Muitas vezes vimos a mãe chorando, pedindo que orássemos
pela filha, que ela fosse liberta das drogas, mas parece que nada resolvia. A
cada dia ela ia se definhando e com ela definhava a mãe a o pai.
Naquela semana a situação chegou ao limite extremo. A filha
estava morrendo. E nesta situação estávamos ali em culto e oração. Tínhamos a notícia
de que a moça estava com falência dos dois rins e que passaria por hemodiálise,
mas sem garantia de ela pudesse sobreviver.
A mãe, quieta e chorosa, estava arrasada. Tomei a coragem de
perguntar a ela como se sentia e como havia aguentado tanto tempo a situação de
ter uma filha que desaparecia e que quando voltava, era um trapo de gente.
Ela, de forma calma, disse mais ou menos o seguinte: “Nestes
anos todos eu só tinha uma oração que eu fazia e faço. Pedia a Deus que não deixasse
eu me cansar da minha filha. Ela aparecia a qualquer hora do dia ou da noite,
sob chuva ou sol, sempre baleada pelas drogas. Eu a recebia, cuidava e amava.
Ouvia as promessas que ela me fazia e me perguntava se dava para acreditar.
Logo depois ela ia outra vez para a rua e voltava só Deus sabe quando. Eu
ficava orando e pedindo a Deus que eu não me cansasse da minha filha. Eu hoje
peço a Deus que a livre desta situação. Se ela sair desta e precisar fazer
hemodiálise para sempre, e se meu rim for compatível, vou doar um rim para ela.”
Eu não acreditava no que estava ouvindo. Uma mãe disposta a
dar parte de si para uma filha que jogou a sua vida fora, que estava nas
últimas pelas lambanças que fez e uma mãe pedindo que ela vivesse e que seu rim
fosse compatível para poder doar a ela.
Um misto de irritação, desconforto e incredulidade caíram sobre
mim.
Oramos pela moça, mas eu não acreditava que ela pudesse
escapar. Terminado o culto fui para casa e não conseguia dormir, pensando
naquela oração e na disposição de doação. Foi quando um pensamento me veio
forte (os mais espiritualizados diriam que Deus me falou): era a demonstração concreta
da graça divina através de uma mãe para com uma filha que não merecia nada,
depois de tudo o que havia feito.
Hoje eu faço a mesma oração. Há algumas pessoas que estou
pedindo a Deus que eu não me canse delas, no que pesem o fato de serem
murmuradoras, pessimistas, se passarem por vítimas, fazerem de uma vírgula uma
novela, carentes afetivos. Pessoas que cansam, folgadas, espaçosas, que não dão
o direito ao outro de falar, mas falam pelos cotovelos, interrompem, inconvenientes,
repetitivas, egoístas.
Tomei a oração desta mãe como lema: Deus, não me deixe
cansar destas pessoas doentes.
Marcos Inhauser