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terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

HÁ FUNCIONÁRIO E FUNCIONÁRIO


Quando da internação do meu pai no PS São José, escrevi dois textos. Em uma destas vezes recebi um e-mail de um funcionário do PS, que segue abaixo, com algumas edições:
“Provavelmente o senhor não se lembra de mim, mas fiz Raio-X do senhor Milton quando ele estava internado no São Jose. Meu nome é Wagner, sou técnico de Raio-X no PS há 11 anos. Muitas coisas já presenciei naquele local, histórias tristes e alegres, de perda e dor, de superação e humanidade.
Tenho orgulho do meu trabalho naquele local. Inúmeras vezes, depois de um plantão exaustivo, saí de lá jurando que na primeira oportunidade pediria transferência, mas até hoje, sempre que uma vaga em outro lugar aparece, acabo dispensando e continuo no bom e insano PS São Jose. Não estamos acostumados com elogios e reconhecimentos. Geralmente levamos apenas pedradas como o senhor mesmo presenciou enquanto cuidava do seu pai. Quantos xingamentos, quantas escarradas no rosto já levei naqueles plantões! Não estou falando no sentido figurado, mas literal. Já fui pra casa levando o DNA de pacientes nervosos, drogados, exaltados, que não se contentaram em ofender...rsrsrsrs. Não tem jeito.
Aquele lugar realmente nos mostra que temos uma missão a cumprir, que precisamos estar ali, mesmo que for para passar por essas agruras.
Quando vemos uma criança chegando toda roxa sem ar e depois saindo de lá sorrindo,  bem de saúde, não tem dinheiro que pague”.
Há aqui algumas coisas. A primeira é o senso de dever para com o próximo que o Wagner tem (e muitos outros). Já escrevi aqui sobre “Um Exército de Anjas” para falar de quem trabalha no Cândido Ferreira e “Mario Gatti da Graça” para reconhecer o cuidado que meu pai ali teve quando foi operado.
A segunda é que este pessoal trabalha sem recursos e há os que colocam dinheiro e equipamentos pessoais para poder atender à população.
A terceira é que os profissionais de saúde estão expostos à violência. Ela tem duas fontes: os que chegam alterados pelo álcool ou pela droga e os que, achando-se com algum direito superior aos demais, ofendem, xingam e agridem. São comportamentos insanos, como relata o Wagner.
Quarto é que causa revolta ver profissionais dedicados lutando com a falta de recursos e o dotô e quadrilha levando os milhões que o Ministério Público está dizendo que levou. Vi gente virando plantão para poder ganhar uns trocados a mais e porque não havia profissionais suficientes. Outros, sem nada fazer além das tramoias, levam malas do nosso dinheiro.
Quinto: o governo central, no ensejo de pagar os juros para os agiotas internacionais, decidiu fazer cortes no orçamento. Não cortaram verbas do Senado ou Congresso, nem das emendas parlamentares. Mas da Saúde. E o ministro tem a cara de pau de vir a público dizendo que os cortes não vão representar queda na qualidade do atendimento. São 5,5 bilhões a menos.
Pensando bem, acho que o Ministro não mentiu: é impossível piorar o atendimento médico público. Se algo funciona é pelo denodo de funcionários como o Wagner e outros que conheço.
Marcos Inhauser


terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

FICHA LIMPA SEM CINZAS


O calendário litúrgico coloca esta quarta como sendo de “cinzas”, a raiz da prática semítica de mostrar o arrependimento usando sacos e se cobrindo de cinzas. Exemplo mais emblemático e conhecido desta prática é Jó, o personagem bíblico que suportou tamanha provação e privação. Diz o texto que “Jó tomou um caco para se raspar com ele; e estava assentado no meio da cinza” (Jó 2:8).
Ela era o sinal externo de um arrependimento interno, de uma prática de devoção que implicava na mudança de hábitos de vida. Na prática cristã a inclusão de uma data no calendário para que se faça esta contrição e arrependimento tem uma longa história, que não cabe aqui recontá-la.
O que quero é mostrar a relação entre a Ficha Limpa, lei recentemente considerada constitucional pelo STJ e a quarta-feira de cinzas. A lei nasceu do desejo e anseio populares de dar um basta aos larápios do erário, que se reelegiam e assim davam continuidade a seus atos de rapina no carnaval da política nacional. E a lei entra em vigor nestes dias.
Havia um carnaval na política brasileira. Escolas de samba com gente fantasiada de senador, deputado, governador, prefeito, vereador, que desfilavam seus brilhos, pumas e paetês na passarela da política nacional. Era a escola dos políticos doidos, que acreditavam que o Carnaval não tinha fim. A plateia, do alto das arquibancadas do sambódromo político, decidiu que o Carnaval da corrupção tinha que ter fim.
Houve mobilização, abaixo assinado, coordenação e a coisa foi parar na presidência da Escola de Samba do Planalto. Pressionados pelo calor das vaias que ouviam, decidiram dar um tempo no samba, crendo que era questão momentânea. Acharam que as vaias para a performance grotesca de suas alegorias e samba seriam, como sempre foram, relegadas a um segundo plano. Ledo engano. O coro e as vaias cresceram.
Decidiram pedir ajuda a outra escola de samba para que interferisse e dissesse se a coisa valia ou não. Os togados, também pressionados por vaias para a desafinação de alguns integrantes que estavam movimentando mais grana do que a ética, a decência e os salários permitiam, decidiram que o Carnaval das propinas estava levando um tranco e que o samba teria que ser outro.
Os foliões que estavam atravessando na harmonia, foram cirurgicamente impedidos de renovar suas participações no sambódromo político nacional.
Ocorre que estes foliões atravessados e bêbados pelo sangue do povo não conhecem o que é contrição e arrependimento. Nunca se vestiram de pano de saco, nem se cobriram de cinza. Ainda querem passar a ideia de são vítimas das notas de jurados incompetentes que não lhes dão notas dignas de sua ilibada performance. Eles perderam nos itens harmonia, comissão de frente, samba enredo. Podem ter alguns pontos em criatividade, fantasias, hipocrisia, evolução patrimonial.
Não esperemos que venham a público vestidos de saco e cobertos de cinza, por mais cristãos que afirmem ser. Fazer isto seria devolver ao erário o que roubaram. Nisto o Zaqueu, chefe dos publicanos era mais cristão que estes. Decidiu devolver o que havia tomado indevidamente. 
Marcos Inhauser

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

O SUCESSO É SUICIDA


Elvis, Elis Regina, Kurt Cobain, Amy Winehouse, Ray Charles, John Nash, Nelson Gonçalves, Jimmy Hendrix, Lindsay Lohan, Michael Jackson, Marilyn Monroe, Nick Nolte, George Michael, Charlie Sheen, Maysa, Bob Marley, Fábio Assunção, Marcelo Antoni, Kate Moss, Stuart Cable, Heath Ledger, Jim Morrison, Janis Joplin, Billie Holiday, Mike Tyson, etc.
O que há em comum com todos eles? Foram ou são famosos e tiveram envolvimento com drogas e álcool. Muitos dos citados morreram por overdose ou por complicações advindas do uso prolongado delas ou do álcool.
A lista não é completa. Nesta semana fomos informados de mais uma celebridade que se envolveu com drogas e álcool e teve morte prematura. Ainda que a causa mortis não tenha sido oficialmente declarada, ninguém nega que o uso de drogas e álcool acabou com a vida da Whitney Houston.
As perguntas que muitos se fazem nesta hora e que a fizeram nas outras vezes em que isto aconteceu é: como uma pessoa tão bem de vida e tão reconhecida pelo público, faz uma besteira destas? Porque há tanta gente do meio artístico envolvido com drogas?
Respostas já foram dadas às centenas e não pretendo trazer nenhuma novidade. Quero apenas trazer um paradigma bíblico para talvez colocar alguma luz neste assunto. A Bíblia relata que houve um paraíso, o Éden, que nele estavam Adão e Eva, e que no paraíso havia duas árvores: a da vida e a da ciência do bem e do mal. Tentados a serem mais do que eram, querendo ser iguais a Deus, tomaram do fruto proibido e foram expulsos do paraíso e morreram.
Todos estamos todos os dias tendo que decidir entre a árvore da vida e a da morte. No mundo artístico e das celebridades parece que o fruto da morte está mais tentador e mais facilmente ao alcance. Usam e abusam da árvore da morte e morrem por overdose.
Mas há no paradigma bíblico outro aspecto: querer ser mais do que são. Tenho para comigo que o ser humano foi feito para viver na relação de amor com o próximo e ser celebridade lhe dá um status que altera esta relação de igualdade.  Não fomos criados por Deus para o estrelato, para o sucesso, para a exposição midiática. Ele nos fez para a convivência fraternal, para o desfrute das pequenas coisas, para a humildade, para o serviço ao próximo. O sucesso parece que tira dos famosos e celebridades o sentido da vida. Morrem prematuros porque a vida perdeu seu significado maior: o outro, o próximo.
A alegria dos fãs, a música enlevante, as declarações de amor de muitos, o assédio, não eram satisfatórios. Para muitos, os aplausos entorpecem, anestesiam, mudam o foco da vida. Fama é carreira de cocaína: cada vez precisa ser mais recheada, mais longa, mais constante, até matar. Aí está o BBB e a busca desvairada pelos cinco minutos de fama, a qualquer preço. A internet está cheia de vídeos de pessoas querendo ser famosas.
A fama que consagra é a da Madre Teresa de Calcutá, Francisco de Assis, Ghandi, Mandela, Luther King, Betinho, Zilda Arns, Monsenhor Romero, e tantos outros que comeram do fruto da árvore da vida que é o amor ao próximo em ações concretas de ajuda.
Marcos Inhauser

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

DESLUMBRADO


A fritura que o ex-ministro das Cidades, Mário Negromonte, foi submetido, teve elementos interessantes de serem analisados. Ele foi fritado por causa da sua incúria administrativa.  Sua gestão era considerada sofrível, pois algumas das bandeiras da gestão Roussef estavam sob a responsabilidade do Negromonte, como é o caso da Minha Casa, Minha Vida e que parcela ínfima de recursos havia sido destinada e usada. Dos R$ 22,2 bilhões autorizados pela presidente o órgão gastou R$ 2,3 bilhões, ou seja, pouco mais que 10%. E isto em uma pasta que deveria dar visibilidade e fazer propaganda para o Governo. O Programa de Aceleração do Crescimento na Mobilidade Urbana ficou na promessa.
A segunda razão é que ele não conseguiu fazer a articulação política, pois não unificou a sua base de sustentação e foi alvo do fogo amigo da própria bancada. Ruim de gestão e de negociação.
A terceira razão é que distribuiu benesses a amigos e parentes. O caso do superfaturamento do TAV de Campo Grande é exemplo.
A quarta razão é o desejo do líder da bancada de ser o Ministro das Cidades. O deputado Aguinaldo Ribeiro, também do PP. Era seu sonho de infância ser ministro de alguma coisa. Ele tem em comum com o antecessor, não só pertencerem ao mesmo partido, mas serem alvos de denúncias várias. O novo ministro é dono de construtoras não declaradas ao Tribunal Eleitoral. Ele aumentou seu patrimônio em 2,5 vezes entre 2006, quando se elegeu deputado estadual na Paraíba, e 2010, quando foi eleito para o primeiro mandato na Câmara dos Deputados. As declarações de bens que entregou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) teve uma variação patrimonial de 164,6%: saltando de R$ 1.350.998,50 para R$ 3.575.093,38. Só para comparar, a média de valorização do patrimônio dos deputados federais entre 2006 e 2010 foi de 5,2%. Nesse período em que esteve na Assembleia Legislativa de seu estado comprou dois imóveis, entre eles uma casa de R$ 410 mil, além de dois terrenos e três carros de luxo. No mesmo período também investiu em cabeças de gado, ações e aplicações em renda fixa.
Tamanha capacidade administrativa agora é dedicada ao gerenciamento do Ministério das Cidades!!
Mas o que mais me chamou a atenção neste episódio foi a cara de deslumbramento do Aguinaldo quando chegava ao Palácio do Planalto para aceitar o convite depois da sua autoindicação. Quem teve a oportunidade de vê-lo diante das câmaras de televisão pôde perceber a cara deslumbrada do novel ministro, com um sorriso maroto nos lábios, como que querendo dizer: “agora eu sou o cara”. Mais que isto, sua fala logo após a audiência foi de tal arrogância e prepotência, consolidada pelo nariz empinado e palavras de que no fundo queriam dizer: “agora vou arrasar e fazer o que o Negromonte não fez”.
Eu, de minha parte, vou sentar a arquibancada e ver quanto tempo dura. Mas acredito mais no versículo bíblico: “a arrogância precede a queda”. Chegou de salto alto, vai quebrar o tornozelo!
Marcos Inhauser


terça-feira, 31 de janeiro de 2012

NÃO SE DISCUTE?


Recebi do meu amigo Rev. Marcos Kopeska, o seguinte texto que reproduzo na íntegra: “Por muitos anos ouvi o jargão: ´religião, política e futebol não se discute.´ Acontece que por não discutirmos religião deixamos uma lacuna enorme de omissão numa sociedade tão carente de orientação espiritual. Esta vacuidade passou a ser preenchida por crendices cegas com o nome de devoção, manias e histerias espiritualistas com o nome de avivamento, religiões que aparecem e desaparecem com nome de evangelização, mercenários da fé que adoram resultados e cifras com o nome de apóstolos e pedófilos embebidos de fantasias com o nome de sacerdotes.
Quando deixamos de discutir deixamos de refletir. Henri Paincore, filósofo, dizia: “Duvidar de tudo ou crer em tudo. São duas soluções igualmente cômodas, que nos dispensam, ambas, de refletir.” Não discutir é cômodo, mas é trágico.
Dizem que discutir religião leva as pessoas à intolerância e fanatismo. Discordo! A falta de reflexão aberta leva ao ostracismo e o ostracismo ao radicalismo. E discutir política? Nem me fale! Por falta de discussões amplas com as bases é que continuamos a eleger os mesmos “ratos do Congresso” que a cada mês nos surpreendem com novos escândalos, que pagam toda a dívida externa e emprestam para o FMI às custas da maior carga tributária já imposta, que dão uma nova roupagem ao velho e vergonhoso passado a cada quatro anos.
Não discutir política leva a sociedade a crer na mídia tendenciosa e achar que os projetos assistencialistas eleitoreiros são prioritários, enquanto nos hospitais faltam leitos e médicos. Por não discutirmos política a massa é omissa e aceita o ópio do BBB, carnaval; e espera pelo bolsa família que os brasileiros que trabalham pagam com seus suados impostos.
E discutir futebol? Ah sim! Temos 180 milhões de técnicos falando das decepções que os mega contratos trouxeram. Temos 180 milhões de administradores preocupadíssimos com os atrasos nos cronogramas de construção e reforma dos estágios para a Copa. Acontece que poucos destes 180 milhões sabem que este atraso está custando próximo a 6 bilhões de reais, quase o triplo dos R$ 1,95 bilhão, estimativa quando da candidatura do Brasil junto a Fifa.
Nunca antes foi tão importante discutir religião, política e futebol. Não se esqueça: O verdadeiro cristianismo passa pelo viés da cidadania.” (Marcos Kopeska)
Assino o que ele diz. E porque me sobra um pouco de espaço, acrescento que o cristianismo brasileiro viveu e vive uma marginalização alienante, onde temas corriqueiros são proibidos. Áreas onde a mensagem evangelizadora precisa dar sua palavra, a igreja se cala, como é o caso da sexualidade, do modelo econômico, dos salários, dos direitos humanos, da corrupção, etc. Vamos trabalhar estes temas!
 Marcos Inhauser

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

FÁCIL, SUPERFICIAL E RÁPIDO


Quero compartilhar uma constatação que faço, depois de muitos anos dando aulas. Tenho mais de 35 anos como professor em vários níveis e em diferentes locais. Como trabalho com uma área que envolve abstração (conceitos teológicos e filosóficos), venho percebendo, ao longo dos anos, uma acentuada deterioração na capacidade dos alunos em conseguir trabalhar conceitos e certa aversão pelo aprofundamento de temas.
Expressão como “isto é baboseira”, “estudar estas coisas é perda de tempo”, “o que eu ganho sabendo isto”, “estou cansado de teologia, quero vida cristã”, “não preciso de teologia, preciso de poder para expulsar demônios e curar”, “de que adianta um sermão bem estudado se a igreja não enche de gente?”, “para encher a igreja de gente não é necessário saber teologia” são por mim ouvidas com frequência cada vez maior.
Confesso que me arrepiam estas afirmações (e outras mais que não elenquei por falta de espaço). Estamos vivendo, não só no campo teológico, mas em todas as áreas, um processo de superficialização do saber. Cada vez mais sabemos menos sobre menos coisas. O que interessa é o fácil, o intuitivo, aquilo que dá para fazer sem precisar ler nenhum manual de instrução. Os celulares, smaRtphones, tablets, Ipods e Ipads são os queridinhos porque podem ser usados sem grandes conhecimentos. É tudo intuitivo e mesmo uma criança pega e em poucos minutos já está sabendo as funções básicas.
Da mesma forma devem ser os livros didáticos: intuitivos. Os cursinhos preparatórios para concursos e vestibulares, no mais das vezes, ensinam o “pulo do gato” na hora de responder. Os cursos precisam formar em menos tempo. Querem uma graduação em dois anos ou menos. O que interessa é o diploma na parede e no currículo. O saber, isto é outra coisa.
A predileção pelo fácil, superficial e rápido passou a ser a característica destes tempos. Tudo tem que ser intuitivo, sem trabalho. O arroz que você cozinha dentro de um saquinho e que não queima, fica molinho e soltinho, mesmo sem saber cozinhar. A lasanha que é só colocar no micro-ondas. A pipoca que não suja panela com óleo da fritura. Verduras e legumes que já vêm cortados. Carne que se compra temperada. Frango assado pronto. Jornais que só tem os titulares (quem tem tempo para ler a notícia toda?). Os feeds de notícias estão aí para provar isto.
Gasta-se mais tempo nos games que nos processos de aprendizado. Livrarias se fecham, mas lojas de jogos se proliferam. Os livros perderam espaço para os aparelhos eletrônicos. O saber aprofundado vai sendo substituído pelas soluções mágicas dos avatares. Há muita tinta gasta com fofocas de celebridades. Ibope para BBB é exemplo desta opção pelo fácil, superficial e rápido: para ganhar um milhão e meio em poucos dias sem fazer nada, vale qualquer coisa. Para aumentar o Ibope vale até a simulação de um estupro, providencialmente ocorrido ou marketeiramente planejado.
Há horas que bate uma desesperança tão grande!
Marcos Inhauser

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

ERRAR NA HORA ERRADA


Se somos todos imperfeitos, todos cometemos erros. Se todos cometemos erros por natureza imperfeita, há um direito ao erro inerente ao fato de sermos humanos. Ninguém escapa a isto: erramos! E contamos com a compreensão dos outros para não nos crucificar pelos nossos erros, mesmo porque, como já disse o apóstolo Paulo “se alguém pensa estar em pé, cuide para que não caia”. Hoje são complacentes com meus erros, amanhã eu retribuo com a minha complacência.
Já houve quem disse que “o maior problema do homem não são os erros que comete, mas o seu desejo de ser perfeito” (Norberto R. Keppe). Nem mesmo os gênios escapam ao erro. Assim foi com Salvador Dali e Walt Disney que decidiram fazer juntos um filme que nunca saiu e que deu enorme prejuízo. O nome dele seria Destino e só foi finalizado em 2003.
No entanto, esta semana me chamaram a atenção erros cometidos na hora errada. Não que haja hora certa para errar, mas há horas em que errar se torna mais grave. Refiro-me ao erro do piloto do navio Costa Concórdia que aproximou-se em demasia da costa e bateu em rochas submersas, causando mais de uma dezena de vítimas fatais e um prejuízo bilionário. Ele tinha o direito de errar e porque erraria, havia uma quantidade de aparatos eletrônicos, radares e cartas náuticas, para garantir que o possível erro fosse minimizado. A pergunta que fica é: como um navio com todos os recursos e tecnologia pode meter-se em tal encrenca sem que alarmes ou dispositivos de correção fossem disparados?
A outra história é a do coração que estava sendo transportado pela equipe médica para que o mesmo fosse usado em um transplante e o carrinho bate no pé do carregador e o coração cai fora da caixa onde estava acondicionado. Para azar maior do infeliz, havia a televisão para filmar o seu “desastre”.
Estes dois fatos me fizeram recordar do acidente do Airbus da Air France. Um piloto experiente decide errar na errada e entrar onde não podia: decide que não haveria problemas em avançar em meio às nuvens carregadas que estavam à frente. Deu no que deu. Como um piloto com tal experiência comete um erro tão primário em um momento tão crucial? Como uma pequena peça, o Pitot, decide falhar na hora em que mais se precisava dela?  O mesmo se pode perguntar do acidente da Gol no choque com o jato executivo.
Não há nenhum seguro de que alguém não vai errar na hora agá. Um dos melhores jogadores da Itália na Copa de 1994, o Roberto Baggio, falhou. O pai que colocou o nome dele no seu filho e este veio jogar na Copinha este ano, na hora de bater o pênalti, também falhou.
O prefeito tampão também errou, e várias vezes, quando se esperava que acertasse. Errou na votação do aumento de salários dos vereadores. Errou nas justificativas que deu. Errou ao convidar o Villagra para participar do seu governo. Errou ao afirmar que os vereadores são corresponsáveis no sucesso ou fracasso do executivo, não levando em conta a separação dos poderes. Só que este erra a toda hora e não só nas horas erradas.
Marcos Inhauser

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

TEMPLO À VIDA


Por nove dias frequentei o PS São José, por causa da internação de meu pai. Passei ali muitas horas, nos mais variados horários e até de madrugada fiquei ali em vigília. Outras tantas vezes levei minha mãe e a esperei durante o tempo que ela quis e suas forças aguentaram.
Não posso calar-me diante do que ali vi, vivi e presenciei. A primeira foi a forma como meu pai foi recebido e atendido. Imediatamente acolhido, em poucos minutos fui chamado para dar dados da situação da saúde dele. Em meia hora me comunicaram que ele ficaria para observação e alguns exames. Eu o acompanhei à enfermaria e vi dois enfermeiros “dando um jeito em uma cama”, colocando na cabeceira alguns apoios de rolo de papel, porque ela estava quebrada. Ouvi um dizer para o outro: “nós aqui sem camas decentes e o doutor na Oscar Freire gastando os seiscentos milhões!”. Aquela foi a cama destinada a meu pai e em nada ficou devendo às outras que ali estavam.
Comecei a perceber a forma carinhosa, atenciosa, competente e humana com que enfermeiros/as e médicos/as atendiam a todos indistintamente. Todas as vezes em que pedi a posição sobre a saúde do meu pai, nunca me esconderam nada, antes, de forma clara me indicavam a gravidade do caso. Na noite em que seu quadro se agravou, me avisaram do ocorrido.
Cuidaram do meu pai com dignidade, profissionalismo, competência e dedicação. Da parte dos médicos vi a o esforço para recuperá-lo. Quando pediram uma vaga no Ouro Verde para transferi-lo pedi a Deus que isto não ocorresse. Vi o cuidado deles em deixar meu pai penteado, mesmo que estivesse inconsciente.
Vi como eles atendiam e cuidavam dos demais. Uma pessoa ao lado xingava e ofendia as enfermeiras. Eu estava ficando irritado. A enfermeira veio para dar a ele remédio e o chamou de “meu amor” e aplicou a injeção com o devido cuidado para que não o machucasse. Um final de tarde entraram uma mulher surtada e um garoto de treze anos drogado. Os dois deram o maior escândalo. A mulher precisou de cinco homens para contê-la. O garoto também precisou ser contido. Eles o fizeram com cuidado e humanidade e em nenhum momento vi irritação ou violência da parte dos funcionários/as e enfermeiros/as.
Em uma das vezes fiquei a pensar que o PS São José é um Templo à Vida: sacerdotes e sacerdotisas, todos vocacionados, que são buscados por quem precisa da benção da saúde e eles, no exercício de suas vocações e com auxílio dos recursos, abençoam os que ali estão. Há na enfermaria um altar no centro, onde estão estes sacerdotes e sacerdotisas da vida ministrando aos enfermos.
Meu pai faleceu nas mãos destes sacerdotes e a ele somos gratos (minha mãe, filhos, noras, netos/as, bisnetos/as). Ao PS São José o nosso agradecimento e reconhecimento de que, em meio às agruras, dificuldades, carências e displicências do poder público, cumprem com sua vocação de abençoar aos enfermos.
O PS São José é um Templo à Vida.
Marcos Inhauser

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

SE ELE PUDESSE ESCREVER AO SAMU


Meu pai vem enfrentando problemas de saúde há algum tempo. No dia 26 de dezembro o quadro se agravou e decidi que o levaria ao médico, mas ele não estava em condições de ir no meu carro, debilitado que estava. Decidi chamar o SAMU. Liguei a primeira vez e deu mensagem para que ligasse mais tarde, fato que se repetiu mais três vezes. Comecei a me angustiar e ficar irritado. Como pode um serviço de emergência não atender? Achei que era porque estava ligando de celular e também achei que seria um absurdo se não aceitassem ligações de celular. Tentei mais uma vez e fui atendido. E aí começaram as minhas surpresas.
A primeira foi o atendimento inicial. Expliquei o quadro do meu pai e disse que não se tratava de uma urgência. Fui transferido para conversar com uma médica quem também me atendeu de forma exemplar. Novamente expliquei que não se tratava de urgência e que esperaria até que pudessem me atender. Preparei-me para uma longa espera. Trinta e cinco minutos mais tarde a ambulância chegou. E nova surpresa!
Se meu pai pudesse falar, sei que ele diria mais ou menos o seguinte: “nasci e cresci em meio a alemães e me casei com uma alemã. Frequentei igreja alemã. Aprendi que anjos eram brancos, vestidos de branco e com asas. Quando a porta da ambulância se abriu desceu um anjo que não era branco. Aliás, uma anja. Linda, negra e extremamente cuidadosa. Logo me ajudou a ir para a maca e me mediu a pressão, o pulso, a glicemia e começou a conversar comigo. Depois ligou avisando um médico de que eu chegaria. Ela me disse que eu iria para o Pronto Socorro e que de lá, depois de uma avaliação, me diriam o que fariam comigo. Este anjo não tinha asas. Tinha rodas e um motorista, também anjo. Minhas experiências anteriores com ambulâncias é que é uma viagem sacolejante, barulhenta por causa da sirene ligada, cheia de freadas e arrancadas. Este anjo motorista não era assim. Mais parecia que estava transportando ovos e que tomava todo o cuidado para não quebrá-los. Pela primeira vez me senti conduzido como se fosse um rei, assessorado por uma anja. Vi meu filho perguntando o nome deles: o anho se chama Claudecir e a anja Veridiana. Não vou mais vê-los. Meu quadro se agravou muito, perdi a consciência e os médicos dizem que sou paciente terminal. Mas antes que isto aconteça, quero deixar minha gratidão a estes anjos e meus parabéns ao SAMU pelo excelente trabalho que fazem. Milton Inhauser”.
Marcos Inhauser

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

TU ÉS PEDRO!


Tu és Pedro e sobre esta pedra se edifica a Babel política de Campinas!
O ex-presidente da Câmara, agora prefeito tampão de Campinas, assumiu o cargo de Prefeito e, salvo muita boa argumentação contrária, acredito que ele realizou um sonho de infância. Será também o “candidato natural” para assumir a prefeitura em um mandato tampão mais longo, pois não acredito que ele tenha se enfiado de corpo e alma nesta empreitada sem deixar amarrado os nós futuros.
Confesso que não posso acreditar neste prefeito tampão e nem nos paladinos da ética pública dos vereadores. Até as pombas do Largo do Rosário sabiam que algo de podre havia no reino doutor prefeito. No entanto, a Câmara só se mexeu depois que o Ministério Público fez as suas investigações e trouxe à luz as negociatas que rolavam.
Mais: como acreditar no comandante em chefe da decisão que autoconcedeu-se o escandaloso aumento de 126%. O meu raciocínio é: a questão do aumento foi proposta, discutida, aceita e aprovada nos bastidores, bem assim a maneira sorrateira de aprovar. Também foi decidida a ordem dos fatos: primeiro o aumento, depois o arremedo de acerto com o corte de verbas. Se a votação fosse feita na ordem inversa, correriam o risco de ter cortado a verba e não poder aumentar os salários.
Há outro raciocínio: a ser verdadeira a informação de que o aumento foi proposto e inicialmente negociado pelo líder do PT, o Josias Lech, surge a suspeita de que teria sido uma tentativa de abrandar a sanha de cassação e esta um tiro que saiu pela culatra dos articuladores petistas.
Causou-me espanto as afirmações do agora prefeito tampão, primeiro de que o aumento era para que houvesse independência do legislativo (e já argumentei que isto é uma confissão de promiscuidade, que se o aumento vigorará só a partir de 2013 significa que os vereadores continuarão a negociar com a Prefeitura, agora capitaneada pelo capitão do aumento). Em segundo lugar, na entrevista concedida à EPTV no dia seguinte à cassação, o ex e agora tampão, ao ser questionado sobre o aumento, disse que a população estava mal informada, que não representa incremento de gastos e que ele (agora em tom agressivo e contundente) nunca toleraria aumento de despesas. Vamos por partes: se a população não está bem informada, por que não se discutiu o assunto abertamente, mostrando a matemática do “ajuste”? Se a população precisava estar bem informada, por que se fez a votação de forma escusa, enviesada? Por que todos os vereadores, imediatamente após a votação deram chá de sumiço? Por que, quando puderam esclarecer (no episódio do CQC), expuseram a cidade ao mais completo ridículo, deixando a Câmara com cara de circo?
Pedro: você merece ser vigiado pela população, porque a Câmara não cumpriu seu mandato a contento no período do doutor e não fará agora, dependente que ainda é do executivo, segundo sua própria afirmação. De minha parte, farei o que me está ao alcance!
Marcos Inhauser