Mencionei na coluna passada a parresía, que é a virtude de
dizer a verdade. Outra anotação sobre o tema está no diálogo entre Sólon e
Pisístrato. Sólon afirma sobre Pisístrato: “se o soberano se apresenta
exercendo um poder militar, ameaçando pela força armada a outros cidadãos, é
normal que que os cidadãos [em troca] cheguem armados”. Se o tema é a parresía,
e o governante vem armado de mentiras, é normal que os cidadãos de bem o combatam
com investigações e verdades. A certa altura Sólon afirma; “sou mais sábio do
que os que não compreenderam os maus desígnios de Pisístrato, e sou mais
corajoso dos que o que os conhecem e se calam por terem medo” (Foucault, M.
Coragem da Verdade, pg 66).
Sólon desnuda assim que a parresía diante do governo
mentiroso é arriscada e pode causar a morte, seja ela física, seja ela moral
pela execração da indústria de mentiras que tal governante deve ter. “Quem
quiser dizer a verdade no jogo de um regime democrático pode se expor
efetivamente a morrer” (Idem, pg 67-68).
Sócrates, na Assembleia de Arginusas, declara: “eu votei
contra vosso desejo!”. “Eu estimava que meu dever era enfrentar o perigo com a
lei e a justiça, em vez de me associar a vós em vossa vontade de injustiça, por
temer prisão e morte” (idem, pg 68). O medo faz a consciência calar-se. Mas esta
não é a única razão: o desejo do poder é o que move a muitos para bajular os
poderosos de plantão. Com Sócrates aprendemos que a prática de dizer-a-verdade
é diferente da que ocorre na cena política. Para ele, mesmo o oráculo proferido
pelos deuses deve passar por um elégkhein, palavra grega para “fazer
recriminações, objeções, questionar, submeter alguém a um interrogatório,
opor-se ao que alguém disse para saber que o que disse se confirma ou não”
(idem, pg 70).
Há algumas coisas que pastores e líderes religiosos podem
aprender com Sócrates: não dar ouvidos às palavras proferidas, por quem quer
que seja, e que se pretende ser a Palavra de Deus via boca de algum
“iluminado”. Tudo, absolutamente tudo o que lhe for dito, deve passar pela elégkhein,
que é o processo de saber se o que se arvora como parresía é, de fato, a
verdade.
Neste raciocínio, o pretenso líder que se arvora como
parresiasta e é, ao mesmo tempo, aliado dos poderosos, tem toda a chance de ser
um embusteiro, porque a parresía é oposta à democracia, tal como a concebemos e
vivemos. Daí que, se levada a lógica ao paroxismo, teremos que afirmar que um
político religioso, especialmente o cristão, é uma excrescência. Ou será
religioso e, se espera, comprometido com a verdade, ou será político aliado à
trama de mentiras que norteia os poderosos. Se coloca os pés nos dois barcos,
ou perderá a autoridade religiosa ou se mancomunará com as tramas do poder.
Na necessidade da parresía apareceram os profetas. Nenhum
deles esteve associado aos reis, antes, pelo contrário, suas alocuções denunciavam
os desmandos, injustiças, mortes e exploração que praticavam. Não é possível
ser profeta e político partidário, mesmo porque, como ser social, todos somos
políticos, já dizia Aristóteles. A política da parresía dever ser a do cristão,
e este engloba as denúncias das injustiças, das explorações, do racismo, da
xenofobia, da carga tributária escorchante, da corrupção, do caixa dois, das
meias verdades, do negacionismo.
Sinto que faltam parresiastas no Brasil!
Marcos Inhauser