Professor, pastor, teólogo e educador corporativo Textos escritos para a coluna semanal no Correio Popular, da cidade de Campinas e texto escritos depois de 2021, que tratam de temas nacionais, internacionais, sobre igreja e teologia
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terça-feira, 19 de julho de 2011
$OMO$
Há um crescimento do economicismo, noção de que o valor de qualquer coisa é dado em termos econômicos. Esta ideia domina a mentalidade com a qual as pessoas se aproximam de qualquer evento como transação e até mesmo umas das outras. Toda coisa deve ter uma etiqueta de preço. Está presente em praticamente todas as atividades. Ter um bebê, ouvir música, ir à igreja ou cuidar do meio ambiente são vistos em termos de “quanto custa”. Se uma atividade é caracterizada como “não-rentável”, o seu direito à existência é questionado. Se o que fazemos não traz retornos quantificáveis, nossa atividade é secundária e supérflua.
Temos deixado esse valor penetrar em muitas áreas da sociedade. De alguma forma nós fomos levados a pensar nisso como algo normal. Medem-se negócios, atividades, assistência social, igrejas em termos de quanto custa e quanto retorno traz.
Se o econômico é o aspecto mais importante de qualquer empreendimento ou ação, então, as pessoas mais importantes são os gestores. Mas como isto se aplica aos professores, aos psicólogos que trabalham com deficientes (o autista, por exemplo)? Qual o retorno econômico que se tem ao atender a uma pessoa necessitada por altruísmo e solidariedade?
Estamos sendo treinados para ser gerentes que pensam sobre "produtividade", para atender aos orçamentos e metas, para fazer a escola "competitiva", para atrair os melhores alunos, para descobrir como reduzir custos, para gerenciar recursos exíguos. Isto é cada vez mais verdadeiro em toda as profissões, seja no trabalho de medicina, social ou na argumentação sobre investimentos (“isto daria para construir tantas casa populares”). A corrupção é julgada pela quantidade roubada e não tanto pelo fato de ter sido roubado. Ouvi estes dias que o que se desviou em Campinas dava para comprar duas companhias aéreas como a Webjet.
Se quantificamos nossos atos, como podemos descobrir o que causa os crimes, ou educação deficiente ou os divórcios? Os crimes acontecem porque há gente pobre querendo um tênis mais sofisticado (quantia X quantia). A educação é deficiente porque os salários dos professores são baixos (quantia) e as escolas estão mal aparelhadas (quantia). Há mais divórcios hoje porque as mulheres tem mais chance de sobreviver do que tinham antigamente. Começamos a nos contentar com explicações superficiais e quantificadoras e passamos a acreditar que mais investimento melhora a educação, mais renda na sociedade diminui o crime, mais oportunidade financeira aumenta a taxa de divórcios.
Para tudo precisamos de mais eficiência, melhor relação custo/benefício. Precisamos de mais competição para que os preços caiam. Temos que ser rentáveis e com este parâmetro temos de regular e controlar o comportamento humano.
Quando questões importantes sobre as relações humanas são reduzidas a questões de gerenciamento do comportamento. As pessoas não estão mais sendo levadas a sério. O ser humano é mais que uma quantia, uma máquina de produzir ou consumir. Há mistérios humanos não quantificáveis. Como disseram os Beatles, o dinheiro não compra o amor. Uma bela cozinha planejada não faz mais feliz a ninguém. Uma bela casa pode dar conforto, mas não satisfaz o íntimo de uma pessoa carente de afeto.
O problema mais profundo com o economicismo é que ele está fora de sintonia com as necessidades mais fundamentais dos seres humanos. O economicismo ensina que devemos amar coisas que as pessoas usam e não as pessoas que usam coisas.
Estas considerações me fazem lembrar um amigo que esteve há alguns anos na sala da presidência de uma multinacional e viu um mapa mundi pedurado que não tinha a África. Ele perguntou por que o mapa não tinha o continente, ao que o presidente respondeu: “eles não contam para nós, porque é um continente que não consome o que produzimos; eles não existem para nós”.
Marcos Inhauser
terça-feira, 12 de julho de 2011
NEM ESQUERDA, NEM DIREITA
Na minha adolescência a juventude li muito jornal. Era leitura obrigatória para mim o Estadão e o Jornal da Tarde. Li todos os Pasquins que foram publicados. Estudei em meio de gente que era pró e contra o governo da ditadura. Para mim era claro o que era ser de esquerda e direita.
Fui estudar teologia. Comecei em uma instituição fundamentalista de ranço gringo, fui para uma totalmente alinhada com a Teologia da Libertação e também percebi as diferenças entre as teologias de esquerda e direita.
Trabalhei com Direitos Humanos na América Latina, viajei à beça, andei por bibocas deste continente latino americano e vi o que governos de direita e ditatoriais podem fazer. Estive em Cuba e Nicarágua, esta na época da Revolução Sandinista e depois na Guerra da Contra. Era claro quem era de direita e de esquerda.
Andei visitando igrejas por este mundo de meu Deus. Estive nas Américas, na Europa, Ásia e Oriente Médio, Havia uma clara distinção entre as igrejas e suas liturgias, entre as liturgias mais formais e as mais informais.
Hoje estou perdido. Já não sei mais o que é ser de direita ou de esquerda. O PT, referência para a esquerda, se locupletou com a economia de mercado e com a corrupção, criando também o sindicalismo pelego. O PSOL e o PCdoB, que deveriam ser esquerda, tem discursos jurássicos. A teologia convergiu para a prosperidade, arrebanhando calvinistas, wesleyanos, luteranos, batistas, em um movimento de sobrevivência. Todos falam a mesma coisa.
Os cultos nas mais diversas igrejas são iguais em forma e conteúdo. Os cânticos das igrejas históricas, pentecostais, neopentecostais e livres, são iguais. A estrutura inexiste em todas elas. As missas carismáticas em pouco diferem dos cultos pentecostais. Os pregadores midiáticos católicos copiam os evangélicos.
A diferença entre o PSDB e o PT é retórica, o PMDB se junta a quem está no poder, o DEM quer ser oposição, mas se perde nos mensalões, o PDT se esfarela com o governo de Campinas e com o Paulinho FGTS, o PR mama no Dnit. A Dilma tira os dirigentes do Ministério do Transporte e continua tendo a camarilha do PR à frente do balcão de negócios das estradas e ferrovias.
Os Estados Unidos estão a ponto de dar um calote, a Grécia quebrou, a Itália está indo para o buraco, Portugal já foi e a Espanha está a caminho.
Fala-se da necessidade urgente de uma reforma fiscal, mas não se acha duas pessoas que falem a mesma língua. Só se consegue consenso dos políticos na hora de aumentar impostos. O governo não cumpre com sua função de prover saúde e educação à população que paga planos de saúde e escolas privadas. Agora, o governo quer receber dos planos pela sua ineficiência, cobrando quando um associado usa o sistema público. Paga educação privada com dinheiro que o governo cobra o Imposto de Renda.
A coisa está empastelada (termo usado nas antigas tipografias para se referir aos tipos que se misturavam uns aos outros por queda da caixa e que ninguém mais sabia o que era um e outro), complicada, confusa. Resta-nos uma sensação de desorientação, impotência.
Há uma convergência da esquerda com a direita, uma massificação das religiões, uma desorientação cidadã, um generalizado sentimento de desesperança. Estamos vivendo a grande depressão (alguns a chamam de tribulação) apocalíptica? Talvez. De uma coisa tenho certeza: necessitamos de novos céus e nova terra. Uma nova ordem, novos valores, nova sociedade. Enquanto isto, as indústrias farmacêuticas se lambusam nos lucros das vendas de antidepressivos, calmantes e estimulantes sexuais, porque ninguém é de ferro.
Marcos Inhauser
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terça-feira, 5 de julho de 2011
INDIVIDUALISMO
Há vários anos li um livro, que se não me galha a memória, se chamava “O que pensam os Batistas” de um de tal de Crabtree. A tese dele era que o individualismo é o alicerce para toda a formulação teológica dos batistas.
Tenho identificado algumas mudanças culturais que afetam a forma como nos relacionamos, mudanças estas que não vem do nada. Elas se relacionam com os avanços da tecnologia, a evolução demográfica e as necessidades dentro da economia, e também com filosofias. E neste conjunto há uma mudança importante: o individualismo que foi parte das culturas britânica e americana, onde, ao final da grande guerra houve uma preocupação com o bem estar social, mas que acabou sucumbindo ao individualismo.
O individualismo tem como tese sagrada a supremacia do indivíduo. Fala de escolha individual, direitos individuais, liberdade, propriedade privada, os quais, juntamente a outros conceitos, se tornaram regra na sociedade individualista onde o sucesso individual, a riqueza individual e lucro individual são valores deontológicos. Ofereceu o convite público para que milhões de pessoas se amassem mais do que a seus próximos.
Aqui se encontra um dilema fundamental: torna-se cada vez mais evidente que uma perspectiva individualista é centrada em indivíduos fortes, pois são os que dispõem dos recursos e da unidade para buscar os objetivos da sociedade individualista. Indivíduos fracos são penalizados. Eles são passíveis de ser roubados do seu estado de "indivíduo" e agrupados em blocos sem identidade subjetiva.
É uma queixa comum dos desempregados, pobres e desfavorecidos que eles são vistos simplesmente como “números”, “portadores de cartões que devem se ajustar ao sistema”, “pesos para o sistema”, sendo ônus para o Estado (vide INSS). É muito pesado produzir para eles. Esta condição parece estar presente mesmo naqueles que operam os serviços. O contato diário com as "falhas" de uma sociedade orientada para o sucesso pode endurecer as pessoas que trabalham com eles, por exemplo, na administração dos benefícios sociais. Suspeita-se que são ladrões em potencial ou parasitas. É fácil tornar-se insensível e indiferente às necessidades das pessoas quando elas podem ser agrupadas em uma classificação impessoal.
Isto, inevitavelmente, tem afetado as relações pessoais. Ética sexual, vida familiar e lazer estão sob a influência do individualismo. Passou a ser a maior barreira à intimidade: pessoas que decidem que “primeiro eu, depois eu e se der..... algo para os outros”, podem acabar sós se perguntando porque são solitárias.
A ironia do individualismo é que ele começa com uma preocupação declarada para a realização do indivíduo (através da escolha individual, direitos individuais, a soberania individual), e o resultado é quase sempre que o indivíduo é desvalorizado e isolado. Buscamos nossa privacidade e liberdade com paixão, não querendo qualquer dependência forçada sobre nós. Queremos ser livres para escolher as pessoas com quem nos relacionamos. Partimos da nossa própria família para criar a nossa própria vida privada, familiar nuclear, com uma casa particular, um carro particular, um escritório particular, e não contente com isso, nós queremos dentro de nossa casa um banheiro privado, telefone privado, televisão privada e assim por diante. E quando atingimos isso nos perguntamos “por que estamos sós”
E aí vem a teologia individualista botar mais fogo nesta lareira, promovendo competições espirituais e minando comunhões, botando os nossos no céu e os outros no inferno.
Marcos Inhauser
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terça-feira, 28 de junho de 2011
REESCRITORES DA HISTÓRIA
Primeiro li a “Revolução dos Bichos”. Muitos anos depois foi a vez de 1984, ambos do escritor Eric Arthur Blair, mais conhecido pelo pseudônimo de George Orwell, escritor e jornalista inglês.
Adorei seu jeito sarcástico de denunciar regimes totalitários, tão bem descritos no Revolução dos Bichos e 1984. À época em que os li, notei um padrão que se apresenta nos dois livros, sem, contudo, dar muita atenção ao fato: a necessidade dos déspotas em reescrever a história. Na Revolução dos Bichos, ao tomarem de assalto a fazenda, os bichos decretaram uma série de leis, todas em flagrante oposição ao comportamento dos humanos que ali viviam. A relação das leis era: a.) Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo; b.) Qualquer coisa que ande sobre quatro pernas, ou tenha asas, é amigo; c.) Nenhum animal usará roupas; d.) Nenhum animal dormirá em cama; e.) Nenhum animal beberá álcool; f.) Nenhum animal matará outro animal; g.) Todos os animais são iguais.
O porco, que se tornou o líder da revolta, aos poucos vai fazendo sutis modificações em algumas das leis, passando a ser: a.) Nenhum animal dormirá em cama com lençóis; b.) Nenhum animal beberá álcool em excesso; c.) Nenhum animal matará outro animal sem motivo; d.) Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros.
Em 1984 Orwell mostra como uma sociedade dirigida por uma elite é capaz de reprimir quem se opõe a ela. A história é a de Winston Smith, de vida insignificante, que tem a missão de fazer a propaganda do regime através da modificação de documentos públicos, da história e da literatura para que o governo sempre esteja certo no que faz.
Trago estes comentários à tona porque Orwell antecipou algo que ocorre em vários níveis da política nacional e da propaganda oficial. Exemplo disto é o slogan do governo do Dr. Hélio (“primeiro os que mais precisam”) e agora se descobre que primeiros foram os amigos do rei e da rainha. Quando o rei vem a público dar sua versão, reescreve a história (“nunca soube de nada”, “é golpe”, “é antecipação da disputa eleitoral”, etc.). E teve o desplante de dizer que não se devia esquecer que havia sido eleito duas vezes pela população e que tinha um mandato do povo para ficar no governo. Na sua nova versão de mandato, tal qual na Revolução dos bichos, o mandatário da Fazenda Sanasa se esqueceu que mandato era para ser honesto também. No momento em que se envolveu direta ou indiretamente com os desmandos, o seu mandato caiu por terra. E para confirmar a tese orwelliana, o mandatário a Fazenda Sanasa e habitante do Palácio dos Jequitibás, solta uma propaganda ilusionista, uma história cor-de-rosa da sua administração.
O mesmo acontece com o PT e seus governos. O seguidor das diretrizes econômicas do anterior se torna o artífice da recuperação econômica. Quebra o sigilo de um cidadão inexpressivo, cai e volta como o articulador político da terceira versão PT no governo. O mensalão foi armação, corrupção passou a ser “recursos de campanha não contabilizados”, articulação política virou “balcão de negócios”, apoio do PMDB virou cargo na administração federal, sindicalista virou pelego.
Orwell foi um profeta! No sentido de pré-feta: predisse!
Marcos Inhauser
terça-feira, 21 de junho de 2011
ISTO VAI DAR ZICA
Há pouco tempo escrevi aqui sobre os dois países: Brasil e Brasília. Um beirando o inferno pelas precárias condições de educação, saúde e transporte, sufocado por pesados impostos, com bancos cobrando pelo ar que se respira nas agências. No outro, o paraíso. Trabalho de dois dias na semana, passagens aéreas gratuitas, um cardume de assessores pagos, verbas adicionais mil, e se suspeita que haja pagamentos para cada votação que favoreça a este ou aquele grupo. No paraíso não há Receita Federal, o Coaf não pega as transações milionárias e se consegue multiplicar por vinte o patrimônio, sem muito esforço.
Ocorre que, no Brasil real e do real fictício, o populacho (assim visto pelos habitantes de Brasília) vem pouco a pouco tomando consciência de que as coisas estão insuportáveis. Estamos nos dando conta da quantidade de impostos e taxas embutidas e escondidas em cada coisa que compramos e isto vai minando o comportamento bovino que nos tem caracterizado e começamos a ficar mais ativos e, em alguns casos, agressivos com a exploração.
Estes dias uma pessoa me contava que precisa abrir registro de autônomo. Ela foi à Prefeitura para saber o que deveria fazer e soube que terá que pagar uma taxa de mais de quinhentos reais nos três primeiros anos (quando se supõe que haja isenção de impostos) e depois disto passará a pagar 5% de tudo quanto faturar. A taxa é referente a um autônomo que tem ensino médio, porque, se teve a benção de ter um diploma universitário, a taxa mais que dobra.
A pergunta que ele fez à funcionária é “o que recebo em troca por este pagamento?”. O silêncio foi esclarecedor. Ele deve pagar esta taxa e a PM não vai fazer nada, absolutamente nada.
Uma outra amiga, da área médica com um consultório na região, teve no último ano três visitas de fiscais de saúde, que implicaram com uma geladeira mini que tinha para ter água e umas frutas para seu consumo, sob a legação de que a geladeira estava próxima à porta do banheiro. E dá-lhe multa.
Quando a gente vai a um Posto de Saúde, uma escola mantida pela Prefeitura, uma chreche, percebe-se que a lei serve para os outros nunca para eles próprios. Nunca soube que um Posto de Saúde tenha sido multado pela Vigilância Sanitária do município, ou que uma escola municipal tenha sido interditada porque tem um refrigerador perto do banheiro.
Pagamos impostos e pagamos escolas para nossos filhos porque o Estado não faz a sua parte. Pagamos planos médicos porque o sistema de saúde é um desastre. Pagamos pedágios (apesar do IPVA e a CIDE), pagamos segurança particular e guardas noturnos, no que pese pagarmos para ter a PM.
A distância entre o Brasil e Brasília está criando um sentimento de insatisfação e irritação nos habitantes do Brasil real, que temo pelo pior. Não consigo ver mudanças significativas com a camarilha que habita Brasília, com passaportes e cidadania conferidos por votos comprados a peso de ouro via propaganda eleitoral e negociações de bastidores.
Perdi a esperança na democracia representativa via voto obtido pela propaganda e marketing. Talvez a desobediência civil seja mais efetiva que o voto dos senhores de terno e gravata que se alimentam com o suor de um povo que vive no Brasil e não em Brasília.
Marcos Inhauser
quarta-feira, 15 de junho de 2011
TEOLOGIA DA IMPERFEIÇÃO
Há dois consensos entre as religiões: o ser humano foi criado por Deus e ele é inerentemente imperfeito. Logo, Deus criou um ser imperfeito.
Esta afirmação machuca, porque a religião não pode afirmar que Deus tenha feito algo menos que perfeito. A saída é introduzir o conceito do pecado, que “danificou” a obra perfeita de Deus. Calvino afirmou a corrupção total do ser humano pelo pecado, Aquino afirmava que restou no ser humano, depois da queda, algo de bom. Pelágio dizia que nascemos sem pecado, mas que o convívio social é o que nos corrompe. Armínio acreditava que o ser humano ficou com o livre arbítrio. São posições que tentam explicar o problema.
A questão permanece: se somos imperfeitos, por que as religiões pregam a necessidade de uma vida perfeita, santa e santificada ou seja lá o que preguem, como essencial para agradar a Deus? Se somos imperfeitos, por que se acredita e prega que Deus só usa os bons, os certinhos, os ascéticos ou reclusos?
Quando estudamos a vida espiritual dos modelos espirituais que as religiões difundem, se percebe, se se lê com um mínimo de espírito crítico, que há um processo de heroicização destes personagens, mostrando como tiveram vidas austeras, como se negaram aos prazeres, como se mortificaram, que tiveram períodos de santidade plena. A história destes “santos” é uma galeria de gente anulada.
No entanto, quando se busca com mais cuidado algumas informações sobre estes “heróis da fé”, vamos perceber gente tão imperfeita como todos nós. No terreno bíblico se tem Abraão, pusilânime diante das pressões da esposa Sara; Jacó, o enganador; Moisés, desobediente e inseguro de sua liderança; Davi, adúltero e assassino; Salomão, megalomaníaco; Jonas, desobediente e omisso; Jeremias, lamentador; Pedro, emocionalmente instável e dissimulado; Paulo perseguidor da Igreja e com espinho na carne.
No campo extrabíblico tem-se o Lutero com angústias quanto à sua fé, Aquino que chegou a duvidar da ressurreição de Jesus, Madre Tereza de Calcutá que pediu em 1953: "Por favor, reze por mim para que não estrague a obra d'Ele e que Nosso Senhor possa se mostrar ... pois há uma escuridão tão terrível dentro de mim, como se tudo estivesse morto ... tem sido assim mais ou menos desde que dei início à obra."; "tão profunda ânsia por Deus e ... repulsa ... vazio ... sem fé ... sem amor ... sem fervor. Salvar almas não atrai ... o céu não significa nada ... reze por mim para que eu continue sorrindo para Ele apesar de tudo." Em 1959 ela escreveu: "Se não houver Deus, não pode haver alma, se não houver alma então, Jesus, você também não é real."
Isto me faz recordar a resposta de Deus a Paulo que insistia em pedir que sua fraqueza fosse tirada (o tal do espinho na carne): “o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo.” (II Co 12:9)
Deus, no exercício de sua soberania e poder, não precisa de coisas e pessoas certinhas para fazer sua obra. Isto o afirmou Paulo: “temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós.” (II Co 4:7) e o motivo é básico: se Ele só pode usar o que é santo e perfeito, a glória será dividida com o “parceiro na santidade e perfeição”, o ser humano. Se ele usa o fraco, o débil, o pecador, e o torna instrumento da sua graça, a glória é dEle.
Marcos Inhauser
quarta-feira, 8 de junho de 2011
BRASIL OU BRASÍLIA?
Confesso que ouvi com muita atenção e interesse o depoimento do ministro Antonio Palocci à nação brasileira, via televisão e li o que disse à Folha de São Paulo. Porque também trabalho no ramo de consultoria, estava interessado em aprender como melhorar a minha carteira. Até andei fazendo uns contatos, buscando quem me pudesse fornecer a lista dos clientes do ministro, porque cheguei à conclusão que poderia alavancar significativamente os meus ganhos se tivesse acesso a estes dados.
Depois deste exercício de atenção e aprendizado, acho que perdi meu tempo. Ninguém sabe, ninguém viu, ninguém tem a tal lista. Os “esclarecimentos” foram de uma obviedade ingênua. Eu não esperava que ele viesse a público via Jornal Nacional afirmar que sonegou, que atropelou a lei, que agiu ilegalmente. Para dizer o que disse não precisava ficar em silêncio 20 dias nem usar a televisão.
Terminada a maratona de paciência a que me impus tentando aprender com este gênio da economia, fiquei com a certeza de que temos dois países: Brasil e Brasília.
No Brasil real, temos a carga absurda de impostos, com programas de computador a rastrear em tempo real as coisas que os habitantes fazem. A coisa anda tão avançada que a Receita Federal (é o que dizem) vai antecipar a Declaração de Renda do cidadão. Se você concordar, pague o que eles acham que você deve. Se não concordar, vai lá mostrar os documentos, aguentar a fila e correr o risco de acharem mais coisas, mesmo porque nesta área acham o que querem. Se não tiver dinheiro para pagar eles vão penhorar sua conta bancária e vão pegar o que é deles, não importa outros fatores.
No outro país, Brasília, é o paraíso! Ganha-se polpudos salários trabalhando dois ou no máximo três dias por semana, com direito a mais de 60 dias de férias por ano, plano médico integral para ele e os familiares, aposentadoria após alguns poucos anos de trabalho, faltas abonadas sem nenhuma pergunta, viagens ao exterior com tudo pago, possibilidade de apresentar notas frias para combustível e despesas. Aliado a isto há a possibilidade de empregar um monte de parentes e aumentar o já polpudo salário, turbinado por verbas e gratificações.
Neste paraíso a Receita é benevolente e em alguns casos inexistente. Não se conhece investigação sobre patrimônio de habitantes eleitos, no que pese evidências, rastros e pegadas deixadas pelo Renan Calheiros, Sarney, Jader Barbalho, entre outros. A Justiça é amiga: tem a impunidade com o belo nome de imunidade (um tipo de vacina jurídica que previne enfermidades com a lei e a Receita Federal).
No paraíso Brasília não se pode falar mal do outro. Todos são cordiais, se chamando mutuamente de “excelência”, a imprensa deve ser censurada porque traz desconforto ao clima paradisíaco em que vivem. Tais quais religiosos em profunda comunhão uns com os outros, praticam o espírito de corpo, onde o ataque a um é o ataque a todos. Para a plateia externa encenam algum jogo conhecido como situação e oposição. Fechadas as cortinas do espetáculo, todos comem juntos nos mais caros restaurantes, onde alguns tem até cadeiras cativas. O visto de entrada neste país é o voto, conseguido sabe-se lá como. Outra forma é ser amigo de algum eleito ou, o mais seguro, ser parente de um eleito.
Brasília tem filiais em muitas cidades, com embaixada nas Prefeituras Municipais e Câmaras. Exemplo e prova disto é a cidade de Campinas.
Marcos Inhauser
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terça-feira, 31 de maio de 2011
QUEM É QUEM NO PLANALTO?
No dia 2 de novembro do ano passado eu escrevi a coluna “Dilma ou Lula?”, na qual eu começava com a pergunta: “A eleição da Dilma para a presidência ... impõe a pergunta: o que elegemos? Uma mulher com identidade política própria ou uma versão Lula de saias?”
Depois de algumas digressões, eu afirmava que: “... o governo da Dilma pode até ser presidido por uma mulher, mas ladeado de homens, que certamente terão papel preponderante e marcante no estabelecimento das políticas. Um deles vai coordenar o processo de transição (um que renunciou por causa de um escândalo) e o outro vai negociar com homens, donos dos partidos da coalizão ... e, ... com toda certeza, serão em sua grande maioria formado de homens.” Fui criticado e até chamado de machista, porque não acreditava na capacidade da mulher de governar.
Os recentes fatos envolvendo o governo Dilma vieram comprovar o que afirmei no passado. Sabe-se hoje que o seu governo está(va) alicerçado na pessoa do ministro Palocci, ex-ministro flagrado com a mão na botija do extrato do Francenildo. Guindado à posição de todo-poderoso na versão Lula-de-saias, o ministro, mais uma vez se enrolou, agora com o extrato da sua própria conta.
No desenrolar da crise que se seguiu, soube-se que ele enquadrou o PMDB, na pessoa do Vice-presidente da República, forçando a barra pela aprovação toda suspeita do Código Florestal, cujos interesses que estão por trás ainda não conhecemos bem. A coisa pegou fogo, houve a reação dos fisiológicos peemedebistas, sempre ciosos de seus cargos na administração federal, e a presidente teve que ceder e tirar uma foto com o Michel Temer, como forma simplista e ingênua de que tudo corre às mil maravilhas.
Neste interim, quando o circo pegava fogo, ela teve que se valer do ex-presidente, quem foi a Brasília como bombeiro, para salvar a aliança que elegeu a sua eleita.
Ela, por sua vez, sumiu. Uma providencial pneumonia a colocou de molho. Especulações falavam de um quadro grave de saúde, com antiga enfermidade retornando. Sabe-se que ela tem problemas de saúde que ameritam cuidados, mas nada que a impeça de governar. Contudo, o que se vê é a inapetência para o manejo das coisas políticas. Ela se associou a cobras criadas para se eleger e agora deixa o ofidiário a seu bel-prazer. A primeira picada venenosa não veio das cobras aliadas, mas das amigas. O Palocci, cria do PT, é um ser trágico: se enrolou e enrolou a outros na Prefeitura de Ribeirão, como ministro esqueceu seu passado trotskista e aderiu de alma lavada à economia de mercado, se envolveu com a casa suspeita, com o mensalão e com o extrato. Reeleito, se enrolou com a Consultoria milionária que prestou (ainda por ser esclarecida, uma vez que os sinais que estão surgindo sugerem tráfico de influência) e agora se enrola com seu gordo extrato bancário e com o silêncio suspeito a que se impõe.
Um monte de homens brigando por espaço político e a presidente passeando no Uruguai e se “recuperando de uma pneumonia”. Não era isto que esperávamos do primeiro governo feminino do Brasil.
Marcos Inhauser
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terça-feira, 24 de maio de 2011
CUPIM NA PORTA
Logo que me mudei para a casa onde atualmente moro, fui alertado que havia um “pozinho” debaixo da porta do quarto. Alertado fui por várias vezes de que este pozinho insistia em aparecer todas as manhãs. Certo dia fui conferir e lá estava ele. No outro dia idem e assim por alguns dias seguidos em que verifiquei.
Um dia, conversando com meu pai, quem trabalhou com madeira muitos anos, contei a ele, ao que me perguntou se era pó ou algo como que pequenas bolinhas, granulado. Um dia lembrei de examinar e comentei com ele e ele me disse que há uma diferença entre o pó deixado pelo cupim e pelo coró. Perguntei a diferença entre um e outro e, confesso, não vi muita diferença no estrago que fazem. Não dei mais atenção ao fato, e esperei para ver o que aconteceria.
Passados alguns anos, na lateral da porta apareceu um enorme rombo, que deixou ver que a porta estava comida por dentro e que deveria trocá-la.
Nestes dias em que estava vendo na televisão o noticiário sobre as denúncias contra funcionários da Sanasa, por uma destas questões que só Freud explica, lancei o olhar para o rombo na porta agora corroída pela praga.
Quem acompanha mais atentamente o noticiário já deve ter percebido que a atual administração andou deixando sinais que evidenciavam problema futuro na estrutura. Quem me acompanha nesta coluna poderá se lembrar que, por várias vezes, andei falando do prefeito e sua gestão (Heliofote Santos, Heliossaurus Sanctis, Elogios e Desafios, Roda, Roda-viária, Transtornoviária, Haelius Aegypyt). Nestas colunas eu denunciava que algo estava caindo da porta da Prefeitura Municipal de Campinas. Eu imaginava que o esquema era grande e pesado, mesmo porque, como colunista, muitas vezes fui parado por pessoas ou amigos que me relatavam coisas horripilantes. Algumas até eram funcionárias da Prefeitura e me passavam dados concretos, mas que eu, por não ter as provas necessárias, não podia ser irresponsável e sair usando a coluna para acusar. Outras vezes recebi e-mails não identificados alertando para o pozinho que insistia em aparecer aqui e acolá.
Confesso que as acusações que agora são feitas são maiores do que a minha capacidade de imaginação conseguiu abarcar. Aqui com meus botões, eu não estou surpreso, mas estarrecido com a gravidade das denúncias, o tamanho do suposto rombo, a quantidade de gente envolvida e o nível funcional deles. Quando a coisa começou e o Ministério Público chamou os denunciados a depor e começou o festival de licença médica, ausência, ficar em silêncio, não produzir provas contra si mesmo, etc., práticas conhecidas por todos nós em outros esquemas denunciados, tive que ampliar o horizonte da minha imaginação, mas mesmo assim não o fiz suficientemente.
Se na porta do meu quarto o estrago foi produzido por cupim ou coró, não importa. A porta foi pro brejo. Se as denúncias tem motivação política ou não, não me importa: a coisa anda podre lá pelos lados da Sanasa e Prefeitura.
terça-feira, 17 de maio de 2011
VINTE VEZES
Esta semana estamos sendo bombardeados com a notícia de que o ex-ministro, depois deputado e agora novamente ministro, Antonio Palocci, teve a façanha de fazer crescer seu patrimônio em vinte vezes nos últimos quatro anos.
Fosse ele um nerd do mundo da informática, um Mark Zuckemberg criando algo parecido ao Facebook, ou o Steve Jobs lançando a série de I-tudo, talvez pudéssemos aceitar a notícia sem grande alarde e assombro.
Mas o caso em questão é emblemático por tratar-se de figura central do lulo-petismo e da “estabilidade” financeira que o petismo afirma ter trazido ao país. Ele esteve envolvido em casos ruidosos e rumorosos quando de sua passagem pela Prefeitura de Ribeirão Preto, nos contratos denunciados por um ex-assessor seu. A Construtora Leão teve que dar mil explicações e voltas diante das acusações. O próprio Palocci esteve depois envolvido em uma casa nada familiar, alugada para atender aos desejos carnais de gente relacionada ao petismo e a Palocci e, segundo denuncia do Francenildo, ao próprio. A coisa terminou no que todos sabemos, com o ministro envolvido na quebra do sigilo bancário do caseiro e a renúncia do indigitado.
Agora, aparece esta capacidade de fazer milagres econômicos e financeiros. Uma consultoria de sua propriedade teve a façanha de ter em quatro anos alguns dos melhores pagadores deste tipo de trabalho que há no Brasil e quiçasmente fora dele. Na média foi um faturamento de 1,9 milhão por ano, ou seja, mais de 150 mil por mês limpinho na mão, ou melhor no caixa da empresa. Se o nobre deputado foi quem trabalhou, ele ganhou a média de R$ 6.000,00 dia, tendo trabalhado 25 dias mês. Acresça-se a isto os salário e benesses do cargo de deputado e a coisa está explicadinha.
O problema é que para ele ter trabalhado 25 dias mês, ele não conseguiria ser também deputado. Mas imaginemos que ele fez a meia semana em Brasília como todos os outros fazem, ele ainda assim tinha três dias para trabalhar como consultor. Logo, se foi isto que ocorreu, ele ganhou uma média de R$ 12 mil/dia. Eta consultoria cara. E perceba que isto é o que ganhou só para comprar os imóveis. Parece que não teve despesas de funcionários porque o escritório da consultoria sempre esteve fechado.
Mas se a consultoria foi dada ao grupo que mais lucrou (prefiro o termo mamou) no governo Lula, que foram os bancos, a coisa começa a se explicar, porque, ganhando o que ganham, sem nenhum órgão a limitar a fome bancária, talvez a consultoria tenha sido regiamente paga como agradecimento à liberdade de atuação que tem.
De minha parte, se posso pedir algo, gostaria que o nobre deputado e consultor me desse a lista dos clientes, para ver se consigo dar uma mamada também. Nem tenho a pretensão de fazer meu patrimônio multiplicar vinte vezes, mesmo porque, vinte vezes quase nada é quase nada,
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terça-feira, 10 de maio de 2011
GUZMAN E LADEN
De 87 a 93, por força do meu trabalho com Direitos Humanos na América Latina, acompanhei de perto (mais perto do que gostaria) os problemas políticos no Peru com o governo autocrático do Fujimori, a derrocada da economia com o Fujishock, as investidas dos grupos guerrilheiros Sendero Luminoso e Tupac Amaru. Entre os que trabalhávamos nesta área havia certo consenso de que o Sendero era irracional, não se sabia ao certo o que queria, apostava no caos (seguindo o modelo maoísta de quanto pior melhor). Eles praticavam ataques terroristas e assassinavam qualquer pessoa que ousasse discordar de seus métodos. Há relatos de igrejas inteiras sendo atacadas e os presentes mortos, pelo simples fato de que denunciavam a violência.
A figura do chefe, Abimael Guzmán (professor de Filosofia da Universidade Nacional de San Cristóbal de Huamanga) , considerado fundador e que adotou o codinome Presidente Gonzalo, assumiu certa aura mística, vez que o governo, exército e paramilitares não conseguiam capturá-lo. Viveu assim dos anos 60 aos 90, décadas que reforçaram o imaginário popular quanto à sua astúcia e inteligência. Em 12 de outubro de 1992 (data da celebração dos 500 anos de “descobrimento” da América) Guzmán é apresentado como prisioneiro e aparece várias vezes no tribunal, vestido de roupa listradas típica dos prisioneiros e cabeça baixa. Humilhado publicamente, sua mística veio abaixo e com ela o Sendero Luminoso quase desapareceu. Ele continua preso em uma prisão, juntamente com Montesinos, o corrupto mór do governo Fujimori, que teve que fugir do Peru para não ser preso.
Laden também fugiu e ninguém o pegava até que o Obama vem a público dizer que havia sido morto em sua casa por um comando especial da Marinha e que seu corpo havia sido jogado ao mar (para evitar uma peregrinação). O problema é que os EUA ainda não aprenderam que um mártir vira herói. Assim foi com o Allende, Getúlio, Sandino, Farabundo Marti, Manoel Rodrigues e tantos outros. Matar é dar cordas à heroicização e isto está acontecendo.
Os fatos narrados na primeira hora tiveram que ser recontados pela Casa Branca, porque Bin Laden não estava armado como se havia dito, nem usou a esposa como escudo. Acabo de escutar de que os filhos vão processar o Obama pela morte do pai e pelo insulto de atirá-lo ao mar, um desrespeito segundo a tradição islâmica.
O Obama pode ter vindo a público dizer que justiça foi feita, pode ter o respaldo da opinião pública, mas criou um herói. E este herói ainda vai dar muita dor de cabeça ao Obama e aos EUA. É o preço que vão pagar pelo erro cometido. Se tivessem feito o que o Peru fez, não teriam hoje um cadáver a assustar uma nação.
E olha que não acredito em assombração. Mas faço uma concessão ao Bin Laden.....
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terça-feira, 3 de maio de 2011
INTERNET BÊBADA
Tenho a conexão banda larga pela Net, o tal do Vírtua. Confesso que se Vírtua é algo relacionado à virtude, não vejo virtude alguma no serviço prestado. Falo isto do alto da experiência de mais de cinco anos brigando com a conexão e com a empresa.
Já tive o Speedy, e de velocidade nada. Estava mais para tartaruga que para algo veloz. Tenho também do modem da Vivo, que vira e mexe está morto: não funciona nem a pau.
Já conversei com gente que tem a GVT, sistema de rádio e todos reclamam a mesma coisa: serviço inconstante, com quedas constantes de conexão, instabilidade na velocidade, propaganda enganosa ao oferecer serviços de tantos megabites e entregam algo que gira em torno de 10% do prometido e comprado.
Acrescente-se a isto o serviço de péssima qualidade que prestam nos mal estruturados serviços de call center, com atendentes que mais se parecem a secretárias eletrônica, pois falam sempre a mesma coisa. De conexão entendem tanto quanto eu de física quântica. O que fazem é ler um manual de procedimentos básicos. Na terceira vez que se liga, já se sabe de memória o que vão falar.
Se, porventura, decidem fazer uma visita técnica e sobem ao telhado para conferir os cabos e conexões, haja telhas para serem substituídas, porque não tem o menor cuidado e arrebentam o que veem pela frente. Tive que mandar refazer parte do telhado por causa destas “visitas técnicas”.
Já cansei de ligar para a Net, para a ouvidoria da Net, para a Anatel. Nestas caminhadas percebi que um finge que vai tomar providências, o outro finge que anotou a reclamação, o outro finge que tomou providências e no final você deve fingir que tem a conexão estável e de qualidade.
A minha conexão deve ter tomado uns goles e anda de porre. Vive cambaleando e caindo. Cansei de reclamar porque constatei por fatos e experiências que não resolvem nada. Quando falo isto para outros usuários, todos reclamam da mesma coisa: a conexão brasileira à internet é uma droga. Já cheguei a ficar dias sem net e telefone, no que pese que é meu instrumento de trabalho. E quando reclamei dos dias sem net, que no total foram (somadas todas as interrupções no mês) mais de sete dias, eles me ofereceram um desconto de R$ 12,00 na fatura seguinte!
A ANATEL deveria se chamar Agência Nacional de Amparo às Telefonicas, porque estão para defender os interesses das operadoras e não da população.
Acho que no Paquistão é a mesma coisa, porque o Bin Laden não tinha nem telefone, nem internet na casa onde vivia. Deve ser porque percebeu que é terrorista a internet, ao menos a brasileira: é uma bomba que explode em toda casa.
Quero ver o dia em que vão dar um Engov para a internet brasileira.
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ESTADO ESQUIZOFRÊNICO
Não é de hoje que falo, escrevo e protesto contra o Estado brasileiro nos seus diversos níveis. Há nele um aperfeiçoamento célere quando se trata de arrecadação. A Receita Federal, o INSS, o ICMS e o ISSQN passaram por profundas transformações no sentido de coibir as sonegações. Não sei se existe outro país no mundo onde a declaração anual do imposto de renda seja totalmente online, como é a brasileira neste ano. Lembrar que há não muito tempo ainda se fazia em papel.
As emissões de nota fiscal eletrônica são outro avanço no sentido de melhor arrecadar impostos. O cruzamento em tempo real de dados é outro elemento deste avanço tecnológico.
Nenhum outro país teve tantos radares instalados em tão pouco tempo, vigiando os condutores e punindo ao menor deslize. Dez por cento de excesso de velocidade em sessenta quilômetros por hora, e dá-lhe multa.
Mas, quando se trata de devolver ao cidadão o serviço que o Estado por lei e Constituição é obrigado a dar, aí são outros quinhentos. Nem vou falar de segurança, saúde e educação, para não cair nos clichês. Falo de serviços cobrados e mínimos, como um alvará de funcionamento, uma certidão negativa de multa, um parcelamento de débito, aprovação de uma planta, reconsideração de cálculo de IPTU, lançamentos equivocados, etc.
Quem nunca se irritou com a demora em ser atendido num posto da Receita Federal, INSS, Prefeitura ou outro órgão qualquer? Quem nunca se intrigou com os movimentos modorrentos de funcionários públicos, que se arrastam para fazer aquilo para que são pagos?
O aperfeiçoamento da máquina veio na ponta da arrecadação. A se considerar os inúmeros casos de escândalo e propinas e licitações dirigidas, parece que houve incremente tecnológico na ponta da evasão via corrupção, vide o caso ainda não julgado do mensalão. Mais recentemente, o caso da Sanasa em Campinas, com um propinoduto instalado é outro exemplo. As evasivas dos envolvidos não comparecendo ou ficando em silêncio é a evidência desta “tecnologia” aplicada aos tribunais. A Receita, o ICMS, o ISSQN e os radares foram aperfeiçoados e a informática mal chega capengamente ao judiciário, que, em tese, beneficiaria o cidadão. Ocorre que mais de 50% dos recursos são feitos pelos diversos órgãos da administração pública e não interessa a eles que este processos sejam julgados.
Vendo isto eu me lembro do Valdir, um caboclo que me disse uma vez: “a porta do chiqueiro é bonita, mas lá dentro é muita lama prá um chiqueiro tão pequeno”.
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A GRAÇA DA ILUMINAÇÃO
Para mim não é coincidência que o relato bíblico inicie com a descrição de um caos (tohu vabohu, no hebraico). Voltei a pensar nisto nos dias que se sucederam ao tsunami no Japão e a profusão de imagens do caos em que a terra se transformou. Nada no lugar, tudo amontoado, arrebentado, quebrado, inutilizado. Para mim, aquelas cenas foram as que mais me ilustraram o que o tohu vabohu significa.
O texto do Gênesis afirma que a terra estava sem forma e vazia (tohu vabohu). O caos predominava. A assolação era inimaginável. Diante dos destroços deixados pelo tsunami, a gente fica perdido sem saber por onde começar e como fazer a limpeza de tamanho estrago. Assim era o início.
Diante desta situação vem Deus e, sem que ninguém pedisse, sem que alguém tivesse sentido a necessidade, orado, clamado, exigido dEle uma providência, Ele toma a iniciativa de colocar ordem na bagunça. E o faz de maneira surpreendente porque não é a forma como faríamos. Ele fala e ordena as coisas, no duplo sentido que o verbo tem: dá ordens e coloca ordem.
Só que havia um caos agravado pela escuridão. A primeira providência divina foi iluminar a bagunça. Nisto há uma dualidade de efeitos: tem-se mais clareza sobre a natureza do caos e agrava-se a sensação do caos.
Um dos problemas que enfrentamos na vida é que o caos é uma experiência humana bastante comum. De tempos em tempos ficamos atolados em meio ao tohu vabohu que a nossa vida se transforma ou é envolvida. E quando estamos neste caos, parece que estamos em uma escuridão feito breu. Nada faz sentido, tudo é tão obscuro, falta clareza, cada coisa que se faz, pensa ou decide é como se fosse trombando com coisas que a gente não vê, não tem consciência.
A outra questão é que, ao lançar luz sobre o caos, passamos a ver com clareza o tamanho do estrago, da crise. Ao lançar luz, a coisa fica mais feia do que imaginávamos. Na escuridão imaginamos, sob a luz conscientizamo-nos e este processo é dolorido. Por incrível que pareça, há quem prefira ficar na escuridão a ver a realidade do estrago e da catástrofe em que está metido. Tomar pé da situação é esclarecedor, mas, ao mesmo tempo, aterrador. Mas há aqui uma lição: não se ordena o tohu vabohu sem iluminar os fatos.
Outro dado é que o processo de colocar ordem na bagunça não é mágico, algo que ocorre em um segundo. É um processo que toma sete etapas, muito ao contrário de alguns pregadores de poder que prometem consertar a bagunça de uma vida com uma oração. Parece que eles são mais rápidos e poderosos que Deus.
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O PODER DO ELOGIO
Uma das necessidades intrínsecas do ser humano é a da realização. Todos precisamos fazer algo para dizer que fomos nós que o fizemos. Em certa medida, somos avaliados pelo que fazemos, mais do que pelo que somos ou temos. A crise da meia-idade no homem fica mais acentuada se, ao olhar para trás, ele não fez nada do que possa orgulhar-se.
Esta necessidade é irmã gêmea de outra, a do reconhecimento. Precisamos ser reconhecidos como pessoas atuantes e realizadoras. Se alguém faz algo sem que ninguém note o que ele está fazendo, deixará de fazê-lo depois de um tempo, salvo se for um louco totalmente desligado da realidade. O trabalhado invisível parece um mito. Todos, sem exceção (pelo menos na minha ótica) precisamos de alguém que saiba do que fazemos. Isto leva a uma regra do trabalho: toda pessoa que faz qualquer coisa sem ter que reportar a alguém, ou deixará de fazê-lo ou nunca o fará com excelência.
Todos sonhamos em fazer algo que nos perpetue na memória dos outros. Com facilidade incrível dizemos que isto ou aquilo é um “marco histórico”, “algo que vai entrar para a história”, porque necessitamos crer que nossos atos serão lembrados ad eternum.
Estas considerações preliminares servem para introduzir minhas reflexões sobre o episódio de Realengo e outros similares ao redor do mundo. Há um corte de similitude nos personagens destes eventos trágicos, assim como de bandidos que se tornaram famosos: foram pessoas não notadas, não reconhecidas, não valorizadas pelos colegas e família. Vítimas de chacota, nunca foram reconhecidas por seus méritos, por suas qualidades ou pelo que faziam.
O desejo de “entrar para a história”, de fazer algo que fizesse com que seus nomes fossem conhecidos, suas fotos e nomes publicados, ainda que nas páginas policiais, a necessidade de serem famosos, pode ser uma das motivações para que se decidam pelo caminho enviesado do crime.
A entrevista dada pelo menino australiano que jogou o colega ao chão depois de ser agredido mostra um jovem que não era reconhecido nem pelo pai, que afirma que se assustou ao saber que por três anos seu filho estava sendo vítima de chacotas, brincadeiras humilhantes e desprezo. Um pai que não notava a presença e a vida do filho. Nem o pai o reconhecia. O mesmo é válido para o outro apresentado como o agressor, que não vive com a mãe e tem um pai manipulador.
Vivemos tempos de extrema competitividade, de vidas centradas em si mesmas e perdemos a cultura do elogio, do reconhecimento do outro como ator e causador de coisas boas. Somos rápidos em criticar, tardios em elogiar. E digo isto especialmente em relação aos pais no processo de educação dos filhos. Se elogiamos, não o fazemos com a mesma carga emocional da crítica, da censura.
Reconhecer que o outro existe e é autor e causador de coisas boas é uma das formas de se evitar tragédias, seja ela que magnitude tenha.
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SESSENTOU
Não leio os capítulos iniciais do livro do Gênesis no seu sentido literal e muito menos historiográfico. Vejo-o como literatura sapiencial, cheio de máximas de vida e instruções de sabedoria. Assim, há nele alguns dados interessantíssimos. No segundo relato da criação, diferentemente do primeiro, o homem foi criado só e somente depois de tudo o mais ter sido criado, Deus percebe que não é bom ele estar sozinho e decide criar a mulher.
Isto me faz pensar na ação da graça de Deus: um agir imotivado, não provocado por qualquer circunstância a não ser sua própria vontade. Adão não tinha consciência de que estava só, que seria interessante ter companhia, que poderia ser uma mulher. Deus criou a mulher antes mesmo que Adão tivesse pedido, imaginado, pedido. E ele se surpreendeu com a ação da graça de Deus.
Assim sou eu. Na juventude, meio apressadinho, andei pedindo a Deus uma companheira, uma esposa. Atirei para alguns lados, sem resultado. Um dia a graça de Deus se manifestou na minha vida e ele me deu a Eva da minha vida. E o que Deus me deu foi muito, mas muito melhor do que eu poderia ter imaginado, pensado, pedido.
A Eva da minha vida, por causa da graça de Deus, vem colhendo anos na vida junto comigo. Se Deus me tivesse dado uma esposa que não envelhecesse, eu hoje, sessentão, estaria com uma jovenzinha sem muita experiência ao meu lado e eu, provavelmente me cansaria dela, porque seria a mesma nestes trinta e oito anos em que estamos juntos. A graça de Deus me deu uma Eva que vem amadurecendo pari passu comigo. E a cada dia eu tenho uma nova Eva ao meu lado, surpreendendo-me e fazendo-me companhia.
Ela completa seus sessenta anos amanhã. Eu os completei em dezembro. Juntos passamos quase dois terços de nossas vidas nos fazendo companhia. E, sem nenhuma presunção, foram trinta e oito anos vivendo no paraíso, mais por mérito da minha Eva que meus. Tivemos filhos e não experimentamos o problema de vê-los brigando, tal como Caim e Abel. Antes, eles ajudaram a transformar a nossa casa em paraíso e se ajudam mutuamente. Nossos netos são como pérolas a adornar este paraíso.
E, diferentemente da Eva original, a minha não me deu o fruto proibido para comer e pecar, antes, sempre, foi fiel para alertar-me a mim e aos nossos filhos e netos, a benção da fidelidade a Deus.
A minha Eva é a manifestação diária da graça de Deus na minha vida. Agradeço a Deus e a ela a experiência diária da graça, coisa que só mais recentemente vim a entender.
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TOMOU A VIDA A SÉRIO
Há uma letra de música nicaraguense que diz que “cometió el atroz delito de tomar la vida en serio”, referindo-se aos que, durante a revolução nicaraguense, haviam dado a vida em favor de outros, para que pudessem ter esperança de melhores dias. Outra vai dizer que o alento da vida é a esperança e creio que os que a infundem nos outros, promovem a vida de muitos.
Estas coisas me vieram à mente agora à tarde quando, preso no trânsito por causa da chuva, ouvia notícia da morte do ex-vice-presidente José Alencar, ouvi pessoas falando sobre ele e da convivência que com ele tiveram. Alencar levou a vida a sério, sem cometer delito.
Não o conheci pessoalmente. Ouvi muitas das coisas que disse, li sobre sua história de vida e aprendi a admirar nele, entre outras coisas, duas que o transformaram para mim em exemplo.
A primeira foi seu exemplo de “fé realista”. Em um contexto religioso brasileiro onde pululam manifestações extremadas, promessas absurdas de cura, crença nos impossíveis, ele a cada vez que se manifestava afirmava e reafirmava sua crença na soberania de Deus. A sua afirmação de que Deus não precisaria de um câncer para tirar sua vida se Ele assim quisesse proceder, e que, se Ele quisesse, viveria mesmo com o câncer, mostram uma pessoa consciente dos limites humanos e divino. Ademais, mostra uma pessoa que entende a religião não como exercício de obrigar Deus a fazer o quero (tão em voga nos modelos pentecostais e neopentecostais), mas como o exercício do reconhecimento da soberania de Deus, no que pese as circunstâncias adversas.
A segunda coisa foi sua humildade. Já vi e conheci muitos que se fizeram na vida e, quase sem exceções, eles se caracterizam como arrogantes, nariz empinado, petulantes, porque se creem melhores que a média porque conseguiram sair de uma situação de infortúnio para a de fortuna. Nada mais intragável que o novo rico.
José Alencar padeceu sob a crise de 29, viu seu pai perder o pequeno negócio que tinha, sai para trabalhar, venceu, construiu um império, mas nunca deixou de ser o José Alencar simples, humilde, que se lembrava a todo instante dos menos favorecidos. Ao estar sendo tratado em um hospital de referência pelo fato de ser vice-presidente da República, sentia-se como que culpado por estar recebendo tratamento que a maioria não tinha.
Ele levou a vida a sério, tanto que lutou por ela até à última gota, o último suspiro. Acima de tudo, infundiu esperança em muitos.
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ATÔNITOS
Acho que este é o sentimento da grande maioria com os recentes eventos que atingiram o Japão. Não é possível ficar indiferente com os fatos e as notícias que do Oriente vem.
Há, no entanto, algumas coisas que precisam ser explicitadas para que a tragédia não nos pareça maior que muitas outras, mesmo que, diante das tragédias, não se deve estabelecer um campeonato da desgraça.
Nenhum outro evento catastrófico que a humanidade tenha sofrido até hoje teve tantas imagens gravadas, tantas câmeras em ação e tão imediata divulgação mundo afora. Há uma regra meio que inerente ao ser humano: quanto mais próximo do fato soubermos dele, mais impacto ele causará em nós.
Explico-me: se vejo um acidente na estrada e eu vi o carro se acidentando, ele terá um impacto em mim muito maior do que se eu passar logo depois do acidente e vir o carro acidentado. Menos impacto causará se eu passar algumas horas mais tarde e vir o carro já retirado do leito carroçável.
Se alguém me conta uma tragédia, ela produz um impacto em mim dependendo das cores que o narrador dela pintou o quadro. Mas se vejo imagens da tragédia, ela impactará muito mais fortemente.
Outro fato é que o impacto em mim depende da quantidade de vítimas e a atrocidade da morte. Uma única morte, de forma natural, impactará menos que uma morte de forma violenta. Assim, muitas mortes de forma violenta trarão impacto muito mais profundo.
Dito isto, quero tentar dimensionar algumas coisas. Primeiro, os eventos trágicos do Japão tem causado tal comoção porque transmitidos quase em tempo real e com profusão de detalhes e variedade de imagens como nunca se teve até o dia de hoje. Segundo, porque não houve uma única causa (terremoto), mas uma sucessão de causas (terremoto, seguido de tsunami, mais desastre nuclear). Isto faz lembrar a sabedoria popular que “desgraça pouca é bobagem”.
No caso dos reatores nucleares, há que salientar-se a sucessão de problemas que redundaram nas explosões: o terremoto, o tsunami que avariou o sistema de refrigeração. Alternativas lançadas (resfriamento com água do mar), falta de combustível e eletricidade para que o resfriamento pudesse ser efetivo e duradouro, mostram algo que devemos ter sempre em menta: nenhum efeito é causado por uma única causa. Sempre há uma multiplicidade de causas a produzir o efeito. Uma tragédia nunca é provocada por uma única causa. As consequências não são únicas. Todo evento tem consequências múltiplas.
São efeitos da tragédia o questionamento mundial sobre a viabilidade do uso nuclear para a geração de energia elétrica, o deslocamento de famílias das áreas contaminadas, a decretação de uma zona morta por décadas, o impacto sobre a economia, etc.
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Carta do Abileone
Em homenagem ao meu sogro que faleceu há dias e em agradecimento ao local onde ele esteve nos últimos meses de sua vida.
Querida Rita
Quero pedir perdão porque fui embora sem me despedir de você. Enfermeiras lindas vieram me chamar e dizer que estava sendo promovido para nova casa de repouso.
A minha vida foi trabalhar e isto de repouso pouco tive, mas Deus me abençoou com a o Repouso Bem Viver. Confesso que foi difícil repousar depois de tanto trabalho. Até achei que estavam me descartando.
Quando vi você, tão jovem e linda (o Alex que ficar com ciúmes) correndo prá todo lado e eu sentado, sem fazer nada, recebendo tudo de mão beijada, me senti desconfortável. Com o tempo fui gostando de ser paparicado. Nunca fui tantas vezes chamado de “meu lindo”, “meu amor”, nunca tantas moças maravilhosas e dedicadas me pediram em casamento! Uma hora era a Marlene, outra a Cida, depoi a Piloto de Cadeira Formula 1, e a Baixinha, e outra, e outra. Cada uma delas com um jeito especial de cuidar de mim. Até homem andou me dando banho.
Agora fui promovido para a Casa do Eterno Repouso. Ela não é muito diferente do que vocês me deram. A Rita que me recebeu aqui disse que na terra ora me chamavam de Leone, ora de Abílio, mas agora tenho um novo nome: Abileone, porque vou ser os dois ao mesmo tempo!
Sabe, Rita, tô estranhando aqui: ainda não me deram nenhum remédio. E também não vi ninguém tomando remédio algum. É meio esquisito. Acho que esta Casa de Repouso é meio diferente e fora do eixo. E o mais estranho é que estou me sentindo melhor. Parece que a cada hora que passa tô melhorando mais. As pernas já estão mais fortes e esta noite levantei sozinho prá ir mijar. Ninguém reclamou de mim como vocês faziam, muito pelo contrário, me aplaudiram!
Me contaram que vão celebrar meu aniversário e vão fazer festa e que vem um conjunto de musica caipira prá cantar. Eu disse que já tinham feito. Insistiram e avisaram que aqui a gente conta a idade de trás para frente. Agora vou fazer 95 anos, depois 94, 93 e assim por diante. Eu perguntei: e quando chegar no zero? Eles me responderam que vou virar criança eternamente. Estranho isto né?
Sabe Rita, se eu não tivesse passado pela sua casa, se eu não tivesse conhecido o Alex, a Marlene, a Cida, a Bingueira, eu ia estranhar isto daqui e não sei se seria uma promoção. Talvez até pedisse para voltar. Ficar aí com vocês foi um estágio para me acostumar com o Céu. Aí é a porta de entrada a Casa de Repouso do Eterno Viver.
Beijos e lembranças a todos que trabalham com você. Eles são iguaizinhos aos de branco que tem aqui. Como você conseguiu arrumar tanto anjo para trabalhar com você?
Preciso ir para a festa de aniversário. Tão me chamando. Vou ter que acostumar com ter 95 anos outra vez. Quando chegar nos 18, aí sim que vai ser “bão demais da conta”. Se alguém me pedir em casamento eu topo na hora!!!!
Abileone
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ATO FALHO?
Há poucos dias o presidente dos Estados Unidos veio a público fazer sua crítica ao Mouammar Kadhaf e, entre outras coisas, saiu-se com esta: “ele perdeu a legitimidade”.
A frase me levou a algumas considerações, todas devidamente alicerçadas em antigas afirmativas de presidentes estadunidenses. Lembrei-me do Jimmy Carter e sua cruzada pelos Direitos Humanos, quando dizia que os EUA não podiam tolerar governos que violassem os direitos essenciais. Lembrei-me das muitas vezes em que afirmavam que não podiam apoiar ditadores, mas derrubaram o Allende legitimamente eleito e colocaram/permitiram o Pinochet. Ajudaram a derrubar o Goulart e apoiaram as Forças Armadas nos seus anos de ditadura. Investiram contra o Noriega e mataram mais de três mil no bairro dos Chorrillos, na cidade do Panamá. Há décadas submetem o povo cubano a um massacre econômico porque não podem apoiar uma ditadura. Criaram o Hussein, que trabalhou para eles e para a família Bush, e depois fizeram uma guerra para derrubá-lo e “levar a democracia a todo o mundo”. Apoiaram por mais de trinta anos o Mubarack e na hora agá, quando a coisa ficou feia, vieram com o discurso da democracia.
Agora vem o Obama dizer que o Kadhaf perdeu legitimidade. Isto quer dizer que antes ele tinha a tal da legitimidade? Que legitimidade é esta? Um governo, fruto de um golpe militar em setembro de 1969, que encastela a família nos palácios e vive da grana desviada? Que legitimidade tem se só nos EUA a família teve mais de 50 bilhões de dólares bloqueados?
Quem legitimava este ditador? Quem retirou dele a legitimidade, se é que a tinha?
Para mim, a fala do Obama revela como os Estados Unidos tem um discurso hipócrita, camaleônico, interesseiro. Levanta a bandeira dos Direitos Humanos na China, mas tolera a corrupção e a violação nos países árabes. Recebe e se beneficia dos bilhões de dólares investidos por ditadores árabes (seja lá que título tenham) e africanos, e quando a coisa aperta, faz a “revolução antes que os outros a façam”.
Para mim sempre foi claro e agora o é ainda mais: que a legitimidade é uma questão de posicionamento do império. Do alto de sua arrogância e prepotência eles dizem que é legítimo o que lhes interessa. Quando as coisas já não mais interessam, eles retiram o apoio e a pessoa perde legitimidade.
Este tipo de legitimidade imperial, dada pelos que se julgam polícia do mundo, é uma farsa. Ainda bem que na história da humanidade não houve e nem haverá impérios eternos. E este já está caindo pelas tabelas.
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UM PASTOR PARADIGMÁTICO
Nestes dias tive experiências com um “pastor” que me mostraram como elas são paradigmáticas de um tipo bastante comum de “pastores” que a gente encontra por toda a parte.
Estávamos em um carro em cinco pessoas e eu o conheci já dentro do carro. Foi-me apresentado com um pastor de um país latino-americano. Havia quatro. A viagem que era longa, teve um tempo inicial de apresentações e perguntas básicas, seguido de silêncio. O que estava dirigindo, amigo do “pastor”, foi à casa de câmbio trocar uns dólares, voltou e entregou a parte que correspondia a cada um, quando o “pastor” disse que lhe parecia que naquela cidade não se usava muito o dinheiro, porque lhe haviam dado algumas notas novas em folha. Houve alguns comentários e eu, para entrar na conversa, disse que no Brasil também estavam fazendo novas cédulas para evitar a falsificação, e que estavam pensando em colocar um chip nas notas como forma de garantir a autenticidade. Foi o estopim!
O indigitado disse que isto era o sinal da besta apocalítica, pq no Apocalipse está escrito que o 666 é um sinal que não vai permitir que se compre ou venda sem que se tenha tal sinal, que estão implanto microchips nas mãos de pessoas e só falta começarem a implantar na testa para que a profecia se cumpra.
Conhecendo este tipo de conversa “escatológica”, me arrependi de haver dito algo. O indigitado fez mais um monte de afirmações estapafúrdias e se virou para mim e me perguntou: e você? O que pensa do 666?
Eu, querendo acabar com o assunto, disse que a única certeza que tinha era que já havia ouvido mais de 666 interpretações sobre o assunto. E para dar um ar meio irônico, afirmei que a que a que mais gostei foi a que o Bush era o 666. O indigitado se enfureceu. Prevendo o andar da carruagem, arrematei: uma coisa me chama a atenção neste assunto e é que os grandes teólogos da igreja, reconhecido como tais, como Agostinho, Aquino, Lutero, Calvino não se meteram a fazer afirmações peremptórias sobre predições apocalíticas.
Ainda mais enfurecido, o indigitado me disse: sabe por que eles não falaram? Porque eles não se dedicaram a um estudo profundo de Daniel e Apocalipse. Para se entender estas coisas a gente precisa ir estudar com jejum e oração. Eu já imaginava o que viria pela frente.
Não me enganei. Começou um festival de asneiras e presunção. Ele disse que estudava há anos os livros de Daniel e Apocalipse, que se dedicou a isto, que o Senhor lhe revelou que isto e que aquilo, disse que o 666 para Bush era adivinhação, que o espírito do anticristo já está no mundo, que o anticristo vai nascer no mercado comum europeu, que estamos perto da grande tribulação. Desfilou um rosário de barbaridades de forma compulsiva como se ele fosse o único que sabia destas coisas. Eu estava mudo e orando a Deus a Ele que me desse um jeito de mudar o assunto porque a coisa estava horrorosa. O gringo me perguntou, ironicamente, porque eu estava calado. Como falou inglês e os demais não entendiam, eu disse que estava pensando. Ele me perguntou se eram bons ou maus pensamentos e eu respondi: Deus que os julgue.
Nunca ouvi tanta besteira com tanta arrogância e presunção. Orando para que se mudasse o assunto, o carro quebra. O assunto acabou e agora era como consertar o carro. Mas o indigitado, do alto de sua arro(t)ância, disse que o diabo é quem havia quebrado o carro porque ele não gosta de saber que será derrotado e que a gente não chegaria ao local a tempo para que ele pudesse pregar suas “verdades”.
Não fiquei para ouvir o sermão....
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UM DIÁCONO ÍMPAR
Ele era membro da igreja que eu pastoreava. Um dia, depois da Escola Dominical (aos domingos pela manhã) ele esperou que todos saíssem e todo desenxabido veio me pedir licença para morar na torre da igreja por alguns dias. Aquilo era um pombal, sujo, cheio de penas e alguns objetos descartados. Perguntei a razão do pedido e ele me disse que quando acordou naquele dia, percebeu que sua esposa e filho tinham ido embora, deixando só a cama para ele.
A situação era tanto mais aguda quando se sabia que ele era portador de hanseníase. Compadeci-me dele e disse que ele não podia morar na torre da igreja, mesmo por uns dias, mas que ele iria morar na minha casa. Eu tinha uma edícula vazia e para lá ele foi. Passou a ser parte da minha família pelo ano ou mais que ali morou. Tinha o dom de consertar pequenas coisas, de eletrônicos a aparelhos elétricos. Com as mãos deformadas pela enfermidade, com muito sacrifício fazia estes pequenos consertos. Mas parece que quanto mais difícil era, mais alegria ele mostrava ao servir às pessoas.
Este seu jeito serviçal e prestativo levou a diretoria a convidá-lo a morar nas dependências da igreja, sendo um diácono de tempo integral. Ali estava para servir aos que buscavam alguma ajuda, e aos membros que precisavam de alguém para pequenos consertos. Ele esteve ali por mais de cinco anos.
Certa feita, um moço japonês esteve na igreja no domingo à noite e o “Seu Pedro” veio me dizer que o conhecia e que ele estava pedindo para dar uma palavra à igreja. Estes pedidos eu os tinha a toda hora e costumava não atender. Mas não sei por que, naquele dia perguntei o que a pessoa queria dizer à igreja e o Seu Pedro disse que ele queria agradecer. Assenti e no meio do culto ele veio à frente e disse que queria agradecer à igreja por ter posto uma pessoa que tinha tempo para ficar sentado na soleira da porta e com disposição para ouvir. Ele contou que estava disposto a suicidar-se, que passou por ali, que recebeu um boa tarde tão caloroso que voltou, sentou e que ficou horas conversando, sem que Seu Pedro desse sinais de cansaço ou aborrecimento. E que voltou muitas outras vezes. Ele queria agradecer por estar vivo e por estar trabalhando e ter constituído família, graças às palavras simples de um homem simples.
Há outras histórias que eu poderia contar dele. Todas de um homem que soube ser amado pelo seu dom de serviço.
Deixei a igreja para atender a outro ministério e ele se casou novamente. A igreja construiu para ele uma casinha. Voltei e o encontrei várias vezes, sempre com seu sorriso e jeito prestativo. Na semana passada Seu Pedro faleceu. Morreu um homem simples com o dom do serviço e uma pessoa que aprendi a amar e admirar pela sinceridade do seu caminhar com Cristo.
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CURTOCIRCUITOS
A presidenta Dilma veio do setor energético para o governo. Já havia feito algo no sul e depois atuou na área como ministra de Minas e Energia. Lá foi ela colocada para fazer algo para que não se repetisse o apagão do governo FHC. Gerenciou a área como mão de ferra (isto é o que diziam) e o petismo alardeava o choque de gestão que a ministra deu ao setor.
Mal saída da área para um degrau acima na hierarquia governamental, a agora presidente colhe os primeiros frutos do seu choque de gestão, que entregou ao sarneysmo a área elétrica do país. O novamente ministro Edison Lobão, entende da área tanto quanto eu entendo de física quântica. A diferença é que não sou apadrinhado pelo coronel-mór da política brasileira.
Quando comecei a ouvir as notícias do apagão fiquei a pensar que o Maranhão, esta maravilha de estado brasileiro com um IDH de fazer inveja à Suécia, tinha também muita sorte, por ser o único estado do Nordeste que não foi premiado com a escuridão. Em seguida me lembrei que o capo da eletricidade comanda este Estado há décadas, que o seu preposto é o ministro e que uma estranha coincidência estava ocorrendo.
No dia seguinte, já nas primeiras horas, o ministro vem a público com números e dados afirmar que o sistema é robusto, que isto acontece em todos os países do mundo e que houve foi uma falha em um equipamento X, na subestação Y.
Tal como da vez anterior, quando uma subestação foi premiada com a culpa por um raio que caiu (e que os meteorologistas dizem que não havia tal evento na região naquela hora), agora um equipamentozinho qualquer promove a escuridão, apagando inclusive a iluminação na cabeça dos cientistas governamentais para serem mais coerentes com a explicação e os fatos.
Bem ao estilo do lulo-petismo, a presidenta nomeia uma comissão para tratar do assunto e sugerir medidas para evitar futuros eventos. Todos sabemos que a melhor coisa para não se fazer nada é nomear uma comissão, ainda mais governamental. Mas todos sabemos também que não há contingenciamento de verbas quando se trata de afagar o apetite de peemedebistas e outros correligionários, mas totalmente inversa é a verdade quando se trata de investir na infraestrutura, seja elétrica, aeroportuária, rodoviária, ferroviárias e etc.
Em meio ao apagão, corre solta a luta nos bastidores para saber quem fica com Furnas (dossiês correndo solto), indicações de gente que já teve o rabo preso com licitações obscuras, apadrinhamento transversal da família do coronel. O ministro Lobão se apressa em afirmar que "Foram decididos pelo ministro com o presidente da República. Não houve nem disputa nem loteamento".
E depois me criticam por acreditar em Papai Noel, Duendes e Santidade Parlamentar.
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MONITORANDO A TRAGÉDIA
Não me refiro à tragédia na região serrana do Rio de Janeiro. Nem à tragédia nas cidades de Minas. Nem mesmo às tragédias mais próximas em Socorro, Atibia, Bragança, Sousas, Hortolândia, Sumaré e outras mais.
Eu me refiro à tragédia da incompetência e incúria dos governos federal, estaduais e municipais em aprender com os fatos. Não é a primeira vez que catástrofes ocorrem, nem será a última. Outras virão, assim como outra existiram. Alguém me disse que são quase 40 delas nos últimos 14 anos. Nada, absolutamente nada foi feito para que haja mais prevenção e menos reparação quando elas ocorrem.
No morro do Bumba, em Niterói, as pessoas começam a voltar e a construir barracos nos locais em que podem e parte disto se deve ao fato de ter gente que esperando até hoje a tal verba do auxílio aluguel que nunca chegou. Em Blumenau, baixadas as águas, as pessoas voltaram para suas antigas casas porque nenhuma providência foi tomada e o que ofereciam para aluguel era insuficiente para alugar um barraco nas mesmas áreas de risco.
A Avenida Aricanduva em São Paulo é useira e vezeira nas manchetes de inundação e o que se tem feito?
Agora vem os políticos apresentar um Sistema Nacional de Prevenção de Catástrofes. Vamos examinar alguns detalhes.
Ele não é novo. Já havia sido apresentado em suas linhas gerais logo depois da catástrofe de Santa Catarina. E o que se fez de concreto? Alguém sabe? Os políticos poderão dizer que se comprou um supercomputador para monitorar com mais precisão as condições meteorológicas. E daí? Se os avisos da meteorologia avisando que cairiam chuvas em grande quantidade na região serrana não chegaram à população como agora se sabe, de que vale fazer a previsão se não produz a prevenção? Três prefeitos das cidades mais atingidas fazem um consórcio e o apresentam à mídia? Onde estava o governador que não participou? Onde o ministro? Onde os senadores do estado do Rio? Cadê o Bispo Crivela? Cadê o Lindemberg?
Há que se montar um Sistema de Prevenção monitorando a implementação do que estes políticos dizem na hora da catástrofe. Prometeram o plano, há que se montar um sistema cidadão de acompanhamento, denúncia, cobrança e fiscalização da execução disto que é do interesse de todos.
Há um sentimento de solidariedade para com os que estão sofrendo e muitos se mobilizam para prover água, comida, colchão, material de limpeza, etc. A mídia ajuda nisto. No entanto, não devemos achar que mandando uns litros de água, uns quilos de mantimento, vamos fazer a nossa parte. Fazemos na reparação temporária.
O que realmente vai contar é se, como cidadãos, adotarmos uma atitude de prevenção, de monitoramento, cobrando das autoridades ações preventivas. Há que se entupir as caixas postais de deputados, senadores, ministros, prefeitos e vereadores, cobrando deles ação preventiva. É ligar para estes políticos e exigir atitude deles. É parar quando são vistos na rua ou em espaços públicos e cobrar. É fazer com que a aparição pública deles seja indigesta pelas cobranças cidadãs. É exigir que se pronunciem sobre as ações que fizeram e estão fazendo e monitorar a veracidade da informação.
Proponho um Sistema Nacional de Prevenção da Incompetência Pública.
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DODINHA
Ela já completou cem anos de vida. Eu a conheci há sessenta anos. A nossa amizade tem a minha idade. Morávamos vizinhos e só uma cerca de bambu separava nossas casas. Ambas tinham quintais enormes. Na minha casa, minha mãe e avó plantavam flores que vendiam no dia de finados. No quintal da casa dela havia goiabeira, mangueira, abacateiro, jabuticabeira, café e até oliveira. Era uma chácara dentro da cidade.
Assim que aprendi a gatinhar, fugia para a casa da Dodinha (eu não conseguia pronunciar seu nome, Rosinha) e lá era recebido como Paquito e tinha liberdade para pesquisar o mundo de maneira que não era possível na minha casa. Foi lá que aprendi a subir em árvores e ver a cidade de cima. Era um dos poucos da minha idade que tinha esta visão “de cima”. Lá aprendi certas regras, como, por exemplo, o que podia tocar e o que não podia tocar, o que era diferente da minha casa, que também tinha suas regras, mas relativas a outras coisas. Foi lá que aprendi que uma coisa é minha casa, outra coisa é a casa do outro e que, por mais que sejamos sempre bem acolhidos, sempre será a casa do outro.
Foi lá, vendo o seu Zezinho e a Dodinha lendo jornais todo o santo dia, que aprendi a tomar gosto pelo jornal, ao ponto de haver iniciado meu trabalho em um jornal da cidade e escrever neste de Campinas por onze anos. Foi sentado na cozinha que contemplava uma coleção de latas de mantimentos que tinha uma moça segurando uma lata igual, que tinha uma moça segurando uma lata igual. Sempre me punha a imaginar quando seria a última. Era um exercício de pensar o infinito.
Na Dodinha eu via a mulher corajosa, que montava em cavalos e ia para a fazenda, sempre de botas e revólver na cintura. Exímia atiradora, nunca a vi atirando, mas me lembro que uma vez a ajudei a encontrar o que estava atacando o galinheiro e ela matou o gambá com dois tiros. Para mim, naquela idade, era um ato de extrema coragem.
Ela sempre foi uma mulher forte, de convicções, adiante do seu tempo. Nunca se curvou às dificuldades. Tanto que está com cem anos de vida e tenho passado horas escutando as histórias que conta, dando detalhes e datas de uma forma que eu, com menos idade, não consigo fazer.
Ela, ao lado de minha mãe e esposa, é uma das pessoas que mais me influenciaram na minha vida. Viver e crescer ao seu lado foi uma das grandes benção que tive na vida. Ter a sua casa como refugio foi algo que me marcou profundamente. À Dodinha, minha gratidão porque, além da amizade mais longeva que com ela tenho, ela faz parte da minha vida e família.
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MAGIA
Sei que o tema não é novo nesta minha coluna, vez que já o abordei outras vezes, ao longo destes onze anos. Trata-se da expectativa generalizada que se cria no final de ano de que, à meia noite do dia 31 e zero hora do dia 1º. as coisas mudam e para melhor.
Nada contra a renovação das esperanças, coisa salutar e necessária para vencer barreiras e obstáculos. O que me angustia e até me irrita e ver a quantidade de atitudes mágicas que se assomam, produzindo comportamentos os mais esdrúxulos. Uma comentarista de renome, filha de família de educadores e pastores, comentava hoje na rádio que ela se veste de branco na passagem de ano porque isto lhe dá sorte. A outra respondia que vestiria verde porque necessita de esperança.
Isto me faz recordar a mãe de amigos que tive na adolescência que, em pleno baile de réveillon, mal dadas as badaladas da meia noite, saía ela com uma marmita de lentilha a nos obrigava a comer, porque isto nos daria prosperidade no ano entrante. Pelo tanto de lentilha que comi deste jeito, deveria estar milionário. Mas qual o quê. O gerente do banco anda querendo saber quanto ganho para escrever esta coluna, porque quer que eu aumente os pagamentos mensais da dívida que tenho com a instituição.
Já estive na praia várias vezes na passagem de ano e não vi nada mais antiecológico que o que se faz nas areias durante o réveillon. Velas, taças quebradas, toneladas de flores lançadas ao mar, rojão de todo o tipo soltando fumaça até não se poder mais ver os fogos de artifício, gente bêbada. Tudo em nome de uma felicidade buscada na virada do ano.
Outra coisa que me irrita é que todo o ano é a mesma coisa: uma sucessão infindável de restrospectivas. Na televisão, na rádio, nas revistas, nos jornais. Parece que o mundo para, que se congelam os acontecimentos e todo mundo fica olhando e revendo o que passou. Mais que isto, a Globo, em um arroubo de criatividade, há mais de duas décadas coloca o mesmo cantor cantando as mesmas músicas que ouço desde a adolescência. Parece videotape.
Ainda tem os numerólogos, tarólogos, horoscopistas, astrólogos e tantos outros que a si mesmos se chamam de “videntes”, predizer o que será. Como ninguém tem como conferir e cobrar deles a veracidade ou chute de suas previsões, ano após ano eles desfilam o rosário de suas predições. No ano passado, elas diziam que o Brasil seria Hexacampeão em futebol. Só que ninguém conseguiu enxergar que nem os astros deram conta da teimosia e insensatez do Dunga.
Creio, ensino e faço a avaliação dos meus atos a cada período e fim de ano é um deles. Creio, ensino e renovo minhas esperanças, mesmo nas passagens de ano. Mas daí achar que as coisas vão acontecer milagrosamente, é uma distância enorme. Quem quiser crer na magia, que o creia. Eu prefiro crer no suor, na transpiração, no comprometimento, e, também, na benção de Deus.
Se isto é ser rabugento, a Ione tem razão.
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INICIATIVA
Uma coisa que não tenho ouvido ou lido com frequência sobre o Natal é que ele se trata essencialmente de uma reconciliação. A inimizade que o pecado trouxe e que separou o ser humano de Deus veio abaixo em um processo que se iniciou com o Natal.
Há que se salientar (e isto também não tenho visto suficientemente enfatizado) que a iniciativa para o Advento não teve nenhum concurso humano.
Ele tomou a iniciativa. E o fez quando quis e da forma como quis. No que pese a espera do povo em que um Messias viria, ninguém podia prever, nem determinar cooperativamente a forma como tal se daria. Deus fez do jeito que quis.
Isto mostra que Deus agiu em função da Sua graça. A Sua ação foi imotivada, não em resposta a isto ou aquilo que porventura alguém tenha feito, mas sim em função exclusiva da Sua vontade e amor.
O seu atuar foi inovador, criativo e, ao mesmo tempo, denunciador. Em uma sociedade machista onde as mulheres nem eram contadas como gente, Deus escolhe alguém para ser mãe sem o concurso de um homem. Ainda que vá contra a interpretação majoritária, especialmente a católica, eu não acredito que Maria tenha sido escolhida por ser merecedora, por ser alguém que estava sendo recompensada por suas atitudes ou comportamento. Acredito que era uma jovem tão comum como tantas outras. A única diferença é que nela a graça se manifestou.
Ela teve uma gravides não copular, não participativa do casal. Uma gravides que usou do vaso fraco (mulher, tal como era considerada na época) e desprezou o sexo forte, que se cria senhor e acontecedor das coisas. Não é para menos que José tenha querido fugir quando soube da gravidez inexplicada de sua esposa.
A anunciação não se deu nos palácios, junto aos poderosos. Antes, a graça se manifestou no impensado: um grupo de pastores em uma noite, a quem anjos cantaram as novas: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra para as pessoas ...”
Assim são as reconciliações e os processos de quebrar inimizades, trazer paz, viver em harmonia: alguém deve tomar a iniciativa! E deve fazê-lo mesmo quando as circunstâncias não favoreçam. Deve ser um ato de graça.
Isto se aplica às relações pessoais, profissionais, de gerência e liderança, a quem trabalha com gente, a quem tem a função de pensar no ser humano como um ser em relação com outros.
Que neste Natal a mensagem de reconciliação possa ser vivida neste dia e em todos os demais da vida e que a paz e harmonia sejam emanadas a partir das iniciativas em promover a paz a partir de onde você está e trabalha.
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LEGALMENTE ...
Dia destes estive em um restaurante e serviram caldeirada. Uma cumbuca de barro com toda sorte de frutos do mar, fervendo. Olhei e fiquei pensando quantas vezes somos iguais: um monte de coisas fervendo dentro da gente, frutos de todas as espécies.
Estou assim. Ontem completei sessenta e confesso que fiquei igual a uma caldeirada, fervendo vários sentimentos que se me afloraram.
De gratidão por ter chegado até aqui, mesmo depois de ter passado por dois sustos que me levaram à experiência de proximidade da morte. Um choque com contraste que me deu uma parada cardíaca e uma cirurgia que complicou e que achei que não sairia dela. De gratidão por ter vivido intensamente cada momento da vida, desfrutando das bênçãos. Por ter tido tão variadas experiências e oportunidades que meus netos não vão dizer que repito histórias. Por ter estado no ministério, de várias formas e maneiras, em um compromisso com o outro.
De ansiedade porque, para mim, a vida até os dezoito anos de idade parecia ser uma subida íngreme, demorada. Quando cheguei ao topo, era descida e a sensação que tenho que sou um caminhão carregado de experiências, morro a baixo, na banguela: cada vez com mais velocidade. Muitas vezes me sinto como um avião que está voando, mas que vou tomando consciência de que a gasolina está acabando e que mais cedo ou tarde, dependendo dos ventos e das condições meteorológicas, terei que aterrissar.
De indignação: por força de lei e imposição cultural, de um dia para o outro passo a ser idoso, ainda que não me sinta assim. É verdade que não me sinto um jovem de dezoito anos, mas idoso... Que raios deu na cabeça dos legisladores e dos categorizadores sociais, de que, por ter sessenta, tenho que ser visto como idoso. Pertenço a uma geração em que idoso era sinônimo de rabugice, de ranhetice. Sou da geração que viveu a mudança do paradigma do ranheta para o da melhoridade (eufemismo?).
Mas acho que o que mais me incomoda é que, por força de lei, agora estou em pé de igualdade com grávidas e deficientes. De um dia para o outro, eu que pegava filas nos bancos, posso ser atendido prioritariamente. Nada mudou em mim. Ainda tenho pernas e disposição para enfrentar as filas. Mas a lei parece que acha que da meia noite de um dia para o outro, me tornei inválido. Já rodei um bocado este mundo de meu Deus e não me lembro de haver visto esta jabuticaba de dar ao idoso os privilégios que aqui nos são dados. Não me lembro de estacionamento para idosos nos EUA, China ou Europa. Não me lembro de filas especiais e caixas dedicados a este segmento. Talvez porque ali se preza e se respeita o idoso. Aqui, nem com vaga demarcada respeitam.
A partir de hoje sou legalmente idoso. Sob protestos, mas desfrutando da idade.
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BANCOS E BANCOS
Na minha recente viagem à República Dominicana por algumas vezes tive que ir a uma agência bancária, acompanhando a pessoa que me hospedava. Confesso que fiquei surpreso e não pude deixar de considerar as diferenças entre o que vi e o que sofro.
A agência, de padrão médio no seu tamanho, tinha 14 caixas, com operadores em todos eles. Não havia ninguém na fila, quatro dos operadores estavam atendendo clientes e os outros 10 estavam esperando clientes. Em uma das vezes fiquei mais de duas horas esperando a solução de um problema de transferência internacional de dinheiro e não vi, em nenhum momento, formar-se fila para o atendimento.
Logo que chegamos à agência, meu amigo, um estadounidense, me informou que eu deveria tomar um café na agência, porque era o melhor que ele já havia tomado. Achei que era uma cafeteria interna que cobrava pelo café servido. Qual nada. Era café servido gratuitamente aos clientes.
O estacionamento amplo era gratuito.
Não havia a maldita porta giratória, mentira de detecção de metais existente na grande maioria das agências, que se trava segundo a vontade de um mal treinado segurança. Na verdade as portas giratórias detectam negros e mulheres, quase sem exceção parados e depenados de seus pertences antes que possam entrar.
Um amigo, não dominicano e não cliente do banco, precisava trocar um cheque em dólares para ter algo para gastar em moeda nacional. O banco girou o cheque sob a garantia do gringo que era cliente. E pagaram a cotização corrente, sem taxas ou outras cobranças subreptícias.
A transferência internacional de recursos para que a Conferência se realizasse se deu em menos de uma hora.
Ontem tive que ir a três agências bancárias brasileiras, de três bancos diferentes, dois estatais e um privado. Em todos eles só haviam três ou quatro caixas. Em um deles os três existentes estavam com operadores, mas que, quando perceberam que a fila diminuiu, passaram a fazer outras coisas e não atenderam mais, como se houvesse um número mínimo de clientes que devem ficar na fila, não importa o motivo. Nos outros dois, no que pese haver quatro caixas, em um não havia operador em um deles e no outro faltavam dois. A razão alegada quando perguntei, era que estavam em horário de almoço, no que pese ser este um dos horários de maior quantidade de clientes. Demorei em um deles 35 minutos para ser atendido. No outro, não havia dinheiro no caixa eletrônico dentro da própria agência!!!
Na minha frente havia um correntista tentando sacar um cheque próprio que era de outra agência e não lhe permitiram. Um título vencido só podia ser pago no banco emissor do bloqueto, no que pese a existência do código de barras, uma câmara de compensação de títulos e as instruções sobre multas e juros.
Não havia café, o banheiro, se existe, só um iluminado é quem sabe onde fica, o estacionamento é pago. E quando recebo o extrato, percebo que fui tungado em taxas e tarifas que só um iniciado em siglas e mutretas consegue entender.
Há bancos e bancos. No Brasil eles colocam bancos para a gente esperar sentado. E nós bancamos os maiores lucros da banca internacional.
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CIDADES DE PAZ
Estou aqui na República Dominicana para a Conferência de Igrejas Históricas da Paz, que reúne as três famílias denominacionais de igreja que historicamente tem trabalhado pela paz: a Irmandade, os Quáqueros e os Menonitas.
Gente vinda de 19 países se reuniu aqui naquilo que foi o berço da mal denominada colonização da América, quando em 1492, os espanhóis aqui chegaram e daqui se esparramaram pelo Continente, levando a cruz e a evangelização, e com ela a violência e a exploração.
Nesta terra das Américas muito se fez que atentou contra a paz, nos níveis individuais, familiares, sociais, religiosos. Ouro foi levado aos montes para a Europa e populações inteiras de indígenas foram dizimadas, como o que ocorreu em Cuba e República Dominicana, e outros poucos sobraram em outros países.
Nesta América se teve a primeira nação livre e negra, o Haiti, formada por escravos que haviam sido trazidos para as plantações de cana. Chama atenção o fato de, no que pese o fato de ser a mais antiga nação livre da América e quase totalmente negra, é até o hoje a mais pobre desta América. Não posso deixar de mencionar que sempre achei que esta situação se deve à discriminação racial que se fez e faz em relação a esta nação.
Uma coisa me chamou a atenção: o nível de violência nas cidades latino americanas, os mais altos do mundo. Em parte isto de deve ao tráfico, em parte à corrupção, em parte a uma cultura de violência em que fomos criados e que se perpetua nos meios de comunicação. Mas não poderia deixar de mencionar e ressaltar que também isto se deve à omissão das igrejas que tem pregado um evangelho alienante e alienado, insistindo na salvação das almas e na prosperidade mágica, mas deixando de lado o cerne de que o evangelho é boa nova de paz.
João Driver, teólogo latino americano que tem se notabilizado por sua contribuição sobre a teologia da paz, afirmou aqui nesta Conferência: “se o que pregamos não é o evangelho da paz, não pregamos evangelho algum”. E esta paz não é só a paz com Deus, mas a paz que se estende ao próximo e estabelece novas relações, elimina barreiras, quebra inimizades, perdoa ofensas e dívidas.
Queremos que nossas cidades tenham paz e para tê-la precisamos pregar a paz que o evangelho traz, perdoar e restabelecer relações. Não é uma questão de prosperidade: é uma questão de acabar com a inimizade.
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POR QUE, VOVÔ?
Dia destes sai com meu neto para ir ao mercadinho e andamos pela rua até lá. Ao caminhar, passamos por um local onde pessoas se sentam debaixo de uma árvore para almoçar. No local havia papel, marmitex e garrafa pet jogados ao léu.
Ele ficou indignado e me perguntou: “por que as pessoas sujam o planeta? Será que eles não sabem que isto faz mal para eles e para os outros? Custa muito colocar as coisas no lixo?”
Mal tinha acabado de me perguntar estas coisas, ele pegou a garrafa pet na mão. Eu perguntei o que iria fazer com ela, ao que me respondeu: ”encontrar um lixo para jogar”.
Devo alertar que se trata de uma criança de cinco anos.
O fato me fez refletir e concluir algumas coisas. A primeira delas é que há escolas que estão seriamente empenhadas em ensinar seus alunos a considerar a questão do lixo, da poluição e da ecologia. Graças a Deus ele participa de uma destas escolas.
A segunda é que estes temas não passavam nem ao longe das temáticas que foram abordadas no meu tempo de escola, em nenhum dos graus que cursei, nem mesmo no mais recente, quando do doutorado.
A terceira é que, graças a Deus, há uma nova mentalidade que vem surgindo e ganhando corpo nas novas gerações. Meu neto não é caso isolado. Em muitas oportunidades vi reportagens sobre escolas que estão trabalhando seriamente a temática, crianças que estão crescendo com consciência ecológica, pais conscientes que estão passando isto aos filhos.
A quarta é que há na nova geração uma crítica ao comportamento de adultos que não tem tal consciência. Ele logo perguntou, em tom acusatório, sobre a irresponsabilidade dos que ali fazem seu tempo de descanso diário. Se até a algum tempo os valores que os pais deviam deixar aos seus filhos e netos era a honradez, honestidade e trabalho, hoje, além destas há o cuidado ecológico. As novas gerações, em um tempo não muito no futuro, vão olhar o estrago que estamos fazendo e vão nos acusar de ter destruído o planeta, inviabilizando a vida saudável dele e deles.
Confesso que me arrepia pensar no mundo em que meus netos vão viver quando adultos. Dois estão morando em Beijing, uma das cidades mais poluídas do mundo. É verdade que o governo está tentando fazer algo para reverter o quadro (eu já escrevi sobre isto aqui nesta coluna). Os outros dois estão vivendo em Valinhos, menos poluído. Mas o que será do mundo deles daqui a 20 anos?
Se nossos filhos e netos nos acusarem de irresponsabilidade, a carapuça estará na medida exata da nossa cabeça, porque muito pouco estamos fazendo para minorar o dano.
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terça-feira, 1 de março de 2011
POR QUE, VOVÔ?
Dia destes sai com meu neto para ir ao mercadinho e andamos pela rua até lá. Ao caminhar, passamos por um local onde pessoas se sentam debaixo de uma árvore para almoçar. No local havia papel, marmitex e garrafa pet jogados ao léu.
Ele ficou indignado e me perguntou: “por que as pessoas sujam o planeta? Será que eles não sabem que isto faz mal para eles e para os outros? Custa muito colocar as coisas no lixo?”
Mal tinha acabado de me perguntar estas coisas, ele pegou a garrafa pet na mão. Eu perguntei o que iria fazer com ela, ao que me respondeu: ”encontrar um lixo para jogar”.
Devo alertar que se trata de uma criança de cinco anos.
O fato me fez refletir e concluir algumas coisas. A primeira delas é que há escolas que estão seriamente empenhadas em ensinar seus alunos a considerar a questão do lixo, da poluição e da ecologia. Graças a Deus ele participa de uma destas escolas.
A segunda é que estes temas não passavam nem ao longe das temáticas que foram abordadas no meu tempo de escola, em nenhum dos graus que cursei, nem mesmo no mais recente, quando do doutorado.
A terceira é que, graças a Deus, há uma nova mentalidade que vem surgindo e ganhando corpo nas novas gerações. Meu neto não é caso isolado. Em muitas oportunidades vi reportagens sobre escolas que estão trabalhando seriamente a temática, crianças que estão crescendo com consciência ecológica, pais conscientes que estão passando isto aos filhos.
A quarta é que há na nova geração uma crítica ao comportamento de adultos que não tem tal consciência. Ele logo perguntou, em tom acusatório, sobre a irresponsabilidade dos que ali fazem seu tempo de descanso diário. Se até a algum tempo os valores que os pais deviam deixar aos seus filhos e netos era a honradez, honestidade e trabalho, hoje, além destas há o cuidado ecológico. As novas gerações, em um tempo não muito no futuro, vão olhar o estrago que estamos fazendo e vão nos acusar de ter destruído o planeta, inviabilizando a vida saudável dele e deles.
Confesso que me arrepia pensar no mundo em que meus netos vão viver quando adultos. Dois estão morando em Beijing, uma das cidades mais poluídas do mundo. É verdade que o governo está tentando fazer algo para reverter o quadro (eu já escrevi sobre isto aqui nesta coluna). Os outros dois estão vivendo em Valinhos, menos poluído. Mas o que será do mundo deles daqui a 20 anos?
Se nossos filhos e netos nos acusarem de irresponsabilidade, a carapuça estará na medida exata da nossa cabeça, porque muito pouco estamos fazendo para minorar o dano.
Marcos Inhauser
A DILMA OU A LULA
A eleição da Dilma para a presidência, por suas características e apadrinhamento, impõe a pergunta: o que elegemos? Uma mulher com identidade política própria ou uma versão Lula de saias?
Ao prestar-se atenção às falas do Lula durante o período da campanha, a dúvida permanece e se exacerba, vez que usou frases como: “vou viajar o Brasil e o que eu perceber que não está certo, vou pegar o telefone e dizer prá Dilma – você precisa acertar isto”; “vou colar a faixa presidencial no meu corpo”; “não vou entregar a faixa presidencial à sucessora”. Com estas e outras que poderiam ser aqui elencadas, fica a certeza de que ele terá um longo e doloroso processo de esvaziamento da figura que incorporou como poucos: a de ser o presidente. Ele gostou da coisa e não vai largar assim tão fácil.
O discurso da Dilma logo após a eleição é emblemático e enigmático: emblemático porque procurou se apresentar-se como mulher que conduzirá a nação, mas ao mesmo tempo é conhecida e reconhecida como gerentona, uma característica bastante masculina. Disse que vai dar continuidade à obra iniciada pelo Lula, se emocionou ao agradecer a ele o tempo de trabalho conjunto, exaltou-o ao ponto de o colocar como sábio, e que vai bater à sua porta muitas vezes. Ela assim revela um regime de codependência.
O noticiário, por sua vez, vem dizendo que o Lula já está interferindo na escolha de ministros, sugerindo a permanência do Mantega e Meirelles, e talvez o Haddad. Ela, por sua vez, diz que só comunicará o seu ministério depois de conversar com o presidente, o que significa que ele vai interferir, ou no mínimo participar, do processo de escolha.
Tantos sinais ambíguos geram incertezas e inseguranças, além da tremenda incógnita. Elegemos a Dilma ou a Lula? Só o tempo dirá. Mas um sinal para mim ficou evidente: no seu discurso logo após a eleição ela falava ladeada por homens. A única mulher que ali estava era uma ilustre desconhecida (ao menos para mim). Isto me indica que o governo da Dilma pode até ser presidido por uma mulher, mas ladeado de homens, que certamente terão papel preponderante e marcante no estabelecimento das políticas. Um deles vai coordenar o processo de transição (um que renunciou por causa de um escândalo) e o outro vai negociar com homens, donos dos partidos da coalizão, os nomes para compor os primeiro e segundo escalões e que, com toda certeza serão em sua grande maioria formado de homens.
Assim, a primeira presidente do Brasil, vai ser mais enfeite feminino em um governo masculino.
Marcos Inhauser
DOIS A MAIS OU A MENOS
Nestes dias de campanha eleitoral e profusão de pesquisas, o brasileiro viu incorporar-se ao vocabulário a expressão “margem de erro de dois pontos porcentuais para mais ou para menos”. Na esteira deste jargão pseudocientífico há duas linhas gerais de comportamento. A primeira delas quer nos passar a idéia da cientificidade das pesquisas, a exatidão dos cálculos e da capacidade previsora de tais dados.
Baseados em dados coletados ao longo de anos de pesquisa, tabulados e calculados segundo algoritmos próprios, cada instituto busca a maior exatidão possível, medida pelo diferencial entre os dados levantados e os oriundos das urnas.
Tal exatidão às vezes aparece (considerados os pontos da margem de erro) e outras foge à realidade. Isto, no caso mais recente e evidente, foi a eleição do senador Aloysio Nunes, que estava em terceiro lugar nas pesquisas e veio a ser o mais votado.
De outro lado, há os que veem as pesquisas como meio de manipulação da opinião pública com o objetivo de levar a massa a votar no candidato que mais chances tem de ganhar, uma vez que há em muitos o desejo de “não perder o voto”, como se eleição fosse uma loteria ou campeonato. Para estes há que se considerar que tais pesquisas são contratadas a peso de ouro, cujos contratantes são, via de regra, pessoas ou grupos interessados nos resultados das eleições.
Neste contexto, causa profunda estranheza a recente pesquisa divulgada nesta terça, dando conta que a candidata tem margem de 12 pontos em relação ao concorrente. Tal número destoa de pesquisas feitas por outros institutos e de maneira alarmante, uma vez que, em prazo de dias, a candidata consegue uma margem positiva de 6 a 8 pontos sobre o adversário. A ser verdade, o que teria acontecido de tão significativo que justificasse tal salto? Nada que se tenha notícia.
Na guerra pelo voto, está valendo qualquer coisa. Desde panfleto assinado por bispo católico condenando o aborto e quem tem uma posição minimamente favorável, a pastores Malafala e Wellington Bezerra pedindo votos (de graça que não foi), a demonização das privatizações, alegada incompetência por ter fechado um negócio de 1,99, etc.
Por que não usar também métodos “científicos” para confundir a opinião pública? Que mal há em uma pesquisa com margem de erro fora do padrão? Se mais tarde for comprovada a intenção em apresentar dados não comprovados nas pesquisas, isto não tirará a vitória e diplomação do/a eleita. E assim ficamos, nós os que votamos, como massa de manobra de políticos e marqueteiros inescrupulosos.
Marcos Inhauser
GOVERNO DILCEU
Reveladora e pouco divulgada a fala do Zé Dirceu a sindicalistas na Bahia, quando explicou qual é o propósito do PT em um governo da Dilma. O evento ocorreu no dia 13 de setembro de 2010. Reproduzo alguns trechos.
“A eleição da Dilma é mais importante do que a ... do Lula, porque é a eleição do projeto político, ... a Dilma nos representa. A Dilma não era uma liderança que tinha uma grande expressão popular, eleitoral, uma raiz histórica no país, como o Lula ... ela é a expressão do projeto político, da liderança do Lula e do nosso acúmulo desses 30 anos. ... Se ... queremos aprofundar as mudanças , temos que cuidar do partido e ... cuidar dos movimentos sociais, da organização popular ... da consciência política, da educação política e ... das instituições, fazer (a) reforma política e temos que nos transformar em maioria. Nós temos uma maioria para eleger o presidente até porque fazemos uma aliança ampla... (com 0 ) PC do B, PDT, PSB, PMDB, PT, PRB e PR. ... o Lula é maior que o PT. Eles é que não têm ninguém maior que o partido deles. Ainda bem que nós temos o Lula, que é duas vezes maior que o PT. Mas nós temos que transformar o PT num partido ... O PT tem que se renovar, tem que abrir o PT para a juventude. ... Quem pode ter poder? Primeiro o poder econômico, as forças armadas. As forças armadas estão hoje profissionalizadas, o poder econômico se aliou com qual poder? Com a mídia. E qual é o poder que pode se contrapor ao poder econômico e ao poder da mídia no Brasil? É o poder político, que tem problemas graves de fisiologias, de corrupção, tem desqualificação ... “
O que ele não falou claramente neste discurso é que este PT levou e aparelhou o Estado com petistas e sindicalistas. Ele disse que o PT levou sindicalistas para o governo, mas não disse quantos. Estudo feito pela FGV e publicado pelo GLOBO em junho do ano passado identificou que dos ocupantes de DAS 5 e 6 e de cargos de Natureza Especial (NE), 25,9% desses profissionais eram filiados a partidos políticos, sendo que 80% deles declararam ser do PT. No primeiro mandato de Lula, os filiados eram 24,8%. A pesquisa mostra também que há um grande contingente de profissionais com filiação sindical - 45% no primeiro mandato e 42,8% no segundo.
Se o governo Lula foi do Lula e o da Dilma vai ser do PT, e se o Estado já está lotado de petistas e sindicalistas, o governo Dilma mais Dirceu, o Dilceu, vai aperfeiçoar a obra de transformar o estado num apêndice partidário.
Marcos Inhauser
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