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quarta-feira, 14 de agosto de 2019

BANALIZAÇÃO DO SACRO E DO RELIGIOSO

Em conversas com alguns colegas pastores que já têm muita quilometragem no ministério, tenho percebido algumas coisas que vêm de encontro ao que também constato: a crescente banalização do sacro e do religioso (na sua forma mais autêntica e não formalmente institucionalizada); a repetição de erros conceituais e teológicos já demonstrados pela avaliação histórica; o crescente desprezo pelos reconhecidos pensadores da igreja.

A banalização do sacro e religioso tem se dado, a meu ver, pela pauperização das práticas cúlticas e litúrgicas, com o desprezo de uma longa caminhada de reflexões, experiências e resultados que a igreja, tanto a ocidental como a oriental fizeram ao longo dos anos. Símbolos caros a esta tradição são desprezados como se fossem lixo. É o mesmo que jogar as pinturas que estão no Louvre, inclusive a Mona Lisa sob o argumento de que elas promovem a sensualidade.

O segundo aspecto se dá nas prédicas. O que antes era a “a arte da retórica sacra” (ou homilética), com muito estudo, pesquisa bibliográfica, consulta aos teólogos, planejamento, conteúdo e unidade, virou uma arenga. É verdade que havia muita coisa bem estruturada, mas que não alimentava os ouvintes, tal como se deu na Europa no século XVII e ensejou o surgimento do Pietismo. Eram sermões profundamente teológicos, sem aplicação prática. A prédica de hoje, na maioria das igrejas, é a repetição de jargões, senso comum, clichês e frases que se parecem a pastel chinês: muita massa com pouco conteúdo.

Devo acrescentar a banalização da hinódia. Com raras exceções, os corinhos são anêmicos, sem reflexão, com a repetição de frases de efeito. Há os que são musicalizações de trechos bíblicos, no mais das vezes retirados de seu contexto. Comparados às letras e técnica musical dos hinos tradicionais, perdem de goleada. Há ainda os sermonetes que os líderes do louvor insistem em pregar entremeando os cânticos. São a quinta essência da afirmação oca, da repetição dos jargões, do falar nada. Parece que percebem que a letra nada diz e eles precisam ajudar com suas balelas.

Acrescento a facilidade e a quantidade de pessoas que se levantam durante o culto para ir beber água, especialmente quando há um bebedouro no interior do salão de cultos. Nunca vi povo com mais sede que os religiosos! Não percebem que este ato de se levantar e sair altera todo o sistema relacional e a concentração dos que ali estão. E, para minha indignação, o fazem com displicência, barulho e como que para chamar a atenção: olhem para mim que estou aqui!

A banalização do culto também se dá pela persistência de um grupo que costumeiramente chega atrasado. Se fosse para uma entrevista de trabalho, consulta médica, reunião com alguma autoridade lá estariam alguns minutos antes. Ao não serem pontuais comunicam que qualquer coisa é ou foi mais importante que estar no horário. E quando chegam, há os que se sentem na liberdade de saudar em voz alta, se desculpar pelo insistente atraso, cumprimentar quem chegou no horário. Transtornam o ambiente.

Tive um caso destes. O casal era pontual: todo domingo chegava com meia hora de atraso! Como ele era um dos encarregados da distribuição da Santa Ceia e ela era feita ao final do culto, decidi inverter a ordem. Para ele o distribuir os elementos era o máximo! Comecei o culto com a Santa Ceia. Ele não estava lá para o ato. Quando chegou de terno e gravata, a Ceia já havia sido celebrada. Ao final, quando percebeu que não foi ministrada no horário de costume, procurou se informar e veio prá cima de mim: “o que é isto de celebrar uma Santa Ceia subversiva?”

Faltam pastores melhor capacitados, liturgia bem estruturadas, sermões com densidade e palatáveis.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

SUJEITO (PRO)LIXO


Algo extremamente irritante é ouvir a exposição de um sujeito prolixo. Para ir do Brasil ao Uruguai ela passeia apor toda a América e, ao final, você se pergunta: onde queria mesmo chegar?
Certa feita, dando um curso sobre “Enxurrada Comunicacional”, as queixas se centravam em dois aspectos: a quantidade de e-mails recebidos diariamente, a maioria que deveria ser destinada ao lixo; a quantidade de mensagens que, parece que tinham certa pertinência e que o destinatário tinha que ler duas ou mais vezes, espremer o conteúdo, para saber o que o remetente queria comunicar. Quase sempre o remetente gastava muito verbo para introduzir o tema e o que ele queria mesmo dizer estava nas últimas linhas.
Pedi aos participantes que trouxessem seus notebooks e, durante o curso, escolhessem um e-mail longo com pouco conteúdo. Um dos participantes foi escolhido para, tendo apagado o remetente e qualquer possibilidade de identificação dele, o colocasse no Datashow para que todos examinassem. Foi uma risada só, porque, mesmo sem ser identificado, todos reconheceram o remetente. Ele até tinha um apelido que rimava com seu nome: Longarino.
Assisti a uma prova de retórica onde um aluno tinha que apresentar seu discurso para que o professor e os alunos o avaliassem. Depois de 45 minutos falando nada, o professor o parou e disse que o que havia dito já era suficiente para a avaliação. Ele então saiu-se com esta: “Mas eu ainda estou na introdução!”
Ganhei um livro que tentei ler. O cara que escreveu o prefácio escreveu mais que autora e nada disse. Nem terminei de ler o prefácio. Eu o dei de presente a um inimigo.
Uma característica dos (pro)lixos é que não sabem e nem planejam o que vão dizer. São arengadores onde um “causo puxa outro causo” e nunca causam nada. O discurso pode até ter um título, mas a introdução, argumentação e conclusão são peças desconexas. É o discurso Frankenstein.
Unidade passa longe. Misturam alhos com bugalhos, melancia com sopa. E há os que usam palavras inusuais, para parecer que sabem coisas acima da média. Pior é o que se acha doutor em algum assunto, inventa conceitos não explicitados (e se tenta explicitar, ninguém entende). Acha que falar difícil dá autoridade ao seu discurso de vento.
Uma imagem me vem à lembrança e ela é da minha infância: algodão doce. Lembro-me que ficava ao lado da máquina vendo o sujeito colocar um pouco de açúcar e aquilo virava uma montanha de doce. Quando se comia, ela se desfazia na boca e nada alimentava. Nestas minhas observações soube que dependendo do clima e o algodão doce não ficava bom. Virava uma paçoca!
Algodão doce é o oposto da rapadura: caldo de cana de açúcar, muita fervura, tempo de panela, resfriamento e se tem açúcar concentrado.
Tenho recebido muita coisa pela internet, seja pelo envio dos amigos ou pelas sugestões das redes. Descobri que se lesse tudo, teria que aplicar a regra de Pareto: 80% é lixo e 20% aproveitável. Por que perder tempo para ler o que nada acrescenta, nada ensina, nada edifica?
Vou para por aqui para ser só “meio prolixo”.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 24 de julho de 2019

SUJEITO GERÚNDIO

Com certeza você já se deparou com uma espécie destas que abunda na fauna das coisas incompletas. Aliás, tenho me surpreendido com a quantidade de pessoas que se enquadram neste quesito.

O sujeito gerúndio é aquele que, quando perguntado sobre uma delegação, atribuição dada, expectativa que ele passou acerca dele mesmo, nunca conjuga o verbo no passado perfeito. Sempre vem com o gerúndio: “estou fazendo”, “estou pensando”, “estou buscando”, “estou planejando”, “estou vendo”, e por aí vem a infinidade de gerúndios que ele devolve toda vez que é cobrado ou instado a dar relatório sobre suas atividades.

Ele nunca termina nada! É um começa tudo, terminada nunca. Ele tem a capacidade de se empolgar instantaneamente com qualquer coisa, ideia, novidade, produto, trabalho, missão, mas, pouco tempo depois, o entusiasmo vai embora com a mesma velocidade com que chegou.

Estes me fazem lembrar do sábio Cirino, boia fria negro, com quem aprendi, na infância, algumas lições que jamais esqueci. Ele dizia: “tem gente que é como fogo no canaviá: quando pega fogo é uma beleza, uma ilumiação que se vê de longe. Mas o fogo dura pouco e quando apaga é só sujeira que deixa.” Outra do Cirino: “árvore que cresce rápido tem madeira fraca: quebra no primeiro vento”.

Tive um colega, pastor, que era um tipo diferente de gerúndio: ele sonhava em fazer alguma coisa, pensava um pouco e depois saia contando para todo mundo que estava fazendo o que havia sonhado. Só que não havia movido uma palha para implementar o que havia sonhado. Quando perguntado, via-se a madeira fraca: alegava dificuldades, falta de tempo, falta de recursos, mas sempre na forma gerúndica, nunca na terminativa.

Tive um aluno que era outro espécimen desta galera: ele imaginava fazer coisas grandiosas. Ao invés de sentar e detalhar o que iria fazer, ele me ligava dos Estados Unidos querendo me convencer a levar adiante o que estava sonhando. Eu dizia: “porque você mesmo não faz?” Ele me respondia: “você tem mais habilidade para gerenciar estas coisas”. Ele nunca realizou nada e na andropausa está depressivo porque não tem nada para mostrar aos filhos e netos.

Tive outro aluno que era tão detalhista que passava horas e dias trabalhando no detalhamento de um plano que tinha em mente. Ele vinha com um monte de papel, desenhos, gráficos, planilhas, cronograma, etc. Explicava em detalhes e tinha resposta para tudo. Nunca o vi realizando nada e quando o encontrei algum tempo depois, ainda era o mesmo. Sonhador, perfeccionista, sem ser realizador ou mesmo realista.

Há os que vêm com todo o arroubo possível, falando maravilhas das coisas que quer fazer e tentando convencer a entrar com ele na empreitada. A melhor técnica é pedir que ele elabore um projeto completo, com etapas, cronograma e custos. Você diz: “quando você tiver isto pronto, volte para conversarmos”. Há alguns que estou esperando há décadas.

Há os que, empolgados com qualquer novidade, abraçam tudo o que aparece. Como se diz no espanhol: “abrazan mucho, apretan poco”. Atiram em todos os pássaros e erram quase todos os tiros. Têm dificuldades em estabelecer prioridades, eleger o que importa, o que é factível. Ichak Adizes, consultor renomado, diz que são os Incendiários: sonhadores, imaginários, inventores de coisas e métodos, cada dia tem uma ideia nova que vai resolver todos os problemas da família, da igreja, da empresa ou do mundo. Ele bota todo mundo para correr atrás das suas pirotecnias. Ao novo dia as ideias de ontem serão abandonadas por outra melhor que acabou de ter. É especialista em criar de úlceras em todos. Acredita que será reconhecido pelas ideias geniais que tem.

Falei e disse! (não vou usar o gerúndio, mas “vai ter gente me criticando”!)

Marcos Inhauser

quarta-feira, 17 de julho de 2019

IGREJA QUE É IGREJA


Por mais igrejas que existam e pessoas que são frequentadoras delas, pedir aos pastores e membros que definam o que é a igreja é colher uma enxurrada de definições diferentes e, muitas vezes, díspares. Digo isto a partir da minha experiência como pastor que já viajou um bocado e visitou inúmeras igrejas.
Por anos foi um estudioso delas, pesquisando e tabulando dados sobre a membresia, tempo de permanência e várias outras condicionantes. Achei que tinha um bom entendimento sobre o assunto, mas era conhecimento cartesiano, racionalista e numérico.
Com o tempo percebi que a igreja é de uma natureza e dimensão que não se pode buscar conhecê-la só pelos números. Acabei me envolvendo em reflexões que me direcionavam à busca da essência da igreja, aquilo que ela é em uma definição minimalista. Tomei como base o texto onde Jesus afirma que onde estiverem dois ou três reunidos em seu nome, ele ali estaria. Cheguei à conclusão que igreja é reunião de gente, em nome de Jesus. Igreja é comunhão, onde as pessoas reunidas se conhecem e compartilham não só a fé, mas também a vida (incluindo bens).  Igreja é a agência divina para mostrar, de forma concreta, o amor ao próximo e o amor de Deus por todos.
Nesta caminhada foi surpreendido e fiquei estarrecido com algumas coisas que ouvi. Um casal, frequentador de uma determinada igreja, estava enfrentando dificuldades financeiras, porque ambos haviam perdido o emprego e eles tinham um bebê que precisava de um leite especial. A água estava para ser cortada, bem assim a eletricidade e o aluguel eles haviam recebido uma dose de paciência do proprietário. Foram ao pastor da igreja pedir ajuda para o leite do bebê. O pastor disse que ia pensar no assunto e, no outro dia, disse que a igreja não podia ajudá-los porque eles tinham outras prioridades.
Outra, que foi ovelha minha em Rio Verde, teve que mudar-se para São Paulo para arrumar emprego, casou-se com um asiático, ele foi embora sem mais nem menos e ela ficou na rua com quatro filhos. Colocou o que tinha no carro e, com os filhos estacionou no pátio de uma enorme Catedral. Falou com um dos pastores, pediu ajuda e ele disse que a ajuda que poderia dar era permitir que ela passasse a noite dentro do carro, mas que, por razões de seguro, ela não poderia ficar mais tempo.
Outra é de um casal, ambos pastores. Ela está com câncer há algum tempo, já passou por várias cirurgias e não tem podido trabalhar. O marido tinha dois empregos e perdeu um. Ela precisa fazer uma cirurgia para retirada de uma bolsa colostômica. Dada à natureza das cirurgias anteriores, a retirada desta bolsa é complicada e o anestesista cobra um bom dinheiro para fazer. Ninguém da igreja à qual eles servem e nem a igreja se dispuseram a ajudá-la. A Igreja alegou que estão muito focados na construção e que não podem desviar recursos.
Já há algum tempo tenho pensado que uma forma de se conhecer uma igreja é ver onde ela aplica seus recursos. Se o maior gasto que uma comunidade tem é com edifício, manutenção, aparelhos de som, eletricidade, há algo de errado com esta igreja.
Igreja existe para ser canal do amor de Deus, Se não faz isto para atender aos necessitados, tenho dificuldades em reconhecê-la com igreja verdadeira.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 10 de julho de 2019

NÃO SE AJUDA ...

Uma máxima das relações de ajuda é que “não se ajuda quem não quer ser ajudado”. Parece óbvio, mas me assusto com a quantidade de vezes que perdi meu tempo tentando ajudar quem não queria ajuda ou, pelo menos, achava que não precisava de ajuda.

Devo reconhecer que querer ajudar é uma forma que pode ser demonstração de poder ou superioridade. Eu me disponho a ajudar porque acho que sei fazer melhor ou simplesmente sei fazer o que a pessoa não sabe. Ao assim proceder, estabeleço uma relação desigual de um que sabe e que ajuda quem não sabe.

Por outro lado, há que se reconhecer que as pessoas têm habilidades diversas. Quando peço para a contadora fazer o meu Imposto de Renda, eu peço a ajuda dela em algo que não sei fazer com a mesma maestria que ela faz, nem com a mesma velocidade. Eu demoro, me perco, tenho que ler as instruções várias vezes e, mesmo assim, corro o risco de não fazer certo. Ao pedir a ajuda dela, eu digo que ela sabe mais que eu, mas isto não significa que ela é melhor que eu. Ela o é no campo específico em que tem suas habilidades e competências. Reconhecer isto é sinal de, com o perdão da presunção, sabedoria.

Todos precisamos saber o que sabemos fazer e o fazemos bem, o que fazemos com certa dificuldade e o que não sabemos fazer. Reconhecer isto é sinal de maturidade. Pedir ajuda nas coisas em que tropeçamos pela falta de habilidade é mostrar que se conhece, é cumprir com o mandamento filosófico do “conhece-te a ti mesmo”.

Há algumas situações que devemos reconhecer que, embora tenhamos habilidades e conhecimento sobre o assunto, pelo fato de estarmos envolvidos no processo ou na crise, não temos a “iluminação” necessária para um bom desempenho. Uma metáfora disto é um jogo de futebol que tem, no seu tempo normal, muito desgaste físico. Pelo regulamento há uma prorrogação de mais trinta minutos, findo os quais as pernas já não mais obedecem aos comandos. Mas há pênaltis para serem batidos. Escolhem-se os melhores e os que estão em melhores condições. Lá vão eles e, não raro, ainda que saibam fazer, ainda que já tenham feito muitas vezes, chutam mal, chutam fora ou de forma que o goleiro possa defender. Isto aconteceu com o Cavani, do Uruguai, na Copa América, o melhor jogador do time. Isto aconteceu milhares de vezes. Os melhores se enrolam na hora de desempenhar, porque devem fazê-lo em situação de estresse.

Aceitar ajuda em situações em que estamos emocionalmente envolvidos, onde há estresse, onde decisões devem ser tomadas e afetam toda a vida, em empregos que exige a realização de uma tarefa que vai além da capacidade ou que se está emocionalmente envolvido é sabedoria.

Acho que foi por isto que Deus, na Sua sabedoria, deu à igreja dons, equipando pessoas para ministérios específicos. Paulo, ao fazer comentários sobre a atuação deles, disse que o pé não pode dizer à mão “não preciso de você” e nem vice-versa. Há habilidades específicas no corpo e buscar a ajuda de pessoas habilitadas segundo a necessidade que estou sentindo é demonstração de pertencimento ao corpo.

Devemos estar disponíveis para exercer nossos dons diante da necessidade do próximo, mas não devemos nos impor, querendo ajudar quem não quer ser ajudado. Muitas vezes, tropeço, a queda, o fracasso, ensina mais e melhor.

Marcos Inhauser

quinta-feira, 4 de julho de 2019

ABUSO DA FOLGA


Li, com irritada avaliação, a decisão recente do plenário do Senado que aprovou nesta semana o projeto conhecido como “dez medidas da corrupção”, mas com um aditivo preocupante: a punição ao abuso de autoridade de magistrados e integrantes do Ministério Público. A proposta retornará à Câmara, porque modificada pelos senadores.
As “dez medidas contra a corrupção” tiveram a iniciativa do Ministério público em 2015, receberam amplo apoio popular, sendo encaminhada com milhões de assinaturas, mas teve sua tramitação desacelerada pelos nobres legisladores, mais afeitos às suas férias e finais de semana prolongados que ao trabalho para o qual são regiamente pagos. As dez medidas foram desfiguradas pela Câmara em votação no final de 2016.
Depois de mais de dois anos parada no Senado, eis que ressurge, concidentemente quando apareceram as aludidas conversas entre o ex-juiz Moro e integrantes do Ministério Público, no desenvolvimento da Lava Jato.
A inclusão do “abuso de autoridade” foi feita, há duas semanas, a pedido do presidente Davi Alcolumbre. Ela não entrou na pauta da CCJ e havia a intenção de votá-la direto no plenário, sem passar pela CCJ. Não houve acordo e a votação foi feita esta semana.
O projeto prevê que juízes e membros do Ministério Públicos ficam sujeitos a penas, inclusive de prisão se atuarem com "evidente motivação político-partidária" ou participarem em casos em que sejam impedidos por lei.
Também se restringe comentários públicos sobre processos em andamento, sendo mais rígida para juízes, a quem se proíbe "opinião" sobre processos. Também ficam proibidos de emitir um "juízo depreciativo" sobre decisões de colegas.
Adoraria ver estes parâmetros aplicados aos ministros do STF, especialmente os mais verborrágicos como o Gilmar Mendes, Marco Aurélio e Levandovsky, useiros e vezeiros na arte de se pronunciar fora e antes dos autos.
Mas o que mais me irrita é que, os mesmos que assim legislam, também deveriam legislar sobre o “trabalho” dos deputados e senadores. Eles ganham para trabalhar, como qualquer funcionário. Só trabalham nas terças, quartas e quintas e no final da quinta já estão de volta às suas bases. São três dias por semana, mais os recessos e férias que chegam a mais de dois meses por ano. As faltas são abonadas.
Também mostram extrema habilidade na arte de enrolar e empurrar com a barriga a decisão de temas importantes, como agora se dá na análise da Reforma da Previdência. Doutores na arte de falar sem dizer nada, gastam todo o tempo que podem para, ao menos, aparecer nas telas das TVs legislativas, como se isto garantisse votos, uma vez que a audiência destas TVs é traço.
Porta vozes de interesses corporativos, o presidente Rodrigo Maia se abespinhou quando o ministro Guedes disse que a proposta original tinha sido desfigurada pela pressão dos servidores legislativos. Agora a Bancada da Bala, por não ver atendido o pleito de se dar aos policiais e relacionados a mesma deferência dada aos militares, afirma que, ao menos 27 votos do PSL (partido do presidente), não votarão com o governo.
Eleitos pelo povo, trabalham pouco e defendem os interesses de uma minoria privilegiada. Quem paga seus salários e aposentadorias rala todos os dias da semana para sustentar uma nata de folgados e braços-curtos.
Uma lei de “abuso da folga” deveria ser editada para colocar esta gente nos trilhos e trabalhando.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 26 de junho de 2019

MOLHANDO DESERTOS


Aposto como o leitor já deve ter passado por uma experiência destas.
Há alguns tipos de pessoas com quem a gente precisa conversar, negociar ou buscar um consenso. Há aquelas que são abertas a qualquer argumento e cedem sem pestanejar. Concordam com tudo o que se diz ou se pede. São de uma passividade bovina (frase que devo ao Clovis Rossi, quem deixou saudades). A impressão que passam é que não têm opinião, não buscam realizações pessoais ou nem mesmo têm identidade firmada. A gente começa a conversa e já sabe como vai terminar: “faça do seu jeito que eu assino em baixo.”
O segundo é formado por aquelas que têm opinião, mas estão abertas ao diálogo, à troca de ideias, ouvem o que se lhes é apresentado, refletem, explicitam seus pontos com clareza e assertividade. Conversar com elas é um desfrute. A conversa flui, é lubrificada pelas novidades que ambos podem trazer, é temperada com os assentimentos e dissentimentos educados e bem ponderados. Sente-se que as pessoas escutam e falam na mesma proporção, com equilíbrio. Pode até haver empolgação, afirmações mais categóricas, um tom de voz mais alto, sem ser grito. É a defesa honesta que cada qual faz do seu ponto de vista.
O terceiro é formado por pessoas que são verdadeiras pedras no sapato. Quando a gente precisa conversar com elas, a gente reza uma meia dúzia de Pai Nosso. Sabe-se de antemão que a conversa será difícil e, na quase totalidade das vezes, uma perda de tempo. Elas apresentam algumas características que devem ser explicitadas. São donas-da-verdade. Adoram começar suas exposições com as frases: “o certo é”, “na verdade”, “realmente”, “a verdade é que ...”, “na realidade”, “eu, no lugar dela ou dele...” e outras típicas. Elas têm visão tapada das coisas, não conseguem ver a floresta e acham que o galho da árvore que elas veem é toda uma floresta.
Quando elas se apresentam para colocar suas questões, seus posicionamentos ou decisões costumam ser prolixas, demoradas e confusas. A gente fica ouvindo e se perguntando: ö que é que elas estão querendo dizer?”
A gente pode deixar falar o tempo que quiserem e não interromper a fala por nada. Quando a gente pensa que chegou a nossa hora de dizer algo e, mal iniciamos a fala, somos interrompidos com mais um discurso. Espera-se o término dele e nova tentativa. Outra interrupção. Isto se sucede indefinidamente. É impossível terminar um raciocínio.
Se, por acaso, a gente apresenta um raciocínio que desmonta o que ela está colocando ou propondo, há algumas reações possíveis. A primeira é acusar. Acusa que a gente não entendeu, que a gente sempre vence (como se todo diálogo fosse uma batalha com vencidos e vencedores), que a gente, um dia, vai reconhecer que ela estava certa. A segunda é sair da conversa batendo porta ou o pé, numa clara manifestação de desagrado. A terceira é ofender, com maior ou menor intensidade, dependendo da cara que fazemos: se de passividade, se de desprezo, ou de ironia.
Elas não têm o DNA de “encerramento de uma conversa”. Ela tem o dom da última palavra: sempre precisam falar e repisar o que falaram aos montes. No pior dos casos, a última palavra é uma chantagem: “você vai se arrepender disto!”
A tarefa de conversar com elas é como a missão de molhar o deserto: nunca se vê resultado, são sempre conversas áridas.
Marcos Inhauser

EVANGELIZAÇÃO DA GANÂNCIA


Nos idos de 1514, vinte e dois anos depois que Colombo aportou às terras da América, na ilha que hoje é Santo Domingo, se fez o relatório Albuquerque, onde se relatava o massacre a que os indígenas estavam sendo submetidos. Neste processo de extermínio era comum uma prática espanhola que cortava as mãos dos prisioneiros de guerra e, em seguida, se obrigava aos assim mutilados a sair correndo até que morressem, prática esta também usada por Espanha no extermínio dos indígenas. Para as mulheres a prática consistia, ademais da mutilação das mãos, também a dos seios. Ela tinha o objetivo de semear o terror nos nativos.
Para se ter uma ideia da sanguinolência dos “colonizadores”, deve-se mencionar o Campo de batalha de Añaquito. Benito Juárez de Carbajal buscava o representante do monarca Carlos, o vice-rei Blasco Nuñes de Vela. Ao encontrá-lo, o cobriu dos mais variados impropérios, desconsiderando que o vice-rei já estava enfermo e combalido. O próprio Benito teria cortado a cabeça do infeliz, não fosse a admoestação de Pedro Puelles, pelo que pediu a um escravo que o fizesse, mas teve o cuidado de pegar a cabeça pelas barbas, pintar-lhe os lábios, passar uma corda pelos olhos e o amarrar em seu cavalo, desfilando com o troféu por onde fosse. Se fez isto com um conterrâneo, o que não fez com os nativos?
E por que o faziam? Pelo ouro e pela prata que extraiam daqui e mandavam a Europa. A riqueza dos países de Europa está vestida do sangue destes nativos que, ou foram mortos, ou foram obrigados a trabalhar para os colonizadores que vieram trazer a nova fé pela evangelização. Bartolomé de las Casas, voz profética neste império de terror, disse: “A causa foi a cobiça e ambição insaciáveis que (os colonizadores) possuíam, que foram maiores que podem existir no mundo, por ser aquelas terras (América) tão felizes e ricas, e as pessoas tão humildes, tão pacientes e tão facilmente submissas, pelas quais (os colonizadores) não tiveram respeito, nem estima, que não as trataram como bestas, mas como esterco das praças”.
Muitas outras coisas poderiam ser descritas para que se tenha uma ideia mínima do que foi o horror da “evangelização da América pela mão dos colonizadores”. Este afã de dar cores religiosas ao ímpeto ambicioso, levou sacerdotes a fazer batismo no atacado, reunindo todos de uma aldeia e borrifando água sobre eles, na convicção de que estavam batizando a todos e assim salvando suas almas do inferno. Com Atahualpa, a quem a lenda atribui ter muito ouro, se conta que pagou uma montanha aos seus captores e em seguida o levaram para o sacrifício. No desejo que que não morresse pagão, o batizaram momentos antes de sacrificá-lo.
Conta-se ainda que, mais especificamente no Brasil, com o surto da malária, muitas crianças estavam morrendo. Os sacerdotes, no desejo de salvá-los, iam até eles e os batizavam. Como morriam logo em seguida, a água do batismo passou a ser chamada de “água da morte”, e os pais recusavam que fossem batizadas. Inventou-se então o “batismo sub-reptício”, quando o sacerdote levava escondido um pano molhado e, sem que os pais percebessem, apertavam o lenço e umas gotas de água deles saíam, considerando isto como batismo salvador.
Trago estas coisas porque, no momento que vivemos, muitos há que estão imbuídos de uma religiosidade da ganância, onde o ouro e a prata dos fiéis o que os move, onde a teologia da prosperidade só enriquece os pregadores e donos de igrejas, onde as práticas sub-reptícias e terroristas, incitam os incautos a encher as borras dos “evangelizadores”. E há os que ostentam títulos de deputados e senadores!
Marcos Inhauser

quarta-feira, 12 de junho de 2019

FÉ E CULTO HISTÓRICOS

Uma das características do culto ancestral relatado no Antigo Testamento é que ele era baseado numa teologia da história, os seus fundamentos são os fatos históricos onde o teólogo vê a mão de Javé que modela, interfere, muda e faz na história os seus desígnios.
Oscar Cullman, Otto Piper, G. Ernest Wright, Gerhard Von Rad, Edward Schillebeeckx, H. H. Rowley, Martin Noth são alguns dos que mostraram este aspecto fundamental do culto veterotestamentário. Para o teólogo veterotestamentário a revelação feita através da história é feita mediante pessoas interdependentes umas das outras e vinculadas entre si, o que possibilita a mútua confirmação.
No entanto, há quem faça uma diferenciação entre a História como relato verdadeiro de fatos e a Geschichtlische (que é a história interpretada pelos olhos da fé). Esta última não é não-história, uma vez que se baseia em fatos reais e não em invenções. No mais das vezes, esta Geschichtlische relata uma série de experiências históricas avaliadas e relatadas à luz da fé do povo. É o fato com sentido espiritual que penetra inteiramente no sentido histórico, muitas vezes tomando a liberdade, perfeitamente natural, de lhe dar um esplendor que transcende o que realmente passou.
Ela tem uma conotação confessional, porque é o relato de alguém que se envolve apaixonadamente com os fatos, por ver neles a mão de Deus. É o querigma que ascende ao teológico! Não é uma afirmação feita por uma crônica histórica, mas a declaração de fé em Deus, pois é Ele quem dirige os acontecimentos. É um passado que se presentifica pela profissão de fé.
Não se deve esperar de um povo antigo que tivesse a acuidade historiográfica que hoje se espera da historiografia moderna, que exige a correspondência racional e objetiva entre os fatos e a sua descrição.
Ao trazer os olhos para a vida e pregação de Jesus, percebe-se que ele, especialmente com suas parábolas, olhava ao seu dia-a-dia, aos fatos cotidianos e corriqueiros e os tomava como exemplos para o Reino. Ao fazer isto, trazia para o cotidiano o que os teólogos de sua época esperavam para um futuro glorioso com a chegada do Messias. Achavam que o Messias iria irromper na história e dar um fim a ela. É o que modernos apocalipsistas pregam e esperam.
O manual de vida cristã ensinado por Jesus (As bem-aventuranças) não trata de coisas a-históricas ou anti-históricas, mas de atos concretos a serem perpetrados no contexto histórico onde vivemos. Os cultos e missas, na maioria das vezes, falam do céu, do inferno, da vitória sobre a hostes inimigas, da expulsão de Satanás, da cura miraculosa de enfermidades, mas pecam ao não olhar para o chão, para o seu redor para ver o desemprego, a fome, o problema educacional, a crise da saúde, a corrupção, os ataques aos ecossistemas, etc.
Neste universo a-histórico o profeta que fala do cotidiano, que acusa governantes de corrupção e mal gerenciamento da coisa pública, que desmascara as mentiras proferidas pelos políticos é visto como “perturbador da ordem”. Parece que a moderna religiosidade é avessa à denúncia. Quando se denuncia um político de direita vem a turba dizer que se deve orar pelos dirigentes porque foram escolhidos de Deus. Quando o governante é de esquerda, nunca vi pedir que orassem pela Dilma ou Lula, nem mesmo pelo FHC.
São cristãos, aceitam as bem-aventuranças, mas apoiam o armamento da população e o porte de armas, a matança de bandidos, a pena de morte. E dane-se o Deus da história!
Marcos Inhauser

O COLEGIADO DOS DIFERENTES


Há os que, no fundo, criticam o fato de Ele ter escolhido doze, de cepas tão diferentes, comportamentos variados e visões de mundo incongruentes. Por que Ele escolheu do revolucionário (Judas, o Iscariote) ao meloso João, passando pelo odiado publicano, coletor de impostos?
Para a empreitada que tinha em mente não teria sido mais lógico e prudente escolher uma elite de estudiosos, oradores, teólogos e renomados religiosos? Não teria sido melhor começar seu ministério a partir da capital nacional e religiosa, Jerusalém? Não teria sido estratégico fazer aliança com os sacerdotes?
A opção periférica do ministério de Jesus é acessória ou é essencial? Ainda que os evangelhos mostrem enfoques diferentes sobre a obra e ministério de Jesus, todos concordam com sua origem a partir de uma família simples, morando em lugares sem expressão, iniciando o seu ministério com alguns também sem expressão social, fazendo curas e milagres em lugares pequenos e sem capacidade de grande repercussão.
Estas considerações me vêm à mente por causa de uma plêiade de coisas. Vejo uma fascinação de certos líderes religioso pelo grandioso, pelo poder, pela exposição midiática, pelas construções faraônicas. A vitalidade de uma igreja se mede pela quantidade de horas de televisão que tem, pelos metros quadrados de construção, pela quantidade de gente reunida, pela arrecadação.
Parece que o exemplo que Jesus deixou da bacia e da toalha, lavando os pés aos discípulos, não tem lugar neste universo de pompa e circunstâncias. O amor ao próximo na sua necessidade deu lugar ao amor à estrela do momento. Gastam-se fortunas para ir ver o “cantor gospel do momento”, para produzir Marchas para Jesus. A vida cristã é feita de empolgação e nada de instrução. Vale o que se sente e não o que se pensa e crê.
Há quem creia que a igreja está bombando porque tem uma esposa do presidente que é membro de uma igreja batista, porque um dos deputados mais próximos é o Marcos Feliciano, o Silas Malafaia é amigo, que o presidente mencionou que deve haver um evangélico no STF, que a bancada evangélica é composta por mais de 90 deputados e senadores, que há chances de que o novo presidente seja evangélico, etc.
O cerne do evangelho que é amar a Deus e ao próximo como a si mesmo. Isto está, há muito, na berlinda da prática cristã. Busca-se a homogeneização das práticas “litúrgicas” (ainda que eu tenha meus pruridos em dizer que o que se faz é algo parecido à liturgia), uma busca acelerada por algo que seja “diferente” na concepção da “doutrina”. A máxima é a do surfista: o que importa é estar na crista da onda.
O recente episódio em que um pastor esfaqueou o outro por desavenças quanto a posições bíblicas divergentes, no que pese ser um ato isolado, é sintomático da dificuldade em conviver com o diferente. Se pudessem interfeririam na escolha feita por Jesus de apóstolos tão diferentes. O certo seria ter um grupo coeso, unido, marchando ao passo marcado pelos princípios bíblicos.
A ortodoxia deve ser buscada, entendida como todos afirmando as mesmas coisas e se reunindo nos mesmos horários e nos mesmos locais. Para o diferente, o inferno!
Marcos Inhauser

quarta-feira, 29 de maio de 2019

SOU IDEOLÓGICO!


Nas caminhadas da vida e pelas bibliotecas e livros, aprendi algo sobre ideologia que gostaria de compartilhar. Reconheço que é difícil dar uma definição exata. Para se ter uma ideia, um dos estudiosos de Karl Marx encontrou mais de trinta significados diferentes para a ideologia apenas nos escritos de Marx. Como já disse alguém, não há nada mais ideológico do que falar de ideologia. Existe um universo tão grande de afirmações sobre o que se refere ao ideológico que, por razões didáticas, quero levantar alguns níveis de ideologia. 

A primeira delas é a ideologia do pressuposto, que é o conjunto de conhecimentos que se tem e que é determinado e condicionado histórica, política e socialmente e que serve como ferramenta para interpretar coisas e eventos. Ninguém analisa nada, nem conclui nada, se não fizer parte de determinada informação prévia. Eles são os "pressupostos". O que eu suponho determinará o que concluo, porque, dependendo dos instrumentos com os quais trabalho para revelar, compreender, julgar, tenho o resultado do meu julgamento. Esta ideologia é formada pelo conjunto de valores que se tem, fruto de interações com o meio ambiente, seja ele educacional (prioritariamente) ou não. Só não tem ideologia o sujeito totalmente imbecil e idiota.

Há outra ideologia: a ideologia da visão de mundo. É sobre o conjunto de conhecimentos que temos, as ideias, julgamentos e valores que determinam o nosso modo de ser, de agir. A ideologia do "pressuposto" determina a "ideologia da visão de mundo". Somos o que somos baseados no que temos como instrumentos de análise, como um produto histórico por pertencermos a uma sociedade histórica e geograficamente situada. Pensamos e atuamos de acordo com este momento e a cultura da qual dependemos. A ideologia de pressuposição, determinada pelo momento em que vivemos, determina nossa ideologia de visão de mundo, que se adapta em termos gerais à ideologia dominante do contexto em que nos situamos.

Outro tipo de ideologia é a da imposição. É o que aceitamos e que queremos impor aos outros. Essa "imposição aos outros" deve-se ao fato de que acreditamos que nossas verdades são melhores que as do outros, ou que nossas verdades, quando aceitas pelos outros, determinam que temos mais espaço de poder, de gestão, ou queremos manter o espaço que já temos.

Assim, a ideologia é um conjunto de verdades relativas: é a verdade de alguém. A burguesia tem sua ideologia de pressuposto, visão de mundo e imposição e é uma verdade para eles. É uma verdade a tal ponto que eles querem impor isso a todas as pessoas, porque isso as leva a consolidar suas pressuposições, que eles acham que deveriam ser mantidas. O imperialismo, marxismo, liberalismo ou seja o que for, têm sua ideologia de imposição na medida em que querem ter e manter o poder, segundo a verdade que sustentam.

É impossível alguém ser a-ideológico e nada mais ideológico que ser anti-ideológico. Descobri que mentes analfabetas de conceitos, chamam de ideológico tudo aquilo que o outro pensa e que é diferente do que o imbecil “pensa” (se é que pensa).

A diferença é ideológica e, no fundo dever ser. A diferença é a contraposição de duas visões de mundo, duas ideologias. O problema está quando uma das partes, pela ingenuidade, falta de conhecimento ou imbecilidade, acha que o que ele pensa não é ideológico e só o que o diferente pensa é que está eivado de ideologia. Para estes se deve aplicar outro significado de ideologia: o discurso que busca esconder uma ideologia, ocultar intenções.

Por isto sou e assumo que sou ideológico: penso e argumento!

Marcos Inhauser


quarta-feira, 22 de maio de 2019

RELACIONAL OU CONCEITUAL?


Estou no mundo da teologia há 47 anos. Estudei em alguns seminários, dei aulas em outros, li um bocado, viajei e conheci as mais diversas igrejas. Com tudo isto devo dizer com toda a sinceridade: sei quase nada da teologia. Tem gente, especialmente um leitor que tenho, que nunca estudou e que sabe mil vezes mais que eu e vive me espinafrando!
Confesso minha ignorância e minha incapacidade de ter opiniões dogmáticas sobre assuntos pertinentes. Como diz um meme que recebi, não estudei matérias filosóficas ou sociológicas: estudei as divinas. E quando se estuda as divinas, se faz o trabalho de Sísifo, um personagem da mitologia grega condenado a repetir ad eternum a tarefa de empurrar uma pedra até o topo da montanha. Toda vez que quase alcançava o topo, ela rolava montanha abaixo invalidando o esforço despendido.
Neste caminhar, durante muito tempo, acreditei que a vida cristã consistia no entendimento, compreensão e ensino das verdades teológicas, tal como expressada pelos grandes teólogos da Igreja. Estudei Agostinho, Erasmo, Aquino, Lutero, Calvino, Zwinglio, Bultmann, Barth y outros. Quanto mais eu lia, mais me confundia. Um diz uma coisa, outro diz outra, eles se contradizem e eu me perco. Não achei um Waze ou GPS para o mundo da teologia! Quando achava que estava chegando ao topo com minha pedra, lá ia ela, morro abaixo.
De “dono-das-certezas-bíblicas” passei a ser o “eterno-interrogante” ou a “eterna-interrogação”. O jargão “a-Bíblia-diz” foi substituído pelo “eu-hoje-acho-que-a-Bíblia-diz”. A verdade universal e absoluta cedeu para a posição subjetiva. O “impositor de verdades” sobre os outros, pela autoridade da verdade que cria e ensinava, foi ocupada pelo “professor do talvez”.
Você pode estar pensando: ele se perdeu, apostatou, está em surto, ou qualquer outro diagnóstico teológico ou psiquiátrico que me queira rotular. Olhando para trás e avaliando minha caminhada, digo com a sinceridade que a natureza humana me permite: nunca estive tão bem.
Aprendi com os anabatistas que mais vale uma vida obediente ao que entende da Palavra de Deus, do que a mil afirmações ortodoxas. Mais vale poucos em comunhão que muitos em reunião. Mais vale alguns reunidos em nome de Jesus que uma multidão reunida para ver uma estrela gospel. Mais vale poucos obedientes que muitos contentes. Mais vale a instrução que o louvorzão. Mais vale o serviço ao próximo que a confissão de fé.
Aprendi que a igreja se faz com relacionamentos e não com doutrinas inflexíveis e descontextualizadas. Aprendi que a igreja deixa de ser igreja quando houver alguém que a frequenta e que eu não sei o nome. O púlpito vira palco quando há holofotes sobre ele, quando é necessário um telão para o pessoal de longe ver o “iluminado” quem está pregando. A igreja deixa de ser igreja quando ela gasta mais com manutenção, eletricidade, equipamentos de som e vídeo do que com as necessidades do próximo. Quando ela ensina o amor ao pastor e à denominação, quando o ensino enfatiza o amor a Deus e esquece do amor ao próximo, quando exige compromisso total com o custo do amor próprio e à família. Pede e perde mais tempo nas atividades da igreja que na atenção à família.
Igreja é relação, comunhão, serviço, amor a Deus e ao próximo. O que foge disto, seja anátema!
Marcos Inhauser

quarta-feira, 15 de maio de 2019

FUI ELOGIADO!


“Virtude abjeta, ladra desaforos. Ela me insuflou reativamente. Babaquices à latrina, bobas, incertas, inomináveis, obscuras.”
Este é o preço de escrever uma coluna e ser “lido” por quem não sabe ler e se julga “o juiz d universo”. Seguem dois e-mails que recebi, de um “leitor”. Publico-os na íntegra, sem revisões e edições. Não cito o nome para não dar visibilidade. Faço-o para exemplificar o clima de polarização a que chegamos.
Coluna “ARROGÂNCIA DO AUTODITATA”: “Também não conheço nenhum autodidata humilde, mas conheço muitos autodidatas; os comunistas, assim como o sr.º.  Defino os comunistas em dois adjetivos; preguiçosos e invejosos. O comunismo no mundo matou mais de cem milhões de pessoas, o que é pior, mataram-se entre si em nome desta doentia ideologia, que não deu certo em lugar nenhum do mundo. E ainda pessoas como o sr.º defende o comunismo. Ora, o Papa Pio XII excomungou o comunismo e o sr.º ainda o defende? O sr.º não é pastor? Não deve seguir a doutrina cristã? Não deve seguir as decisões do seu mestre maior na terra que é o Papa? Então por que defender o comunismo, se este foi excomungado pelo citado Papa? Os comunistas, todos, sem exceção, são preguiçosos, não querem trabalhar, escondem seu ativismo atrás do argumento de que pretendem acabar com as injustiças sociais, quando na verdade, não gostam mesmo é da labuta, de pegar no batente, não gostam de levantar cedo, pegar ônibus lotado, etc.
Os comunistas são invejosos. Eu sou pobre, sempre fui, continuo sendo, mas nunca precisei de ninguém falar por mim, nuca tive inveja dos americanos por isto, pelo contrário desejo que todos se de bem na vida, porque se eles se derem bem na vida eu também me darei.
Me explique, hoje tenho inveja dos ricos, e amanhã se em me tornar rico, com o meu trabalho, é justo os outros terem inveja de mim e quererem me destruir? Porque vocês comunistas tem raiva dos ricos? Vocês são incapazes?
Sr.º marcos não seja invejoso, coisa feia, seja trabalhador, honesto, ético, o sol nasce para todos.
Se o sr.º defende o comunismo, também é contra as ordens do Papa Pio XII, por conseguinte, é excomungado, por ser excomungado, não pode ministrar palestras sobre o temo bíblico.
O sr.º defende o comunismo, então vá morar na China, Coréia do Norte, Cuba, Venezuela, isto o sr.º não quer, não é mesmo.
Sabe o nome deste comportamento, esquerda caviar.
Fala mal de Olavo de Carvalho que já escreveu vários livros, e o sr.º qual livros já escreveu, qual a moral que o sr.º tem parra falar mal dele? É mais um sentimento de inveja não é mesmo?
Este país nunca mais voltará as mãos desta esquerda maldita, corrupta, que destruiu o país que em sua maioria é formado por pessoas de bem, trabalhadoras, honestas.”
Coluna PALAVRÃO FILOSÓFICO: “Um teólogo que não é formado em filosofia, muito estranho! Ainda, educador corporativo, tenho dó de seus alunos.
Um teólogo que critica um verdadeiro filósofo e um presidente, que incoerência.
Mas é melhor não ser formado em filosofia porque nestas instituições públicas UNICAMP, USP, UFF... somente há doutrinação comunista, aberrações doentias que somente quem acompanha o dia a dia nestas universidades sabe.
O senhor certamente se corromperia.
Antes ouvir palavrões acompanhados de verdades em prol de um país melhor, do que ler baboseiras de um pseudo 'teologo' que nem mesmo cursou filosofia, nem mesmo escreveu um livro sequer.  
Quanta mediocridade.”
Autor que o torno anônimo para não dar publicidade a tamanha incompetência.
Marcos Inhauser


quarta-feira, 8 de maio de 2019

PALAVRÃO FILOSÓFICO


Não sou formado em filosofia. Mas os estudos me obrigaram, por interesse ou requisito acadêmico, a ler vários. Li um monte deles, desde os clássicos até Foucault. Entendi alguns, outros me perdi na leitura e não achei o sentido, nem que relesse duas ou três vezes. Os dialéticos, para mim, falam grego! E não achei tradução!
Tentei ler Marx. Desisti na segunda página. Sabia que ia perder tempo. Depois tive um professor de História da Educação que disse: “se alguém te disser que leu O Capital de Marx, duvide; se disser que entendeu, chame-o de mentiroso; se insistir, interne porque está louco”. E ele era marxista!
Há uma coisa que nunca vi nos filósofos assim reconhecidos: nunca li uma palavra de baixo calão sendo empregado por um deles. Palavrão? Jamais! Se há uma coisa que os caracteriza é a linguagem escorreita e o vocabulário que foge ao óbvio e ao popular. Antes, pelo contrário, são herméticos, com construções de frases bastante complexas.
A fala chula, vulgar, o emprego de palavrões é típico de gente que não tem vocabulário que consiga traduzir o que quer dizer, que não consegue expressar os sentimentos. Mais: é característico de quem sabe ofender e gosta de fazê-lo. Acha que o palavrão, a ofensa, o discurso vulgar é a forma mais certeira de dizer o que quer e que o povão vai entender e gostar. Ele fala para a “galera” e mede sua proficiência em filosofia pelos likes e seguidores que tem. Neste mundo líquido contemporâneo, um falastrão, com linguagem vulgar e permeado de palavrões pode se considerar filósofo, bispo, apóstolo, guru ou o que queira.
Como falta à grande maioria dos brasileiros escola, leitura, noção crítica, autonomia reflexiva, qualquer babaca que fale umas tantas quantas coisas, mesmo que recheadas de obviedades e platitudes, desde que venha com palavrões, ele “é o cara”. Este “cara” pode defenestrar um dos maiores educadores que a humanidade já produziu. Como santo na sua terra não faz milagre, Paulo Freire é santo lá fora e demônio para os seguidores do guru. Um sujeito que fez um curso de conserto de geladeira e paraquedismo, que foi indisciplinado no Exército, o que tem a dizer e ensinar? Nada! Prefere alimentar as controvérsias no Instagram e Twitter. Mas trazer um plano nacional de educação, de saúde, de reforma fiscal, esclarecer os pontos da reforma da previdência, isto não tem cacife para fazê-lo.
Um jovem de dezoito anos, estudioso na medida do necessário, conseguiu um encontro com uma jovem, esta sim estudiosa. Saíram, conversaram e no terceiro encontro ela lhe perguntou: este é o vocabulário que você tem? Por que você repete sempre as mesmas frases e palavras? Por que você insiste em usar vulgaridades? Se quiser me namorar, comece a ler mais livros e melhore seu vocabulário! Não tenho tempo para ficar ouvindo as mesmas coisas sempre! Traga conhecimento e não besteiras!
O conselho da menina serve para muitos. Mas como estudar se filosofia e sociologia são lixo? Para que estudar se o que importa e saber ler, escrever, fazer as quatro operações e ter uma profissão? Siga o exemplo do ministro que, em rede social escreveu “ínsita” quando deveria escrever “incita”, sem contar o erro de concordância que cravou na mesma mensagem. Ele não estudou direito, tanto que, trazida à luz seu boletim escolar, teve que dar mil explicações para as faltas, notas baixas e vida acadêmica abaixo da média. E abaixo da média continua sendo. O erro de grafia e de concordância são tão agressivos quanto as vulgaridades e palavrões do outro.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 1 de maio de 2019

ELOGIO À BURRICE


Erasmo de Rotterdam, em 1509, escreveu o famoso “O Elogio da Loucura”,  publicado em 1511, e que influenciou a Reforma Protestante e a civilização ocidental.
O livro tem seu lado satírico e sombrio, trabalha a loucura como forma de autodepreciação, ataca os abusos da doutrina católica considerando muitos como superstição, alude às práticas corruptas da Igreja Católica.
Nele loucura é comparada a uma deusa que é filha de Plutão e Frescura, educada pela Inebriação e Ignorância, que têm a companhia de Philautia (amor-próprio), Kolakia (elogios), Lethe (esquecimento), Misoponia (preguiça), Hedone (prazer), Anoia (Loucura), Tryphe (falta de vontade), Komos (destempero) e Eegretos Hypnos (sono morto).
Eu o li há algum tempo e voltou à memoria nestes dias quando há, ao que me parece, um elogio à Ignorância e à Burrice, que é um grau mais profundo da primeira. Tivemos um Ministro da Educação que me fez lembrar a educadora Inebriação (deslumbramento) talvez pelo fato de ser colombiano a gerir a educação brasileira. Isto o levou a mostrar as influências de Komos (destempero) e que, no que pese que era chamado de filósofo, teve seu lado Lethe (esquecimento) e não fez o que se esperava que fizesse: não administrou, nem sentou bases para um plano nacional da educação. Com isto mostrou seu lado Eegretos Hypnos (sono morto).
Defenestrado por incompetência, entra no seu lugar outro ministro. Este se parece ao filho de Plutão e Frescura. Plutão é um deus que sai das entranhas do pai, Saturno, entra no panteão e assume o poder do universo. O mundo dos mortos no interior da terra foi o que lhe coube governar, mesmo contra a sua vontade. Era sombrio, irritadiço e pouco admirado, por estar descontente com o que lhe tocou. Viajava à noite em um carro puxado por apavorantes cavalos negros, guardando as chaves do inferno.
O novo ministro que substitui o incompetente filósofo, também mostra as influências das companhias que teve. Ao vir a público dizer que a filosofia e a sociologia não devem mais receber atenção nas escolas e na graduação por não serem estudos que produzem resultados financeiros, mostrou Philautia (amor próprio – “eu estudei o que útil”), adorou a Kolakia (elogios – os ignorantes bateram palmas), revelou que se esqueceu que estudou filosofia e sociologia para se graduar e assim exagerou na influência de Lethe (esquecimento). Seu posicionamento revela também a influência de Misoponia (preguiça), Anoia (Loucura) e Tryphe Komos (destempero).
Isto revela que estamos com um presidente que escolhe mal a maioria dos seus ministros, já teve que executar dois deles, tem outros que são calcanhar de Aquiles (o do Turismo e a Doidamares), foca no insignificante (comercial e gerente marketing do BB, golden shower etc.), fala o que não deve, mostra-se péssimo negociador porque cede antes mesmo de se iniciar o processo, tem suas influências de Misoponia (preguiça) deixando para o Congresso o que deveria ser seu foco maior (a Reforma da Previdência), adora Kolakia (elogios) e se perturba com as críticas.
A maior burrice é a ilogicidade da afirmação de que a Filosofia e a Sociologia são supérfluas, mas tem num autoproclamado filósofo/astrólogo o seu mentor e dos filhos e alguns ministros.
Estamos precisando um pouco do deus Sofrósine (moderação, moderação, discrição e autocontrole) e o exorcismo da deusa Afrodite, a das paixões desenfreadas, que tem grande influência sobre os filhos. 
Marcos Inhauser


quarta-feira, 24 de abril de 2019

ARROGÂNCIA DO AUTODIDATA


O autodidata tem dois fundamentos sobre as quais constrói seu universo cognitivo: a própria competência e a infalibilidade do conhecimento adquirido pelo esforço próprio. Para que isto se consolide, ele afirma outros dois fundamentos derivados: transpiração e dedicação. O seu saber, fruto da atividade solitária, por não ser confrontado com outros saberes, tem o DNA de arrogância.
O que “sabe” só ele sabe. Acredita com unhas e dentes que seu saber é único, que seus posicionamentos são apropriados e que vão resolver os problemas do mundo. A solidão no processo de incremento cognitivo os leva a uma atitude de desqualificar todo e qualquer pensamento/saber que não se ajusta aos seus códigos. Passam a ser “donos-da-verdade”, messias para equacionar e resolver todos os problemas. Não admitem contestações, críticas ou senões ao seu saber. Quando há quem os critique, não têm pudores em ser agressivos, ofensivos e violentos.
Exigem obediência cega aos seus postulados e dogmas (o seu saber é dogmático no sentido religioso de que é uma verdade auto explicável ou que se aceita por fé). São messiânicos, pois acreditam que sua capacidade intelectual de aprender sozinhos é dom de Deus, que sua compreensão do mundo é inspirada, que suas soluções têm a chancela divina, ainda que se afirmem ateus.
Se duas pessoas interpretam um mesmo texto ou fato de duas maneiras diferentes, uma delas, certamente, estará errada. Como é quase impossível o autodidata reconhecer que a sua interpretação é a errada, fica fácil perceber a anatematização do dissidente. O errado e burro sempre é o outro!
Eles têm tem resposta para tudo. Por inferências, deduções enviesadas e conclusões questionáveis, estes autodidatas insistem em encontrar resposta para tudo, mesmo que tenham a profundidade de um pires e a consistência de uma gelatina.
Como decorrência dos fundamentos, há a maniqueização da humanidade: Eu e eles. Eu sou o bom. Eles são os burros, condenados, devassos, promíscuos, corruptos etc. Por assim crer e agir, os autodidatas têm uma característica comum: são arrogantes! Não conseguem manter um diálogo, antes insistem em falar compulsivamente, como para impedir que uma visão diferente possa aparecer e prevalecer. Diante de uma pergunta para a qual não têm resposta, ao invés de dizer “não sei” preferem estigmatizar o perguntador como herege. A ignorância deles é burrice de quem pergunta. Quase sempre terminam uma tentativa de diálogo afirmando: ou você aceita o que lhe digo ou você vai se ferrar.
Estamos à volta com um ex-astrólogo que ganhou ares de oráculo para todas as coisas. Sabe e entende de tudo e se mete a falar de cesariana a motor à explosão! Tem seus discípulos, tão arrogantes quanto o mestre das babquices. No caso específico, é verdade, tem uma coletânea de conhecimento que, sim, são válidos. Podem ajudar a não nos tornar idiotas, ainda que, ao divinizá-lo, os seguidores se tornam robotizados, repetindo as máximas do guru. A obediência deve ser cega. Se foi nomeado a algum posto por influência ou indicação do autodenominado filósofo, a autonomia de ação é zero. Haja vista o demitido ministro da Educação e as sandices do ministro de Relações Exteriores.
A terra é plana, o mundo foi criado por Deus em sete dias e há não mais de 6000 anos, os militares representam o atraso, o mundo deve ser dividido entre nós e eles, o Trump é o maior e melhor presidente que os EUA já tiveram, o Moro é um gênio, a base de cálculos para a reforma da Previdência deve ser secreta, não houve ditadura no Brasil, nem mesmo tortura, quem morreu devia morrer por causa da opção que fez, etc. E salve os gênios autodidatas!
Não conheço um autodidata humilde. Se você conhecer, me avise.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 17 de abril de 2019

A DESEJADA PÁSCOA CONTEMPORÂNEA


O povo estava escravizado e vinha sendo explorado pelos poderosos da nação. Trabalhavam duramente para atender às exigências reais e produzir os tijolos. Não tinham descanso nunca. A realeza, para manter sua opulência e construir palácios, exigia do povo a produtividade nas olarias. Cada operário deveria entregar ao fim do dia sua produção. Quando Moisés pediu ao Faraó que deixasse o povo sair por três dias para cultuar a Deus, o rei entendeu este pedido como ameaça: “... por que interrompeis o povo no seu trabalho?... o povo já é muito e vós os distraís das suas tarefas” (Ex 5:4, 5).
A solicitação justa foi tomada como ameaça à nação, à estabilidade do reino, à ordem institucional. A resposta real veio na forma de exigência de mais produção com menos matéria prima (“... não dareis a palha para fazer tijolos... eles mesmos que... ajuntem para si a palha... e exigireis... a mesma conta de tijolos que antes faziam... agrave-se o serviço sobre estes homens, para... que não dêem ouvidos a palavras mentirosas... v. 7-9). Uma reivindicação justa respondida com mais injustiça.
Ao ler este relato e olhar para nossos dias, tenho a impressão que a história se repete. Os exemplos modernos de justas reivindicações de trabalhadores são, com uma frequência assustadora, respondidas com mais injustiça.
Quantas vezes trabalhadores lutando por melhores salários não foram tratados com cassetetes, bombas de gás lacrimogêneo, duchas de água? Quantos trabalhadores não tiveram seus salários descontados porque pararam em greve para reivindicar melhores condições de trabalho?
Mais ainda: na atual situação de haver muita gente para trabalhar e pouco trabalho (versão moderna do “o povo já é muito...” v. 5), os modernos trabalhadores, diante do medo de perder seu posto de trabalho, acabam se sujeitando a situações ainda mais injustas. Sob ameaça de perder o emprego, os modernos Faraós estão exigindo que seus trabalhadores produzam mais com menos custo (com a moderna terminologia de “produtividade”).
Aumentam as exigências e reduzem as condições. Pedem mais produtividade, mas cortam a “palha” do plano médico, da cesta básica, do adicional por insalubridade etc. Não poucas vezes se aplica o que o apóstolo Tiago vai dizer mais tarde “... o salário dos trabalhadores... foi por vós retido com fraude” (Tg 5:4).
A Páscoa está aí para nos dizer que Deus está atento e que isto terá fim. O sofrimento do povo, tendo que trabalhar de sol a sol, sem descanso semanal, férias ou outra coisa beneficiosa, não é algo alheio a Deus e Sua justiça.
Ele interferiu a favor dos trabalhadores explorados pela ganância e opulência do Faraó. Certamente também está atento hoje ao sofrimento e exploração feita em nome do modelo econômico, do lucro, dos acionistas da Bolsa. Ele está atento às tentativas de retirada de parcos benefícios de quem suou toda a vida. Quem vestiu farda ou teve trabalho público, para estes Faraós, merecem tratamento diferenciado e remuneração nababesca depois de se aposentarem.
Os modernos Faraós podem negar a justa reivindicação dos trabalhadores roubados no FGTS e negados no pedido de um salário justo, argumentando que isto desestabiliza a economia, aumenta a inflação etc. Mas há esperanças no Deus da Páscoa. Esta foi a culminação de um processo de salvação e libertação de uma relação laboral injusta. Que esta dimensão da Páscoa não se perca em meio a uma celebração que mais enfatiza o sofrimento sob o império que a libertação, que espiritualiza a ressurreição, não permitindo ver que há situações concretas que exigem libertação e ressurreição.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 3 de abril de 2019

RELIGIÃO POR QUILO


Por razões de trabalho e passeio já comi em muitos e variados restaurantes, em vários países, desde os chiques até o muquifo. Há uns sete anos voltei a um bom restaurante que eu frequentei nos década de oitenta. Lá entrando vi que tudo estava mudado. O garçom que veio me atender eu o reconheci dos tempos em que lá estive. Perguntei: “há quanto tempo o senhor trabalha aqui?”. Há mais de 40 anos, responde ele. Eu repliquei: eu sei disto porque o senhor já me atendeu várias vezes há vários anos. Ele então medisse: “naquele tempo isto aqui era um restaurante, hoje é um comedor. Tenho vergonha de trabalhar aqui porque esta coisa de comida self-service e por quilo é uma desgraça”.
O difícil é encontrar um bom restaurante na maioria das cidades que visito. E nestas andanças descobri que os restaurantes por quilo são todos iguais. A mesma variedade, os mesmos temperos, um pouco mais quente neste ou mais frio naquele. Alguns com reposição imediata, outros que esperam acabar para repor. As mesmas saladas, o mesmo arroz e feijão, a mesma macarronada (alho e óleo ou à bolonhesa), as mesmas sobremesas.
Perguntei um dia ao dono de um restaurante destes (onde comi muitas vezes ao longo de doze anos). E ele me disse: “se eu inventar e colocar comida diferente, acaba sobrando. Os clientes preferem sempre o mesmo”.
Isto tem acontecido com as igrejas e religiões. Se a gente vai a uma Presbiteriana, Metodista, Batista, Assembleia ou igreja independente, a mudança entre uma e outra será mínimo, cosmético. Todas adotam o mesmo cardápio: muito louvor capitaneado por um grupo de jovens, com mini sermões entre uma música e outra, orações genéricas, pregação sem contribuição da reflexão do pregador (mais do mesmo) e benção final.
Parece que as pessoas vão em busca de um cardápio igual, mas em locais diferentes, tal como faço quando estou em uma cidade por dois ou três dias: como em restaurantes diferentes, ainda que saiba que o cardápio é o mesmo.
Nas igrejas isto acontece. As pessoas vão hoje ao restaurante presbiteriano, no domingo seguinte ao restaurante batista central, depois ao nazareno e assim por diante. Tal como nos restaurantes por quilo, cada um pega o que gosta e na quantidade que consegue comer. E, na quase totalidade das vezes, a comanda vem: o momento das ofertas!
O chef aparece vestido de terno e gravata ou com vestes talares típicas dos sacerdotes, há certa pompa na sua presença porque é o vox Dei daquele restaurante. Tal como nos restaurantes por quilo que compram os ingredientes em locais especializados, com pre-parados, muitos dos sermões são buscados em sites. O sermão virou commodity: toma-se emprestado sem citar a fonte, compra-se um já feito, faz-se uma colcha de retalhos com as ideias de vários autores e lá vai a gororoba alimentar os clientes daquele domingo.
Estava ouvindo uma pregação juntamente com um amigo e, acerta altura, o pregador falou algo que não era do estilo e nem da capacidade intelectual do orador. Imediatamente meu amigo pegou o celular e achou onde o sujeito tinha “roubado o sermão”. Sobra de outro restaurante servido como comida recém feita.
Não aguento mais comida por quilo e nem igreja da mesmice!
Marcos Inhauser

quarta-feira, 27 de março de 2019

AUTODESTRUIDORES


Os exemplos se multiplicam. Basta prestar atenção a algumas pessoas e suas decisões. Parece que elas têm o instinto assassino de matar as oportunidades que a vida se lhes apresenta. No trabalho pastoral posso citar de memória um monte de casos de pessoas que agem desastradamente em prejuízo próprio.
Lembro-me de uma mulher que me procurou toda machucada. Soube que ela apanhava do marido há muito tempo. Orientei-a a dar queixa à polícia e se afastar dele para que sua vida fosse preservada. Nada fez e continuou apanhando. Outro que, enrolado até o pescoço com dívidas, foi convencido pelos amigos de apartamento que compartilhavam a vender uma motocicleta de primeira linha que possuía. Saiu no outro dia para se desfazer dela e saldar suas pendências. Quando voltou à casa, tinha vendido a moto, mas comprou um carro zero com prestações impagáveis.
Conheço outra que saiu de casa para comprar uma bolsa e voltou com uma SUV Toyota! Outra, vendeu uma casa que tinha, para ficar sem ter onde morar. Achou um muquifo, mudou-se para lá e o proprietário lhe ofereceu vender. Todos os que a conheciam e também conheciam o proprietário a avisaram que era uma tremenda fria fazer negócio com ele. Não escutou a ninguém, comprou, pagou e até hoje, depois de quase 15 anos, ainda está tentando regularizar a compra.
É o caso do pai que, avisado pelo filho de 17 anos que havia feito um negócio e que, por erro do vendedor, ele o carregou no catão do pai, ele afirma com alto e bom som que o filho o estava roubando. Nem considerou que o filho o estava comunicando um erro e tentando acertar as coisas. Perdeu a autoridade paterna sobre o filho.
Poderia citar os muitos casos de mulheres que, sabendo que o namorado era viciado em algum tipo de droga, mesmo assim decidiram se casar e, depois se arrependem amargamente. Criam piamente que conseguiriam “consertar o marido”.
Mais recentemente, no âmbito da política temos alguns exemplos de “suicídio”. Para ficar em um especialista em tiro no pé, cito o presidente que, sem contrapartida comum no campo da diplomacia, abre os vistos para estado-unidenses, canadenses, japoneses e australianos. Um visto para os EUA custa quase duas centenas de dólares (sem restituição caso seja negado), mais a humilhante entrevista para saber se você é um pretendente a morar e trabalhar naquele país. Ainda com o mesmo personagem, está a declaração dele, em solo chileno elogiando a ditadura de Pinochet. Falou de corda em casa de enforcado!
Acrescente-se a isto as desastradas declarações sobre o aumento de impostos, redução da alíquota do IR, os retuites das asneiras escritas pelos filhos, a comparação da crise com o presidente da Câmara, Maia, como sendo uma briga com a namorada. Há ainda a “carta branca” que deu ao Moro e que, depois, o obrigou a “desconvidar” a Ilona Szabó, especialista em Segurança Pública; a falta de posição no caso do laranjal do PSL que afeta o Ministro do Turismo, as idas e vindas (não sei se houve até agora alguma ida, porque me parece que só há retrocessos) no MEC; a presença esdrúxula do ex-aprendiz de astrólogo, Olavo de Carvalho, sentado à sua direita em reunião nos EUA; a continuidade da folclórica Damares no Ministério de Todas as Coisas; o exótico olavete Ernesto Araújo no Ministério das Relações Exteriores. Por falar nele, acho que ele tem sangue de barata. Excluído da conversa do Bolsonaro com o Trump, quando assunto tratado era todo relacionado à sua pasta, saiu-se dizendo que o filho do presidente também tem papel protagônico no trato destes assuntos.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 20 de março de 2019

INVISIBILIDADE URBANA


Todas as tentativas de narrar a pré-história da humanidade mostram pequenos grupos preambulando em busca de caça e alimento. Os grupos, não mais de cem pessoas, quando muito, se fragmentavam quando cresciam, em função da estratégia da busca de sobrevivência, uma vez que, para se ter alimentos e caça para um grande número de pessoas, era mais problemático.
A convivência em um grupo reduzido de pessoas tem a vantagem de se ter relações afetivas fortes, laços de solidariedade e uma rede de proteção e apoio do tamanho do grupo. A pessoa é reconhecida nas suas qualidades e potencialidades. Ela existe socialmente falando!
Por outro lado, os pequenos grupos, pela dificuldade ou até inexistência de relações externas, tendem a se normatizar nos padrões aceitos pelo grupo, a buscar a homogeneização comportamental e de cosmovisão. Nestas sociedades a convivência com o diferente é mínima ou nula. Não há o treino para a vida com a novidade ou o diferente. É uma situação de conforto.
Quando a humanidade começou a se sedentarizar, vivendo mais tempo em um mesmo lugar, quando começou a dominar as técnicas da agricultura e pastoreio, quando o desenvolvimento comunitário começou a experimentar avanços, os grupos puderam crescer e assim fizeram. Agora se tinha mais gente vivendo juntas nos assentamentos onde se lavrava a terra e se cuidava dos rebanhos. O aumento dos grupos introduziu a necessidade da convivência com o diferente (ainda que em pequeno número).
A transposição do modelo rural/pastoril para o urbano trouxe implicações enormes. Cada pessoa teve que aprender a lidar com um número maior de pessoas e desconhecidos, com uma variedade maior de diferentes, com hábitos e comportamentos estranhos. À medida que o grupo aumentava, diminuía a capacidade de estabelecer relações afetivas significativas, menor era o reconhecimento social para a existência, uma vez que, em função da quantidade, o anonimato se instalava. Surgem os “walking deads”: seres que vivem sem vida social, invisíveis para a grande sociedade, não reconhecidos, não vistos, não ouvidos.
A forma de chamar a atenção, de gritar “olhem para mim”, “me escutem”, de chamar a atenção dos transeuntes, é usar penteados espalhafatosos, roupas “descoladas”, enormes brincos, piercings, tatuagens até na testa. Quanto mais invisível a pessoa se sente, mais ela chama a atenção.
Esta análise me vem ao pensar nos recentes episódios de massacre: Suzano e Christchurch, além dos casos de feminicídio resultantes da inconformidade com o fim da relação. Note-se que os atiradores dos massacres queriam “se tornar heróis, reconhecidos”, queriam dizer “eu existo” ainda que para isto, paradoxalmente, lhes custasse a vida! As Deep e Dark Web eram espaços onde encontravam pessoas dispostas a ouvi-los e lhes dar ajuda. A solidariedade para a fama questionável. Os invisíveis sociais ganharam as páginas dos jornais e as telas de televisão. Conseguiram ser vistos e estudados pela sociedade.
Os feminicidas, ao verem uma relação ruir, pela incapacidade de estabelecer novos relacionamentos porque sabem ser invisíveis sociais, matam quem os rejeita. A frustração de não ser ninguém os leva a matar quem, por um tempo, deu-lhes esperança e reconhecimento. Matam quem se interessava por eles, paradoxo dos paradoxos.
Faltam orelhas e olhos na sociedade. Todos de cabeça baixa olhando a tela e, ao redor, milhares pedindo: “olha prá mim!”.
Marcos Inhauser


quarta-feira, 13 de março de 2019

A RETÓRICA E A PARRESIA


Michel Foucault, em uma de suas últimas aulas (01/08/94), fez comentários sobre o exercício da retórica e a parresia (que é o falar a verdade, sem esconder nada). Para ele, “na retórica não há vínculo entre aquele que fala e o que ele diz, mas a retórica tem por efeito estabelecer um vínculo obrigatório entre a coisa dita e aquele ou aqueles a quem ela é endereçada ... está no exato oposto da parresia”.
A parresia, por sua vez” estabelece entre aquele que fala e o que diz um vínculo forte, necessário, constitutivo, ... (que) se abre sob a forma de risco ... entre aquele que fala e aquele a quem ele se endereça. ... aquele a quem ele se endereça sempre pode não acolher o que lhe é dito. Ele pode (sentir-se) ofendido, pode rejeitar o que lhe dizem e pode, finalmente, punir ou vingar-se daquele que lhe disse a verdade”. É o falar sem dissimular.
Voltei a ler estes textos do Foucault em função de coisas acontecidas no passado recente e no presente da política brasileira. Não posso esperar de Foucault uma digressão sobre o significado e as consequências das Fake News, mesmo porque, nada data em deu suas últimas aulas, tal conceito ainda não havia sido elaborado. No que pese a isto, não posso desconsiderar que o termo é mais novo, mas o uso de meias verdade ou mentiras propositais sempre fizeram parte da política. Parece-me que a palavra “demagogia” está muito próxima ao conceito de retórica de Foucault, e é irmã gêmea de Fake News.
No anedotário político brasileiro há inúmeros exemplos de demagogia. Conta-se que Ademar de Barros subia ao palanque e, antes de começar a falar, tirava do bolso um sanduíche de mortadela, para que as pessoas o considerassem uma pessoa do povo. Também se conta que, quando suava em seus discursos, tirava do bolso um lenço e, propositalmente, caía um terço que ele o apanhava no chão e, com toda a reverência, o beijava e o recolocava no bolso. Assim fazia para mostrar que era católico fervoroso. Jânio Quadros afirmava que a Coca-Cola era um veneno e que iria fechar a fábrica e proibir o comercio do refrigerante. Nunca o fez e se sabia que era bravata eleitoreira.
A onda de Fake News, propiciada pela proliferação das redes sociais, onde pessoas reais, perfis falsos e robôs disseminam notícias e inverdades, é algo que está entre o demagógico e a retórica no sentido proposto por Foucault: sem nenhuma relação entre o que “envia as mensagens” e o que “recebe as mensagens”, sem conexão com a verdade dos fatos. Um paradoxo da problemática é que quem condena as Fake News, se vale delas para conseguir seus propósitos, haja visto os recentes episódios, tanto na política brasileira como na estado-unidense.
Exemplo claro desta retórica dissimuladora são os discursos do autocrata Maduro, diagnosticando como ataque do imperialismo ianque o que se sabe é incompetência do falastrão.
Tenho para comigo que os falastrões e Instagramers poliativos (para usar um neologismo para me referir às novas formas de falastrões midiáticos) são mais tendentes a ser retóricos e demagógicos, quando não fabricantes e disseminadores de inverdades ou meia verdades. Exemplo disto foi a controvérsia com o Bebiano, se falou ou não com o pai, quando este estava no hospital e mais recentemente a da jornalista do Estadão.
A parresia tem um preço e parece que os políticos não têm disposição de pagar. Quem paga o pato é o povo que engole meias verdade como verdade final.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 6 de março de 2019

É MUITA CINZA!


É verdade que o uso litúrgico das cinzas como símbolo de arrependimento remonta aos tempos bíblicos. Podemos ver o uso delas no arrependimento em Ester, quando Mardoqueu se veste de saco e se cobre de cinzas ao saber do decreto de Asuero I (Xerxes, 485-464 AC, da Pérsia, que condenou à morte todos os judeus de seu império Est 4:1). Outro personagem, Jó, mostrou seu arrependimento vestindo-se de saco e cobrindo-se de cinzas (Jó 42:6). Daniel afirmou: "Volvi-me para o Senhor Deus a fim de dirigir-lhe uma oração de súplica, jejuando e me impondo o cilício e a cinza" (Dn 9:3). O povo de Nínive proclamou jejum a todos e se vestiram de saco, inclusive o Rei, que além de tudo levantou-se de seu trono e sentou sobre cinzas (Jn 3:5-6). São exemplos do Antigo Testamento que mostram a prática estabelecida de valer-se das cinzas como símbolo de arrependimento.
Jesus fez referência ao uso das cinzas: "Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque se tivessem sido feitos em Tiro e em Sidônia os milagres que foram feitos em vosso meio, há muito tempo elas teriam se arrependido sob o cilício e as cinzas. (Mt 11:21).
Por outro lado, as cinzas também são símbolo de algo que foi destruído, queimado, que virou pó. Elas são a evidência do aniquilamento. “Tudo virou cinzas” é uma expressão que denota derrota, impossibilidade de se recuperar ou ressuscitar.
Quando penso na quarta-feira de cinzas fico entre a cruz e a espada. Não sei se as cinzas, no caso do brasileiro, seriam símbolo de arrependimento ou de aniquilamento. Digo isto porque o Carnaval tem sido um evento nacional que vem ganhando contornos cada vez maiores a cada ano e são exploradas comercialmente as festas que em seu nome se realiza. Muitos cometem excessos de todos os gêneros e pode ser que, ao voltar à vida de trabalho e estudos, se arrependam dos excessos cometidos e por eles peçam perdão.
Parece que o ex-governador Cabral foi acometido do espírito de arrependimento antes da quarta de cinzas. Decidiu entregar os podres de sua administração. Acho que mudou a estratégia para ver se esconde ou sobra algum do arsenal de dinheiro que tem sabe-se lá onde.
Mas o Bolsonaro parece que está fazendo cinzas das suas promessas de campanha. Prometeu que não haveria o toma-la-dá-cá e há fortes indícios de que abriu o balcão fisiológico para, ao menos, aprovar a Reforma da Previdência. Mas ele próprio já está queimando etapas ao explicitar o que pode ser mudado na proposta, antes mesmo de se iniciarem as negociações. A sabedoria virou cinzas!
Também virou cinzas a propalada decisão de não interferir na composição ministerial, dando aos ministros carta branca. O recente episódio do convite feito por Moro a Ilona Szabó e sua defenestração, antes mesmo que esquentasse na cadeira, mostra que a carta branca tem seus pontos cinzas bastante escuros. O mesmo se deu com o Bebiano, criticado por ter marcada na agenda uma reunião com o encarregado das Relações Institucionais da Globo.
Se as redes sociais o alçaram à presidência, estas mesmas redes têm dado balizamentos para suas ações. Mesmo que venha dizer que nenhum dos filhos interferirá no seu governo, parece que o MBL e outros viralizadores de comentários nas redes têm, sim dado a pauta para este governo.
Se o senador Jorge Kajuru votou pedindo a opinião para seus seguidores no Facebook, parece que o presidente está fazendo o mesmo, olhando parcialmente para a opinião pública via Whatsaap e Instagram.
Marcos Inhauser