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quarta-feira, 26 de junho de 2019

MOLHANDO DESERTOS


Aposto como o leitor já deve ter passado por uma experiência destas.
Há alguns tipos de pessoas com quem a gente precisa conversar, negociar ou buscar um consenso. Há aquelas que são abertas a qualquer argumento e cedem sem pestanejar. Concordam com tudo o que se diz ou se pede. São de uma passividade bovina (frase que devo ao Clovis Rossi, quem deixou saudades). A impressão que passam é que não têm opinião, não buscam realizações pessoais ou nem mesmo têm identidade firmada. A gente começa a conversa e já sabe como vai terminar: “faça do seu jeito que eu assino em baixo.”
O segundo é formado por aquelas que têm opinião, mas estão abertas ao diálogo, à troca de ideias, ouvem o que se lhes é apresentado, refletem, explicitam seus pontos com clareza e assertividade. Conversar com elas é um desfrute. A conversa flui, é lubrificada pelas novidades que ambos podem trazer, é temperada com os assentimentos e dissentimentos educados e bem ponderados. Sente-se que as pessoas escutam e falam na mesma proporção, com equilíbrio. Pode até haver empolgação, afirmações mais categóricas, um tom de voz mais alto, sem ser grito. É a defesa honesta que cada qual faz do seu ponto de vista.
O terceiro é formado por pessoas que são verdadeiras pedras no sapato. Quando a gente precisa conversar com elas, a gente reza uma meia dúzia de Pai Nosso. Sabe-se de antemão que a conversa será difícil e, na quase totalidade das vezes, uma perda de tempo. Elas apresentam algumas características que devem ser explicitadas. São donas-da-verdade. Adoram começar suas exposições com as frases: “o certo é”, “na verdade”, “realmente”, “a verdade é que ...”, “na realidade”, “eu, no lugar dela ou dele...” e outras típicas. Elas têm visão tapada das coisas, não conseguem ver a floresta e acham que o galho da árvore que elas veem é toda uma floresta.
Quando elas se apresentam para colocar suas questões, seus posicionamentos ou decisões costumam ser prolixas, demoradas e confusas. A gente fica ouvindo e se perguntando: ö que é que elas estão querendo dizer?”
A gente pode deixar falar o tempo que quiserem e não interromper a fala por nada. Quando a gente pensa que chegou a nossa hora de dizer algo e, mal iniciamos a fala, somos interrompidos com mais um discurso. Espera-se o término dele e nova tentativa. Outra interrupção. Isto se sucede indefinidamente. É impossível terminar um raciocínio.
Se, por acaso, a gente apresenta um raciocínio que desmonta o que ela está colocando ou propondo, há algumas reações possíveis. A primeira é acusar. Acusa que a gente não entendeu, que a gente sempre vence (como se todo diálogo fosse uma batalha com vencidos e vencedores), que a gente, um dia, vai reconhecer que ela estava certa. A segunda é sair da conversa batendo porta ou o pé, numa clara manifestação de desagrado. A terceira é ofender, com maior ou menor intensidade, dependendo da cara que fazemos: se de passividade, se de desprezo, ou de ironia.
Elas não têm o DNA de “encerramento de uma conversa”. Ela tem o dom da última palavra: sempre precisam falar e repisar o que falaram aos montes. No pior dos casos, a última palavra é uma chantagem: “você vai se arrepender disto!”
A tarefa de conversar com elas é como a missão de molhar o deserto: nunca se vê resultado, são sempre conversas áridas.
Marcos Inhauser

EVANGELIZAÇÃO DA GANÂNCIA


Nos idos de 1514, vinte e dois anos depois que Colombo aportou às terras da América, na ilha que hoje é Santo Domingo, se fez o relatório Albuquerque, onde se relatava o massacre a que os indígenas estavam sendo submetidos. Neste processo de extermínio era comum uma prática espanhola que cortava as mãos dos prisioneiros de guerra e, em seguida, se obrigava aos assim mutilados a sair correndo até que morressem, prática esta também usada por Espanha no extermínio dos indígenas. Para as mulheres a prática consistia, ademais da mutilação das mãos, também a dos seios. Ela tinha o objetivo de semear o terror nos nativos.
Para se ter uma ideia da sanguinolência dos “colonizadores”, deve-se mencionar o Campo de batalha de Añaquito. Benito Juárez de Carbajal buscava o representante do monarca Carlos, o vice-rei Blasco Nuñes de Vela. Ao encontrá-lo, o cobriu dos mais variados impropérios, desconsiderando que o vice-rei já estava enfermo e combalido. O próprio Benito teria cortado a cabeça do infeliz, não fosse a admoestação de Pedro Puelles, pelo que pediu a um escravo que o fizesse, mas teve o cuidado de pegar a cabeça pelas barbas, pintar-lhe os lábios, passar uma corda pelos olhos e o amarrar em seu cavalo, desfilando com o troféu por onde fosse. Se fez isto com um conterrâneo, o que não fez com os nativos?
E por que o faziam? Pelo ouro e pela prata que extraiam daqui e mandavam a Europa. A riqueza dos países de Europa está vestida do sangue destes nativos que, ou foram mortos, ou foram obrigados a trabalhar para os colonizadores que vieram trazer a nova fé pela evangelização. Bartolomé de las Casas, voz profética neste império de terror, disse: “A causa foi a cobiça e ambição insaciáveis que (os colonizadores) possuíam, que foram maiores que podem existir no mundo, por ser aquelas terras (América) tão felizes e ricas, e as pessoas tão humildes, tão pacientes e tão facilmente submissas, pelas quais (os colonizadores) não tiveram respeito, nem estima, que não as trataram como bestas, mas como esterco das praças”.
Muitas outras coisas poderiam ser descritas para que se tenha uma ideia mínima do que foi o horror da “evangelização da América pela mão dos colonizadores”. Este afã de dar cores religiosas ao ímpeto ambicioso, levou sacerdotes a fazer batismo no atacado, reunindo todos de uma aldeia e borrifando água sobre eles, na convicção de que estavam batizando a todos e assim salvando suas almas do inferno. Com Atahualpa, a quem a lenda atribui ter muito ouro, se conta que pagou uma montanha aos seus captores e em seguida o levaram para o sacrifício. No desejo que que não morresse pagão, o batizaram momentos antes de sacrificá-lo.
Conta-se ainda que, mais especificamente no Brasil, com o surto da malária, muitas crianças estavam morrendo. Os sacerdotes, no desejo de salvá-los, iam até eles e os batizavam. Como morriam logo em seguida, a água do batismo passou a ser chamada de “água da morte”, e os pais recusavam que fossem batizadas. Inventou-se então o “batismo sub-reptício”, quando o sacerdote levava escondido um pano molhado e, sem que os pais percebessem, apertavam o lenço e umas gotas de água deles saíam, considerando isto como batismo salvador.
Trago estas coisas porque, no momento que vivemos, muitos há que estão imbuídos de uma religiosidade da ganância, onde o ouro e a prata dos fiéis o que os move, onde a teologia da prosperidade só enriquece os pregadores e donos de igrejas, onde as práticas sub-reptícias e terroristas, incitam os incautos a encher as borras dos “evangelizadores”. E há os que ostentam títulos de deputados e senadores!
Marcos Inhauser

quarta-feira, 12 de junho de 2019

FÉ E CULTO HISTÓRICOS

Uma das características do culto ancestral relatado no Antigo Testamento é que ele era baseado numa teologia da história, os seus fundamentos são os fatos históricos onde o teólogo vê a mão de Javé que modela, interfere, muda e faz na história os seus desígnios.
Oscar Cullman, Otto Piper, G. Ernest Wright, Gerhard Von Rad, Edward Schillebeeckx, H. H. Rowley, Martin Noth são alguns dos que mostraram este aspecto fundamental do culto veterotestamentário. Para o teólogo veterotestamentário a revelação feita através da história é feita mediante pessoas interdependentes umas das outras e vinculadas entre si, o que possibilita a mútua confirmação.
No entanto, há quem faça uma diferenciação entre a História como relato verdadeiro de fatos e a Geschichtlische (que é a história interpretada pelos olhos da fé). Esta última não é não-história, uma vez que se baseia em fatos reais e não em invenções. No mais das vezes, esta Geschichtlische relata uma série de experiências históricas avaliadas e relatadas à luz da fé do povo. É o fato com sentido espiritual que penetra inteiramente no sentido histórico, muitas vezes tomando a liberdade, perfeitamente natural, de lhe dar um esplendor que transcende o que realmente passou.
Ela tem uma conotação confessional, porque é o relato de alguém que se envolve apaixonadamente com os fatos, por ver neles a mão de Deus. É o querigma que ascende ao teológico! Não é uma afirmação feita por uma crônica histórica, mas a declaração de fé em Deus, pois é Ele quem dirige os acontecimentos. É um passado que se presentifica pela profissão de fé.
Não se deve esperar de um povo antigo que tivesse a acuidade historiográfica que hoje se espera da historiografia moderna, que exige a correspondência racional e objetiva entre os fatos e a sua descrição.
Ao trazer os olhos para a vida e pregação de Jesus, percebe-se que ele, especialmente com suas parábolas, olhava ao seu dia-a-dia, aos fatos cotidianos e corriqueiros e os tomava como exemplos para o Reino. Ao fazer isto, trazia para o cotidiano o que os teólogos de sua época esperavam para um futuro glorioso com a chegada do Messias. Achavam que o Messias iria irromper na história e dar um fim a ela. É o que modernos apocalipsistas pregam e esperam.
O manual de vida cristã ensinado por Jesus (As bem-aventuranças) não trata de coisas a-históricas ou anti-históricas, mas de atos concretos a serem perpetrados no contexto histórico onde vivemos. Os cultos e missas, na maioria das vezes, falam do céu, do inferno, da vitória sobre a hostes inimigas, da expulsão de Satanás, da cura miraculosa de enfermidades, mas pecam ao não olhar para o chão, para o seu redor para ver o desemprego, a fome, o problema educacional, a crise da saúde, a corrupção, os ataques aos ecossistemas, etc.
Neste universo a-histórico o profeta que fala do cotidiano, que acusa governantes de corrupção e mal gerenciamento da coisa pública, que desmascara as mentiras proferidas pelos políticos é visto como “perturbador da ordem”. Parece que a moderna religiosidade é avessa à denúncia. Quando se denuncia um político de direita vem a turba dizer que se deve orar pelos dirigentes porque foram escolhidos de Deus. Quando o governante é de esquerda, nunca vi pedir que orassem pela Dilma ou Lula, nem mesmo pelo FHC.
São cristãos, aceitam as bem-aventuranças, mas apoiam o armamento da população e o porte de armas, a matança de bandidos, a pena de morte. E dane-se o Deus da história!
Marcos Inhauser

O COLEGIADO DOS DIFERENTES


Há os que, no fundo, criticam o fato de Ele ter escolhido doze, de cepas tão diferentes, comportamentos variados e visões de mundo incongruentes. Por que Ele escolheu do revolucionário (Judas, o Iscariote) ao meloso João, passando pelo odiado publicano, coletor de impostos?
Para a empreitada que tinha em mente não teria sido mais lógico e prudente escolher uma elite de estudiosos, oradores, teólogos e renomados religiosos? Não teria sido melhor começar seu ministério a partir da capital nacional e religiosa, Jerusalém? Não teria sido estratégico fazer aliança com os sacerdotes?
A opção periférica do ministério de Jesus é acessória ou é essencial? Ainda que os evangelhos mostrem enfoques diferentes sobre a obra e ministério de Jesus, todos concordam com sua origem a partir de uma família simples, morando em lugares sem expressão, iniciando o seu ministério com alguns também sem expressão social, fazendo curas e milagres em lugares pequenos e sem capacidade de grande repercussão.
Estas considerações me vêm à mente por causa de uma plêiade de coisas. Vejo uma fascinação de certos líderes religioso pelo grandioso, pelo poder, pela exposição midiática, pelas construções faraônicas. A vitalidade de uma igreja se mede pela quantidade de horas de televisão que tem, pelos metros quadrados de construção, pela quantidade de gente reunida, pela arrecadação.
Parece que o exemplo que Jesus deixou da bacia e da toalha, lavando os pés aos discípulos, não tem lugar neste universo de pompa e circunstâncias. O amor ao próximo na sua necessidade deu lugar ao amor à estrela do momento. Gastam-se fortunas para ir ver o “cantor gospel do momento”, para produzir Marchas para Jesus. A vida cristã é feita de empolgação e nada de instrução. Vale o que se sente e não o que se pensa e crê.
Há quem creia que a igreja está bombando porque tem uma esposa do presidente que é membro de uma igreja batista, porque um dos deputados mais próximos é o Marcos Feliciano, o Silas Malafaia é amigo, que o presidente mencionou que deve haver um evangélico no STF, que a bancada evangélica é composta por mais de 90 deputados e senadores, que há chances de que o novo presidente seja evangélico, etc.
O cerne do evangelho que é amar a Deus e ao próximo como a si mesmo. Isto está, há muito, na berlinda da prática cristã. Busca-se a homogeneização das práticas “litúrgicas” (ainda que eu tenha meus pruridos em dizer que o que se faz é algo parecido à liturgia), uma busca acelerada por algo que seja “diferente” na concepção da “doutrina”. A máxima é a do surfista: o que importa é estar na crista da onda.
O recente episódio em que um pastor esfaqueou o outro por desavenças quanto a posições bíblicas divergentes, no que pese ser um ato isolado, é sintomático da dificuldade em conviver com o diferente. Se pudessem interfeririam na escolha feita por Jesus de apóstolos tão diferentes. O certo seria ter um grupo coeso, unido, marchando ao passo marcado pelos princípios bíblicos.
A ortodoxia deve ser buscada, entendida como todos afirmando as mesmas coisas e se reunindo nos mesmos horários e nos mesmos locais. Para o diferente, o inferno!
Marcos Inhauser

quarta-feira, 29 de maio de 2019

SOU IDEOLÓGICO!


Nas caminhadas da vida e pelas bibliotecas e livros, aprendi algo sobre ideologia que gostaria de compartilhar. Reconheço que é difícil dar uma definição exata. Para se ter uma ideia, um dos estudiosos de Karl Marx encontrou mais de trinta significados diferentes para a ideologia apenas nos escritos de Marx. Como já disse alguém, não há nada mais ideológico do que falar de ideologia. Existe um universo tão grande de afirmações sobre o que se refere ao ideológico que, por razões didáticas, quero levantar alguns níveis de ideologia. 

A primeira delas é a ideologia do pressuposto, que é o conjunto de conhecimentos que se tem e que é determinado e condicionado histórica, política e socialmente e que serve como ferramenta para interpretar coisas e eventos. Ninguém analisa nada, nem conclui nada, se não fizer parte de determinada informação prévia. Eles são os "pressupostos". O que eu suponho determinará o que concluo, porque, dependendo dos instrumentos com os quais trabalho para revelar, compreender, julgar, tenho o resultado do meu julgamento. Esta ideologia é formada pelo conjunto de valores que se tem, fruto de interações com o meio ambiente, seja ele educacional (prioritariamente) ou não. Só não tem ideologia o sujeito totalmente imbecil e idiota.

Há outra ideologia: a ideologia da visão de mundo. É sobre o conjunto de conhecimentos que temos, as ideias, julgamentos e valores que determinam o nosso modo de ser, de agir. A ideologia do "pressuposto" determina a "ideologia da visão de mundo". Somos o que somos baseados no que temos como instrumentos de análise, como um produto histórico por pertencermos a uma sociedade histórica e geograficamente situada. Pensamos e atuamos de acordo com este momento e a cultura da qual dependemos. A ideologia de pressuposição, determinada pelo momento em que vivemos, determina nossa ideologia de visão de mundo, que se adapta em termos gerais à ideologia dominante do contexto em que nos situamos.

Outro tipo de ideologia é a da imposição. É o que aceitamos e que queremos impor aos outros. Essa "imposição aos outros" deve-se ao fato de que acreditamos que nossas verdades são melhores que as do outros, ou que nossas verdades, quando aceitas pelos outros, determinam que temos mais espaço de poder, de gestão, ou queremos manter o espaço que já temos.

Assim, a ideologia é um conjunto de verdades relativas: é a verdade de alguém. A burguesia tem sua ideologia de pressuposto, visão de mundo e imposição e é uma verdade para eles. É uma verdade a tal ponto que eles querem impor isso a todas as pessoas, porque isso as leva a consolidar suas pressuposições, que eles acham que deveriam ser mantidas. O imperialismo, marxismo, liberalismo ou seja o que for, têm sua ideologia de imposição na medida em que querem ter e manter o poder, segundo a verdade que sustentam.

É impossível alguém ser a-ideológico e nada mais ideológico que ser anti-ideológico. Descobri que mentes analfabetas de conceitos, chamam de ideológico tudo aquilo que o outro pensa e que é diferente do que o imbecil “pensa” (se é que pensa).

A diferença é ideológica e, no fundo dever ser. A diferença é a contraposição de duas visões de mundo, duas ideologias. O problema está quando uma das partes, pela ingenuidade, falta de conhecimento ou imbecilidade, acha que o que ele pensa não é ideológico e só o que o diferente pensa é que está eivado de ideologia. Para estes se deve aplicar outro significado de ideologia: o discurso que busca esconder uma ideologia, ocultar intenções.

Por isto sou e assumo que sou ideológico: penso e argumento!

Marcos Inhauser


quarta-feira, 22 de maio de 2019

RELACIONAL OU CONCEITUAL?


Estou no mundo da teologia há 47 anos. Estudei em alguns seminários, dei aulas em outros, li um bocado, viajei e conheci as mais diversas igrejas. Com tudo isto devo dizer com toda a sinceridade: sei quase nada da teologia. Tem gente, especialmente um leitor que tenho, que nunca estudou e que sabe mil vezes mais que eu e vive me espinafrando!
Confesso minha ignorância e minha incapacidade de ter opiniões dogmáticas sobre assuntos pertinentes. Como diz um meme que recebi, não estudei matérias filosóficas ou sociológicas: estudei as divinas. E quando se estuda as divinas, se faz o trabalho de Sísifo, um personagem da mitologia grega condenado a repetir ad eternum a tarefa de empurrar uma pedra até o topo da montanha. Toda vez que quase alcançava o topo, ela rolava montanha abaixo invalidando o esforço despendido.
Neste caminhar, durante muito tempo, acreditei que a vida cristã consistia no entendimento, compreensão e ensino das verdades teológicas, tal como expressada pelos grandes teólogos da Igreja. Estudei Agostinho, Erasmo, Aquino, Lutero, Calvino, Zwinglio, Bultmann, Barth y outros. Quanto mais eu lia, mais me confundia. Um diz uma coisa, outro diz outra, eles se contradizem e eu me perco. Não achei um Waze ou GPS para o mundo da teologia! Quando achava que estava chegando ao topo com minha pedra, lá ia ela, morro abaixo.
De “dono-das-certezas-bíblicas” passei a ser o “eterno-interrogante” ou a “eterna-interrogação”. O jargão “a-Bíblia-diz” foi substituído pelo “eu-hoje-acho-que-a-Bíblia-diz”. A verdade universal e absoluta cedeu para a posição subjetiva. O “impositor de verdades” sobre os outros, pela autoridade da verdade que cria e ensinava, foi ocupada pelo “professor do talvez”.
Você pode estar pensando: ele se perdeu, apostatou, está em surto, ou qualquer outro diagnóstico teológico ou psiquiátrico que me queira rotular. Olhando para trás e avaliando minha caminhada, digo com a sinceridade que a natureza humana me permite: nunca estive tão bem.
Aprendi com os anabatistas que mais vale uma vida obediente ao que entende da Palavra de Deus, do que a mil afirmações ortodoxas. Mais vale poucos em comunhão que muitos em reunião. Mais vale alguns reunidos em nome de Jesus que uma multidão reunida para ver uma estrela gospel. Mais vale poucos obedientes que muitos contentes. Mais vale a instrução que o louvorzão. Mais vale o serviço ao próximo que a confissão de fé.
Aprendi que a igreja se faz com relacionamentos e não com doutrinas inflexíveis e descontextualizadas. Aprendi que a igreja deixa de ser igreja quando houver alguém que a frequenta e que eu não sei o nome. O púlpito vira palco quando há holofotes sobre ele, quando é necessário um telão para o pessoal de longe ver o “iluminado” quem está pregando. A igreja deixa de ser igreja quando ela gasta mais com manutenção, eletricidade, equipamentos de som e vídeo do que com as necessidades do próximo. Quando ela ensina o amor ao pastor e à denominação, quando o ensino enfatiza o amor a Deus e esquece do amor ao próximo, quando exige compromisso total com o custo do amor próprio e à família. Pede e perde mais tempo nas atividades da igreja que na atenção à família.
Igreja é relação, comunhão, serviço, amor a Deus e ao próximo. O que foge disto, seja anátema!
Marcos Inhauser

quarta-feira, 15 de maio de 2019

FUI ELOGIADO!


“Virtude abjeta, ladra desaforos. Ela me insuflou reativamente. Babaquices à latrina, bobas, incertas, inomináveis, obscuras.”
Este é o preço de escrever uma coluna e ser “lido” por quem não sabe ler e se julga “o juiz d universo”. Seguem dois e-mails que recebi, de um “leitor”. Publico-os na íntegra, sem revisões e edições. Não cito o nome para não dar visibilidade. Faço-o para exemplificar o clima de polarização a que chegamos.
Coluna “ARROGÂNCIA DO AUTODITATA”: “Também não conheço nenhum autodidata humilde, mas conheço muitos autodidatas; os comunistas, assim como o sr.º.  Defino os comunistas em dois adjetivos; preguiçosos e invejosos. O comunismo no mundo matou mais de cem milhões de pessoas, o que é pior, mataram-se entre si em nome desta doentia ideologia, que não deu certo em lugar nenhum do mundo. E ainda pessoas como o sr.º defende o comunismo. Ora, o Papa Pio XII excomungou o comunismo e o sr.º ainda o defende? O sr.º não é pastor? Não deve seguir a doutrina cristã? Não deve seguir as decisões do seu mestre maior na terra que é o Papa? Então por que defender o comunismo, se este foi excomungado pelo citado Papa? Os comunistas, todos, sem exceção, são preguiçosos, não querem trabalhar, escondem seu ativismo atrás do argumento de que pretendem acabar com as injustiças sociais, quando na verdade, não gostam mesmo é da labuta, de pegar no batente, não gostam de levantar cedo, pegar ônibus lotado, etc.
Os comunistas são invejosos. Eu sou pobre, sempre fui, continuo sendo, mas nunca precisei de ninguém falar por mim, nuca tive inveja dos americanos por isto, pelo contrário desejo que todos se de bem na vida, porque se eles se derem bem na vida eu também me darei.
Me explique, hoje tenho inveja dos ricos, e amanhã se em me tornar rico, com o meu trabalho, é justo os outros terem inveja de mim e quererem me destruir? Porque vocês comunistas tem raiva dos ricos? Vocês são incapazes?
Sr.º marcos não seja invejoso, coisa feia, seja trabalhador, honesto, ético, o sol nasce para todos.
Se o sr.º defende o comunismo, também é contra as ordens do Papa Pio XII, por conseguinte, é excomungado, por ser excomungado, não pode ministrar palestras sobre o temo bíblico.
O sr.º defende o comunismo, então vá morar na China, Coréia do Norte, Cuba, Venezuela, isto o sr.º não quer, não é mesmo.
Sabe o nome deste comportamento, esquerda caviar.
Fala mal de Olavo de Carvalho que já escreveu vários livros, e o sr.º qual livros já escreveu, qual a moral que o sr.º tem parra falar mal dele? É mais um sentimento de inveja não é mesmo?
Este país nunca mais voltará as mãos desta esquerda maldita, corrupta, que destruiu o país que em sua maioria é formado por pessoas de bem, trabalhadoras, honestas.”
Coluna PALAVRÃO FILOSÓFICO: “Um teólogo que não é formado em filosofia, muito estranho! Ainda, educador corporativo, tenho dó de seus alunos.
Um teólogo que critica um verdadeiro filósofo e um presidente, que incoerência.
Mas é melhor não ser formado em filosofia porque nestas instituições públicas UNICAMP, USP, UFF... somente há doutrinação comunista, aberrações doentias que somente quem acompanha o dia a dia nestas universidades sabe.
O senhor certamente se corromperia.
Antes ouvir palavrões acompanhados de verdades em prol de um país melhor, do que ler baboseiras de um pseudo 'teologo' que nem mesmo cursou filosofia, nem mesmo escreveu um livro sequer.  
Quanta mediocridade.”
Autor que o torno anônimo para não dar publicidade a tamanha incompetência.
Marcos Inhauser


quarta-feira, 8 de maio de 2019

PALAVRÃO FILOSÓFICO


Não sou formado em filosofia. Mas os estudos me obrigaram, por interesse ou requisito acadêmico, a ler vários. Li um monte deles, desde os clássicos até Foucault. Entendi alguns, outros me perdi na leitura e não achei o sentido, nem que relesse duas ou três vezes. Os dialéticos, para mim, falam grego! E não achei tradução!
Tentei ler Marx. Desisti na segunda página. Sabia que ia perder tempo. Depois tive um professor de História da Educação que disse: “se alguém te disser que leu O Capital de Marx, duvide; se disser que entendeu, chame-o de mentiroso; se insistir, interne porque está louco”. E ele era marxista!
Há uma coisa que nunca vi nos filósofos assim reconhecidos: nunca li uma palavra de baixo calão sendo empregado por um deles. Palavrão? Jamais! Se há uma coisa que os caracteriza é a linguagem escorreita e o vocabulário que foge ao óbvio e ao popular. Antes, pelo contrário, são herméticos, com construções de frases bastante complexas.
A fala chula, vulgar, o emprego de palavrões é típico de gente que não tem vocabulário que consiga traduzir o que quer dizer, que não consegue expressar os sentimentos. Mais: é característico de quem sabe ofender e gosta de fazê-lo. Acha que o palavrão, a ofensa, o discurso vulgar é a forma mais certeira de dizer o que quer e que o povão vai entender e gostar. Ele fala para a “galera” e mede sua proficiência em filosofia pelos likes e seguidores que tem. Neste mundo líquido contemporâneo, um falastrão, com linguagem vulgar e permeado de palavrões pode se considerar filósofo, bispo, apóstolo, guru ou o que queira.
Como falta à grande maioria dos brasileiros escola, leitura, noção crítica, autonomia reflexiva, qualquer babaca que fale umas tantas quantas coisas, mesmo que recheadas de obviedades e platitudes, desde que venha com palavrões, ele “é o cara”. Este “cara” pode defenestrar um dos maiores educadores que a humanidade já produziu. Como santo na sua terra não faz milagre, Paulo Freire é santo lá fora e demônio para os seguidores do guru. Um sujeito que fez um curso de conserto de geladeira e paraquedismo, que foi indisciplinado no Exército, o que tem a dizer e ensinar? Nada! Prefere alimentar as controvérsias no Instagram e Twitter. Mas trazer um plano nacional de educação, de saúde, de reforma fiscal, esclarecer os pontos da reforma da previdência, isto não tem cacife para fazê-lo.
Um jovem de dezoito anos, estudioso na medida do necessário, conseguiu um encontro com uma jovem, esta sim estudiosa. Saíram, conversaram e no terceiro encontro ela lhe perguntou: este é o vocabulário que você tem? Por que você repete sempre as mesmas frases e palavras? Por que você insiste em usar vulgaridades? Se quiser me namorar, comece a ler mais livros e melhore seu vocabulário! Não tenho tempo para ficar ouvindo as mesmas coisas sempre! Traga conhecimento e não besteiras!
O conselho da menina serve para muitos. Mas como estudar se filosofia e sociologia são lixo? Para que estudar se o que importa e saber ler, escrever, fazer as quatro operações e ter uma profissão? Siga o exemplo do ministro que, em rede social escreveu “ínsita” quando deveria escrever “incita”, sem contar o erro de concordância que cravou na mesma mensagem. Ele não estudou direito, tanto que, trazida à luz seu boletim escolar, teve que dar mil explicações para as faltas, notas baixas e vida acadêmica abaixo da média. E abaixo da média continua sendo. O erro de grafia e de concordância são tão agressivos quanto as vulgaridades e palavrões do outro.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 1 de maio de 2019

ELOGIO À BURRICE


Erasmo de Rotterdam, em 1509, escreveu o famoso “O Elogio da Loucura”,  publicado em 1511, e que influenciou a Reforma Protestante e a civilização ocidental.
O livro tem seu lado satírico e sombrio, trabalha a loucura como forma de autodepreciação, ataca os abusos da doutrina católica considerando muitos como superstição, alude às práticas corruptas da Igreja Católica.
Nele loucura é comparada a uma deusa que é filha de Plutão e Frescura, educada pela Inebriação e Ignorância, que têm a companhia de Philautia (amor-próprio), Kolakia (elogios), Lethe (esquecimento), Misoponia (preguiça), Hedone (prazer), Anoia (Loucura), Tryphe (falta de vontade), Komos (destempero) e Eegretos Hypnos (sono morto).
Eu o li há algum tempo e voltou à memoria nestes dias quando há, ao que me parece, um elogio à Ignorância e à Burrice, que é um grau mais profundo da primeira. Tivemos um Ministro da Educação que me fez lembrar a educadora Inebriação (deslumbramento) talvez pelo fato de ser colombiano a gerir a educação brasileira. Isto o levou a mostrar as influências de Komos (destempero) e que, no que pese que era chamado de filósofo, teve seu lado Lethe (esquecimento) e não fez o que se esperava que fizesse: não administrou, nem sentou bases para um plano nacional da educação. Com isto mostrou seu lado Eegretos Hypnos (sono morto).
Defenestrado por incompetência, entra no seu lugar outro ministro. Este se parece ao filho de Plutão e Frescura. Plutão é um deus que sai das entranhas do pai, Saturno, entra no panteão e assume o poder do universo. O mundo dos mortos no interior da terra foi o que lhe coube governar, mesmo contra a sua vontade. Era sombrio, irritadiço e pouco admirado, por estar descontente com o que lhe tocou. Viajava à noite em um carro puxado por apavorantes cavalos negros, guardando as chaves do inferno.
O novo ministro que substitui o incompetente filósofo, também mostra as influências das companhias que teve. Ao vir a público dizer que a filosofia e a sociologia não devem mais receber atenção nas escolas e na graduação por não serem estudos que produzem resultados financeiros, mostrou Philautia (amor próprio – “eu estudei o que útil”), adorou a Kolakia (elogios – os ignorantes bateram palmas), revelou que se esqueceu que estudou filosofia e sociologia para se graduar e assim exagerou na influência de Lethe (esquecimento). Seu posicionamento revela também a influência de Misoponia (preguiça), Anoia (Loucura) e Tryphe Komos (destempero).
Isto revela que estamos com um presidente que escolhe mal a maioria dos seus ministros, já teve que executar dois deles, tem outros que são calcanhar de Aquiles (o do Turismo e a Doidamares), foca no insignificante (comercial e gerente marketing do BB, golden shower etc.), fala o que não deve, mostra-se péssimo negociador porque cede antes mesmo de se iniciar o processo, tem suas influências de Misoponia (preguiça) deixando para o Congresso o que deveria ser seu foco maior (a Reforma da Previdência), adora Kolakia (elogios) e se perturba com as críticas.
A maior burrice é a ilogicidade da afirmação de que a Filosofia e a Sociologia são supérfluas, mas tem num autoproclamado filósofo/astrólogo o seu mentor e dos filhos e alguns ministros.
Estamos precisando um pouco do deus Sofrósine (moderação, moderação, discrição e autocontrole) e o exorcismo da deusa Afrodite, a das paixões desenfreadas, que tem grande influência sobre os filhos. 
Marcos Inhauser


quarta-feira, 24 de abril de 2019

ARROGÂNCIA DO AUTODIDATA


O autodidata tem dois fundamentos sobre as quais constrói seu universo cognitivo: a própria competência e a infalibilidade do conhecimento adquirido pelo esforço próprio. Para que isto se consolide, ele afirma outros dois fundamentos derivados: transpiração e dedicação. O seu saber, fruto da atividade solitária, por não ser confrontado com outros saberes, tem o DNA de arrogância.
O que “sabe” só ele sabe. Acredita com unhas e dentes que seu saber é único, que seus posicionamentos são apropriados e que vão resolver os problemas do mundo. A solidão no processo de incremento cognitivo os leva a uma atitude de desqualificar todo e qualquer pensamento/saber que não se ajusta aos seus códigos. Passam a ser “donos-da-verdade”, messias para equacionar e resolver todos os problemas. Não admitem contestações, críticas ou senões ao seu saber. Quando há quem os critique, não têm pudores em ser agressivos, ofensivos e violentos.
Exigem obediência cega aos seus postulados e dogmas (o seu saber é dogmático no sentido religioso de que é uma verdade auto explicável ou que se aceita por fé). São messiânicos, pois acreditam que sua capacidade intelectual de aprender sozinhos é dom de Deus, que sua compreensão do mundo é inspirada, que suas soluções têm a chancela divina, ainda que se afirmem ateus.
Se duas pessoas interpretam um mesmo texto ou fato de duas maneiras diferentes, uma delas, certamente, estará errada. Como é quase impossível o autodidata reconhecer que a sua interpretação é a errada, fica fácil perceber a anatematização do dissidente. O errado e burro sempre é o outro!
Eles têm tem resposta para tudo. Por inferências, deduções enviesadas e conclusões questionáveis, estes autodidatas insistem em encontrar resposta para tudo, mesmo que tenham a profundidade de um pires e a consistência de uma gelatina.
Como decorrência dos fundamentos, há a maniqueização da humanidade: Eu e eles. Eu sou o bom. Eles são os burros, condenados, devassos, promíscuos, corruptos etc. Por assim crer e agir, os autodidatas têm uma característica comum: são arrogantes! Não conseguem manter um diálogo, antes insistem em falar compulsivamente, como para impedir que uma visão diferente possa aparecer e prevalecer. Diante de uma pergunta para a qual não têm resposta, ao invés de dizer “não sei” preferem estigmatizar o perguntador como herege. A ignorância deles é burrice de quem pergunta. Quase sempre terminam uma tentativa de diálogo afirmando: ou você aceita o que lhe digo ou você vai se ferrar.
Estamos à volta com um ex-astrólogo que ganhou ares de oráculo para todas as coisas. Sabe e entende de tudo e se mete a falar de cesariana a motor à explosão! Tem seus discípulos, tão arrogantes quanto o mestre das babquices. No caso específico, é verdade, tem uma coletânea de conhecimento que, sim, são válidos. Podem ajudar a não nos tornar idiotas, ainda que, ao divinizá-lo, os seguidores se tornam robotizados, repetindo as máximas do guru. A obediência deve ser cega. Se foi nomeado a algum posto por influência ou indicação do autodenominado filósofo, a autonomia de ação é zero. Haja vista o demitido ministro da Educação e as sandices do ministro de Relações Exteriores.
A terra é plana, o mundo foi criado por Deus em sete dias e há não mais de 6000 anos, os militares representam o atraso, o mundo deve ser dividido entre nós e eles, o Trump é o maior e melhor presidente que os EUA já tiveram, o Moro é um gênio, a base de cálculos para a reforma da Previdência deve ser secreta, não houve ditadura no Brasil, nem mesmo tortura, quem morreu devia morrer por causa da opção que fez, etc. E salve os gênios autodidatas!
Não conheço um autodidata humilde. Se você conhecer, me avise.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 17 de abril de 2019

A DESEJADA PÁSCOA CONTEMPORÂNEA


O povo estava escravizado e vinha sendo explorado pelos poderosos da nação. Trabalhavam duramente para atender às exigências reais e produzir os tijolos. Não tinham descanso nunca. A realeza, para manter sua opulência e construir palácios, exigia do povo a produtividade nas olarias. Cada operário deveria entregar ao fim do dia sua produção. Quando Moisés pediu ao Faraó que deixasse o povo sair por três dias para cultuar a Deus, o rei entendeu este pedido como ameaça: “... por que interrompeis o povo no seu trabalho?... o povo já é muito e vós os distraís das suas tarefas” (Ex 5:4, 5).
A solicitação justa foi tomada como ameaça à nação, à estabilidade do reino, à ordem institucional. A resposta real veio na forma de exigência de mais produção com menos matéria prima (“... não dareis a palha para fazer tijolos... eles mesmos que... ajuntem para si a palha... e exigireis... a mesma conta de tijolos que antes faziam... agrave-se o serviço sobre estes homens, para... que não dêem ouvidos a palavras mentirosas... v. 7-9). Uma reivindicação justa respondida com mais injustiça.
Ao ler este relato e olhar para nossos dias, tenho a impressão que a história se repete. Os exemplos modernos de justas reivindicações de trabalhadores são, com uma frequência assustadora, respondidas com mais injustiça.
Quantas vezes trabalhadores lutando por melhores salários não foram tratados com cassetetes, bombas de gás lacrimogêneo, duchas de água? Quantos trabalhadores não tiveram seus salários descontados porque pararam em greve para reivindicar melhores condições de trabalho?
Mais ainda: na atual situação de haver muita gente para trabalhar e pouco trabalho (versão moderna do “o povo já é muito...” v. 5), os modernos trabalhadores, diante do medo de perder seu posto de trabalho, acabam se sujeitando a situações ainda mais injustas. Sob ameaça de perder o emprego, os modernos Faraós estão exigindo que seus trabalhadores produzam mais com menos custo (com a moderna terminologia de “produtividade”).
Aumentam as exigências e reduzem as condições. Pedem mais produtividade, mas cortam a “palha” do plano médico, da cesta básica, do adicional por insalubridade etc. Não poucas vezes se aplica o que o apóstolo Tiago vai dizer mais tarde “... o salário dos trabalhadores... foi por vós retido com fraude” (Tg 5:4).
A Páscoa está aí para nos dizer que Deus está atento e que isto terá fim. O sofrimento do povo, tendo que trabalhar de sol a sol, sem descanso semanal, férias ou outra coisa beneficiosa, não é algo alheio a Deus e Sua justiça.
Ele interferiu a favor dos trabalhadores explorados pela ganância e opulência do Faraó. Certamente também está atento hoje ao sofrimento e exploração feita em nome do modelo econômico, do lucro, dos acionistas da Bolsa. Ele está atento às tentativas de retirada de parcos benefícios de quem suou toda a vida. Quem vestiu farda ou teve trabalho público, para estes Faraós, merecem tratamento diferenciado e remuneração nababesca depois de se aposentarem.
Os modernos Faraós podem negar a justa reivindicação dos trabalhadores roubados no FGTS e negados no pedido de um salário justo, argumentando que isto desestabiliza a economia, aumenta a inflação etc. Mas há esperanças no Deus da Páscoa. Esta foi a culminação de um processo de salvação e libertação de uma relação laboral injusta. Que esta dimensão da Páscoa não se perca em meio a uma celebração que mais enfatiza o sofrimento sob o império que a libertação, que espiritualiza a ressurreição, não permitindo ver que há situações concretas que exigem libertação e ressurreição.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 3 de abril de 2019

RELIGIÃO POR QUILO


Por razões de trabalho e passeio já comi em muitos e variados restaurantes, em vários países, desde os chiques até o muquifo. Há uns sete anos voltei a um bom restaurante que eu frequentei nos década de oitenta. Lá entrando vi que tudo estava mudado. O garçom que veio me atender eu o reconheci dos tempos em que lá estive. Perguntei: “há quanto tempo o senhor trabalha aqui?”. Há mais de 40 anos, responde ele. Eu repliquei: eu sei disto porque o senhor já me atendeu várias vezes há vários anos. Ele então medisse: “naquele tempo isto aqui era um restaurante, hoje é um comedor. Tenho vergonha de trabalhar aqui porque esta coisa de comida self-service e por quilo é uma desgraça”.
O difícil é encontrar um bom restaurante na maioria das cidades que visito. E nestas andanças descobri que os restaurantes por quilo são todos iguais. A mesma variedade, os mesmos temperos, um pouco mais quente neste ou mais frio naquele. Alguns com reposição imediata, outros que esperam acabar para repor. As mesmas saladas, o mesmo arroz e feijão, a mesma macarronada (alho e óleo ou à bolonhesa), as mesmas sobremesas.
Perguntei um dia ao dono de um restaurante destes (onde comi muitas vezes ao longo de doze anos). E ele me disse: “se eu inventar e colocar comida diferente, acaba sobrando. Os clientes preferem sempre o mesmo”.
Isto tem acontecido com as igrejas e religiões. Se a gente vai a uma Presbiteriana, Metodista, Batista, Assembleia ou igreja independente, a mudança entre uma e outra será mínimo, cosmético. Todas adotam o mesmo cardápio: muito louvor capitaneado por um grupo de jovens, com mini sermões entre uma música e outra, orações genéricas, pregação sem contribuição da reflexão do pregador (mais do mesmo) e benção final.
Parece que as pessoas vão em busca de um cardápio igual, mas em locais diferentes, tal como faço quando estou em uma cidade por dois ou três dias: como em restaurantes diferentes, ainda que saiba que o cardápio é o mesmo.
Nas igrejas isto acontece. As pessoas vão hoje ao restaurante presbiteriano, no domingo seguinte ao restaurante batista central, depois ao nazareno e assim por diante. Tal como nos restaurantes por quilo, cada um pega o que gosta e na quantidade que consegue comer. E, na quase totalidade das vezes, a comanda vem: o momento das ofertas!
O chef aparece vestido de terno e gravata ou com vestes talares típicas dos sacerdotes, há certa pompa na sua presença porque é o vox Dei daquele restaurante. Tal como nos restaurantes por quilo que compram os ingredientes em locais especializados, com pre-parados, muitos dos sermões são buscados em sites. O sermão virou commodity: toma-se emprestado sem citar a fonte, compra-se um já feito, faz-se uma colcha de retalhos com as ideias de vários autores e lá vai a gororoba alimentar os clientes daquele domingo.
Estava ouvindo uma pregação juntamente com um amigo e, acerta altura, o pregador falou algo que não era do estilo e nem da capacidade intelectual do orador. Imediatamente meu amigo pegou o celular e achou onde o sujeito tinha “roubado o sermão”. Sobra de outro restaurante servido como comida recém feita.
Não aguento mais comida por quilo e nem igreja da mesmice!
Marcos Inhauser

quarta-feira, 27 de março de 2019

AUTODESTRUIDORES


Os exemplos se multiplicam. Basta prestar atenção a algumas pessoas e suas decisões. Parece que elas têm o instinto assassino de matar as oportunidades que a vida se lhes apresenta. No trabalho pastoral posso citar de memória um monte de casos de pessoas que agem desastradamente em prejuízo próprio.
Lembro-me de uma mulher que me procurou toda machucada. Soube que ela apanhava do marido há muito tempo. Orientei-a a dar queixa à polícia e se afastar dele para que sua vida fosse preservada. Nada fez e continuou apanhando. Outro que, enrolado até o pescoço com dívidas, foi convencido pelos amigos de apartamento que compartilhavam a vender uma motocicleta de primeira linha que possuía. Saiu no outro dia para se desfazer dela e saldar suas pendências. Quando voltou à casa, tinha vendido a moto, mas comprou um carro zero com prestações impagáveis.
Conheço outra que saiu de casa para comprar uma bolsa e voltou com uma SUV Toyota! Outra, vendeu uma casa que tinha, para ficar sem ter onde morar. Achou um muquifo, mudou-se para lá e o proprietário lhe ofereceu vender. Todos os que a conheciam e também conheciam o proprietário a avisaram que era uma tremenda fria fazer negócio com ele. Não escutou a ninguém, comprou, pagou e até hoje, depois de quase 15 anos, ainda está tentando regularizar a compra.
É o caso do pai que, avisado pelo filho de 17 anos que havia feito um negócio e que, por erro do vendedor, ele o carregou no catão do pai, ele afirma com alto e bom som que o filho o estava roubando. Nem considerou que o filho o estava comunicando um erro e tentando acertar as coisas. Perdeu a autoridade paterna sobre o filho.
Poderia citar os muitos casos de mulheres que, sabendo que o namorado era viciado em algum tipo de droga, mesmo assim decidiram se casar e, depois se arrependem amargamente. Criam piamente que conseguiriam “consertar o marido”.
Mais recentemente, no âmbito da política temos alguns exemplos de “suicídio”. Para ficar em um especialista em tiro no pé, cito o presidente que, sem contrapartida comum no campo da diplomacia, abre os vistos para estado-unidenses, canadenses, japoneses e australianos. Um visto para os EUA custa quase duas centenas de dólares (sem restituição caso seja negado), mais a humilhante entrevista para saber se você é um pretendente a morar e trabalhar naquele país. Ainda com o mesmo personagem, está a declaração dele, em solo chileno elogiando a ditadura de Pinochet. Falou de corda em casa de enforcado!
Acrescente-se a isto as desastradas declarações sobre o aumento de impostos, redução da alíquota do IR, os retuites das asneiras escritas pelos filhos, a comparação da crise com o presidente da Câmara, Maia, como sendo uma briga com a namorada. Há ainda a “carta branca” que deu ao Moro e que, depois, o obrigou a “desconvidar” a Ilona Szabó, especialista em Segurança Pública; a falta de posição no caso do laranjal do PSL que afeta o Ministro do Turismo, as idas e vindas (não sei se houve até agora alguma ida, porque me parece que só há retrocessos) no MEC; a presença esdrúxula do ex-aprendiz de astrólogo, Olavo de Carvalho, sentado à sua direita em reunião nos EUA; a continuidade da folclórica Damares no Ministério de Todas as Coisas; o exótico olavete Ernesto Araújo no Ministério das Relações Exteriores. Por falar nele, acho que ele tem sangue de barata. Excluído da conversa do Bolsonaro com o Trump, quando assunto tratado era todo relacionado à sua pasta, saiu-se dizendo que o filho do presidente também tem papel protagônico no trato destes assuntos.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 20 de março de 2019

INVISIBILIDADE URBANA


Todas as tentativas de narrar a pré-história da humanidade mostram pequenos grupos preambulando em busca de caça e alimento. Os grupos, não mais de cem pessoas, quando muito, se fragmentavam quando cresciam, em função da estratégia da busca de sobrevivência, uma vez que, para se ter alimentos e caça para um grande número de pessoas, era mais problemático.
A convivência em um grupo reduzido de pessoas tem a vantagem de se ter relações afetivas fortes, laços de solidariedade e uma rede de proteção e apoio do tamanho do grupo. A pessoa é reconhecida nas suas qualidades e potencialidades. Ela existe socialmente falando!
Por outro lado, os pequenos grupos, pela dificuldade ou até inexistência de relações externas, tendem a se normatizar nos padrões aceitos pelo grupo, a buscar a homogeneização comportamental e de cosmovisão. Nestas sociedades a convivência com o diferente é mínima ou nula. Não há o treino para a vida com a novidade ou o diferente. É uma situação de conforto.
Quando a humanidade começou a se sedentarizar, vivendo mais tempo em um mesmo lugar, quando começou a dominar as técnicas da agricultura e pastoreio, quando o desenvolvimento comunitário começou a experimentar avanços, os grupos puderam crescer e assim fizeram. Agora se tinha mais gente vivendo juntas nos assentamentos onde se lavrava a terra e se cuidava dos rebanhos. O aumento dos grupos introduziu a necessidade da convivência com o diferente (ainda que em pequeno número).
A transposição do modelo rural/pastoril para o urbano trouxe implicações enormes. Cada pessoa teve que aprender a lidar com um número maior de pessoas e desconhecidos, com uma variedade maior de diferentes, com hábitos e comportamentos estranhos. À medida que o grupo aumentava, diminuía a capacidade de estabelecer relações afetivas significativas, menor era o reconhecimento social para a existência, uma vez que, em função da quantidade, o anonimato se instalava. Surgem os “walking deads”: seres que vivem sem vida social, invisíveis para a grande sociedade, não reconhecidos, não vistos, não ouvidos.
A forma de chamar a atenção, de gritar “olhem para mim”, “me escutem”, de chamar a atenção dos transeuntes, é usar penteados espalhafatosos, roupas “descoladas”, enormes brincos, piercings, tatuagens até na testa. Quanto mais invisível a pessoa se sente, mais ela chama a atenção.
Esta análise me vem ao pensar nos recentes episódios de massacre: Suzano e Christchurch, além dos casos de feminicídio resultantes da inconformidade com o fim da relação. Note-se que os atiradores dos massacres queriam “se tornar heróis, reconhecidos”, queriam dizer “eu existo” ainda que para isto, paradoxalmente, lhes custasse a vida! As Deep e Dark Web eram espaços onde encontravam pessoas dispostas a ouvi-los e lhes dar ajuda. A solidariedade para a fama questionável. Os invisíveis sociais ganharam as páginas dos jornais e as telas de televisão. Conseguiram ser vistos e estudados pela sociedade.
Os feminicidas, ao verem uma relação ruir, pela incapacidade de estabelecer novos relacionamentos porque sabem ser invisíveis sociais, matam quem os rejeita. A frustração de não ser ninguém os leva a matar quem, por um tempo, deu-lhes esperança e reconhecimento. Matam quem se interessava por eles, paradoxo dos paradoxos.
Faltam orelhas e olhos na sociedade. Todos de cabeça baixa olhando a tela e, ao redor, milhares pedindo: “olha prá mim!”.
Marcos Inhauser


quarta-feira, 13 de março de 2019

A RETÓRICA E A PARRESIA


Michel Foucault, em uma de suas últimas aulas (01/08/94), fez comentários sobre o exercício da retórica e a parresia (que é o falar a verdade, sem esconder nada). Para ele, “na retórica não há vínculo entre aquele que fala e o que ele diz, mas a retórica tem por efeito estabelecer um vínculo obrigatório entre a coisa dita e aquele ou aqueles a quem ela é endereçada ... está no exato oposto da parresia”.
A parresia, por sua vez” estabelece entre aquele que fala e o que diz um vínculo forte, necessário, constitutivo, ... (que) se abre sob a forma de risco ... entre aquele que fala e aquele a quem ele se endereça. ... aquele a quem ele se endereça sempre pode não acolher o que lhe é dito. Ele pode (sentir-se) ofendido, pode rejeitar o que lhe dizem e pode, finalmente, punir ou vingar-se daquele que lhe disse a verdade”. É o falar sem dissimular.
Voltei a ler estes textos do Foucault em função de coisas acontecidas no passado recente e no presente da política brasileira. Não posso esperar de Foucault uma digressão sobre o significado e as consequências das Fake News, mesmo porque, nada data em deu suas últimas aulas, tal conceito ainda não havia sido elaborado. No que pese a isto, não posso desconsiderar que o termo é mais novo, mas o uso de meias verdade ou mentiras propositais sempre fizeram parte da política. Parece-me que a palavra “demagogia” está muito próxima ao conceito de retórica de Foucault, e é irmã gêmea de Fake News.
No anedotário político brasileiro há inúmeros exemplos de demagogia. Conta-se que Ademar de Barros subia ao palanque e, antes de começar a falar, tirava do bolso um sanduíche de mortadela, para que as pessoas o considerassem uma pessoa do povo. Também se conta que, quando suava em seus discursos, tirava do bolso um lenço e, propositalmente, caía um terço que ele o apanhava no chão e, com toda a reverência, o beijava e o recolocava no bolso. Assim fazia para mostrar que era católico fervoroso. Jânio Quadros afirmava que a Coca-Cola era um veneno e que iria fechar a fábrica e proibir o comercio do refrigerante. Nunca o fez e se sabia que era bravata eleitoreira.
A onda de Fake News, propiciada pela proliferação das redes sociais, onde pessoas reais, perfis falsos e robôs disseminam notícias e inverdades, é algo que está entre o demagógico e a retórica no sentido proposto por Foucault: sem nenhuma relação entre o que “envia as mensagens” e o que “recebe as mensagens”, sem conexão com a verdade dos fatos. Um paradoxo da problemática é que quem condena as Fake News, se vale delas para conseguir seus propósitos, haja visto os recentes episódios, tanto na política brasileira como na estado-unidense.
Exemplo claro desta retórica dissimuladora são os discursos do autocrata Maduro, diagnosticando como ataque do imperialismo ianque o que se sabe é incompetência do falastrão.
Tenho para comigo que os falastrões e Instagramers poliativos (para usar um neologismo para me referir às novas formas de falastrões midiáticos) são mais tendentes a ser retóricos e demagógicos, quando não fabricantes e disseminadores de inverdades ou meia verdades. Exemplo disto foi a controvérsia com o Bebiano, se falou ou não com o pai, quando este estava no hospital e mais recentemente a da jornalista do Estadão.
A parresia tem um preço e parece que os políticos não têm disposição de pagar. Quem paga o pato é o povo que engole meias verdade como verdade final.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 6 de março de 2019

É MUITA CINZA!


É verdade que o uso litúrgico das cinzas como símbolo de arrependimento remonta aos tempos bíblicos. Podemos ver o uso delas no arrependimento em Ester, quando Mardoqueu se veste de saco e se cobre de cinzas ao saber do decreto de Asuero I (Xerxes, 485-464 AC, da Pérsia, que condenou à morte todos os judeus de seu império Est 4:1). Outro personagem, Jó, mostrou seu arrependimento vestindo-se de saco e cobrindo-se de cinzas (Jó 42:6). Daniel afirmou: "Volvi-me para o Senhor Deus a fim de dirigir-lhe uma oração de súplica, jejuando e me impondo o cilício e a cinza" (Dn 9:3). O povo de Nínive proclamou jejum a todos e se vestiram de saco, inclusive o Rei, que além de tudo levantou-se de seu trono e sentou sobre cinzas (Jn 3:5-6). São exemplos do Antigo Testamento que mostram a prática estabelecida de valer-se das cinzas como símbolo de arrependimento.
Jesus fez referência ao uso das cinzas: "Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque se tivessem sido feitos em Tiro e em Sidônia os milagres que foram feitos em vosso meio, há muito tempo elas teriam se arrependido sob o cilício e as cinzas. (Mt 11:21).
Por outro lado, as cinzas também são símbolo de algo que foi destruído, queimado, que virou pó. Elas são a evidência do aniquilamento. “Tudo virou cinzas” é uma expressão que denota derrota, impossibilidade de se recuperar ou ressuscitar.
Quando penso na quarta-feira de cinzas fico entre a cruz e a espada. Não sei se as cinzas, no caso do brasileiro, seriam símbolo de arrependimento ou de aniquilamento. Digo isto porque o Carnaval tem sido um evento nacional que vem ganhando contornos cada vez maiores a cada ano e são exploradas comercialmente as festas que em seu nome se realiza. Muitos cometem excessos de todos os gêneros e pode ser que, ao voltar à vida de trabalho e estudos, se arrependam dos excessos cometidos e por eles peçam perdão.
Parece que o ex-governador Cabral foi acometido do espírito de arrependimento antes da quarta de cinzas. Decidiu entregar os podres de sua administração. Acho que mudou a estratégia para ver se esconde ou sobra algum do arsenal de dinheiro que tem sabe-se lá onde.
Mas o Bolsonaro parece que está fazendo cinzas das suas promessas de campanha. Prometeu que não haveria o toma-la-dá-cá e há fortes indícios de que abriu o balcão fisiológico para, ao menos, aprovar a Reforma da Previdência. Mas ele próprio já está queimando etapas ao explicitar o que pode ser mudado na proposta, antes mesmo de se iniciarem as negociações. A sabedoria virou cinzas!
Também virou cinzas a propalada decisão de não interferir na composição ministerial, dando aos ministros carta branca. O recente episódio do convite feito por Moro a Ilona Szabó e sua defenestração, antes mesmo que esquentasse na cadeira, mostra que a carta branca tem seus pontos cinzas bastante escuros. O mesmo se deu com o Bebiano, criticado por ter marcada na agenda uma reunião com o encarregado das Relações Institucionais da Globo.
Se as redes sociais o alçaram à presidência, estas mesmas redes têm dado balizamentos para suas ações. Mesmo que venha dizer que nenhum dos filhos interferirá no seu governo, parece que o MBL e outros viralizadores de comentários nas redes têm, sim dado a pauta para este governo.
Se o senador Jorge Kajuru votou pedindo a opinião para seus seguidores no Facebook, parece que o presidente está fazendo o mesmo, olhando parcialmente para a opinião pública via Whatsaap e Instagram.
Marcos Inhauser



quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

NOVOS CHAVÕES


O advento da Lava Jato teve o condão de produzir alguns chavões, repetidos à exaustão, que mais parecem mantras. Frases como “as contas da minha candidatura foram aprovadas pela Justiça Eleitoral”, “todas as contas foram declaradas à Justiça Eleitoral”, “vou provar a inocência no decorrer do processo”, “são denuncias feitas por um delator que busca ter redução da penas para os seus próprios crimes”, “é perseguição política”, “a justiça está provando o improvável”, “a condenação desprezou os argumentos da defesa”, etc. 
Neste cipoal de chavões, chama-me a atenção o quanto se usa a Justiça Eleitoral para sacramentar a legalidade de contas escusas. O fato de levar ao TRE ou TSE e receber o carimbo de protocolo, dá aos políticos o argumento da regularidade de suas contas. Digo carimbo de protocolo porque, ao que tudo indica, a Justiça Eleitoral tem uma legislação que mais parece queijo suíço, de tantos furos que tem. Raras vezes as contas de um candidato ou eleito são exaustivamente examinadas, julgadas e, quando o são, muito tempo já se passou e os efeitos práticos da rejeição se tornam nulos. Ela é lenta, omissa, frágil, sem poder coercitivo concreto e suas sentenças são questionadas ad infinitum, perpetuando larápios do erário no controle da máquina pública.
É inadmissível que o Caixa Dois seja até hoje considerado como omissão de informação e não como crime, como deveria ser. Todo mundo da Lava Jato usa o argumento do Caixa Dois para tentar evadir-se da condenação.
Veja o caso do agora presidente do Senado (aquele que veio para ser o novo na política). Reportagem da Folha de São Paulo dá conta de que, há anos, ele vem omitindo informações sobre seu patrimônio imobiliário. Questionado sobre o fato (que se arrasta há mais de uma década) saiu-se com a pérola: “as possíveis imprecisões se devem à morosidade cartorial.” O Cabral argumentou com a chancela do TRE e TSE para as suas contas e alegou Caixa Dois. Parece que a prisão o levou a uma crise de sinceridade e veio agora confessar, com detalhes, o propinoduto que irrigou os seus governos e as maracutaias com as obras públicas.

Quando parecia que o novo ministro da Justiça, o Moro, iria apresentar algo para, enfim, criminalizar o Caixa Dois, incluindo a prática como crime inserida no pacote de medidas que apresentou, sabe-se lá por quais razões, decidiu ceder à pressão e separou o texto da proposta e o encaminhou como proposta autônoma. Os raposas ficaram felizes. Sabe quando será aprovado? Nunca! E não o será porque, quem vai votar a matéria, é uma legião de praticantes contumazes do Caixa Dois e ele não vão votar a própria incriminação.
Outro problema que surgiu nesta última eleição é o laranjal das candidaturas fantasmas. Novos chavões começaram a surgir: “a prestação de contas é de responsabilidade dos candidatos”, “se ela se candidatou, recebeu a verba e teve poucos votos é porque não tinha cacife eleitoral”, “a questão é insignificante”, “mulher não tem aptidão para a política e por isto recebem poucos votos”.
Como pagadores de pesados impostos e pessoas atentas aos fatos da política vamos ter que escutar estas barbaridades. Mas, como diz o ditado, é melhor escutar isto que ser surdo!
Marcos Inhauser

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

OS TRAPALHÕES


Os recentes episódios da política brasileira, tão pródiga em trapalhadas e fonte inesgotável para os humoristas, me levaram a lembrar de uma frase do Platão: “ Quem ocupa um cargo – quer ele próprio o tenha escolhido como o mais honroso, quer nele tenha sido posto por um chefe – tem o dever, na minha opinião, de nele permanecer firme, qualquer que seja o risco, sem levar em conta a morte possível, nem qualquer perigo” (Apologia de Sócrates).
Sabe-se por dados públicos que o Bebiano foi o condutor-chefe da campanha do Bolsonaro, sendo o estrategista de primeira hora, o caixa da campanha e a figura central de tudo quanto se referia à campanha. Sabe-se também que ele e o Carlos Bolsonaro não eram grandes amigos, antes, pelo contrário, se estranhavam a toda hora. Por dedução basilar sabe-se que o Bebiano se candidatava a um cargo expressivo no governo do seu eleito, como “pagamento” pelo que fez durante a campanha, mas não foi dos primeiros nomeados, tendo sido o décimo primeiro. Se ele foi nomeado para o que todos já sabiam que o seria, por que demorou tanto para que seu nome fosse anunciado? O que dizer das notícias de que sua nomeação desagradou o filho mais novo, o Carlos, com quem já vinha mantendo alguns entreveros?
De outro lado, não pode ser desprezada a simbologia da presença do pitbull da família no carro durante a posse presidencial. Tampouco deve ser desprezada a simbologia da sua presença em reuniões do alto escalão executivo (sem que tivesse qualquer cargo no primeiro escalão), e também a sua presença em Davos.
Isto posto, se deve fazer uma avaliação crítica, entendendo que a avaliação e a crítica dos outros (Bolsonaro e Bebiano) tem duas possibilidades: interpretar e assimilar a avaliação crítica e mudar, ou indagar e questionar para extrair o que há de verdade nela. As rusgas entre o Pitbull e o Bebiano foram noticiadas e pouco avaliadas para se extrair a verdade dos fatos. O clímax da tensão feito no post em que o Carlos carimba o Bebiano de mentiroso tem sido alvo de muitas indagações e críticas e a verdade, ao que me parece, ainda não veio à tona. No entrevero Carlos e Bebiano, somou-se o respaldo do pai ao filho. Disto resultou a demissão do Bebiano.
Voltando ao Platão, o Bebiano teria “o dever, na minha opinião, de nele permanecer firme, qualquer que seja o risco, sem levar em conta a morte possível, nem qualquer perigo”. É verdade que ele não saiu, foi saído, o que torna a coisa ainda mais passível de investigações e conjecturas. Alegar “foro íntimo” é fugir da raia. Se o presidente diz que seu lema é o bíblico “conhecereis a verdade e a verdade nos libertará”, ele tem o dever de, em consonância com seu lema, vir a público e dizer a verdade libertadora.
Agora, se ele tergiversa, afaga no “live” que publicou e oferece a ele um cargo em Itaipu, seria esta a forma da nova política que ele se propõe a fazer? Neste céu que não é de brigadeiro, tem muita nuvem escura e a meteorologia política prenuncia chuvas e trovoadas, com deslizes e mais mortes políticas. O que me pasma é que os espaços vão sendo ocupados pelos militares. Isto, para mim, é sinal de que chuvas torrenciais virão!
Marcos Inhauser

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

A HISTÓRIA NÃO É JUSTA


A frase dita por Yuval Harari no seu livro Sapiens causou-me estranheza quando a li por vez primeira. Ao fazer a afirmação, elenca ele uma série de exemplos que corroboram a assertiva. 

Este veredicto me veio à mente nestes dias com intensidade e me obrigando à reflexão. As recentes tragédias que se abateram sobre o Brasil e que envolveram os quatro elementos (sem querer ser esotérico): Terra – Brumadinho; Água – enchentes no Rio de Janeiro; Fogo – CT do Flamengo e Ar – Boechat.

Que justiça pode ser vista nos desastres produzidos pela Vale em Mariana e Sobradinho? É justo tanta gente perder a vida e suas casas e a Vale passar incólume pelo desastre de Mariana e ir se safando das consequências de Brumadinho? Alguém, em sã consciência, acredita que a Vale vai pagar tudo o que está prometendo? Ou que vai se responsabilizar e trabalhar para minorar os impactos produzidos pelos desastres ambientais que provocou? É justo que tanta gente tenha morrido, tantas estejam de luto pela perda de parentes e amigos, por causa da incúria de administradores que trabalham com metas de lucros, sem pensar no humano?

É justo morrer dentro de um ônibus, indo para o trabalho, por uma avalanche que desceu do morro? É justo que as pessoas paguem o preço quando a Prefeitura sabia dos problemas e riscos que havia nas encostas dos morros e nada fez?

É justo um clube de futebol falar em incidente quando o que aconteceu no CT foi negligência, desrespeito continuado à legislação, uso de espaço interditado, material inapropriado na construção? É justo que meninos imberbes tenham suas vidas e sonhos ceifados porque um clube que deve montanhas ao INSS, que desobedece a legislação, que não oferece condições nos alojamentos, que não provê uma saída de emergência, que instala um ar-condicionado com gambiarra, que tenha sido notificado 31 vezes, continue sem ser severamente penalizado?

É justo pagar impostos pesados para ter uma Prefeitura, Estado, Bombeiros, Secretaria de Obras e tantos outros órgãos que nada fizeram para evitar tal tragédia? É justo sustentá-los se eles não interditaram o espaço? Para que serviram as multas? Só para aumentar a arrecadação? Fiscalização mais multa, sem punição efetiva na desobediência é negligência pura.

Para que serve a ANAC, com membros regiamente pagos e ainda com a suspeita de que têm suas vantagens oferecidas pelas companhias aéreas em forma de viagens de cortesia, se ela não fiscalizou a empresa dona do helicóptero que não podia fazer taxi aéreo? Quem contratou será punido? Repete-se, em escala menor, o acidente com a Chapecoense. Provavelmente os que contrataram o Boechat para vir a Campinas para a palestra, foram os mesmos que, para economizar, contrataram a SAE como taxi aéreo, provavelmente por ser mais barata. Assim foi com a Lamia e a Chapecoense que até hoje ainda não teve a indenização paga aos familiares. Quem vai pagar o seguro para os seis filhos do Boechat?

É justo o que o Maduro está fazendo na Venezuela? É justo fechar as fronteiras para evitar que a ajuda humanitária não entre?

Só espero que a reforma da previdência não seja um rosário de injustiças, uma vez que o decreto de posse de armas e alguns pontos do pacote Moro para combater a criminalidade tem seus elementos injustos.

Marcos Inhauser


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

FAZENDO HISTÓRIA


Com certeza você já ouviu ou pronunciou a frase: “estamos realizando um marco histórico”. Pode também ser uma frase assemelhada a esta. Fico estarrecido com a facilidade com que as pessoas acham que o que fazem se tornará fato histórico.
No final do ano um jovem me pressionava para que eu me posicionasse quanto ao então futuro governo do Bolsonaro e a indicação do Moro para o Ministério da Justiça. Eu dizia que não se podia fazer avaliações a priori e que os fatos relacionados à vida política se inserem no campo da história e que estes devem ser avaliados com algum tempo passado. Não se avalia fatos em cima dos atos, mas só o tempo pode dar uma dimensão mais clara da sua importância.
Sem querer atropelar este meu entendimento (que, diga-se de passagem, não é meu, mas o aprendi com outros), quero chamar a atenção para alguns fatos recentes e que poderão e deverão ser objeto de análises futuras porque tem o condão de serem marcos históricos na política brasileira.
Refiro-me à eleição no Senado da República. O Senado sói ser uma casa mais moderada, sem grandes arroubos, mesmo porque formada por gente mais velha e experimentada na vida e na política. Há quem diga que é um poder moderador. No entanto, o que se viu nas duas sessões para a eleição do presidente foi o teatro do horror, com direito a coisas impensadas para a casa senatorial.
A começar pela disputa sobre quem tinha o direito de presidir a sessão. O que estava em jogo eram as pretensões políticas de um raposa da política e com extensa ficha de denúncias de corrupção. Do outro lado, um do baixo clero, sem brilho próprio no tempo em que no Senado está, que, sabe-se lá por que e como, estava candidato, apoiado pelo Ministro da Casa Civil. Havia nesta postulação interesses vários e temo que nem todos republicanos, tal como também se dava com o outro lado da disputa.
A atuação histriônica e infantil da senadora Kátia Abreu é algo digno de nota e que também merecerá avaliação futura, quando os historiadores se debruçarem para avaliar os fatos. Quais os interesses motivaram a ex-ministra do PT a se atirar sofregamente sobre os papeis da presidência?
Neste caldo de fatos inusitados, merecerá também a atenção o papel do ministro do STF, Toffoli, que, mesmo tendo afirmado em seu discurso de início do ano judiciário que deveria ser respeitada a autonomia dos poderes, sem a ingerência de um sobre o outro, profere sentença monocraticamente anulando a decisão plenária do Senado. Qual a motivação que ele tinha em se negar e influir em decisão de outro poder? A história dirá.
Os historiadores também deverão se debruçar sobre a fraude constatada com a presença de votos fora do envelope padrão e com um voto a mais do esperado e regulamentar. Fraude em votação do Senado? Bem, não é a primeira vez e há que se lembrar do problema do painel eletrônico, quando Jader Barbalho e ACM estiveram envolvidos. Quem fez e porque fez, é assunto para historiadores.
Mais estupefaciente foi a decisão do Renan de, iniciada a votação e perceber que seria derrotado, retirou a candidatura porque não queria ter no seu currículo uma derrota acachapante. É o caso do menino dono da bola que, porque não gostou do gol marcado contra a sua equipe, vai embora e leva a bola.
Acho que não preciso esperar para dar meu veredicto (ainda que temerário): há grande chance de termos nos livrado deste câncer da política fisiológica.
Marcos Inhauser

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

O VALE DA MORTE


O salmo 23 é um dos textos mais conhecidos no mundo e muitos o sabem de memória. Usando da metáfora do pastor e das ovelhas, traz algumas lições preciosas que tem sido de alento para muitos, especialmente em momentos de sofrimento.
Algumas coisas, no entanto, precisam ser destacadas para que este Salmo não diga o que ele não quer dizer e nem pode dizer. A primeira delas é que se trata de uma oração humana e não de uma promessa divina. Ainda que esteja na Bíblia e muitos a tomem como palavra de Deus, os Salmos, na quase totalidade, são orações humanas dirigidas a Deus. No caso específico do Salmo 23, mais que uma promessa de Deus de que “nada faltará”, que haverá “pastos verdejantes”, “águas tranquilas”, consolação no “vale da sombra da morte”, devemos entende-lo como desejo e súplica humanas. Quando estamos no sufoco, no vale da sombra da morte, queremos ser guiados para águas tranquilas e comida farta.
Com certeza, este Salmo está sendo recitado, clamado, e tem provocado muitas lágrimas ao lê-lo, especialmente pelos que estão diretamente relacionados com a tragédia de Brumadinho. Estão todos no “vale da sombra da morte”, assim como estiveram os moradores de Mariana.
Com o perdão do trocadilho, ocorre que a Vale é a sombra da morte e nela não há conforto algum, haja visto que até hoje ninguém responsável pelo desastre de Mariana foi punido, as famílias continuam sem ter onde morar e as desculpas se multiplicam. Agora vem o vale de Brumadinho que se transformou em vale de morte por incúria da Vale.
Neste turbilhão de fatos, notícias, opiniões, pareceres, diagnósticos de especialistas, percebe-se por parte de gente mais proximamente relacionada aos fatos que há uma batalha de palavras. Uns falam de tragédia anunciada, outros de tragédia, outros que foi um acidente e há quem tenha o desplante de dizer que foi um incidente. Vem o outro dizer que a barragem estava inativa há três anos, que há laudo de setembro atestando a estabilidade do sistema, que havia planos de fuga, etc. Nada disto é “vara e cajado” que consolam. A Vale é especialista em pegar os pastos verdes e entregar às suas ovelhas os dejetos da grama que come. Onde a Vale está, as águas não são tranquilas, mas vales de morte. Mariana e Brumadinho vão competir com o vale egípcio onde se enterravam os faraós: aqui vai ter muitos mais corpos sepultados.
Se Deus é onipresente, a Vale tem seu sentido de onipresença, porque está por toda parte, especialmente em Minas Gerais. Ela foi uma benção (dádiva) gestada pelas privatizações do governo FHC, vendida na bacia das almas a preço irrisório. O que era para ser um Vale de Benção se transformou em cemitério.
No marketing da empresa divulgados recentemente se fala da Vale com o abuso do prefixo “re”: reinventar, redescobrir, etc. Faltou falar de “reincidir”. A Vale vem se mostrando especialista em reincidir nas práticas delituosas e criminais de morte no atacado e crime ambiental. Acho que a Vale não se recupera. Tá viciada no lucro a qualquer custo, mesmo que sejam vidas humanas.
Haverá algum consolo para os que foram afetados? Haverá cajado (disciplina) para os responsáveis? Eu de minha parte, baseado nos fatos anteriores, não tenho esperança.
Marcos Inhauser


quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

O FALAR A AMIGOS E INIMIGOS


Há duas máximas que as aprendi na juventude e que me marcaram muito, servindo como parâmetros para minha vida.
A primeira me foi ensinada em sala de aula, ainda na adolescência, pelo professor Luisão, quem, mais que um professor de matemática, era um amigo dos alunos. Ele nos aconselhou dizendo que quando a gente está diante de uma pessoa que quer nos incriminar ou julgar e ela faz perguntas, nunca se deve responder completamente à sua pergunta. A sua máxima era: “diante da pergunta do inquisidor, sempre dê a resposta pela metade”. Ele justificava esta sua orientação dizendo que quanto mais se fala, mais estaremos dando munição ao oponente. Constatei isto durante minha vida.
A segunda eu a aprendi em uma situação não muito agradável, mas que me marcou profundamente. A máxima aprendida foi: “Ao amigo não é preciso explicar, ao inimigo, não adianta explicar”. A razão para este procedimento é que o amigo, verdadeiro amigo, não precisa de explicações para continuar seu amigo. Ele entende, ele apoia, ele quer te ver saindo para frente. O inimigo, por outro lado, nem com mil boas e fundamentadas razões vai se convencer. E não se convence porque já tem opinião definida.
Ao ler certas passagens da vida de Jesus, quando foi ele inquirido por seus opositores, assumiu a posição de falar o mínimo possível. Quando lhe perguntaram se era lícito pagar tributos a César, laconicamente respondeu: “dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Quando curou o paralítico trazido pelos quatro amigos, mencionou o perdão dos pecados ao que foi censurado pelos doutores da lei. Outra vez, laconicamente, disse: “o que é mais fácil fazer? Perdoar pecados ou dizer toma teu leito e anda”? Diante de Pilatos, ao ser perguntado se era filho de Deus, ele foi ainda mais comedido; “Tu o dizes”.
Há uma terceira máxima que aprendi na caminhada: quando uma pessoa explica uma coisa e volta a explicar e explica pela terceira vez, as explicações são falaciosas. É uma tentativa de convencer pela insistência na repetição da história. Quando você analisa com cuidado as narrativas repetidas, percebe que cada uma delas acrescenta algo mais, que, não raro, atropela os fatos. A Lava Jato e seus depoimentos são exemplo desta máxima. Algo me diz que as explicações do Flávio Bolsonaro se enquadram neta máxima. Cada explicação dada tem levantado mais dúvidas que esclarecimentos.
Estas considerações me levam a lembrar um cartaz pregado na parede, muito mal escrito e que estava na tipografia em que trabalhei: “Nunca vi um ganhador em uma discussão”. Acho que foi neste contexto que o sábio veterotestamentário disse: “O falar é prata, mas o calar-se é ouro”. Há sabedoria no falar pouco, no silêncio.
Li uma enquete com respostas à pergunta; O que é luxo? Uma das respostas foi: “o silêncio é luxo e este luxo poucas pessoas sabem desfrutar.”
Silenciar-se diante do oponente ou do inimigo não é fraqueza, é estratégia. O opositor não sabe lidar com o luxo e a sabedoria do silêncio.
Marcos Inhauser


quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

AMIZADE NÃO É IOGURTE

Uma das coisas mais preciosas do ser humano é ter amigos. Ainda que outras espécies animais tenham seus relacionamentos, façam suas alianças e vivam em bandos ou grupos, falta-lhes a capacidade de ter e ser amigo. Amizade é algo divino, algo que tem a ver com a Imago Dei que o relato da criação diz que temos. Muito já se discutiu e se refletiu sobre o significado desta imagem e semelhança de Deus em nós. Há quem diga que é a nossa conformação trina (corpo, alma e espírito), há quem diga que é o desejo da adoração do ser superior que só os humanos têm, outros afirmam que é a capacidade humana de estabelecer comunicação em nível superior. Outros dizem que é a capacidade humana de planejar, de pensar no futuro, de mudar a cultura e interferir na história. Tenho pensado que é a capacidade humana de se relacionar em níveis altruísticos e estabelecer laços afetivos não erotizados.
A amizade se inclui nisto. Ela é algo indefinível na sua totalidade, mas experienciável em sua plenitude. Ela é algo que não é como iogurte que tem prazo de validade curto. Ela não é namoro e acho que é mais sublime que ele. Ninguém pede alguém em amizade, tal como ocorre no namoro, noivado ou casamento. A amizade tem geração espontânea: acontece! Não busca a reciprocidade: ela é doação incondicional. A amizade não é ciumenta, nem grudenta, nem supervisora, nem asfixiante. Ela é amizade e ponto final.
Amigos não precisam se ver a toda hora. Basta saber que são amigos e que um pode contar como outro sempre que precisar. Ela é uma relação bilateral de ajuda, onde o equilíbrio do dar e receber é uma constante. Amigo que só explora, que é folgado, que “encosta”, que não se dispõe a dar sua cota, é chupim e não amigo. Amigo enriquece pelo que traz de conteúdo e conhecimento à relação. Ele ensina e aprende com a relação.
Não há divórcio nem separação de bens na amizade. Se algo acontece e ela é rompida, cada qual vai para o seu lado e as coisas se acertam. Podem ficar algumas rusgas, mas nunca soube de um processo por danos e perdas porque uma amizade terminou.
Amizades são como carvalhos: árvores longevas que sempre têm sombra para aninhar os cansados. Pode haver tempestade, ventos fortes, muita trovoada, mas lá está o carvalho. Assim é o amigo. Amizade é como vinho: vai pegando mais sabor com o tempo. A idade adoça as amizades, tira o adstringente, acrescenta o amaderado. A amizade não exige encontros constantes: o amor, se não está em constante contato com a pessoa amada, esfria. A amizade não. Ela se mantém.
Velhos amigos não são, necessariamente, os amigos velhos, ainda que a relação tenha certa constância. Amizades existem para durar. Feliz a pessoa que tem amigos de longa data. O tempo pode tirar de nós algumas amizades, porque somos finitos. Perder um amigo é perder alguém que é mais que um irmão. Bem diz a Bíblia que há amigos mais chegados que um irmão. Cultivar e celebrar as amizades é sinal de sabedoria!
Ontem soube que um grande amigo, o Gerson Urban, está na UTI em estado grave. Levei um baque! O Gersão é destes amigos que nos falamos de tempo em tempo e, quando nos encontramos, é uma festa. Doeu saber da saúde do Gersão. Mas também foi o aniversário do Christian, outro amigo de longa data. Poucos nos temos falado e encontrado, mas sei que a amizade não se definhou, antes, o respeito de um para com o outro cresce cada vez mais.
Aos meus amigos (que não são poucos), a minha gratidão por este amor que é ágape!
Marcos Inhauser