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quarta-feira, 24 de agosto de 2016

QUANTO CUSTA UMA MEDALHA?

Havia me proposto a não falar das Olimpíadas porque, diante da profusão de notícias, comentários e críticas, eu seria repetitivo. Mas, cedo à tentação. Li no site da UOL que cada medalha que o Brasil ganhou custou R$ 194 milhões. O levantamento considera os investimentos diretos feitos por estatais, isenção, loteria, Forças Armadas e Ministério dos Esportes no período compreendido entre Londres e Rio de Janeiro.
Será este o único investimento? Estive em Seul alguns anos depois da Olimpíada e visitei algumas das construções feitas para as Olimpíadas de 88, assim como visitei as instalações de Beijing. Uma das coisas que ouvi nas duas cidades de moradores delas é que os complexos olímpicos se tornaram elefantes brancos.
Penso também no que custa uma medalha em termos de sacrifício pessoal. Inúmeros foram os que salientaram o tempo que estiveram afastados de suas famílias, da privação de muitas coisas, para que pudessem chegar onde chegaram. Michael Phelps, Usain Bolt, as duplas Diego e Nory, Jader e Flavinha, Alison e Bruno e muitos outros falaram, alguns com lágrimas, o quanto se esforçaram e sofreram (literalmente) para conseguir algo.
Virou bordão (ao menos na Globo) que a dor é o uniforme do atleta olímpico. As marcas de ventosa no ombro do Phelps, os muitos esparadrapos para enganar músculos doloridos, as baixas por contusões, os acidentes (Annemiek van Vleuten, ciclista que capotou na curva; Samir Ait Said que quebrou a perna ao saltar, e outros) provam que não falavam irrealidades. De um total de 11.544 atletas que participaram, quase 10% deles tiveram lesões. Os relatórios médicos das 92 delegações nacionais, revela que a metade dos 1.055 atletas que se machucaram durante a Olimpíada tiveram problemas nas pernas ou nos pés e outros 100 sofreram com contusões na cabeça. O boxe, o futebol, handebol, o hóquei, o tae-kwon-do e o levantamento de peso foram os que mais lesionaram atletas.
Para os que “chegaram lá”, será que vale a pena, se se considera a quantidade de dores sofridas e que, na quase totalidade dos casos, os acompanhará pelo resto da vida? O prazer de mostrar uma medalha compensa o sofrimento atual e futuro?
Fico a pensar que um dos charmes das Olimpíadas é a quebra de recordes. No entanto, um dia eles acabarão. O ser humano chegará ao seu limite. Depois, o que se terá, será a manutenção do que já se conseguiu? Será que alguém, algum dia, pelo uso tão somente de suas forças e músculos, conseguirá baixar o que já se conseguiu nos 100 metros rasos, ou nos 200 metros. Será que o recorde mundial do Cielo poderá ser superado? Quando o for, sobrará qual motivação para os atletas? Se não há mais chance de quebrar recordes, para que servirão as Olimpíadas?
É verdade que os esportes promovem o congraçamento dos povos e que as Olimpíadas se constituem em evento ímpar para isto. No entanto, deve-se pensar que isto se faz em clima de competitividade, de subliminar mensagem de superioridade desta ou daquela nação. Não fosse isto, por que a Rússia teria investido tanto em dopar seus atletas? Por que o “quadro de medalhas” é tão cobiçado e divulgado? O que dizer da música, da poesia, da literatura? Seria o caso de se ter eventos mundiais para estes segmentos?
Marcos Inhauser

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

IGREJA É GENTE

Não entendo que seja acidental o fato de que os evangelhos, as cartas e o Atos dos Apóstolos façam qualquer menção a um edifício que abrigasse alguma comunidade cristã nos primórdios da igreja. Sem espaço nesta coluna para me delongar na fundamentação histórica e fática de tal afirmativa, relembro que Jesus pregou seus sermões no monte, na praia, desde um barco, no interior de uma casa. Uma única vez o vemos em uma sinagoga. Relembro ainda que quando ele foi a Jerusalém e ao templo pela primeira vez, foi quando criança. Quando adulto, criticou o que ali se praticava, tendo derrubado as mesas dos cambistas.
Por ter sido perseguida, a igreja nascente teve que se esconder, fazer suas reuniões de forma quase silenciosa, em Roma se reuniu nos subterrâneos (catacumbas), teve seus líderes perseguidos, presos e martirizados.
Nos primeiros trezentos anos da igreja não se falou em edifícios, templos ou coisa que o valha. Tudo indica que isto começou a acontecer depois que o cristianismo foi considerado a religião oficial do império romano, por obra e graça (para alguns, desgraça) de Constantino. Porque agora era legal, oficial e abrigava o imperador, se devia ter construções que abrigassem ao imperador e seu séquito. Ele mudou a capital do império para Constantinopla (em homenagem a si mesmo) e ali construiu um palácio eclesial que fosse digno de sua presença. Nascia assim a catedral!
Esta associação do templo com o palácio real também se deu nos tempos de Salomão que teve o seu palácio ao lado do templo, com acesso privativo.
Esta associação levou o cristianismo a um caminho desviante: confundir igreja com edifício. Igreja é gente reunida em comunhão, nunca edifício. Igreja é feita de gente e não de tijolos, telhas, bancos, púlpito e holofotes.
Igreja é gente reunida em comunhão, que tem o compromisso de amar o próximo e ajudá-lo em suas necessidades. Igreja é o compromisso de atender ao pobre, à viúva, ao exilado, ao estrangeiro. Igreja é serviço, é doação, é lavar os pés.
Se olharmos para as religiões templárias (as que se apresentam em função do edifício que têm), o quanto arrecadam, o quanto gastam com a manutenção do patrimônio (limpeza, conservação, água, luz, pintura, faxineiros, etc.), aliado ao uso semanal que o elefante branco tem, constata-se que há um clamoroso desperdício de recursos na construção e uso dos edifícios. E o pobre, a viúva e os demais necessitados pouco ou nada tem de ajuda destas comunidades templárias.
Templos são locais maravilhosos para os narcisos se exporem. Congregam centenas, milhares, todos olhando à frente, para o iluminado pelos holofotes. Todos ouvem o que ele diz porque um potente sistema de som irradia o que ele fala. Templo não é lugar de conversa, diálogo, mútuo aprendizado, antes de exercício do monólogo do que sabe, que “ instrui a horda que não sabe”. No templo não se exercita comunhão, só a audição. No templo só ficamos sabendo das necessidades da organização: precisamos de tantos mil para terminar a reforma disto, para pagar o programa de rádio ou televisão, para reformar o telhado, etc.
No templo não se fala do pobre, porque não são bem-vindos: precisam estar decentemente vestidos, tomados banho e perfumados, como a maioria dos templários estão.
Igreja é gente, é serviço de amor ao próximo, é comunhão íntima que se tem nos pequenos grupos. Igreja é conhecer gente, é saber das suas histórias e necessidades, é envolver-se com o outro. Igreja é ser família, a família da fé que é tão família quanto pai, mãe e filhos.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

NEYMAL E NEYMARTA

Sou leigo em futebol, mas sei quando um jogador está abaixo da média ou jogando mal. Não preciso de comentaristas esportivos para dar meu diagnóstico, ainda que os ouça e leia para me certificar da avaliação que faço. Assisti aos dois jogos da seleção olímpica e fiquei irritado. Ainda mais com as explicações dadas: “jogamos bem, só faltou a bola entrar”. Há tempo venho atravessado com o Neymar. Ele me faz lembrar algo que ouvi no Peru sobre o Alan Garcia: “ele é pomada, só serve para uso externo”. Ele me dá a impressão de que só joga no Barcelona e aí me pergunto: será que joga porque tem bom meio de campo para lhe dar bolas açucaradas e companheiros como Messi e Suarez para azeitar as coisas? Porque, até hoje, e até onde minhas lembranças alcançam, ele não teve nenhuma atuação destacada e brilhante jogando pela seleção? A camisa amarela pesa? Mais que isto: porque, de forma irresponsável, se envolveu em encrencas que o tiraram dos jogos da seleção. Não gostava do Dunga? Ou a seleção não faz parte dos seus planos? O seu descontrole ao final da última partida, na condição de capitão da seleção, é porque estava emocionalmente comprometido ou algo pensado e executado para cair fora dos jogos e do certame, tal como ocorreu na Copa América? Ainda não entendo como uma pessoa que teve uma vértebra fraturada com uma joelhada nas costas, pôde, poucos dias depois, estar à beira do campo pulando e torcendo pelos companheiros. Ele se livrou por sorte do 7 x 1 ou já sabia algo de antemão? Como não censurar quem deixou a seleção por expulsão e no mesmo dia estava em balada com os amigos? Como um craque como ele, jogando pela seleção, erra tantos passes, perde tantas bolas e não dá um chute certeiro quando bate falta? Que tenha um dia de baixa, se entende. Mas ter 180 minutos e não fazer nada é suspeito. Como dar a ele a condição de capitão se já mostrou que é esquentado e, de forma irresponsável, arruma confusão. Pode um capitão, no que pese a força de um contrato, sair sem dar uma palavra à imprensa, nem ao término da partida, nem depois do jogo? Quando a torcida comparou Neymar à Marta não estava ironizando. Ela percebe a diferença de postura, atitude e comportamento entre ambos. Do lado da Marta sobra humildade, empenho, compromisso e qualidade. Os muitos memes, as muitas piadas e a repetição do coro pedindo a Marta na seleção masculina quando do jogo contra o Iraque, mostra que o Neymar está Neymal. Ela já foi escolhida cinco vezes como a melhor do mundo e com todos os méritos. Ele nunca o foi e se continuar assim nunca será. O que a torcida espera é que o Neymar deixe de ser o incensado, badalado e alçado à condição de maior estrela do futebol brasileiro. Deixe de ser Neymal e passe a ser um Neymarta: aprenda com ela a jogar em equipe, ser sério, comprometido, humilde e menos baladeiro. Marcos Inhauser

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

NUMEROLATRIA

Chama-me a atenção como as igrejas e os membros delas estão obcecados pelos números. É só perguntar a alguém qual a igreja que frequenta e, invariavelmente, dará o nome da igreja e em seguida emendará alguns números: “temos um templo para 8.000 membros”, “nossa igreja tem 17 pastores”, “recebemos 154 pessoas por batismo no domingo passado”, “a arrecadação da nossa igreja tem uma média de R$ 250.000 por mês”, “temos 345 grupos familiares”, “tivemos um culto abençoado e 87 pessoas foram à frente se decidindo por Jesus”, “nossa igreja sustenta 12 casais de missionários nos campos”, “estamos construindo um templo para 10.000 mil pessoas”, “fazemos a oração dos doze apóstolos”, “impetramos a benção dos 318 servos poderosos”, etc.
Cada qual quer impressionar com a grandiosidade dos números apresentados, como se a pujança e o vigor de uma comunidade estivessem nos números que apresenta. Eles avalizam a prática ministerial, teológica, programática e doutrinária da igreja. É um tipo de “os números validam a prática”. Quanto maiores forem eles, mais acertada estará a comunidade no seu entendimento da vida religiosa.
Ao anunciar um convidado especial, fazem 1questão de dizer que o mesmo é pastor de uma igreja de tantos mil membros em algum local desconhecido, de preferência no exterior. Dá mais autoridade ao convidado e a quem o convidou. Há pouco tempo fui buscar um amigo que participava de uma convenção dos numerólatras. Com voz triunfante anunciavam que há menos de 10 anos tinham começado com 55 pessoas reunidas e que naquele momento estavam com 2.300 pessoas na atual convenção. E desafiavam a todos para que, no próximo ano, chegassem a 5.000.
A busca dos números superlativos para uma comunidade se transformou em uma idolatria. Eles são a certeza da benção, da garantia do acerto da prática ministerial. Eles validam qualquer prática, desde que os templos estejam cheios. Grupos pequenos são sinônimo de fracasso.
Certa feita, convidado a pregar em uma igreja que nunca tinha visitado, tive o pastor da Igreja afirmando que a certeza de que Deus estava no meio deles era que havia gente até do lado de fora do templo. Não aguentei. Mudei o sermão: “onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estarei”. Afirmei que só podia garantir a presença de Deus, segundo as Escrituras, quando dois ou três estivessem reunidos em Seu nome. Mais que isto era temerário. Não preciso dizer que nunca mais me convidaram para pregar naquela igreja.
Arrecadação, frequência, membresia, programas, festas, cultos especiais são o alvo maior porque se pode contar e propagandear as façanhas. Comunhão, serviço ao próximo, ajuda ao necessitado, visitas aos enfermos, apoio ao que sofreu perdas significativas, não dão Ibope. Muitos frequentam esta ou aquela igreja porque não precisam se envolver. Vão, assistem, e saem. Outros frequentam esta ou aquela igreja e fazem questão de colocar um adesivo no carro, porque aquela igreja tem grife, tem números!
Seria a ênfase nos números uma necessidade para que uma comunidade se caracterize como igreja? É o número dos que frequentam que validam a existência? É o tamanho do templo a garantia de que se está em um local sagrado? São os 45 minutos de louvor que fazem um culto ser uma benção? É o número de músicos à frente o que abençoa?

Se na antiguidade se condenava o deus mamon e o da fertilidade, hoje se deve combater o deus da grandiosidade e dos números.
Marcos Inhauser

A NOBREZA DO ANONIMATO

Transcrevo aqui mais um texto do meu amigo e colega Marcos Kopeska.
Acredito serem poucas as pessoas a viver absolutamente satisfeitos com suas identidades e realizações. Parece que temos a tendência de ambicionar ser o que não somos e vivemos insatisfeitos como nossas conquistas e identidade. Ouvi a respeito de Julio Cesar, um dos maiores estadistas da história que foi flagrado por um assessor em choro copioso ante a estátua de Alexandre Magno. Quando perguntado da razão do choro, respondeu em desconsolo: “Choro porque não sou Alexandre, o Grande, que quando tinha mesma idade que tenho, conquistou seu fabuloso império.” Cabe ressaltar que Alexandre Magno, da Macedônia, foi o general mais vitorioso e de estratégias minuciosamente perfeitas, seguido por Julio Cesar, imperador de Roma que veio quase quatro séculos depois.
Penso que em maior ou menor escala, muitos de nós somos “Julio César”, chorando por não sermos quem  gostaríamos de ser, comparando a idade que temos com as idades que tinham nossos heróis quando dos seus grandes feitos. Acontece que essa cobrança perversa nos impede de descansar naquilo que somos e nos tolhe de sentirmo-nos dignos pelo que somos, no tempo em que chegamos onde chegamos.
Confesso que, em certa ocasião, senti-me desnorteado sabendo que Charles H. Surgeon escreveu seu primeiro tratado de teologia sistemática aos dezesseis anos de idade, enquanto aos dezesseis eu nem ao menos falava em público. Senti-me inútil ao ler que Billy Graham, aos trinta anos, já influenciava o mundo pregando sermões impactantes e sendo conselheiro pessoal do presidente dos EUA, enquanto eu aos trinta, patinava sofregamente no inglês e vivia enfurnado nos meus dilemas de pastor interiorano. Senti-me inadequado quando olhava para quem tinha mais de cem livros publicados, tinha doutorado em teologia, era conferencista, enquanto eu, com quarenta e dois apenas administrava os caprichos de um grupo de líderes nepotistas e confusos da igreja local. Confesso que demorei para fazer a oração de Davi registrada no Saltério: “Senhor, não é soberbo o meu coração, nem altivo o meu olhar; não ando à procura de grandes coisas, nem de coisas maravilhosas demais para mim.” (Sl 131:1). Cheguei à conclusão que o que vale é a relevância e não a importância. Descobri que, por vezes, apenas o existir e cumprir fielmente nossa missão, é o maior legado que podemos construir. Atinei-me de que, em muitas ocasiões, somos “João Ninguém” aos nossos próprios olhos, vivendo na linha mediana da existência, não obstante ao longo da história colocarmos em funcionamento importantes engrenagens que farão parte do agir de Deus no tempo.
No presente não avaliamos os desdobramentos que apenas se revelarão no futuro. Quando penso nisso, logo lembro do discípulo de Damasco, Ananias, instrumento usado por Deus para orar por Saulo de Tarso, quando da sua conversão e batismo do apóstolo. Ananias batizou Saulo e desapareceu da história da igreja, enquanto Saulo se levantou com inegável intrepidez para ser o maior teólogo e missionário da história. Ananias foi uma destas engrenagens da história do cristianismo e o desdobramento foi a evangelização do mundo de então. Ananias não foi importante, mas relevante.

Sendo assim, não sejamos afoitos por holofotes, mas desejemos manifestar a soberania absoluta de Deus na cronologia da vida, mesmo que você nunca venha a saber dos desdobramentos finais. Creia, nenhum anonimato é pobre e desvalido, se Deus é soberano na história. Há nobreza em apenas ser uma destas engrenagens da história quando o desfecho é a glória de Deus. Isso nem sempre é importância, mas sempre será relevância.

O AMOR NÃO É ...

O amor não cobra. Quando se ama não há o direito de cobrança da pessoa amada pelo fato de que o amor não pode exigir respostas positivas da parte da outra pessoa receptora do meu amor. Ele é um ato incondicional da minha parte para com ela e querer cobrar o outro pelo fato de eu o amar é uma desautorização do meu sentimento, porque o ato da cobrança violenta o ato do amor e o transforma em algo de significado zero.
O amor não é proprietário. Amar alguém não confere o direito de propriedade. O amor proprietário é um dos grandes problemas da humanidade e o é pelo fato de que as pessoas, por amarem, se sentem donas do outro e no direito de controlar a vida do outro, de estabelecer limites, seja para a roupa que veste, o cabelo que pode ter, onde pode ir, com quem pode conversar. O amor não pode se sentir dono do outro que só é o destinatário dos meus sentimentos e atos de amor. O amor nunca toma posse. O amor possessivo, ciumento é doentio, é patológico.
O amor não é investimento. Não se pode amar alguém hoje, fazer coisas em benefício dele e amanhã cobrar alguma resposta, retribuição ou recompensa pelo fato de eu o ter amado e o ter beneficiado. O ato do amor não exige pagamento. O ato do amor é uma doação incondicional e gratuita.
Outra característica do amor: ele é doação. Foi o que Deus fez. O texto diz: “porque Deus amou o mundo, deu o seu filho”. Outro texto diz que Deus provou seu amor para conosco no fato de ter Cristo morrido por nós, de ter se dado por nós. Outro texto vai dizer que ninguém tem amor maior do que dar a sua vida em favor do outro. Amar é entregar-se ao outro. Quando se dá não se espera nada em troca.
É verdade que o ápice do amor é amar e ser amado por quem se ama. O clímax do amor é ter o agradecimento do outro por ter recebido. Amar e ser amado por quem se ama ou amar e receber a gratidão da pessoa amada não deve ser condicionante para amar.
O amor não precisa dar provas. Ele é a prova em si mesmo. O ato de amar, que é o ato de fazer algo em benefício do outro é, em si mesmo, a prova inteira do amor que se tem. O amor se vive e se faz presente no ato. Ainda que existam algumas expressões, inclusive bíblicas, no sentido de dizer que Deus prova o seu amor para conosco, o texto vai mostrar que a prova do amor está no próprio ato de amar.
Amar não tem limites. Quando se ama, há entrega, doação completa. O amor não aceita ou não impõe restrições. O amor libera as coisas positivas, os atos das pessoas que amam e elas se sentem libertas, felizes. Ele também liberta as pessoas amadas porque, ao receberem o amor, são por ele beneficiadas e libertas. O amor não infelicita. O que infelicita é o ciúme, que mata ao controlar o objeto amado.
O objetivo maior de quem ama é ver o amado sendo promovido, crescendo, florindo, desabrochando para a vida. O amor coloca sorriso nos lábios de quem ama, lágrimas de alegria na face de quem é amado. O amor promove a vida, perdoa, não se ressente do mal e não busca o seu próprio interesse.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 13 de julho de 2016

GESTOS DE AMOR

A Igreja da Irmandade está há 106 anos na China. Começou com um trabalho médico, teve algumas igrejas, com a revolução maoísta elas foram fechadas e ficou o trabalho médico. Eles hoje têm uma casa de acolhimento de doentes terminais, na quase totalidade com câncer, sendo uma das poucas existentes no país.
Um dia receberam um doente muito mal. Não tinha parentes e vivia completamente só. Acolhido, recebeu tratamento, carinho, atenção e aquilo se tornou no seu lar. Um dia a cuidadora perguntou a ele qual o desejo que ele tinha a ser realizado antes que morresse. Muito constrangido disse que queria lavar os pés. Ela, seguindo a tradição anabatista do lava pés, tomou da bacia, toalha e água e lavou os pés daquele moribundo. Ao terminar, ele segurou a mão dela e disse: “há dezoito anos que não lavo os pés, porque não conseguia”. Ele faleceu pouco depois.
A Igreja da Irmandade está há mais de vinte anos na República Dominicana. Já tratei aqui, por três vezes, da surreal situação dos filhos de casais haitianos, ou de um casal em que um deles é haitiano e que os filhos nasceram na República Dominicana. Não podem ter certidão de nascimento, e por isto não têm acesso ao sistema público de saúde e educação. São indocumentados e apátridas. A igreja tem uma boa porcentagem de haitianos, tem trabalho em Bateis (vilas isoladas onde vivem os indocumentados e que se dali saírem podem ser presos), tem pastores haitianos e indocumentados.
Houve forte pressão internacional e o governo teve que abrir um processo de arrolamento dos haitianos/dominicanos (HD), para dar a eles uma cédula de identidade. Um dos pastores da igreja, HD, indocumentado, foi encarregado de mobilizar as pessoas, levá-las para fazer o registro e ajudar nas custas (verba da Igreja nos EUA foi dado para que este trabalho pudesse ser feito).  No meio do seu trabalho encontrou um senhor HD, doente, sem família, sem moradia, aterrorizada pelo medo de ser preso e deportado, sem consciência de que poderia ter a sua cédula de identidade. O pastor o tomou pelas mãos, fez o que devia ser feito: levou-o ao Departamento de Inscrição, testemunhou a seu favor, buscou descobrir onde tinha nascido, nome dos pais, etc.
O problema se complica ainda mais porque, em muitos casos, casais que iam ao hospital para o nascimento, de medo de serem presos e deportados, davam nomes fictícios e muitos apresentavam identidades de dominicanos que emprestavam seus documentos. Assim, encontrar o registro de nascimento não é o suficiente, porque o nome do pai ou da mãe pode estar adulterado.
No caso do velho senhor HD não conseguiram, mas pelo testemunho da igreja e do pastor que gestionava a seu favor, ele conseguiu a sua cédula de identidade. Mais: a igreja propiciou-lhe um local para morar.
Em uma de minhas viagens à RD estive em um Batei. Lá havia uma escola só para crianças indocumentadas e impedidas de frequentar a escola pública. Esta escola era fruto da dedicação de uma haitiana, legalizada na RD, que decidiu abrir a escola e mantê-la com as ofertas que recebesse. Ela tinha uma sala de aula, uma cozinha, um banheiro precário e um pátio para as crianças brincarem. A professora morava em uma barraca, ao lado de um alicerce de uma muito pequena casa que tentava construir. Perguntei a ela porque construiu antes a escola e ela me disse: “lá eu beneficio muito mais gente que construir uma coisa só para mim. Passo o dia na escola e só venho aqui para dormir. Minha vida está lá e de lá vai sair gente que vai mudar esta situação, beneficiando muito mais gente.”
Amar é simples. Não requer teologia, filosofia ou qualquer outra “ia”. É ir e amar.

Marcos Inhauser

A SIMPLICIDADE DO AMOR

Acabo de entrar em um restaurante na Times Square. Na entrada há um cartaz que diz mais ou menos isto: "não sou nada inteligente, mas sei o que o amor significa".
Durante uma semana participei, juntamente com minha esposa, de uma conferência da Church of the Brethren, onde o tema central foi a luz, e vários dos conferencistas estabeleceram a relação da luz com o amor. Um deles foi enfático ao dizer: "se há amor há luz, se não há amor há trevas". A luz explícita as oportunidades e os meios de se amar.
Se associo o que li na entrada do restaurante com o que ouvi nas conferências devo dizer que ninguém está isento de amar. Quem trabalha com pessoas carentes afirma que eles têm muita demonstração de amor, um tipo de demonstração espontânea e incondicional.
Se o resumo das leis do Antigo Testamento (amarás o Senhor teu Deus sobre todas as coisas) e do Novo Testamento (amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a si mesmo), o amor é a essência da espiritualidade. Como diz Paulo, o apóstolo, sem amor nenhuma ação é válida.
Amar até os tolos conseguem. Os que se creem inteligentes racionalizam e inventam desvios e obstáculos para o amar simples e benéfico ao próximo. Amar não é questão de inteligência, mas de simplicidade, inocência e despojamento do eu e das barreiras.
Amor é doação do eu, do tempo, das habilidades, do carinho, do ouvir sem julgar, do que tenho e o outro necessita. A oração ensinada por Jesus coloca o pão como "nosso". O pão "meu" é pecado porque avarento e egoísta. No pão meu não há amor, mas racionalização impeditiva do que deve ser " nosso".
Para o amor não há contra-indicação, nem efeitos colaterais adversos. Só o benefício da felicidade de sentir útil e significativo.

Marcos Inhauser

A FÉ TEMPLARIA

Vivemos há séculos com a vinculação estreita entre o templo e o culto, ao ponto de, para muitos, não haver culto sem ser realizado no templo. As reuniões cúlticas fora dos templos recebem nomes outros, mas não o de culto.
Esta herança a devemos à religiosidade do antigo Israel onde, com a construção do tabernáculo e depois do templo, se associou de tal forma as duas coisas que passou a fazer parte do DNA das religiões. O mesmo se pode dizer do islamismo, onde as mesquitas são elementos centrais na vida religiosa e há a preeminência de uma sobre as demais: Meca. O mesmo se aplica ao catolicismo, com a centralidade da Basílica de São Pedro na cidade do Vaticano.
Há, contudo, algumas considerações que devem ser feitas quando isto ocorre. Não se imagina um santuário sem sacerdotes ou uma casta de gente dedicada ao serviço religioso. Por serem os “mediadores” entre a divindade e os humanos, estes recebem alta consideração e respeito por parte dos adoradores. A palavra por eles proferida, a instrução por eles dada, o ensino por eles ministrado, passam a ter a chancela da superioridade, da infalibilidade, da inquestionabilidade. O que falam, fazem ou ensinam estão acima de qualquer suspeita. As suas mensagens são Vox Dei.
Esta concepção dos “dedicados ao serviço religioso” (seja lá qual o título que se queira a eles dar) facilita o surgimento de uma verticalização: Deus-sacerdote/bispo/apóstolo/pastor-povo. O Supremo se comunica com os fiéis pela intermediação de “vocacionados”. Estes, por gozar desta reverência e funcionalidade, não raro, assume ares de ditador espiritual e deixam o seu lado narcísico aflorar. Colocam fotos suas nas fachadas dos templos, sonham em ter um horário na televisão para serem vistos por milhares, querem ouvir sua voz na rádio. Sua visão teológica (quando as tem, o que é raro), suas doutrinas (quando não são coleção de podes e não-podes, o que é o mais comum), sua administração (quase sempre egóica), produz um ditador que invade a vida das pessoas e, para espanto, até os mesmo os quartos de casal, ditando o permitido e o pecado.
Porque vivem de manter e incrementar seu poder, fabricam leis e multiplicam pecados, produzindo o sentimento de culpa em massa. Passam a ter prazer quase orgásmico em ver os fiéis se sentirem pecadores, indignos, merecedores do castigo divino. Oferecem assim seus préstamos de mediadores da benção e da graça, sempre aliado à contribuição do dízimo e das “ofertas de amor”. Empreendem programas mirabolantes, alugam horários televisivos a peso de ouro e, quando chega a hora de pagar a conta, ao invés de reconhecerem que exageram no sonho, responsabilizam os fiéis pela manutenção de suas megalomanias narcísicas.
Para manter o poder e dar asas ao narciso, os fiéis precisam ir ao templo. Se em Israel todo judeu devia ir ao templo uma vez ao ano, se o muçulmano deve ir a Meca uma vez na vida, nos modernos templos-gazofilácio os fiéis devem ir tantas vezes quantos os dias da semana. Prestam a reverência ao ditador/espiritual, pedem orações, recebem a benção e, infalivelmente, são constrangidos a deixar a “ben$ão para o $ustento da obra do $enhor”.
Sem o templo não há culto, sem o templo não há “vocacionados”, sem o templo não há salvação. Quanto maior for o templo, mais benção há. Por isto, os narcisos/ditadores/arrecadadores, precisam construir seus palácios: o templo de Salomão, o Santuário para quinze mil pessoas, o maior templo do mundo, a Casa de Deus. Fora do templo não há fé, milagre ou livramento.
Todos ao templo é o lema. Quanto maior o templo, mais bonito você está na fita e mais gratificado está o ditador/arrecadador.
A religiosidade não-institucional, não mediatizada, de pequenos grupos caseiros não é expressão de culto e fé. É subversão. Sem guru não há edificação.

Chegamos ao tempo em que o Espírito Santo pode ser aposentado!
Marcos Inhauser

quinta-feira, 16 de junho de 2016

SEMELHANÇAS NA INCOMPETÊNCIA

Os dois nomes começam com a mesma letra.
Ambos têm cinco letras em seus nomes e três delas são consoantes.
Ambos têm duas vogais e terminam seus nomes com a mesma.
Ambos vêm do sul do país. Ambos começaram suas carreiras por cima e tiveram suas funções por apadrinhamento. Tiveram uma mão milagrosa para adentrar ao mundo dos “iluminados”. Os dois tem seus assessores próximos com nomes que lembram tempero: Cebola e Mantega. Ambos têm seus defensores gratuitos: Gilmar Rinaldi e José Eduardo Cardoso.
Ambos têm a estranha capacidade de sempre culpar os outros pelos seus infortúnios, de nunca reconhecer seus erros, de não se enxergar. No que pese o descalabro de suas atuações, ainda vendem a imagem de que tudo foi maravilhoso e que querem “bola prá frente”. Ela quer voltar para fazer o mesmo que fazia. Ele quer continuar para fazer o mesmo que sempre fez.
Quando falam e discursam é necessário um intérprete para entender. Prolixos e com lógica questionável, deixam os ouvintes aturdidos e se perguntando: o que foi que queriam dizer?
Ambos são avessos a qualquer mudança. Repetem ad nauseam as mesmas frases e conceitos e, diante de uma situação que exige decisão ousada, ficam catatônicos. Ela, diante da possibilidade concreta de ser afastada, ao invés de tomar decisões que mudassem o curso dos fatos, preferiu se colocar de vítima, chamando os que pediam mudanças (o que ela é incapaz de fazer) de golpistas. Ele, diante da derrota iminente, trocou um jogador leve e talvez o mais atuante em campo, por um pesado e que não ficava dentro da área como referência para os lançamentos. Tendo ainda duas substituições para fazer, olhava para o campo com cara de espanto, paralisado. Deixou de orientar a equipe, não fez o que dele se esperava e criticou o juiz por validar um gol irregular.
Ela estudou economia. Quem estuda economia não é garantia que venha a ser economista, assim como quem estuda filosofia ou teologia não é garantia de que venha a ser filósofo ou teólogo. Há uma distância entre estudar a matéria e ser economista, filósofo ou teólogo. Posso saber de economia, filosofia ou teologia e nada mais que isto. Ela não percebeu isto e se arvorou economista e na sua gestão produziu um déficit histórico, um desemprego na casa dos quase 12 milhões e a proliferação de “vende-se” ou “aluga-se” em função dos milhões de negócios fechados.
Jogar futebol não credencia a ser técnico de futebol. Uma coisa é jogar, outra é ser líder de uma equipe que coloca as peças certas no lugar certo. Uma coisa é fazer um lançamento em profundidade, outra é fazer uma substituição. Nem todos os bons jogadores são técnicos e há os que, tendo sido bons jogadores, se aventuraram na carreira e não tiveram sucesso ou tiveram que abandoná-la. Aí estão os exemplos de Zetti, Mario Sérgio, Roque Júnior, entre outros. Ele conseguiu dar ao Brasil a segunda maior vergonha no futebol: ser eliminado na primeira fase da Copa América.
Um estudou economia e não é economista. Outro jogou futebol e não é técnico. Os dois são incompetentes nas “profissões” que abraçaram. Ambos são incompetentes. Nos dois casos, quem pago o pato é o povo: com o desemprego, inflação alta, falta de perspectiva e vergonha de, sendo pentacampeão mundial, amargar um 7 a 1 e a gora a eliminação precoce.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 8 de junho de 2016

JOÃOZINHO FIM-DO-MUNDO

Acordei dias destes lembrando dele. Eu o conheci há mais de 35 anos. Mais velho que eu uns 25 ou trinta anos, era membro de uma igreja da mesma denominação que eu. Ele era de estatura baixa, do tipo de pessoa que nasceu ligado em 220. Falante, com alto grau de extroversão, trabalhava em uma grande empresa “fazendo os serviços de rua”, que era como ele definia seu trabalho. Eu era pastor na cidade e o encontrava ao com regularidade na agência do Banco do Brasil. A cada encontro ele vinha me perguntar algo e afirmava: “é o fim-do-mundo, pastor”.
Esta sua obsessão pelos temas apocalípticos rendeu-lhe a alcunha de “Joãozinho fim-do-mundo” e como tal era conhecido na cidade. Eu nunca soube de onde surgiu esta sua obsessão/compulsão. O certo é que o tema o fascinava. Tinha um conhecimento superficial do Apocalipse, tratava-o e interpretava-o ao sabor dos fatos e cada novo evento de alguma relevância, tanto no cenário nacional como internacional, ele via como “sinal do fim dos tempos”.
Lembro-me da primeira vez. A eleição presidencial dos Estados Unidos de 1980 disputada entre o presidente democrata em exercício, Jimmy Carter, e seu adversário republicano, Ronald Reagan, com a crise dos reféns no Irã de pano de fundo. Para ele era sinal dos tempos que um “evangélico” (Jimmy Carter) tivesse perdido por causa do fiasco no resgate dos reféns que estavam em um país islâmico.
Relembrando-me dele e suas questões apocalíticas, imaginei que hoje ele viria com a afirmação: “é o fim-do-mundo, pastor. O que está acontecendo no Brasil é o fim-do-mundo. Neste apocalipse que estamos vivendo, quem seriam as duas testemunhas apocalíticas? E os cavaleiros? O que seriam as trombetas?”
Como era de seu estilo, as perguntas eram retóricas. Vinham acompanhadas das respostas que, na sua livre interpretação, se permitia fazer. Acho que diria que as duas testemunhas são o juiz Moro e o procurador Janot, ou o Teori, que as trombetas que anunciam desgraças são dos delatores premiados, que os líderes do Senado e Câmara são os cavaleiros do Apocalipse, todos trazendo desgraças ao país. Talvez se atrevesse a, considerando certas menções a dias de penúria, fixar a data para a queda definitiva da Dilma. Fiquei pensando em quem ele colocaria como Anti-Cristo e achei que ele tascaria o título ao Cunha. A Besta, com seu temível 666, poderia ir para o Temer, o Lula ou o Renan. Também poderiam ser contemplados com o título o Léo Pinheiro ou o Marcelo Odebrecht. Com certeza diria, por causa da sua visão pré-milenista pré tribulacionista, com toda a ênfase que pudesse: “estamos na grande tribulação, pastor”.
Na manhã desta terça fiquei a pensar como ele harmonizaria suas livre interpretações com a nomeação da ex-deputada Fátima Pelaes para a Secretaria da Mulheres, no que pese ter contra si graves denúncias de desvio de verba; das citações escabrosas quanto ao ex e atual ministro do Turismo, o Henrique Eduardo Alves e, principalmente, com a notícia de que o Janot pediu a prisão do Jucá, do Renan e a prisão domiciliar do Sarney. Talvez ele visse o princípio do fim.
De uma coisa tenho que concordar com o bordão do Joãozinho Fim-do-Mundo: é o fim-do-mundo! Não na sua literalidade, mas na interpretação alegórica de ser algo que nunca se pensou que a coisa pudesse chegar a tal nível de descalabro.
É o fim-do-mundo!
Marcos Inhauser

quarta-feira, 25 de maio de 2016

PEDÓFILOS E CORRUPTOS

Na minha “santa inguinorança” da medicina psiquiátrica e da psicopatologia, tenho a informação de que psicopata, especialmente os que se revelaram como tais já adultos, não têm cura. Também tenho a informação de que os pedófilos são psicopatas e, por conseguinte, incuráveis.
Isto explica porque eles, mesmo sendo descobertos e penalizados por seu comportamento, voltam a delinquir. Há estados dentro dos Estados Unidos e, se não me engano, também em alguns países da Europa que, ao libertarem o pedófilo por terem cumprido a pena, são devolvidos à sociedade e um alerta é dado à vizinhança para que o indivíduo seja monitorado, com vistas a evitar que pratique a pedofilia outra vez. Isto também explica porque muitos sacerdotes e pastores flagrados no crime, são tratados com certa benevolência pelas autoridades religiosas que os move para outros lugares, na esperança de que não voltem a praticar o crime, o que, no mais das vezes, não acontecesse e ele reincidem.
Nestes tempos de Lava Jato e declarações públicas de indiciados e réus, tenho sido levado a apensar em um novo tipo de psicopata: o politicopata. Ele se apresenta com a maior cara-de-pau tentando explicar o batom na cueca, com a maior desfaçatez e hipocrisia. A certeza deste enfermo (sic) veio com as “explicações” do Romero Jucá para a divulgação de uma conversa nada republicana que manteve com o ex-senador e ex-diretor da Transpetro. A cara-de-pau em explicar o inexplicável, o malabarismo feito para contornar interpretações que saltam do texto de forma inequívoca, a cara de vítima e santarrão, me levaram a pensar que ele é extremamente inteligente e sem nenhum sentimento (ambas características do psicopata).
A revelação de um corrupto traz-nos à tona a sua corrupção não só no nível da propina, mas na capacidade que ele tem de corromper o idioma e o sentido estabelecido da palavra. O Jucá teve a capacidade de, sem ficar vermelho, dar ao termo “boi de piranha” sentido completamente diferente daquele que todos os brasileiros lhe dão. Corrompeu o sentido useiro e vezeiro da palavra.
Para não restar dúvida da sua capacidade de corromper, também ressignificou a palavra “delimitar”, dizendo que era investigar e punir quem de merecia condenação. O sentido dicionário de “colocar limites”, “estancar”, “parar” foram para as calendas.
O Jucá, quem tem mais tempo na política que muitos, é um boquirroto e um bravateiro. Dizer que poderia haver um pacto nacional, com os três poderes, para “delimitar” a Lava Jato, é coisa de gente insana, seja pela impossibilidade real, seja pelas circunstâncias atuais.
São politicopatas o Zé Dirceu (mesmo condenado pelo Mensalão, continuou a delinquir), o Genu (que zombou do Judiciário e transferiu o esquema do Mensalão para o Petrolão), o Cunha e sua impassividade circunstancial que se traduz em vingança hepática, o Renan e sua fleuma em dar a entender que nada o atinge, o André Moura quem, mesmo tendo uma extensa folha corrida com acusação de tentativa de homicídio se afirma inocente e se apresenta como líder do governo, e muitos outros que o tamanho da minha coluna não me permite nominá-los.
Seria o Temer um autista político quem, mesmo vendo o seu entorno e as pessoas que com ele se relacionam, ignora as advertências e segue em frente como se nada pudesse acontecer?
Marcos Inhauser

quarta-feira, 18 de maio de 2016

TEMER(IDADES)

O sentimento de indignação com a corrupção está à flor da pele dos brasileiros. Não há dia que algo novo não venha à tona, envolvendo os mais variados setores da economia, os mais variados personagens, tanto na esfera pública como privada, tanto tubarões como lambaris. A coisa transpareceu na Câmara, quando da votação da admissibilidade de julgamento da presidente. Muitos (se não a maioria dos deputados), ao explicitar seu voto no festival de babaquices que se viu, declarou o desejo de colocar um fim à corrupção, ainda que o assunto não fosse o que estava em pauta e nem era o que se votava.
Com isto, vejo que a nomeação do ministério feita pelo presidente-interino Michel Temer foi uma Temer(idade). Indicar sete ministros que estão sendo acusados pela Lava Jato é uma temeridade. Sei que ninguém é culpado a priori, que só se torna culpado depois de sentença transitada em julgado, que a pessoa é inocente até que se prove o contrário. Ocorre que, salvo raríssimas exceções, os que tiveram seus nomes citados pelos delatores premiados foram posteriormente investigados e se comprovou o que diziam. Aí está o caso do Eduardo Cunha, do Delcídio Amaral, do Argolo, do Pedro Henry e outros mais.
Ter o ministro Eliseu Padilha é uma temeridade. Ele foi acusado de ser lobista, de ter atuado em favor de empresas e de ter pago dois milhões de forma ilícita. A acusação foi feita em 2003, a ação foi impetrada em 2013 (!!!) e até agora nada de julgamento.
O Geddel Vieira Lima é acusado de ter desviado mais de um milhão da corretora de valores do Baneb (1999), o que lhe custou a demissão do cargo que ocupava. Ainda pesam sobre ele o fato de ter mensagens interceptadas nas quais advogava a favor da OAS, o que lhe garantiu recursos para sua candidatura ao Senado, graças à “generosidade” do Léo Pinheiro.
O ministro Moreira Franco teve um apartamento leiloado pela Justiça (1997) para que se devolvesse dinheiro utilizado indevidamente para enaltecer as suas obras à frente do governo do estado do Rio.
O ministro Henrique Eduardo Alves, quando da sua eleição para a presidência da Câmara em 2013 teve uma série de acusações feitas contra ele: de ter dinheiro não declarado no exterior, contratar empresa laranja, beneficiar assessor, entre outras.
O ministro Blairo Maggi ganhou o prêmio Motosserra de Ouro, já foi considerado como um dos mais ferrenhos apoiadores do desmatamento, é conhecido como rei da soja (título que perdeu para Eraí Maggi). O estado de Mato Grosso forma o "Arco do Desmatamento" (a parte da Amazônia mais desflorestada) e o desmatamento do estado dobrou no seu governo. Uma temeridade colocá-lo no Ministério da Agricultura.
Temeridade foi a entrevista do ministro da Justiça, falando o que não era hora de falar e dando cordas para uma série de interpretações, inclusive a de que o novo governo interferiria na Lava Jato. Na mesma linha, também a entrevista do ministro da Saúde (que recebeu financiamento de campanha de planos de saúde), quem disse que o SUS precisa ser readequado, o que provocou celeuma e ele teve que recuar no mesmo dia.
Temeridade é chamar sindicalistas para que proponham mudanças na Previdência. Pura perda de tempo, porque nunca apresentaram nenhuma proposta concreta e não o farão agora.
Temeridade é ter um ministério com doze ministros que receberam, contribuições de empresas que estão na Lava Jato.
Temeridade é ter um ministério sem mulheres e negros.
Temeridade é querer mudar o Brasil nos seis meses que, porventura, estará em um governo interino, ou até 2018, caso venha a assumir a presidência.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 11 de maio de 2016

VIROU CIRCO?

Há algumas palavras que, parecidas foneticamente, são diferentes e enunciam significados próprios: conveniência, convivência, conivência e competência. Lidamos com estas palavras (ou com o que elas significam) a cada decisão que tomamos. Elas embasam atitudes e comportamento social, regem valores éticos e, sobretudo, avaliações sobre os outros.
Há decisões que as tomamos por conveniência. Compro determinado produto, pago com dinheiro ou cartão, segundo me for conveniente. Vou de carro, ônibus ou avião de acordo com minhas conveniências. Hospedo-me na casa de amigos ou prefiro um hotel, segundo o que me for mais conveniente. Para vender algo em momento de crise, talvez me seja conveniente reduzir o preço.  A conveniência pode ser positiva ou negativa. Ela será negativa quando o conveniente encobre erros ou crimes.
Há uma certa tendência de sermos favoráveis e privilegiarmos quem conhecemos e com quem “já comemos um quilo de sal juntos”. Mas a verdade oposta também pode ser considerada quando, por conhecermos a pessoa por termos com ela convivido, fazemos juízo negativo. Dia destes sugeri uma pessoa para uma posição e o meu interlocutor, por conhecer bem a pessoa que eu indicava, foi taxativa: “não, é muito enrolada”. Há quem diga que a muito provável decisão do Temer de nomear como Ministro da Justiça ao Alexandre Moraes, se deve ao fato de serem amigos. O mesmo se diz do outro que fôra cotado para o mesmo cargo, o Antonio Mariz.
Há as contemplações favoráveis que fazemos por conivência. Avalio bem certa pessoa porque não quero que ele diga o que sabe de mim. Nomeio este ou aquele porque pertence ao meu grupo de negociatas. As revelações da Lava-jato mostram quantas nomeações, indicações e cargos foram contemplados por parceiros do crime. Havia conivência.
Há agora a promessa do Temer de montar um ministério de notáveis, o que, se deduz, de gente competente. Estamos cansados de ter gente nomeada por conivência, por convivência (indicado por ser amigo), por convênio partidário (a famosa coalizão). Aí estão fartos exemplos desta forma de se montar uma equipe ministerial.
Na análise destes elementos me vem a pergunta: qual foi o critério que se usou para colocar o Valdir Maranhão como vice-presidente na chapa do Eduardo Cunha? Com certeza, não foi o da competência. Qual foi o critério que se usou para manter o Mantega no ministério por tanto tempo, apesar das lambanças feitas e que agora vêm à luz? Quais foram os critérios para se colocar na tesouraria do partido ao Delúbio e o Vaccari? Quais os critérios para o Temer se cercar do Geddel, Romero Jucá. Nascimento, Henrique Eduardo Alves?
Mas a coisa complicou quando ontem, em uma decisão surpreendente, o presidente interino (ou intestino?) da Câmara, em decisão monocromática, mostrou toda a sua incompetência, complacência às pressões e conveniência (quando percebeu que perderia o mandato e, por conseguinte o mandato, o que lhe colocaria sem foro para enfrentar as acusações que sobre ele pesam), foi inicialmente conivente, depois incompetente, depois conveniente e, afinal, indecente ao revogar a decisão tomada horas antes.
Quando soube da notícia da anulação, o primeiro pensamento que me veio à mente foi: virou circo! Somou-se à vergonha que tive ao ouvir todos os votos dados na sessão da Câmara que aprovou a plausibilidade do impeachment: um rosário de babaquices. Fui ver e ouvir as repercussões do ato e o sentimento circense não me fugia da cabeça. Vi a espetacularização do embate no Senado e a conveniência do senador Renan ao forçar a barra pela cassação do Delcídio, por medo de ser acusado em plenário pelo delator-premiado.
Neste universo, chego à conclusão de que o sistema eleitoral brasileiro não privilegia as competências, antes elege quem está em evidência fabricada pela mídia e propaganda eleitoral.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 4 de maio de 2016

QUEM VOS FASCINOU?

Acredito que o apóstolo Paulo, quando foi à Galácia, encontrou ali gente receptiva às novas ideias, o que o levou a se dedicar em criar uma comunidade alicerçada na teologia da graça e a completa libertação da escravidão das regras e mandamentos. Feito o serviço, foi para outras bandas. Mais tarde recebeu notícias que o deixaram frustrado. O que havia ensinado e posto em prática tinha sido abandonado.
Escrevendo a eles, em carta bastante biliática, exclama: “Ó gálatas insensatos! Quem vos fascinou a vós outros … Sois assim insensatos que, tendo começado no Espírito, estejais, agora, vos aperfeiçoando na carne?” (3:1-3). A frustração se devia ao retrocesso, à troca do excelente pelo medíocre.
No trabalho pastoral tive este tipo de sentimento algumas vezes. Pessoas e comunidades onde dei o sangue para ensinar a viver a graça e descobri, mais tarde, que se deixaram levar pelo domínio de regras e mandamentos. Gente que vem a mim elogiar pregadores de obviedades, anunciadores da justiça retributiva, mendigos religiosos a pedir esmolas para sustento deste ou daquele programa. Ouvir que Fulano é excelente pregador quando o elogiado foi duramente criticado por um grupo de pastores com teologia anêmica, que pediu que ele nunca mais fosse convidado. Gente que me manda vídeo de sermões horrorosos, no anseio de me converter ao be-a-bá que abandonei há muito tempo. Gente que se julga auxiliar e braço direito do Espírito Santo na obra da conversão, convencimento e santificação!
A mesma frustração se pode aplicar a outras esferas. Quem foi que vos fascinou para que, tendo começado no combate pela ética, vos tornastes símbolo da corrupção? Quem vos fascinou para que, tendo começado na luta pelos trabalhadores, vos tornastes a causa da maior crise de empregos da história do Brasil? Quem vos fascinou para que hoje condenes os instrumentos que vós usastes no passado? 
Quem vos fascinou, ó Zé Dirceu, para mudar o que dissestes em 1992, quando do impeachment do Collor: "Não é o presidente Ibsen Pinheiro, não são os partidos que sustentam o processo de impeachment do presidente da República e não é esta Casa; mas, sim, a Constituição que estabelece que a autorização é matéria de competência da Câmara dos Deputados".
Quem vos fascinou, ó Aldo Rebelo, para hoje pensar diferente do que pensavas em 1992: "Querem melhor proteção, querem mais democracia, querem mais direito de defesa do que esta Casa precisar de dois terços de seus votos para autorizar processo contra um corrupto? Para que mais proteção? Para que mais democracia?".
Quem vos fascinou, ó Aloizio Mercante, para que hoje negues o que dissestes em 1992: "O desafio de consolidarmos a democracia no Brasil e darmos ao mundo o exemplo de quem sabe corrigir os erros sem ferir a ordem constitucional.”
Seria o Fiat Elba do Collor mais pecado que as pedaladas e decretos ilegais? Seriam os desvios do PC Farias mais corrupção que o que já se sabe pela Lava Jato?
Quem vos fascinou? Ou deveria ser a pergunta feita desta forma: o que vos fa$cinou para serdes hoje o oposto do que dizias que serias?
Marcos Inhauser

quarta-feira, 27 de abril de 2016

VISÕES

Lembro-me com a clareza de algo que acabou de acontecer. Era a primeira vez na minha vida que me colocava à frente de uma classe e lia algo. Tinha eu sete anos de idade, em processo de alfabetização e fui chamado para ler para a classe a história de um oftalmologista que, passando todos os dias pela praça pública, via um senhor cego a pedir esmolas. Um dia o convidou ao seu consultório e o examinou, decidiu operá-lo, a vista foi recuperada e o homem passou a ver.
Algum tempo depois o médico passou pela mesma praça e, para seu espanto, lá estava o homem a pedir esmolas, como se cego fosse. A história terminava com a máxima; o pior cego é o que não quer ver.
Alguns anos depois, na casa de um amigo de meu pai, fui chamado a um microscópio e convidado a olhar pelas lentes. Era uma outra visão: a visão ampliada de um ácaro. Fiquei estarrecido com a riqueza de detalhes que via e que nunca havia imaginado que o nada (porque nunca havia visto) pudesse ter tanta riqueza de detalhes. Fiquei com a máxima: nem tudo consigo ver com meus próprios olhos.
Meu tio Nicolau, que morava conosco, comprou um telescópio amador, mas potente o suficiente para ver o que não conseguia ver na superfície lunar, em Vênus e outros planetas. Toda a noite saíamos para fora de casa e nos deslumbrávamos com as visões que tínhamos. Fiquei com a máxima: há coisas tão distantes que só vejo os detalhes com a ajuda de lentes.
Muito mais tempo depois li a história de Manuelzão e Miguelim, nos contos de Guimarães Rosa. Emocionei-me quando o médico oftalmologista que visitava a fazenda onde vivia Miguelim, ao perceber sua miopia, trouxe-lhe óculos e o colocou na criança, que passou a ver muito mais e melhor do que até então via. Fiquei com a máxima: para ver melhor o mundo onde estou preciso de ajuda.
Quando fui fazer a pós em Educação, fui levado a ler alguns filósofos clássicos. Eles me abriram os olhos para ver que eles já tinham visto coisas que eu nunca imaginei e sonhei. Fiquei com a máxima: o que hoje vejo e acho que é novidade, alguém já pode ter visto alguns séculos antes mim.
Fui fazer teologia e passei a ler a Bíblia com outros óculos. Inicialmente com lentes mais conservadoras, à medida que fui ganhando confiança fui trocando as lentes e vendo no texto bíblico coisas que antes não via. Houve vezes que achei que estava olhando pelo microscópio, outras pelo telescópio, outras que um médico botou óculos novos em mim. Nesta caminhada percebi que a cada dia a fé tem a capacidade de mudar as lentes da minha visão.
Mais recentemente percebi que um tipo de cegueira que a refuto como a pior de todas. Há pessoas que não se enxergam. Fui alertado para este tipo de gente quando, via um programa de calouros e um candidato, desafinado e sem noção de ritmo, foi gongado e ele vituperou dizendo que o júri não entendia de música e que ele ia ser um grande cantor e voltaria para mostrar seu talento. Depois foi uma mulher que se vestia ridiculamente, que foi feito um treinamento na empresa para ver se percebia que era exagerada e ela disse que ninguém se vestia tão bem quanto ela.
Atualmente temos vários exemplos na política de gente que não se enxerga. E porque são cegos da pior espécie, fazem sofrer aos que são obrigados a conviver com eles.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 20 de abril de 2016

TEMER: SIM, HÁ O QUE TEMER!



Passado o episódio da votação na Câmara dos Deputados e a perspectiva de que o Senado venha a aceitar a admissibilidade do julgamento, teremos, no máximo, 180 dias de um governo tampão, com o anódino Michel Temer.
A ascensão dele à presidência traz algumas certezas: ele nunca dirá nada revolucionário, impactante, que traga novidade ou algo para se pensar. Ele tem a capacidade de tempero de um chuchu. Nunca ouviremos dele o Discurso da Mandioca, nem afirmações da existência da “mulher sapiens”, nem se equivocará dizendo que há a “mosquita do zica”. Antes, pelo contrário, seus discursos serão chatos, cansativos e um convite para mudar o canal depois de dois minutos. Usar metáforas? Nunca!
Outra certeza é que ele terá mais ouvidos que a antecessora. A sua trajetória política, tal qual a que ele sucederá, foi construída não com votos, mas com relacionamentos. Dizem que aceitou ser vice na chapa do Lula porque sabia que não conseguiria se eleger deputado. A sua força está na presidência do partido mais dividido do espectro político-partidário. Sabe costurar divergências.
O que ainda não consegui entender ou imaginar é como o partido mais governista do período pós ditadura (sempre esteve na crista da onda em todos os governos), e que tem o condão de participar e fazer oposição simultânea ao governo de plantão, conseguirá ser uno para governar o país. Como administrar o lado fisiológico do partido (ávido por boquinhas e quejandas) em um governo que será super vigiado pela população e pelo PT, PCdoB e PSOL?
Mais que isto, estranha-me o fato de que o PMDB quer lavar as mãos de um governo que, segundo a acusação, cometeu crime de responsabilidade, quando teve, ao longo de todo o tempo, ministros e o vice-presidente andando na carruagem presidencial. Serão tão santos assim? Como ser santo em companhia de campeões de denúncia no STF?
Há que se considerar que o Palácio do Jaburu, desde que se tornou provável a admissibilidade no caso da Dilma, a romaria de políticos se instalou, todos ávidos por serem lembrados na hora das nomeações. Até um grupo de religiosos foi lá para orar pelo Temer. Se conheço algo destes “religiosos”, foram se tornar visíveis/candidatáveis para uma possível nomeação.
O governo PT, com seu presidencialismo de coligação se mostrou inviável. O que vejo até agora é a continuidade do modelo. No entanto, creio ser de bom alvitre esperar as águas correrem debaixo da ponte e analisar as primeiras nomeações para se ter uma ideia por onde o rio correrá. Com certeza Alfredo Nascimento, Geddel Vieira Lima, Romero Jucá e Henrique Eduardo Alves, Moreira Franco, todas figurinhas carimbadas, terão seus espaços amplos.
Não nutro esperanças. Não creio em mudanças quando se usam os mesmos modelos e métodos. Tenho para comigo que o câncer da política brasileira é o PMDB, pela sua postura ambivalente nos vários governos do qual participou, pela forma como boicotou a candidatura de Quércia e Ulysses Guimarães, pela forma como negociou o seu apoio nos momentos cruciais de governos e da nação. Quero ver o Temer ter o apoio massivo do PMDB! Se o fizer, ganha o prêmio Nobel da Paz! Ele terá que administrar a crise política, econômica, financeira, os caos na saúde e educação, e ainda agradar os parceiros de partido e os aliados de primeira e última horas.
Tudo isto em um clima de temporariedade, acirramento dos ânimos políticos, Lava Jato, julgamento no TSE dos gastos da sua campanha, com o compromisso de não ser candidato em 2018 e outras coisas que penso, mas a prudência me faz calar.
Temo o Temer!
Marcos Inhauser