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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

PAPAI NOEL GENEROSO


Nada melhor que dar-se presente com o dinheiro dos outros. Ainda mais quando este dinheiro é público!
A Câmara Municipal de Campinas, no melhor dos espíritos natalinos, decidiu dar-se um belo presente: aumento nos salários de 126%! É impressionante como todo final de ano e por meios nada claros, os nossos políticos se concedem reajustes pornográficos. Qual o índice usado para que eles aprovassem os 126%? E por que foi feito em uma aprovação às surdinas e de forma sorrateira?
Com a presença cidadã que havia na Câmara para a votação da Macrozona 5, abrir o assunto  e discutir a elevação dos salários de forma clara e transparente, com certeza, enfrentaria a ira popular, como de fato aconteceu quando souberam da esperteza praticada pelos “nobres edis”. Os ovos atirados mostram a indignação dos presentes com a manobra. Populares foram detidos porque demonstraram a indignação atirando ovos. Os vereadores, protegidos pela Guarda Municipal, deram um bote nos cofres públicos e nenhum deles foi detido ou será punido par tal ato.
São estes vereadores que querem passar por paladinos da moralidade pública, abrindo Comissões Processantes para averiguar a moralidade do executivo e dos contratos da Sanasa. Que moral tem tais vereadores se na calada da noite, de forma imoral e antiética, se beneficiam ao legislar em causa própria? Como poderão denunciar contratos escusos se a elevação dos salários teve o mesmo condão?
Nos tempos do Collor eu morava fora do país. Em uma viagem que fazia ao Brasil, sentei-me ao lado de um grande empresário e durante a viagem viemos conversando. A certa altura, por perceber que ele sabia das coisas de Brasília, eu lhe perguntei a razão para o impeachment do Collor, que tinha acabado de acontecer. Ele, didaticamente, me explicou: “há um bolo e cada membro da família tem direito ao seu pedaço, coisa estabelecida e respeitada há tempos. Um dia um deles, por se julgar com autoridade ou melhor que os outros, decide que seu pedaço deve ser maior que todos os outros. A briga se instala e os outros membros tem duas opções: ou negociam ou destituem o membro. Foi o que aconteceu. O Collor mexeu na fatia do bolo dos políticos, deu briga e ele dançou.”
Tenho a sensação de que o que está ocorrendo na política de Campinas é um rearranjo nas fatias do bolo. Um já dançou, o outro está com a valsa pronta para dançar e outros conseguiram aumentar a sua fatia, talvez por inveja do tamanho da fatia dos que tinham o poder.
Marcos Inhauser

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

MOVIDO A MÚSICA

Em casa havia um dito: se o rádio está ligado, o Marcos está em casa. Desde pequeno andei fuçando para ter música à mão. Lá nos idos, eu fiz rádio de galena (pequena engenhoca que pegava uma única estação, sem uso de pilha ou outra fonte de energia) e ficava à noite ouvindo música.
Dei um jeito de ter um rádio na cabeceira da cama. Por reclamações com o som dele, tirei os falantes e coloquei debaixo do travesseiro para não atrapalhar os irmãos. Muitas destas rádios desligavam às onze ou meia-noite e eu ficava bravo por não ter música para ouvir. Arrumei um de Ondas Curtas porque podia ouvir até mais tarde, sem ter que desligar à meia noite. Tive uma vitrolinha portátil que ficava até tarde da noite ligada, tocando a meia dúzia de compactos e LPs que tinha.
Fiz das tripas o coração para ter como pegar FM, quando só havia estação em São Paulo. Queria ouvir a Eldorado porque me disseram que só tocava músicas. Consegui, mas nem sempre com recepção boa. Comprei um rádio portátil à pilha e descobri quão caro era ficar trocando-as por ficarem todas as noites até tarde ligado.
Uns colegas diziam que eu tinha um rádio muito bom e que para leva-lo para todo lado eu colocava rodas. Assim foram meus carros. O advento do walkman foi o céu. Tive vários, todos trocados por quebrar ou por modelos menores. A fita cassete me deu a chance de levar minhas músicas preferidas por todo lado, ainda que tivesse que carregar uma caixa. O Discman foi outra coisa que usei aos montes. Tive mais de 200 CDs. Veio o MP3 e aí me arrumei como sempre sonhei. Leve, portátil, econômico, usa pouca pilha. Achei que tinha tudo, até que peguei o IPod.
Digo estas coisas porque entramos na estação que mais músicas maravilhosas tem a ela dedicado: o Natal. Fico impressionado com a quantidade e qualidade das músicas natalinas e fico a pensar que só pode ser por Deus que tanta gente compôs tanta maravilha para falar do evento maior da humanidade. Ontem fiquei horas no Youtube vendo corais cantando canções natalinas. Tenho que confessar que lágrimas rolaram mais de uma vez.
No universo das músicas natalinas só tenho um reparo: a composta pelo Beatle John Lennon. Ela é linda, mas conseguiu escrever e cantar algo sobre o Natal sem mencionar a Jesus Cristo. Ainda bem que existe o Messias de Haendel, o Surgem Anjos Proclamando e tantas outras.
Obrigado Deus pela graça da música, aperitivo do céu!!
Marcos Inhauser

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

ARGUMENTATIVO


Meu neto Thiago tem seis anos de idade. Ele é um formigão: adora doces. Há alguns meses, por recomendação médica, começou-se a controlar a quantidade de açúcar diária. A mãe dedicou-se à árdua tarefa, restringindo a dieta. Todos os dias ele pede bala e ela diz que não vai dar para o bem da saúde dele.
Dia destes ele perguntou à mãe:
̶ Quando eu crescer eu vou casar. E quando eu casar vou ter filho?
̶ Sim, você poderá casar e ter filho.
̶ Quando eu tiver filho eu vou dar duas balas todos os dias para ele!
A mãe percebeu a alfinetada do filho e retrucou:
̶ Quando você tiver seu filho você vai se preocupar com a saúde dele e também vai se preocupar com o que ele come e quanto come, especialmente em se tratando de doces.
̶ Mas eu vou dar duas balas para ele todos os dias!
̶ Aí você não estará preocupado com a saúde dele.
̶ Mas eu vou estar preocupado com a felicidade dele também, e por isto vou dar duas balas todos os dias.
Não é a primeira vez e nem sou o único a ser surpreendido com as afirmações dos filhos e netos. Isto faz parte da história da humanidade.
No entanto, tenho para comigo, no que penso sou secundado por muitos outros, as crianças de hoje estão mais “inteligentes”, mais rápidas no gatilho e mais argumentativas.
Há algumas possíveis explicações para isto. A própria expressão “dar à luz” tinha um significado original diferente daquele que hoje damos. Ela se referia ao dia em que a criança, depois da quarentena em quarto escuro no qual era mantida logo após o nascimento, era trazida à luz. Isto era, em alguns casos, quarenta dias depois do nascimento. A criança era confinada e, de certa forma, engessada nas fraldas, faixas e cueiros. Parece que era proibido se mexer, espernear, sentir a liberdade depois de meses encerrado na bolsa uterina. Justificava-se dizendo que devia ser enfaixado para que a coluna “endurecesse”.
As exposições aos estímulos externos eram mínimas. Seu mundo, no mais das vezes, era viver no “chiqueirinho”.
Houve uma mudança drástica no nascimento, cuidado, educação e oportunidades. Elas estão mais livres e soltas, seus pais saem a passear com elas logo nos primeiros dias de vida, ouvem música, veem televisão, vão às escolinhas, interagem com outras crianças, aboliu-se o chiqueirinho, acessam o celular, IPhone, Ipad, games.
Os brinquedos estimulam o raciocínio e a capacidade argumentativa. Mais que ordens verticais, os pais aprenderam a dialogar e a explicar aos filhos o por que das coisas. Eles aprendem e argumentam. E nós nos surpreendemos e ficamos de queixo caído.
Marcos Inhauser

terça-feira, 22 de novembro de 2011

MINISTRO HISTRIÔNICO


O verborrágico foi embora, mas deixou o herdeiro no ministério: um ministro histriônico. A teatralidade, o exagero de gestos, as hipérboles despropositais, fazem do ministro Lupi o histrião par excellence.
Para se entender melhor a figura histriônica se pode relembrar de Odorico Paraguaçú, imortal personagem de Dias Gomes. Outro foi Sinhozinho Malta. Na vida real pode-se mencionar o locutor Gil Gomes, o vereador-cantor Aguinaldo Timóteo, a ex-senadora Heloísa Helena, o senador Pedro Simon, o Datena, entre outros.
O histrião fala alto, exagera nos gestos (gestos grandes e dramáticos), faz de uma fala simples uma peça de teatro, emocionaliza tudo, chora por nada e gargalha por menos ainda. Nos tipos mais característicos, ele é um comediante, a garantia de humor e risada.
Assim tem sido com o ministro Lupi. Cada vez que aparecia para anunciar os índices de emprego (isto antes das denúncias) ele conseguia fazer da apresentação de um relatório uma ópera bufa. Com os episódios que envolvem a sua gestão no ministério, ele está ainda mais histriônico.
A sua primeira defesa foi um show. Negou, acusou, gesticulou, cacarejou e bravateou. Mais parecia um santo saído de convento que ministro de governos nada santos. Passou a ideia de ser a reserva moral dos ministérios. Chegou o final de semana e novas denúncias, inclusive mostrando que havia mentido. Foi à Câmara dos Deputados e negou conhecer o Adair Meira e ter viajado em um King Air. Disse que tinha sido um Sêneca, como se o tamanho do avião diminuísse o deslize. Mais uns dias a aparece foto do Lupi descendo do King Air e ao lado do Adair, que ele disse não conhecer. Logo vem a público o Adair e diz que até jantar em homenagem ao ministro deu em sua casa.
Lá foi o histrião ao Senado explicar o inexplicável: não mentiu e nem poderia ter mentido porque quando lhe perguntaram não tinha ainda saído a notícia do King Air. Ao mais característico dos estilos dos governistas desta última década, a culpa é do assessor e ele não sabia de nada.
Bravatão, disse que só seria abatido a bala. Repreendido pelos palacianos, sai com a frase mais cômica de todas as suas investidas: “Eu te amo, Dilma”. Flagrado com a questão das diárias, antecipou o reembolso à espera de um parecer da CGU. Ele mistura fatos e versões, embola o público, o partidário e o pessoal, explica cantiflinianamente, fala mais do que deve, explica menos do que deve. Solta nota oficial negando que o avião da foto fosse o King Air, fato que depois teve que reconsiderar.
Esta ópera bufa já está se estendendo em demasia. Tal qual enredo de quinta categoria, não adiante esticar porque o fim é previsível: ele vai “sair de cabeça erguida, para ter tempo de preparar sua defesa”. Agradecerá a confiança depositada, acusará os acusadores, receberá o discurso da chefa de que o governo perde um excelente quadro, e tudo volta a ser como dantes e as ONGs continuarão a mamar nas tetas do Ministério.
Razão tem o Macaco Simão: “Fica Lupi, pelo bem do humor nacional”.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

PRIVATIZAÇÃO DO PÚBLICO


Fomos brindados na semana passada com a informação de que o Le Cirque estava usando o espaço público e cobrando pelo estacionamento. Não bastassem as acusações feitas e até agora não esclarecidas, o atropelo da lei em ceder espaço público para lucro privado, percebe-se que a prática da privatização do espaço público é prática useira e vezeira no município.
Quem quiser comprovar esta afirmação, passeie pelo Cambuí à noite e se deparará com a enormidade de cubos de borracha bloqueando estacionamento para não clientes dos bares e restaurantes; vá ao Largo Carlos Gomes e se defrontará com a praça tomada de mesas e cadeiras dos bares que ali existem; vá ao Giovanetti no Largo do Rosário à noite e terá que passar pela rua se quiser passar em frente, visto que a calçada está tomada de cadeiras. O mesmo acontece no Restaurante do Rosário e no Faca Bar, para citar os mais conhecidos. Isto sem contar os prédios e comércio que pintam de faixa amarela a sarjeta para evitar que se estacione em frente a eles.
O problema não reside só na cidade. Em Souzas  e Joaquim Egídio a coisa chega ao paroxismo. A pesquisadora Ana Maria “buscou subsídios para embasar sua dissertação de mestrado. Durante os anos de 2008 e 2009, a pesquisadora percorreu os dois distritos e colheu depoimentos de moradores, empreendedores e visitantes.
Ela detectou que 83% do turismo local referem-se à forma privada. As visitas a fazendas e cachoeiras são pagas ou localizadas dentro das áreas de estabelecimentos comerciais. Apenas 17% são praças públicas e áreas destinadas ao lazer para a população em geral. Ana Maria explica que o fenômeno sempre chamou sua atenção”.
“Nasci em Campinas e lembro perfeitamente quando os distritos eram áreas rurais com muitas fazendas e terras. A partir da década de 70, a especulação imobiliária teve início, acirrando-se no começo de 90 com os apelos ambientais e a associação da natureza à qualidade de vida”. “Com a transformação de boa parte da região em Área de Proteção Ambiental (APA), em 2001, a necessidade criada pelo mercado de aproximar o cidadão das áreas verdes continuou em processo de crescimento, enquanto o esperado era que se mantivessem e estabelecessem limites para a preservação do meio ambiente, permitindo somente o uso sustentável da região. Ao contrário, as áreas verdes passaram a ter status de mercadorias caras, que, na opinião da pesquisadora, não mais permitem que os cidadãos simplesmente as habitem e nelas se divirtam livremente”.
“O reordenamento deste território pelo turismo e lazer e pela especulação imobiliária nos faz pensar que o local onde os distritos localizam-se está sendo encarado como Área de Proteção do Capital”, ironiza.
Em 2009, segundo pesquisa, o número de habitantes passava dos 20 mil e o número de estabelecimentos comerciais chegava a 250. Além disso, até 2008, ainda existiam 16 loteamentos fechados aprovados em Sousas e 6 em Joaquim Egídio. Em todos os casos, as paisagens naturais se mostram moldadas para o consumo, considerando que a APA possui 223 quilômetros quadrados.
Caracterizado pelo turismo gastronômico, rural e ecoturismo, que tem como público classes mais abastadas, a privatização e segregação social ocorrem na região. Ruas tomadas cadeiras, mesas e caixotes, desrespeito à sinalização de trânsito e gente urinando na porta da igreja ou jogando lixo em qualquer parte, fazem o cotidiano destes dois distritos.
O publico se privatizou.
Marcos Inhauser

terça-feira, 8 de novembro de 2011

ELE NÃO MUDOU


Alguns insucessos e 14 meses desempregado não foram suficientes para que o “técnico” Leão mudasse. Algumas de suas características mais visíveis continuam tão evidentes quanto antes. Vejamos.
Arrogância: Ele é o rei da arrogância. No dia 10/8/2004 eu escrevia: “O mesmo está acontecendo com o Leão, para quem a altivez sempre foi marca registrada. Meteu-se de cabeça erguida e peito estufado no comando da seleção e amargou derrotas humilhantes como foi a que sofreu para o Equador. Só falta ser despedido depois de mais uma derrota”.  E o foi no avião. E não uma única vez. Veja a lista:
Assumiu o Palmeiras em julho de 2005 e foi demitido em 2006 por causa da má sequência de resultados. Falou-se na época que foi "derrubado" pelos jogadores. Foi para o São Caetano em 2006 e ficou pouco tempo, sem nada de positivo feito. Assumiu o Corinthians, brigou com o Carlito Tevez, conseguiu alguns resultados, mas em 3 de abril de 2007 entrou em acordo e deixou o clube, devido a má campanha no Campeonato Paulista. Em julho, acertou com o Atlético Mineiro, mas foi demitido depois de perder o campeonato mineiro e sofrer uma goleada para o Cruzeiro. Em dezembro de 2007 voltou ao Santos (pela terceira vez), onde arrumou confusão com Diego e Robinho. Deu no que deu: no dia 27 de maio de 2008, após a eliminação diante do América do México (pela Libertadores) e goleada sofrida contra o Cruzeiro (4x0), deixou o comando do time. Em 2009 assumiu o Atlético Mineiro mais uma vez e não resistiu a uma goleada para seu maior rival na final do Campeonato Mineiro. Foi contratado pelo Sport Club do Recife em junho de 2009 e após três vitórias, dois empates e cinco derrotas em apenas um mês e 22 dias à frente do time, foi demitido. Neste episódio esteve a polêmica contratação do atacante Marcelo Ramos. Em abril de 2010, acertou com o Goiás. Três meses depois, envolveu-se numa briga num jogo contra o Vitória. No final da partida, Leão agrediu um repórter e recebeu voz de prisão. Depois de 9 partidas sem vitória no Campeonato Brasileiro e o Goiás na última colocação, Leão pediu demissão.
Modo Leão de conjugar o verbo: Leão conjuga o verbo ganhar de maneira sui generis. Ele assim conjuga: Eu ganhei, nós empatamos, eles perderam. É o técnico com o maior histórico de problemas de reclamação com a arbitragem. E neste verbo ele só sabe dizer: “ele prejudicou o meu time”.
Leão é o exemplo mais acabado de um narcísico. Adora holofote e tem por eles uma obsessão. Conta-se que quando abre a porta da geladeira e a luz acende, ele já começa a dar entrevista.
Metodologia leonina: em todo time que chega, a primeira coisa que faz é arrumar confusão com quem é a estrela do time. Foi assim no Corinthians, no Atlético, no Goiás, no Santos. Agora no São Paulo já está detonando o Rogério Ceni, o Rivaldo e o Lucas.
Como corintiano, só posso agradecer ao Juvenal Juvêncio pela excelente contratação feita. E os bons resultados já começaram. Três jogos, duas derrotas (uma humilhante frente ao Bahia) e um empate. Será que o Leão aguenta até dezembro?
Marcos Inhauser


quinta-feira, 3 de novembro de 2011

CARISMA E ESTIGMA


Em toda família que tenha dois ou mais filhos há um Abel e um Caim. A afirmativa pode parecer ousada e dura, mas me explico.
Todas as vezes que se tiver duas ou mais pessoas juntas, seja em reunião, família ou equipe, de forma natural e não premeditada surgirá um que se destacará como líder, como a pessoa “do bem” e outra que será a que tentará chamar a atenção sobre si com gestos, atos ou comportamento reprováveis ou estranhos. Pode também ser involuntariamente eleita como o bode expiatório de tudo quanto de mal aconteça.
Qual a família que, tendo dois ou mais filhos, não têm o que estuda sem precisar que se cobre isto dele, que arruma suas coisas, que faz o dever de casa; e outro que deixa as coisas bagunçadas, não gosta de estudar e só quer dormir até tarde?
Na história bíblica há vários exemplos: Abel e Caim, Isaque e Ismael, Jacó e Esaú. Davi era o “patinho feio” entre os irmãos, assim como José que acabou vendido a mercadores de caminho ao Egito.
Quem, trabalhando em uma empresa, não tem nela o cara que faz tudo errado, que é mole, acomodado, lento, alvo das piadas e saco de pancada de todos?  Se é mandado embora, outro fatalmente o substituirá.
Estas considerações me vêm à mente porque, no plano internacional, parece que ocorre o mesmo. Há uma extrema boa vontade das nações, indivíduos e religiões cristãs em aplaudir tudo quanto Israel faça, mesmo que seja massacre como foi o caso de Sabra Shatila, a mortandade no barco turco que levava ajuda humanitária, e a opressão e invasão da Palestina.
Por outro lado, o estigma fica por conta da Palestina que, mesmo buscando pelos meios diplomáticos e legais ser inserida no concerto das nações abrigadas no guarda-chuva da ONU, é tratada como nação de segunda, quiçá de terceira categoria.
O simples fato de ter sido recebida pela UNESCO como membro pleno levou o aliado ad eternum (EUA) a retaliar e a cortar as verbas que envia ao órgão, como se a participação dos palestinos fosse mais perigosa que uma bomba atômica jogada sobre Washington.
Temos uma enorme necessidade de ter sempre um bode expiatório para nossas vidas e atos. Ë o irmão ou irmã que encarna meu lado “do mal”, aquele que não tenho coragem de assumir e que transfiro para este meu bode expiatório. Na empresa ele é o culpado pelas minhas falhas e motivo dos meus risos de satisfação pela afirmação nunca proferida de que sou melhor que ele ou ela.
No campo internacional, precisamos de uma nação escolhida por Deus, com um povo eleito para nos dar a esperança de que, aplaudindo tudo quanto façam, alguma benção sobrará para mim. Preciso de um bode expiatório para jogar sobre esta nação, ditador ou déspota todos os males.
Nestes dias nos saciamos com os bodes expiatórios: Mubarack, Gadaffi, Hussein, Bin Laden, Ministro do Transporte, do Turismo, da Agricultura, da Casa Civil, etc.
O único carisma que restou foi o Steve Jobs, beatificado post mortem como o santo da tecnologia, o que fez o que nem em sonho imaginamos que poderíamos fazer.

Marcos Inhauser

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

PASSADO COM TECNOLOGIA


Frase corriqueira, especialmente entre os da terceira idade, é que hoje em dia coisas já não são tão boas como eram antigamente. Muitos há que querem voltar ao passado, acreditando que nos idos tempos as coisas eram mais simples, mais puras, mais honestas, mais isto, mais aquilo.
Ocorre que os defensores da superioridade do passado querem o retorno sem abrir mão das facilidades do presente. Pergunte a um destes saudosistas se abririam mão dos remédios que o tempo presente oferece (especialmente os anestésicos), se deixariam de usar o fogão a gás, o chuveiro elétrico, o micro-ondas ou a televisão a cores. Pergunte a eles se estariam dispostos a abrir mão do carro, do telefone, do celular, dos e-mails, das cirurgias laparoscópicas, do frango limpo, da geladeira, freezer e outros aparatos da modernidade.
Lembro-me de uma senhora, membro da igreja que pastoreei, que vivia criticando porque estávamos usando o microfone, sistema de som, retroprojetor, piano, bateria e guitarras nos cultos. Ela encaminhou uma reclamação por escrito para a Diretoria, que me pediu que fosse à sua residência para conversar e negociar algumas coisas com ela. Ao chegar à sua casa ela começou a desfilar o rosário dizendo que o “mundo estava entrando na igreja”, que eu, como pastor, estava permitindo que as portas do inferno entrassem igreja adentro. De onde eu estava sentado via parte de sua cozinha com fogão a gás, micro-ondas, geladeira. Na sala havia um bom equipamento de som e uma televisão que eu não tinha em minha casa. Perguntei a ela pela sua saúde e ela agradeceu a Deus pelos médicos e remédios que eles tinham receitado. Assegurei-me que eram de última geração. Ao final eu propus a ela: a senhora abre mão de todas as modernidades que há na casa da senhora, volta a usar o fogão a lenha e eu retiro da igreja o que a senhora achar que é modernidade.
Não preciso dizer qual foi a reação da senhora.
Outra constante tem sido os que querem recriar coisas do passado. Estes dias vi um comercial de regravação das músicas da Jovem Guarda, com a músicas que hoje soam cafona. Eu não compraria e acho que muitos também não o fariam porque não é possível recriar o clima que produziu o movimento. Há os que querem modelos gerenciais que não mais se coadunam com nossos dias. Querem modelos educacionais baseados na decoreba, em um mundo caracterizado pela experimentação e descoberta. Querem o banco de outrora, mas o querem com os caixas eletrônicos e os extratos online.
O passado só é possível com as coisas do passado. Querer o passado com as coisas do presente é anacronismo.
Marcos Inhauser

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

“DESAFASTADOS”


Meu sogro tinha seus neologismos e um deles era este: “desafastado”.
Lembrei disto quando li a pesquisa feita pelo Grupo Barna sobre as razões para o afastamento de jovens das igrejas.
Qual a razão pela qual mais da metade dos jovens cristãos abandona a igreja? A maioria deles vê a igreja como lugar pouco amigável e cheio de julgamento. Eles alegam que a Igreja é superprotetora e exclusivista.
A juventude de hoje possui acesso a ideias e visões de mundo como nenhuma outra geração teve. Eles se sentem amadurecidos para decidir e escolher o que lhes convêm e não estão dispostos a ser tutorados neste processo.
Para muitos deles, esta tutela é sufocante porque baseada no medo e na aversão ao risco. 25% deles dizem "os cristãos demonizam tudo o que está fora da igreja, e que esta ignora os problemas do mundo real. Gastam energia falando mal de filmes, internet e certos tipos de lazer, mas não combatem as injustiças sociais.
A segunda razão é que a igreja oferece uma experiência cristã superficial:  algo falta na sua experiência com a igreja. "A igreja é chata" (31%); 25% disseram que "a fé não é relevante para a carreira profissional";  24% acham "a Bíblia não é ensinada com clareza"; 20% disseram que "Deus parece ausente da minha experiência de Igreja".
A terceira razão é que a igreja é antagônica à ciência.  Sentem a tensão entre cristianismo e ciência. As percepções mais comuns nesta área são "Os cristãos sabem todas as respostas"(35%); 34% sentem que "as igrejas estão em descompasso com o mundo científico; 25% abraçam a ideia de que "o cristianismo é anticiência".
A quarta razão é que a igreja é trata o sexo é de maneira errada. Tendo acesso à pornografia digital e vivendo em uma cultura de hiper-sexualidade, os adolescentes cristãos estão lutando em como viver vidas significativas em termos de sexo e sexualidade. Um estresse para muitos é como viver de acordo com as expectativas da Igreja (castidade e pureza sexual), especialmente porque casamento agora é adiado bem mais tarde. 17% disseram que "cometeram erros e são julgados pela igreja por causa deles; 40% disseram que "os ensinamentos da Igreja sobre a sexualidade e controle de natalidade estão desatualizados.
O resultado da pesquisa foi publicado no livro “You Lost Me: Why Young Christians are Leaving Church and Rethinking Faith” [Por que os jovens cristãos estão abandonando a Igreja e repensando a fé], de David Kinnaman, que envolveu entrevistas com 1.296 jovens (norte-americanos) que são ou já foram membros de igrejas.
Parece que a igreja não se apercebeu que estamos em pleno séc. XXI, que revoluções culturais, políticas e sociais aconteceram e que não se pode estar repetindo modelos do século XVI. O mundo mudou de maneira significativa, como acesso cada vez maior a todo tipo de informação, teologias e ideologias, o que faz crescer o ceticismo quanto a figuras de autoridade, incluindo o cristianismo e a Bíblia.
Marcos Inhauser


CRIANÇAS TERCEIRIZADAS


Celebra-se hoje o Dia das Crianças, invenção mais ou menos recente. No Brasil foi "inventado" por um político, o deputado federal Galdino do Valle Filho, quem teve a idéia de criar um dia em homenagem às crianças, isto na década de 1920, o que foi oficializado por Arthur Bernardes no dia 5 de novembro de 1924. No entanto, foi somente em 1960, quando a fábrica de Brinquedos Estrela fez uma promoção conjunta com a Johnson & Johnson para lançar a "Semana do Bebê Robusto" e aumentar suas vendas, é que a data passou a ser comemorada. A estratégia deu certo e se perpetuou e o comércio agradece.
Alguns países também comemoram o Dia das Crianças em datas diferentes. Na Índia, a data é  15 de novembro. Em Portugal e Moçambique, ela acontece no dia 1º de junho. No dia 5 de maio é a vez das crianças da China e do Japão. Muitos países comemoram o Dia das Crianças em 20 de novembro, já que a ONU reconhece esse como o Dia Universal das Crianças, data em que também é comemorada a aprovação da Declaração dos Direitos das Crianças.
Philippe Ariès, em seu livro “História da Criança e do Adolescente”, revela que na Antiguidade a criança não era tomada em conta socialmente. Tal se dava porque as famílias costumavam ter muitos filhos e não havia porque comemorar algo tão comum. Com a diminuição da taxa de natalidade, famílias passaram a ter um ou dois filhos e perceberam a necessidade de celebrar este evento, fazendo comemorações de aniversário e tirando fotos em quantidade, na tentativa de “congelar” algo que era raro.
Ele também aponta para o fato de que, na antiguidade não muito distante, as pessoas tinham em suas casas retratos dos avós ou pais, porque alguém que chegasse a uma idade avançada era raridade, haja vista o baixo nível de expectativa de vida.
O que me preocupa nos tempos que vivemos é que, se na antiguidade a criança não era tomada em conta pela quantidade delas, se depois se passou a celebrar os aniversários e a arrumar datas festivas para presentear as crianças, tem-se também um crescente processo de terceirização da formação e educação dos filhos. Cada vez mais há menos pais e mães dispostos ou com tempo para criar seus filhos. Cada vez mais há gente sendo contratada para “amar os filhos no lugar dos pais”, para ensinar valores e colocar disciplina.
O que se pode ter disto é um processo de massificação, onde a individualidade formada no contato único da relação pai/filho, mãe/filho passa a ser moldada no padrão comportamental imposto por um regulamento/metodologia escolar comum a todos os demais que participam do mesmo grupo.
Marcos Inhauser

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A FARSA GIRATÓRIA


O recente episódio de um “segurança” (estou sendo irônico) do Bradesco que matou um cliente porque este foi questioná-lo sobre o fato de o haver barrado na porta giratória no dia anterior, é a crônica de uma tragédia anunciada.
No dia 13/02/2008 escrevi neste espaço sobre a “Humilhação Giratória”, onde dava exemplos concretos e pessoais de situações em que comprovei que as portas giratórias de muitos bancos são uma farsa. Aconteceu de novo comigo nesta segunda-feira.
Tal como faço há mais de 10 anos, fui à agência do Bradesco no Jardim do Trevo. Vestido com uma bermuda e chinelo, somente com a chave do carro à mão e um relógio no pulso, fui barrado pela “giratória”, devidamente acionada pela “otoridade”. Fiquei indignado, mas coloquei a chave na caixa e novamente fui barrado. Não havendo nada mais que pudesse “ser detectado”, a “otoridade” me liberou. Conversei com o funcionário sobre um problema com o caixa eletrônico e fui orientado a voltar ao caixa. Assim procedi e em menos de cinco minutos tentei regressar ao interior, tendo sido novamente barrado. Indignado, fiquei parado, travando a porta até que um funcionário viesse me atender. Ele me perguntou se era cliente do banco, disse que sim e ao passar pela porta, novamente fui barrado. Ele pediu à “otoridade” que me liberasse. Fui pedir explicações a um funcionário graduado da agência que me disse que as chaves foram detectadas. Eu lhe perguntei por que nunca me pararam antes, se ao menos três vezes por semana entro na mesma agência com a chave no bolso. Ele olhou para o meu pulso e disse que era por causa do relógio. Argumentei que entrava com o mesmo relógio e chave há anos. As explicações foram simplistas e simplórias.
Na mesma agência já entrei com celular e Ipod no bolso da calça, sem que os mesmos tenham sido detectados. Quando, por mais de uma vez, para fazer testes, fiquei com o celular na mão, fui barrado. E isto sempre na mesma agência. Já tentei entrar com o case do meu RayBan na cintura e me barraram, mas o RayBan no bolso da camisa ou sendo usado não é detectado.
Disse e digo. Afirmei e reafirmo. Em muitas das agências bancárias não existe detector de metal. O que existem são umas “otoridades” com a arma do controle remoto na mão, fazendo a seleção visual dos agraciados e castigados. Notem como eles sempre estão com a mão no bolso ou dentro do colete. São eles os “detectores de metais”.
No dia 8/12/2010 escrevi aqui, ao comentar a diferença das agências bancárias do Brasil e da República Dominicana: “Não havia a maldita porta giratória, mentira de detecção de metais existente na grande maioria das agências, que se trava segundo a vontade de um mal treinado segurança. Na verdade as portas giratórias detectam negros e mulheres, quase sem exceção parados e depenados de seus pertences antes que possam entrar.”
Só tenho uma explicação para o que aconteceu ontem: houve uma detecção de bermuda, chinelo e óculos escuro.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

DADOS INQUIETADORES

Recentes dados trazidos à tona pelas mídias, fruto de pesquisas feitas, revelam que o segmento religioso no Brasil passa por momentos que não são os melhores. O segmento que se diz não religioso aumentou significativamente. As igrejas históricas (católicos, presbiterianos, metodistas, batistas, luteranos) perderam parcela significativa de sua membresia. Os pentecostais históricos (Assembleias de Deus, Evangelho Quadrangular, Brasil para Cristo e outras) não estão mais crescendo nas mesmas taxas que cresceram anteriormente. As neopentecostais Universal do Reino de Deus e Renascer estão começando fazer água. A primeira teve queda de 25% na sua assistência e a segunda fechou 70% de seus templos. Correm por fora a Mundial do Poder de Deus, a Internacional da Graça de Deus e a Assembleia do Malafaia. Podem estar tendo algum crescimento, mas creio que será temporário. É um modelo repetitivo, centrado na constante solicitação de dinheiro, fato que tem assustado a muitos e tem criado uma imagem falsa da igreja no Brasil. Mais recentemente, o fato de que Edir Macedo e outros líderes da Universal tenham sido indiciados e denunciados por lavagem de dinheiro, falsidade ideológica e fraude para arrecadação de fundos, foi mais uma gota de água nesta tempestade que estes senhores criaram no contexto das igrejas brasileiras. Juntamente com o casal Hernandez, acusados e presos por ingresso ilegal de fundos nos EUA, fundos estes que não foram declarados também quando deixaram o Brasil, associado ao fato de que há centenas de processos por não pagamento de alugueis e outras obrigações, trazem mais lama a este segmento religioso. Traz-me curiosidade saber como pastores e líderes de igrejas tidas como sérias e que mudaram suas liturgias e forma de ser para encher seus templos com uma cópia do que os neopentecostais faziam, estão agora a ver e analisar a presente situação. Copiaram modelos que se mostravam viciados e agora estão perdidos. Muitos líderes religiosos sérios estão a perguntar o que será daqui para frente. Lembro-me de haver lido um livro nos anos 90 que comparava a igreja a um navio em alto mar que estava debaixo de uma grande tempestade. Sabiam que o navio não afundaria, mas não sabiam onde estavam nem para onde estavam sendo levados. A igreja não afundará porque, creio, não é invenção humana. Ela resistirá, tal como disse Jesus: as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Não significa que o inferno não vai adentrar a igreja (como creem muitos), mas que se o inferno entrar e entrou muitas vezes, na minha opinião), não resistirá muito tempo a convivência de gente séria que tem como único objetivo louvar e servir a Deus. O que tem se servido da igreja para projetos pessoais de riqueza ou mesmo narcísicos, podem ter seu momento de glória, mas será efêmera. Há uma igreja que precisa repensar sua forma de ser, buscar ser fiel aos ensinamentos de Jesus através de uma hermenêutica comunitária, com práticas de serviço ao próximo. Marcos Inhauser

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

RESPONSABILIZE-SE

Quando uma empresa precisa de funcionário ela abre a vaga, anuncia, recebe currículos, analisa-os, entrevista os candidatos e, pelo processo seletivo, escolhe o que melhor se ajusta aos requisitos do cargo. O funcionário, por sua parte, tem responsabilidades a cumprir e uma justiça trabalhista a seu favor ou como algoz, caso faça algo errado. No setor público o processo é idêntico. A cada quatro anos abre-se a vaga para prefeito, vereador, deputado, senador e presidente. Os candidatos se apresentam no processo seletivo, a banca examinadora (os eleitores) escolhe aquele que a seu juízo tem mais condições de trabalhar pela cidade, estado ou país. Ele assume o cargo e tem responsabilidades a cumprir e um salário pago pelo exercício da função. Assim como na iniciativa privada, ele tem certa autonomia. No caso do prefeito, ele pode contratar assessores e secretários para atuarem nas várias pastas. Esta contratação está implícita no cargo, mas é feita pela autoridade que sua eleição lhe dá. Ao escolher fulano ou sicrano, ele não se isenta da responsabilidade pelos atos ilícitos que venham a cometer, mesmo porque, é da sua função fiscalizar os seus subordinados. Da mesma forma a Câmara. Os vereadores são eleitos, empossados e pagos. Devem legislar e fiscalizar o Executivo. Estes vereadores podem também contratar assessores para ajuda-los na tarefa de fiscalização e devem exigir destes o cumprimento de suas funções. . Se não o fazem, são relapsos, coniventes ou comprados. A incompetência ou inapetência de um vereador ou de vereadores em fiscalizar é crime de lesa população, porque ganham para fazer o que não fazem. Ora, nos recentes episódios na cidade de Campinas, mais especificamente o das construções com alvarás indevidos ou inexistentes, a responsabilidade é do secretário da área, mas é, no final das contas, do prefeito que o nomeou e dos vereadores que, com a penca de assessores que tem, não fizeram o que deveriam ter feito. Foi preciso o Ministério Público para descobrir “o que se fazia dentro da casa do prefeito” e que ele alega ignorância e traição de amizades de longa data. Se prefeito, secretário e vereadores não fizeram aquilo para o qual foram contratados (eleitos) e pagos regiamente, que se processe a cada um deles e se exija que os compradores das casas e apartamentos agora embargados sejam recompensados sem que percam um centavo do que investiram de boa fé, acreditando que em Campinas havia governo e não quadrilha. Que cada um deles (prefeito, vereadores, secretários e fiscais) sejam responsabilizados pela inação (ou deveria escrever ina$$ão?). Esta catatonia governamental custou um rombo aos cofres públicos pelo que foi desviado e pelo que foi pago em salário para fazer o que eu não fizeram. Já vi cálculos do desvio. Gostaria de ver os cálculos com o dinheiro jogado fora com gente incompetente ou conscientemente preguiçosa e omissa. Que os lesados por este time de funcionários relapsos acionem a justiça e peçam o reembolso do dinheiro que é deles e também o dos salários que não mereceram e não merecem. Marcos Inhauser

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

VAI ACABAR EM PIZZA?

Quando do processo de cassação do prefeito Dr. Hélio, levantavam-se questões sobre o sucessor dele, uma vez que o vice-prefeito, quem por lei deveria assumir, estava também enrolado. A saída seria que o presidente da Câmara assumisse. Ocorre que, nos bastidores se articulava que seria muito difícil alguém querer assumir o cargo por um mandato tampão, sendo que depois não poderia concorrer à eleição e ter um mandato completo. Falava-se em “deixar o Vilagra na Prefeitura” e buscar alternativas para que o processo se estendesse até a posse do novo prefeito, eleito pelas urnas. Desconfiado por natureza, especialmente com a classe política, eu identificava nestas conversas um cheiro de pizza no ar. Tinha para comigo que haveria um baita jogo de cena para que as coisas ficassem como estão. Tive a pachorra de assistir a toda a sessão da Câmara que recebeu a denúncia contra o Vilagra, assisti aos poucos discursos feitos (quem mais falou foi o PT) e notei e anotei o que o líder deles (aceito por indicação oral ao presidente da Câmara, em desobediência ao Regimento Interno que pede que a indicação através de carta) entrou com pedido rejeição da denúncia alegando que os fatos apontados não estavam relacionados ao exercício do mandato de prefeito e que, por isto, não poderia ser investigado por uma Comissão Processante. Anotei também que o mesmo líder, conhecido o resultado, declarou que entrariam com recurso junto ao Judiciário. Notei e anotei que o presidente da câmara, quando “soube” da decisão do juiz, se disse “surpreso” e afirmou que a coisa estava agora no colo do juiz e do Judiciário, que avocou para si a decisão de manter o prefeito, no que pese a decisão da Câmara. Estranhei. Ele disse que a Câmara recorreria da sentença, primeiramente junto ao mesmo juiz pedindo que revisse a decisão tomada e que depois, se necessário, iriam às instâncias superiores. Notícias dão conta de que o Tribunal de justiça negou provimento ao recurso da Câmara e o Vilagra continua no cargo. Ora, para que ele tenha um mínimo de governabilidade terá que se acertar com a Câmara que votou maciçamente contra sua permanência. Os mesmos vereadores que o afastaram agora vão negociar apoio. Que me perdoem os vereadores, mas isto tem, no mínimo, cheiro de pizza no ar. Em que bases serão negociados estes acordos? Como entender esta negociação se há na mesma Câmara investigação de compra de voto pelo não afastamento do Dr. Hélio? Seria a Câmara, que já teve vereadores envolvidos em escândalos de ticket-refeição, pedágios, funcionários fantasmas, nepotismo, se convertido em Convento de Santos Políticos? Eu, de minha parte, homem de fé, devo confessar que minha fé não chega a tanto. Marcos Inhauser

BARRIL DE ALEGRIA

Este é o nome de uma ONG que desenvolve um trabalho com crianças e adolescentes carentes e em situação de risco. Ele abrange os distritos de Joaquim Egídio, Sousas e bairros da cidade de Campinas como o Jardim
São Fernando. O objetivo do trabalho é oferecer a eles alternativa para o desenvolvimento pessoal, interpessoal e resgatá-los da exclusão social, violência, preconceitos, drogas e marginalização através da prática do futebol.
O Barril de Alegria não tem fins lucrativos, foi criado em setembro de 2005 por César Caetano. O trabalho nunca recebeu nenhum apoio da Prefeitura, mas utiliza a praça de esportes Jordão Cesarini, situado a Rua Valentim Santos Carvalho,
no distrito de Joaquim Egídio.
Ocorre que esta praça encontra-se em total estado de abandono pela administração da subprefeitura. Apesar dos constantes apelos e reuniões com o secretário de esportes e subprefeito nada de concreto é feito. Reuniões com vereador e com membros do Conselho Tutelar já foram feitas e o problema persiste. Há a necessidade de se fazer a limpeza da quadra, pintura de todo o complexo, corte da grama e marcação das linhas no campo de futebol, religação da energia elétrica da quadra esportiva e dos vestiários, uma vez que subprefeito cortou o fio que caiu com a queda de um dos galhos de eucalipto. Ao invés de consertar, preferiu cortar a eletricidade.
Existe um processo em andamento dentro da Secretaria de Esportes da Prefeitura
de Campinas, com reunião já feita com o secretário Sr. Petta. Misteriosamente o processo vai e volta dentro dos setores vários da Prefeitura e não se consegue uma definição. A solicitação feita neste processo é que a Prefeitura entregue a manutenção da praça aos cuidados da ONG Barril de Alegria, que buscará parcerias para realizar a manutenção.
Não fazem e não deixam fazer.
Que me perdoem, mas não consigo deixar de me perguntar: não fazem por incompetência, por inapetência, ou por conveniência? Se por incompetência, que se afaste o Secretário de Esportes e o subprefeito. Se por inapetência, que se baixem ordens superiores para que a coisa seja feita. Se por conveniência a coisa me parece mais grave. Seria, por acaso, que, ao transferir a manutenção da praça para a ONG serão menos licitações e tomadas de preço que o poder público terá que fazer e assim menos chances de “tirar uma lasca”. Veja que o raciocínio não é descabido visto que indícios de favorecimento nas licitações e contratos são a marca da administração que saiu e, queira Deus, não seja a da nova administração.
DE qualquer forma, isto é mais uma evidência do descaso e do descalabro que a cidade de Campinas está enfiada, graças à República de Mato Grosso que se instalou com o cego, surdo e mal informado Dr. Hélio. Ele não sabia de nada, não viu nada e nem escutou coisa alguma. Parece que deste mal também padecem o Secretario de Esportes e o Subprefeito de Joaquim Egidio.
Marcos Inhauser

terça-feira, 23 de agosto de 2011

NO PARAÍSO HÁ DISCIPLINA

O paraíso tem limites. Nem tudo se pode no paraíso. Há coisas possíveis e impossíveis. O paraíso não é o desfrutar de tudo que queremos, mas o desfrutar de tudo que podemos. No Éden havia um limite: até aqui podem comer de tudo; daqui para frente já não mais. Isto requeria uma dose de autocontrole, de disciplina.
Uma das coisas que tem me preocupado na tão propalada pós-modernidade é a ausência de critérios universais pela absoluta relativização e subjetivização dos valores morais. É certo e bom o que julgo como tais. Sou eu e mais ninguém quem deve ditar normas éticas para mim.
Uma vertente disto é a orientação que se tem passado aos pais de que a educação dos filhos não pode ser negativa (é proibido falar “não aos filhos”) antes deve ser de completa liberdade para que a criança descubra por si mesma o que pode e não pode. Ocorre que, a uma criança que não soube ouvir e obedecer “nãos”, será um adulto que não saberá dizer não quando isto for necessário. Uma das grandes consequências disto é que, quando lhe oferecerem drogas, porque na infância não lhe ensinaram a respeitar limites, não terá autocontrole para dizer não. Antes, porque tinha que descobrir por si o certo e o errado, se atirará de corpo e alma, tal como o educaram.
Não há paraíso sem domínio próprio, sem autocontrole, sem disciplina. Já no paraíso edênico, o lugar perfeito criado por Deus, havia um limite que impunha aos seus habitantes uma dose de domínio próprio. Estavam no paraíso, mas nem tudo lhes era permitido. O paraíso não é anarquia, a ausência de regras ou comportamento ético. Muitos são os que buscam o paraíso no comportamento aético ou antiético e se dão mal porque encontram o inferno.
Acabo de ler um livro que trata dos modelos de pais e sua influência sobre as filhas. A autora, depois de muito pesquisar, afirma que um pai que tenha autoridade (o que é diferente de ser autoritário – fabricante de ordens), que coloque de forma clara e precisa os limites dos “podes” e “não podes”, traz benefícios duradouros para seus filhos. A grande maioria deles não terá problemas de comportamento, nem mesmo na adolescência, e a vida sexual deles será qualitativamente melhor que a de filhos e filhas provindas de lares anárquicos.
Há limites no trabalho. Quem o faz além da conta se estressa, se enferma, ganha morte. Há coisas que podem e devem ser feitas no trabalho e há outras que não podem ser feitas. Um comprador de uma firma não pode comprar além de certos limites determinados pelas necessidades da sua empresa. O encarregado dos pagamentos não pode pagar além do devido e das reservas existentes. O atleta tem seus limites e deve conhecê-los e respeitá-los. Se ele treina para correr dez quilômetros e um dia decide correr trinta ou quarenta e cinco, poderá se lesionar gravemente. O cantor tem seus limites ditados pela extensão da sua voz. Poderá alcançar até um determinado limite os agudos e graves. Tentar ir além pode redundar em prejuízo à sua voz. Há limites no comer e no beber. O excesso pode se constituir no pecado da glutonaria e da bebedice, com os consequentes sintomas e enfermidades que isto acarreta.
O limite de não poder tocar na árvore do conhecimento do bem e do mal estabelece uma dimensão ecológica: há limites na capacidade e autoridade do ser humano de explorar a criação do Senhor. Deus criou o mundo e tudo o que nele há e o deu ao ser humano. Ocorre que esta doação não foi completa. Houve restrição. Mesmo no paraíso não se pode tudo e avançar o sinal é alterar o equilíbrio da natureza com a introdução da morte. Quando o ser humano explora a natureza de maneira irracional e sem considerar o equilíbrio ecológico, está trazendo morte à terra, à vegetação, aos animais. Ir além do que lhe é permitido no uso da natureza é repetir o pecado original, é trazer morte.
Em todo lar, família, trabalho, negócio, enfim em tudo que fazemos, há coisas permitidas e não permitidas. Educar os filhos para viver esta realidade é uma prova de amor e de responsabilidade.
O paraíso requer responsabilidade. Se é verdade que há limites a serem postos e obedecidos, também é verdade que o estabelecimento deles tem suas consequências. As decisões no paraíso não são inconsequentes: produzem, sempre, vida ou morte. O fato de haver necessidade de limites não nos dá autoridade de ir colocando-os onde bem entendemos. De cada ato de estabelecer limites ou de transgredi-los há um preço a ser pago. Há limites que produzem morte e há os que produzem vida. O legalismo é uma tentativa de colocar limites além da conta, gerando a morte da consciência crítica. Para o legalista só há uma alternativa: obedecer. O pai autoritário, o líder religioso legalista, o governante totalitário não permitem arguições, só obediência.
Cada limite colocado merece uma reação igual e contrária. Pode ser questionado e até desacreditado. Os limites perdurarão na medida em que produzem vida naqueles que os respeitam. E esta deve ser a chave para analisar os limites que temos nos nossos paraísos: desobedecê-los produz morte? E esta é a eterna alternativa que todos temos diante de nós: ou comemos da árvore da vida ou comemos da árvore da morte.
Marcos Inhauser

terça-feira, 16 de agosto de 2011

DESIGREJADOS

Acabei de receber telefonema de um amigo de longa data que foi pastor e ele se caracterizou como “desigrejado” atualmente. Ele é um dos muitos que aparecem na estatística publicada nesta segunda-feira dando conta que o número de ex-evangélicos tem subido em proporções inquietantes, de 4% para 14%, o que dá um total de quatro milhões de pessoas que frequentaram igrejas evangélicas e hoje não frequentam mais nenhuma. Os dados comparam os anos de 2003 e 2009, o que me leva a crer que este número é ainda maior, por algumas razões.
O fenômeno não é novo. No início dos anos 90, colegas que estavam fazendo mestrado na área da Ciência da Religião já vinham detectando este fenômeno e alguns que pesquisavam na região da baixada fluminense chegavam a dizer que um terço era composto de pessoas ex-membros de alguma igreja.
Como pastor há quase quarenta anos, venho notando e me surpreendendo com alguns sinais. O primeiro deles é que a nova geração não tem o mesmo compromisso de frequência e participação que eu encontrava no início de meu pastorado. Na primeira igreja que pastoreei eu tinha um senhor que saía todos os domingos às 5:30 da manhã para pegar ônibus e atravessar a cidade de São Paulo e participar da igreja. Em São Carlos eu tinha um que quando viajava, fazia questão de voltar aos domingos para não faltar aos cultos. Hoje, qualquer coisa é desculpa para faltar.
Outra coisa que venho notando é que a filiação formal como membro de uma igreja encontra resistência nas gerações mais novas. Antigamente se media uma igreja pelo número de membros ativos que tinha. Isto acabou. Ninguém mais está para isto. Querem participar sem se envolver com as coisas da administração da vida da igreja. Querem os benefícios, sem as responsabilidades.
Neste quesito entra também a questão dos dízimos e ofertas. Antes as pessoas dizimavam e ofertavam na igreja, que aplicava o dinheiro segundo a decisão de uma diretoria eleita. Hoje elas tem dificuldade em ofertar nas igrejas por uma de três razões: medo de que isto vá enriquecer os pastores, pelos muitos escândalos de bispos e apóstolos que se locupletaram; ou pelo entendimento de que eles sabem administrar melhor e preferem fazer caridade com o dízimo. Não são poucos os que conheço que tem administrado e distribuído seus dízimos de acordo com necessidades que veem. Uma terceira razão é a insensatez de se ter templos faraônicos que são usados poucas horas por semana. Há mausoléus que custam uma fortuna em manutenção e que são usados duas ou três horas semanais. Um verdadeiro desperdício.
Outro fenômeno que venho notando é a gradativa transformação da igreja em negócio. Dias destes um colega pastor, destes que tem a alma pastoral, me ligou e me contou que foi avaliado depois de um tempo na igreja e esta decidiu contratar outro que tivesse perfil mais gerencial. Estavam trocando o pastoral pelo gerencial. Quando a igreja faz isto, perde a sua característica de cuidar das pessoas e passa a cuidar dos números, da quantidade, da arrecadação. Deixa de ser igreja e passa a ser negócio. Há muitas igrejas que trocaram o termo discipulado por mentoring (termo técnico do mundo corporativo), nomeiam gerentes de áreas (Educação Cristã, Ação Social, Diaconia, etc.). Há ainda as que não buscam mais pastores com sólida base teológica, mas sim animadores de auditório. Se ele sabe fazer o pessoal cantar, pular, aplaudir, chorar, motivar a contribuir, é um excelente “pastor”, não importando o quanto de abobrinha vá dizer.
Com este cenário, não é para menos que tenha saltado de 4% a 14% o número dos desigrejados.
Marcos Inhauser

terça-feira, 9 de agosto de 2011

SÍNDROME DE COELET

O nome é estranho, porque transliteração (mal feita) da palavra hebraica para “pregador”. Coelet é o termo técnico para se referir ao escritor/pregador/sábio do livro de Eclesiastes, na Bíblia. Precisar quem era é um problema, mas há consenso de que deva ser Salomão, já velho, depressivo e desesperançado. Ele diz: “É ilusão, é ilusão, diz o Coelet. Tudo é ilusão. A gente gasta a vida trabalhando, se esforçando e afinal que vantagem leva em tudo isso? Pessoas nascem, pessoas morrem, mas o mundo continua sempre o mesmo. O sol continua a nascer, e a se pôr, e volta ao seu lugar para começar tudo outra vez. O vento sopra para o sul, depois para o norte, dá voltas e mais voltas e acaba no mesmo lugar. Todos os rios correm para o mar, porém o mar não fica cheio. A água volta para onde nascem os rios, e tudo começa outra vez. Todas as coisas levam a gente ao cansaço—um cansaço tão grande, que nem dá para contar. Os nossos olhos não se cansam de ver, nem os nossos ouvidos, de ouvir. O que aconteceu antes vai acontecer outra vez. O que foi feito antes será feito novamente. Não há nada de novo neste mundo. Será que existe alguma coisa de que a gente possa dizer: ´Veja! Isto nunca aconteceu no mundo´? Não! Tudo já aconteceu antes, bem antes de nós nascermos.” Lembrei-me dele com esta nova crise nos mercados mundiais. Também lembrei do Friedrich Nietzche, que, até onde entendi o que dele estudei (se é que entendi alguma coisa), tinha uma concepção meio que espiralada do eterno retorno da história, de tal forma que as coisas se repetem, não de forma idêntica, mas semelhante. Confesso que é difícil não ser contaminado pela desesperança e depressão do Coelet, especialmente nestes dias. Escrevi há um mês (“Nem direita, nem esquerda” 13/7) que as diferenças ideológicas, políticas, teológicas, litúrgicas estão se acabando, tudo convergindo para a mesmice. Há uma predominância do senso comum, das platitudes aceitas irrefletidamente, um exorcismo das diferenças, uma demonização do menino que diz que o rei está nu. Um país comunista, a China, é o maior investidor capitalista na economia do império! Não sei se ser diferente, crítico, cético já foi menos penoso que em nossos dias. Mas sei que isto tem um preço alto. Ser profeta e dizer o novo, o diferente, anunciar o castigo e a reconstrução é tarefa fadada à solidão. Que o diga Jeremias! Não dá holofote, mas caverna. À esta nova crise dos mercados não faltarão profeteiros (religiosos e seculares) a denunciar mazelas, pregar tribulação e anunciar salvação. No entanto, temos um problema insolúvel: há que crescer economicamente para dar empregos a milhares que diariamente entram ao mercado de trabalho, sob pena de ter as cidades incendiadas por hordas de jovens desesperançados, tal como acontece hoje em Londres e aconteceu no Egito, Síria, etc. Para que tenham emprego, há que ter gente consumindo o que se produz. Para produzir há que buscar recursos naturais, que arrebenta a natureza e polui as cidades, rios e mares. Há uma população mundial inviável para o tipo de economia que praticamos, que valoriza o lucro e a exploração sem limite. Estamos nos colapsando. Há esperança? Eu creio no Reino de Deus, na irrupção de Deus na história para nos dar um novo céu e nova terra. Mas hoje estou como Abraão (“crendo contra toda esperança”) e como o Coelet (“vaidade das vaidades, tudo é vaidade”, “será que existe alguma coisa de que a gente possa dizer: ´Veja! Isto nunca aconteceu no mundo?´”). É a síndrome do Coelet. Marcos Inhauser

SÍNDROME DE COELET

O nome é estranho, porque transliteração (mal feita) da palavra hebraica para “pregador”. Coelet é o termo técnico para se referir ao escritor/pregador/sábio do livro de Eclesiastes, na Bíblia. Precisar quem era é um problema, mas há consenso de que deva ser Salomão, já velho, depressivo e desesperançado. Ele diz: “É ilusão, é ilusão, diz o Coelet. Tudo é ilusão. A gente gasta a vida trabalhando, se esforçando e afinal que vantagem leva em tudo isso? Pessoas nascem, pessoas morrem, mas o mundo continua sempre o mesmo. O sol continua a nascer, e a se pôr, e volta ao seu lugar para começar tudo outra vez. O vento sopra para o sul, depois para o norte, dá voltas e mais voltas e acaba no mesmo lugar. Todos os rios correm para o mar, porém o mar não fica cheio. A água volta para onde nascem os rios, e tudo começa outra vez. Todas as coisas levam a gente ao cansaço—um cansaço tão grande, que nem dá para contar. Os nossos olhos não se cansam de ver, nem os nossos ouvidos, de ouvir. O que aconteceu antes vai acontecer outra vez. O que foi feito antes será feito novamente. Não há nada de novo neste mundo. Será que existe alguma coisa de que a gente possa dizer: ´Veja! Isto nunca aconteceu no mundo´? Não! Tudo já aconteceu antes, bem antes de nós nascermos.” Lembrei-me dele com esta nova crise nos mercados mundiais. Também lembrei do Friedrich Nietzche, que, até onde entendi o que dele estudei (se é que entendi alguma coisa), tinha uma concepção meio que espiralada do eterno retorno da história, de tal forma que as coisas se repetem, não de forma idêntica, mas semelhante. Confesso que é difícil não ser contaminado pela desesperança e depressão do Coelet, especialmente nestes dias. Escrevi há um mês (“Nem direita, nem esquerda” 13/7) que as diferenças ideológicas, políticas, teológicas, litúrgicas estão se acabando, tudo convergindo para a mesmice. Há uma predominância do senso comum, das platitudes aceitas irrefletidamente, um exorcismo das diferenças, uma demonização do menino que diz que o rei está nu. Um país comunista, a China, é o maior investidor capitalista na economia do império! Não sei se ser diferente, crítico, cético já foi menos penoso que em nossos dias. Mas sei que isto tem um preço alto. Ser profeta e dizer o novo, o diferente, anunciar o castigo e a reconstrução é tarefa fadada à solidão. Que o diga Jeremias! Não dá holofote, mas caverna. À esta nova crise dos mercados não faltarão profeteiros (religiosos e seculares) a denunciar mazelas, pregar tribulação e anunciar salvação. No entanto, temos um problema insolúvel: há que crescer economicamente para dar empregos a milhares que diariamente entram ao mercado de trabalho, sob pena de ter as cidades incendiadas por hordas de jovens desesperançados, tal como acontece hoje em Londres e aconteceu no Egito, Síria, etc. Para que tenham emprego, há que ter gente consumindo o que se produz. Para produzir há que buscar recursos naturais, que arrebenta a natureza e polui as cidades, rios e mares. Há uma população mundial inviável para o tipo de economia que praticamos, que valoriza o lucro e a exploração sem limite. Estamos nos colapsando. Há esperança? Eu creio no Reino de Deus, na irrupção de Deus na história para nos dar um novo céu e nova terra. Mas hoje estou como Abraão (“crendo contra toda esperança”) e como o Coelet (“vaidade das vaidades, tudo é vaidade”, “será que existe alguma coisa de que a gente possa dizer: ´Veja! Isto nunca aconteceu no mundo?´”). É a síndrome do Coelet. Marcos Inhauser

terça-feira, 2 de agosto de 2011

JUIZO TEMERÁRIO

Já contei aqui uma história dele (“Um pastor paradigmático” 22/02/2011), mas conto outra, por ser também paradigmática de um comportamento bastante comum. Estávamos em um Acampamento Menonita em San Juan de la Maguana, na República Dominicana, para um conferencia de igreja. Havia umas 200 pessoas, entre elas uma jovem que tinha certa deficiência mental, mas muito atenciosa e serviçal. Do local de reuniões ao refeitório havia uma distância de uns 500 metros e à noite não havia iluminação para sair do refeitório ao auditório, o que fazia com que as pessoas andassem por um caminho escuro. Certa noite fiquei até mais tarde no refeitório conversando com alguém e quando fiz menção de sair para o auditório, a jovem me perguntou se podia ir comigo porque tinha medo de andar no escuro sozinha. Disse que sim e lá fomos nós conversando. Fiz a elas algumas perguntas e ela me respondia e nas suas respostas ficava ainda mais evidente as dificuldades mentais que tinha. Eu caminhava devagar porque parecia que ela também tinha alguma dificuldade para andar, especialmente naquelas circunstâncias. Quando já estávamos bem próximos do auditório, havia na estreita calçada uma saliência. Ela tropeçou, caiu e começou a gritar e a chorar alto. No escuro eu não conseguia ver se ela havia se machucado ou não. Alguns homens vieram ajudar e a levamos para o salão onde o pessoal cantava. Ela entrou chorando alto, um tanto descontrolada, típico de uma pessoa em suas condições. Chamou a atenção de todos. O pastor convidado (o mesmo que era doutor em Apocalipse e que tinha estudado a Bíblia sozinho, sem ajuda de ninguém, só do Espírito Santo), veio correndo até ela e sem fazer uma única pergunta, começou a expulsar o demônio dela. Eu que tinha saído para buscar um remédio, quando voltei, vi ao redor dela uns dez homens orando, gritando, berrando e expulsando o demônio. Confesso que fiquei atônito, com vontade de fazer um esparramo e dizer que os endemoninhados eram eles que não perceberam a condição da moça, nem sabiam o que tinha acontecido. Assumiram que se uma mulher entra em um local de culto chorando é manifestação do demônio e pronto. Deixei a coisa rolar. Depois que ela se acalmou, os “exorcistas de araque” saíram dando glórias e ao iniciar sua “prédica” (uma arenga, na verdade) ele disse que o poder de Deus havia se manifestado naquele lugar pela expulsão de quem quis tumultuar o culto maravilhoso que teriam. Eu me acerquei a ela para saber se havia se machucado e percebi que havia torcido o tornozelo que já começava a inchar e tinha escoriado o joelho. A menina precisou ser levada embora para ser medicada porque não havia no local condições sequer de fazer uma compressa com gelo. O pregador ficou. Na avaliação dele, o culto foi uma benção! A avaliação dela eu não sei, não perguntei e ela não me falou. Na minha avaliação foi uma encenação, uma farsa, um tempo de arrogância religiosa. Conto isto porque sei, por testemunho de outros e por outras experiências, que tal prática é comum nos meios religiosos. Há uma impressionante tendência em pegar um sinal e fazer com ele um diagnóstico completo. Já ouvi muitas vezes que “fulano teve uma conversão verdadeira”, pelo fato de haver chorado durante um culto com apelo. Se não chorar, “não se converteu genuinamente”. Já vi alguém ser acusado de herege porque estava usando uma versão de Bíblia que não era a que aquela igreja adotava. A lista poderia se estender, mas não o faço porque cada de um de vocês se recordara de uma situação idêntica, na qual, talvez você mesmo tenha sido vítima de um juízo precipitado. O gozado é que até hoje nunca ouvi ninguém pregar sobre o pecado do juízo temerário, precipitado. Biblicamente falando, ele é tão pecado quanto tantos outros tão veementemente combatidos. Marcos Inhauser

quarta-feira, 27 de julho de 2011

DÁ PARA EXPLICAR?

Já confessei aqui, mais de uma vez, que sou analfabeto de pai e mãe no que à economia se refere. Mal sei fazer as contas de entrada e gastos. Já me esforcei, mas cheguei à conclusão que não entrei na fila quando Deus distribuiu a inteligência econômico-financeira. Por causa disto, há coisas que dão nó na minha cabeça. Eu não consigo entender como um deputado investe uma baita grana para se eleger se o que vai receber de salário e aditivos não paga nem metade do que gastou. Fico admirado com o espírito público deles: pagam para representar o povo! Também não entendo como uma pessoa que tem um salário mais ou menos igual ao meu consegue construir em dois anos uma casa de 2,5 milhões! Nem como se consegue multiplicar o patrimônio vinte vezes em dois anos. Nem como sendo tão analfabeto quanto eu (ainda mais, porque come todos os “s”), consegue que lhe paguem duzentos mil para ir falar abobrinha. Agora estou sem dormir tentando entender o rolo da Grécia e Estados Unidos. Nem com dormonid estou conseguindo. Como pode um país gastar com gastos públicos mais do que arrecada, torrar 200 bi da ajuda, receber ainda mais 160 e estar tecnicamente no calote? Como pode ser calote e o pessoal dizer que a coisa foi resolvida? Por que a população tem que pagar a conta sozinha se os grandes investidores fizeram uma jogada de risco? Se ganhassem era bolada só deles. Perderam, socializam o prejuízo. Na outra ponta está os Estados Unidos. Os Republicanos, capitaneados pelo Lula gringo que foi o Bush, sofreram ataque dos radicais do Bin Laden. Coisa de uma dúzia de doidos. Na lógica do império e da família Bush, o Afeganistão devia pagar pelo crime, porque o Bin Laden tinha sua base no território deles. Morreram milhares e nada do indigitado. Gastaram fortunas e nada. Não contentes, inventaram a mentira das armas químicas que o Hussein teria em seu poder, invadiram o Iraque, gastaram outra bilhonada, autorizada pelo congresso republicano. Eles se enterraram até o pescoço em dívidas e agora querem que a conta seja paga pelos Democratas e, indiretamente por todo o mundo, por causa da repercussão sistêmica que tal default causará. Exigem cortes de bilhões na saúde, educação e outros itens importantes, mas não vejo cortes nos gastos militares. Fazem a sujeira e agora querem limpar com as mãos alheias para que, na próxima eleição, possam desfilar de paladinos dos gastos públicos. Fica a sensação de que políticos em todas as partes são iguais. Aqui é o PR se locupletando no DNIT e VALEC, o PMDB nadando de braçadas no setor energético, o PT mamando em todas as tetas que pode. Aparece a eleição e vão todos repetir o mesmo discurso centenário. Leio que o gasto público brasileiro está aumentando a cada mês e que a coisa não está mais feia é porque estão fazendo a receita crescer. Mais impostos arrecadados, mais gente pagando, menos dinheiro na praça, para que as primeiras damas municipais possam tirar um naco de alguns milhões. E eu, e você, e nós, sofrendo para fechar as contas. Cortamos na carne, para que outros engordem suas contas. Reduzimos ao máximo o conforto pessoal, para que o governador vá com a família de jatinho passear nas Bahamas. Alguém pode me explicar como é isto? Marcos Inhauser