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quarta-feira, 17 de março de 2021

LINGUAGEM E IDENTIDADE

Vi, hoje de manhã, notícia dando conta de um programa desenvolvido pela USP-São Carlos, que “faz correções na redação e dá notas” muito próximas às do ENEM. Lembrei-me que, em 1992, quando vivia nos Estados Unidos e devia escrever minha tese para o mestrado, comprei o Gramatik, que se propunha a me ajudar no inglês, especialmente preocupado que estava com as questões das preposições. Ele me ajudou parcialmente, pois o sistema ainda era precário.

Mais tarde, passei a utilizar alguns outros recursos e, quando tenho que escrever em inglês, utilizo outro programa, que tem me alertado para uma dimensão que não havia me preocupado. Ele refaz minhas frases, inverte a ordem das minhas palavras, para me ajudar a ser mais natural, profissional ou técnico na escrita. Comecei a perceber que o que saia não era eu. Era outro ser dizendo o que eu gostaria de dizer. Mais: comecei a me perguntar se o que “escrevo” ao final destas “correções” não é o estilo médio de todo o mundo e minha identidade se perde?

Jaques Ellul em seu livro A Palavra Humilhada, já alertava para esta dimensão da mesmerização da linguagem. Passei a falar a linguagem que não expressa os meus sentimentos, emoções, minha versão da história. É um discurso escorreito na construção, mas sem identidade. Comecei a me preocupar: estava perdendo minha identidade. Ellul chama a atenção que a TV, ao eliminar o texto escrito, faz perder o rigor das palavras. A profusão das imagens como que assassina o polissêmico das palavras proferidas pelo personagem/autor das histórias.

Ao ser colunista, tenho que expressar o que penso, sinto, entendo, critico e valorizo. Isto deve ter minha identidade. Não posso escrever o que esperam que eu escreva ou que gostariam que escrevesse. Nas reações que recebo ao que escrevi, vejo uma certa simetria nos comentários, especialmente os que me criticam, como se o que dissessem são fruto de uma mesma fonte, sem o toque da individualidade criativa.

Preocupado com isto e, diante de algumas mortes de pessoas de meu círculo de relações, chamou-me a atenção para as mensagens de condolências postadas. Uma profusão de jargões religiosos, repetição do óbvio, coisa sem identidade, sem sentimento explícito. “O discurso religioso só adquire vida quando serve de apoio e de lançamento de uma palavra pronunciada, anunciada, proclamada, atual, viva, porque saída agora das páginas de um livro para voar em direção a um ouvinte” (Ellul, pg 48)

Há outra dimensão. O discurso de todo poder totalitário é justamente silenciar a novidade da linguagem. Ele utiliza a linguagem de baixo nível para se comunicar com quem tem visão reduzida de mundo. Como disse o Wittgenstein: "os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo". Onde a linguagem é obrigada a silenciar, aí encontramos a humanidade diminuída, humilhada. A censura é um estupro comunicacional. O “cala-a-boca” é um ato de assassinato do outro pela imposição do silêncio que o priva da fala identitária.

Estudando a história da Igreja para dar um curso sobre os Pré-reformadores e Reforma, percebi que a palavra na Idade Média é uma fala mecânica, repetitiva, sem nexo com a realidade da vida. A linguagem da Reforma era mais cheia de vida, com densidade emocional e que respondia às angústias dos ouvintes. Não é para menos que Lutero tenha dito, diante da repercussão de suas teses, que os anjos se encarregaram de proclamá-las.

A palavra vai sendo humilhada nas postagens das redes sociais. O Ellul não viveu para ver esta fábrica de mesmices. Se tivesse vivido, teria morrido de infarto.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 10 de março de 2021

LEMBRADO PARA SEMPRE

Uma das necessidades intrínsecas do ser humano é a da realização. Todos precisamos fazer algo para dizer que fomos nós que o fizemos. Em certa medida, somos avaliados pelo que fazemos, mais do que somos ou temos. A crise da meia-idade no homem fica mais acentuada se, ao olhar para trás, ele não fez nada do que possa orgulhar-se.

Esta necessidade é irmã gêmea de outra, a do reconhecimento. Precisamos ser reconhecidos como pessoas que somos, atuantes e fazedoras. Se alguém faz algo sem que ninguém note o que ele está fazendo, deixará de fazê-lo depois de um tempo, salva se for um louco totalmente desligado da realidade. O trabalhado invisível é um mito. Todos, sem exceção (pelo menos na minha ótica) precisamos de alguém que saiba do que fazemos. Isto leva a uma regra do trabalho: toda pessoa que faz qualquer coisa sem ter que reportar a alguém, ou deixará de fazê-lo ou nunca o fará com excelência.

Todos sonhamos em fazer algo que nos perpetue na memória dos outros. Com facilidade incrível dizemos que isto ou aquilo é um “marco histórico”, “algo que vai entrar para a história”, porque necessitamos crer que nossos atos serão lembrados ad eternum.

Estas considerações servem para introduzir minhas reflexões sobre a história da teologia e o seu processo (e)(in)volutivo.

Este processo de pensar o como a teologia foi feita e como ela se consolidou vem tomando minha atenção há muitos anos. Se me lembro bem, ainda estudante de teologia, fiz um curso de teologia patrística, tentando entender como os pais da igreja pensavam a sua fé. Lembro-me que fiquei estupefato ao ler o “Pastor de Hermas” e a “Didaque” e perceber como havia nestes escritos uma grande ênfase nas obras como asseguradora da salvação. Mais do que isto, percebia, ainda que não sei se corretamente, como certas colocações cheiravam à necessidade das obras para a própria salvação.

Desta preocupação nasceu o desejo de ler tudo quanto me foi possível sobre o período patrístico e notadamente sobre as perseguições aos cristãos. Chamou-me a atenção as “Atas dos mártires de Lião”, notadamente a descrição da morte de Blandina. Também a carta enviada por Policarpo aos crentes de Roma, pedindo que não impedissem o seu martírio, porque cria-se que a morte sacrificial por causa do testemunho da fé cristã era forma infalível de garantir a salvação. Mais que tudo, queriam ser lembrados como mártires, e o são.

Recordo que eu me perguntava como o ensino da graça do evangelho de Jesus pode, em tão pouco tempo ser desvirtuado para uma salvação sinérgica, onde trabalho humano e graça divina atuam conjuntamente para a eficácia.

Este processo de desvio se acentuou com as reflexões agostinianas que, ainda que calcada na graça irresistível de Deus, acentuou a obra humana não para a salvação, mas para a santificação. Sou salvo pela graça e isto me capacita para viver atuando de forma a ter uma vida santa. Isto fica evidente no seu livro Confissões, onde o tema do pecado sexual é levado ao paroxismo.

Trago isto à baila porque vejo a quantidade de gente buscando holofotes, querendo ser visto, conhecido e reconhecido, mas que nada vão deixam de se significativo. Não souberam ser benção na vida dos outros, não construíram algo que fosse além de suas vidas. Passaram pela vida em brancas nuvens, a ninguém abençoaram, e deles se esqueceu.

Marcos Inhauser

 

quarta-feira, 3 de março de 2021

OS IDIOTAS ESTÃO PERDENDO A MODÉSTIA

A frase não é minha. É de Nelson Rodrigues, um profeta não templário que o Brasil já teve.

Lembrei-me dele e sua genial frase ao ler alguns comentários postados em blogs de jornalismo de opinião, onde proliferam coisas loucas, com crassos erros de grafia, concordâncias verbal e pronominal, de conjugação verbal (especialmente quando se trata do subjuntivo). Não é necessário dizer que a lógica também é assassinada na grande maioria dos comentários.

Alguém já disse (e não consigo me lembrar quem foi) que as redes sociais abriram os bueiros sociais para que os ratos e baratas saíssem à luz do dia. A proliferação da população opinativa cresceu a taxas geométricas.

Com onze anos idade passei a trabalhar em um jornal. Na adolescência lia três a quatro jornais por dia (e quando do digo “lia” era porque eu lia mesmo). Uma das seções preferidas era a de cartas ao leitor, onde eu via a palavra discordante, o raciocínio bem embasado de pessoas que se preocupavam para escrever ao jornal, mesmo não tendo a certeza de que sua carta seria publicada. Havia até quem reclamava que nunca teve uma carta sua publicada. Sabia disto porque estava dentro da redação.

Naqueles tempos, a opinião era enviada por carta selada e postada, com nome, RG e endereço do missivista. Sem isto, não eram nem consideradas. As cartas eram abertas e previamente selecionadas, e depois o editor do espaço se encarregava de fazer a seleção final e decidir pela publicação ou não. Havia, assim, um filtro. Babaquices, críticas amargas ou azedas, textos confusos não eram publicados, por mais que o missivista enviasse outras tantas reclamando. Ele não tinha “nível” para que sua carta fosse publicada.

Havia quem se especializava em redigir para a seção de “cartas ao leitor”. Li, certa feita, que Carlito Maia (pelo que tenho de informação, era filho de Orosimbo Maia) era a pessoa que, no jornalismo brasileiro, mais teve cartas publicadas e era celebrado pelo conteúdo e qualidade do que escrevia.

O advento das mídias sociais escancarou a coisa. O filtro de um editor foi suprimido e o que se tem é uma avalanche de babaquices, obviedades, coisas sem sentido, teorias conspiratórias, apocalipsismos e milenarismos. Tem-se o cúmulo de alguém defender a volta do AI-5 e pedir a liberdade de opinião, pedir a proteção do STF quando o AI-5 limitou a atuação da corte suprema.

O que se teve foi também a multiplicação de canais “informativos”, onde as notícias são tratadas com viés ideológico de direita ou esquerda, e a verdade sendo tratada ao gosto e interesse de cada um. Surgem os noticiosos de direita, de esquerda, mas o jornalismo investigativo, que publica somente o que é comprovado, é tratado como fábrica de mentiras e distorções. Jornais seculares, com ampla história de serviços prestados, são tratados como se lixo fossem e o encerramento deles é pedido em público.

Na minha experiência, os que tem me atacado nas redes sociais, vou ver o site ou o Facebook deles. A quase totalidade não é de geradores de conteúdo, mas repetidores de memes e reportagens sem lastro na realidade ou em investigações sérias.

Mais: são pertencentes a guetos minoritários de quem se julga dona da verdade, com o direito de ofender. Não raras vezes se escondem no anonimato.

Sinal dos tempos.

Marcos Inhauser

 

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

OS ADJETIVOS NÃO O ADJETIVARAM



No sábado dia 13 faleceu Aziz Miguel João, um tio que ganhei por ter me casado com sua sobrinha. Eu o conheci há 48 anos e aprendi a admirá-lo porque ele tinha qualidades que eu não tenho e o invejava por isto. Nunca o vi bravo e nunca soube de alguma vez que ele tivesse ficado bravo. Isto não significa que tivesse sangue de barata, antes, pelo contrário, tinha seus valores e princípios e não claudicava em preservá-los e vivenciá-los.

Conheci sua mãe, seus irmãos, irmã, sobrinhos, alguns cunhados, primos. Nunca ouvi de nenhum deles uma palavra que fosse alguma crítica ao Aziz. Uma única pessoa lhe fazia alguma restrição porque lhe pediu dinheiro emprestado e ele disse que não emprestaria. A pessoa achava que ele tinha a obrigação de emprestar. Assim era ele: sabia posicionar-se e as pessoas não o viam bravo, irritado, mas sabiam sua opinião e decisão.

Comerciante, teve negócios em Jales, onde viveu boa parte de sua vida. A primeira etapa da vida ele a viveu em Urupês, tendo se casado com a Hania. Depois do casamento é que se mudou e radicou em Jales. Pessoa conhecida e respeitada na cidade por sua honestidade e comprometimento com os princípios evangélicos, foi membro atuante na Igreja Batista. Fazia dos carros que possuía um ministério, conduzindo gente das periferias para assistir aos cultos. Durante a semana visitava cidades vizinhas para levar pregadores e começar novos trabalhos. Não me lembro de alguma vez tê-lo visto pregando e nunca soube que o fizesse. Gostava, sim, de cantar. Tinha voz forte e afinada. Também se arriscava a tocar alguma coisa no piano e no teclado.

No seu sepultamento, por concessão do poder público e pela notoriedade dele na cidade, permitiu-se que o corpo fosse velado no templo da igreja que ele frequentou durante todo o tempo que viveu em Jales. Lá estive e fui vendo as pessoas que se acercavam e ouvi muita coisa que elas disseram às filhas, esposa, netas, neto. Todos exaltando a vida e qualidade do falecido. Comecei a pensar que, como nunca havia visto antes, ninguém precisava exagerar ou mentir para falar dele. Ele não ficou santo depois que morreu: ele já era um santo em vida. Ele era tudo o que as pessoas falavam dele e todos os adjetivos usados não conseguiam dimensionar o caráter, a natureza, a índole e a benção que ele foi na vida de muita gente.

Ele nunca leu Dietrich Bonhoeffer, o teólogo alemão que afirmava que “a missão do cristão é ser Cristo para o outro”. Mesmo sem ter lido Bonhoeffer ele encarnou como poucos que eu conheço esta máxima missional: ele foi Cristo para todos os que cruzaram seu caminho.

Deus me deu a benção de conhecê-lo e conviver com ele nas muitas vezes que o visitei. Algumas destas vezes cruzamos a praça que havia em frente à sua casa, no centro comercial da cidade. Atravessá-la era um exercício de paciência, pela muitas vezes que era abordado e as pessoas queriam saudá-lo e contar alguma coisa, quase sempre da família, pois ele se interessava pela vida familiar das pessoas que a ele se acercavam.

Já ouvi muitas vezes pregadores e leigos dizerem que viver a vida cristã é difícil, é um fardo, cheio de abnegações. Conviver com o Aziz era perceber que a vida cristã é uma alegria e felicidade para quem a vive na intensidade do amor ao próximo.

Ele era uma pessoa que irradiava alegria e felicidade. Ele “sorria com os olhos”.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

MIL E POUCO

Se não errei na conta, estou escrevendo a 1004ª. coluna para o Correio Popular. Já são quase 20 anos de escrita contínua, com um único período de férias, quando fui muito bem substituído pela Rute Salviano Almeida, pesquisadora e autora de vários livros sobre o papel da mulher na história da Igreja.

Comecei a escrever por indicação da jornalista Maria Tereza Costa. O meu compromisso era que não receberia nada em troca pelo meu trabalho semanal (nem mesmo uma assinatura do jornal!), para que eu pudesse ter liberdade. E assim está sendo até agora: nunca recebi um centavo e faço isto com dedicação e orgulho. Há quem me perguntou se era assalariado do PT, se era comissionado na Prefeitura, se ganhava do PSDB. Tais insinuações se deviam a mentes tacanhas que julgam que não posso ter opinião própria: tudo o que penso e escrevo deve ter um pagamento por trás.

Nesta relação tive muitos contatos com os editores para sentir como estava sendo recebida minha coluna, umas duas ou três vezes fui alertado de que o que eu escrevi poderia me trazer problemas judiciais e, em comum acordo, troquei a mensagem escrita, pois vi sabedoria no conselho que o redator me dava.

Umas poucas vezes falhei em escrever. Houve um tempo, logo no início que eu tinha que levar para a redação um disquete com o arquivo. Com o advento da internet as coisas foram facilitadas. Algumas vezes não consegui enviar o arquivo e isto se deveu a viagens. Onde estava não tinha internet para mandar o arquivo (isto ocorreu com mais frequência há vários anos, quando a internet era produto de luxo e não se achava em qualquer lugar). Em outras ocasiões eu ligava para a redação e pedia prazo estendido para enviar, porque, em viagem, só chegaria em casa depois das sete da noite. Sempre fui atendido com a gentileza das pessoas que me atendiam.

Já escrevi aqui que colunista não pode ter medo das críticas. É virar vidraça. Quando o colunista coloca em público e ao público as suas opiniões políticas e religiosas, fatalmente haverá quem discorde. Há os que discordam e o fazem saber em termos polidos. Há os que, discordando, julgam que atacar e ofender é o meio mais eficaz de ser ouvido.

Recebi muitos e-mails. Alguns concordando e muitos discordando. Entre os que discordavam, lembro-me de um que me escreveu uma série de e-mails. Ele lia e não entendia o que eu havia escrito, ou deduzia maniqueisticamente o que eu havia escrito. Quando critiquei o Bush pela guerra contra o Talibã, ele me chamou de comunista e terrorista, como se criticar a decisão do presidente me colocasse necessariamente como favorável à outra parte. A lógica dele era: se ele é contra A, só pode ser a favor de B. Silogismo falso.

Certa feita fiz um comentário en passant sobre o Foucault. Um leitor me escreveu criticando a citação e me enviou um compêndio, de sua lavra, com críticas ao filósofo. Por se tratar de um estudioso e mestrando na área eu o li e, diferentemente do que ele pretendia, eu fui ler mais coisas do Foucault e hoje sou um fã dele. Tenho pessoas que me enviam coisas que acham interessantes e que podem ser subsídio. A todos que me escrevem, eu respondo.

Desde o início assumi que escreveria sobre política internacional, nacional, local, sobre religião e igrejas. Assim tenho procurado fazer.

Das coisas que hoje faço, a que me tem dado mais alegria e satisfação é escrever esta coluna semanal. Em abril, na Semana Santa, completo 20 anos. Sinto-me realizado! À Tereza, os meus agradecimentos por ter me indicado.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

SENTADOR GERAL DA REPÚBLICA

O Brasil é um país capaz de produzir figuras públicas exóticas. O aparecimento do Odorico Paraguassú e sua cidade Sucupira são o exemplo de que, imitando situações reais e criando as hipotéticas, no Brasil se tem de tudo.

Nos tempos do Fernando Henrique Cardoso havia o Geraldo Brindeiro que foi galgado ao posto de Procurador Geral da República. De tão leniente em investigar as denúncias que à Procuradoria chegavam, ganhou o apelido de “Engavetador Geral da República”. Barrou uma investigação sobre o Dossiê Caribe (que depois, afirma ele, revelou-se uma farsa) e mais onze inquéritos contra Antonio Palocci que, depois, se revelou um sujeito com muitas revelações para dar na delação premiada.

Como a produção não para, tivemos nos últimos anos o “Sentador Geral da República”, o deputado Rodrigo Maia, agora ex-presidente da Câmara. Recebeu sessenta pedidos de impeachment contra o presidente e, ao que se sabe, não leu nenhum deles e nunca deu seguimento a eles. Tenho para comigo que uma pessoa que tem sessenta pedidos de impeachment, vindo das mais variadas fontes da sociedade, alguma coisa o presidente da Câmara deve fazer. No mínimo devia explicações das razões pelas quais ele sentou em cima dos processos.

O Maia, sujeito ensaboado, me faz lembrar da brincadeira nos sítios em tempos de Festa Junina, quando se ensebava um porco e as pessoas saiam correndo para pegá-lo. Assim é o Maia: liso até não mais poder. De tão político e muralista, perdeu a credibilidade e não conseguiu eleger o seu sucessor. Sai apequenado da presidência.

Também balança as alianças que estavam sendo costuradas para 2022, especialmente na aliança do Maia com o Doria, com o apoio dos Democratas. A coisa implodiu. O presidente da sigla, ACM Neto. decidiu, em cima da hora, deixar-se cooptar (há informações de que lhe ofereceram o Ministério da Educação que tem um ministro anódino, que já afirmou que está lá para ser pastor e não político). Com isto, a confirmar-se o que alguns deputados do DEM andam dizendo (palavra de político é como água de rio, cada vez que se olha é uma novidade), tem gente que vai bandear para o PSDB. Isto fortaleceria o Doria no partido e lhe daria algum alento, mas, se entendo das coisas, vai perder o tempo de televisão que o DEM tem para que possa alavancar a sua candidatura.

O ato de Maia de aprovar o bloco depois do horário regimental e que foi anulado pelo primeiro ato do novo presidente, mostra a dimensão da guerra que será o parlamento nos próximos dois anos, quando todos estarão concorrendo à reeleição. Mais que interesses da nação, aflorarão e prevalecerão os interesses pessoais. Será um tanto de gente fazendo discurso e disputando os holofotes que ficaremos enojados com a hipocrisia.

Quando o atual Congresso foi empossado e com a quantidade de novos legisladores de primeiro mandato, acreditou-se que haveria mudança nos hábitos parlamentares brasileiros. Passados dois anos, algumas estrelas da nova legislatura se apagaram, novos líderes foram removidos, a velha guarda entrou em ação, o Centrão se vendeu uma vez mais (ou voltou ao poder onde está há bom tempo).

Isto me faz lembrar de um consultor que li em livro que escreveu. Ele afirma que a mudança de cultura, seja em empresa, instituição, igreja ou, aqui no caso, parlamento, não se faz por passe de mágica, nem com pó de pirlimpimpim. Toma tempo e muito compromisso com uma nova ordem de coisas. Os antigos caciques se apagaram (Jader Barbalho, Renan Calheiro, Paulo Maluf, Sarney, José Serra e muitos outros). Nem por isto o fisiologismo deixou de ter seu espaço e o Sentador Geral da República é um sucedâneo da velha política, com cara de novo. Só a pressão popular pode fazer mudar.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

ILOGICIDADES DA FÉ

O casal, ambos com pouco mais de 70 anos, foi infectado com o Sarscov-2. Os filhos levaram o casal ao Pronto Socorro, o casal foi medicado e voltou para casa. No outro dia voltaram, marido e esposa foram internados.
Como eram inscritos em alguns grupos de WhatsApp onde compartilhavam coisas relacionadas à fé (tais como memes de versículos bíblicos, mensagens de pregadores famosos, música gospel), uma das filhas avisou nos grupos que a mãe e o pai foram hospitalizados. A coisa começou a ferver com gente dizendo estar orando. Começaram a chover jargões religiosos de cunho motivacional: “Deus está no controle”, “mesmo no vale da morte Ele está conosco”, “tudo podemos em Deus”, “praga nenhuma alcança quem tem fé”, “tudo o que dois ou três concordarem em pedir em Meu Nome, será concedido”, e uma infinidade de outras frases de mesmo sentido: “quem crê tá livre do mal.”
Diariamente, a filha municiava os grupos com informações sobre a saúde dos pais. Repetiam-se os ícones de mão juntas (em sinal de oração), carinhas tristes e outras mais. Os jargões se repetiam.
O quadro de saúde de ambos se deteriorou e a mãe veio a óbito. Nos grupos de WhatsApp proliferaram as mensagens de luto, todas clássicas: “Deus a chamou”, “agora ela está melhor que nós”, “Ela era um anjo aqui na terra e Deus a chamou ao Seu lado”, etc. Nenhuma palavra sobre o fato de que as muitas orações não tenham sido respondidas, nem sobre a falácia dos jargões motivacionais.
O pai continuava internado, UTI, prona, intubação, sedação. A cada dia, a filha postava notícias sobre ele. Os jargões se repetiam. Parece que ninguém se dava conta de que eles não funcionaram com a mãe.
Uns dez dias depois, o pai apresentou quadro de leve melhora e saiu da UTI. Houve celebração: “Deus ouviu nossas preces” era o mais comum. “Vamos orar forte pela saúde dele que Deus vai nos dar a vitória”. No dia ele teve alta, houve uma explosão de “Glórias”, “Aleluias”, “louvado seja Deus”, “nossas orações foram ouvidas” e coisas parecidas.
Uma das participantes escreveu algo mais ou menos assim: “O Fulano é um guerreiro, Deus deu a ele a vitória sobre esta enfermidade. Nós oramos juntos em uma batalha de oração, vencemos e agora celebramos a vitória da fé”.
Ninguém se perguntou: se ele é um guerreiro porque teve alta hospitalar, significa que a esposa era fraca? A fé do marido é maior que a da esposa, por isto ele foi curado e ela morreu? As orações feitas pelo marido foram mais fortes que as que foram feitas pela esposa? Em que medida a oração muda os planos de Deus para a vida de uma pessoa? O pai era mais importante para a saúde emocional dos filhos que a presença da mãe?
Perguntar não é pecado. Se analiso as atitudes da fé neste caso específico não sou herege. Não tenho resposta para as questões que eu mesmo levanto, mas de uma coisa sei: há uma fé enfermiça nos arraiais da religiosidade. Também não quero dizer que a fé mais racional seja mais fé que outra. Entendo e aceito que a fé tem forte componente emocional e certo nível de crença no impossível, o que, pode ser, em alguns casos, sinal de certa irracionalidade. O que critico é a banalização da fé via jargões motivacionais sem sentido, sem prática comprovada e sem análise avaliativa das vezes em que foi empregado e o resultado que produziu.
Como pastor que lida com expressões de fé cotidianamente, muitas vezes me perguntei em que falhava ao ver que muitas das minhas ovelhas eram verdadeiros bonsais: ficam velhas e não cresciam. Pareciam maduras, mas era ingênuas e infantis. Tenho para comigo que o método educacional mais usado nas igrejas, notadamente as denominadas evangélicas, é o da pregação. Pesquisas por mim feitas e por alguns de meus colegas, constatam que a maioria não se lembra na segundo qual foi o sermão do domingo.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

HE IS A LOOSER

Quando morei em Chicago, ouvi a expressão algumas vezes. Sempre a tomei como adjetivo inofensivo. Estranhava a facilidade com que se dizia que o outro era um “idiot”. Isto, para mim, era pegar pesado.

Com o tempo percebi que o termo “idiot” não tem o mesmo peso e negatividade que tem no português. Da mesma forma a palavra “estupid”. Virou famosa a frase de James Carville em 1992, dirigida aos trabalhadores da campanha de Clinton.

Um dia, conversando com um executivo eu o ouvi, irado, chamar de looser a pessoa que ele estava detonando. Meio embasbacado com a expressão, pedi a ele que a refraseasse, para que eu a entendesse melhor e ele me disse: não há outra melhor “looser, looser, looser.”, reiterou enfaticamente.

Percebi que não tinha entendido o peso da expressão. Ao invés de pegar o sentido no original, estava traduzindo. Mais tarde vi duas pessoas discutindo. Quando uma delas se referiu à outra como looser, a ofendida partiu para as vias de fato.

Nestes dias ouvi a expressão aplicada ao Trump: ele perdeu a eleição, todas as ações judiciais que impetrou, o apoio de parte do seu partido, a presidência, a pose, o discurso, o Facebook, o Instagram, Twitter, o Parler, a votação do segundo impeachment, vai perder no Congresso, perdeu a casa onde morava porque despejado pelo voto, vai perder os holofotes e terá que enfrentar a enxurrada de ações, algumas criminais

Ele é um looser.

Sem dar o mesmo peso que a palavra tem no inglês, acho que a nosso Trump tupiniquim também é um colecionador de derrotas. Disse que montaria um ministério de notáveis e perdeu as estrelas da Justiça (Moro), da Saúde (Mandetta) e a outra (Guedes) até agora não mostrou a que veio. Se notáveis são o das Relações Exteriores, do Meio Ambiente, os três da Educação, o atual da Saúde, que me perdoe o idioma, não sei o que é notável. Só se ela se refere à notabilidade pelos desatinos que cometem.

Elencar as perdas sofridas no embate com o STF é fazer lista parecida à do supermercado, pela quantidade de itens. A investigação sobre a interferência na PF, a não nomeação do Ramagem, o depoimento oral no caso da PF, e por aí vai. Perdeu ao querer a possibilidade de reeleição do Alcolumbre. Viu seus apoiadores serem investigados e com as contas escrutinadas (Luciano Hang é um exemplo), a investigação do Gabinete do ódio está batendo à porta. Alguns bolsonaristas ativistas virtuais foram presos, o Godoy também, o Wassef está enrolado, o filho não explica as rachadinhas e ele não tem explicação para os depósitos na conta de esposa.

Na política, perdeu o apoio do Maia, não foi o responsável pela Reforma da Previdência, não conseguiu emplacar o Major Hugo como líder na Câmara, está tendo problemas para emplacar seu candidato à presidência da Câmara. Diante de tantas perdas teve que mudar o discurso, se aliar ao Centrão e fazer o fisiologismo que tanto atacou.

No caso das vacinas, perdeu todas. E quem vai salvar a lavoura será a vacina chinesa do Dória que ele execrou e disse que nunca a compraria. É a China, malhada por alguns ministros e pelos filhos, quem veio dar um oxigênio a um governo destrambelhado. Aquilo que era “vacina chinesa do Dória” agora “é vacina do Brasil e não de algum governador”. Uma coisa ele tem: muda de posição a cada troca de cueca, no que é imitado pelo Ministro da Saúde.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

EU SOU A VERDADE

Tanto quanto eu, a julgar pelas mensagens e e-mails que recebo, tem muito mais gente intoxicada com os “donos da verdade”. Este sentimento foi fertilizado pela reação do Donald Trump ao insucesso e derrota que sofreu. Na sua visão, no que pese todos quantos o aconselharam, o que é verdade é o que ele acredita.

A ele se aplica o ditado atribuído a Joseph Goebbels, ministro da propaganda de Hitler: “uma mentira repetida mil vezes se torna verdade”. De tanto repetir que a eleição foi fraudulenta e que a vitória lhe foi roubada, isto passou a ser verdade. O que estranha é que uns 20% acreditam piamente no que ele diz. O problema é que esta estratégia foi anunciada com antecedência, tentou-se provar a veracidade dela com factoides e insinuações de que mortos votaram, teve mais votos que eleitores, que os votos por correio eram uma forma de fraudar etc. Votos foram recontados, a justiça escrutinou tudo e sentenciou: não houve fraude!

Não foi o suficiente. Ele insuflou a horda que acredita em teorias da conspiração para invadir o Capitólio e tentar um golpe de Estado. Não deu certo. Ainda vai tentar alguma loucura, porque continuar acreditando em fraudes, depois de tudo o que se fez em averiguação, só pode ser loucura.

Ontem me mandaram um áudio de uma mulher não identificada, que teria ido a uma ginecologista não identificada, que lhe teria dito que a Coronavac tem elementos que permitem rastrear as pessoas e que isto vai habilitar a Inteligência Artificial a nos manipular. Para desatino maior, informa que quem patrocina isto é o Bill Gates. Quem enviou a mensagem dizia que por isto não tomaria a vacina. Perguntei à pessoa por que não usavam o paracetamol, a dipirona, que todo mundo toma como analgésico, para infiltrar o tal rastreador que permite a manipulação. Estou aguardando resposta.

Tenho chegado à conclusão de que é mais fácil lidar com o diferente do que com o ignorante. Contra a ignorância perde-se tempo usando argumentos. Como disse uma pessoa acerca de seu pai: “ele só ouve quem diz sim a tudo o que ele fala”.

Um dos líderes da invasão do Capitólio é Jake Angeli, também conhecido como Q-Shaman, ativista do grupo que divulga teorias conspiratórias, entre eles o QAnon. Este grupo dissemina e acredita que o Trump está salvando o mundo de uma rede internacional de pedofilia e um dos manifestantes no topo da escada do Capitólio empunhava um cartaz que afirmava que o Biden é pedófilo. A imprensa séria americana tem chamado a estes manifestantes de milicianos e terroristas domésticos.

Como brasileiros, não estamos livres desta praga. Tem gente disposta a ficar retuitando e disseminado estas teorias sem-pé-nem-cabeça, especialmente contra as vacinas para a Covid, mas nada falam dos feminicídios, das rachadinhas, não explicam cheques depositados na conta de esposa, afirmam ter havido fraude nas eleições com voto eletrônico, sem apresentar provas e documentos. Só ouvem o que querem ouvir.

Vivemos tempos de colher os frutos de uma educação onde precisava só preencher quadrinhos com um X, em múltipla escolha. Contrariando a premissa de que a explicação mais simples tem maior probabilidade de ser a correta, preferem optar pela mais extensa, porque lhes parece que a verdade é feita de muitos argumentos, mesmo que desconexos ou ilógicos.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

ÓCULOS PARA CEGOS

Guimarães Rosa, no seu conto Manuelzão e Miguelim, traz uma história paradigmática. Nele, o doutor José Lourenço apareceu na fazenda onde Miguilim vivia que o saudou e passou a fixá-lo com insistência, apertando os olhos, porque “era curto de vista”. O visitante foi até à casa onde o menino morava, conversou com a mãe e passou a fazer uns testes, mostrando a certa distância os dedos da mão e pedindo que dissesse quantos havia a cada novo gesto. Ele não enxergava. Foi quando o doutor tirou seus óculos e os colocou em Miguilim que ficou pasmo: era tudo novidade. As coisas ganharam luz, vida, cores, o que não conseguia ver agora apareciam à sua frente. Ele que nunca tinha visto um grão de areia, agora podia vê-los.

Miguilim começou a descrever as coisas que viu, as belezas nunca vistas. Saiu correndo e contou para todos quantos achou à sua frente. Quando voltou à sua casa, o doutor já tinha ido embora e Miguilim ficou profundamente triste. A experiência de ver se acabara.

A mãe disse que o doutor foi lá para as bandas dos caçadores, que voltaria. Se Miguilim quisesse, ele podia levá-lo para a cidade e fazer óculos para ele, entrava na escola e aprendia um ofício. O coração do menino disparava. Despediu-se de todos, com lágrimas nos olhos. Foi para uma nova vida para uma nova visão.

Digo que esta história é paradigmática porque ela é a história de muita gente curta de visão. Os óculos são o estudo, a leitura de bons livros, a leitura de notícias várias, a abertura da mente, a compreensão de que as coisas não se resumem a uma única causa, que os problemas complexos não se resolvem com chá de camomila, que as mudanças culturais tomam duas ou três décadas para acontecer.

O radicalismo, o fundamentalismo, o racismo, o sexismo, o machismo tem raízes fortes. Não acabam por passe de mágica, mas pelo constante e contínuo vigilar e trocar as informações mentais que se tem e trabalhar para mudar o que é conhecimento arquétipo e socializado. Há a necessidade de trocar a visão curta de um Miguilim por outra propiciada pelas novas lentes, pelo estudo, por ver coisas que a visão míope nunca permitiu.

Enquanto escrevo estas coisas não me sai da cabeça as notícias que li e ouvi ontem e esta madrugada sobre a resistência do Trump em aceitar a derrota. Para um sujeito de visão míope, que cresceu e montou um conglomerado de hotéis e campos de golf e que são questionados quanto à solidez da sua estrutura, o maior exemplar de Narciso que já, perder é algo acachapante. Ele nunca mostrou ou deu a entender que leu algum livro, que estudou além do básico (nos EUA o College) ou que aceita conselhos ou opiniões divergentes.

Ele perdeu excelente oportunidade de ganhar óculos para ver as coisas com mais detalhes e precisão, de perder a visão míope. Plagiando o poeta pantaneiro Manoel de Barros (“tudo o que não invento é falso”), o lema trumpiano é: “tudo o que não afirmo é falso”.

Lembrei-me da primeira leitura em voz alta, na frente da classe, que fiz na escola, assim que fui alfabetizado. Era a de um cego que também teve um médico que o operou e passou a ver, mas que continuou agindo como se cego continuasse a ser. A máxima era: “o pior cego é o que não quer ver”.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

DÁ PARA CANTAR E SONHAR?

Há um Salmo (137) que conta a luta do salmista em cantar a pedido do ditador que os levou cativos à Babilônia. Eu o coloco aqui com uma atualização ao nosso contexto: “Junto aos hospitais e cemitérios, nos assentamos e nos pusemos a chorar, recordando os queridos. Nas árvores que há à frente, penduramos os nossos violões e teclados, pois os que desdenharam da pandemia nos pediam canções e orações clamando a benção para os dirigentes nacionais; e os que nos atormentavam, pediam que os alegrássemos, dizendo: Cantai-nos um dos cânticos de louvor. Mas como entoaremos um cântico ao Senhor em terra devastada pela pandemia? Se eu me esquecer da situação que vivemos, que se apegue a língua ao céu da boca. Se não me lembrar dos que já morreram e dos internados e intubados, para que mais devo viver? Lembra-te, Senhor, dos negacionistas no dia de Brasília, porque dizem: Arrasai, arrasai os fracos e maricas que devem morrer. Ah! filha da Babilônia devastadora: feliz aquele que te retribuir consoante nos fizeste a nós.

Há como celebrar Natal e Ano Novo nesta terra deixada à sorte por incúria e imperícia dos babilônicos governantes? Há como ter esperança, quando a única esperança que é a vacina nos é negada e a cada nova manifestação é dada uma nova data para início da vacinação? Há como ter esperança quando o babilônico mór diz que não “não dá bola” para a demora no início da vacinação?

O Salmo citado termina de uma forma arrepiante e trágica: “Ah! filha de Babilônia, devastadora; feliz aquele que te retribuir consoante nos fizeste a nós; feliz aquele que pegar em teus pequeninos e der com eles nas pedras.” Poderíamos atualizar o texto e dizer: “quando um dos seus filhos morrer pela Covid haverá esperança e felicidade para o povo?”

Celebrar um novo ano? Só se fizermos o que Abraão fez: “esperou contra toda esperança”. Em outras palavras, esperar contra a esperança. Se atentarmos para os fatos e decisões babilônicas, morreremos de depressão e tristeza. Os fatos nos levam a sentar e esperar a chegada da infecção.

A autoridade dos babilônicos federais, estaduais e municipais anda tão baixa quanto a sola do sapato: decretam lockdown nas praias e comércios, mas eles se fazem de surdos e atuam como querem. Os jovens se reúnem em baladas e festas nem tão clandestinas. O babilônico mor incentiva, pelo exemplo, a não usar máscara e a não se vacinar, quando e se esta chegar às terras tupiniquins.
Há que ressaltar-se que a Babilônia vem da Babel, a torre construída para ser o referencial de um povo empreendedor e que acabou sendo símbolo da confusão de línguas e comunicacional. Ninguém se entendia no reino de babel. Seria isto o paradigma da babilônia moderna, onde as mensagens são modificadas cada vez que os babilônicos falam, as datas são imprecisas ou revistas a cada nova alocução, o exercício de falar A e depois dizer B é a constante nesta Babel?

Nabucodonozor foi castigado e literalmente pastou, por causa da sua soberba e vaidade. Necropolítico, não se intimidava com as mortes que produzia, mas media seu poderio pela quantidade de armas que havia no reino. Reinou por 43 anos. Quanto tempo reinará o Nabolsodonozor?

Marcos Inhauser

 

 

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

VIDA EM MEIOS ÀS MORTES

A Palestina no período pré-advento estava sofrendo a “pandemia romana”, que assolava a quase totalidade do mundo então conhecido. Ela enviava seus vírus fardados a toda parte e estes, com o poder das armas, asfixiavam o povo, tirando-lhes o oxigênio via pesados tributos, arrancados, muitas vezes, à força e com a morte do infectado.

Todo o corpo da nação de Israel estava contaminado e havia quem, no subterrâneo, buscava destruir os vírus-soldados, criando até exércitos pequenos (zelotes).

Neste contexto de pandemia, com a sufocação de toda a nação, sem nenhuma UTI para recuperação, havia quem, de outro lado, se aliava ao vírus, numa atitude de negacionismo e desconsideração com as muitas mortes que estava provocando. Coletores, religiosos/políticos, elite egoísta, formavam a corte negacionista e desdenhavam as notícias que vinham das ruas e dos povos distantes. Perguntados, respondiam: “E daí? Que os mortos enterrem seus mortos; não somos coveiros”.

Havia, no fundo da alma dos sofridos, uma esperança: “vai acabar, isto passa, Deus vai levantar uma vacina para nós.”

Sem convocar a mídia, sem estardalhaço, na privacidade de uma virgem, o anúncio foi feito: você vai ficar grávida da vacina que salvará a este povo e todos os outros”. O anúncio não se enquadrou nos protocolos e não passaria nos testes de confrontação das fake News. A virgem e o noivo alegavam que tinha sido um anjo, que só eles viram. Talvez, por isto mesmo, os dois guardaram estas coisas nos seus corações.

Mais tarde, contra recomendações para gravidezes, o casal foi visitar uns parentes: Isabel e Zacarias. O que os visitantes não sabiam era que o casal que visitavam também haviam recebido uma notícia por meios não usuais: Izabel seria a mãe de quem anunciaria publicamente a vacina salvadora. A coisa andava tão polarizada que Izabel, depois de ter dado à luz, escondeu o bebê por cinco meses. Era o medo da execração nas redes sociais das fofocas.

Quando Izabel viu Maria, ela sentiu o rebento no ventre se mover e exclamou: Bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre!”. Sabe-se que, mais tarde, o ditador de plantão, preocupado com as repercussões políticas que a vacina que vinha da periferia poderia trazer de estrago político, pediu à agência reguladora que matasse a vacina. A decisão não deu certo e ela, depois de 30 anos, apareceu dando sinais de eficácia e segurança, curando a muitos e prometendo o Reino sem pandemias.

O plano de vacinação não passaria pelos critérios científicos e nem mesmo pela ansiedade do povo querendo a vacina. Tentaram aclamá-lo como Rei e até fizeram uma jumentada, forrando o chão com palmas. O processo vacinal foi outro: lento, face-a-face, na base da persuasão, pelo arrependimento e nova vida e comportamentos. Quando menos esperavam, a vacina estava nos palácios e na sede do império, até ser reconhecida como a vacina oficial do Império.

Até hoje ela não foi promulgada como obrigatória por nenhum Supremo Tribunal, ainda que haja quem, como soldado vacinal, use do terrorismo do inferno para quem não se vacinar. Outros, aproveitando da vacina, extorquem o povo via ofertas, dízimo, contribuições para a construção do templo ou manutenção do programa de televisão.

A celebração do nascimento desta vida que traz salvação à pandemia do pecado, em um contexto de mortes mil (provavelmente 190.000 quando você estiver lendo esta coluna), é sinal de esperança e vida que há mais de dois mil anos se repete. Que venha a vida e ela em sua plenitude!

Marcos Inhauser

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

OLHANDO NO RETROVISOR

Já vivi, talvez, mais de dois terços da vida. Tenho chegado à conclusão de que, depois de certa idade que não é a mesma para todos, nós nos especializamos a olhar para trás. Deste exercício há os que vivem de recordações, os que querem repetir os que viveram e os que buscam no passado lições para enfrentar o futuro. Esta última, tecnicamente, se chama “ante-retro-oculatra”: o que tenho “ante” mim eu olho (oculatra) para trás para aprender a viver o presente.

Os que olham para o retrovisor da vida para viver de recordações, são bons contadores de histórias onde o sujeito central, quase sempre, são eles mesmos. São tentados a abrilhantar e heroicizar suas participações para dar significado mais positivo à vida que tiveram, quase sempre insossa. Via de regra têm um álbum de fotos onde exibem este ou aquele que hoje é famoso para mostrar como estiveram no passado com eles, ou como eles foram seus alunos, ou vizinho, ou colegas de pelada. Vivem do passado e estão mortos para o presente.

O segundo grupo, é formado pelos que querem reviver o passado, padecem de um romantismo infantil e enfermiço. Acham que as coisas podem ser como eram. Míopes para as mudanças históricas e sociais, acreditam que reunir os amigos na mesma churrascaria onde se reuniram há trinta anos, trará as mesmas energias que se teve quando o fato ocorreu por vez primeira. Há os que buscam antigos amores querendo ressuscitar algo que está enterrado há muito. Tive um amigo que queria ressuscitar um projeto abortado e, na visão dele, seria agora muito melhor que antes.

O grupo da “ante-retro-oculatra” olha frequentemente para o retrovisor da vida, não para repetir coisas, mas para, avaliando o que fizeram e viveram, seguir adiante com a sabedoria do aprendizado existencial. Continuam ávidos no aprendizado, têm amigos que são semeadores de novas ideias e conhecimentos, lê o que pode, se sentem desafiados a enfrentar os monstros da tecnologia, dedicam tempo a aprender mexer com PCs, notebooks e celulares. Quando conseguem enviar o primeiro e-mail, vídeo ou postar a mensagem, celebram como se fosse o primeiro gol que marcaram na vida.

Sabem que têm limitações, que o corpo já não tem a mesma flexibilidade e dinamismo de outrora e buscam agora novas atividades que se harmonizam com seu estado presente. Mais que tudo, aprendem a viver com a incerteza. As certezas do passado agora são obnubiladas pelas muitas lições que aprendeu, pela certeza da brevidade da vida, pela mudança de paradigmas e pela mudança do foco: mais que ganhar uma discussão e provar que está certo, preferem a benção do relacionamento amistoso.

Há, no entanto, um risco: cercar-se de pessoas que têm o mesmo padrão de análise dos fatos. Porque evitam confrontos de ideias, acabam se cercando de quem pensa como eles, para que a vida seja mais pacífica. Ledo engano. A visão do futuro será obtusa, porque vista com olhos míopes que só veem quem pensa como eles. Acabam se filiando ao clube dos “apoiadores de fulano ou cicrano”. Saber categorizar comportamentos e grupos é algo inteligente, mas se torna patológico quando as categorias usadas se tornam verdade absoluta.

Daí que, a incerteza, o talvez, o pode ser, há grande chance de ser assim, devem passar a ser as palavras mais pronunciadas por quem já viveu dois terços da vida.

Marcos Inhauser

 

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

SETENTAREI

 Dios mediante, no próximo dia 14 completo 70 anos de vida. Com ele também tenho 48 anos de namoro e noivado, 47 de casamento, 48 de ministério como pastor. Certa feita, ouvindo a música do seriado Carga Pesada, fiquei a pensar na letra e como ela poderia ser adaptada para a minha vida: “Eu conheço muitos palmos de cada religião / é só me mostrar qual a direção. / Quantas idas e vindas, meu Deus, quantas voltas / viajar é preciso, é preciso / Com a teologia sobre as costas / vou testando a fé, cortando o estradão. / Eu conheço todos os sotaques / dessas igrejas, as miragens / dos “milagres” as verdades / das ovelhas as vontades / Eu conheço as minhas debilidades / pois o pensar não me cobra o frete. / Por onde andei fiquei com saudades / a poeira é minha doutrina / Nunca misturei cifrão com missão / mas não nego que tive meus apertos / Coisas da vocação e do meu jeito / sou profeta no caminho e acho muito bom! 

No tacógrafo da vida já registrei coisas que me arrepiaram por ter me maravilhado e emocionado, como também por ter ficado estarrecido ou decepcionado. O nascimento dos filhos, o crescer fazendo bagunça com eles e com o lema de ser sempre um pai e avô presentes. A perda de amigos queridos que se foram antes da hora, a perda do pai, mãe, sogra e sogro mexeram muito comigo.

Decidi que seria pai dos meus filhos e não pastor deles (daqueles que cobram comportamento exemplar dos filhos para não prejudicar o ministério do pai).  Quando acho que já vi tudo, fico pasmo com mais uma novidade. Alegria quíntupla foi acompanhar as gravidezes de cada neto e neta, e estar lá na hora do parto (exceção a um porque foi na China e ele decidiu vir um pouco antes da hora). Alegria permanente é poder acompanhar o desenvolvimento de cada um deles.

Chegar aos setenta não é mérito, nem opção. É uma contingência da vida e manifestação da graça de Deus. Foram mais de 25.500 vezes que a graça de Deus se renovou a cada manhã e me permitiu viver. A graça não só se manifestou a cada dia, ao me despertar. Ela se fez concreta na companheira que Deus me deu nestes anos todos. A Suely foi a coisa mais maravilhosa que Deus me deu e a cada dia me surpreendo com suas qualidades, dedicação a mim, aos filhos e netos. Juntos caminhamos e juntos estamos.

Por muitas vezes ela e eu conversamos relembrando o que já vivemos, experimentamos e viajamos e a constatação sempre aparece: não dá para explicar tudo o que na vida experimentamos. Só a graça de Deus.

Acredito que uma vida significativa se mede pela quantidade de vezes que ela foi benção na vida de outras pessoas. Tenho isto como lema de vida: ser graça na vida dos outros. Nem sempre consigo e avalio que poderia ter sido benção muito mais vezes.  Surpreendo-me quando alguém que há muito tempo não via ou não tinha notícia, me acha neste mundo das redes sociais e se comunica comigo relembrando algo que ensinei ou fiz. Cada vez que isto acontece me encho de coragem e digo para mim mesmo: valeu ter vivido! E valeu ter vivido a vida que vivi. E valerá a vida que Deus, na sua bondade, ainda me permitir viver!

Marcos Inhauser

 

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

PÓS TUDO

Já disse aqui, mais de uma vez, que sou viciado em notícias. Só conheci um cara mais viciado que eu. Ele assinava 17 noticiosos que ficavam rodando no rodapé da tela do seu computador, que ele o levava para a cama e acordava no meio da noite para ler o que havia de novo.

Comecei no mundo das notícias com o saudoso Gabino, diretor-proprietário da Tribuna de Indaiá, que me contratou para “desempastelar tipos”, a tarefa de separar os tipos segundo o tamanho, a fonte e a letra e devolvê-los aos seus lugares nas caixas. Disto saltei para o “componidor”, compondo os textos que iriam para o jornal. Depois para a revisão dos textos. Na adolescência juventude lia todos os dias dois jornais: o Jornal da Tarde, o Estadão. E o Diário de São Paulo.

Lançaram a revista Realidade e eu lá estava para comprar e devorar. Noticioso na televisão só o Repórter Esso. Veio neste tempo o Pasquim (que eu devorava) e a revista Fatos e Fotos. A televisão entrou com mais força no mundo das notícias e passei a ser assíduo telespectador dos noticiários. Nunca deixei de ler o jornal impresso, porque sou dos que acham que há uma mística em ler um jornal impresso e um livro no papel. Não consigo me adaptar aos e-books.

Nesta trajetória aprendi a amar e respeitar algumas pessoas que nunca conheci. Entre o jornalismo informativo e o opinativo, o segundo me fascinava. O jornalismo investigativo me seduzia, mas nunca tive a chance, nem a estrutura para ir adiante com esta paixão. Aprendi muito com as colunas do velho Frias, na Folha de São Paulo. Neste jornal também fui fã do Gilberto Dimenstein e Clovis Rossi. Lia Zózimo Barrozo do Amaral, Artur da Távola, Noblat, que escreviam nos jornais do Rio. No tempo em que, nos voos, se entregava jornal para a viagem, eu pedia exemplares de dois ou três jornais.

Penso que vivi uma época áurea do jornalismo, pela qualidade dos que escreviam e comentavam. A coisa, me parece, foi definhando e perdendo a vigência que teve. Lembro-me do Programa do Jô, no tempo da SBT e do impeachment do Collor, quando os políticos não podiam dormir sem saber o que aconteceu e aconteceria no próximo dia.

Estamos vivendo a era do pós. Fala-se em pós-modernidade, pós-verdade, pós-história, pós-especialização. Hoje todo mundo se julga com capacidade e no direito de emitir sua opinião, por mais esdrúxula que seja. Um bom divertimento é ler os comentários feitos às postagens. Há momentos em que penso que voltamos à primitiva escrita, quando se praticava a scripto continua,  quando ainda não haviam inventado o ponto final, a vírgula, a exclamação e a interrogação.

Dá-me um sentimento de pré mortem saber que jornalistas capazes e reconhecidos estão morrendo ou sendo demitidos de suas funções nos veículos em que trabalharam por anos a fio. A cada dia fico sabendo de mais um que foi demitido e que decidiu fazer carreira solo em algum blog. Sou dos que acreditam que o verdadeiro jornalismo se faz na redação, na troca de ideias, nos cafés e na fumaça dos cigarros, ainda que eu mesmo não fume. Jornalismo de carreira solo é algo que não entra na minha cabeça. O furo jornalístico é um evento de cumplicidade e solidariedade.

Se é verdade que em 2025 se imprimirá o último jornal em papel no mundo, tenho certeza de que, parte de mim morrerá com ele.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

JUSTIÇA COM IGNORÂNCIA

 Texto Fábio Blanco:

“Ser justo é bom. No entanto, não existe justiça sem amor, como não existe justiça sem coerência. Amor e coerência são como que a balança que permite que a justiça seja aplicada com equilíbrio.

No entanto, as pessoas estão sofrendo uma demasiada pressão social por serem justas, sem que lhes seja exigido, da mesma maneira, que tenham amor e coerência.

É uma pressão por estar do “lado certo” da sociedade, o que significa participar de julgamentos coletivos, de justiçamentos sociais, de determinar que certas atitudes, grupos, crenças e convicções, apenas por não se encaixarem nas novas concepções desta nova geração, são condenáveis.

Assim, estar do lado certo tornou-se o objetivo e a necessidade de muita gente, pois colocar-se fora dele é como viver um ostracismo em meio à multidão. Pior, é como ser marcado por uma letra escarlate.

Isso gera nas pessoas um anseio por parecerem boas, por parecerem corretas. Antes de qualquer coisa, elas querem ter certeza que estão sendo vistas como defensoras da causa certa. Querem ter a consciência limpa, levantando as bandeiras que disseram para elas que são as mais justas.

O problema é que a maior parte dessas bandeiras são hipócritas. São, na verdade, julgamentos prévios que, longe de fazer justiça, criam ainda mais preconceitos. O resultado não poderia ser outro: enquanto os justiceiros sociais defendem liberdades, agem como censuradores, enquanto falam em igualdade, promovem a segregação, enquanto gritam por tolerância, são os primeiros a não respeitar a opinião alheia. No fim das contas, se há algo que caracteriza todos esses movimentos é a incoerência.

No entanto, convenhamos, ninguém quer ser considerado incoerente. Mesmo esses justiceiros sociais possuem, como todo ser humano, uma necessidade intrínseca de serem vistos como pessoas que fazem aquilo que falam e agem de acordo com o que pregam.

Isso significa que se elas são incoerentes não é porque querem, mas porque não percebem. E se elas não percebem é porque lhes falta habilidade cognitiva para tanto. Resumindo: a incoerência das causas modernas é, antes de tudo, um efeito do baixíssimo nível intelectual geral.

Fica evidente que muito dos erros cometidos hoje em dia, sob os pretextos de moralidade, bondade e justiça, são efeitos de falhas de pensamento, da inabilidade de construir raciocínios corretamente e da incapacidade de perceber esses erros. Claro que tudo isso está aliado a uma falta de sensibilidade para perceber as injustiças que cometem e até uma certa hipocrisia.

Porém, parece-me que menos do que perversidade, é a burrice que está por trás de quase todos esses movimentos. Sem esquecer, é claro, que a ignorância, como se diz, “é vizinha da maldade.”

Completo: para quem há quase vinte anos escreve uma coluna semanal em um jornal com expressão, sente-se na pele estas injustiças de quem, lendo não entende o que se escreveu ou quem lê e acha que eu disse o que eu não disse. E quando reagem aos que escrevi, fico pasmo porque me parece que estão voltando às eras primitivas da escrita: o uso da scripto continua, quando não havia ponto final, nem vírgula, nem exclamação.

A ignorância das verdades absolutas tem sido mato a grassar o ambiente ecológico das relações humanas, separando uns e outros.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

E AGORA?

 Mais uma rodada de eleições para cargos próximos a cada um de nós. Até onde sei e posso avaliar, as propagandas, horários gratuitos, fake news e debates foram bem mais comportados, sem algumas das baixarias presentes nos anteriores. Isto, talvez, pode ser atribuído á curta temporada das propagandas e aos fatores extraordinários.

Dia de votação sem novidades (até a boca de urna se comportou), transmissão dos dados com alguma dificuldade e apuração/divulgação com problemas técnicos, mas que, ainda assim, coloca o sistema eleitoral brasileiro como modelo para outras nações. Contabilizar 140 milhões de votos e ter o resultado no mesmo dia é coisa para deixar muitas nações morrendo de inveja.

Até que se prove o contrário com fatos concretos (e não especulação e denúncias baseadas no achismo), o sistema é imbatível no quesito segurança e confiabilidade. Foi concebido de tal maneira que a fraude nas urnas teria que ser um processo de alterar o programa de milhares de urnas eletrônicas, coisa inviável. Feita a apuração na urna, fica registrado e, mesmo que algo se consiga fraudar nos processos posteriores, há o resultado impresso de cada urna que servirá como elemento robusto em uma auditoria.

Algumas lições podem ser tiradas deste processo. Revelou que a última eleição (presidencial) foi um ponto fora da curva, que não se repetiu agora. O ultraconservadorismo não conseguiu se impor. Isto mostra que a eleição de 2018 foi mais um voto de raiva contra o petismo que adoção sincera e consciente de um ideário conservador.

Descobre-se também que o voto antipetista ainda teve forte apelo, pois, pela segunda eleição seguida, o PT é desidratado. Por outro lado, a centro-direita e partidos de cento, centro-esquerda e esquerda tiveram melhores resultados. O cometa partidário PSOL, aquele que apareceu, brilhou, sumiu nesta eleição. Percebe-se a ascensão do DEM e PPS (este com muita gente ficha-suja) e uma expressiva votação do bloco do centrão.

O que este resultado implica é que o apoio do Centrão será mais caro daqui para frente. Alie-se a isto a desidratação do peso e liderança do presidente, cujo cacife político voltou à antiga dimensão de parlamentar do baixo-clero, e se tem as condições perfeitas para uma tormenta política: cargos terão que ser distribuídos, a ala ideológica perdendo relevância, a ala fisiológica ganhando musculatura, o presidente da Câmara e Senado com muitos mais votos e peso político em seus mandatos.

Diante deste quadro, pode ser que tenhamos um presidencialismo a la monarquia britânica: um rei figurativo e primeiro ministro (Maia ou Alcolumbre) atuante e propositivo. Vencida a etapa da reeleição que pleiteiam, mandarão no Congresso e farão o que quiserem.

O sonho da reeleição acalentado pelo atual ocupante do Palácio está cada vez mais distante, seja pelo sinal dados pelas urnas, seja pela sua ligação com o Trump, seja pelas palavras desastradas e discursos de arroubo, seja pela maneira errática e nada profissional que lidou com a pandemia.

Muito já se disse sobre as diferenças da eleição municipal e da presidencial. Mas também se sabe que a eleição de governadores e presidente está alicerçada nas bases municipais, onde se consegue a capilaridade. Se isto é verdade, a reeleição terá dificuldades em conseguir a base eleitoral. Diante deste quadro de derrota iminente, o melhor é questionar a lisura do processo, semear a dúvida quanto ao voto eletrônico, suspeitar dos resultados. Isto dará munição para, apurados os votos em 2020, defender-se dos minguados votos com a existência da fraude eleitoral. O mentor já fez e está fazendo isto.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

NEGACIONISMO

Virou febre! Tudo o que certas pessoas não entendem ou nunca viram não existe! O que existe é o que entra nas suas cabeças e cosmovisões. São faltos de neurônios, não gostam de ler, de se informar e as suas cosmovisões devem ser o padrão para o entendimento e ações no mundo.

Avessos a toda e qualquer coisa que possa ser contrária às suas afirmações e verdades, são lépidos em tirar da frente quem a eles se opõem. Os exemplos de negacionistas e das pessoas retiradas de sua frente são muitos. O exemplo mais acabado no presente é o Trump. Ele, do alto de sua arrogância e prepotência, nega que perdeu a eleição. Como poder ser isto? pergunta ele a si mesmo. Ele que, na sua ótica obtusa e míope, foi o melhor presidente dos Estados Unidos, comparando-se a Abraham Lincoln, não perderia uma eleição, a não ser que houvesse fraude. Ele, quem se julga o que mais beneficiou os negros, como pode ter perdido em populações negras?

Para provar que isto aconteceu, o Trump afirma uma séria de inverdades, questiona o legal, desacredita um processo histórico de eleição, inventa conspirações. Como tudo o que ele diz tem que ser verdade, a “sua verdade” é aceita pelos “no-brain people” (gente sem cérebro) e retuitada sem critérios. A mentira repetida muitas vezes se torna verdade, já disse alguém.

O negacionista Trump não aceita a derrota, por mais evidente que ela seja. Vai tentar, por artimanhas e chicanas jurídicas, reverter o irreversível. Assim como a terra é plana, a Covid-19 é uma gripezinha, máscara só serve para sufocar quem a usa, o número de mortes está inflacionado, a eleição é uma fraude.

Dia destes recebi um destes posts. Afirmava que, no Brasil, em 2019 houve X mortes e que em 2020 o número de mortos era menor que em 2019. E perguntava: onde está a mortandade da Covid? Não citava fontes, não dizia qual “otoridade” a postou, mas me foi passado para eu repensar o que escrevo.

Uma destas postagens feitas pelo Trump, afirma que há, em Michigan, 14.000 votos de pessoas mortas. A CNN foi verificar e constatou que as pessoas estavam vivas, que estavam vivas e votaram ou estavam vivas e não votaram. O mesmo se deu com o anúncio de que uma pessoa nascida em 1800 e algo havia votado e o responsável pela eleição no estado, foi atrás e demonstrou ser falsa a alegação.

O Trump queria que se usassem tropas federais para acabar com as manifestações pró-Biden, inclusive as que celebravam a vitória. O secretário Mark Esper, que se recusou a usar tropas federais nas manifestações que surgiram logo após a morte de George Floyd e o movimento Black Lives Matter, foi demitido na segunda-feira. “Sai da frente, opositor” deve ter dito. Assim ele fez com outros. Há a demissão de 46 procuradores federais demitidos por rede social, para que o caminho fiquei lubrificado para seus questionamentos jurídicos. Demitiu secretário de Estado, Rex Tillerson, o ex-diretor da CIA, John Brennan “se demitiu” por crer e afirmar que houve interferência russa na eleição de Trump.

Aprendi que “todo palhaço tem sua plateia”. Pequena mas tem. Esta plateia não dá para se reeleger. Que os imitadores do Trump tenham ciência disto!

Marcos Inhauser

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

SERÁ? NÃO É A PERGUNTA

Como advento da pandemia, muita gente começou a se perguntar: será que vou ser infectado? Para mim, a pergunta não é esta,

Depois da mais de seis meses convivendo com o Corona vírus, que tem se mostrado resiliente na sua missão de se proliferar, as perguntas mais apropriadas, no meu entender, são: “quando vou ser infectado”? e “em que grau será minha infecção?”.

Dos mais de cinco milhões e meio de infectados no Brasil, cento e sessenta mil morreram. Isto significa que o grau de letalidade é de quase 3%. Se tomarmos os dados globais, temos quarenta seis milhões e seiscentos mil infectados e pouco mais de um milhão e duzentas mil mortes. Isto dá uma taxa de mortalidade aproximada da ordem de 2,5%. Não há como saber quantos dos infectados tiveram complicações graves e os que estão com sequelas.

Tenho para comigo que, mesmo que algumas vacinas sejam aprovadas e aplicadas, parcela significativa não estará imunizada ao final de 2021. Há que recordar-se que a vacina imuniza, mas não mata o vírus e ele continuará circulando no mundo. Mesmo com vacinação, os casos de infecção continuarão a acontecer.

Pontue-se também que, ainda não se sabe da taxa de possíveis reinfecções e por quanto tempo as vacinas produzirão anticorpos. Daí por que a pergunta (Será?) não é que deve ser feita. O vírus não será extinguido e continuará fazendo suas vítimas pelo resto da vida, assim como os demais vírus que assolaram a humanidade. Há que considerar-se também as mutações genéticas pelas quais o vírus passa e que podem produzir um novo/novo Corona, porque o atual já é uma variação de um anterior.

Quanto ao momento em que poderemos ser infectados, por mais cuidados e precauções que se tome, não são garantia de eterna imunidade. Mesmo pessoas cercadas de seguranças e todos os cuidados (ministros e presidentes) foram infectadas. Basta um deslize mínimo e imperceptível para que o Corona faça a festa. A sabedoria está em tomar todos os cuidados e estar preparado para o fato de que, mais dias, menos dias, ele virá se hospedar em você.

A outra pergunta pertinente é: “qual o grau de gravidade que me afetará?”. Aqui também se deve tecer alguns comentários. Sabe-se hoje que, em função dos novos conhecimentos sobre a natureza do vírus e medicações paliativas, a taxa de mortalidade diminuiu e muito. Os casos de intubação e UTI se reduziram. Novos procedimentos foram adotados e remédios vários foram testados e alguns deles condenados ou estão em suspeição para o tratamento da Covid-19. Exemplos disto são a cloroquina, a hidroxicloroquina e a dexocloroquina, os vermífugos Anita e Ivermecticina.

Sem remédio de prevenção (não há nada que seja consenso e provado cientificamente), até o presente momento, sabe-se que o uso de anticoagulantes é benfazejo para a estabilização do infectado. Sabe-se também que a respiração com o auxílio com oxigênio ajuda.

Quem ainda não foi infectado teve mais sorte de quem o foi nas primeira horas. A taxa de mortalidade inicial era muito mais alta e o tempo de UTI também, Mesmo as sequelas eram mais presentes nos infectados.

Para parodiar Jesus, os “últimos serão mais felizes que os primeiros”. Quem não pegou nas primeiras ondas tem mais chance de sobreviver quando infectado for.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

A CELEBRAÇÃO DA DIFERENÇA

Se os seres humanos foram criados por Deus, concluímos que Ele nos fez diferentes por uma de duas razões: por capricho de Deus ou porque há um propósito. Quando Deus percebeu que não era bom o homem estar só, criou a companhia, que diferia em gênero: uma mulher. Para ser auxiliadora tinha que ser diferente. A ajuda vem da diferença. Quando duas pessoas iguais estão juntas, não podem se ajudar porque pensam e decidim de forma igual.

O mesmo se aplica à espiritualidade. Somos ajudados no crescimento espiritual quando convivemos com a diferença. Não é o cercar-se de gente igual que dá a certeza de estar certo. Há mais probabilidade de incorrer em erro quando cercado de gente igual do que quando de gente diferente.

Os iguais bajulam, porque dizem o que se gosta de ouvir, não criticam porque seria criticar-se, uma vez que pensam e agem igual. Quem se cerca de gente igual, ao invés de crescer, para no tempo e fica se deliciando com as verdades que crê e recusa as novas, porque envolvem o risco.

Por outro lado, se se cerca de gente com capacidade e a liberdade de questionar, perguntar, duvidar do que se crê, afirmar coisas diferentes, a convivência será caracterizada pela constante reflexão, análise e reposicionamento. Quando se revê pensamentos e os avalia criticamente à luz de posições divergentes, há amadurecimento. A maturidade não está na certeza e na repetição ad infinitum das verdades. Ser um poço de certezas é ser inseguro e de imaturo. O ignorante é o que mais sabe e Sócrates dizia que uma coisa sabia: que nada sabia.

O sábio não se conhece pela quantidade de certezas que tem, mas pela qualidade das perguntas que faz. O maduro não precisa dizer “quem manda sou eu”. Isto é sinal de imaturidade e ignorância. Obrigar que sua verdade seja a verdade de todos é um ato de estupro intelectual. Se, como afirma Foucault, a verdade é versão dos poderosos, ter que afirmar a própria autoridade é autoritarismo. Quem deste recurso necessita dá provas de insegurança e burrice.

Estas reflexões me levam ao ecumênico. Tenho visto gente na defensiva e no ataque ao ecumênico. Acusam-no de tudo pelo fato de colocar pessoas que pensam diferente para conversar e encontrar caminhos comuns. O ecumenismo é uma proposta para gente madura, sem medo do diferente, do novo, de avaliar-se e até reconhecer que está errado. O ecumênico é um risco para os donos da verdade, porque elas podem ser falsas. Os inseguros se lançam ao ataque difamatório. Donos da verdade e ditadores em suas comunidades, não tem maturidade para o diálogo, porque treinados no arbítrio. Pregam como verdade o que creem, sem dar chances de serem questionados ou criticados.

Estes se esquecem que Paulo diz que nos últimos tempos cercar-se-iam de mestres segundo as suas cobiças e que estariam rodeados de gente igual. Nada mais tentador e arriscado para a fé que cercar-se de iguais. No antigo Israel a diferença foi feita pelos profetas, que anunciavam o diferente, que quebravam o discurso dogmático e questionavam os sacerdotes e reis. Era o questionamento da verdade do poder (político dos reis e religioso dos sacerdotes), porque o poder, via de regra, necessita do diálogo e da diferença para ser verdadeiro. Necessita da parresía, o discurso da verdade, feito pelos que se opõem. Democracia sem oposição é o governo do demo.

 

Marcos Inhauser

 

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

A DITADURA DA OPÇÃO

Estava, pela primeira vez, em Nova York. Havia esquecido minha necessaire no banheiro do avião e não a recuperei. Precisava de pasta de dente, sabonete, desodorante, fio dental, escova de dente.

Fui ao supermercado próximo ao hotel em que estava hospedado. Fiquei doido! Tal era a quantidade de marcas, tamanhos e sabores de pasta de dente, que fiquei olhando aquele mundaréu de opções e não sabia decidir. Tive uma paralisia de opção.

O mesmo se deu com o desodorante e o sabonete. Foi uma tortura ter que decidir.  A vontade era comprar duas ou três de cada coisa e decidir depois, no hotel, qual era a melhor. A mesma situação já vivi em floricultura, para comprar peixes ornamentais para dar de presente, em loja de roupas e sapatos. Quanto mais opções eu tenho, mais paralisado eu fico. Decidi: o primeiro que eu gostar vai ser o que vou levar. Nem sempre gosto logo de início e a tortura se instala.

Estamos vivendo a era das opiniões. Todo mundo tem opinião sobre tudo! Leia uma notícia e vá ver os comentários que a seguem. Uma profusão de obviedades e barbaridades agressivas. Acabo de ver um vídeo de uma pessoa que se apresenta com “intindido” das coisas da teologia. Umas três ou quatro vezes ele pronunciou alguns termos de forma errada (ex. previlégio e não privilégio, inreponsabilidade e não irresponsabilidade). Fez uma baita confusão entre Teologia Liberal, Teologia da Libertação e Teologia de Esquerda, que saí do vídeo com se estivesse em Seul sem Waze. Ele não consegue distinguir a figura histórica de Jesus dos Evangelhos e afirma que as duas coisas são a mesma, agride os universalistas sem apresentar um único argumento próprio etc. Fala que ortodoxia é o que os primeiros concílios da igreja decidiram, mas tem medo de falar em Concílios Ecumênicos (termo apropriado, mas que, para ele, ao que parece, seria concessão à heresia citar a palavra “ecumênico”).

O mundo religioso, mal denominado de evangélico, padece da mesma sina. Um monte de pregadores, um querendo ser mais eloquente que o outro, cada qual trazendo uma coisa original, acabam apresentando uma plêiade de opções aos ouvintes que eles, tal como eu no supermercado, ficam perdidos, sem GPS ou Waze para lhes dar o norte.

No restaurante por quilo que se transformou a internet e os pregadores virtuais, há gosto para tudo, mas a variedade deixa as pessoas confundidas e perdidas. Tem gente que serve de tudo um pouco e fazem pratos indigestos. O que mais se encontra é sermão de sucesso e autoajuda.

A cada pouco alguém vem me perguntar o que acho sobre isto ou aquilo que eles ouviram de um pregador em uma “live”. A grande deles nunca estudou história da Igreja, teologia bíblica, interpretação bíblica. Falam o que lhes vêm à mente. Não importa que seja abobrinha. Tal a ânsia de likes e inscritos, tem quem se apresente como “pregador internacional”, só porque pregou em Pedro Juan Caballero, do outro lado de Ponta Porã. Há uma mendicância virtual por likes e inscrições!

Parece que estamos revivendo o que sentenciou o Cronista bíblico: “por muito tempo Israel esteve sem o verdadeiro Deus, sem sacerdote que o ensinasse e sem lei”. O que vale hoje são aos apaniguados na fila do beija-mão das “otoridades”, como se a proximidade a eles lhes desse o selo de qualidade e infalibilidade no que fazem e ensinam.

São os pregadores com selo Decotelli de qualidade!

Marcos Inhauser