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terça-feira, 2 de agosto de 2011

JUIZO TEMERÁRIO

Já contei aqui uma história dele (“Um pastor paradigmático” 22/02/2011), mas conto outra, por ser também paradigmática de um comportamento bastante comum. Estávamos em um Acampamento Menonita em San Juan de la Maguana, na República Dominicana, para um conferencia de igreja. Havia umas 200 pessoas, entre elas uma jovem que tinha certa deficiência mental, mas muito atenciosa e serviçal. Do local de reuniões ao refeitório havia uma distância de uns 500 metros e à noite não havia iluminação para sair do refeitório ao auditório, o que fazia com que as pessoas andassem por um caminho escuro. Certa noite fiquei até mais tarde no refeitório conversando com alguém e quando fiz menção de sair para o auditório, a jovem me perguntou se podia ir comigo porque tinha medo de andar no escuro sozinha. Disse que sim e lá fomos nós conversando. Fiz a elas algumas perguntas e ela me respondia e nas suas respostas ficava ainda mais evidente as dificuldades mentais que tinha. Eu caminhava devagar porque parecia que ela também tinha alguma dificuldade para andar, especialmente naquelas circunstâncias. Quando já estávamos bem próximos do auditório, havia na estreita calçada uma saliência. Ela tropeçou, caiu e começou a gritar e a chorar alto. No escuro eu não conseguia ver se ela havia se machucado ou não. Alguns homens vieram ajudar e a levamos para o salão onde o pessoal cantava. Ela entrou chorando alto, um tanto descontrolada, típico de uma pessoa em suas condições. Chamou a atenção de todos. O pastor convidado (o mesmo que era doutor em Apocalipse e que tinha estudado a Bíblia sozinho, sem ajuda de ninguém, só do Espírito Santo), veio correndo até ela e sem fazer uma única pergunta, começou a expulsar o demônio dela. Eu que tinha saído para buscar um remédio, quando voltei, vi ao redor dela uns dez homens orando, gritando, berrando e expulsando o demônio. Confesso que fiquei atônito, com vontade de fazer um esparramo e dizer que os endemoninhados eram eles que não perceberam a condição da moça, nem sabiam o que tinha acontecido. Assumiram que se uma mulher entra em um local de culto chorando é manifestação do demônio e pronto. Deixei a coisa rolar. Depois que ela se acalmou, os “exorcistas de araque” saíram dando glórias e ao iniciar sua “prédica” (uma arenga, na verdade) ele disse que o poder de Deus havia se manifestado naquele lugar pela expulsão de quem quis tumultuar o culto maravilhoso que teriam. Eu me acerquei a ela para saber se havia se machucado e percebi que havia torcido o tornozelo que já começava a inchar e tinha escoriado o joelho. A menina precisou ser levada embora para ser medicada porque não havia no local condições sequer de fazer uma compressa com gelo. O pregador ficou. Na avaliação dele, o culto foi uma benção! A avaliação dela eu não sei, não perguntei e ela não me falou. Na minha avaliação foi uma encenação, uma farsa, um tempo de arrogância religiosa. Conto isto porque sei, por testemunho de outros e por outras experiências, que tal prática é comum nos meios religiosos. Há uma impressionante tendência em pegar um sinal e fazer com ele um diagnóstico completo. Já ouvi muitas vezes que “fulano teve uma conversão verdadeira”, pelo fato de haver chorado durante um culto com apelo. Se não chorar, “não se converteu genuinamente”. Já vi alguém ser acusado de herege porque estava usando uma versão de Bíblia que não era a que aquela igreja adotava. A lista poderia se estender, mas não o faço porque cada de um de vocês se recordara de uma situação idêntica, na qual, talvez você mesmo tenha sido vítima de um juízo precipitado. O gozado é que até hoje nunca ouvi ninguém pregar sobre o pecado do juízo temerário, precipitado. Biblicamente falando, ele é tão pecado quanto tantos outros tão veementemente combatidos. Marcos Inhauser

quarta-feira, 27 de julho de 2011

DÁ PARA EXPLICAR?

Já confessei aqui, mais de uma vez, que sou analfabeto de pai e mãe no que à economia se refere. Mal sei fazer as contas de entrada e gastos. Já me esforcei, mas cheguei à conclusão que não entrei na fila quando Deus distribuiu a inteligência econômico-financeira. Por causa disto, há coisas que dão nó na minha cabeça. Eu não consigo entender como um deputado investe uma baita grana para se eleger se o que vai receber de salário e aditivos não paga nem metade do que gastou. Fico admirado com o espírito público deles: pagam para representar o povo! Também não entendo como uma pessoa que tem um salário mais ou menos igual ao meu consegue construir em dois anos uma casa de 2,5 milhões! Nem como se consegue multiplicar o patrimônio vinte vezes em dois anos. Nem como sendo tão analfabeto quanto eu (ainda mais, porque come todos os “s”), consegue que lhe paguem duzentos mil para ir falar abobrinha. Agora estou sem dormir tentando entender o rolo da Grécia e Estados Unidos. Nem com dormonid estou conseguindo. Como pode um país gastar com gastos públicos mais do que arrecada, torrar 200 bi da ajuda, receber ainda mais 160 e estar tecnicamente no calote? Como pode ser calote e o pessoal dizer que a coisa foi resolvida? Por que a população tem que pagar a conta sozinha se os grandes investidores fizeram uma jogada de risco? Se ganhassem era bolada só deles. Perderam, socializam o prejuízo. Na outra ponta está os Estados Unidos. Os Republicanos, capitaneados pelo Lula gringo que foi o Bush, sofreram ataque dos radicais do Bin Laden. Coisa de uma dúzia de doidos. Na lógica do império e da família Bush, o Afeganistão devia pagar pelo crime, porque o Bin Laden tinha sua base no território deles. Morreram milhares e nada do indigitado. Gastaram fortunas e nada. Não contentes, inventaram a mentira das armas químicas que o Hussein teria em seu poder, invadiram o Iraque, gastaram outra bilhonada, autorizada pelo congresso republicano. Eles se enterraram até o pescoço em dívidas e agora querem que a conta seja paga pelos Democratas e, indiretamente por todo o mundo, por causa da repercussão sistêmica que tal default causará. Exigem cortes de bilhões na saúde, educação e outros itens importantes, mas não vejo cortes nos gastos militares. Fazem a sujeira e agora querem limpar com as mãos alheias para que, na próxima eleição, possam desfilar de paladinos dos gastos públicos. Fica a sensação de que políticos em todas as partes são iguais. Aqui é o PR se locupletando no DNIT e VALEC, o PMDB nadando de braçadas no setor energético, o PT mamando em todas as tetas que pode. Aparece a eleição e vão todos repetir o mesmo discurso centenário. Leio que o gasto público brasileiro está aumentando a cada mês e que a coisa não está mais feia é porque estão fazendo a receita crescer. Mais impostos arrecadados, mais gente pagando, menos dinheiro na praça, para que as primeiras damas municipais possam tirar um naco de alguns milhões. E eu, e você, e nós, sofrendo para fechar as contas. Cortamos na carne, para que outros engordem suas contas. Reduzimos ao máximo o conforto pessoal, para que o governador vá com a família de jatinho passear nas Bahamas. Alguém pode me explicar como é isto? Marcos Inhauser

terça-feira, 19 de julho de 2011

$OMO$

Há um crescimento do economicismo, noção de que o valor de qualquer coisa é dado em termos econômicos. Esta ideia domina a mentalidade com a qual as pessoas se aproximam de qualquer evento como transação e até mesmo umas das outras. Toda coisa deve ter uma etiqueta de preço. Está presente em praticamente todas as atividades. Ter um bebê, ouvir música, ir à igreja ou cuidar do meio ambiente são vistos em termos de “quanto custa”. Se uma atividade é caracterizada como “não-rentável”, o seu direito à existência é questionado. Se o que fazemos não traz retornos quantificáveis, nossa atividade é secundária e supérflua. Temos deixado esse valor penetrar em muitas áreas da sociedade. De alguma forma nós fomos levados a pensar nisso como algo normal. Medem-se negócios, atividades, assistência social, igrejas em termos de quanto custa e quanto retorno traz. Se o econômico é o aspecto mais importante de qualquer empreendimento ou ação, então, as pessoas mais importantes são os gestores. Mas como isto se aplica aos professores, aos psicólogos que trabalham com deficientes (o autista, por exemplo)? Qual o retorno econômico que se tem ao atender a uma pessoa necessitada por altruísmo e solidariedade? Estamos sendo treinados para ser gerentes que pensam sobre "produtividade", para atender aos orçamentos e metas, para fazer a escola "competitiva", para atrair os melhores alunos, para descobrir como reduzir custos, para gerenciar recursos exíguos. Isto é cada vez mais verdadeiro em toda as profissões, seja no trabalho de medicina, social ou na argumentação sobre investimentos (“isto daria para construir tantas casa populares”). A corrupção é julgada pela quantidade roubada e não tanto pelo fato de ter sido roubado. Ouvi estes dias que o que se desviou em Campinas dava para comprar duas companhias aéreas como a Webjet. Se quantificamos nossos atos, como podemos descobrir o que causa os crimes, ou educação deficiente ou os divórcios? Os crimes acontecem porque há gente pobre querendo um tênis mais sofisticado (quantia X quantia). A educação é deficiente porque os salários dos professores são baixos (quantia) e as escolas estão mal aparelhadas (quantia). Há mais divórcios hoje porque as mulheres tem mais chance de sobreviver do que tinham antigamente. Começamos a nos contentar com explicações superficiais e quantificadoras e passamos a acreditar que mais investimento melhora a educação, mais renda na sociedade diminui o crime, mais oportunidade financeira aumenta a taxa de divórcios. Para tudo precisamos de mais eficiência, melhor relação custo/benefício. Precisamos de mais competição para que os preços caiam. Temos que ser rentáveis e com este parâmetro temos de regular e controlar o comportamento humano. Quando questões importantes sobre as relações humanas são reduzidas a questões de gerenciamento do comportamento. As pessoas não estão mais sendo levadas a sério. O ser humano é mais que uma quantia, uma máquina de produzir ou consumir. Há mistérios humanos não quantificáveis. Como disseram os Beatles, o dinheiro não compra o amor. Uma bela cozinha planejada não faz mais feliz a ninguém. Uma bela casa pode dar conforto, mas não satisfaz o íntimo de uma pessoa carente de afeto. O problema mais profundo com o economicismo é que ele está fora de sintonia com as necessidades mais fundamentais dos seres humanos. O economicismo ensina que devemos amar coisas que as pessoas usam e não as pessoas que usam coisas. Estas considerações me fazem lembrar um amigo que esteve há alguns anos na sala da presidência de uma multinacional e viu um mapa mundi pedurado que não tinha a África. Ele perguntou por que o mapa não tinha o continente, ao que o presidente respondeu: “eles não contam para nós, porque é um continente que não consome o que produzimos; eles não existem para nós”. Marcos Inhauser

terça-feira, 12 de julho de 2011

NEM ESQUERDA, NEM DIREITA

Na minha adolescência a juventude li muito jornal. Era leitura obrigatória para mim o Estadão e o Jornal da Tarde. Li todos os Pasquins que foram publicados. Estudei em meio de gente que era pró e contra o governo da ditadura. Para mim era claro o que era ser de esquerda e direita. Fui estudar teologia. Comecei em uma instituição fundamentalista de ranço gringo, fui para uma totalmente alinhada com a Teologia da Libertação e também percebi as diferenças entre as teologias de esquerda e direita. Trabalhei com Direitos Humanos na América Latina, viajei à beça, andei por bibocas deste continente latino americano e vi o que governos de direita e ditatoriais podem fazer. Estive em Cuba e Nicarágua, esta na época da Revolução Sandinista e depois na Guerra da Contra. Era claro quem era de direita e de esquerda. Andei visitando igrejas por este mundo de meu Deus. Estive nas Américas, na Europa, Ásia e Oriente Médio, Havia uma clara distinção entre as igrejas e suas liturgias, entre as liturgias mais formais e as mais informais. Hoje estou perdido. Já não sei mais o que é ser de direita ou de esquerda. O PT, referência para a esquerda, se locupletou com a economia de mercado e com a corrupção, criando também o sindicalismo pelego. O PSOL e o PCdoB, que deveriam ser esquerda, tem discursos jurássicos. A teologia convergiu para a prosperidade, arrebanhando calvinistas, wesleyanos, luteranos, batistas, em um movimento de sobrevivência. Todos falam a mesma coisa. Os cultos nas mais diversas igrejas são iguais em forma e conteúdo. Os cânticos das igrejas históricas, pentecostais, neopentecostais e livres, são iguais. A estrutura inexiste em todas elas. As missas carismáticas em pouco diferem dos cultos pentecostais. Os pregadores midiáticos católicos copiam os evangélicos. A diferença entre o PSDB e o PT é retórica, o PMDB se junta a quem está no poder, o DEM quer ser oposição, mas se perde nos mensalões, o PDT se esfarela com o governo de Campinas e com o Paulinho FGTS, o PR mama no Dnit. A Dilma tira os dirigentes do Ministério do Transporte e continua tendo a camarilha do PR à frente do balcão de negócios das estradas e ferrovias. Os Estados Unidos estão a ponto de dar um calote, a Grécia quebrou, a Itália está indo para o buraco, Portugal já foi e a Espanha está a caminho. Fala-se da necessidade urgente de uma reforma fiscal, mas não se acha duas pessoas que falem a mesma língua. Só se consegue consenso dos políticos na hora de aumentar impostos. O governo não cumpre com sua função de prover saúde e educação à população que paga planos de saúde e escolas privadas. Agora, o governo quer receber dos planos pela sua ineficiência, cobrando quando um associado usa o sistema público. Paga educação privada com dinheiro que o governo cobra o Imposto de Renda. A coisa está empastelada (termo usado nas antigas tipografias para se referir aos tipos que se misturavam uns aos outros por queda da caixa e que ninguém mais sabia o que era um e outro), complicada, confusa. Resta-nos uma sensação de desorientação, impotência. Há uma convergência da esquerda com a direita, uma massificação das religiões, uma desorientação cidadã, um generalizado sentimento de desesperança. Estamos vivendo a grande depressão (alguns a chamam de tribulação) apocalíptica? Talvez. De uma coisa tenho certeza: necessitamos de novos céus e nova terra. Uma nova ordem, novos valores, nova sociedade. Enquanto isto, as indústrias farmacêuticas se lambusam nos lucros das vendas de antidepressivos, calmantes e estimulantes sexuais, porque ninguém é de ferro. Marcos Inhauser

terça-feira, 5 de julho de 2011

INDIVIDUALISMO

Há vários anos li um livro, que se não me galha a memória, se chamava “O que pensam os Batistas” de um de tal de Crabtree. A tese dele era que o individualismo é o alicerce para toda a formulação teológica dos batistas. Tenho identificado algumas mudanças culturais que afetam a forma como nos relacionamos, mudanças estas que não vem do nada. Elas se relacionam com os avanços da tecnologia, a evolução demográfica e as necessidades dentro da economia, e também com filosofias. E neste conjunto há uma mudança importante: o individualismo que foi parte das culturas britânica e americana, onde, ao final da grande guerra houve uma preocupação com o bem estar social, mas que acabou sucumbindo ao individualismo. O individualismo tem como tese sagrada a supremacia do indivíduo. Fala de escolha individual, direitos individuais, liberdade, propriedade privada, os quais, juntamente a outros conceitos, se tornaram regra na sociedade individualista onde o sucesso individual, a riqueza individual e lucro individual são valores deontológicos. Ofereceu o convite público para que milhões de pessoas se amassem mais do que a seus próximos. Aqui se encontra um dilema fundamental: torna-se cada vez mais evidente que uma perspectiva individualista é centrada em indivíduos fortes, pois são os que dispõem dos recursos e da unidade para buscar os objetivos da sociedade individualista. Indivíduos fracos são penalizados. Eles são passíveis de ser roubados do seu estado de "indivíduo" e agrupados em blocos sem identidade subjetiva. É uma queixa comum dos desempregados, pobres e desfavorecidos que eles são vistos simplesmente como “números”, “portadores de cartões que devem se ajustar ao sistema”, “pesos para o sistema”, sendo ônus para o Estado (vide INSS). É muito pesado produzir para eles. Esta condição parece estar presente mesmo naqueles que operam os serviços. O contato diário com as "falhas" de uma sociedade orientada para o sucesso pode endurecer as pessoas que trabalham com eles, por exemplo, na administração dos benefícios sociais. Suspeita-se que são ladrões em potencial ou parasitas. É fácil tornar-se insensível e indiferente às necessidades das pessoas quando elas podem ser agrupadas em uma classificação impessoal. Isto, inevitavelmente, tem afetado as relações pessoais. Ética sexual, vida familiar e lazer estão sob a influência do individualismo. Passou a ser a maior barreira à intimidade: pessoas que decidem que “primeiro eu, depois eu e se der..... algo para os outros”, podem acabar sós se perguntando porque são solitárias. A ironia do individualismo é que ele começa com uma preocupação declarada para a realização do indivíduo (através da escolha individual, direitos individuais, a soberania individual), e o resultado é quase sempre que o indivíduo é desvalorizado e isolado. Buscamos nossa privacidade e liberdade com paixão, não querendo qualquer dependência forçada sobre nós. Queremos ser livres para escolher as pessoas com quem nos relacionamos. Partimos da nossa própria família para criar a nossa própria vida privada, familiar nuclear, com uma casa particular, um carro particular, um escritório particular, e não contente com isso, nós queremos dentro de nossa casa um banheiro privado, telefone privado, televisão privada e assim por diante. E quando atingimos isso nos perguntamos “por que estamos sós” E aí vem a teologia individualista botar mais fogo nesta lareira, promovendo competições espirituais e minando comunhões, botando os nossos no céu e os outros no inferno. Marcos Inhauser

terça-feira, 28 de junho de 2011

REESCRITORES DA HISTÓRIA

Primeiro li a “Revolução dos Bichos”. Muitos anos depois foi a vez de 1984, ambos do escritor Eric Arthur Blair, mais conhecido pelo pseudônimo de George Orwell, escritor e jornalista inglês. Adorei seu jeito sarcástico de denunciar regimes totalitários, tão bem descritos no Revolução dos Bichos e 1984. À época em que os li, notei um padrão que se apresenta nos dois livros, sem, contudo, dar muita atenção ao fato: a necessidade dos déspotas em reescrever a história. Na Revolução dos Bichos, ao tomarem de assalto a fazenda, os bichos decretaram uma série de leis, todas em flagrante oposição ao comportamento dos humanos que ali viviam. A relação das leis era: a.) Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo; b.) Qualquer coisa que ande sobre quatro pernas, ou tenha asas, é amigo; c.) Nenhum animal usará roupas; d.) Nenhum animal dormirá em cama; e.) Nenhum animal beberá álcool; f.) Nenhum animal matará outro animal; g.) Todos os animais são iguais. O porco, que se tornou o líder da revolta, aos poucos vai fazendo sutis modificações em algumas das leis, passando a ser: a.) Nenhum animal dormirá em cama com lençóis; b.) Nenhum animal beberá álcool em excesso; c.) Nenhum animal matará outro animal sem motivo; d.) Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros. Em 1984 Orwell mostra como uma sociedade dirigida por uma elite é capaz de reprimir quem se opõe a ela. A história é a de Winston Smith, de vida insignificante, que tem a missão de fazer a propaganda do regime através da modificação de documentos públicos, da história e da literatura para que o governo sempre esteja certo no que faz. Trago estes comentários à tona porque Orwell antecipou algo que ocorre em vários níveis da política nacional e da propaganda oficial. Exemplo disto é o slogan do governo do Dr. Hélio (“primeiro os que mais precisam”) e agora se descobre que primeiros foram os amigos do rei e da rainha. Quando o rei vem a público dar sua versão, reescreve a história (“nunca soube de nada”, “é golpe”, “é antecipação da disputa eleitoral”, etc.). E teve o desplante de dizer que não se devia esquecer que havia sido eleito duas vezes pela população e que tinha um mandato do povo para ficar no governo. Na sua nova versão de mandato, tal qual na Revolução dos bichos, o mandatário da Fazenda Sanasa se esqueceu que mandato era para ser honesto também. No momento em que se envolveu direta ou indiretamente com os desmandos, o seu mandato caiu por terra. E para confirmar a tese orwelliana, o mandatário a Fazenda Sanasa e habitante do Palácio dos Jequitibás, solta uma propaganda ilusionista, uma história cor-de-rosa da sua administração. O mesmo acontece com o PT e seus governos. O seguidor das diretrizes econômicas do anterior se torna o artífice da recuperação econômica. Quebra o sigilo de um cidadão inexpressivo, cai e volta como o articulador político da terceira versão PT no governo. O mensalão foi armação, corrupção passou a ser “recursos de campanha não contabilizados”, articulação política virou “balcão de negócios”, apoio do PMDB virou cargo na administração federal, sindicalista virou pelego. Orwell foi um profeta! No sentido de pré-feta: predisse! Marcos Inhauser

terça-feira, 21 de junho de 2011

ISTO VAI DAR ZICA

Há pouco tempo escrevi aqui sobre os dois países: Brasil e Brasília. Um beirando o inferno pelas precárias condições de educação, saúde e transporte, sufocado por pesados impostos, com bancos cobrando pelo ar que se respira nas agências. No outro, o paraíso. Trabalho de dois dias na semana, passagens aéreas gratuitas, um cardume de assessores pagos, verbas adicionais mil, e se suspeita que haja pagamentos para cada votação que favoreça a este ou aquele grupo. No paraíso não há Receita Federal, o Coaf não pega as transações milionárias e se consegue multiplicar por vinte o patrimônio, sem muito esforço. Ocorre que, no Brasil real e do real fictício, o populacho (assim visto pelos habitantes de Brasília) vem pouco a pouco tomando consciência de que as coisas estão insuportáveis. Estamos nos dando conta da quantidade de impostos e taxas embutidas e escondidas em cada coisa que compramos e isto vai minando o comportamento bovino que nos tem caracterizado e começamos a ficar mais ativos e, em alguns casos, agressivos com a exploração. Estes dias uma pessoa me contava que precisa abrir registro de autônomo. Ela foi à Prefeitura para saber o que deveria fazer e soube que terá que pagar uma taxa de mais de quinhentos reais nos três primeiros anos (quando se supõe que haja isenção de impostos) e depois disto passará a pagar 5% de tudo quanto faturar. A taxa é referente a um autônomo que tem ensino médio, porque, se teve a benção de ter um diploma universitário, a taxa mais que dobra. A pergunta que ele fez à funcionária é “o que recebo em troca por este pagamento?”. O silêncio foi esclarecedor. Ele deve pagar esta taxa e a PM não vai fazer nada, absolutamente nada. Uma outra amiga, da área médica com um consultório na região, teve no último ano três visitas de fiscais de saúde, que implicaram com uma geladeira mini que tinha para ter água e umas frutas para seu consumo, sob a legação de que a geladeira estava próxima à porta do banheiro. E dá-lhe multa. Quando a gente vai a um Posto de Saúde, uma escola mantida pela Prefeitura, uma chreche, percebe-se que a lei serve para os outros nunca para eles próprios. Nunca soube que um Posto de Saúde tenha sido multado pela Vigilância Sanitária do município, ou que uma escola municipal tenha sido interditada porque tem um refrigerador perto do banheiro. Pagamos impostos e pagamos escolas para nossos filhos porque o Estado não faz a sua parte. Pagamos planos médicos porque o sistema de saúde é um desastre. Pagamos pedágios (apesar do IPVA e a CIDE), pagamos segurança particular e guardas noturnos, no que pese pagarmos para ter a PM. A distância entre o Brasil e Brasília está criando um sentimento de insatisfação e irritação nos habitantes do Brasil real, que temo pelo pior. Não consigo ver mudanças significativas com a camarilha que habita Brasília, com passaportes e cidadania conferidos por votos comprados a peso de ouro via propaganda eleitoral e negociações de bastidores. Perdi a esperança na democracia representativa via voto obtido pela propaganda e marketing. Talvez a desobediência civil seja mais efetiva que o voto dos senhores de terno e gravata que se alimentam com o suor de um povo que vive no Brasil e não em Brasília. Marcos Inhauser

quarta-feira, 15 de junho de 2011

TEOLOGIA DA IMPERFEIÇÃO

Há dois consensos entre as religiões: o ser humano foi criado por Deus e ele é inerentemente imperfeito. Logo, Deus criou um ser imperfeito. Esta afirmação machuca, porque a religião não pode afirmar que Deus tenha feito algo menos que perfeito. A saída é introduzir o conceito do pecado, que “danificou” a obra perfeita de Deus. Calvino afirmou a corrupção total do ser humano pelo pecado, Aquino afirmava que restou no ser humano, depois da queda, algo de bom. Pelágio dizia que nascemos sem pecado, mas que o convívio social é o que nos corrompe. Armínio acreditava que o ser humano ficou com o livre arbítrio. São posições que tentam explicar o problema. A questão permanece: se somos imperfeitos, por que as religiões pregam a necessidade de uma vida perfeita, santa e santificada ou seja lá o que preguem, como essencial para agradar a Deus? Se somos imperfeitos, por que se acredita e prega que Deus só usa os bons, os certinhos, os ascéticos ou reclusos? Quando estudamos a vida espiritual dos modelos espirituais que as religiões difundem, se percebe, se se lê com um mínimo de espírito crítico, que há um processo de heroicização destes personagens, mostrando como tiveram vidas austeras, como se negaram aos prazeres, como se mortificaram, que tiveram períodos de santidade plena. A história destes “santos” é uma galeria de gente anulada. No entanto, quando se busca com mais cuidado algumas informações sobre estes “heróis da fé”, vamos perceber gente tão imperfeita como todos nós. No terreno bíblico se tem Abraão, pusilânime diante das pressões da esposa Sara; Jacó, o enganador; Moisés, desobediente e inseguro de sua liderança; Davi, adúltero e assassino; Salomão, megalomaníaco; Jonas, desobediente e omisso; Jeremias, lamentador; Pedro, emocionalmente instável e dissimulado; Paulo perseguidor da Igreja e com espinho na carne. No campo extrabíblico tem-se o Lutero com angústias quanto à sua fé, Aquino que chegou a duvidar da ressurreição de Jesus, Madre Tereza de Calcutá que pediu em 1953: "Por favor, reze por mim para que não estrague a obra d'Ele e que Nosso Senhor possa se mostrar ... pois há uma escuridão tão terrível dentro de mim, como se tudo estivesse morto ... tem sido assim mais ou menos desde que dei início à obra."; "tão profunda ânsia por Deus e ... repulsa ... vazio ... sem fé ... sem amor ... sem fervor. Salvar almas não atrai ... o céu não significa nada ... reze por mim para que eu continue sorrindo para Ele apesar de tudo." Em 1959 ela escreveu: "Se não houver Deus, não pode haver alma, se não houver alma então, Jesus, você também não é real." Isto me faz recordar a resposta de Deus a Paulo que insistia em pedir que sua fraqueza fosse tirada (o tal do espinho na carne): “o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo.” (II Co 12:9) Deus, no exercício de sua soberania e poder, não precisa de coisas e pessoas certinhas para fazer sua obra. Isto o afirmou Paulo: “temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós.” (II Co 4:7) e o motivo é básico: se Ele só pode usar o que é santo e perfeito, a glória será dividida com o “parceiro na santidade e perfeição”, o ser humano. Se ele usa o fraco, o débil, o pecador, e o torna instrumento da sua graça, a glória é dEle. Marcos Inhauser

quarta-feira, 8 de junho de 2011

BRASIL OU BRASÍLIA?

Confesso que ouvi com muita atenção e interesse o depoimento do ministro Antonio Palocci à nação brasileira, via televisão e li o que disse à Folha de São Paulo. Porque também trabalho no ramo de consultoria, estava interessado em aprender como melhorar a minha carteira. Até andei fazendo uns contatos, buscando quem me pudesse fornecer a lista dos clientes do ministro, porque cheguei à conclusão que poderia alavancar significativamente os meus ganhos se tivesse acesso a estes dados. Depois deste exercício de atenção e aprendizado, acho que perdi meu tempo. Ninguém sabe, ninguém viu, ninguém tem a tal lista. Os “esclarecimentos” foram de uma obviedade ingênua. Eu não esperava que ele viesse a público via Jornal Nacional afirmar que sonegou, que atropelou a lei, que agiu ilegalmente. Para dizer o que disse não precisava ficar em silêncio 20 dias nem usar a televisão. Terminada a maratona de paciência a que me impus tentando aprender com este gênio da economia, fiquei com a certeza de que temos dois países: Brasil e Brasília. No Brasil real, temos a carga absurda de impostos, com programas de computador a rastrear em tempo real as coisas que os habitantes fazem. A coisa anda tão avançada que a Receita Federal (é o que dizem) vai antecipar a Declaração de Renda do cidadão. Se você concordar, pague o que eles acham que você deve. Se não concordar, vai lá mostrar os documentos, aguentar a fila e correr o risco de acharem mais coisas, mesmo porque nesta área acham o que querem. Se não tiver dinheiro para pagar eles vão penhorar sua conta bancária e vão pegar o que é deles, não importa outros fatores. No outro país, Brasília, é o paraíso! Ganha-se polpudos salários trabalhando dois ou no máximo três dias por semana, com direito a mais de 60 dias de férias por ano, plano médico integral para ele e os familiares, aposentadoria após alguns poucos anos de trabalho, faltas abonadas sem nenhuma pergunta, viagens ao exterior com tudo pago, possibilidade de apresentar notas frias para combustível e despesas. Aliado a isto há a possibilidade de empregar um monte de parentes e aumentar o já polpudo salário, turbinado por verbas e gratificações. Neste paraíso a Receita é benevolente e em alguns casos inexistente. Não se conhece investigação sobre patrimônio de habitantes eleitos, no que pese evidências, rastros e pegadas deixadas pelo Renan Calheiros, Sarney, Jader Barbalho, entre outros. A Justiça é amiga: tem a impunidade com o belo nome de imunidade (um tipo de vacina jurídica que previne enfermidades com a lei e a Receita Federal). No paraíso Brasília não se pode falar mal do outro. Todos são cordiais, se chamando mutuamente de “excelência”, a imprensa deve ser censurada porque traz desconforto ao clima paradisíaco em que vivem. Tais quais religiosos em profunda comunhão uns com os outros, praticam o espírito de corpo, onde o ataque a um é o ataque a todos. Para a plateia externa encenam algum jogo conhecido como situação e oposição. Fechadas as cortinas do espetáculo, todos comem juntos nos mais caros restaurantes, onde alguns tem até cadeiras cativas. O visto de entrada neste país é o voto, conseguido sabe-se lá como. Outra forma é ser amigo de algum eleito ou, o mais seguro, ser parente de um eleito. Brasília tem filiais em muitas cidades, com embaixada nas Prefeituras Municipais e Câmaras. Exemplo e prova disto é a cidade de Campinas. Marcos Inhauser

terça-feira, 31 de maio de 2011

QUEM É QUEM NO PLANALTO?

No dia 2 de novembro do ano passado eu escrevi a coluna “Dilma ou Lula?”, na qual eu começava com a pergunta: “A eleição da Dilma para a presidência ... impõe a pergunta: o que elegemos? Uma mulher com identidade política própria ou uma versão Lula de saias?” Depois de algumas digressões, eu afirmava que: “... o governo da Dilma pode até ser presidido por uma mulher, mas ladeado de homens, que certamente terão papel preponderante e marcante no estabelecimento das políticas. Um deles vai coordenar o processo de transição (um que renunciou por causa de um escândalo) e o outro vai negociar com homens, donos dos partidos da coalizão ... e, ... com toda certeza, serão em sua grande maioria formado de homens.” Fui criticado e até chamado de machista, porque não acreditava na capacidade da mulher de governar. Os recentes fatos envolvendo o governo Dilma vieram comprovar o que afirmei no passado. Sabe-se hoje que o seu governo está(va) alicerçado na pessoa do ministro Palocci, ex-ministro flagrado com a mão na botija do extrato do Francenildo. Guindado à posição de todo-poderoso na versão Lula-de-saias, o ministro, mais uma vez se enrolou, agora com o extrato da sua própria conta. No desenrolar da crise que se seguiu, soube-se que ele enquadrou o PMDB, na pessoa do Vice-presidente da República, forçando a barra pela aprovação toda suspeita do Código Florestal, cujos interesses que estão por trás ainda não conhecemos bem. A coisa pegou fogo, houve a reação dos fisiológicos peemedebistas, sempre ciosos de seus cargos na administração federal, e a presidente teve que ceder e tirar uma foto com o Michel Temer, como forma simplista e ingênua de que tudo corre às mil maravilhas. Neste interim, quando o circo pegava fogo, ela teve que se valer do ex-presidente, quem foi a Brasília como bombeiro, para salvar a aliança que elegeu a sua eleita. Ela, por sua vez, sumiu. Uma providencial pneumonia a colocou de molho. Especulações falavam de um quadro grave de saúde, com antiga enfermidade retornando. Sabe-se que ela tem problemas de saúde que ameritam cuidados, mas nada que a impeça de governar. Contudo, o que se vê é a inapetência para o manejo das coisas políticas. Ela se associou a cobras criadas para se eleger e agora deixa o ofidiário a seu bel-prazer. A primeira picada venenosa não veio das cobras aliadas, mas das amigas. O Palocci, cria do PT, é um ser trágico: se enrolou e enrolou a outros na Prefeitura de Ribeirão, como ministro esqueceu seu passado trotskista e aderiu de alma lavada à economia de mercado, se envolveu com a casa suspeita, com o mensalão e com o extrato. Reeleito, se enrolou com a Consultoria milionária que prestou (ainda por ser esclarecida, uma vez que os sinais que estão surgindo sugerem tráfico de influência) e agora se enrola com seu gordo extrato bancário e com o silêncio suspeito a que se impõe. Um monte de homens brigando por espaço político e a presidente passeando no Uruguai e se “recuperando de uma pneumonia”. Não era isto que esperávamos do primeiro governo feminino do Brasil. Marcos Inhauser