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quarta-feira, 21 de outubro de 2020

O JUDICIÁRIO TISNADO

Estou estarrecido e indignado, e como eu, acredito, há muitos outros brasileiros. Tivemos nos últimos dias alguns eventos que marcaram de forma indelével o judiciário brasileiro.

De um lado, a aposentadoria do Decano da Corte, ministro Celso de Melo, quem, por 32 anos atuou no STF, onde, por sua seriedade e competência ganhou a credibilidade indispensável a quem o cargo ocupa. Conhecido por suas decisões solidamente embasadas, fruto de muita dedicação e estudo, seus votos eram irretocáveis. Avesso ao estrelismo, pouco se via dando entrevista extemporâneas. Limitava-se aos autos e falava pela sentença prolatada.

Em ato de profundo desrespeito a este que tanto contribuiu, o governo indicou, antes mesmo de sua jubilação, o seu sucessor. Caso raríssimo e, talvez, único na história judicial mundo afora. E para ser ainda mais indelicado, indica para sucedê-lo alguém com postura garantista, contrária ao posicionamento justo e equânime do jubilante. A ideia que fica é que o queriam ver pelas costas o quanto antes, porque seus votos não agradavam os áulicos de plantão.

Este evento momentoso da jubilação de quem deu a sua vida ao Judiciário, teve a translucidez tisnada pelo nome indicado para sucedê-lo. Adepto do currículo pavoneado de um outro quase ministro, inchou o seu com cursos breves como se Mestrado, Doutorado e Pós-Doutorado fossem. Se a constituição requer do indicado ao cargo notório saber e reputação ilibada, o indicado tem sua reputação tisnada pelos cursos listados. De tal celeuma ele tenta se safar dizendo que foi erro de tradução, resposta muito próxima da que deputados, senadores e outras autoridades dão quando são questionados e dizem que foram mal interpretados.

Para completar a barafunda instalada, tem-se o habeas corpus concedido pelo novo Decano, o ministro Marco Aurélio, aliviando a barra de um condenado duplamente, em segunda instância, com penas que, somadas, chegam aos 25 anos. Questionado, valeu-se de retórica e hermenêutica enviesada e saiu-se que ele não olha capa de processo, mas conteúdo. Duvido que leu o conteúdo. Se leu e deu o habeas corpus, o fato é grave porque deve explicar por que, mesmo sabendo da dupla condenação e do risco de sua libertação, decidiu monocraticamente ou sequer solicitou informação ao juízo que emitiu a sentença de prisão preventiva. Se não leu o conteúdo, deu sentença temerária, passível de admoestação, que é o que o Presidente do STF, ministro Fux, indiretamente fez.

Sabe-se que há duas correntes no STF: os garantistas (Mendes, Levandowski e Toffoli) e a outra ala chamada de punitivista. De minha vontade gostaria que todos fossem justicialistas, no sentido de que, lendo o texto do processo, o contexto dos fatos anteriores e a situação presente no momento da sentença, se buscasse a justiça.

Para a minha cabeça, é muita coincidência que casos escabrosos caiam quase sempre nas mãos dos garantistas. Deve-se lembrar que foram eles que garantiram a liberdade ao médico Abdelmassih, ao banqueiro Cacciola, ao dono dos ônibus no Rio, o Jacob Barata Filho. É o Gilmar que reverte todas as decisões do juiz Marcelo Bretas, algo que, para mim, é mais que uma questão de divergência legal, mas é pessoal. E o beneficiado agora é o André do Rap.

Estou com as barbas de molho, esperando o que vai acontecer com os processos das rachadinhas, do foro privilegiado do senador e da interferência na PF por parte do chefe da família.

Marcos Inhauser

  

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

PÁTRIA EM PRANTOS

Não chegamos às 150.000 mortes, mas estamos perto dele. Chegar aos 200.00 é uma questão de tempo. No mundo, na segunda-feira, se chegou a um milhão de mortes pela Covid-19!

O número de Dunbar é o limite no número de pessoas com as quais alguém mantém relações sociais estáveis, afetivas e conhece dados pessoais significativos. É o número no qual cada pessoa conhece cada membro do grupo e sabe identificar a relação dele com as outras pessoas do grupo. Este número foi estabelecido por pesquisa e referendado por outras e citado em inúmeros trabalhos acadêmicos, especialmente no campo da antropologia. Proposto por Robin Dunbar, esse número teórico varia entre 100 e 230 pessoas. Vamos tomar a média entre o mínimo e o máximo e trabalhar com 165 pessoas com as quais cada um de nós conhece, se relaciona e sabe quem é, o que faz, tem algum sentimento em relação a ela e que a falta dela, por ausência ou morte afeta significativamente a vida das demais pessoas.

Tomando as 150.00 pessoas que morreram, vezes as 165 pessoas que, em média, sentem a falta delas, teremos, no Brasil, 2.4750.000 chorando a morte de alguém e 165.000.000 em prantos no mundo. Ocorre que, há casos da morte de pessoas que não conhecíamos e soubemos das características delas em vida ou como foi a enfermidade, ou as pessoas que deixaram e nos solidarizamos e, não poucas vezes, choramos pelo desconhecido.

Ocorre que, com a seca, as queimadas e a quantidade de animais que foram dizimados ou feridos com as queimaduras, todos choramos pelo desastre ambiental, aumentando o manancial de lágrimas da pátria. Não só choramos as mortes humanas, mas também a morte de parte da Amazônia, do Pantanal e de outros biomas vitimados por incêndios, quase todos criminosos.

Sabe-se que há certo nível de sensibilidade nas plantas, que elas podem retribuir o cuidado, como podem se ressentir com os maus tratos. Se há, como pesquisas têm evidenciado, certo sentimento nas plantas, acredito que posso afirmar o sofrimento das árvores cortadas, queimadas, de toda a vegetação dizimada pelo fogo. Posso falar do sentimento dos animais em pânico com a tragédia que se avizinhava, posso chorar a morte das onças pintadas, capivaras, porcos do mato, jacarés, etc.

De minha parte, chorei nesta segunda-feira com a sentença de morte de outros ecossistemas decretado pela resolução trágica e insustentável do Conama, apoiada pela CNA e CNI, capitaneada por um facínora ambiental.

A dor de algo inevitável é menor que a dor de algo que se perde e se podia evitar. Ver mesmo que seja a mãe ou pai morrer depois de longo período de enfermidade, pode até ser reconfortante, ainda que choremos a perda. Mas chorar a perda quando ela poderia ter sido evitada é muito, mas muito mais dolorido. Quantas lágrimas rolaram nas faces de quem teve um filho, pai, mãe, esposo ou esposa perdidos pela falta de leitos, respiradores, remédios? Morte evitáveis, mas que foram assassinados pela incompetência, incúria e imperícia. Quantos amantes da natureza não choraram ao ver e saber do que acontecia nos ecossistemas devastados pelo fogo?

Somos uma pátria em prantos. A seca não se combate com as águas das nossas lágrimas, mas elas podem regar novos tempos, novas realidades. As lágrimas doloridas e amargas das perdas pessoais e da natureza podem fazer crescer o rio para arrastar para longe o antiministro, para quem o meio ambiente é “só meio ambiente” ou “ambiente pelo meio”.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

INFERNOS URBANOS

Não se sabe ao certo quando a ideia do inferno foi associada ao fogo. Quando visitei Jerusalém juntamente com outros 16 diretores de Seminários Menonitas e assessorados por uma arqueóloga, ouvi uma explicação bastante interessante. Há dois vales ao lado de cidade: Hinon, um vale onde se depositava o lixo e Cedron, um vale limpo, que não recebia lixo para que não contaminasse a fonte de água da cidade (Fonte de Gion).

O vale de Hinon, por receber lixo, este se decompunha e produzia enxofre e por causa do metano, queimava diuturnamente. Criou-se a ideia de que para o lixo e para ao fogo eterno seriam mandadas as pessoas indesejáveis socialmente. Na versão dos Setenta (Septuaginta) o Vale de Hino foi traduzido como Geena.

Ocorre que, me parece, os infernos não são exclusivamente de fogo. A vida urbana tem criado outros infernos tão suplicantes quanto ficar queimando eternamente. Vi uma reportagem sobre um determinado bairro em São Paulo, mais para favela que para bairro, onde o dono de um bar promove bailes funks que começam na sexta à noite e terminam no domingo à tarde. Música em volume insuportável para quem do baile não participa, barulho da multidão gritando e cantando, bebidas, drogas e total falta de respeito aos moradores. Um inferno todo final de semana!

Uma amiga me contou na semana passada que teve que se mudar do apartamento onde morava por causa do barulho das motos que a infernizava. Ela morava em um apartamento perto do Mario Gatti e afirma que as motos dos entregadores parece que faziam questão de fazer barulho ao deixar os prédios onde vinham entregar comida.

Se me lembro bem, há uma lei que pede que não se buzine nas redondezas dos hospitais. O escapamento e a aceleração desnecessária podem? Onde a fiscalização? Se houvesse da parte da EMDEC a mesma competência para fiscalizar que tem para aplicar multas, a coisa seria diferente!

As motos já são, de fábrica, barulhentas. Já não bastasse o barulho “normal”, há quem abra o escapamento para que o som seja mais alto, estridente, irritante. É uma forma de chamar a atenção e dizer: “Eu tenho uma moto! Olhem para mim!”

Lembrei-me de um vizinho que tive em 1978, que tinha uma Vemaguete, motor dois tempos, e que, todo dia às 6:00 da manhã, ligava o motor e ficava acelerando. Um dia perguntei a ele o porquê disto e ele me disse que era para “não arriar a bateria”. Mas ele conseguia irritar toda a vizinhança. Era a forma que ele tinha de anunciar a todos que tinha um carro.

No domingo, no início da noite, estava sentado em frente à minha casa com minha esposa e uma pessoa que nos visitava. Nisto apareceu um carro, com três jovens dentro e, para estacionar na frente da casa do outro lado da rua, acelerou tantas vezes que tivemos que interromper a conversa. Escapamento aberto, fazia questão de mostrar que tinha um “possante”! Deu pena do energúmeno!

Algumas perguntas: existe a lei do silêncio em Campinas? Se tem, está em vigência? Quem já foi multado por ela? Você que é vizinho de barzinho e já denunciou, resolveu o problema?

Tenho certeza de que serei voz que clama no deserto! E o inferno vai continuar!

Marcos Inhauser

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

ALEGRIA E TRISTEZA

Há várias propostas de abordagem ao livro bíblico de Eclesiastes, o livro do Sábio: um cético, um desiludido, um desesperado, um filósofo da mediocridade ou ainda um pregador da alegria. Tenho para comigo que o autor é uma pessoa de idade, experiente nos percalços da vida, que terminava seus dias sem entusiasmo e descontente com o que havia vivido. Um deprimido? Talvez. Um amargurado? Provavelmente. Uma pessoa triste? Com certeza. Um sábio? Sem dúvida. De uma coisa todos concordamos: ele era tão humano quanto nós, porque ao lê-lo nos identificamos com suas experiências, frustrações e conclusões. Isto é ainda mais verdadeiro quando se refere ao binômio alegria/tristeza.

O Sábio afirma que “tudo neste mundo tem o seu tempo; cada coisa tem a sua ocasião.... Há tempo de ficar triste e tempo de se alegrar; tempo de chorar e tempo de dançar. Ao colocar alegria e tristeza como não concomitantes no tempo, mostra a impossibilidade de alguém sentir-se triste e alegre ao mesmo tempo. Quando passamos por tristezas, ainda que haja algum motivo para alegria, parece que ela sufoca ou nos cega para as coisas boas. Quando há motivo de alegria e em seguida surge algo que nos entristece, parece que a tristeza tem mais força que a alegria e prevalece nos nossos sentimentos.

Por mais que fujamos da tristeza, há um tempo para ela na vida. Não escolhemos ficar tristes. Alegria e tristeza são sentimentos que surgem em decorrência das circunstâncias, quase todas fora de nosso controle. Não há quem não busque a alegria e que não fuja da tristeza e mesmo assim a tristeza ocorre. E não há quem não queira eternizar a alegria e mesmo assim não consegue.

Se há tempo para tristeza e alegria, significa que elas não são eternas. No dizer do salmista,o choro pode durar a noite inteira, mas de manhã vem a alegria” (30:5). A tristeza pode durar um tempo, mas não é eterna.

Há uma diferença na percepção humana da alegria e da tristeza: a alegria é sempre passageira e a tristeza duradoura. A alegria tem a estranha capacidade de nos anestesiar para as demais coisas da vida. O Sábio diz que “você não sentirá o tempo passar, pois Deus encherá o seu coração de alegria” (5:20). Ela nos inebria e só pensamos na causa da nossa alegria.

A tristeza, por sua vez, tem a capacidade de aguçar nossos sentidos, nos colocar em alerta geral, fazer pensar na causa da tristeza e em todas as consequências que ela traz.

O salmista diz ainda que a tristeza se aguça à noite: Estou cansado de chorar. Todas as noites a minha cama se molha de lágrimas, e o meu choro encharca o travesseiro (6:6). A tristeza tem a capacidade de ser mais aguda quando queremos dormir. É quando ela dói mais, que a cama se transforma em espinheiros e o travesseiro em pedra.

A vida é cheia de alegrias e tristeza e nenhuma das duas é eterna. O Sábio inverte esta lógica chamando a atenção para os perigos da alegria e para os benefícios da tristeza. Ao fazê-lo redimensiona a percepção destes sentimentos e nos dá a chance de tirar lições para viver sabiamente.
Marcos Inhauser

 

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

(FÉ)SIOLOGISMO

Estudiosos e teólogos vêm levantando a questão das implicações ideológicas que se entrelaçam no campo das doutrinas religiosas. Por se tratar de área que trabalha com texto religioso crido como sendo “A Revelação de Deus”, onde o próprio Deus teve participação ativa ao dar-Se a conhecer, os cristãos têm tomado o estudo da Bíblia seria e reverentemente.

No entanto, não são poucos os casos em que estas atitudes cedem lugar às concepções esdrúxulas e fanáticas. O fundamentalismo com a tese de inerrância e infalibilidade das Escrituras gerou uma plêiade de intérpretes que, por trabalharem algo que julgam ser inerrante, também assumem que suas interpretações são inerrantes e infalíveis.

Tem-se chamado a atenção para a influência do "reconstrucionismo" em setores carismáticos evangélicos, como forma de acrescentar poder e prestígio à igreja e ajudar na recuperação do poder político que a igreja teve com a era constantiniana. Este poder foi abalado com os Anabatistas, no século XVI, na Reforma Radical. Eles defendiam a completa separação da Igreja e do Estado.

O reconstrucionismo nasceu nos Estados Unidos nos anos 60 e ganhou força nos países latino-americanos nos anos 80. Esta teologia está vinculada a religiosos conservadores estadunidenses e à política neoliberal. Ela se disseminou por toda a América como ofensiva contra a Teologia da Libertação. As pregações religiosas carismáticas, pentecostais e neopentecostais passaram a ser pró-capitalismo (teologia da prosperidade) e individualista (religiosidade televisiva e individualista).

O reconstrucionismo afirma que os cristãos têm a missão dada por Deus, um "destino manifesto", devendo assumir posições de poder no governo, com o objetivo de reconstruir os países. As nações latino americanas, por seu passado indígena, cultos afros “pagãos” e a colonização católica “idólatra” legou uma maldição secular que deve ser quebrada com atitudes de coragem e destemor.

Para tanto, há grupos, até mesmo de empresários e profissionais liberais, buscando as “fortalezas de Satanás em cada cidade” para “tomar posse em nome de Jesus”. É a concepção do “evangelho pleno” Inicia-se o processo de reconstrução a partir da base moral e espiritual. É a ampliação do governo de Deus através da igreja, ocupando espaços de poder que foram descuidados. Ministros de Estado evangélicos têm sido celebrados como benção de Deus!

Estamos saindo religiosidade de monopólica para uma concorrencial. O crescimento numérico dos evangélicos levou ao crescimento do campo evangélico e carismático, penetrando nos diferentes níveis da sociedade". Com isto cresce o interesse de alguns desses grupos pela participação política, notadamente em setores que há alguns anos eram os mais reacionários a tal participação.

Esta participação na participação política passa pelo clientelismo e fisiologismo, na busca de benefícios para a igreja e para os evangélicos, apoiando direta ou indiretamente setores evangélicos marginalizados do poder durante tantos anos.

Os exemplos de fisiologismo e clientelismo são muitos. Sanguessugas: escândalo das ambulâncias, quando toda a bancada da IURD estava envolvida; Eduardo Cunha: filado à Assembleia de Deus, tem dezenas de sites “evangélicos” e é acusado de usar igrejas para lavar dinheiro; Família Garotinho: Presbiteriano, tinha programa radial de orientação. Ele e a esposa já foram presos; Bispo Crivela: Já teve vários pedidos de impeachment pelo desastre na saúde,  agora com o cerceamento do trabalho da imprensa; Flordelis: líder da bancada evangélica, cantora, dona de uma denominação, acusada de ser a mentora do assassinato do marido e de práticas sexuais nada ortodoxas; Pr. Everaldo: atualmente preso, dono de um partido e envolvido nos escândalos da Saúde no RJ.

Somos agora surpreendidos com um projeto de lei do filho do R. R. Soares, perdoando dívidas de um bilhão de entidades religiosas flagradas em esquemas fraudulentos.

Tudo com fundamentação bíblica!

Marcos Inhauser

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

PRIVILEGIANDO NEGÓCIOS DE NEGROS

Não me lembro onde foi que li. Sei que era uma publicação em inglês e, provavelmente, de um grupo anabatista dos Estados Unidos. Historicamente os anabatistas têm tido posições e proposto movimentos semelhantes, trabalhando causas relacionadas à justiça e à paz.

A partir dos problemas de violências contra negros nos Estados Unidos, coisa que já ocorre há muito tempo em função do racismo estrutural, alavancado pelas violências contra o George Floyd e Jacob Blaker, a proposta era de que se privilegiasse a compra em negócios cujos donos fossem negros. Achei interessante e pensei: vou fazer isto.

Comecei a percorrer mentalmente os negócios onde tenho comprado as coisas: alimentos, remédios, pães, bolos, material de construção, papelaria, restaurantes, lanchonetes, serviços de conserto de eletrônicos, oficina mecânica, feira, etc.

Fiquei assustado! Não encontrei um só negócio que tenha um proprietário negro. Rodei as lembranças e não me lembrei de ter visto algo assim há muito tempo. Rodei a memória mais ampla: locais onde houvesse negros trabalhando. Nada! Ampliei o espectro para as cidades onde já morei e os negócios que costumava frequentar e usar. Nada!

Ao final de muitas lembranças e recorridos mentais, lembrei-me de duas farmácias que têm atendentes e caixa que são negras. Em uma delas, elas trabalham no período da madrugada! Não consegui me lembrar de um restaurante onde houvesse um garçom negro, uma lanchonete onde houvesse um atendente negro, uma padaria onde o padeiro fosse negro.

A coisa me intrigou e comecei a pensar se sou eu que não sei escolher os negócios que uso, ou é um problema estrutural. Perguntei a algumas pessoas conhecidas e a constatação foi a mesma: os negócios são brancos.

Já tive pedreiros e serventes negros trabalhando em minha casa. Já tive pintor, encanador, eletricista, e alguns deles eram negros. Serviços braçais. Rodei a memória e só me lembro de um professor negro que tive, nos Estados Unidos.

Há algo de errado. Quando morei nos Estados Unidos, tinha por costume ir com a família para as igrejas negras, por causa da música e dos corais. Sempre achei que os Estados Unidos é a nação mais racista do mundo e que o dia mais racista é o domingo de manhã quando as igrejas se reúnem: brancos e negros em igrejas separadas. Fui, certa vez, a convite de um colega de curso, pastor de uma igreja negra, assistir a Cantata da Páscoa. Depois da Cantata ele me convidou para ir ao púlpito com ele e dar uma saudação à igreja. Ele fez questão de dizer que, nos 35 anos daquela igreja, era a primeira vez que um branco subia ao púlpito e falava à igreja!

É verdade que não temos isto no Brasil, mas também é verdade que, nas igrejas protestantes e as chamadas históricas, os negros são raridade. Certa feita fui assistir uma Cantata de Natal em um templo que tinha umas duas mil pessoas. Nenhum negro ou negra no coral e não consegui achar um só no meio dos assistentes. Podia ter, mas não vi. É raridade.

Já escrevi aqui uma coluna “O Shopping é Branco”. Tenho que dizer: os negócios são brancos. As igrejas de classe média são brancas. O acesso ao pastorado nas igrejas protestantes e históricas tem degraus altos para que os negros possam subir. Os negros na Câmara Municipal, Assembleia Legislativa, Câmara e Senado, são poucos (há raríssimas exceções). Os ministros são brancos.

Falta cor nos espaços públicos do Brasil!

Marcos Inhauser

 

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

PACIFICADOR BALEADO

Há momentos em que penso que estamos nos tempos da barbárie. Questiono-me se a civilização deu passos à frente. Poderia citar muitos fatos que me trazem este questionamento, tanto no Brasil, como em outros países.

Para citar exemplos deste mês, o caso da menina estuprada pelo tio, que engravida, tem risco de vida se continuasse com a gravidez e a invasão da casa da avó por parte de “religiosos” tentando impedir o procedimento legal.

Não bastasse a barbárie da morte de George Floyd, asfixiado por um policial que ficou ajoelhado em cima do seu pescoço por nove minutos, temos agora a cena de dois policiais atirando pelas costas em um negro. Tal se deu com Jacob Blake, na cidade de Kenosha, Wisconsin.

O que mais choca é que ele tinha parado seu carro para apartar uma briga entre duas mulheres. Saiu em missão de pacificar e, sabe-se lá por que, a briga virou contra ele, não pelas mulheres, mas pelos policiais. Deixou os filhos no carro para realizar uma missão de paz e foi baleado nas costas, por policiais truculentos, imbuídos de um racismo estrutural. E foi baleado na frente dos três filhos que estavam no carro!

Nestas horas eu me pergunto como o texto da bem-aventurança pode ser aplicado, entendido, ou pode explicar esta situação: “Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus. Como o Jacob Blake e seus familiares podem entender, aceitar e ser consolados com a afirmação de que seu pai, covardemente baleado, pode ser chamado Filho de Deus?

Eles estão angustiados com a saúde do pai, levado em estado grave para o hospital. Eles estão chocados com a brutalidade de quem, se sentindo dono da verdade e da vida alheia, decide, à queima-roupa e pelas costas, atentar contra a vida daquele que os deixou no carro (em segurança, diria eu), para ir fazer um ato que é obediência ao mandamento bíblico: pacificar.

Como já ocorreu em outras situações semelhantes, o ato gerou uma onda de revolta, com mais violência gerada. Este paradoxo é intrigante: um ato de pacificar gera a violência policial que, por sua vez, gera a violência social. A pergunta que fica: é errado tentar ser pacificador em uma sociedade estruturalmente violenta?

Como ser pacificador no Brasil onde o discurso de violência vem de cima? Quando os que têm a incumbência constitucional de gerar a paz social, pregam o armamentismo? Como ser pacifista em uma nação onde a violência no campo gerou muitas mortes (Padre Jósimo, Chico Mendes e Dorothy Mae Stang, para citar só três), onde o ministro do Meio Ambiente é o maior agressor ambiental que se conhece hoje em dia? Como ser pacificador quando a polícia entra nas favelas em suposto confronto com marginais e mata, com balas perdidas ou dano lateral, crianças em suas casas?

O pacificador, além de sua tarefa imediata de gerar paz em situações de conflito, também tem o dom de desmascarar a violência. A pacificação é um processo com exigências radicais. Não se pode ser pacificador com medo, com meias palavras. Em certa medida, trabalhar pela paz é trazer a luta contra a violência estrutural.

Em nenhum momento Cristo disse que a vida cristã seria fácil. E não é para menos que, anunciando a paz, foi crucificado!

Marcos Inhauser

 

A CULPA AGRESSIVA

Normalmente experimentamos sentimento de culpa quando reconhecemos que somos a causa do infortúnio de outra pessoa. A teoria intrapsíquica afirma que as regras e valores morais internos que aprendemos e introjetamos desde a infância, quando violados por nós, nos leva a um sentimento de culpa. A culpa, então, é o resultado emocional de um conflito entre nossas regras e valores e nossos comportamentos ou omissões. Nessa visão, a culpa diz respeito ao sentimento de ter desobedecido aos próprios valores morais internos, mesmo sem agir ou compartilhar o sentimento com os outros. Isso pode causar uma expectativa de punição, expiação ou pedido de desculpas. A pessoa que se sente culpada tem a sensação de ser uma “pessoa má”.

Percebe-se que o sentimento de culpa se dá em razão de ações positivas cometidas, intencionais ou não, ou de ações omissivas, também intencionais ou não. A pessoa se sente culpada pelo que fez ou deixou de fazer e este sentimento o leva a várias opções possíveis, no sentido de amainar o sentimento que passa a corroê-lo.

O primeiro deles é reconhecer que errou ao fazer ou deixar de fazer e assumir este erro junto à pessoa afetada. Se isto já não mais é possível, pelo falecimento ou impossibilidade de encontrá-la, tal reconhecimento pode ser feito junto a terceiras pessoas, um confessor, por exemplo.

O segundo comportamento é encontrar motivos para o seu ato ou para a sua omissão. A pessoa buscará um sem-fim de razões para mostrar que o erro não foi intencional ou que não teve a dimensão que se que dar. É um mecanismo de fuga à responsabilidade.

O terceiro é culpar outros pelo seu erro positivo ou omissivo. Ele não é culpado porque alguém o fez errar ou se omitir, alguém não o informou, ou alguém fez algo que o impediu de agir corretamente. Santo Agostinho, em seu livro “Confissões” tem esta atitude ao dizer que “foi forçado a pecar”.

O quarto é quando a pessoa deixou de fazer ou fez algo e outra pessoa assumiu o papel e fez o que ela deveria ter feito. Há nisto um duplo sentimento: o do erro ao ter falhado e o da acusação sub-reptícia de alguém que assumiu o seu lugar fazendo o que ele não fez. A dimensão da culpa aliada ao sentimento de estar sendo acusado pela prontidão do outro em fazer o que se esperava que ele fizesse, leva a pessoa a denegrir as competências ou habilidades de quem o substituiu.

O mecanismo de achincalhar a pessoa que fez o que ele não fez é cruel e perde o sentido da ética e ultrapassa os limites da civilidade. Para não se sentir culpado e acusado, passa a acusar quem cobriu sua falha com acusações não comprovadas, com tentativas de diminuição das capacidades, habilidades e até mesmo desmerecendo os logros acadêmicos ou profissionais que a pessoa que o substituiu tem. A culpa passa a ser agressiva, dirigida a quem fez o que o agressor não fez.

Na teoria interpessoal, por sua vez, a culpa resulta da consciência de ter causado um dano injustificável a alguém, não ter se comportado de forma altruísta ou amorosa, resultando em comportamento egoísta, fruto da falta de empatia e compaixão, mesmo se tratando de pessoa supostamente amada. Aqui, o gatilho é a presença de uma pessoa em sofrimento ou necessidade, sendo injustamente penalizada pelos seus atos, não ajudando, desprezando ou, simplesmente, ignorando.

Aqui entra o auto-engano: a pessoa má não é quem deveria ser e não amou, mas quem no seu lugar amou e cuidou!

Marcos Inhauser

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

UMA ESTANTE DE LIVROS NAS COSTAS

Nove entre dez entrevistados na televisão, lives de especialistas ou vídeo de “otoridades” em algum assunto, tem uma biblioteca nas costas do indivíduo. Há algumas considerações que merecem ser feitas sobre este fato.

Esta é uma forma de mostrar aos que se dispõe a ouvi-lo ou para chamar a atenção dos que passam de relance, que a pessoa é uma pessoa letrada, com muitos livros lidos e vasto conhecimento na área em que pretende falar alguma coisa. Quanto mais livros o sujeito tiver para mostrar, mais autoridade, supostamente, ele tem. Há um deles, o Guga Chacra, que tem livros dos dois lados de sua cabeça, todos colocados para que se facilite a leitura dos títulos e, como deveria ser, relacionados a assuntos do Oriente Médio e mundo árabe. Tal se dá porque ele é, de fato, um especialista no assunto. O que me chama a atenção é a arrumação deles. Parece que estão ali para promover os livros e se assim for, deve ganhar ou livros grátis das editoras, ou algum cachê.

Um ministro do STF tem uma coleção da Enciclopédia Mirador nas suas costas. Ela só pode ser relíquia bibliográfica por ser tão antiga e desatualizada. Deveria estar no sebo! Há quem mostre uma biblioteca toda certinha, com os livros arrumados por tamanho e, parece, por cor também. As que vi pertencem a mulheres: Cristiana Lobo e Eliana Cantanhede. Há quem tenha uma biblioteca com livros em desalinho e meio que jogados ao léu (Jorge Pontual). Há jornalista que aparece para dar seu furo ou reportagem em frente a estantes que supostamente têm livros.

Recebi há algum tempo uma “live” de pessoa que conheço bem e que o último livro que leu foi para a última prova na Faculdade. Lá estava ele em frente a uma biblioteca que nunca vi na sua casa!

Outra coisa, relacionada a esta é a quantidade de “lives” e vídeos feitos por pregadores. Eles obedecem a dois parâmetros: biblioteca nas costas ou uma baita Bíblia que o pregador segura nas suas mãos. Parece dizer que, quanto maior for a Bíblia, mais autoridade espiritual ele tem. Ao segurá-la de forma meio descuidada, quer passar a ideia de que tem familiaridade com o livro, tal como fazia Billy Graham ao dobrar a sua, encostando a capa na contracapa.

Com a tecnologia do chroma key, podemos duvidar que a biblioteca às costas realmente está ali ou foi montagem de cena. Posso perfeitamente ir à biblioteca municipal ou da Universidade, gravar um vídeo das estantes e depois montar a cena. Eu me coloco na frente deles e os espectadores acharão que tenho uma enorme quantidade de livros e que sou letrado.

Uma coisa também me chama a atenção nestes dias de pandemias: é raro ver um dos epidemiologistas, infectologistas, virologistas aparecer com biblioteca nas suas costas. Preferem aparecer no laboratório, como se tivessem parado a pesquisa para dar a entrevista. Há nisto também um ranço ideológico (no sentido de busca de poder).

Como estamos na era em que qualquer analfabeto se acha especialista em alguma coisa ou em tudo (haja vista a profusão de comentários de quem mal sabe escrever que está nas redes sociais, gente que não aprendeu que na língua portuguesa se usa vírgulas e pontos finais), uma biblioteca nas costas dá uma sensação de “otoridade”. Mesmo que seja montagem!

Marcos Inhauser

 

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

CONHECER-SE: UM DILEMA HISTÓRICO

Demócrito nasceu e viveu entre 460-370 a.C. Filósofo do período pré-socrático, foi o primeiro a formular a teoria atomista que afirmava que tudo é composto de átomos, partículas indivisíveis que diferem apenas pela forma, tamanho, posição e ordem. Não se conhece seus escritos completos, só alguns fragmentos, muitos deles através de citações de Aristóteles, quem era seu crítico.

Ele tem alguns conceitos universais (no sentido de que valiam para a sua época e para a nossa). No fragmento 72 ele diz: “desejar violentamente uma coisa é tornar-se cego para o demais”. A paixão desenfreada por algo ou por uma ideia é sinal de cegueira para outras verdades. O vida focada em um só assunto perde a dimensão e visão das demais. A pessoa passa a ter uma visão de tubo e os ouvidos se fecham para tudo o que não confirma o que crê.

O exagero de acreditar em algo mostra que, de alguma forma, o sujeito está fora de si ou que perdeu o senso de realidade. É um obstinado, cego para outras perspectivas e possibilidades, com a impossibilidade de enxergar-se. Acaba sendo ridículo.

O filósofo Karl Popper, filósofo da ciência, rejeitou as posições indutivistas clássicas propondo o falsificacionismo, porque, para ele, pelas ciências empíricas não se prova nada, mas se falsifica. Tudo deve ser examinado por experimentos decisivos. O que a experiência e as observações podem e fazem é encontrar provas da falsidade de uma teoria. Quando isto acontece, há que eliminá-la por ser falsa e buscar outra que explique o fenômeno em análise. Percebe-se assim que, para o obcecado pelas verdades que crê, não admite ser questionado e muito menos, que alguém prove a falsidade de seu posicionamento. Ele é a verdade e nunca admitirá que pode estar errado. Entra-se no surreal de que a mentira é “liberdade de expressão”.

Quem se conhece a si mesmo, sabe dos seus limites e não exagera na convicção de suas crenças, antes é alguém aberto ao diálogo, ao confronto, ao contraditório. Aceita que, mesmo que creia com toda a força dos argumentos que têm em mãos, pode ser que seu ponto de vista esteja errado ou seja falso. Isto é maturidade. Quem não se enxerga não vê o outro. Só aceita quem diz o que ele diz ou o que ele quer ouvir. O que pensa diferente é inimigo.

O sujeito maduro tem a capacidade de examinar seus próprios sentimentos, de ver-se desde fora de si mesmo, distanciar-se dos exageros que os sentimentos promovem e, assim, reduzir o risco da miopia obtusa que a extremada convicção lhe dá. Cabe aqui o provérbio bíblico: “quem confia no próprio coração é um insensato (28:26).

Em tempos de exacerbação das opiniões via redes sociais, onde cada um tem o poder de escrever e dar sua opinião sobre tudo, mesmo sobre coisas que nunca soube que existia ou que não é de sua área de conhecimento, percebe-se, seja pela ortografia, pela sintaxe ou pela lógica que se revelam ignorantes. No dizer do apóstolo Paulo: “Desviando-se algumas pessoas ..., perderam-se em loquacidade frívola, pretendendo passar por mestres ..., não compreendendo, todavia, nem o que dizem, nem os assuntos sobre os quais fazem ousadas asseverações.” (ITm 1:11).

Marcos Inhauser

 


quarta-feira, 29 de julho de 2020

TOLICE RENITENTE

No seu livro “Autoengano”, Eduardo Giannetti traz a seguinte afirmação; “Se o tolo persistisse em sua tolice ele se tornaria sábio” (pg 56). Citando Platão ele afirma que “todas as tentativas são arriscadas, e é verdadeiro o provérbio segundo o qual aquilo que vale a pena nunca é fácil (República, 497 d). Ao comentar o assunto ele afirma que a atividade humana é como uma loteria, onde a aposta precisa ser paga na entrada, o que leva a melhor parte das esperanças e energias. No entanto, as chances de sucesso são mínimas e para cada ganhador há uma multidão de perdedores”.

Isto assim é, continua Giannetti, porque a capacidade humana de autocontrole, perseverança e autoconhecimento é limitada. O saber não é condição suficiente para o fazer. Há os que, mesmo sabendo muito e ensinando, diante de uma tarefa que exige tenacidade e persistência, desistem ao enfrentar os primeiros embates e justifica sua falta de competência em fazer, acusando e atirando pedras em tudo e todos, como se eles fossem os culpados da sua incompetência. Heráclito dizia que “a natureza ama esconder-se” (frag. 123).

Minha sogra tinha um ditado: “cada ladrão julga por sua condição”. Sem saber, ela afirmava algo que filósofos clássicos já haviam dito. Vejo no outro aquilo que não quero ver em mim, e como não tenho coragem de afirmar que tenho os erros que aponto no outro, é mais fácil projetar e acusar os outros ao invés de me denunciar. Para que não se descubra o seu ignominioso interior, o acusador precisa que os outros creiam na sua credibilidade, que é honesto nas intenções que tem. A máxima por trás disto é o que Protágoras dizia: “qualquer um que não professe ser justo só pode estar louco” (323 b). Para tanto, via de regra, fazem autoelogios: “a minha honestidade não permite”, “tenho um currículo a zelar”, “o tempo mostrará que estou com a razão”. A questão, nestes casos, é a hermenêutica por trás das palavras para descobrir as mentiras que o acusador profere para acobertar o que nele existe.

Como humanos, o maior erro seria nunca errar. Falíveis, erramos desde a fonte da humanidade. No que pese as afirmações dos autoenganados honestos e impolutos, a sapiência está em reconhecer que todos, imperfeitos que somos, não temos autoridade para atirar pedras, por melhor que sejam as razões. O acusar o outro como responsável pelas minhas incapacidades é mecanismo de defesa dos tolos.

Bernstein, no seu livro “Against the Gods” (pg 202) cita um anônimo: “A informação que se tem não é a informação que se quer. A informação que se quer não é a informação da qual se precisa. A informação da qual se precisa não é a que se pode obter. A informação que se pode obter custa mais do que se quer pagar”. Não sei por que, mas me vem à cabeça as mentiras e desistência de um obstinado perdedor, que na loteria da vida ganhou uma presidência e mostrou sua incompetência no trato da pandemia e acusa STF, governadores e prefeitos pelo descalabro.

Para os tolos e perdedores, a busca da informação necessária é tarefa tão cara que eles não estão dispostos a pagar, porque a incompetência inata não lhes dá a resiliência para continuar até o fim e obter o prêmio da vitória. Ao ver o tamanho da estrada desiste da carreira.

A desistência é típica dos frágeis, dos tolos, dos perdedores.

Marcos Inhauser

VERDADE E VERDADES

Mencionei na coluna passada a parresía, que é a virtude de dizer a verdade. Outra anotação sobre o tema está no diálogo entre Sólon e Pisístrato. Sólon afirma sobre Pisístrato: “se o soberano se apresenta exercendo um poder militar, ameaçando pela força armada a outros cidadãos, é normal que que os cidadãos [em troca] cheguem armados”. Se o tema é a parresía, e o governante vem armado de mentiras, é normal que os cidadãos de bem o combatam com investigações e verdades. A certa altura Sólon afirma; “sou mais sábio do que os que não compreenderam os maus desígnios de Pisístrato, e sou mais corajoso dos que o que os conhecem e se calam por terem medo” (Foucault, M. Coragem da Verdade, pg 66).

Sólon desnuda assim que a parresía diante do governo mentiroso é arriscada e pode causar a morte, seja ela física, seja ela moral pela execração da indústria de mentiras que tal governante deve ter. “Quem quiser dizer a verdade no jogo de um regime democrático pode se expor efetivamente a morrer” (Idem, pg 67-68).

Sócrates, na Assembleia de Arginusas, declara: “eu votei contra vosso desejo!”. “Eu estimava que meu dever era enfrentar o perigo com a lei e a justiça, em vez de me associar a vós em vossa vontade de injustiça, por temer prisão e morte” (idem, pg 68). O medo faz a consciência calar-se. Mas esta não é a única razão: o desejo do poder é o que move a muitos para bajular os poderosos de plantão. Com Sócrates aprendemos que a prática de dizer-a-verdade é diferente da que ocorre na cena política. Para ele, mesmo o oráculo proferido pelos deuses deve passar por um elégkhein, palavra grega para “fazer recriminações, objeções, questionar, submeter alguém a um interrogatório, opor-se ao que alguém disse para saber que o que disse se confirma ou não” (idem, pg 70).

Há algumas coisas que pastores e líderes religiosos podem aprender com Sócrates: não dar ouvidos às palavras proferidas, por quem quer que seja, e que se pretende ser a Palavra de Deus via boca de algum “iluminado”. Tudo, absolutamente tudo o que lhe for dito, deve passar pela elégkhein, que é o processo de saber se o que se arvora como parresía é, de fato, a verdade.

Neste raciocínio, o pretenso líder que se arvora como parresiasta e é, ao mesmo tempo, aliado dos poderosos, tem toda a chance de ser um embusteiro, porque a parresía é oposta à democracia, tal como a concebemos e vivemos. Daí que, se levada a lógica ao paroxismo, teremos que afirmar que um político religioso, especialmente o cristão, é uma excrescência. Ou será religioso e, se espera, comprometido com a verdade, ou será político aliado à trama de mentiras que norteia os poderosos. Se coloca os pés nos dois barcos, ou perderá a autoridade religiosa ou se mancomunará com as tramas do poder.

Na necessidade da parresía apareceram os profetas. Nenhum deles esteve associado aos reis, antes, pelo contrário, suas alocuções denunciavam os desmandos, injustiças, mortes e exploração que praticavam. Não é possível ser profeta e político partidário, mesmo porque, como ser social, todos somos políticos, já dizia Aristóteles. A política da parresía dever ser a do cristão, e este engloba as denúncias das injustiças, das explorações, do racismo, da xenofobia, da carga tributária escorchante, da corrupção, do caixa dois, das meias verdades, do negacionismo.

Sinto que faltam parresiastas no Brasil!

Marcos Inhauser

quarta-feira, 15 de julho de 2020

É FAKE?


Que me perdoem os poucos leitores que tenho, mas fui treinado por meu pai, por minha professora de filosofia e pelas leituras de Nassim Taleb e Michel Foucault a duvidar de todas as informações que me chegam, especialmente as relacionadas aos políticos.
Foucault, nas suas últimas aulas, tratava da parresía (falar a verdade) na democracia, algo incomum. Citando Platão e Isócrates diz que, em geral, as pessoas querem ouvir os que “falam no sentido dos seus desejos” e que “a democracia não é o lugar privilegiado da parresía ... e [onde] o exercício da parresía é mais difícil” (A Coragem da Verdade, Pg. 51). Com o Nassim Taleb refinei algo que já tinha: tudo o que tem aprovação da maioria, é senso comum, best seller, tem grande chance de ser engodo.
Vivemos uma democracia que elegeu um presidente que, à medida que as investigações avançam e o Facebook revela, se sabe que usou de desinformação, fake News e robôs para gerar clima antagônico ao oponente e favorável à sua candidatura. Ao fazer isto e polarizar a eleição entre petismo e conservadorismo, o fez por meios maquiavélicos e nada republicanos. Sabe-se que o uso de desinformação, postagens com mensagem não comprovadas, dados incorretos, são a tônica deste que não é um parresiasta. Até um site dedicado a contar as informações equivocadas foi montado (aosfatos.org).
Quero trazer uma inquietação e não uma afirmação. Ele fez alguns testes para saber se teve a Covid-19. Disse que os exames deram negativo. O jornal Estadão conseguiu na Justiça, depois de várias chicanas da parte do requerido, que os exames fossem apresentados e o foram com pseudônimos e justificou-se que assim era por razões de segurança. Neste tempo ele alardeou que era uma gripezinha, receitou a milagrosa hidroxicloroquina, mesmo não sendo médico e contra o posicionamento da comunidade científica, afirmou mais de uma vez que havia certa histeria na veiculação jornalística, tentou maquiar os números de infectados e mortos, brigou com a OMS.
Mais recentemente ele fez um novo teste. Para surpresa geral, ele vem a público e diz que está com Covid-19, apresenta o teste positivo e agora com seu nome. Mais: faz uma entrevista coletiva, retira a máscara para anunciar o fato e que estava muito bem. No outro dia aparece mais de uma vez tomando a milagrosa pílula de hidroxicloroquina e afirmando que estava dando resultados e que estava se sentindo bem.
Estranhei. Todas as pessoas que estiveram com ele nos dias anteriores, quando testados, deram negativo. O Embaixador dos EUA e esposa, as pessoas que com ele viajaram a Florianópolis, os ministros, filho e assessores. Até a esposa testou negativo. Ele é um fenômeno! Não infectou ninguém, apesar do seu descuido com os protocolos que seu governo estabeleceu para todos (menos ele!).
Minha pergunta: será que esta revelação não é fake? Será que ele não veio dizer que estava com a Covid-19 para mostrar que, tal como disse, é uma gripezinha? Será que o remédio maravilhoso não está enchendo os bolsos de quem o fabrica? Como pôde não ter infectado a esposa e o filho? Como este evento da “gripezinha” ajuda a alavancar a candidatura em 2022? Há alguma relação entre a prisão do Queiroz, o emudecimento estranho e a gripezinha? Há alguma relação entre o cancelamento de contas da família no Facebook e esta Covid-19, como forma de criar um boi de piranha?
O tempo dirá. Alguém vai acabar dando com a língua nos dentes e ficaremos sabendo a verdade.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 8 de julho de 2020

ENGANOS SEQUENCIAIS


Lá nos anos 60, venderam-me a ideia de que o problema do país, que era periferia no mundo da economia mundial, era a dependência do centro e que a solução era o socialismo ou comunismo, dependendo de quem me pregava. Do outro lado, leitor assíduo do Estadão e Jornal da Tarde que me acompanharam durante a adolescência, me era vendida a ideia de que o capitalismo era a solução de todos os males. Soube que as marchas da família e a revolução dos militares era a solução para o Brasil entrar no primeiro mundo. Depois, pelo Pasquim, lia a mensagem de crítica aos militares e à ditadura.
Mais tarde, me venderam a ideia de que as multinacionais eram a desgraça deste país e que o jeito de combatê-las era criando as nossas próprias super-empresas. Lá veio a Petrobrás que se agigantou e foi uma das primeiras, no que foi seguida pela Vale e as grandes siderurgias.
Passado algum tempo, veio a onda da dívida externa, que asfixiava nossa vida e que o jeito era decretar a moratória e o perdão incondicional da dívida. Aplaudi o Sarney e fui às ruas pela ideia do Ano Jubileu, ao estilo judaico de passar a régua e recomeçar do zero.
Aí veio o Collor que vendeu a ideia de que o problema do Brasil eram os marajás e os funcionários públicos. Deu no que deu. Veio o FHC e disse que o problema eram as estatais. Vendeu tudo e o dinheiro sumiu, e ainda por cima enfiou outro engodo: o problema estava nas aposentadorias e no INSS. Veio o Lula, mexeu nas aposentadorias, pegou uma maré internacional super-boa, aumentou a carga tributária na relação com o PIB e ainda veio com o discurso de que a CPMF era necessária e que não se cortam quarenta bilhões de uma hora para outra.  Teve um mandato e meio para se preparar e não se preparou para a redução e/ou corte da CPMF.
Veio o Temer e insistiu na Reforma da Previdência para a solução dos males brasileiros. Não conseguiu porque foi flagrado em outro mal brasileiro: a corrupção via gravação de conversas nada republicanas com empresário da JBS.
Veio o atual com seu Posto Ipiranga. Prometeu o paraíso em curto espaço de tempo. Fala fácil e metáforas afinadas, conseguiu fazer a reforma da previdência, não por empenho do chefe, mas por trabalho do César Maia. Agora ele retorna no pós-pandemia prometendo privatizar quase tudo como solução para o reaquecimento da economia. Fala em privatizar os Correios, o Banco do Brasil, a Telebrás e outras coisas mais.
Não acredito nesta arenga! Já venderam a Vale, as teles estaduais, os licenciamentos para uso das bandas da telefonia celular, e o dinheiro sumiu, ninguém sabe, ninguém viu.
De minha parte, não acredito em mais nada a não ser na história, analisada depois de alguns anos dos fatos e assim mesmo com os filtros e condicionantes dos instrumentos de análise. E desta experiência me sobram o ceticismo, a aversão à classe política e uma azia incurável a discurso político-partidário. De uma coisa sei: não confio no Posto Ipiranga e nem no chefe dele.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 1 de julho de 2020

A "CONVERSÃO” DE CONSTANTINO


História ou "lenda", conta-se que Constantino viu um sinal no céu: uma cruz com as insígnias "com este sinal você vencerá". Constantino estava fraquejando nas suas crenças no Panteão Romano e inclinado a acreditar em um só Deus. Por causa da visão a cruz foi colocada nos escudos. Constantino venceu a batalha, como prometia a visão, e ele passou a se achar o escolhido por Deus.
Constantino tornou-se um enigma para os cristãos e historiadores. Foi conversão ou movimento político para colocar os cristãos sob sua influência? Muitos acreditam na inteligência de Constantino e os primeiros anabatistas acreditavam que a conversão era fake. Com ele a igreja se afastou de sua origem simples. A mãe de Constantino, Helena, "se converteu" pouco depois que o marido a deixou.
Aliado às vitórias que obteve após a visão e o sinal da cruz colocado nos escudos, algo aconteceu a Constantino. A melhor das hipóteses é que ele se converteu, e a pior é que ele tomou uma decisão política.
Ele viveu cercado por filósofos, sábios e pagãos. Em raras ocasiões, ele se conformava às exigências da adoração cristã. Suas cartas aos bispos mostram quão pouco as diferenças teológicas o interessavam. Os bispos foram tratados por ele como assistentes políticos. Os concílios eclesiásticos foram convocados e presididos pelo imperador. Para ele, o cristianismo significava um meio, não um fim.
Ele usou a linguagem monoteísta que qualquer pessoa aceita. Durante a primeira parte de sua conversão, ele participou do cerimonial exigido como Pontifex Maximus; mas os templos pagãos foram restaurados, ele usou os ritos cristãos, assim como os ritos pagãos, usou fórmulas mágicas para proteger as plantações e curar doenças.
Ocorreram mudanças: os símbolos pagãos desapareciam; os bispos tinham maior poder em suas comunidades e localidades; as igrejas eram isentas de impostos; houve legalização e direito de posse; a propriedade dos mártires poderia pertencer à igreja sem fazer inventário; templos foram construídos com dinheiro público; a nova capital Constantinopla foi construída por Constantino para ser a nova sede do império e da Igreja; a proibição do culto às imagens; as seitas cristãs começaram a sofrer perseguição.
Muitos ficaram felizes com as mudanças, vendo a mão de Deus. Outros tinham preocupações pessoais específicas ligadas a heresias que grassavam pelas igrejas. Elas não eram vistas pelo imperador como assuntos religiosos, mas como ameaça ao império.
Percebe-se que usar a religião para realização de projetos pessoais de poder é coisa antiga. Outro já usaram, tanto na Antiguidade como na Modernidade. À medida que a população cristã cresce em um país, candidatos “evangélicos” aparecem. Que o diga a Guatemala.
A ingenuidade de grande parcela do segmento religioso acredita que, porque o candidato usa um versículo da Bíblia como lema de campanha, ou participa de alguns cultos, se deixa batizar ou se casou com uma membro de igreja batista, ele tem a chancela do divino sobre sua proposta. Outros, pretensos líderes evangélicos que detém algumas horas de programação televisiva pagas com o suor alheio, precisando que suas dívidas fiscais milionárias sejam perdoadas por uma canetada do presidente-evangélico, ficam babando ovos à sua volta.
O evangelho já alerta quem usa de trechos do evangelho para se eleger: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! Entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.” Promover o armamentismo, mentir repetidas vezes, ofender, desprezar os 58.000 mortos não é ser cristão, ainda que diga Senhor, Senhor!
Marcos Inhauser

quarta-feira, 24 de junho de 2020

ORE PELAS AUTORIDADES!


Já recebi um monte de e-mails e mensagens privadas e públicas me criticando por fazer críticas aos governantes. Estas mensagens não têm cor ideológica: recebia no tempo do Lula, da Dilma do Temer e agora com o Bolsonaro. 

O interessante é que estas recomendações me são enviadas por quem, sendo apoiador do governante de plantão, se sentiu ofendido. Via de regra, as exortações vêm acompanhadas do conselho de que deveria usar do espaço da coluna para evangelizar e não me meter em política.

Quero me deter no conselho de que devo orar pelas autoridades. Se a memória não me falha, não encontro em nenhum dos profetas do Antigo Testamento um deles em oração pelos reis do seu tempo. Nem mesmo o impoluto Daniel! Antes, pelo contrário, encontro uma montanha de sermões e oráculos mostrando os pecados dos reis que praticavam injustiças e oprimiam os pobres, viúvas, órfãos e estrangeiros.

Também não encontro nos evangelhos sinóticos nenhuma menção a uma oração específica de Jesus, ou uma recomendação dEle aos Seus discípulos para que orassem pelos invasores de Israel, os romanos. Olhando para o Evangelho de João, o mesmo posso afirmar. Nem mesmo no sermão de despedida há qualquer alusão aos governantes e a necessidade de orar por eles. Não há nada no Sermão da Montanha, no Sermão das Dores, nem nas parábolas ou milagres.

O que se tem na Bíblia são as recomendações paulinas: “Antes de tudo, recomendo que se façam súplicas, orações, intercessões e ações de graças por todos os homens; pelos reis e por todos os que exercem autoridade, para que tenhamos uma vida tranquila e pacífica, com toda a piedade e dignidade”. (ITm 2:1,2) e ainda "porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas" (Rm 13:1). A questão é saber o que Paulo entende por autoridade.

No mesmo contexto em que pede as orações, ele afirma: “quando as autoridades cumprem os seus deveres, elas estão a serviço de Deus” (13:6). Resumindo: é autoridade aquela que cumpre com seus deveres. Quais deveres? “Porque as autoridades estão a serviço de Deus para o bem. Elas estão a serviço de Deus e trazem o castigo dele sobre os que fazem o mal”. Elas, em outras palavras, cumprem com o dever de promover a paz, a vida, a dignidade humana, a justiça etc.

Quando a “autoridade” promove dissensões, conflitos, impede a aplicação das leis, protege os mais chegados e ofende os que se lhe opõem, interfere nas instâncias que não lhe compete, se nega a ver a realidade dos fatos, menospreza as mortes, faz críticas contundentes, mas sempre genéricas sem especificar ou pessoalizar, ela pode ser tudo, menos autoridade.

Há aqui uma distinção que merece ser feita. Os votos podem dar a uma pessoa uma posição de vereador, prefeito, governador, deputado, senador ou presidente. Isto não implica que, automaticamente tenha autoridade. Ele tem o poder, que é diferente da autoridade. Esta se constrói com o exemplo, com as decisões sábias, com afirmativas prudentes e pacificadoras, com a construção de pontes de diálogo, com decisões imparciais, mesmo que afete a vida do filhos. O uso do poder pode levar a esconder quem não pode ficar à mercê da imprensa. Autoridade é dizer onde se encontram os bandidos e encaminhá-los para o juízo justo e imparcial.

Tenho disposição de orar por quem é autoridade e não por quem está investido de poder sem a autoridade que deveria ter.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 17 de junho de 2020

QUANDO AS PALAVRAS FALTAM

É jargão alguém dizer: “não tenho palavras para dizer ...” Elas revelam algumas coisas sobre a pessoa que as profere. A primeira é que o que ele está sentindo ou vendo é de tal magnitude que todas as palavras que têm ou conhece não exprimem o sentido e a verdade do momento. É como se algo que dissesse fosse insuficiente. Ao dizer as palavras comuns deixa a aberta a porta para que que os ouvintes imaginem o que gostaria de dizer. Ocorre que, mesmo imaginando, não se consegue chegar perto do que a pessoa sente ou vê, porque não há pistas para se seguir.
Outro grupo de pessoas é formado por aquelas que não tem vocabulário. Estudaram pouco ou só passaram pela escola, não leram um livro na vida e o que sabem falar é o corriqueiro. Nada que consiga expressar conceitos ou sentimentos. Diz o trivial, o básico. Nada além disto porque lhe faltam mais palavras.
Há o que tem dificuldades de se expressar porque teve o contato com o numinoso. O apóstolo Paulo, ao falar da experiência de arrebatamento e ida ao céu, afirmou que ouviu palavras inefáveis que ao homem não é lícito pronunciar. Tenho para comigo que ele não tinha palavras para descrever.
Há, no entanto, aquele que nunca vai proferir a frase “não tenho palavras...” porque acha que tem palavras para tudo. Fala besteiras, vomita obviedades, se acha sábio e não percebe que é uma anta rosnando. Estes que são rasos de vocabulário e de autopercepção falam pelos cotovelos porque creem que falam pérolas. O único livro que leram foi o “Caminho Suave” quando foram alfabetizados.
As pessoas com déficit de vocabulário se revelam pela quantidade de vezes que repetem as muletas orais. Abundam nas suas falas o “né”, “entendeu”, “realmente” e coisas parecidas. Falam uma palavra ou frase e usam a muleta para pensar no que vão falar adiante. O discurso não é fluído, fácil.
Outra característica é que acreditam nas coisas sem muita inquirição ou análise, porque lhes falta o treino da lógica e o vocabulário para ler algo mais denso. Se tiverem que ler uma explicação do porquê a terra precisa ser redonda e não plana em função das leis físicas, prefere ser terraplanista, por não entender a diferença entre vírus e bactérias e pela falta de treino no estudo, prefere ser negacionista. Não consegue ter visão universal, antes vê o mundo a partir da sua ótica de tubo: uma coisa de cada vez. Acha que floresta são as árvores que ele vê. Não consegue ver a floresta como um todo.
Quando o vocabulário da pessoa é raso, parco e pobre, ele usa palavrões, os mais variados. Não tem outra forma de se expressar, não tem vocabulário e usa uma infinidade de vulgaridades para se expressar, para ofender, para denegrir.
O Brasil tem exemplos pródigos de autoridades que se enrolam ao falar. Há os que tinham muitas palavras, mas pouca empolgação para falar e para ouvir. Refiro-me ao Sarney e ao FHC. Há o que falava empolgado, mas era pastel chinês, sem recheio: Collor. O Itamar mais parecia um gravador: monocórdico. O Lula falava empolgado, empolgava que o ouvia e usava metáforas o que ajudava no seu vocabulário escasso. A Dilma não se entendia o que falava, pois sem nexo. O Temer abusava das mesóclises e pouco se aproveitava do que dizia.
O atual, que cada qual classifique em uma das categorias aqui colocadas.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 10 de junho de 2020

1984: JÁ FOI, É OU SERÁ?


Li o romance “1984” em 1976. Ele é a visão-pesadelo de George Orwell sobre o totalitarismo. Publicado após a Segunda Guerra Mundial, permanece atual. Nele Orwell trata do abuso do poder, a negação do eu e a erradicação do passado e do futuro. Lembro-me de alguns pensamentos e sentimentos que me afloraram com a leitura.
Um deles, a sensação de que 1984, que àquela altura estava tão próximo, não me parecia que se concretizaria na data prevista pelo autor, mas que poderia ocorrer em futuro mais longínquo. O outro foi a repulsa sentida com os “reescritores da história”, encarregados que eram de reescrever os dados e discursos do regime totalitário, para que ninguém pudesse acusá-lo de ter mudado de opinião. Estes reescritores também se encarregavam de maquiar os números de safras e produtividade, para mostrar um regime mais bonito do que na realidade era.
Na sequência li “Revolução dos Bichos”, e impressionou-me a facilidade com que se mudavam as leis revolucionárias para criar uma casta e justificar os desmandos do Porco Ditador. Incentivado pelas leituras anteriores li “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, onde o autor apresenta uma sociedade organizada cientificamente. As pessoas são programadas em laboratório e domesticadas segundo os interesses da sociedade. Elas não têm consciência crítica e aceitam as notícias tal como lhes são passadas. A cultura (literatura, a música e o cinema) só solidifica o conformismo. Há avanço da técnica, a linha de montagem, a produção em série, a uniformidade, a obediência cega.

Estes três livros me vêm à mente nestes dias, com as investigações sobre as fake news, a polarização política, os desmandos governamentais, a manipulação de dados, a negação da ditadura, a exaltação de torturadores, o armamentismo da população, a imprecisão das informações presidenciais, as mentiras ditas com a firmeza de quem acredita nelas como sendo expressão da verdade. O site www.aosfatos.org fez recenseamento das frases ditas e concluiu que, em “Em 524 dias como presidente, Bolsonaro deu 1151 declarações falsas ou distorcidas”.

Não bastasse isto, a recente interferência no Ministério da Saúde transformando-o em quartel pela quantidade de militares ali alocados, sem expertise na área da saúde, causa espanto. Mais espantoso ainda é que, em plena pandemia, não se tenha um ministro médico, nem se lidere as ações de combate, jogando no colo dos governadores e prefeitos. Como desgraça pouca é bobagem, a manipulação dos dados estatísticos, a mudança nos critérios e a omissão de informação relevante para o combate ao Covid-19, vem me dar a certeza de “1984” e “Admirável Mundo Novo” não são utopias impossíveis. O número de mortos diários precisa ser reduzido pela engenharia estatística e pela reconceituação dos óbitos. Chame-se os reescritores da história!

A imprensa está noticiando o que não agrada? Fabrique-se notícias e espalhe-se pelas redes sociais! O povo vai engolir porque não tem massa crítica! Os ministros do STF estão interferindo nas decisões do mandatário? Coloque os produtores em série de manifestações e peça o fechamento do STF e Congresso! Precisa dizer algo? Crie um “curral de vaquinhas de presépio” e todos os dias faça as lives sem a mediação da grande mídia!

Marcos Inhauser


quarta-feira, 3 de junho de 2020

O DERRETIMENTO DAS AUTORIDADES


Não é de hoje que o mundo ressente a falta de grandes líderes. Há quem cite Churchill, Eisenhower, Mandela e Margareth Tatcher como os últimos que a humanidade produziu. Há quem se aventure a citar Barack Obama e Angela Merkel.

Se se faz um reconto nas lideranças políticas das últimas três décadas, vamos perceber que muitos dos que se destacaram, tiveram suas autoridades questionadas, deterioradas, derretidas e acabaram condenados pela opinião pública. Daria para citar muitos exemplos. Faço uma lista dos que agora me lembro. Perón na Argentina que, ao regressar do exílio, não teve o lustre que o havia caracterizado. Deixou a Evita no seu lugar, que acabou em desgraça. A Cristina Kirchner e o Mauricio Macri deixaram péssimas heranças. A Michele Bachelet, do Chile, saiu questionada por conta de empréstimos concedidos a seu filho. O sucessor, Sebastián Piñera, enfrentou a convulsão social e teve que ceder para sobreviver na presidência.

Os Bush, tanto o pai como o filho, foram questionados pelo envolvimento nas guerras do Iraque e Afeganistão. O Nixon teve que renunciar por causa do Watergate. O Clinton enfrentou um processo de impeachment pelo seu envolvimento com a estagiária, Monica Lewinsky.

O atual, Trump, mais dá tiro no pé que governa. Não tem propostas objetivas para os problemas que enfrenta. O seu remédio, a hidroxicloroquina, não ajuda na pandemia, não soluciona a economia e não apazigua os ânimos exaltados da população negra.

O Macron, na França, anda se equilibrando, assim como seu par, o Boris Johnson na Inglaterra. Depois que o Corona o pegou, teve que mudar de rumo e não recuperou o seu prestígio. A sua antecessora, a Theresa May, fez o que pôde e não conseguiu se manter no cargo.

Olhe-se para a Itália, onde há uma dificuldade enorme para se montar um gabinete, coisa que também acontece com o Netanyahu em Israel, que compôs com a oposição para ter sobrevida. O Peru, com o ex-presidente que se suicidou por causa de corrupção, mais os dois presidentes que também derreteram pela mesma acusação.

A Nicarágua teve um líder, Daniel Ortega que, ao regressar ao poder, se transformou em déspota. O mesmo ocorre com o Putin, na Rússia. A liderança do Xi Jinping é mantida por um partido monolítico e altamente obediente.

No Brasil dos anos recentes Sarney saiu queimado da presidência, seguido pelo carbonizado Collor. O Lula acabou preso, a Dilma é alvo de chacotas pelas suas declarações sem pé nem cabeça. O Temer saiu do poder, mas não sai do noticiário policial.

O Brasil de hoje vive dias de angústia, tanto para os que estão no poder, como para os que fazem oposição. A autoridade presidencial vem derretendo sob o sol escaldante das milhares de morte e contaminados, de um vídeo de uma reunião abjeta onde mais se falou palavrões do que se decidiu algo, das investigações que se aproximam do Planalto, de filhos que mais tumultuam que ajudam.

Assim como o gelo e a neve, as autoridades estão derretendo. Os exemplos estão aí, seja por envolvimento com a corrupção, por inépcia, incúria ou incontinência verbal e comportamental.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 27 de maio de 2020

REGRA PARA AVALIAÇÃO DOS REIS


Na antiguidade era comum os reis serem considerados deuses. Assim era com os Faraós. Eles não eram considerados simples reis, mas eram tidos como de caráter divino, filhos dos deuses e seu corpo era divino, porque seu sangue teria origem no deus Hórus. 

O Faraó, assim concebido, era o administrador máximo, chefe do exército, juiz e sacerdote. Ele decidia sozinho, sendo, na quase totalidade deles, déspotas. Quando delegava suas missões a assessores, fazia questão de ter o controle das decisões. Tinha um séquito de escribas que registravam seus atos, decretos, relações comerciais. Nesta narrativa, como se pode depreender, vicejava o elogio, a exaltação dos seus feitos heroicos. Muitas destas narrativas eram exageradas ou mesmo falsas.

Por serem deuses ou filhos dos deuses, só podiam se casar com quem também tivesse sangue divino. Os casamentos entre irmãos e parentes próximos era comum, razão pela qual, muitos deles sofriam de enfermidades e deformações por causa dos casamentos consanguíneos. Os pais de Tutancâmon eram irmãos e seu pai, Aquenáton, costumava procriar com as próprias filhas. Não é de se admirar que fossem machistas. Ainda que houvesse mulher com sangue divino (como Hatchepsut) ela era representada em esculturas com barba.

Não é de surpreender também que, para eles, a família era o reino, fazendo de tudo para preservar os seus, sob o argumento de que preservavam a realeza divina. Para reafirmar a divindade, tinham os sacerdotes que se encarregavam de reforçar a ideia da natureza divina deles, incensando-os como divinos e mitológicos, porque descendentes do deus Hórus

Este padrão foi, em certa medida, preservado nos reis da Idade Média, quando se desenvolveu o conceito do direito divino dos reis, pelo qual o reinado deles tinha sua origem e sustentação na vontade de Deus. A raiz disto, provavelmente, está em Constantino, o imperador “cristão”

Foi em Israel que se pode notar mudança significativa. Os reis de Israel e Judá não eram divinos ou filho dos deuses. Eram “escolhidos” e ungidos (abençoados). A avaliação que se fazia dos seus reinados era a concordância dos seus atos com a Lei do Senhor. Exemplo disto é a do sábio Salomão: “Porque Salomão me deixou ... e não andou nos meus caminhos para fazer o que é reto perante mim, a saber, os meus estatutos e os meus juízos, como fez Davi, seu pai. (IRs 11:33); “Fez o que era mau perante o SENHOR e andou nos caminhos de seu pai e no pecado com que seu pai fizera pecar a Israel” (IRs 15:26) e tantos outros exemplos.

Os governantes modernos que se dizem cristãos devem ser analisados pela mesma regra, acentuando-se que, além dos “estatutos e juízos” de Deus, há os ensinamentos de Jesus. As regras dos Dez Mandamentos de “não matarás”, “não dirás falso testemunho” (entenda-se “não mentirás”), mais os ensinamentos do Sermão da Montanha (bem-aventurados os misericordiosos, os pacificadores, os mansos) são padrões para avaliar governantes.

Quem promove a morte por ato ou decisão indireta, quem semeia a discórdia, a divisão, o conflito, quem mente (uma ou reiteradas vezes), ainda que afirme ou se creia o messias (ungido para tal missão), é tudo menos evangélico. Não basta repetir versículo bíblico, ter sido batizado ou ter parentes cristãos, nem mesmo uma horda de “religiosos aduladores”. A vida e os atos é que devem ser avaliados à luz das Escrituras.

Marcos Inhauser.

quarta-feira, 20 de maio de 2020

AS “LIVES” ME MATAM

Virou moda! A quantidade de gente fazendo “lives” é estarrecedora! Se fosse acompanhar todas que fui convidado, não faria outra coisa. É uma nova onda de pregadores, professores, especialistas de toda espécie etc.

Vi algumas de gente que não conhecia. Eram “mesmólogos”: especialistas em repetir o que há se sabe e uma multidão já disse. Vi gente, sem ideia do que seja um vídeo gravado ou uma transmissão ao vivo, tentando fazer “sua live”. Um desastre! Um deles, sentado em uma cadeira de cozinha em um quarto vazio, com um notebook no colo, câmera mal focalizada, lia um sermão horroroso.

Outro iniciou dizendo que era militar reformado, que havia recebido, depois da aposentadoria, um chamado para abrir uma igreja (Luizão: vocação reumática!), falou o que tem feito para que a igreja cresça e mostrou “sua igreja”: um salão vazio, cheio de cadeiras e um palco com alguns instrumentos. Ninguém mais do que ele. O primeiro desatino foi confundir igreja com templo ou salão de reunião. Igreja nunca foi e nunca será edifício, catedral, templo ou salão. Igreja é gente reunida em nome de Jesus. Não importa onde se reúna.

Participei de uma igreja que se reunia debaixo de uma árvore na Nicarágua e de outra que se reunia entre os escombros de um templo abalado pelo terremoto de Manágua. Na Coréia visitamos uma igreja que se reunia na rua, todos sentados no chão. Um grupo da Igreja da Irmandade na Austrália se reunia nas escadarias de um edifício. Na igreja primitiva ela se reunia nas casas dos familiares.

Recebi esta semana um vídeo de um “té-logo” implorando ao governador para permitir que os pastores fossem aos templos para que de lá pudessem gravar suas lives, pois não estavam se reunindo, segundo orientação governamental. Para ele, para que a live fosse abençoada, precisava ser gravada no templo. A benção depende do local onde ela é ministrada e deve ser feita no templo!

Acrescente-se a isto a quantidade de lives de artistas. Só no sábado passado dever ter havido umas dez, uma atrás da outra, de gente conhecida e outras nem tanto. Recebi o convite para uma dupla (irmão e irmã): ele tocando o básico no violão, ela cantando desafinado.

Neste universo da mesmice, raros são os casos de gente que tem algo novo e sábio para dizer. Cito um exemplo entre alguns: o Rev. Lampreia. Acho mesmo que tem gente que se acha tão bonita que precisa mostar a cara na live. Sendo eu um antinarcísico juramentado, tenho meus pruridos com esta profusão de faces falando coisas, seja em vídeos ou lives. Parece que, se não aparecer a cara do sujeito, não serve. A opção do podcast, onde só a ideia é veiculada, sem necessidade de colocar uma face, não tem sido usada pelos pregadores virtuais.

Preocupa-me o que está por trás dos pregadores que usam a live: acham que gravar um sermonete, reproduzir um culto em templo vazio, ler trechos bíblicos é pastorear o rebanho. Pastoreio é mais que lives. Envolve o face-a-face, o escutar pacientemente, entender os sentimentos numa dimensão empática e não simpática. O syn+pathós é sentir com o outro, dois sentimentos que caminham justos. O em+pathós significa entrar no sentimento do outro e sentir da mesma maneira que ele sente. É ser um com o sentimento do outro.

Pregadores não são, necessariamente pastores. "Lives" não pastoreiam.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 13 de maio de 2020

ESCOLA EM CASA

Uma das coisas que esta pandemia produziu foi trazer a escola para dentro de casa. Havia, em certa parcela da população, um clamor para que o governo liberasse o “homeschooling”, onde pais e mães se encarregariam de, no ambiente familiar, ensinar os conteúdos previstos para cada ano escolar. O sistema, utilizado em países europeus e nos Estados Unidos, tem um viés ideológico bastante acentuado.

Há vários argumentos evocados pelos “homeschoolers”. Um deles é que, sendo os filhos educados em casa, há mais segurança para eles ao não se exporem à necessidade diária de se locomover até um determinado ponto. Evita-se também o bullying. Há nisto certo romantismo de que o lar é um ambiente seguro. Se se considera as estatísticas sobre violência e abuso da criança e adolescente, a gente fica estarrecido. A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM) e o Ministério dos Direitos Humanos informa que, no Brasil, diariamente, são notificadas a média de 233 agressões de diferentes tipos (física, psicológica e tortura) contra crianças e adolescentes com idade até 19 anos. Estes dados são corroborados pelo Sistema Nacional de Agravos de Notificação (Sinan), que mostram que, em 2017, foram feitas 85.293 notificações. Na escola, bem ou mal, há controle externo sobre possíveis violências (professores, inspetores, colegas, polícia, etc.)

Outro argumento é o do controle sobre o conteúdo a ser ensinado. Os pais questionam certos ensinos passados (evolucionismo versus criacionismo, educação sexual, papel social dos gêneros, modelo patriarcal e hierárquico de estruturação familiar, etc.) Percebe-se que, os mais ferrenhos defensores do sistema de homeschooling são oriundos de igreja fundamentalistas, onde as verdades absolutas são a constante. Não é de se estranhar que entre estes haja quem defenda o terraplanismo, a criação da terra há pouco mais de seis mil anos, que ela foi criada em seis dias, negacionismo, talvez até o geocentrismo. Dizer que duvidam da ciência e que preferem as afirmações da fé é voltar ao período medieval, quando a “teologia” era a “scientia prima”, e toda e qualquer formulação deveria se ajustar aos ditames da fé. Que o diga Galileu.

Também se alega que os pais são os que devem escolher o que seus filhos devem aprender, de acordo com suas visões de mundo e possibilidades profissionais. Eles devem determinar o que pode e não pode ser ensinado, para que o saber adquirido seja o necessário para vida profissional que vão ter. Trabalha-se com a ideia de que há saber supérfluo.

Um dos graves problemas deste modelo familiar de educação é que promove pessoas que aprendem sem o confronto com outras pessoas e ideias. Por adquirirem conhecimento em redomas, sem a possibilidade de conhecer outras formulações, cria-se o “dono da verdade”. Seu universo cognitivo se restringe aos que seus pais determinaram que deveriam conhecer e o que sabem lhes foi passado com sendo a mais pura expressão da verdade. Na vida social tenderão a ser arrogantes achando que têm saber superior.

Uma das coisas que a atual crise tem trazido à tona é a necessidade do convívio social. Ficar isolado, sem contatos e relacionamentos com os outros, sem abraçar, beijar, comer juntos é torturante. Os relacionamentos se tornam mais saborosos e proveitosos quando a identidade dos relacionados têm mais ou menos a mesma estrutura e nível cognitivo. Os “donos da verdade” terão dificuldades em se relacionar e se isolarão. Isto leva ao provérbio bíblico: “Aquele que vive isolado busca seu próprio interesse; insurge-se contra a verdadeira sabedoria.” (Pr 18:1)

Marcos Inhauser

quarta-feira, 6 de maio de 2020

AUTOAFIRMAÇÃO

Se se busca informações sobre o conceito de autoafirmação, encontrar-se-ão milhares de artigos e posicionamentos sobre o tema, muitos deles conflitantes. A autoafirmação é a ação que uma pessoa faz para dizer quem ela é, o que faz e o que não sabe fazer.

Assim, há uma autoafirmação que é positiva e necessária para a solidificação da identidade pessoal. Devo saber quem sou, o que gosto, o que não gosto, o que sei fazer bem, o que sei fazer e o faço, mas não com excelência, e o que, decididamente, não sei fazer. Isto devo ter bem claro para mim. Algumas vezes isto deve ser dito aos outros para que saibam quem sou. Faz parte da construção de relacionamentos saudáveis. Ela é saudável e necessária.

Há também uma autoafirmação destrutiva, quando a pessoa se desmerece, se diminui na frente dos outros, se anula nos relacionamentos. Ela acha que não tem qualidades e deixa isto refletir na forma como se relaciona. Ela é corrosiva e deve ser trabalhada.

Há uma autoafirmação repetitiva que é preocupante. Ela é feita pelas pessoas que, sentindo-se inseguras ou não acreditando no que fazem ou posição que têm, precisam dizer repetidas vezes: “eu sou o chefe”, “quem toma decisões aqui sou eu”, “eu tenho o melhor carro”, “quem está na cadeira de chefe sou eu”, “eu sou empreendedor”, “eu sou doutor”, “eu tenho amigos importantes”, “eu apareço nas colunas sociais”, “eu sou uma pessoa religiosa”, “eu sou o cara”, “eu sou uma mulher linda” “não vou admitir que haja interferências nas minhas decisões”, “quem manda em casa sou eu”, “sou bonita”, “sou másculo”, “eu sou bom no que faço”, “eu tenho a caneta” etc.

Esta autoafirmação se dá por causa da enorme carência afetiva que alguns têm. Precisam estar em evidência, ter suas qualidades constantemente reconhecidas. Elas, no íntimo, não acreditam em si mesmas, duvidam que os outros reconheçam suas posições, autoridade e poder. Por isto precisam afirmar diante dos outros e de si mesmos, para, de algum modo convencer e ser convencido. A autoafirmação repetitiva transforma-se em uma manifestação neurótica de se destacar diante dos outros, para ser respeitado, aprovado e enaltecido.

Provavelmente viveram experiências traumáticas, se sentiram desprezados, excluídos ou submetidos às situações humilhantes, sofreram bullying na infância ou adolescência.

O exagero na autoafirmação é mecanismo de compensação porque tem visão alienada do mundo e é recurso para compensar o medo de perder espaço na vida pessoal e social.

Diante de uma pessoa que, sem necessidade, faz autoafirmações e se coloca como superior, o melhor é desconversar e mudar de assunto. O que elas querem é que se concorde com elas ou que se dê espaço para que demonstrem suas “qualidades”.

Estávamos em uma roda de amigos, alguns deles gerentes e diretores de RH. O “autoafirmativo”, novo no grupo, do nada disse que estava fazendo coaching e que seu método era superior. Disse isto e adicionou: “eu tenho muita experiência como diretor de empresa e muita vivência lidando com comportamentos humanos”. Um a um foi se levantando. Ao final ficou falando a um único que permaneceu e que tinha o dom de vítima.

O autoafirmativo arrogante é intragável. Ele quer se convencer que é bom tentando convencer os outros das suas qualidades e estas não são impostas, mas reconhecidas na vivência. Se preciso dizer que sou é porque ninguém está reconhecendo.

Marcos Inhauser