em uma sociedade recheada pela mentira, disseminada pelos incautos com pessoas feridas ou tombadas pelas calúnias. Há poucos dias um pai foi inocentado da acusação de abuso sexual pelas próprias filhas que supostamente, teriam sido abusadas. Elas alegavam que foram pressionadas e forçadas pela mãe a denunciar o pai. 
Emblemático na história noticiosa brasileira são os casos da Escola Base e do ex-deputado que se sentiu destruído pelas inverdades e escreveu um livro sobre o assassinato de reputações. 
Credibilidade é coisa rara na sociedade atual. O que vale é receber curtidas e visualizações nas redes sociais, não importa como obtê-las. Ainda que os mecanismos de busca, os provedores, os sites de relacionamento e as redes sociais estejam buscando diminuir o número de notícias falsas, não podemos deixar de dizer que cada um deve assumir um compromisso com a verdade.
Se há violência armada, há violência verbalizada e fofocada. A verdade pede espaço neste universo.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 14 de março de 2018

QUAL O GANHO?

Na teoria sistêmica das relações há uma pergunta que se faz com frequência e que norteia e ajuda a diagnosticar situações aparentemente incongruentes: qual o ganho que a pessoa tem em se manter na atual situação?
Ela explica porque certos filhos são pacientes sintomáticos, pois, por mais dolorosa que possa parecer a situação aos que de fora a veem, o filho tem um ganho com seu comportamento, pois ele lhe garante a atenção dos pais ou, em caso de separação, lhe dá a satisfação de ver os pais conversando ou, até mesmo, estando juntos para tratar dos problemas do filho. Há filhos que aprontam porque isto lhes dá a garantia da atenção dos pais, ou, pasmem, a surra, única forma de ter um contato físico da parte deles.
Esta pergunta eu a tenho eito em relação ao Temer. Qual o ganho que ele teve em manter a indicação da Cristiane Brasil, contra tudo e todos? O que ele ganhou com tal insistência? A mesma pergunta eu a fiz com a indicação do Segóvia para a Polícia Federal, indo contra o Ministro da Justiça, a corporação e a opinião pública. O ganho teria sido agradar o Sarney? Só isto? O que mais havia na história?
Mais evidente fica a motivação para a intervenção no Rio de Janeiro. O ganho é a mudança do foco, saindo da reforma da previdência para uma questão de certo consenso nacional? Qual o ganho real que está por trás disto? Um aumento de popularidade? Uma possível candidatura à reeleição?
Qual o ganho do Jungman em deixar o Ministério da Defesa, mais tranquilo, e aceitar a bucha da intervenção e do Ministério da Segurança Pública?
Qual o ganho do Gilmar Mendes em soltar meio mundo? Qual o ganho do Barroso em quebrar o sigilo fiscal e bancário do Temer? Qual o ganho da Carmen Lúcia em antecipar a agenda do STF para os meses de março e abril, não abrindo espaços para uma nova rodada de discursos longos, tedioso, eivados de narcisismo, para debater o que, por duas vezes, já foi decidido?
Por que manter o Pezão como governador, no que pese as sentenças que tem, a incompetência administrativa comprovada? Por que não se cassou os direitos políticos da Dilma no impeachment, tal qual preceitua a Constituição? Qual o ganho do Marco Aurélio em ser sempre do contra? Só aparecer na mídia? Qual o ganho que está por trás da lentidão nos processos do Padilha, Moreira Franco, Renan, Jucá, Maia, Eunício e outros mais?
Mas esta pergunta muitas vezes é acompanhada de outra: qual o custo? No caso específico do Segóvia, porque o Temer teve que atropelar os procedimentos e dar de presente ao defenestrado delegado um assento na diplomacia, com o régio salário de R$50.000,00? Por que a saída dele custou tão caro para o Temer e para o país? Que segredos ou favores o Temer está pagando ao dar-lhe a função na embaixada da Itália? O que o Gilmar Mendes ganhou em defender com unhas e dentes o mandato do Temer no julgamento de improbidade e abuso do poder econômico da Chapa Dilma-Temer?
Há mais perguntas que respostas. Mas, espero, o tempo trará as respostas às perguntas.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 7 de março de 2018

SEREIAS “TEOLÓGICAS”

Diz a mitologia grega que as sereias eram três filhas de Aqueló e Calíope: Parténope, Leucósia e Lígea, nomes com a ideia de candura, brancura e harmonia. Com o rapto de Prosérpina, elas foram à terra de Apolo, pediram aos deuses que lhes dessem asas para que fossem procurar a jovem por toda a terra. Passaram a habitar os rochedos sobre as margens do mar, entre a ilha de Capri e a costa de Itália. Elas viveriam enquanto pudessem deter os navegantes na sua viagem, presos ao encanto dos seus cantos. Marinheiros que se detivessem por causa dos seus cantos se chocariam contra as pedras. A costa estava branca com os ossos daqueles que haviam sucumbido.
Ulisses, em viagem adiante do ponto em que as sereias estavam, foi advertido por Circe. Tapou com cera os ouvidos, bem assim o de todos os seus marinheiros, e se amarrou a um mastro. Também proibiu que o soltassem por causa do canto das sereias. Quando o ouviu, deu ordem para que o soltassem, o que não fizeram. As sereias, não podendo deter Ulisses, precipitaram-se no mar.
O mito é atual e serve para entender porque muitas igrejas, sérias ou aventureiras, vivem se encantando com os cantos das sereias dos modismos religiosos. Já tenho alguns quilômetros na estrada e vi as mais variadas coisas que “encantaram e fascinaram” pastores e líderes incautos, assim como também vi muitos deles se esborracharem nas pedras, enchendo as costas de projetos malfadados.
Lá nos “pratrazmente” houve o modismo do batismo do Espírito Santo e a glossolalia. Fórmulas, métodos e regras haviam para os mais variados gostos, com ou sem jejum, dando a certeza do batismo e do dom de línguas. Vi muito mais mistificação que realidade. Conheço diversos exemplos de navios naufragados ou rompidos ao meio, com a tripulação de cada qual se acusando de falta de espiritualidade.
Quanta “igreja” abriu embalada por sonhos mirabolantes e fechou! Há poucos dias soube de um que pediu ajuda a uma senhora para alugar um salão enorme para abrir uma igreja. Ele mal sabe cuidar da sua vida e da suas finanças, mas estava embalado pelo sonho do gigantismo.
Depois veio a oração no monte, o jejum no monte, o graveto incandescente, o dente de ouro, o cuspe santo, a benção do riso, o G12, os grupos familiares, os grupos caseiros, os grupos por afinidade, a igreja em células, as vigílias de 24 horas, as maratonas de leitura bíblica, a teologia da prosperidade, da libertação, o puritanismo, o neo-calvinismo, a neo-ortodoxia, as bênçãos de Melquisedec, Arão, Abrão, etc.
Vejo estas coisas como ondas que encantam aos surfistas religiosos: pegam cada uma delas e buscam fazer o máximo de manobras e piruetas para ter o aplauso da plateia.
Falta-lhes o conselho de Circe a Ulisses: amarre-se ao mastro e não se deixe encantar pelo canto destas sereias que prometem o milagre da quantidade de gente nos cultos, do aumento da arrecadação, do programa na rádio ou televisão, da fama.
O mastro para se amarrar já existe há séculos. Não só a Bíblia, mas a interpretação dela feita por reconhecidos e sérios estudiosos, que contam com o respaldo de milhares de pessoas e igrejas sérias ao redor do mundo. Não são as novidades ou os achismos que vão dar nova vida às igrejas. Não são os modelos e métodos de gente que, agora, acha que descobriu a Pedra do Santo Graal e que vão colocar mais gente nos templos. São cantos de sereia! Coisa que fascina e que leva à tragédia.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

O SONHO DO PROFETA

Isaías sonhou com algo que até hoje encanta a muitos e serve de lema para muitas ações: “Vinde, e subamos ao monte do Senhor, à casa do Deus de Jacó, para que nos ensine os seus caminhos, e andemos nas suas veredas; porque de Sião sairá a lei, e de Jerusalém a palavra do Senhor. E ele julgará entre as nações, e repreenderá a muitos povos; e estes converterão as suas espadas em relhas de arado, e as suas lanças em foices; uma nação não levantará espada contra outra nação, nem aprenderão mais a guerra.” (is 2:4,5)
O sonho do profeta é algo revolucionário. Quando os meninos tiverem leite e teto; os pobres tiverem educação decente nas escolas; quando os professores tiverem condições de ensino com recursos pedagógicos; quando o ser humano for respeitado e honrado, a paz poderá reinar. As roças produzirão o grão, as mães criarão filhos que poderão brincar nas ruas, os políticos serão pessoas honradas e de bem, o governo terá a população e seu bem-estar como prioridade.
Não será a paz da ausência da luta, do conflito, da violência, porque, ainda que estes deixem de existir por algum tempo, não necessariamente haverá paz. A trégua não é paz. É uma suspensão da violência. A paz deve passar pelo repouso sem preocupações; pelo sono sem sobressaltos; pelo caminhar livre e inocente não se preocupando com quem caminha ao lado; pelo deixar o filho sair para brincar sem ter que dizer “tome cuidado”, “não aceite nada de estranhos”.
É a paz da convivência em uma ordem estabelecida pela verdade, justiça, amor, liberdade e perdão. Não é paz dos santos porque esta nunca poderá acontecer entre pecadores, mas a paz que se estabelece nas relações fraternas, de tolerância e perdão. É a paz que vence o egoísmo, a jactância, a arrogância.
A paz, tal como é apresentada pelos ensinos bíblicos, é a manifestação da graça de Deus, é ingrediente essencial da esperança que se dá nas pequenas coisas, nas micro relações, nos pequenos gestos, no plantar da semente de mostarda para que se transforme em grande árvore.
Sementes de paz que vão sendo plantadas como o foi a equipe de hockey no gelo que uniu as duas Coreias, algo inimaginável há alguns meses. Foi a iniciativa de Obama de se levantar, durante o funeral de Mandela, e se dirigir a Raul Castro para apertar-lhe a mão, gesto que trouxe muitas consequências, inclusive de reatamento das relações diplomáticas rompidas há décadas entre os dois países.
Ela é graça de Deus, mas também deve ser compromisso humano. Cada um de nós tem o desejo da paz e nossos atos devem ser no sentido de construir reações de paz com as pessoas ao nosso redor. Perguntas fáceis como “o que eu vou dizer produz paz ou raiva?”, “o que vou fazer ajuda a construir ou é para destruir?”, “trago solução ou problema?” “as últimas coisas que fiz estava pensando em mim e no meu bem-estar ou estava pensando em ser benefício para os outros?” Podem ser pequenas coisas, mas que ajudarão na construção da paz.
Quando a paz reinar, já não mais haverá lugar para as armas de morte e instruções para matar. Não haverá necessidade de polícia, nem de exército. As armas serão transformadas em arados e em brinquedos. A indústria das armas desaparecerá e em seu lugar aparecerão centros de lazer e diversão, onde crianças, jovens e velhos viverão intensamente os prazeres da vivência comunitária. As reuniões de condomínio serão tempo de festa e não de atritos.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

MÁXIMAS NÃO OBSERVADAS

Na política (e também no mundo corporativo) há a máxima de que não se nomeia quem não se pode, depois, demitir. Este foi o erro do Lula ao nomear o José Alencar, vice-presidente, como ministro das Forças Armadas. Ele teve a sorte de que nada de esquisito ou fora do eixo aconteceu e não se viu na saia justa de ter que removê-lo.
O mesmo se deu com a Rosinha Mateus ao nomear o marido, ex-governador, como Secretário da Segurança Pública do Rio. Deu no que deu. Um desastre e nada de solução efetiva. Muita pirotecnia, pouca realização. O mesmo ocorre agora com o Temer que nomeou o Segóvia como Diretor da Polícia Federal. O Segóvia subiu no salto alto, já na primeira declaração pública falou abobrinha e se agora se consolidou como abobrinhologista na entrevista que deu à Reuters. Indicado pelo Sarney (ele tinha um agradecimento ao Segóvia pelo trabalho de obstrução às investigações quando era investigado), foi nomeado sem consultar e à revelia do Ministro da Justiça. Agora está aí o abacaxi para ser descascado.
Nesta mesma linha de raciocínio está a malfadada nomeação do Lula como ministro pela então presidente, quem, caso a nomeação tivesse se consumado, teria um ministro politicamente maior que ela. Seria um absurdo. Graças a Deus, fomos liberados desta excrecência.
Tenho para comigo que o Padilha e o Moreira Franco se enquadram no mesmo quadro. O Temer não tem cacife político para demiti-los, seja pela “gratidão”, seja pelas inúmeras acusações que tem que responder e que os dois o blindam. No mesmo raciocínio está a nomeação do nunca empossada Ministra do Trabalho, cuja folha corrida é maior que a biografia para ocupar a pasta.
Como desgraça pouca é bobagem e os sucessivos erros e recuos são a marca registrado do governo (??) Temer, depois de ver a Reforma da Previdência ir água abaixo (nunca entendi qual o ganho que o Temer tinha/teria em aprovar tal legislação), vem ele oferecer uma solução para os problemas que há décadas aflige o Rio. Joga o Exército na fogueira, nomeia um general como “semi-interventor”, deixa o Pezão no governo, anuncia a intervenção, mas ainda não tem planos, não sabe quanto vai custar, nem como tais operações se darão. É uma operação caída de paraquedas.
Se o Exército resolvesse em algo, alguma coisa teria mudado no Rio desde que vem atuando na cidade. Que nada! O roubo de carga continua solto, os confrontos entre as fações têm feito vítimas civis, muitas delas crianças, o tráfico rola solto, os arrastões continuam e o saque em plena área nobre acontece.
Eu me pergunto: e o serviço de inteligência serve para que? Não conseguiram descobrir onde o segundo homem da facção paulista estava? Não sabem por onde e quem está por trás do tráfico de armas? Apreenderam alguns fuzis no Rio há um ano, mas foi fruto de denúncia anônima. Pegaram dois caminhões carregados com cigarro contrabandeado, também com denúncia anônima. Será a inteligência policial brasileira a que funciona por denúncia anônima?
A solução da intervenção é irreversível para o Temer. Diferentemente do que costuma fazer, nesta não dá para voltar atrás. OU assume de vez, ou se ferra. Acho que vai se ferrar porque o homem não tem pulsos (e isto está demonstrado nos inúmeros recuos que já deu) para aguentar o tranco.
Marcos Inhauser